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A Política de Caça às Bruxas do ICE

A Política de Caça às Bruxas do ICE

Por Carolina Astúa

Há exatamente um ano, Donald Trump tomava posse do cargo de presidente dos Estados Unidos e inaugurava seu segundo mandato. Em 365 dias turbulentos, a mídia se debruçou sobre as multifacetas e sobre os escândalos de seu governo. Dentre eles, este artigo se propõe a analisar o desenvolvimento do discurso anti-imigratório em ação — que hoje já é causa de uma profunda onda de medo entre o povo norte-americano. 

Mais que uma Sigla, uma História

O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (United States Immigration and Customs Enforcement’s – ICE) é uma agência federal que compõe o sistema do Departamento de Segurança Interna e à qual é atribuída competência para aplicação de leis imigratórias e alfandegárias. Quanto à sua organização, o ICE é segmentado em divisões com funcionalidades específicas, dentre as quais se destacam duas: a Divisão de Investigações de Segurança Interna (HSI) e a de Operações de Execução e Remoção (ERO). 

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Fonte: Alex Brandon/AP.

A HSI tem suas responsabilidades concentradas no combate ao crime transnacional e na segurança fronteiriça, atuando especialmente contra o tráfico e mantendo relações internacionais estreitas. A parceria dessa divisão com a Polícia Federal brasileira, por exemplo, já ultrapassa vinte anos de existência. Por outro lado, a atuação da ERO se dá no interior do território estadunidense, fiscalizando diretamente os imigrantes. Em síntese, suas operações se concentram na identificação e na deportação de imigrantes ilegais — ainda que, por alguns anos, o foco declarado tenha sido aqueles indiciados por crimes graves. Para tal, os centros de detenção e apreensão estão à disposição e sob responsabilidade desta divisão. 

Todavia, essa ala da segurança norte-americana — assim como todo o Departamento de Segurança Interna — é relativamente recente na história do país. Ambos foram estruturados em 2003, por iniciativa do governo George W. Bush. No papel, a missão do ICE seria promover a segurança interna e cidadã por meio do respeito às leis imigratórias e alfandegárias; contudo, à luz de seu contexto de criação, esse intuito se mostra passível de questionamentos. 

O governo Bush foi marcado por uma diplomacia conturbada, sobretudo pela segunda invasão dos Estados Unidos ao Iraque, após os atentados de 11 de setembro de 2001 que contestaram a imagem idealizada de uma hegemonia estadunidense construída desde o fim da Guerra Fria. Nesse cenário, a instauração da chamada “Guerra ao Terror” escancarou os interesses políticos privados e os preconceitos socioculturais. 

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Ataque ao World Trade Center, Nova York – Fonte: Reprodução/Youtube.

Nesse sentido, o país passou a adotar uma postura arredia ao “externo”, porém a um externo padronizado. Os inimigos da guerra pararam de se limitar a países com atuação de grupos terroristas e passaram a englobar todos aqueles tidos como “diferentes”: os que não pertencem ao Ocidente clássico norte-americano e europeu, os de culturas distintas, os de países em desenvolvimento, entre outros. Assim, a reorganização do governo federal em 2003 — responsável pela criação do ICE — recebeu influências diretas dessa virada nacionalista e imperialista, inaugurando o que, hoje, é uma realidade nos Estados Unidos: a culpabilização do imigrante e do estrangeiro pela suposta decadência da sociedade norte-americana.

Em Nome de Que Segurança se Governa?

Recentemente, o ICE — especialmente por meio da divisão de Operações de Execução e Remoção — tem se expandido exponencialmente, tanto em tamanho quanto em violência. No primeiro aspecto, destaca-se que, em doze anos de existência, o departamento havia acumulado 10 mil agentes e que, após a posse de Trump em 2025, esse valor cresceu para 22 mil. No quesito da violência na aplicação da lei, os exemplos são numerosos. 

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Repressão contra protestantes em Chicago – Fonte: Joshua Lott/The Washington Post.

A própria admissão acelerada de funcionários indica uma queda nos critérios de seleção e de capacitação para o exercício de uma função tão delicada. Tal fato é comprovado pela redução pela metade do período exigido de treinamento (de dezesseis para oito semanas) e pela eliminação de certas cobranças, como o domínio do espanhol. Assim, atualmente, a maioria dos imigrantes, que são majoritariamente hispano-falantes, é confrontada por forças policiais que não compartilham o mesmo idioma, sem garantia efetiva da fala nem da escuta. 

Ademais, o próprio processo de recrutamento tem sido distorcido. A mobilização publicitária para engajar a população em uma luta forjada contra os imigrantes tem como alvo um perfil específico de cidadão, alinhado ao governo atual. Nas redes sociais, o público desejado é explicitamente o dos integrantes do movimento Make America Great Again (MAGA). Em outras palavras, identifica-se uma priorização de um espaço complacente e acrítico, que permite — e legitima — os abusos do sistema.

Como consequência, deportações e intimações se multiplicaram. O governo norte-americano divulgou que, entre janeiro e dezembro, já havia deportado 605 mil pessoas. Segundo dados do The Trace, até o início de janeiro deste ano, o ICE já havia sido responsável por 29 episódios de uso ou de ameaça de uso de armas de fogo contra civis, dos quais 16 envolveram tiroteios. Entretanto, a agência não matou somente a tiros: em 2025, 32 pessoas foram mortas em operações, igualando o recorde de 2004 que liderava como o mais letal da história do departamento. 

A análise individual desses episódios torna a violência ainda mais explícita. Dia 7 de janeiro deste ano, Renee Nicole Good foi baleada até a morte no estado de Minnesota por forças do ICE — mais especificamente, pelo agente Jonathan Ross. O evento ocorreu durante uma tentativa da mulher de apoiar os seus vizinhos, em meio a abusos dos agentes, que forçaram a abertura das portas do veículo em que ela estava, culminando em disparos quando Renee tentou sair da cena. Por se tratar de uma cidadã americana, o governo Trump justificou a ação como legítima defesa e classificou a vítima como “terrorista doméstica”. 

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FBI chega ao local de assassinato de Renee Good – Fonte: Craig Lassig/EPA.

Em resposta, o Departamento de Justiça abriu investigações contra a esposa de Renee, contra o governador do estado e contra o prefeito de Minneapolis. Sem qualquer investigação conduzida pelo Ministério Público contra Jonathan Ross, o vice-presidente JD Vance declarou publicamente sua “imunidade absoluta”, evidenciando uma assimetria judicial cruel e profundamente desrespeitosa à família da vítima e à população norte-americana.

Uma semana depois, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA já havia se envolvido em novos casos de tiroteio. Dia 14 de janeiro, um imigrante venezuelano que resistiu à prisão imediata levou um tiro na perna. No dia seguinte, o México passou a exigir esclarecimentos sobre a morte de um cidadão mexicano detido pelo ICE na Geórgia. 

Essa sequência de violências, somadas à crescente insatisfação popular com a postura do governo, desencadeou uma enorme onda de protestos. A expansão de manifestações de Minneapolis para cidades como Austin, Seattle, Nova York e Los Angeles — assim como a repressão dos agentes federais contra seu próprio povo — marca um período singular na história dos Estados Unidos. 

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Alunos de Ensino Médio se manifestam em Minneapolis – Fonte: Jen Golbeck/AP.

ICE: o Novo Rosto do Medo

Embora a violência policial seja uma das pautas mais recorrentes e controversas nos Estados Unidos, a atuação do ICE atingiu um novo patamar de visibilidade e uma prolongada repercussão social. Tal fenômeno pode ser entendido por diversos fatores, dentre os quais se destaca o cumprimento de promessas e discursos extremistas de Donald Trump que, até então, eram vistos por seus eleitores como falas vazias.

É irônica a surpresa de uma parcela da população que não acreditava que o presidente seria capaz de tais atitudes, apesar de ter ouvido, durante a campanha eleitoral, declarações como:

“Os democratas dizem ‘por favor, não os chame de animais, eles são humanos’. Eu digo: ‘Não, eles não são humanos, eles são animais’”.

Ou ainda a normalização de afirmações de que imigrantes haitianos se alimentariam de animais de estimação nos Estados Unidos ou de que imigrantes mexicanos cruzariam a fronteira vindos diretamente de manicômios e de prisões.

De modo geral, observa-se uma banalização do discurso de ódio e do preconceito cujas raízes estão profundamente ligadas ao próprio patriotismo dos Estados Unidos. A fala, que deveria chocar e ser combatida com a mesma intensidade que a ação, foi incorporada ao cotidiano de muitos, passando despercebida e sendo vista como inofensiva. Assim, quando alguém que sempre deixou explícito seu apoio à desumanização de imigrantes passa a implementar uma campanha de fato de desumanização destes, o choque reside na percepção de que um limite foi ultrapassado — abrindo espaço para que outros discursos extremistas também saiam do âmbito da fala. 

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Trump discursa em Nova York na reta final de sua campanha – Fonte: Getty Images.

“Por que só aceitamos pessoas de países de merda? Por que não podemos receber gente da Noruega, Suécia, Dinamarca? Mandem essas pessoas boas, por favor. Mas sempre aceitamos pessoas da Somália, de lugares sujos, nojentos e criminosos”.

“Vamos receber alguns (imigrantes) da Dinamarca. Vocês se importam em nos mandar algumas pessoas? Mandem pessoas boas. Vocês se importam? Mas nós sempre recebemos pessoas da Somália, lugares que são um desastre, certo? […] A única coisa que eles são bons é caçar navios”.

“Eu sou o presidente dos Estados Unidos, mas eu me importo com a Europa. Eu amo a Europa, eu amo os europeus e eu odeio vê-los sendo devastados pela energia e pela imigração. Esse monstro de duas caudas destrói tudo e eles não podem deixar isso continuar. Você faz porque quer ser legal. Você quer ser politicamente correto e acaba destruindo sua herança”.

O ICE na Mídia e a Revisitação a Regimes Autoritários

À medida que crescem as críticas ao primeiro ano de governo Trump, cresce paralelamente o medo e a necessidade de ativação da memória histórica. Quando uma agência como o ICE, com competência legal para aplicação da lei, passa a receber autorização irrestrita para atuar sob pretexto de “proteção pessoal”, entende-se que, na prática, é garantido o emprego da violência sem consequências. Refere-se ao poder federal afirmando que, para cumprir seu objetivo de eliminação do imigrante, está disposto a tudo — amparado pela visão de que tais pessoas são diferentes das demais. Ao serem taxadas de inimigos internos, tornam-se alvo de desumanização. 

Essa retórica está longe de ser nova. Pelo contrário, foi lógica central de diversos regimes autoritários que justificam o aumento da repressão e a relativização dos direitos humanos com base em uma narrativa forjada de caça às bruxas doméstica. Não sem embasamento, a discussão adentrou a mídia com a comparação feita por um influenciador digital apoiador dos republicanos do ICE com a Gestapo, polícia da Alemanha nazista, e continuação da analogia sobretudo após a morte de Renee Good. 

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Manifestação anti-ICE em Nova York – Fonte: Bryan R. Smith/AFP.

Para além do aumento objetivo da brutalidade e da expansão da agência, meios de atuação específicos também têm despertado paralelos históricos preocupantes. Relatos de agentes do ICE batendo de porta em porta, por exemplo, inundaram as redes sociais, ao mesmo tempo em que a falta de transparência de agentes do Estado encapuzados no exercício de suas atividades tem gerado receio. Soma-se isso a ameaça de Donald Trump de aplicação do Insurrection Act, que permitiria a intervenção via Forças Armadas no estado de Minnesota sem base concreta que justifique tamanha concentração de poder. 

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Agentes invadem casa para realizar uma prisão em Minneapolis – Fonte: John Locher/ AP.

Por fim, ganham destaque os próprios centros de detenção, cada vez mais hostis. O chamado “Alcatraz dos Jacarés”, centro recentemente proposto na Flórida, tem sido duramente criticado por organizações de direitos humanos como um local deliberadamente cruel ao detento, marcado por seus riscos naturais, por exposição à fauna e por despreparo para a temporada de furacões. O repúdio também se intensifica diante das declarações das autoridades locais, que tratam o espaço como espetáculo e relatam com entusiasmo as dificuldades de fuga. 

De modo geral, os Estados Unidos têm se encaminhado a uma política autoritária baseada no medo, que coloca à prova o próprio orgulho nacional que, por décadas, vem sendo motor de sua história. Os Estados Unidos da liberdade, do sonho americano e da democracia já não convencem como no passado — nem sua própria população nem a comunidade internacional. Nesse contexto, a revisitação histórica dos perigos intrínsecos à permissividade frente aos abusos do governo federal deve ocupar um papel central — que durante as eleições não ocupou —, a fim de evitar um agravamento ainda maior da situação. 

Referências

https://br.usembassy.gov/pt/brasil-e-eua-expandem-parceria-para-combater-crime-transnacional

https://www.theguardian.com/us-news/2018/jul/05/us-immigration-what-is-ice-and-why-is-it-controversial

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/16/como-agentes-ice-sao-recrutados-pelo-governo-trump.ghtml

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/11/milhares-protestam-e-dezenas-sao-presos-apos-morte-de-mulher-por-agente-de-imigracao-dos-eua.ghtml

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-a-nova-onda-de-protestos-e-confrontos-contra-a-imigracao-nos-eua

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/01/09/minneapolis-pede-que-autoridades-estaduais-investiguem-morte-de-mulher-pelas-maos-do-ice.htm

https://veja.abril.com.br/mundo/sob-governo-trump-agentes-do-ice-abriram-fogo-contra-civis-mais-de-15-vezes-revela-ong

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eleicoes-nos-eua-2024/trump-chama-imigrantes-de-animais-e-intensifica-foco-em-imigracao-ilegal

https://www.reuters.com/world/us/us-revoke-citizenship-naturalized-migrants-convicted-fraud-trump-says-2026-01-13

https://abcnews.go.com/Politics/trump-ramps-anti-immigrant-rhetoric-embraces-phrase-hole/story?id=128279166

https://www.bbc.com/news/articles/c179p4wvz29o

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/15/baleado-agente-imigracao-minneapolis.ghtml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Servi%C3%A7o_de_Imigra%C3%A7%C3%A3o_e_Controle_de_Aduanas_dos_Estados_Unidos_da_Am%C3%A9rica  https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/01/15/videos-agente-do-ice-atira-em-venezuelano-em-minneapolis-uma-semana-apos-mulher-ser-morta-em-blitz.ghtml 

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/01/18/justica-dos-eua-investiga-viuva-de-mulher-morta-por-agente-do-ice-em-minneapolis-enquanto-agente-nao-e-alvo.ghtml

https://edition.cnn.com/2025/12/10/politics/donald-trump-shithole-countries-phrase

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/alcatraz-dos-jacares-o-que-se-sabe-sobre-novo-centro-de-detencao-dos-eua

https://veja.abril.com.br/mundo/aprovacao-de-trump-cai-para-39-em-meio-a-descontentamento-com-economia

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/16/influenciador-pro-trump-compara-ice-a-policia-da-alemanha-nazista.ghtml


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    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Ásia, América Latina, Imigração, Direito Internacional, Jornalismo, História.

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Ásia, América Latina, Imigração, Direito Internacional, Jornalismo, História.