10 anos de Brexit: O Papel da Mídia no Fomento do Anti-Intelectualismo
Por Alice Jasmin
Brexit: um Panorama Geral
As origens da União Europeia remetem ao processo de integração política e econômica concebido como estratégia para restabelecer a paz no continente após a desastrosa Segunda Guerra Mundial. Atualmente, a organização é um símbolo do multilateralismo e da cooperação internacional, tendo como objetivo representar de forma conjunta e unificada os interesses estratégicos de todo o bloco. Entretanto, o crescimento da ideologia política do euroceticismo tem ameaçado a integridade desse projeto.
Cooptado por partidos populistas de extrema direita, o discurso eurocético tem como característica um sentimento nacionalista radical, que considera necessário ir contra a estrutura burocrática da União Europeia para proteger a soberania estatal. Foi nesse cenário que o Partido UKIP (United Kingdom Independence Party) ascendeu como um dos principais defensores do Brexit, abreviação para “British exit”, ou seja, a saída do Reino Unido da UE. Esse movimento foi estimulado por retóricas xenofóbicas anti-imigração e por um desejo patriótico de resgatar a autonomia e a glória do que outrora fora o grandioso Império Britânico, mas que no tempo presente representa uma potência decadente.
Diante dessas agitações, no dia 23 de junho de 2016, um referendo foi realizado para decidir se a Grã-Bretanha deveria permanecer na União Europeia ou deixar o bloco. Na votação popular convocada pelo então primeiro-ministro David Cameron – que renunciou após a divulgação dos resultados –, a posição favorável ao “Leave” foi vitoriosa com 51,9% dos votos, tornando o país o primeiro a deixar a UE desde sua criação.

O eixo temático do presente artigo concentra-se na análise da propaganda veiculada tanto pela direita conservadora quanto pela extrema direita para angariar eleitores. A campanha do Brexit – dividida em dois principais grupos: o Vote Leave de Boris Johnson e o Leave.EU de Nigel Farage – inaugurou uma nova realidade, na qual as fake news emergiram como instrumentos para manipular resultados de eleições, configurando um prelúdio para a escalada de Donald Trump ao seu primeiro mandato presidencial, também em 2016. O episódio suscitou discussões sobre a proteção de dados no ambiente virtual e a responsabilidade ética da publicidade política, que permeia desde o monopólio informativo da imprensa tradicional até a descentralização comunicativa das redes sociais. Nesse sentido, o caso do Brexit é exemplar para a compreensão do poder da mídia na formação de opinião pública.
Vale acrescentar que, apesar de sua aprovação há dez anos, a saída britânica da União Europeia só foi ocorrer definitivamente a partir de 1º de janeiro de 2021, após um longo “período de transição” que teve o propósito de alinhar os interesses de Downing Street e de Bruxelas. Aspectos logísticos e tarifários, exigências alfandegárias e regulamentos precisaram ser renegociados através do chamado Acordo de Retirada.
No panorama atual, o “Leave” é considerado em larga escala como um projeto deficitário, responsável por prejuízos financeiros ao Reino Unido. De acordo com o Office for Budget Responsibility (OBR), o custo econômico do Brexit a longo prazo é estimado em 4% do PIB britânico. Segundo o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, o processo foi um erro “colossal” – tendo o político comparado-o à amputação de uma perna sem necessidade. Na perspectiva insular, apesar de o primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer ter buscado uma aproximação diplomática com a União Europeia, um retorno ao status de membro do bloco europeu definitivamente não está na pauta, mesmo que 62% dos britânicos considerem que o Brexit foi um fracasso, segundo pesquisa realizada pela organização de análise de dados YouGov.
A Grande Mídia
Ao ser entrevistado pelo New York Times em 2017, Tony Gallagher – na época editor do tabloide The Sun, um dos mais ferrenhos apoiadores do Brexit – afirmou: “É um fato que jornais impressos nacionais ainda definem os assuntos aqui muito mais efetivamente do que a televisão e o rádio, que são essencialmente veículos reativos”. Esse postulado encontra certo respaldo empírico, visto que a mídia impressa britânica é considerada um veículo tradicional e confiável, sobretudo pela população mais velha.
O perfil dos leitores do The Sun é similar ao da maioria dos eleitores do “Leave”: trabalhadores de mais de 50 anos que, em sua maioria, moram no interior da Inglaterra. Para Gallagher, os jornais sem dúvida alimentaram o entusiasmo conservador, mas “a ideia de que podemos de alguma maneira arrastar os leitores contra a sua vontade a assumirem pontos de vista que eles não teriam de outra maneira é delirante”, disse o escritor. Contudo, os periódicos britânicos se tornaram famosos pela distorção de fatos e pelo fomento da polarização, apoiando-se em retóricas xenofóbicas e posicionando-se a favor de um suposto restabelecimento da soberania nacional. Segundo pesquisa da Universidade Loughborough, cerca de 80% dos artigos que compuseram a cobertura impressa do referendo eram favoráveis à saída da União Europeia.
O próprio The Sun foi motivo de polêmicas envolvendo fake news quando publicou uma manchete sugerindo que a rainha Elizabeth II apoiava o Brexit. O artigo foi veementemente criticado pelo próprio Palácio de Buckingham, que reiterou a neutralidade política da monarca.

O jornal Daily Express também buscou representar-se publicamente como um dos embaixadores do Brexit. Para seus colunistas, a autonomia do Reino Unido estava profundamente atrelada ao combate dos movimentos migratórios. Manchetes de claro cunho xenófobo, como: “Trabalhadores são demitidos por serem britânicos” e “Imigrantes roubam empregos de jovens britânicos” contribuíram para a consolidação de posturas outrora inaceitáveis como legítimas no imaginário público.

Além da propagação de preconceitos e notícias falsas, a edição tendenciosa de dados foi uma estratégia da gazeta para manipular seus leitores. A capa abaixo apresenta os resultados de uma pesquisa organizada por dois membros conservadores do parlamento e um candidato parlamentar, cuja amostragem abrangeu apenas três bairros de Northamptonshire. A manchete foi concebida de forma que o leitor interprete o resultado como abrangente a todo o país, quando na realidade pesquisas da época apontavam cerca de 36% a 48% da população como apoiadores do “Leave”, segundo as organizações Opinium, Survation e YouGov.

Atualmente, o Daily Express é um crítico voraz de Keir Starmer e de sua política de reaproximação com a União Europeia. O primeiro-ministro britânico é retratado como um líder instável e incapaz de governar sob a pressão constante da oposição conservadora. Esse posicionamento é compartilhado pelo tabloide The Daily Telegraph, outra empresa destaque na campanha pró-Brexit. O periódico considera seu impacto nos resultados do referendo como parte de sua missão no “enfrentamento da elite pré-estabelecida, a fim de refletir e impulsionar a perspectiva da silenciosa maioria”. Seu editorial considerou a separação da UE como “o nascimento de um novo Reino Unido”.
Em contrapartida, o veículo de imprensa The Guardian destacou-se pelo posicionamento crítico quanto ao “Leave” e seus desdobramentos. Artigos com títulos provocadores, como “A votação está feita, agora temos que enfrentar as consequências” e “Brexit: um desastre em construção”, enfatizam as dificuldades de lidar com os desafios impostos pela ruptura com a Europa, como a renúncia do ex-primeiro-ministro David Cameron, o desejo de separatismo da Escócia e o abalo de mercados financeiros pelo mundo. Segundo o jornal, tais percalços “começam a remodelar o futuro do Reino Unido de maneira profunda e potencialmente perigosa”. Ademais, suas matérias buscaram destacar os processos “da negligência econômica e da alienação social que conduziram o Reino Unido em direção à porta de saída”.

Além dos jornais britânicos The Mail e The Times, esse viés argumentativo também foi compartilhado por grande parte da imprensa europeia. Na Alemanha, a gazeta Die Zeit, acusou os populistas britânicos de “influenciar, com ameaças e mentiras, a decisão dos eleitores”, e defendeu que “diante de uma questão tão complexa, não deveria ter-se realizado um referendo”. Na Espanha, o periódico El País postulou que o Brexit “envolve consequências extremamente prejudiciais para todos os atores, para a política e para a economia, e para a esperança de melhorar e completar o projeto comum”. Na França, o jornal Le Monde critica a União Europeia e sua incompetência em impedir a fragmentação não somente do bloco, mas do projeto político do continente. Segundo esse raciocínio, o referendo “desafia algo muito maior do que o futuro das relações entre Reino Unido e Europa”, e a UE precisa de “um exame de consciência e fazer um balanço do que funciona e do que não funciona”, visando evitar “continuar a se desintegrar, com ou sem nossos amigos britânicos”.
A Era da Pós- Verdade
Todo ano, o Dicionário Oxford escolhe uma palavra para definir as tendências que repercutiram social e culturalmente nesse período. Refletindo a geopolítica de 2016, marcada pela ascensão de movimentos de direita no Ocidente – que culminaram no Brexit em junho e na eleição do primeiro mandato de Trump em novembro –, a escolha do ano foi “pós-verdade”. Segundo o Dicionário, o adjetivo é “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal”. Casper Grathwohl – principal porta-voz da iniciativa – enxerga a possibilidade do conceito se tornar “uma das palavras que definem nosso tempo”.
O termo foi empregado pela primeira vez pelo jornalista Steve Tesich, em 1992, no contexto estadunidense posterior à renúncia de Richard Nixon e aos desdobramentos da Guerra do Vietnã. Segundo o autor, depois de tantas tragédias, a população americana tinha tamanha repulsa a más notícias que, ao invés de manter-se informada, preferia consumir a “pós-verdade”, isto é, informações que – independentemente de sua veracidade – reafirmassem suas concepções pré-estabelecidas.
Após ficar adormecida por décadas, a expressão voltou a ser utilizada para caracterizar não apenas um mundo no qual as pessoas acreditam em falácias, mas um mundo no qual as pessoas optam deliberadamente por enredos falsos que estejam em conformidade com seus valores.
Mariana Barbosa, autora do livro “Pós-verdade e fake news – Reflexões sobre a guerra de narrativas”, frisa o caráter intencional dessas notícias. A incorrespondência com a realidade transcende o simples erro e configura um recurso proposital – embalado em formato jornalístico – para convencer ou reforçar determinada ideologia. De acordo com a escritora, a crença em mentiras relaciona-se ao chamado “viés confirmatório”, processo cognitivo que reage seletivamente, preferindo dados que confirmem o que já se crê.
Extrapolando os limites da imprensa tradicional, essa problemática abrange principalmente as plataformas digitais, cujo modus operandi traz consigo desafios próprios. Os algoritmos de compartilhamento das redes sociais foram elaborados justamente para manter o indivíduo navegando continuamente. Sob essa ótica, o que inicialmente era uma estratégia comercial para aumentar o tempo de tela dos usuários, tornou-se uma ferramenta que além de promover conteúdos tendenciosos, também mantém os internautas isolados em bolhas, onde consomem posts padronizados sob um mesmo viés ideológico: as chamadas câmaras de eco.
O abandono do pensamento crítico emite um alarme para o declínio do diálogo e debate democrático, e desse movimento, surge espaço para o fortalecimento de discursos populistas. De acordo com o Dicionário Oxford, de 2015 para 2016, a frequência de uso da palavra pós-verdade aumentou em cerca de 2000%, o que reflete a ascensão das mídias sociais como fonte de notícias e propagandas da direita radical, tanto no Reino Unido como nos EUA.
Fiona Hill, diretora do Centro dos Estados Unidos e Europa da Brookings Institution, think tank residente em Washington, identificou uma convergência entre a demografia eleitoral do “Leave” e a de Donald Trump: ambas exprimem posicionamentos antiglobalização, antiestablishment – também chamado de anti-elitismo ou anti-intelectualismo, representa uma exaltação da ignorância e uma repulsa a formalidades consideradas ultrapassadas – e anti-imigração. Essas condutas redirecionam a insatisfação popular com o quadro econômico ou social para um inimigo extremamente abrangente, como o sistema. O perigo está em definir o que exatamente, para um político de extrema direita, rege o status quo. Ora a burocracia, ora a oposição – frequentemente os imigrantes – tornam-se alvos de ataques que por fim atingem um único pilar: a confiança nas instituições democráticas.
Segundo o jornal El País, o próprio Donald Trump pronunciou-se após a votação do Brexit, dizendo sentir um “grande paralelismo” entre a vitória da saída britânica e o seu próprio avanço eleitoral. “As pessoas querem ter o seu país de volta, querem ter independência”, acrescentou. “Haverá muito mais casos em que as pessoas quererão recompor as suas fronteiras, elas querem sua moeda de volta, querem várias coisas, querem ser capazes novamente de ter um país”.
Escândalo Cambridge Analytica e Facebook
A crise digital que envolveu a Cambridge Analytica e o Facebook exemplifica exemplifica a lógica corporativista que segue lucrando com a desinformação pública. No dia 27 de março de 2018, Christopher Wylie, jovem canadense de 28 anos, veio a público para expor um vazamento de informações digitais sem precedentes. O ex-diretor de pesquisa da Cambridge Analytica (CA) denunciou, por meio de entrevistas publicadas em diversos jornais europeus, que a empresa de análise de dados violou cláusulas de privacidade do Facebook para traçar o perfil psicográfico de internautas. Detalhes pessoais – como nome, profissão, local de moradia, hábitos e preferências – de mais de 50 milhões de usuários foram sistematizados para veicular propagandas eleitorais populistas. Wylie repassou às autoridades britânicas e americanas um dossiê de evidências repleto de e-mails, mensagens de voz, contratos e transferências bancárias.

A firma trabalhou junto com o time responsável pela campanha presidencial de Donald Trump em 2016. O ex-vice-presidente da CA, Steve Bannon, também foi estrategista-chefe do republicano durante seu primeiro ano de mandato. Em depoimento ao Parlamento britânico, Wylie afirmou que a AggregateIQ – empresa canadense relacionada à Cambridge Analytica – criou um software, chamado Ripon, para identificar eleitores de Trump.
No Reino Unido, o delator associou a atuação da corporação ao grupo “Leave.EU”, comandado principalmente pelo político de direita radical Nigel Farage. Ele ainda acusou a campanha de investir cerca de 700 mil euros – muito mais do que o permitido pela legislação da Grã-Bretanha – em coleta de dados e em publicidade política. Esse dinheiro teria sido repassado à AggregateIQ. Em uma entrevista publicada pelo jornal El País, Wylie afirmou que o Brexit não teria ocorrido sem a intervenção da CA.
Na visão do canadense, o enfoque da empresa não era somente garantir determinado resultado nas eleições. A missão da Cambridge Analytica era moldar a mentalidade das massas. Para Wylie, a empresa deveria ser responsabilizada pela construção do que na época denominou “direita alternativa”, e que hoje conhecemos por extrema direita. Tratava-se de um projeto de desenvolvimento gradual, não de uma campanha pontual.
O marketing eleitoral focou sobretudo em cooptar grupos indecisos ou propensos a abstenção de voto. O chamado microtargeting permitia identificar esses cidadãos virtuais e direcionar a eles mensagens personalizadas, com maior probabilidade de convencê-los. “Fornecer a informação certa à pessoa certa, no momento certo, é mais importante do que nunca”, afirmava uma propaganda da Cambridge Analytica.
Os dados utilizados nessas estratégias foram obtidos através do aplicativo “thisisyourdigitallife”, desenvolvido pelo pesquisador Aleksandr Kogan, o qual pagou milhares de pessoas para realizar um teste de personalidade e fornecer de modo consensual suas pegadas digitais. Entretanto, o site também armazenou informações privadas dos amigos do Facebook desses indivíduos, formando um amplo banco de registros posteriormente comprado pela Cambridge Analytica.

Segundo a rede social, Kogan obteve acesso a essas credenciais virtuais de modo legítimo e por canais legais, apesar de ter desrespeitado as diretrizes do Facebook ao comercializar – para fins lucrativos e publicitários – informações que deveriam manter-se restritas à melhoria da experiência de usuários.
O Gabinete da Comissária de Informação do Reino Unido (CGI) investigou durante três anos o caso. Foram analisados 42 computadores, 700 terabytes de dados, 31 servidores e mais de 300 mil documentos. A conclusão foi de que não foram encontradas evidências suficientes de que a Cambridge Analytica praticou violações legais no contexto da votação do Brexit, e de que seu envolvimento esteve restrito a negociações iniciais com o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP). Contudo, Elizabeth Denham, à frente do GCI, ressaltou que a proteção de dados da firma era negligente e “com pouca consideração quanto a medidas de segurança eficazes”. Ainda segundo a especialista, “as atividades da empresa acabaram levantando preocupações profundas sobre a influência da tecnologia na política”, e confirmaram sua “conclusão anterior de que existem vulnerabilidades sistêmicas em nossos sistemas democráticos”.
No desenrolar dos demais julgamentos e investigações, diversas organizações foram processadas e devidamente responsabilizadas. A campanha Leave.EU foi multada em 15 mil libras pela veiculação de emails importunos para indivíduos que haviam cedido seu contato para a companhia de seguros Eldon Insurance, gerida pelo empresário pró-Brexit Arron Banks.
O grupo de Boris Johnson, Vote Leave, foi multado em 40 mil libras pelo envio de quase 200 mil mensagens eleitorais não solicitadas. O estrategista Dominic Cummings, responsável pela articulação desse projeto, é o protagonista do filme “Brexit: The Uncivil War”, estrelado por Benedict Cumberbatch. O longa – baseado em depoimentos reais com alguns elementos fictícios – retrata os bastidores do marketing eleitoral, reproduzindo a infame promessa estampada no clássico ônibus vermelho de dois andares, que garantia (sem fontes concretas) uma economia de 350 milhões de libras por semana com a saída União Europeia, que poderiam ser investidos no sistema de saúde britânico.

Já o Facebook, em 2019 assinou um acordo no valor de 5 bilhões de dólares com a Comissão Federal de Comércio dos EUA sobre a violação de privacidade dos internautas, e um acordo de 100 milhões de dólares com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA sobre alegações de que enganou os investidores sobre os riscos de uso indevido de dados. Em 2022, a Meta aceitou pagar 725 milhões de dólares para encerrar uma ação coletiva de longa data que a acusava de permitir que a Cambridge Analytica e outros terceiros obtivessem acesso a informações privadas.
Era da Pós-Vergonha
Sob a ótica do jornalista brasileiro Marcelo Soares, a era da pós-vergonha é uma consequência natural da normalização da pós-verdade. Desde 20 de janeiro de 2025 – quando, durante a posse do segundo mandato de Trump, Elon Musk faz uma saudação nazista – adentramos esse novo período da humanidade virtual, marcado pela aceleração da propagação de fake news, disseminação da Inteligência Artificial generativa e pela proeminência das redes sociais como canais de comunicação.
Segundo o especialista, a pós-vergonha é um conceito novo pois extrapola até mesmo a banalização de mentiras. Ele abrange principalmente a aceitação do absurdo. Preconceitos são praticados livremente por figuras públicas e políticas – e sem reprimendas efetivas. Não há mais o medo de ser cancelado, o discurso de ódio tornou-se uma ferramenta política.
No Reino Unido, Nigel Farage emerge como representante dessa mudança de pensamento. Fundador do partido Reform UK, ele afirma romper com a alegada dicotomia das eleições britânicas, disputadas entre o Partido Trabalhista e o Partido dos Conservadores. Tal posicionamento desconsidera o predomínio de discursos neoliberais no panorama político da região, presentes até mesmo em partidos que historicamente eram de esquerda, como o Trabalhista, mas que com o passar dos anos se afastaram dessa corrente de pensamento. A busca por uma suposta terceira via tem se tornado cada vez mais radical e agressiva. O parlamentar defende deportações em massa e inflama um discurso xenofóbico condizente com suas atividades pró-Brexit, na corrente Leave.EU.
Nas eleições locais de maio de 2026 – nas quais a população escolheu os ocupantes de mais de 5 mil cadeiras em câmaras regionais da Inglaterra, prefeitos ingleses e integrantes dos parlamentos da Escócia e do País de Gales – o Reform UK teve uma vitória expressiva, desbancando absurdamente o número de posições ocupadas pelos partidos costumeiros. Enquanto Farage comemorou o que chama de “mudança verdadeiramente histórica na política britânica”, o primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer lamentou a derrota opressiva: “isso dói, e deve doer, e eu assumo a responsabilidade”.

Menos de dois anos após sua eleição, nessa segunda-feira (22/06), Starmer renunciou ao seu cargo. A decisão foi principalmente um resultado das pressões internas de seu próprio partido, que reconhece a necessidade de ter um líder forte na disputa contra o Reform UK. O próximo primeiro-ministro deverá ser escolhido pelos Trabalhistas, entre 9 e 16 de julho. A expectativa é de que a transição seja efetuada até o final do recesso do Parlamento, em setembro. Nessa cena, Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, emerge como possível sucessor, aparentemente ainda sem adversários.
Segundo o especialista político Tim Bale, da Universidade Queen Mary, os cidadãos mais velhos “sentem-se desconfortáveis com muitas das mudanças sociais das últimas décadas, particularmente com o advento de uma Grã-Bretanha progressivamente mais multicultural e socialmente mais liberal”. Esse é um terreno fértil para o crescimento da direita populista, embaixadora digital da era da pós-vergonha.
Quando as universidades e a imprensa tradicional são deslegitimadas pelo extremismo e tachadas de inimigas da liberdade de expressão, o posto de mediar informações é ocupado pelas redes sociais: consolidando o império das big techs. A pós-vergonha representa o ápice dos fóruns de internet – nos quais cresce o movimento misógino redpill – e da cultura dos influenciadores. O conteúdo tornou-se uma commodity cognitiva, a qual aparenta ser isenta das regras que costumavam reger o convívio presencial. Para garantir que as mídias digitais não sejam tratadas como um universo paralelo – no qual as leis e os direitos humanos não têm valor concreto – autoridades ao redor de todo o mundo têm trabalhado dobrado para garantir que a internet não se transforme em uma “terra sem lei”.
Na União Europeia, a Lei dos Serviços Digitais (DSA, sigla para Digital Services Act) entrou em vigor em novembro de 2022 com esse propósito. No seu escopo está a proteção de crianças e a preocupação com a integridade de processos eleitorais. Para garantir que o que é ilegal na realidade também seja ilegal em sua projeção online, as medidas restritivas europeias incluem atenção a questões de violência de gênero, saúde pública, bem-estar mental, liberdade de expressão e direitos do consumidor. Big techs podem ser multadas em até 6% de seu faturamento mundial em casos de violação ao DSA, e em contextos extremos podem até mesmo ser proibidas de operar dentro da UE.
Em dezembro de 2025, Donald Trump aplicou sanções contra autoridades europeias que atuavam na regulamentação das big techs, considerada pelo republicano uma forma de “censura extraterritorial”. Em contrapartida, representantes da União Europeia se negaram a recuar. O avanço pioneiro do bloco se tornou referência global para a criação de normas que combatam a desinformação online e resistam a sanções intervencionistas americanas.
O Reino Unido, apesar de não estar incluído nessa legislação, tem seu próprio mecanismo de proteção digital: a Online Safety Bill, aprovada em outubro de 2023. O foco principal do projeto é combater a pornografia infantil e preservar a saúde mental de crianças e adolescentes. A iniciativa também visa frear a disseminação de fake news. As companhias que não cumprirem suas imposições podem receber multas de até 18 milhões de libras ou até 10% de seu respectivo faturamento.
A trajetória da extrema-direita britânica na consolidação do Brexit emite um alerta para toda a comunidade internacional quanto ao papel da mídia no fomento da polarização política. Como demonstrado, na Grã-Bretanha, os reflexos da movimentação da imprensa tradicional e dos fóruns digitais até hoje ditam padrões eleitorais e sociais.
A emergência do populismo está longe de ser uma questão local: é uma problemática global que merece a devida atenção das autoridades e da população geral. Marcelo Soares, jornalista citado anteriormente, ao refletir sobre o contexto atual, compartilhou: “A principal habilidade que precisamos desenvolver na era da pós-vergonha é a sabedoria para discernir entre o que é engano, o que é desconhecimento, o que é burrice e o que é mau-caráter. E agir de acordo”. Que esse seja um mantra para a construção de cidadania digital comprometida com o combate de discursos de ódio e da desinformação.
Referências
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