Edição #11 Newsletter Globalidades – Guerra Comercial e Tarifaço
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
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O LAI Bertha Lutz preparou uma newsletter para você se manter informado sobre os principais temas que podem cair em seu vestibular. A cada mês enviaremos um e-mail com as principais notícias do período, um aprofundamento de um macrotema que pode aparecer em questões e temas de redação, e, para finalizar, algumas questões de prova resolvidas para te ajudar a estudar! O tema desta edição é “Guerra Comercial e Tarifaço”, muito importante para entender o cenário geopolítico atual.
Notícias do mês de Julho
Direitos Civis sob Ataque: Entenda o Alerta Internacional sobre EUA
A organização internacional CIVICUS, uma aliança global de ativistas e grupos da sociedade civil que monitora o estado das liberdades civis no mundo, voltou a incluir os Estados Unidos em sua lista de observação, apontando um avanço preocupante do autoritarismo no segundo mandato de Donald Trump. Segundo a entidade, protestos pacíficos têm sido reprimidos com força militar, críticos ao governo são tratados como criminosos, jornalistas sofrem perseguições e há ataques sistemáticos a organizações da sociedade civil. Um dos episódios mais alarmantes foi o envio de tropas da Guarda Nacional e fuzileiros navais a Los Angeles, em resposta a protestos provocados pelas operações da Imigração e Alfândega (ICE) em Los Angeles – o que, de acordo com a CIVICUS, é incompatível com os valores democráticos.
A CIVICUS também denunciou o enfraquecimento da liberdade de imprensa nos EUA, com a prisão de jornalistas como o salvadorenho Mario Guevara durante manifestações, além de cortes históricos no financiamento de mídias públicas como PBS e NPR. Trump tem movido processos contra diversos veículos jornalísticos e figuras da imprensa, como CBS e Wall Street Journal, num esforço de intimidação à cobertura crítica. A organização alertou ainda para a criminalização de manifestações pró-Palestina, citando o caso de Mahmoud Khalil, ativista legalmente residente no país, detido por três meses. Com base nesses fatos, os EUA foram classificados como um país de liberdade “restrita”, sinalizando um grave retrocesso democrático segundo os critérios da CIVICUS.

17ª Cúpula do BRICS
Na Cúpula dos BRICS realizada entre os dias 6 e 7 de julho de 2025 no Rio de Janeiro, os líderes dos onze países-membros assinaram a Declaração do Rio de Janeiro, articulando um compromisso conjunto com governança global mais inclusiva, sustentável e representativa do Sul Global. Além disso, foi adotada uma declaração específica para regulamentação internacional da inteligência artificial, com foco em princípios que garantam equidade, sustentabilidade e respeito aos direitos humanos . O primeiro dia tratou de seis prioridades centrais: saúde global, comércio e financiamento do desenvolvimento, mudança climática, governança de IA, segurança global e aprimoramento institucional do próprio BRICS. Também foi anunciado que a Índia assumirá a presidência rotativa do bloco em 2026, sob a liderança do primeiro-ministro Narendra Modi.
A cúpula foi marcada pela ausência dos presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin – este último participou apenas por videoconferência devido a um mandado de prisão internacional . Durante o encontro, os BRICS condenaram o aumento das tarifas comerciais, especialmente as lideradas pelos Estados Unidos, sem mencionar o presidente Trump diretamente, ressaltando que medidas protecionistas ameaçam a cadeia global de suprimentos e o comércio mundial . O Brasil, na liderança do evento, buscou evitar confrontos explícitos em meio a tensões globais, destacando temas como saúde, meio ambiente e cooperação Sul‑Sul. A cúpula também reforçou compromissos com financiamento climático, justiça sanitária e integração institucional dos países parceiros recém-expandidos, como Indonésia, Irã, Egito e Emirados Árabes Unidos.

Terremoto de Magnitude 8,8 Atinge Rússia e Ilhas do Pacífico
Um grande terremoto voltou a ser notícia internacional em razão de sua potência e da extensão dos locais atingidos: na quarta-feira, dia 30/07 um tremor de magnitude 8,8 atingiu uma área a cerca de 130 km de distância da península de Kamchatka, na Rússia. O terremoto atingiu também diversos países na Ásia e territórios banhados pelo Oceano Pacífico, sendo emitidas ordens de evacuação em áreas costeiras de países como Japão, Estados Unidos, Peru, Chile, Equador e Colômbia.
No litoral de Kamchatka, observou-se ondas que chegaram aos 4 metros de altura, de acordo com relato do ministro regional de Emergências, Sergei Labedev. As informações de autoridades russas indicam que houveram diversos feridos, porém sem a identificação dos cidadãos, ou especificação da quantidade numérica; além disso não houveram feridos graves.
Com números poucas vezes vistos, o sismo se configura como o sexto maior terremoto já registrado, de acordo com o Serviço Geológico americano. Apesar da grandeza, a sismóloga Lucy Jones diz que não se espera que o terremoto possa ainda causar catástrofes no continente americano, sendo seus efeitos dissipados no mar e sem grandes prejuízos ao atingir o continente.

Israel Bombardeia Síria
No dia 16 de julho, Israel lançou um ataque contra o Ministério da Defesa da Síria e outros edifícios da capital Damasco, com imagens transmitidas ao vivo pela TV Al Jazeera. Segundo o Ministério da Saúde da Síria, ao menos 3 pessoas morreram e outras 34 ficaram feridas em decorrência do ataque.
O bombardeio em Damasco está dentro de uma nova onda de ataques israelenses sobre o Oriente Médio, sendo esse justificado pelas forças armadas de Israel como uma consequência dos combates que o exército sírio tem travado contra a população drusa, minoria étnica que, além de viver na Síria, possui cidadãos que habitam a nação judaica. Militares de Israel disseram que “atingiram o portão de entrada do complexo do quartel-general militar do regime sírio” e que permaneciam monitorando os seguintes acontecimentos com relação à força síria imposta sobre a população drusa. Em razão dos ataques e da insegurança crescente, o Ministério da Defesa da Síria orientou a população civil para que permanecesse em casa. De acordo com a agência de notícias Reuters, moradores confidencializaram por telefone que estavam escondidos em casa com medo e com uma insegurança que ultrapassava a preocupação de também estarem sem energia elétrica em suas residências.
O conflito armado pelo qual o exército de Israel justifica sua ofensiva, diz respeito a um confronto direto entre combatentes beduínos sunitas contra milícias drusas no sul da Síria, ocorrido no segundo fim de semana de julho. O atrito escalonou depois de um comerciante druso ser supostamente sequestrado enquanto viajava pela estrada rumo a Damasco. O governo sírio foi acusado por Estados vizinhos de atacar propositalmente os drusos por motivos étnicos e plano de governo. O país não respondeu diretamente a essas acusações, mas se colocou contra qualquer tipo de ataque a minorias e afirmou que suas tropas apenas estão na região para estabelecer a ordem no país.
Não se sabe de maiores ofensivas consecutivas a esse ataque, porém a população civil síria aguarda com medo novas ações de Israel, caso o exército beduíno sunita volte a atacar fortemente a população drusa.

STF Mantém Restrições a Bolsonaro e Sanções dos EUA Geram Crise Diplomática
Em julho de 2025, o Supremo Tribunal Federal manteve as medidas cautelares impostas ao ex-presidente Jair Bolsonaro no âmbito da investigação sobre a tentativa de golpe de Estado em 2022. Entre as restrições estão o uso de tornozeleira eletrônica, proibição de contato com diplomatas e co-investigados, além do recolhimento domiciliar noturno. A Primeira Turma do STF aprovou a continuidade dessas medidas por maioria dos votos, e Bolsonaro e outros seis réus receberam prazo para apresentar suas alegações finais. O julgamento principal está previsto para ocorrer em setembro.
O caso gerou forte reação internacional. O governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, anunciou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo no STF. As sanções incluíram congelamento de bens, suspensão de vistos e proibição de entrada em território norte-americano. Além disso, o governo norte-americano impôs tarifas sobre produtos brasileiros, alegando perseguição política a um aliado. Apesar da pressão externa, o Supremo reafirmou sua autonomia e manteve o andamento normal do processo.

Fome em Gaza Atinge Fase 5
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) anunciou que a fome em Gaza atingiu a fase 5, considerada a mais grave segundo a Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC) e estabelecida como “catástrofe humanitária”. Essa classificação implica que pelo menos 20% das famílias enfrentam falta extrema de alimentos e que há pelo menos 15% de desnutrição global aguda.
Ao enfrentar críticas internacionais, intensificadas com a circulação de fotos que expõe a realidade da crise alimentar no território, Israel voltou a permitir a entrada de alimentos por via aérea em Gaza. A ONU e as ONGs são impedidas de operar em Gaza e afirmam que um sistema humanitário adequado é boicotado por Israel, enquanto o país culpa o Hamas e a própria ONU pela situação da população palestina.

Guerra Comercial e Tarifaço
Desde que Donald Trump reassumiu a presidência dos Estados Unidos em 25 de janeiro de 2025, seu governo tem promovido uma ampla campanha de imposição de tarifas comerciais contra diversos países, incluindo aliados históricos, como Reino Unido e Canadá, e também adversários tradicionais, como China e Rússia.
Segundo o novo governo norte-americano, essa política se justifica por um suposto histórico de práticas comerciais injustas adotadas por outros países, que teriam contribuído para o enfraquecimento da indústria doméstica e, consequentemente, para a perda de empregos e renda dos trabalhadores americanos.
Assim, as tarifas seriam uma forma de proteger a economia nacional e restaurar a competitividade dos Estados Unidos no mercado global. No entanto, essa estratégia pode gerar consequências indesejadas e potencialmente desastrosas, tanto para a economia norte-americana quanto para a economia mundial. Recentemente, um novo capítulo dessa política foi aberto com a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos importados do Brasil, uma taxa significativamente superior à aplicada a outros países, sugerindo motivações de natureza política.
Diante disso, é fundamental compreender o que são tarifas, por que são utilizadas e quais são suas possíveis consequências.
O que são Tarifas e Por que são Utilizadas?
As tarifas são impostos cobrados sobre produtos importados de um outro país, geralmente implementadas através de uma porcentagem do preço do produto em si. Assim, se os EUA implementam tarifas de 50% a produtos do Brasil, um saco de laranjas vendido por um agricultor brasileiro a 10 dólares, custaria, para o supermercado estadunidense comprador, 15 dólares. Desta forma os 5 dólares adicionais iriam para o governo dos EUA. O supermercado buscaria encontrar meios de recuperar esse custo adicional de 5 dólares, seja comprando menos laranjas brasileiras e buscando um novo fornecedor ou aumentando o preço de venda do produto dentro do país, com o custo das tarifas sendo repassado para o consumidor americano.
A tarifação é uma estratégia econômica e política que pode ser utilizada tanto por demandas internas de um país, quanto por motivações externas. No primeiro caso, as tarifas podem ser uma forma de aumentar o poder econômico do Estado, já que os impostos vão para o mesmo, ou como uma forma de incentivar e desenvolver a indústria e produtores internos, pois as tarifas fazem com que produtos nacionais se tornem mais baratos e preferíveis em comparação aos importados, gerando mais demanda, o que incentiva o aumento da produção do país. Já no caso de motivações externas, o aumento das tarifas pode ser uma forma de penalizar um país por atitudes ou posicionamentos não alinhados com o governo impondo as tarifas. Desta forma, um Estado consegue, por meio de tarifas punitivas, demonstrar sua reprovação ao dificultar trocas econômicas entre os dois países e prejudicar a exportação da nação com a qual discorda.
Políticas Comerciais ao Longo da História
As Primeiras Tarifas Aplicadas
As tarifas são um mecanismo econômico tão antigo quanto o comércio organizado. Registros históricos mostram que na Grécia Antiga, Atenas impunha uma tarifa de 2% em seu porto de Piraeus, com o objetivo de cobrir despesas da cidade-estado. Já o Império Romano possuía tanto tarifas internas, entre províncias – de aproximadamente 5% sobre o valor do produto – quanto externas, de produtos de luxo vindos da Ásia, por exemplo, o que tornava a seda e as especiarias quase inacessíveis para o povo de Roma.
Atos de Navegação da Inglaterra
Durante o período colonial, a lógica mercantil implicava uma política em que os governantes buscavam maximizar suas exportações e minimizar importações, com o objetivo de proteger suas respectivas produções nacionais. Além disso, proibiam suas colônias de comercializar com outros países ou criarem manufaturas que pudessem competir com a metrópole. Desse modo, as tarifas eram vistas como uma forma de enriquecimento das coroas europeias, mesmo que isso significasse que a população pagaria mais caro por um produto.
Nesse contexto, em 1651, o líder inglês Oliver Cromwell promulgou o Ato para o aumento e incentivo da navegação desta Nação, que consistia em garantir a exclusividade do comércio das colônias inglesas com a sua metrópole, além de garantir que apenas navios ingleses poderiam transitar em seus territórios, sob ameaça de confisco da carga. Tudo isso tinha como objetivo a exclusão da Holanda do comércio mundial, que até então dominava o cenário.
Ato Tarifário de 1789
As ideias do filósofo Adam Smith trouxeram uma nova visão em relação ao uso das tarifas, defendendo sua importância na formação das nações. Como consequência, o primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, promulgou o Ato Tarifário de 1789, visando equilibrar os cofres do país que, apesar de recém-formado, já acumulava dívidas oriundas de sua guerra de independência. Entretanto, para além das dívidas, o ato também tinha o objetivo de fomentar a consolidação de uma indústria nacional. Contudo, um dumping comercial realizado pela Inglaterra – motivado pela produção excedente de bens durante a guerra de 1812 – levou muitas indústrias locais à falência, o que fez com que a população questionasse a eficiência das tarifas impostas.
Revolução industrial
Em contrapartida, a primeira nação industrial, Inglaterra, tomou um caminho diferente e aboliu as tarifas conhecidas como corn laws, que protegiam o comércio de grãos britânicos, após a reivindicação do povo pelo livre comércio e ofertas mais baratas, principalmente após a grande fome na Irlanda.
Linha do Tempo das Tarifas no Brasil
Pacto Colonial
Assim como as outras colônias durante o período das grandes navegações, o Brasil também passou por um pacto colonial com Portugal. Nesse cenário, a colônia somente poderia comprar produtos manufaturados da metropóle portuguesa, impedindo o desenvolvimento de uma indústria própria. Além disso, a colônia atuava como fornecedora de matérias-primas e produtos tropicais, como café, ouro e açúcar, para a metrópole, com os lucros dessa produção sendo destinados a Portugal. Segundo o historiador Celso Furtado, o Brasil teve a oportunidade de aumentar sua capacidade produtiva em até dez vezes, mas não o fez pois transferia a maior parte do lucro para Portugal, ao invés de investir na cadeia produtiva.
Abertura dos Portos às Nações Amigas
A abertura dos portos, medida tomada após a vinda da família real para o Brasil em 1808, rompeu com o exclusivismo metropolitano de Portugal e permitiu a entrada de produtos de outros países, marcando o fim do pacto colonial.
Tarifa Alves Branco
Após o fim do pacto colonial, o Brasil, sem uma indústria consolidada, se tornou dependente dos produtos da Inglaterra. Desse modo, o desejo de se emancipar economicamente (a balança comercial se encontrava em desequilíbrio) e a vontade de desenvolver a indústria nacional levaram a imposição de tarifas nos postos alfandegários brasileiros que variavam de 20% a 60%, menores aos produtos essenciais e que não eram produzidos aqui e maiores aos produtos que competiam com a oferta nacional.
Era Vargas
Durante a era Vargas, o governo adotou uma política de tarifas protecionistas para incentivar a industrialização. Em conjunto com as altas tarifas para produtos externos, o governo adotou medidas de incentivo como a criação de empresas estatais, incluindo a companhia siderúrgica nacional. Além disso, o governo defendia a intervenção estatal na economia como medida para diminuir a dependência do mercado externo. Alguns estudiosos apontam semelhanças entre as políticas de Vargas e a atual agenda de Trump e a chamam de “modelo fracassado” e “ultrapassada”. Ao contrário de Vargas, Trump defende a redução do Estado e, ao mesmo tempo, sua intervenção na economia sendo, além de tudo, paradoxal.
Governo FHC e o Mercosul
O presidente Fernando Henrique Cardoso buscou fortalecer o Mercosul como uma forma de integração regional. Para isso, o bloco adotou uma tarifa externa comum, que consiste em uma taxa comercial padronizada que os países membros aplicam em produtos vindos de fora do bloco, com o objetivo de fomentar a competição justa entre os países membros e aumentar as transições comerciais dentro do bloco.
Consequências da Tarifação
Mesmo que o governo do país impositor de tarifas se beneficie arrecadando lucro ou conquistando seus interesses, ele também está sujeito ao lado negativo desse jogo.
Isso ocorre pois os produtos estrangeiros tornam-se mais caros para a população, que reduz o consumo desse bem, já que não consegue pagar pela quantidade desejada. Caso a indústria nacional seja incapaz de suprir a demanda existente pelo produto taxado, a população pode sofrer com a carência desta mercadoria, gerando problemas sociais, sobretudo ao se tratar de commodities e alimentação. Além disso, o país taxador pode ser alvo de retaliação e corre o risco de cair em posição desvantajosa.
O Estado taxado, por sua vez, tende a ser inteiramente prejudicado, uma vez que perde parte do mercado para o qual exportava, fator que bagunça a economia nacional. A redução das exportações afeta a cadeia produtiva da mercadoria em efeito dominó, tendo em vista que, com menores lucros, as empresas exportadoras são “obrigadas” a cortar a produção e a demitir funcionários. Os cortes reduzem o PIB nacional e as demissões criam um quadro de desemprego e possível crise social decorrente da dificuldade financeira gerada. Outros desdobramentos da redução de exportações por tarifas correspondem a desestabilização da balança comercial nacional, desvalorização da moeda do país e enfraquecimento da competitividade dos seus produtos no mercado.
Dessa forma, pode-se notar que, seja em relação ao país taxador ou ao taxado, a população sempre está sujeita a sentir os efeitos negativos das tarifas geradas por conflitos entre governos.

Consequências da Guerra Comercial entre China e Estados Unidos e do Tarifaço contra o Brasil
Serão agora abordadas as consequências da guerra comercial entre China e Estados Unidos e do tarifaço do Trump ao Brasil, acompanhadas de um breve panorama global. Importante frisar que, para além das já perceptíveis consequências imediatas e de curto prazo, as análises feitas por especialistas para o médio e longo prazo são previsões, não garantias. Futuras ações e reações podem mudar substancialmente o cenário atual, que por sua vez já é bastante instável e de difícil previsão.

Estados Unidos
O principal ator desta recente guerra comercial, naturalmente, não vai sair ileso. As consequências a se destacar são as de caráter geopolíticos e econômico. No campo da geopolítica, as ações de Trump acabam por isolar ainda mais os EUA politicamente, uma vez que a medida não agrada nenhum parceiro comercial do país. É evidente, portanto, que as tarifas também fazem parte do plano político de Trump, não apenas econômico, seguindo a tendência de isolamento polarizador de seu segundo mandato até aqui. A prerrogativa política de “defesa nacional” e proteção do mercado interno americano está sendo utilizada para afastar os EUA ainda mais das organizações internacionais como a OMC, por exemplo, ao mesmo tempo em que gera déficits econômicos para todos as partes envolvidas. Economicamente, os consumidores estadunidenses sentirão o impacto das tarifas no aumento do preço dos itens de consumo diário, como o café e o suco de laranja brasileiros e os aparelhos eletrônicos chineses. Trump também deverá se preocupar com a capacidade da indústria estadunidense suprir a queda das importações, uma vez que a demanda pelos itens até então importados em demasia não deve reduzir bruscamente. Novos parceiros comerciais seriam uma forma de resolver a questão sem colapsar o sistema econômico americano, mas até o momento da publicação desta newsletter não houve qualquer iniciativa nesse sentido por parte do governo americano. Resta-se aguardar.
China
As consequências da guerra comercial para os chineses, no longo prazo, parecem mais afetar o campo geopolítico do que o econômico. Por um lado, é evidente o baque econômico de tarifas que chegarem a casa dos 145% para parte de seus produtos, principalmente por serem imposições de um importante ator geopolítico como os EUA. De imediato, a solução encontrada pela China foi retaliar com tarifas próprias, igualmente significativas para a economia internacional. Uma vez em guerra comercial, o governo chinês vem buscando fortificar alianças e acordos econômicos com outras nações, incluindo o Brasil. Tal movimento ajuda a diminuir o impacto das sanções norte-americanas de dois modos: novos compradores e novos vendedores. Mais gente para comprar o produto exportado pela China diminui a dependência dos consumidores estadunidenses, que não compram mais os bens exportados pelo aumento do preço. Por outro lado, abrem-se novas oportunidades de mercado para o consumidor chinês que, ao longo do tempo, pode substituir os produtos vindos dos EUA por aqueles provenientes de novos parceiros econômicos. Projeta-se que a crescente indústria nacional também passará a produzir, em larga escala, itens majoritariamente importados até então. China e EUA estão cada vez mais polarizados, tanto na economia quanto na geopolítica; no curto prazo, ambos já sentiram o baque desta guerra comercial e buscam, cada um a sua maneira, diminuir ao máximo as perdas iminentes.
Brasil
O Brasil virou alvo direto das políticas tarifárias de Trump recentemente, mas já sofria as consequências da guerra comercial desde o seu princípio. Com o maior distanciamento entre China e EUA, coube aos chineses fortalecer outros laços políticos e buscar diversificação de parceiros comerciais, como visto acima; um dos países afetados por esta política foi o Brasil, que viu suas exportações para a China caírem no período por conta do maior número de exportadores com os quais os chineses passaram a negociar, além da queda do preço das commodities. Espera-se, porém, que o laço entre as nações volte a se fortificar passado os primeiros meses sob o efeito brusco das tarifas.
Uma vez que virou alvo das sanções tarifárias, a situação brasileira tornou-se mais complicada: o aumento de 50% desestabiliza severamente o mercado nacional, pois diminui o número de exportações dado o aumento do preço. Apesar de setores importantes da economia brasileira estarem dentro de um pacote de exceções (a tarifa não se aplicará ao setor aeronáutico, por exemplo), o impacto econômico previsto ainda é considerável. Dentre aqueles afetados integralmente pelas tarifas, dois produtos se destacam negativamente: o setor cafeeiro teve seu lucro afetado, e as vendas de suco de laranja, produto o qual o Brasil é o maior exportador do mundo, caíram significativamente.
Politicamente, o cenário brasileiro também apresentou mudanças decorrentes da guerra comercial nos últimos meses. O Brasil se defendeu como pode, assegurando sua soberania nacional, e parece sair dessa situação com mais importância geopolítica. Ao impedir maior intervencionismo estadunidense no Brasil, inclusive no tocante a interferência em casos judiciais de caráter nacional, Lula deixou sua marca no panorama geopolítico. O presidente brasileiro cedeu entrevistas a importantes jornais internacionais, como o The New York Times, ao mesmo tempo em que cresceu nas pesquisas de popularidade dentre o povo brasileiro, segundo as apurações de julho de 2025.

Panorama Global
O mundo está apreensivo. Para a economia, o principal problema atrelado a guerra comercial é a incerteza. Produtores tem dúvida de quanto produzir, compradores não sabem o que acontecerá com os preços dos bens de consumo e investidores, de pequeno e grande porte, não tem mais segurança para depositar dinheiro em qualquer negócio. Se a previsibilidade é aliada da economia, a instabilidade é um grande algoz. A prolongação desse cenário é prejudicial à todos, desde o pequeno agricultor brasileiro ao grande investidor europeu. Já para a geopolítica, o cenário atual representa mais um passo em direção ao isolacionismo estadunidense e oposição chinesa, aliada cada vez mais a Europa e aos países emergentes.
Questões de vestibulares
(FUVEST-2020)
China contra‐ataca tarifas americanas com uma das armas que mais irritam Trump
O Banco Central da China, no dia 5 de agosto de 2019, permitiu que o yuan, moeda oficial do país, ultrapassasse pela primeira vez uma barreira de onze anos na relação com o dólar americano. A cotação do yuan ficou acima de 7 para 1, num claro contra‐ataque de Pequim às novas tarifas anunciadas pelo presidente Trump sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses.
O mercado teme que a medida provoque ainda mais a ira do presidente Trump, que acusa Pequim de desvalorizar artificialmente sua moeda para impulsionar as exportações.“Devido ao unilateralismo, ao (I)__ comercial e às tarifas impostas à China, o yuan se depreciou em relação ao dólar americano, quebrando a barreira dos 7 para 1”, diz nota do Banco Central chinês.
Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/

Considerando o excerto e o gráfico, responda:
a) A palavra omitida no texto é um conceito que caracteriza a posição dos EUA ao tarifar os produtos chineses. Qual é esse conceito? Responda na folha de respostas.
b) Utilizando elementos do gráfico, caracterize a relação comercial entre os EUA e a China.
c) Explique como a desvalorização cambial do Yuan influencia a balança comercial entre esses países.
Resolução:
a) Trata-se do conceito de protecionismo.
b) O gráfico apresenta a balança comercial entre as duas maiores potências econômicas mundiais atuais: Estados Unidos e China. Os EUA apresentam elevado déficit comercial nas trocas com a China desde 1985, evidenciando a entrada significativa de produtos chineses no mercado estadunidense. Tal diferença comercial tornou-se mais acentuada a partir de 2001, quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio e passou a ser considerada uma economia de mercado, o que ampliou suas relações comerciais exteriores, sobretudo com os Estados Unidos. Destaca-se também que a mão de obra de baixo custo, a redução de tarifas e a criação de Zonas Econômicas Especiais baratearam o produto chinês e aumentaram a sua preferência no mercado dos Estados Unidos.
c) A desvalorização cambial do yuan, moeda oficial da China, traz como efeito inicial o barateamento dos produtos chineses no mercado internacional, o que permite o aumento das exportações desses produtos, inclusive para os Estados Unidos. Dessa forma, tal desvalorização cambial pode ampliar o déficit comercial dos EUA com a China, apresentado pelo gráfico, anulando a sobretaxa imposta pelo governo estadunidense. Além disso, a desvalorização do yuan beneficia a economia chinesa ao ampliar a lucratividade nas transações comerciais.
(ENEM-2023)
Produtores rurais europeus são antigos opositores de um grande acordo com o Mercosul. Na visão deles, existe um nítido risco de concorrência desleal, pois, na Europa, é preciso seguir regras mais rígidas de produção, o que encarece o processo. Assim, eles não conseguiriam competir com os preços, por exemplo, da carne brasileira e teriam seus negócios ameaçados. Por outro lado, o setor industrial europeu se mobiliza a favor do acordo, uma vez que as reduções de tarifas no comércio internacional dariam maior acesso ao mercado sul-americano. Um exemplo é o setor automotivo europeu, que prevê maior participação e concorrência nos países do Mercosul caso o acordo siga em frente.
No contexto do acordo citado, os dois grupos econômicos europeus defendem, respectivamente, a
a) Remoção dos entraves alfandegários e a melhor remuneração de empregados.
b) Ampliação das leis trabalhistas e a plena importação de manufaturados.
c) Manutenção das barreiras fitossanitárias e a livre circulação de mercadorias.
d) Restrição dos fluxos migratórios e a maior atuação de sindicatos.
e) Proteção das florestas nacionais e a ampla transferência de tecnologias.
Resolução: Letra C
(UNESP-2021)
Enquanto atuava como uma fábrica de baixo custo, o crescimento da China era bem recebido pelos Estados Unidos, e sua ascensão como novo mercado consumidor era ansiosamente aguardada. Contudo, a partir de meados da década de 2010, a relação entre a potência emergente e a superpotência estabelecida passou a ser mais competitiva. Com a eleição de Donald Trump em 2016, sob a bandeira do ‘America First’ (América em Primeiro Lugar), a cordialidade chegou ao fim. Insatisfeito com o desequilíbrio comercial, o presidente americano deu início a uma guerra comercial em 2018. As consequências para as empresas foram significativas.
(Lucy Colback. [www.ft.com](http://www.ft.com/), 28.02.2020. Adaptado.)
O excerto descreve mudanças nas relações geopolíticas entre Estados Unidos e China nas últimas décadas. Essas mudanças resultaram em:
A) barreiras aos investimentos de empresas norte-americanas em território chinês, com o confisco de máquinas destinadas à produção.
B) medidas unilaterais e protecionistas do governo norte- -americano, com a adoção de tarifas adicionais aos produtos chineses.
C) soluções sustentáveis para setores industriais tradicionalmente poluidores, com o compartilhamento de fontes de insumos renováveis entre os dois países.
D) incentivos para a criação de indústrias binacionais, com o intercâmbio facilitado de trabalhadores qualificados.
E) sanções econômicas e diplomáticas do governo norte-americano, que restringiram o comércio da China com outros países.
Resolução: Letra B. Foram propostas medidas unilaterais e protecionistas (aumento de impostos) por parte do governo norte-americano contra produtos chineses (principalmente tecnológicos).
Referências
HOLLINGSWORTH, Julia. US added to human rights watchlist amid “bizarre” attacks on civil liberties during Trump’s second term. Time, 31 jul. 2025. Disponível em: https://time.com/7306493/us-human-rights-watchlist-civicus-trump/.
ÍNDIA. BRICS Summit 2025: Rio de Janeiro Declaration. Press Information Bureau, Government of India, 7 jul. 2025. Disponível em: https://www.pib.gov.in/PressReleasePage.aspx?PRID=2142786. CNN BRASIL.
Cúpula do BRICS divulga declaração final; leia a íntegra. CNN Brasil, 7 jul. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/cupula-do-brics-divulga-declaracao-final-leia-integra/.
BBC NEWS BRASIL. O que é o Círculo de Fogo do Pacífico e por que 90% dos terremotos do mundo ocorrem nessa área? BBC NEWS MUNDO, 30 jul. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwy540e4egvo#amp_tf=De %251%24s&aoh=17540190567743&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&share=https%3A%2F%2Fwww.bbc.com%2Fportuguese%2Farticles%2Fcwy540e4egvo
g1. Israel bombardeia Ministério da Defesa da Síria; VÍDEO mostra ataque. g1 MUNDO, 16 jul. 2025. Disponível em: https://share.google/RMLcr3sskQyRaAV2N
BBC NEWS BRASIL. Por que Israel ampliou ataques na Síria. BBC NEWS BRASIL, 16 jul. 2025. Disponível em: https://share.google/YSk1mPIpZaNdKuP28
CNN BRASIL. STF retoma trabalhos com expectativa de resposta de Moraes à sanção dos EUA. CNN Brasil, 29 jul. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/stf-retoma-trabalhos-com-expectativa-de-resposta-de-moraes-a-sancao-dos-eua/.
CNN BRASIL. Bolsonaro e outros seis réus têm 15 dias para apresentar alegações finais. CNN Brasil, 30 jul. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/bolsonaro-e-outros-seis-reus-tem-15-dias-para-apresentar-alegacoes-finais/.
G1. Falta de alimentos, desnutrição grave e mortalidade elevada: fome em Gaza atinge fase 5, o pior em escala de órgão ligado a ONU; entenda. G1, 29 jul. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/07/29/falta-de-alimentos-desnutricao-grave-e-mortalidade-elevada-fome-em-gaza-atinge-fase-5-o-pior-em-escala-de-orgao-ligado-a-onu-entenda.ghtml.
CNN BRASIL. Entenda como a crise de fome se agravou na Faixa de Gaza. CNN Brasil, 29 jul. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-como-a-crise-de-fome-se-agravou-na-faixa-de-gaza/
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