A Virada à Direita no Chile
Por Marcela Caproni
A Ascensão de Kast, o Balanço de Boric e a Sombra Inquietante de Pinochet
O candidato líder da ultradireita José Antonio Kast foi eleito novo presidente do Chile, neste domingo, com aproximadamente 58% dos votos, até o momento, selando um dos mais dramáticos e polarizados processos eleitorais na história recente do país. O resultado não apenas sinaliza um profundo descontentamento com a gestão progressista anterior, mas também reabre feridas históricas, trazendo à tona a complexa relação da sociedade chilena com o passado ditatorial de Augusto Pinochet.

José Antonio Kast: A Figura do Conservadorismo Radical
José Antonio Kast Rist, de 59 anos, é um advogado e político cuja trajetória sempre esteve atrelada ao conservadorismo tradicional, mas que, na última década, se consolidou como a face mais radical da direita chilena. Após uma longa carreira como deputado pela União Democrática Independente (UDI), Kast fundou o Partido Republicano, estabelecendo uma plataforma ideológica rígida: ultraconservadorismo católico, forte apelo à redução do Estado, diminuição drástica de impostos e, sobretudo, uma intransigente política de “lei e ordem”.

Sua figura é inseparável de uma retórica revisionista e apologética em relação ao regime Pinochet (1973-1990). Kast é o único líder político de grande projeção no Chile a defender publicamente aspectos da ditadura, que foi responsável por mais de 3 mil assassinatos e desaparecimentos. Embora tenha empreendido uma moderada suavização em alguns discursos durante a campanha, seu histórico de relativização das atrocidades do regime militar constitui a espinha dorsal de sua identidade política, diferenciando-o da direita tradicional.
O Pleito e a Polarização: uma Campanha de Extremos
O processo eleitoral foi marcado por uma polarização aguda, reflexo direto do turbulento período pós-estallido social de 2019. A campanha viu a fragmentação das forças de centro, empurrando a disputa para os extremos ideológicos, especialmente no segundo turno, que contrapôs Kast e a candidata da esquerda, Jeannette Jara (ou a reedição do confronto com Boric no contexto de 2021).
Enquanto o primeiro turno já indicava a força das correntes mais radicais, o segundo turno se transformou em um verdadeiro plebiscito sobre o futuro do Chile e a estabilidade social. Kast capitalizou o medo e a insatisfação popular, prometendo ordem e segurança. Seu discurso se focou na crise migratória e no aumento da criminalidade, temas que superaram as grandes pautas de reformas sociais na hierarquia de preocupações do eleitorado. A esquerda, por sua vez, tentou alertar para o risco de retrocessos democráticos e sociais, enfatizando a defesa da memória histórica e dos direitos civis.
A reintrodução do voto obrigatório foi um fator decisivo, trazendo para as urnas uma parcela da população desmobilizada que, na prática, optou por um voto de protesto ou de busca por estabilidade, favorecendo a mensagem de “mão dura” de Kast.

O Balanço do Governo Boric e o Voto de Castigo
O resultado eleitoral deve ser lido, em grande parte, como um voto de castigo ao governo de Gabriel Boric. Embora tenha assumido a presidência com um enorme capital político e expectativas de transformação social após os protestos de 2019, Boric enfrentou um desgaste rápido e profundo.

Três fatores centrais contribuíram para essa desaprovação: primeiramente, o fracasso na aprovação do projeto de Nova Constituição no plebiscito, uma derrota simbólica que minou o impulso reformista do governo; em segundo lugar, a incapacidade de controlar o avanço da criminalidade e a crise migratória, que se tornaram a principal angústia dos chilenos e forneceram o principal combustível para a campanha de Kast; e, por fim, o desgaste econômico global, com alta inflação e estagnação, que aprofundou o sentimento de instabilidade. A gestão de Boric não conseguiu traduzir as demandas radicais do estallido em governabilidade eficaz, levando o eleitorado, saturado de conflitos e incertezas, a buscar uma alternativa que prometia a restauração imediata da ordem, mesmo que essa alternativa representasse um extremismo ideológico oposto.
Pinochet e a Memória Histórica: a Sombra que Retorna
Um dos aspectos mais inquietantes da ascensão de Kast é sua relação com a memória do regime Pinochetista. O Chile, diferentemente de outros países da região, sempre manteve viva a discussão sobre os crimes da ditadura. No entanto, o sucesso de Kast indica uma perigosa relativização desse consenso democrático por uma parcela significativa da sociedade.
O discurso de Kast resgata a narrativa de que o regime militar foi um mal necessário que salvou o país do colapso econômico e político. Para seus apoiadores, a promessa de “ordem” se sobrepôs à memória das violações de direitos humanos. O risco, como apontam analistas e defensores da memória, é que a eleição de um presidente que relativiza o passado autoritário possa abrir caminho para retrocessos democráticos e um silenciamento das vítimas. A urgência da segurança e da economia, instrumentalizada por Kast, conseguiu ofuscar a pauta da memória histórica, mostrando que a ditadura não é um fator de repúdio unânime e que a polarização permite que o autoritarismo seja romantizado por uma ala do espectro político.

Repercussões Internacionais
A vitória de Kast ecoou imediatamente no cenário global, sendo recebida com entusiasmo pela ultradireita internacional. O Chile, visto até então como um símbolo da virada progressista na América Latina (ao lado de países como Brasil e Colômbia), passa a ser um elemento de reequilíbrio ideológico na região. Kast é rapidamente associado à onda populista conservadora representada por figuras como Jair Bolsonaro no Brasil e Donald Trump nos Estados Unidos.

Enquanto a comunidade financeira recebeu o resultado com otimismo, esperando políticas econômicas ortodoxas e pró-mercado, governos progressistas na região expressaram cautela, percebendo o resultado como um alerta sobre a instabilidade política e a força do descontentamento social. A eleição chilena reitera a volatilidade do eleitorado latino-americano e a capacidade dos discursos de lei e ordem de capitalizar o medo e a insatisfação, mesmo que para isso seja necessário flertar com a história autoritária.

Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Antonio_Kast
https://veja.abril.com.br/mundo/direitista-jose-antonio-kast-e-eleito-o-novo-presidente-do-chile
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