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A Geopolítica do Irã: Paradoxo ou Encruzilhada?

A Geopolítica do Irã: Paradoxo ou Encruzilhada?

Por Lara Belezia

Foi Apenas um Acidente?

No dia 22 de janeiro, foram anunciados os indicados ao Oscar 2026. Dentre as obras listadas, estava presente o filme iraniano “Foi apenas um acidente”, dirigido por Jafar Panahi. Menos de duas semanas depois, o roteirista do longa, Mehdi Mahmoudian, foi preso pelas autoridades em Teerã, após ter sido acusado, junto a um grupo de 16 pessoas, de assinar uma declaração condenando o aiatolá Ali Khamenei e a repressão que vem ganhando espaço no país. 

Gravado inteiramente no Irã de maneira clandestina, o filme retrata a história de Vahid, um ex-preso político e mecânico, que recebe em sua oficina um homem que ele acredita ser seu torturador. Na tentativa de confirmar a identidade do sujeito, Vahid e seus ex-companheiros de cela vivem dilemas morais enquanto enfrentam traumas do passado, o medo e a injustiça. A produção, indicada ao Oscar deste ano nas categorias de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Internacional, aborda a repressão estatal que assola o Irã  e coloca-se aos olhos de críticos do cinema internacional como uma forma de resistência silenciosa ao atual regime.

Diante desse cenário, a prisão do roteirista foi anunciada como um reflexo da repressão sofrida pelo povo iraniano e da crise interna vivida atualmente pela República Islâmica, que foi instituída com a Revolução Iraniana de 1979. Ainda assim, o Irã se coloca como uma peça chave no xadrez geopolítico atual em meio a um cenário turbulento.

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Cena do filme iraniano “Foi apenas um acidente”, de Jafar Panahi – Fonte: G1.

Potência regional e um dos gigantes do petróleo no Oriente Médio, o Irã mantém uma posição de rival geopolítico histórico dos Estados Unidos, além de ter se envolvido de forma cada vez mais direta no conflito entre Israel e a Palestina nos últimos tempos. Para além disso, uma das maiores ondas de protestos contra o governo teocrático irrompeu no país no final de 2025, ampliando ainda mais a crise interna sofrida pela nação iraniana. 

Todas essas frentes distintas da política, da economia e das relações exteriores do país podem parecer desconexas à primeira vista. No entanto, elas estão entrelaçadas, e são responsáveis por inserir o Irã em sua atual posição no quadro das relações internacionais. 

O Bispo ou a Rainha do Oriente Médio?

Para entender o papel do Irã como um fator chave nas relações internacionais, é preciso analisar mais de perto seu lugar como potência regional no Oriente Médio. 

Devido ao seu histórico de inconstância ou mesmo de repulsa em relação aos ideais estrangeiros, o Irã sempre esteve à beira da globalização, mas nunca aceitou por completo que sua nação pendesse de vez para esse lado da balança. Nesse sentido, os iranianos buscaram a modernização por outras vias, sempre mantendo um pé atrás quanto ao apoio de empresas multinacionais à economia de seu país, em especial após a Revolução Iraniana de 1979, que deu poder ao atual aiatolá (título concedido ao líder religioso xiita da mais alta posição hierárquica na teocracia iraniana). Assim, é difícil colocar o Irã como uma potência regional convencional, pois suas especificidades sociopolíticas e culturais e, sobretudo, seu isolamento após constantes ameaças de guerra e de embargos econômicos tornaram o país um poderoso e complexo quebra-cabeça no âmbito geopolítico. 

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Instalações petrolíferas off shore no Irã – Fonte: Portal Lubes Newsletter.

Diante desse contexto, o primeiro aspecto crucial da política iraniana que nos faz entender sua relevância regional é a expansão de seu programa nuclear. Iniciado em meados dos anos 50, com apoio dos Estados Unidos, o programa nuclear iraniano veio através de uma proposta pacífica de promover energia a países do Oriente Médio e da Europa. Durante o governo do xá (título monárquico iraniano) Reza Pahlavi, os americanos enviaram recursos para o desenvolvimento de tecnologia de manipulação nuclear, para a construção de reatores e mesmo para o financiamento de pesquisas na área de ciência nuclear. 

Atualmente, o Irã mantém instalações profundas para extração e enriquecimento de urânio em grandes quantidades, tendo desenvolvido capacidades tecnológicas consideráveis no ramo mesmo com a suspensão temporária do programa após a Revolução de 1979. Dentre suas principais instalações de enriquecimento de urânio estão Natanz e Fordow, essa última tendo sido alvo de ataques americanos em junho de 2025, os quais comprometeram diretamente o programa nuclear do país.

Os objetivos do governo iraniano com a expansão do programa envolvem a busca por autonomia energética, já que o país, embora seja considerado uma potência no ramo, sofre pela escassez de gás natural, recurso do qual tornou-se extremamente dependente ao longo dos anos. Ainda que possua grandes reservas de gás, o consumo do recurso fóssil no país supera sua capacidade de produção. Esse paradoxo energético é reflexo de anos de má administração dos recursos naturais do país, o qual priorizou o desvio de tais recursos essenciais para a manutenção de alianças políticas regionais em detrimento dos investimentos em infraestrutura. Tal conjuntura acabou por conduzir o Irã da posição de um grande exportador para um importador de energia.

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Mapa das principais instalações nucleares iranianas – Fonte: Fox News.

Paralelamente, essa expansão no programa aumentou ainda mais as alegações do ocidente de que o Irã estaria, na realidade, interessado em violar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), do qual o país é signatário desde 1970. Essas alegações geraram atritos crescentes na últimas décadas, sobretudo devido ao receio de que tal ampliação, que chegou a mais de 400 kg de urânio enriquecido a 60% em seu estoque, estaria relacionada ao desejo do país de produzir uma bomba atômica. No entanto, especialistas acreditam que tal previsão está longe de se concretizar. 

Não obstante a abundância de recursos fósseis em seu território, que inserem o Irã entre os três países com as maiores reservas de petróleo do mundo, o país do Oriente Médio também possui uma localização geográfica estratégica. A nação iraniana está localizada próximo ao chamado Estreito de Ormuz, uma das rotas comerciais marítimas mais importantes do mundo. O canal  presente em Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Mar da Arábia, separando Irã e Omã por apenas 33 km em sua parte mais estreita. Para além de sua proximidade com a região, o controle do canal é garantido ao Irã pelas normas das Nações Unidas, as quais permitem aos países exercer controle de até 12 milhas náuticas (cerca de 22,2 km) a partir de sua costa. Dessa forma, o canal do Estreito de Ormuz e suas rotas de navegação encontram-se em sua maioria dentro das águas territoriais do Irã.

Tal vantagem geográfica concede aos iranianos o controle de boa parte de um dos mercados globais mais lucrativos. Isso porque, através de Ormuz, é transportado cerca de um quinto de toda a produção de petróleo mundial, que sai dos países do Oriente Médio em direção a Ásia, Europa e América. Isso inclui o petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e a maior parte do gás natural liquefeito produzido no Catar. Apenas a Arábia Saudita exporta cerca de 6 milhões de barris de petróleo bruto por dia através do estreito. Dessa maneira, a posse da região garante ao Irã uma posição de extrema relevância no cenário regional, visto que boa parte dos países da Península Arábica dependem de exportações energéticas para sua subsistência econômica, a qual seria diretamente ameaçada em caso de uma interrupção da via marítima. 

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Mapa Estreito de Ormuz – Fonte: Valor Econômico.

Atritos relacionados a um possível fechamento do canal em Ormuz já tomaram forma no passado. No fim dos anos 80, durante a guerra entre o Iraque e o Irã, a chamada “guerra dos petroleiros” preocupou lideranças globais após ameaças iranianas de interromper as atividades do canal, e os consecutivos ataques americanos e mesmo iraquianos a embarcações petroleiras para pressionar o governo iraniano a voltar atrás. Todavia, nos dias de hoje, a interrupção da passagem se faz improvável, devido, sobretudo, a pressões econômicas da China, a maior compradora do petróleo iraniano, que teria seus negócios prejudicados em caso de um aumento generalizado nos preços dos barris. Ainda assim, o Estreito de Ormuz não foi o único alvo dos olhares internacionais quando as disputas entre Israel e Irã intensificaram-se em junho do ano passado. 

Os ataques de 13 de junho de 2025 foram considerados por muitos analistas como sem precedentes. As relações entre Israel e Irã sempre foram conturbadas. Ambos considerados grandes potências regionais, mas com diferenças político-estruturais e ideológicas marcantes. Em primeiro plano, vale notar que a república teocrática iraniana não reconhece oficialmente a legitimidade do governo de Israel. Diante disso, os dois países encontram-se a tempos em uma disputa constante pela hegemonia no Oriente Médio, a qual intensificou-se com a “guerra nas sombras” travada entre os dois países. Sabotagens e boicotes, assassinatos e ataques cibernéticos. A guerra fria entre as duas nações caracterizou sua relação durante décadas, mas sofreu uma mudança brusca recentemente. 

Na metade do ano passado, Israel atacou o Irã com uma chuva de mísseis de longo alcance, causando sérios danos a infraestruturas iranianas, em especial em Teerã, capital do país. O Irã retaliou a ofensiva israelita, dando início a um dos primeiros conflitos diretos declarados abertamente entre os dois países. 

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Netanyahu com o desenho de uma bomba exibido na Assembleia da ONU em 2012 – Fonte: O Globo.

Desse modo, Israel colocou a ameaça nuclear como um dos principais motivos de sua ofensiva ao Irã. Segundo o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, o avanço do programa nuclear no Irã, que o tornou capaz de enriquecer urânio com 60% de pureza, deixa o país um passo mais perto de atingir o nível necessário para fabricação de armas nucleares. Também segundo Netanyahu, caso o país atingisse a capacidade técnica para produzir urânio a 90%, poderia fabricar cerca de nove bombas nucleares. A nação israelita também ordenou o assassinato de nove cientistas nucleares iranianos, demonstrando que suas preocupações com a ameaça nuclear representada por seus vizinhos aumentaram exponencialmente nas vésperas dos ataques. 

Não obstante a tais preocupações, ao analisarmos o contexto de forma mais ampla, é possível perceber que a rixa entre os dois países possui raízes puramente geopolíticas. A presença constante do Irã na Síria durante o governo de Bashar Al-Assad e a intenção de manutenção de boas relações entre os países mesmo após a queda do líder sírio, desgastaram ainda mais a relação entre o Irã e Israel. Além disso, o apoio concedido a grupos armados como o Hezbollah (Líbano) e o Hamas (Palestina), e a minorias como os Houthis (Iêmen), aumentaram e muito o descontentamento de Israel com o governo dos aiatolás. Assim, embora nunca tenha feito parte ativamente na guerra entre Israel e a Palestina, mesmo antes dos ataques de 2025, o Irã vem atuando a tempos nas sombras, financiando grupos associados ao chamado “Eixo de Resistência” em inúmeros países aliados. 

A disputa do governo iraniano pela hegemonia regional, no entanto, não se limita à guerra silenciosa travada com Israel, mas também se difunde na rivalidade da nação com a Arábia Saudita. As razões para as desavenças entre o país de maioria xiita e o outro majoritariamente sunita vão além de suas diferenças políticas e ideológicas, abrangendo também sua disputa econômica no mercado petrolífero. Ainda assim, ambos buscam atualmente uma aproximação cautelosa, mediada sobretudo pela China. 

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Irã e Arábia Saudita retomam relações após sete anos de rixa, mediadas pela China – Fonte: Folha.

Portanto, os interesses regionais do Irã o colocam em um cenário geopolítico complexo. Ainda que seu isolamento diplomático e comercial tenha sido quebrado em 2015, com a assinatura de um tratado sobre a questão nuclear, o país ainda enfrenta dilemas internos e disputas externas que fragilizam sua posição como uma potência regional. Com uma política de caráter extremamente intervencionista, o país revela-se um componente chave das dinâmicas de poder atuais no Oriente Médio. A guerra de Israel contra o país, suas disputas por hegemonia com a Arábia Saudita e seu apoio a milícias e minorias do “Eixo de Resistência” ameaçam cada vez mais a já fragilizada estabilidade na região. Ainda assim, as lideranças iranianas aparentam ter maior facilidade em negociar com agentes internacionais do que com sua própria população.

Repressão ou Força? A Encruzilhada Iraniana

Nas últimas semanas, os holofotes da mídia internacional voltaram-se para o Irã após a eclosão de protestos que iniciaram-se graças ao descontentamento da população com a crise econômica e com o regime autoritário, o qual vigora no país desde o final da década de 70. Entretanto, para entender o que levou o povo iraniano às ruas dessa vez, é preciso relembrar o histórico de revoltas dentro do país. 

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Protestos em Teerã, capital do Irã – Fonte: UOL.

Sob o governo de um regime monárquico, o Irã vivia uma certa abertura econômica e democrática gradual. O xá Reza Pahlevi apoiou desde o início uma aproximação cada vez maior com o Ocidente, afirmando que o país deveria libertar-se das amarras do passado e construir um projeto para o futuro. O líder apoiou reformas, concedeu o sufrágio universal, investiu em indústrias e nacionalizou boa parte dos recursos naturais do país. No entanto, mesmo com tais medidas liberais, o Irã atravessava uma crise interna evidente: fome, desemprego, desigualdade social e, sobretudo, uma repressão crescente a atos contra o regime. 

Foi nesse contexto que uma coalizão que reunia estudantes, religiosos, conservadores, nacionalistas e setores operários urbanos passou a se manifestar contra a monarquia do xá. A onda de protestos se espalhou pelo país, ganhando nuances econômicas com uma greve dos setores energéticos e petrolíferos, o que abalou profundamente a maior fonte de receita do governo e paralisou a economia iraniana. Dessa forma, os protestos tornaram-se mais violentos, e a repressão mais gritante. Mais de 160 pessoas foram mortas em um confronto entre o exército e manifestantes, nas ruas de Teerã, episódio que ficou conhecido como “Sexta-feira negra do Irã”.

Diante desse cenário, a figura de um líder religioso da frente conservadora surgiu mais forte que nunca, conquistando a população com um discurso anti-imperialista e anti-opressor, que buscava ressaltar os valores tradicionais iranianos. O aiatolá Khomeini ganhou a simpatia do povo, e tornou-se a autoridade máxima do Irã, ocupando simultaneamente os cargos de chefe de Estado, líder religioso, político e militar. O novo regime foi apoiado por cerca de 99% da população, surgindo então a República Islâmica do Irã. Desse modo, é possível perceber que o histórico de revoltas no país não é recente. Mas também não parou após a Revolução de 1979.

Quer saber mais sobre a Revolução Iraniana de 1979? Então acesse laibl.com.br.

Desde o início dos anos 2000, o Irã vivenciou inúmeros protestos, em sua maioria pacíficos, que foram reprimidos de maneira violenta. O Movimento Verde, em 2009, contra a fraude eleitoral e a corrupção. O movimento estudantil, desencadeado pela morte de um estudante, em seu dormitório, após esse ter protestado contra o fechamento de um jornal reformista em Teerã. Manifestações contra o aumento do preço dos combustíveis, em 2019. Mas essa foi apenas a ponta do iceberg.

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Protestos no Irã em 2022 – Fonte: Folha UOL.

Em 2022, a jovem curda de 22 anos, Jina Mahsa Amini, foi morta sob a custódia das autoridades após ter sido presa por usar seu hijab de forma “inadequada”. O caso levou milhares de pessoas às ruas em solidariedade e indignação. O que começou com manifestações contra a brutalidade policial e o uso obrigatório do véu islâmico, escalonou para a maior onda de protestos já vista até então, desde a queda do xá Reza Pahlevi. Assim, o movimento ganhou um significado político claro. 

“Mulher, Vida, Liberdade”. Sob o manto de um lema tão poderoso, mulheres queimaram seus hijabs e cortaram seus cabelos. Estudantes organizaram greves. Cidadãos iranianos como um todo passaram dias e noites nas ruas, não apenas em memória a Mahsa, mas em repúdio à repressão estatal e a discriminação de gênero, clamando também por suas liberdades básicas, as quais eram corriqueiramente reprimidas. O movimento ultrapassou as barreiras nacionais e ganhou visibilidade em outros países,  que testemunharam o povo iraniano abalar mais uma vez as bases de seu regime opressor, configurando uma das maiores ameaças internas ao governo do aiatolá Khamenei até então. Não obstante ao caráter internacional e mesmo midiático do movimento, o governo usou de medidas brutais para reprimir os protestos, deixando ao menos 500 mortos, dentre os quais 68 eram crianças, segundo dados da ONG IHR (Iran Human Rights).

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Centenas de mulheres juntaram-se aos protestos, queimando seus véus e cortando seus cabelos em plena luz do dia – Fonte G1.

Foi frente a esse histórico que, em dezembro de 2025, alguns comerciantes, donos de bazares em Teerã, entraram em greve em resposta à instabilidade econômica do país devido à disparidade do rial iraniano em relação ao dólar americano. A inflação foi tamanha que os preços chegaram a variar de 20% a 30% por dia, e o rial iraniano caiu, chegando a 1,5 milhão por dólar. Todavia, o que começou com uma greve motivada pela crise econômica do país, logo alastrou-se para uma onda de protestos incomparável contra o “ditador”, aiatolá Khamenei. 

Diante disso, não foram apenas as redes sociais que reforçaram as manifestações recentes. O apoio do ex-xá iraniano, Reza Pahlevi, em seu exílio, ao movimento parece ter corroborado para o crescimento dos protestos. Especialistas acreditam que o suporte de uma figura da oposição conhecida traz a lembrança de que existe uma alternativa concebível ao atual regime opressor, mas que isso não significa que os manifestantes apoiam a ideia de um retorno à monarquia. 

Apesar do caráter inédito das proporções dos protestos, que continuam até hoje no país, a repressão também segue firme, como uma sombra incapaz de deixar o povo iraniano. O governo tem usado da NOPO (Força Especial Contra-Terrorismo), uma unidade de policia de elite do Irã, para reprimir o movimento. Devido ao uso de métodos questionáveis para a contenção de manifestantes, mais de seis mil pessoas foram mortas de forma violenta e a tensão militar aumenta a resposta sangrenta do governo às manifestações. Mas a repressão perpetrada pelo regime iraniano atual também atravessa as fronteiras nacionais.

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NOPO (Força Especial Contra-Terrorismo) durante a repressão de protestos – Fonte: Isto É.

As autoridades frequentemente rotulam dissidentes e opositores como terroristas, e privam muitos dos devidos trâmites legais, além de usarem tal classificação como justificativa para violência desenfreada. A repressão transnacional, embora difícil de ser detectada e por muitos não reconhecida, também é uma prática adotada pelo governo para permanecer no poder. Deportações e extradições ilegais, assassinatos e controle de mobilidade, além de centenas de prisões por oposição ao regime. Esse caráter autocrático da teocracia iraniana pode ser observado também pelos trâmites eleitorais do país, que corroboram para uma diminuição sistemática dos índices democráticos do Irã. 

Em 2024, o Irã realizou suas mais recentes eleições legislativas, que contaram com apenas 41% de participação da população. As eleições para o parlamento (majlis) possuem candidatos que devem ser previamente aprovados por um conselho de confiança do aiatolá, o que praticamente elimina a competição e o pluralismo político dos processos eleitorais. Desse modo, os índices de democracia do país também encontram-se em baixíssimas posições. Segundo o Democracy Index, da The Economist, o Irã ocupa a 153ª posição, em uma lista de 167 países. O índice baseia-se em categorias como processo eleitoral, participação política, liberdades civis, pluralismo político e funcionamento de governo. Além disso, outro estudo da Universidade de Würzburg, publicado na Democracy Matrix, classificou o país como uma autocracia, com um índice democrático de 0,25 (total: 1,0). Nesse sentido, a repressão violenta às manifestações no país apenas corroboram para tais resultados estatísticos, que provam a situação delicada na qual o Irã se encontra.

Em uma entrevista ao jornal O Globo, a especialista iraniana Sarah Bazoobandi, da Universidade de Kiel, na Alemanha, afirmou que esse não será o último episódio, mas certamente colocará o regime no Irã à beira de um colapso, como uma bomba-relógio. Não se sabe quando ela vai explodir, mas certamente vai. 

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Protestantes em estrada – Fonte: O Globo.

A repercussão internacional dos protestos gerou reação de algumas das grandes potências, no entanto, o Irã manteve sua mão fechada e explorou outros métodos de repressão aos olhos da mídia mundial. Os EUA anunciaram, no começo de janeiro, sanções contra diversos funcionários do governo iraniano, dentre eles, o Ministro do Interior, e declararam total apoio aos manifestantes, ameaçando possíveis ações militares em caso de uma maior repressão por parte do regime. Não obstante às intimidações dos norte-americanos, as autoridades em Teerã detiveram Mehdi Mahmoudian, roteirista do filme “Foi apenas um acidente”, indicado ao Oscar de 2026. O roteirista foi preso após ter sido acusado de assinar uma declaração contra o regime do aiatolá Khamenei. Entretanto, fica evidente a tentativa do governo de demonstrar sua insatisfação com as gravações, já que a obra traz uma dura crítica ao regime opressor dos aiatolás, sem medo de expor a repressão às liberdades que ocorre em plena luz do dia. 

Apesar de o regime não deixar transparecer receio algum, os protestos recentes também serviram como prova de que a repressão é a melhor forma de um regime fragilizado demonstrar força. 

Relações com os EUA  

Os ataques coordenados de Israel e, sobretudo, dos EUA em junho do ano passado, demonstraram a fraqueza do regime dos aiatolás. Duas semanas após a troca de mísseis entre o Irã e Israel, os EUA lançaram um ataque às instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan, utilizando tecnologia anti-bunkers de alta precisão. Como resultado, o programa nuclear iraniano foi fortemente abalado e mais de 900 pessoas foram mortas, segundo a Human Rights Activists New Agency (HRANA). Apesar de um cessar-fogo ter sido anunciado pelo presidente americano, Donald Trump, as tensões não se acalmaram por completo.

No dia 27 de janeiro de 2026, uma frota de porta-aviões USS Abraham Lincoln e de destróieres com mísseis guiados aproximou-se do Oriente Médio, como uma forma de preparação para uma possível resposta militar americana às repressões dos protestos. Tal movimentação dá aos norte-americanos a capacidade de atacar novamente o Irã, ainda que o país se mostre disposto a retaliar, com o apoio de ao menos duas milícias armadas de países vizinhos. Contudo, as relações bilaterais entre os EUA  e o Irã apresentam mais camadas do que aparentam. 

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Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica – Fonte: BBC.

O histórico das tensões entre os dois países data de bem antes de sua atual guerra de sanções. Durante o governo pró-ocidente do xá Reza Pahlevi, as duas nações aproximaram-se, e o Irã havia se tornado uma marionete dos EUA. A monarquia concedeu aos americanos uma influência considerável no Oriente Médio, e acesso ao petróleo do país de forma quase irrestrita, por meio de acordos e consórcios entre os dois países. Entretanto, a Revolução de 1979 opôs o governo estadunidense ao então aiatolá Khomeini, o “grande satanás”, como ficou conhecido pelos americanos. Mas as relações entre os dois países deterioraram-se de maneira profunda apenas com a tomada da embaixada americana em Teerã naquele mesmo ano.

Em um dos maiores incidentes diplomáticos da história das duas nações, um grupo de manifestantes manteve como reféns diplomatas e outros cidadãos americanos que estavam no prédio. O cerco à embaixada durou mais de 1 ano. Seis americanos conseguiram fugir se fazendo passar por uma equipe de cineastas, mas os outros 52 reféns foram libertados apenas em janeiro de 1981. Após esse episódio, os EUA cortaram relações diplomáticas com o Irã, e declararam o país um patrocinador do terorismo, iniciando uma série de sanções econômicas ao longo da década de 1990. A situação chegou a um ponto insustentável no início dos anos 2000. Mesmo antes de o governo americano ter decidido apoiar Saddam Hussein, ditador iraquiano, na guerra entre Irã e Iraque, o regime dos aiatolás já encontrava-se em um ponto crítico, no qual as sanções americanas passaram a afetar seriamente a economia do país. 

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A cena faz parte do filme “Argo”, de 2012, dirigido por Ben Affleck, o qual retrata a história dos seis americanos que fugiram do cerco à embaixada em Teerã se passando por cineastas – Fonte: Cinema.

A rivalidade seguiu seu curso, até que, em 2015, um acordo nuclear foi assinado entre o Irã e grandes potências mundiais, como os EUA, a China, a Rússia, o Reino Unido, a Alemanha e a França. O Irã se comprometeu a interromper seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções, mas o acordo durou apenas três anos, pois foi logo rompido pelo presidente Donald Trump em maio de 2018. Todavia, segundo especialistas, o maior motivo por trás das hostilidades entre os dois países sempre foram as sanções, que multiplicam-se a cada ano. Ao menos até agora.

Diante desse cenário, fica a pergunta que não quer calar: os EUA irão atacar o Irã novamente?

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À esquerda, o líder iraniano, aiatolá Khamenei, e à direita, o presidente americano, Donald Trump – Fonte: Gazeta do Povo.

Nas últimas semanas, os americanos deixaram alguns indícios militares de que estariam programando um possível ataque ao Irã, declarando não apenas o apoio aos manifestantes como também à queda do regime do aiatolá Khamenei. Os porta-aviões, que continham inúmeros caças F-35 (aviões de alta tecnologia invisíveis a captação de radares), foram mobilizados no Estreito de Omã, próximo o suficiente da costa iraniana mas sem entrar em suas águas nacionais ou no Estreito de Ormuz. Para além disso, os americanos instalaram novas defesas antiaéreas em suas bases militares localizadas na região do Golfo Pérsico, em países como Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, nos quais a superpotência também possui cerca de 50 mil soldados. 

Assim, um ataque americano seria, sem sombra de dúvida, preciso e devastador, mas não exatamente decisivo para a continuidade do regime autoritário vigente no Irã. Restaria aos americanos analisar a efetividade de uma ofensiva no momento atual, já que é improvável que “apenas” um ataque derrube o governo opressor. Seria necessário quebrar o regime por dentro, através de um alinhamento de fatores internos, como um fortalecimento da oposição e uma ruptura com a elite iraniana remanescente. No entanto, ainda que a insatisfação com o governo do aiatolá Khamenei cresça a cada dia, um alinhamento das lideranças de oposição parece distante no cenário de crise interna e protestos sucessivos atuais.

Para além disso, uma guerra extensa travada contra uma potência do Oriente Médio seria extremamente custoso para os americanos. Não obstante a crise econômica, é notável a capacidade militar iraniana. Além de um avançado sistema de defesa antiaérea e uma marinha estrategicamente posicionada, o país conta com a presença da Guarda Revolucionária, uma unidade de elite das forças aéreas iranianas com habilidades técnicas formada por mais de 150 mil soldados. Por fim, o país possui um extenso arsenal de drones e de mísseis guiados, que consegue repor com relativa facilidade e rapidez. Ainda que não comparável à tecnologia de guerra americana, tais capacidades e domínio da máquina de guerra gerariam altos custos para o governo Trump caso os EUA decidissem atacar o país.

E mesmo se os americanos decidissem pelo ataque, não seria tão “fácil” quanto foi na Venezuela. Especialistas afirmam que, não obstante às ameaças realizadas por Trump aos iranianos e aos indícios militares expostos, uma intervenção no Irã seria muito mais complexa que o recém ataque a Maduro e ao país latino-americano. Isso devido à influência indireta do país em milícias regionais e grupos armados, além de sua localização geográfica estratégica, cercado por montanhas, desertos e pelo Estreito de Ormuz. Além disso, a dificuldade de uma operação para derrubar o aiatolá Khamenei é consideravelmente maior, visto que o líder iraniano permanece boa parte do tempo em instalações subterrâneas e bunkers protegidos. 

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À vista disso, o Irã tentou negociar saídas “justas” da encruzilhada diplomática, mas está pronto para a possibilidade de retaliações militares. Em caso de um ataque americano, mísseis de longo alcance já se mostraram efetivos, quando o país tentou atacar uma base militar americana no Catar, após a ofensiva americana de junho do ano passado. Outra estratégia já avaliada pelo governo é a do posicionamento de minas no Estreito de Ormuz, para impedir a passagem de navios inimigos ou mesmo tentativas de tomar o controle da região. Entretanto, acredita-se que o país não usará da economia global ou do Estreito como moeda de troca, já que um incidente relacionado à Ormuz prejudicaria a todos, inclusive o próprio Irã.

Enquanto Isso… o que o Futuro os Aguarda?

Um futuro incerto para uma nação em ruínas. O quadro geopolítico atual no qual o Irã está inserido pode não parecer tão dramático, mas as inúmeras encruzilhadas que cercam a nação tem se mostrado cada vez mais turbulento.

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Guarda Revolucionária do Irã – Fonte: CNN.

No último dia 29, a União Europeia colocou a Guarda Revolucionária iraniana na lista de grupos considerados terroristas pelo bloco. A decisão, que foi acompanhada por uma série de sanções à República Islâmica, deteriorou as relações do Irã também com os países europeus, o que constrói um novo front de rivalidades com o qual o governo iraniano deverá se preocupar. A visão negativa da UE sobre o atual regime envolve não apenas um receio de que a violência contra os manifestantes aumente, mas também de que as forças especiais da Guarda Revolucionária assumam o poder no país e liderem um regime militar ainda mais autocrático.

O governo em Teerã discute possíveis retaliações à decisão tomada pela UE. Uma das propostas seria transferir a proteção das missões diplomáticas europeias da polícia nacional para a Guarda Revolucionária. Essa e outras alternativas como a inspeções de aeroportos e a expulsão coletiva de adidos militares, preocupam as lideranças europeias, que aguardam os próximos movimentos de Teerã de maneira receosa.

Diante do aumento das hostilidades em diferentes frentes, uma das últimas salvações que o regime dos aiatolás enxerga atualmente é o investimento na expansão de poder indireta através do aumento do apoio a milícias xiitas e grupos armados. Como forma de manter o que restou de sua influência regional e fugir das encruzilhadas recentes, o país pretende manter suas alianças com grupos como o Kataeb Hezbollah, o Harakat al-Nujaba e o  Hezbollah libanês, além dos Houthis, que já atacaram a partir do Iêmen, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e Israel, bem como navios americanos no Mar Vermelho.

Além disso, o país também tem buscado alternativas, sobretudo econômicas, frente às sanções americanas que ainda se agarram ao mercado nacional. A China, a Rússia e o Irã formaram recentemente um acordo de desenvolvimento e de defesa, que visa ampliar as parcerias já preestabelecidas entre as três potências e focar em investimentos e alianças comerciais mútuas. A parceria também aborda estratégias diplomáticas e militares, além de coordenação para soberania nuclear. 

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Os presidentes Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China) e Hassan Rohani (Irã) – Fonte: OPEU.

Enquanto isso, a diluição do medo da população iraniana funciona como combustível para os incêndios que vem abalando os alicerces do regime autoritário dos aiatolás. É provável que a repressão aos protestos continue de forma intensa, mas o povo iraniano vê uma luz no fim do túnel em uma possível articulação de lideranças internas da oposição, que seja capaz de desmantelar o governo opressor de Khamenei.

Assim, as fragilidades internas, que tem se revelado na forma de uma repressão desmedida aos protestos atuais, e os desafios geopolíticos vindos de diferentes frentes internacionais revelam o paradoxo da influência do país. Apesar de ser uma potência regional, sua hegemonia é constantemente ameaçada, e possui dependência da importação de um dos recursos mais abundantes em seu território, cenário que corrobora para a instabilidade doméstica e para o descontentamento com o atual regime autoritário, que passa a ganhar um prazo de validade. 

image-30-1024x544 A Geopolítica do Irã: Paradoxo ou Encruzilhada?
Bandeira iraniana – Fonte: Money Times.

Referências

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    Estudante de Relações Internacionais da USP e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional (LAI) Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Organizações Internacionais, Direito Internacional, Direitos Humanos, Ásia Ocidental e África.

Estudante de Relações Internacionais da USP e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional (LAI) Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Organizações Internacionais, Direito Internacional, Direitos Humanos, Ásia Ocidental e África.