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77 ANOS DE NAKBA: Memória, Voz e a Estrutura da Violência Colonial

77 ANOS DE NAKBA: Memória, Voz e a Estrutura da Violência Colonial

Por Joel Júnior Barros Neves

O Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz (LAI-BL) sediou o evento
“77 anos da Nakba: colonialismo, memória e resistência palestina”, com a participação
de Arlene Clemesha (USP) e Reginaldo Nasser (PUC-SP) no dia 22 de maio de 2025.
A escolha do tema remete ao marco de setenta e sete anos da Nakba, termo árabe que
significa “catástrofe” e designa a expulsão de centenas de milhares de palestinos de
suas terras na Palestina histórica em 1948. Mais do que memória histórica, contudo, a
Nakba permanece como experiência presente, reatualizada a cada nova demolição,
deslocamento forçado ou restrição à vida cotidiana. Foi nesse sentido que os
professores ressaltaram que a catástrofe palestina não deve ser compreendida como
episódio isolado, mas como processo contínuo que estrutura a vida e a resistência do
povo palestino até hoje.

Clemesha reiterou a necessidade de compreender a Nakba para além de 1948:
“a Nakba não se encerra em 1948. A Nakba continua e tornou-se uma nova rotina. […]
Em contextos de colonialismo, apartheid ou limpeza étnica, a catástrofe não é um
evento – é o próprio regime” (Clemesha, 2025). Ao mesmo tempo, chamou atenção
para a dificuldade do povo palestino em construir sua própria narrativa sob condições
de guerra e deslocamento permanentes, o que significa a perda do direito à voz e à
memória. Os argumentos apresentados na palestra dialogam, portanto, com reflexões já
desenvolvidas em entrevistas e artigos, nos quais a continuidade da catástrofe palestina
aparece como chave de interpretação do presente. Nasser, em seu complemento,
enfatizou que o colonialismo de povoamento deve ser pensado não como evento, mas
como estrutura que se funda na eliminação e substituição do nativo (apud Toff,
2025). Ao sublinhar que a criação do Estado de Israel ocorreu sob a legitimidade do
Direito Internacional, sua análise convergiu com estudos prévios em que denuncia a
seletividade e seu caráter ilusório (apud Redação, 2024). Os professores, assim,
articularam uma leitura que associa violência material, apagamento narrativo e
legitimação jurídica como dimensões centrais da Nakba.

Quando Clemesha observa que a Nakba implica também a perda ao direito à
voz e à memória, remete a uma das dimensões mais persistentes do colonialismo, a
expropriação da palavra. Edward Said, em Orientalismo, demonstrou como o Oriente
foi descrito por categorias externas que retiravam dos povos colonizados a capacidade
de falar em seu próprio nome (Said, 2007). No caso palestino, essa operação
discursiva é visível desde 1948, enquanto Israel consolidava sua fundação como
realização do safe haven (“lar seguro”), os palestinos eram reduzidos à condição de
refugiados sem história. A narrativa da segurança israelense tornou-se dominante nos
foros internacionais e nos meios de comunicação, ao passo que a Nakba, experiência de
desterro e violência, foi sistematicamente silenciada. “É muito difícil para o palestino
viver, defender sua terra, sua vida e, ao mesmo tempo, narrar sua história”, afirmou
Clemesha. A reflexão dela, nesse sentido, reencontra a crítica de Said, o
colonizado não apenas é privado de sua terra, mas também da linguagem com a qual
poderia nomear sua perda.

Nessa perspectiva da construção da narrativa palestina e israelense, a professora
pontuou, ainda, a constante mobilização da memória do Holocausto, por Israel, como
um argumento de autodefesa para legitimar o processo de limpeza étnica contra o povo
palestino. Apesar disso, deu enfoque à grande repercussão midiática desde os ataques
de outubro de 2023 sobre o conflito e a vasta possibilidade de transmissão ao vivo
através das redes sociais, o que impactou diretamente numa mudança de paradigma e,
consequentemente, de narrativa por parte do povo palestino. A narrativa israelense de
“autodefesa” perde força conforme o outro lado é transmitido através dos registros dos
crimes contra a humanidade cometidos no decorrer da escalada de violência,
principalmente, desde o final de 2024. A professora afirmou, ainda, que “a guerra de
narrativas já foi vencida”, mas que essa prevalência não se reflete em alterações da
dinâmica das estruturas de poder. De acordo com Clemesha, a “intencionalidade na lei
internacional está dada por pronunciamento de lideranças, e a comunidade
internacional têm dado respostas ineficazes”. Pontuou, ainda, que um embargo militar,
juntamente com uma possível ação dos países do Golfo, seria o que, de fato, poderia
parar a guerra.

A supressão da narrativa palestina também se revela na forma desigual como o
sofrimento é reconhecido. Judith Butler, em Quadros de guerra, argumenta que o luto é
politicamente distribuído, de modo que algumas vidas são representadas como dignas
de comoção, enquanto outras permanecem invisíveis (Butler, 2015). Esse
desequilíbrio é sensível na cobertura midiática do conflito, a morte de civis israelenses
é apresentada como tragédia nacional, ao passo que as mortes palestinas são
frequentemente enquadradas como efeito colateral de uma operação militar. Após os
ataques de 7 de outubro de 2023 e a subsequente ofensiva israelense em Gaza e na
Cisjordânia, marcada por bombardeios indiscriminados e pelo deslocamento forçado de
milhares de pessoas, essa contradição tornou-se ainda mais explícita. As imagens da
destruição e das vítimas palestinas circularam em tempo real pelas redes sociais, mas a
visibilidade da catástrofe não foi acompanhada de uma resposta política proporcional.
O genocídio à vista revela, portanto, o paradoxo entre a hiperexposição da barbárie e a
recusa em reconhecer as vidas palestinas como igualmente choráveis. Foi justamente o
que Clemesha argumentou durante a palestra.

A análise conjunta de Clemesha, Said e Butler demonstra que a Nakba precisa
ser entendida não apenas como expropriação territorial, mas como tentativa de silenciar
um povo em sua própria capacidade de narrar e de ser reconhecido. A violência, nesse
caso, não se limita ao campo físico – os deslocamentos, as demolições, os bombardeios – alcançando também o campo simbólico, em que se disputa quem tem o direito de
contar a história e quem merece ser chorado. O colonialismo, portanto, não age apenas
sobre os corpos e a terra, mas também sobre a memória e a linguagem. Reconhecer
essa dimensão é crucial para compreender a persistência da catástrofe palestina, pois a
continuidade da Nakba não está apenas na ocupação de territórios, mas também na
tentativa sistemática de negar aos palestinos a legitimidade de sua própria voz.

Para Nasser, a colonização israelense não deve ser reduzida a um episódio
histórico, mas entendida como estrutura contínua, marcada pela lógica do colonialismo
de povoamento, cuja base é a eliminação e a substituição do nativo. A concepção
encontra ressonância no pensamento de Frantz Fanon, que descreveu o colonialismo
como uma ordem fundada na violência permanente. Em Os condenados da terra,
Fanon (1961) argumenta que o colonizador não apenas domina o território, mas
reorganiza a geografia social, criando espaços cercados e vigiados que reduzem a vida
do colonizado à condição de precariedade. No caso palestino, essa dinâmica se
manifesta na expansão sistemática de assentamentos, na demolição de casas, nas zonas
de exclusão de Gaza e na fragmentação da Cisjordânia por muros e postos de controle.
A violência não é um acidente, mas o próprio fundamento da ordem colonial, elemento
constitutivo e indispensável à manutenção do sistema.

A leitura de Nasser e Fanon sobre a violência como fundamento da ordem
colonial encontra reforço conceitual em Patrick Wolfe. Para o autor (2006), o
colonialismo de povoamento deve ser compreendido não como um evento isolado, mas
como uma estrutura que se prolonga no tempo. A formulação é central para interpretar
a Nakba como processo contínuo, que se atualiza em práticas voltadas a apagar a
presença palestina: demolições, confiscos de terra, construção de assentamentos e
políticas de segregação territorial. Pensar o colonialismo como estrutura permite
compreender que a violência não se reduz a momentos de guerra aberta, mas se traduz
também em medidas administrativas e jurídicas que, de maneira rotineira, asseguram a
continuidade da lógica de eliminação. No caso palestino, o conceito evidencia que a
Nakba não pertence ao passado, mas à engrenagem cotidiana que molda o espaço e a
vida de milhões.

Se Wolfe mostrou que o colonialismo de povoamento é uma estrutura que se
renova no tempo, a leitura de Achille Mbembe ajuda a compreender como essa
estrutura se traduz na administração da vida e da morte. Em Necropolítica (2003), o
autor descreve como determinados territórios são transformados em zonas de morte
normalizada, onde a violência não aparece como exceção, mas como rotina política. O
conceito ilumina de forma contundente o caso palestino: bloqueios de alimentos e
remédios, cortes de energia, bombardeios recorrentes e o confinamento de milhões em
Gaza configuram um espaço em que a sobrevivência é reduzida ao mínimo e a
possibilidade de extermínio é permanente. A Palestina pode ser lida como um dos
exemplos mais claros de território necropolítico, onde a catástrofe não se limita à
expulsão de 1948, mas se prolonga na transformação cotidiana da vida em mera
sobrevivência.

Ao longo do debate realizado pelo LAI, Clemesha e Nasser ofereceram chaves
fundamentais para compreender os 77 anos da Nakba como processo contínuo de
violência e expropriação. Suas intervenções mostraram que a catástrofe palestina não
pode ser confinada ao passado, pois se manifesta na persistência de deslocamentos, na
demolição de casas, na fragmentação territorial e no silenciamento da própria narrativa
palestina. O diálogo com autores clássicos e contemporâneos reforça essa leitura: Said
e Butler evidenciam a disputa pela palavra e pelo luto; Fanon e Wolfe mostram a
violência como estrutura constitutiva do colonialismo; Mbembe, por fim, atualiza esse
horizonte ao revelar a Palestina como espaço necropolítico, onde a sobrevivência é
administrada sob ameaça permanente. A palestra, portanto, não foi apenas um registro
de memória, mas um convite à reflexão crítica sobre a permanência da Nakba e seus
múltiplos desdobramentos.

Pensar a Nakba hoje significa reconhecer que ela não pertence apenas à história,
mas organiza o presente palestino. A continuidade do colonialismo de povoamento e da
necropolítica evidencia que não se trata apenas de disputas territoriais, mas também de
memória, linguagem e dignidade. Nesse sentido, a análise proposta por Clemesha e
Nasser, em diálogo com o pensamento crítico internacional, mostra-se essencial para
enfrentar os limites da ordem internacional e para recolocar a Palestina no centro do
debate acadêmico e político. Se a catástrofe permanece, é também porque persiste a
tentativa de silenciar sua narrativa. Romper esse silêncio e dar voz à experiência
palestina é parte do desafio de construir um pensamento crítico capaz de nomear e
resistir à violência colonial que se prolonga até hoje.

Referências


BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2015.
CLEMESHA, Arlene. Al-Nakba, 77 anos: o que é, afinal, uma catástrofe? Blog da
Boitempo
, São Paulo, 15 maio 2025. Disponível em:
https://www.boitempoeditorial.com.br/blog/2025/05/15/al-nakba-77-anos-o-que-e-afinal-uma-catastrofe/. Acesso em: 7 set. 2025.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1961.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. Revista Arte & Ensaios, n. 23, p. 123-151, 2003.
RADOSH, Allis; RADOSH, Ronald. A Safe Haven: Harry S. Truman and the Founding of
Israel
. New York: Harper, 2009.
REDAÇÃO. “Ilusão”: Se Israel não segue resoluções, para que serve a ONU? Jornal GGN,
29 mar. 2024. Disponível em:
https://noticiabrasil.net.br/20240328/ilusao-se-israel-nao-segue-resolucoes-para-que-serve-a
onu-33806637.html
. Acesso em: 8 set. 2025
SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia
das Letras, 2007.
TOFF, Lucas. Israel não é uma democracia, é um Estado colonial, diz Reginaldo Nasser.
Vermelho, 30 maio 2025. Atualizado em 2 jun. 2025. Disponível em:
https://vermelho.org.br/2025/05/30/israel-nao-e-uma-democracia-e-um-estado-colonial-diz-re
ginaldo-nasser
. Acesso em: 8 set. 2025
WOLFE, Patrick. Settler colonialism and the elimination of the native. Journal of Genocide
Research, v. 8, n. 4, p. 387-409, 2006.

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    Fundado por alunos de Relações Internacionais da USP, somos um grupo de extensão que tem como missão promover a pesquisa e a extensão universitária na área de Relações Internacionais.

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