Perspectivas #03 A Evolução das Relações EUA -China sob uma Perspectiva Realista
Por Beatriz Ayroza e Ester Kodaira
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
John J. Mearsheimer é professor de Ciência Política na Universidade de Chicago e teórico de Relações Internacionais, especializado na perspectiva realista. No artigo “The Inevitable Rivalry – America, China, and the Tragedy of Great-Power Politics”, publicado na revista Foreign Affairs em dezembro de 2021, ele analisa as relações comerciais e políticas entre China e Estados Unidos (EUA) desde o fim da Guerra Fria, buscando compreender como a política externa estadunidense influenciou o cenário atual de competição e desequilíbrio de poder entre as duas potências. Nesse texto, iremos fazer uma exposição dos argumentos que o autor apresenta no artigo, e a conclusão que ele encontra sobre o que direcionou a relação sino-americana à situação que ela se encontra atualmente, além de como administrá-la nos dias de hoje.
O autor inicia seu artigo apresentando um contexto histórico das relações político-econômicas entre a China e os Estados Unidos a partir dos anos 70. De acordo com ele, após a deterioração das relações sino-soviéticas durante a Guerra Fria, os EUA teriam se aproximado economicamente do gigante asiático, julgando que o estremecimento das relações da China com a União Soviética (URSS) pudesse possibilitar a entrada chinesa no bloco ocidental. Tal abertura econômica entre ambos perdurou no pós-guerra, com o apoio estadunidense e ampla relação comercial com a então maior potência da época, sendo essencial para o crescimento exponencial e extremamente veloz da China na transição do século XX para o XXI.
A partir disso, Mearsheimer, utilizando-se da perspectiva baseada em uma vertente teórica do campo de Relações Internacionais chamada realismo, indica que tal desenvolvimento econômico, político e militar chinês representou uma ameaça à hegemonia e interesses americanos e, portanto, um desequilíbrio na distribuição de poder vigente. Isso teria colocado em cheque a dinâmica geopolítica unipolar, ou seja, a dominância absoluta estadunidense sob a política global pelo fato de ser a maior potência do período pós Guerra Fria.
Tal processo, de acordo com o autor, tornaria o conflito entre as duas potências inevitável, visto que, para os pensadores realistas, um desequilíbrio de poder necessariamente significa uma disputa por hegemonia e áreas de influência entre ambos os atores, com muitos acadêmicos considerando a competição atual entre China e Estados Unidos como indicativo de uma segunda Guerra Fria. Tal visão se dá pelo fato da China ser o primeiro país a ameaçar a hegemonia estadunidense desde a URSS , o que abre espaço para o questionamento: como os EUA lida e lidará com essa nova concorrência? Como o crescimento chinês ameaça os interesses estadunidenses e o que os EUA farão em resposta? Estaríamos no auge de uma Guerra Fria ou nos primórdios de uma disputa bélica direta? Essas são perguntas que, de acordo com Mearsheimer, só serão respondidas com o tempo. Porém, o que se pode concluir com o desenrolar das relações sino-americanas, é que ela deixou de ser uma relação amistosa de parceria e se transformou em uma competição direta pelo domínio político econômico da ordem mundial – agora, basta esperar para entender como essa competição irá se manifestar de forma prática e impactar as decisões de política externa de cada potência ao longo dos anos.
Essa perspectiva está alinhada com o que Mearsheimer apresenta em seu outro livro “The Tragedy of Great Power Politics”, no qual o autor argumenta que grandes potências são destinadas a competir. Desta forma, era impossível que os EUA continuassem com seu auxílio e colaboração com os chineses, já que não se trata mais de um Estado aliado e parceiro e sim um concorrente direto que deve ter seu crescimento restringido. Por isso, a análise de Mearsheimer de uma rivalidade inevitável é válida: a parceria China e EUA sempre esteve destinada a acabar, pois não podem haver duas potências dominantes para sempre em um estado de estabilidade – alguém deve prevalecer. Isso ocorre devido à existência de um sistema internacional anárquico – ou seja, um sistema no qual não há a presença de nenhum órgão supranacional para controlar ou punir os Estados – que faz com que o único modo de nações poderosas garantirem sua segurança e prosperidade é assegurar que nenhuma outra potência exerça poder sob sua área de influência, levando a disputas, rivalidades e conflitos entre elas.
Para comprovar essa lógica, o artigo utiliza como exemplo a própria política externa estadunidense, que, desde que o país se tornou uma grande potência, visa manter a sua hegemonia e influência no ocidente e expandi-la globalmente. Isso é evidenciado pelo autor ao demonstrar que, no século XX, os EUA entraram em estado de conflito e competição quando alguma potência ameaçava sua dominância, como demonstrado nos seguintes casos: Alemanha (1ª Guerra); Japão Imperial; Alemanha Nazista e URSS. Durante o início do século XX, a Alemanha começou a ameaçar o poder industrial e comercial estadunidense, levando ambos se confrontaren na 1ª Guerra Mundial.
Já os interesses expansionistas do Japão Imperial durante os anos 30 ameaçaram a dominância dos EUA no Oceano Pacífico – o que, somado a busca por dominação da Alemanha Nazista na Europa que enfraquecia aliados americanos, resultou na entrada estadunidense na 2ª Guerra Mundial. Por fim, o fortalecimento da URSS tanto militarmente quanto em relação à sua influência na Europa Oriental fez com que ambas potências da época se enfrentassem indiretamente em diversas guerras de procuração, como foi o caso de Ogaden e Vietnã. Mearsheimer argumenta que a mesma lógica também se aplica à China de Xi Jinping, à medida que a mesma cresce e busca expandir sua influência e hegemonia, de forma que gera conflitos por poder e área de influências entre as duas potências.
Apesar do autor apresentar a visão de que atualmente o conflito é inevitável, ele alega que tal situação poderia ter sido contida e atrasada pelos Estados Unidos, caso o país tivesse adotado, após a Guerra Fria, uma política externa centrada no realismo. O autor argumenta que, desde o fim do século XX, já havia indícios de que a China tinha grande potencial de se tornar uma grande potência econômica e militar, devido a sua população expressiva e os planos de reforma econômica e comercial. Os realistas acreditam que os EUA falharam em não perceber ou dar a devida importância para o potencial de crescimento chinês, e como isso poderia ameaçar a hegemonia norte-americana caso não fosse controlado.
Assim, Mearsheimer conclui que a política externa ideal no pós-Guerra Fria teria sido a de diminuir relações econômicas e trocas tecnológicas com a China, e buscar reduzir ao máximo a adesão do país asiático no mercado global – de modo à conter o crescimento econômico chinês ao invés de incentivá-lo. O autor alega que isso teria atrasado significativamente o crescimento da China, de forma que o desbalanço de poder e a consequente disputa pela hegemonia global teria ocorrido muitas décadas no futuro, com os EUA tendo perdido uma chance de prolongar sua hegemonia unipolar absoluta ao não adotarem uma política externa mais rígida e baseada nos fundamentos do realismo em suas relações com a China no pós-Guerra Fria.
Ao invés disso, os Estados Unidos, guiados por um sentimento de triunfalismo liberal após a vitória na Guerra Fria, decidiram seguir uma política baseada na abertura de mercados e fortalecimento de uma economia internacional capitalista. Isso era incentivado como forma de desenvolver economicamente países emergentes, visto que os estadunidenses acreditavam que tal desenvolvimento inevitavelmente os transformaria em democracias liberais aliadas e submissas aos Estados Unidos. Assim, o incentivo econômico à China foi uma política amplamente apoiada pela população, mídia e acadêmicos estadunidenses na época e propagada por governos republicanos e democratas. Eles acreditavam que o desenvolvimento da economia chinesa por meio de uma lógica de mercado faria com que os moldes e interesses do governo chinês se adaptassem às exigências dos EUA, tornando o país um aliado essencial no continente asiático e ampliando a esfera de influência estadunidense.
Porém, essa previsão não se provou verdadeira: o crescimento chinês não necessariamente acarretou a alteração das formas de governo ou interesses políticos do país, de modo a inserir em uma posição de submissão aos EUA – como era previsto pela potência estadunidense. Na verdade, o crescimento chinês permitiu que a China fosse em busca de uma hegemonia, de acordo com a lógica proposta pela visão realista. Desta forma, o artigo argumenta que o pensamento estratégico americano de auxiliar a China em seu desenvolvimento econômico se voltou contra os próprios EUA, já que a política externa liberal, que visava ampliar o domínio e esfera de influência do país, resultou na criação de seu maior competidor que seria responsável por colocar em risco a hegemonia que os Estados Unidos estavam buscando ampliar.
Mearsheimer argumenta que a política de engajamento dos Estados Unidos com a China não cumpriu o que prometia. A aposta de que o crescimento econômico chinês resultaria em sua democratização e em uma postura mais cooperativa dentro da ordem liberal internacional não se concretizou. Pelo contrário, a China manteve seu regime autoritário e utilizou o desenvolvimento econômico para ampliar seu poder político e militar. Para o autor, essa consequência era previsível sob a lógica realista: quando um país cresce e aumenta sua capacidade de poder, tende a buscar maior influência no sistema internacional, o que acaba gerando tensões com a potência dominante.
Diante desse cenário, a política externa norte-americana começou a mudar sobretudo a partir de 2017, quando o governo Trump passou a adotar medidas de contenção mais explícitas contra Pequim, impondo barreiras tecnológicas, reforçando alianças estratégicas na Ásia e contestando as ações chinesas no Mar do Sul da China. O governo Biden manteve esse caminho, sinalizando que a rivalidade entre as duas potências não é fruto de decisões circunstanciais, mas um reflexo do novo equilíbrio de poder global. Mearsheimer chama esse processo de “segunda Guerra Fria” e alerta que a tendência é de que essa competição se intensifique.
Embora compare a atual rivalidade sino-americana à Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, o autor aponta diferenças importantes. A China possui uma base populacional e econômica muito maior do que a soviética e, se mantiver seu ritmo de crescimento, pode alcançar vantagem significativa sobre os EUA nas próximas décadas. Além disso, Pequim não carrega o peso de manter aliados problemáticos, o que lhe confere maior liberdade de ação no cenário internacional.
Outro elemento essencial é o nacionalismo chinês, fortemente ancorado na narrativa da “humilhação do século”, período entre as Guerras do Ópio (1839-1860) e a fundação da República Popular da China em 1949, marcado por invasões estrangeiras e perda de soberania nacional. Essa memória coletiva é central para o nacionalismo contemporâneo chinês, pois sustenta a ideia de que o país precisa restaurar sua grandeza e evitar novas submissões externas. Nesse sentido, o governo chinês utiliza essa narrativa para legitimar internamente políticas externas mais assertivas, apresentando suas ações – especialmente em Taiwan e no Mar do Sul da China, como parte de um processo histórico de “reconquista da dignidade nacional”.
Mearsheimer observa que, diferentemente da Guerra Fria original, a atual disputa é mais suscetível a conflitos limitados e localizados na Ásia, o que aumenta o risco de confrontos militares diretos e até de escaladas nucleares caso uma das partes sofra grandes perdas. Para ele, o confronto entre uma potência estabelecida (os EUA) e uma potência ascendente (a China) é estruturalmente inevitável, não no sentido de uma guerra declarada, mas de uma competição permanente por segurança e influência. O sistema internacional, anárquico por natureza, incentiva a busca incessante por poder, e o crescimento da capacidade chinesa tende a gerar desconfiança e contenção por parte dos EUA. Trata-se, portanto, de uma rivalidade difícil de evitar, que só pode ser administrada para minimizar os riscos de guerra em larga escala.
Em síntese, Mearsheimer argumenta que a atual rivalidade entre China e Estados Unidos não resulta de decisões isoladas de governos, mas de uma dinâmica estrutural do sistema internacional. A política de engajamento norte-americana, em vez de integrar a China à ordem liberal, acabou fortalecendo seu principal competidor e acelerando a transição para um cenário de maior competição estratégica. O desafio, agora, é administrar essa rivalidade de forma responsável, evitando que ela escale para um conflito direto e, ao mesmo tempo, preservando a posição de poder americana. Em outras palavras, não se trata mais de impedir o crescimento chinês, mas de lidar com suas consequências de modo a minimizar os riscos de uma guerra aberta.
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