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Javier Milei: Dois Anos de Mandato na Argentina

Javier Milei: Dois Anos de Mandato na Argentina

Por Cecília Chalela e Stefano Romano

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Dois Anos de Escuridão

A bela capital argentina, Buenos Aires, virou a noite de Réveillon e o começo de 2026 na escuridão. O que se passou foi um apagão generalizado, causado pelo calor escaldante da estação e, principalmente, pela privatização da companhia responsável pelo fornecimento de energia, o que a tornou incapaz de arcar com a situação. Tais circunstâncias fazem desta cena uma alegoria do que tem sido, até então, o mandato de Javier Milei como presidente do país.

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Buenos Aires durante o apagão, em 31 de dezembro de 2025. Fonte: Times Brasil

No dia 10 de dezembro de 2025, completaram-se dois anos desde a posse do economista Javier Milei como presidente da Argentina, período que foi marcado pelo agravamento de crises econômicas, por declarações sensacionalistas e por grandes mudanças no âmbito político. Nesse sentido, o candidato do La Libertad Avanza tem se destacado não somente pela ideologia neoliberal, pelas excentricidades pessoais e pelas medidas drásticas, como também por uma política externa grotesca, como veremos ao longo deste artigo.

Uma Breve Biografia

Milei atualmente possui 55 anos de idade, é economista e político e, no momento, se encontra na metade de seus quatro anos de mandato como presidente da República Argentina. Sobretudo, no entanto, Javier Milei é, em alguns sentidos, uma típica figura excêntrica da extrema direita, ainda que hesite em se identificar como tal.

Em um discurso conservador, mas profundamente inconsistente, por exemplo, Milei defende a “família tradicional” e acredita que o casamento homoafetivo não deveria ser assegurado pelo Estado como um direito – a nível pessoal, todavia, o político se recusa a casar-se, apesar das recomendações de seus assessores, e prefere que sua família seja composta pelos “filhotes” de seu falecido mastim inglês, Conan. O cão faleceu em 2017 devido a um câncer de coluna, e Milei, que o considerava como “um filho”, decidiu enviar amostras de seu DNA para os Estados Unidos, obtendo quatro clones: Murray, Milton, Robert e Lucas, cujos nomes foram escolhidos em homenagem a economistas liberais. Segundo ele, Conan ainda pode ser contatado por meio de um médium.

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Milei junto de seus quatro cachorros clonados. Fonte: Estadão

Além disso, Milei defende a livre compra e venda de órgãos humanos, alegando que, tratando-se de uma “transação comercial entre pessoas adultas”, o Estado não deveria intervir. Aliás, sua postura combativa em relação ao Estado talvez possa ser explicada por sua origem relativamente humilde: o presidente cresceu na Amba, uma região metropolitana de Buenos Aires que é marcada por problemas sociais, como a pobreza e a desigualdade. Seu pai era um motorista de ônibus que, segundo as palavras do filho, “trabalhou a vida inteira e mal pôde sustentar a família”, e sua mãe era uma dona de casa.

Depois de ser um jogador de futebol e um roqueiro frustrado – período no qual se originam a tradicional jaqueta de couro e o corte de cabelo peculiar de Milei – o político decidiu se dedicar à economia, conseguindo ingressar na Universidade de Belgrano para cursar a graduação. Logo depois, especializou-se na Universidade Torcuato di Tella (vale apontar que ambas são instituições privadas), e tornou-se professor e consultor, trabalhando para grandes empresários e companhias e sendo economista sênior no grupo HSBC. Nesse período, começou a escrever livros, como “El fin de la inflación”, em cuja capa Milei é retratado como se estivesse prestes a, de fato, eliminar os problemas econômicos da Argentina com um passe de mágica.

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Capa do livro de Milei, intitulado “El fin de la inflación”. Fonte: Editora Planeta

Em 2012, Milei passou a estar à frente do setor de Estudos Econômicos do think tank argentino Fundación Acordar, instituição cujo objetivo é influenciar o planejamento administrativo e o pensamento político no país. Cinco anos depois, em 2017, a imagem pública do atual presidente começava a se moldar de maneira mais definitiva, com a criação, por ele, do programa de rádio Demoliendo Mitos. No programa, Milei, vestido informalmente em sua sala de estar, fazia declarações extravagantes, dizendo-se anarcocapitalista e expressando seus primeiros desejos de eleição. Esse empreendimento foi um fracasso, mas lançou Javier Milei aos olhos da mídia, recebendo convites para participar de programas de entrevista – as chamadas farándulas – na TV. Neles, Milei se tornou famoso por fazer comentários obscenos e falar abertamente sobre seu relacionamento pouco caloroso com seus pais.

Já em 2021, Milei aventurou-se nas eleições pela primeira vez, concorrendo ao cargo de deputado em nome de seu recém-criado partido, o La Libertad Avanza, obtendo sucesso e se elegendo, muito provavelmente, graças a seus comícios eleitorais exóticos, que envolviam desde efeitos especiais até música heavy metal. Durante o mandato de parlamentar, Milei continuou se empenhando na tarefa de promover sua própria imagem, falhando miseravelmente em exercer seu trabalho. Dentre seus colegas, ficou conhecido pela prática de tentar sabotar os projetos propostos pelos peronistas, fosse votando contra ou deixando a sala para que o quórum não fosse atingido.

Milei produziu muitos adversários políticos e pessoais durante seu tempo como parlamentar, e muitos deles expressaram publicamente, na época, seu ceticismo de que algum dia esse sujeito pudesse chegar à presidência. Como sabemos, eles estavam enganados.

As eleições de 2023 foram marcadas, na Argentina, por um profundo desagrado em relação à continuidade dos governos anteriores, e permeado por um desejo, ainda que bastante abstrato, de mudança. Assim, em oposição a Sergio Massa – líder da coalizão peronista que representava uma tendência de continuidade das políticas governamentais dos últimos anos – Milei surgiu, por mais improvável que fosse, como uma possibilidade de “voto de protesto”, unindo, segundo o professor Pablo Touzon, da UBA, o libertarianismo econômico a uma agenda ultraconservadora, de modo a chamar a atenção das massas descontentes. Assim, Milei obteve grande sucesso em propagandear a ideia de que, para obter a prosperidade, a Argentina precisava passar por um período de dificuldades, cortes de gastos drásticos e recessão, e de que, sobretudo, os efeitos negativos da austeridade não atingiram seus eleitores, e sim – em uma evidente repetição do discurso antiperonista empregado na década de 70 – os “políticos corruptos”, os sindicalistas, os rentistas privados e os “sanguessugas” beneficiários de assistência social, que teriam, juntos, conduzido o país à situação na qual ele então se encontrava. No segundo turno, Milei venceu Massa com esmagadores 56% dos votos, e garantiu seu lugar na Casa Rosada.

“Hoje começa uma nova era na Argentina. Hoje damos por terminada uma longa e triste história de decadência e declínio e começamos o caminho de reconstrução de nosso país. Os argentinos, de maneira contundente, expressaram uma vontade de mudança que já não tem retorno. […] Hoje enterramos décadas de fracasso, lutas intestinas e disputas sem sentido que só conseguiram destruir nosso país e nos deixar na ruína. Hoje começa uma nova era na Argentina. Uma era de paz e prosperidade, uma era de crescimento e desenvolvimento, uma era de liberdade e progresso”.

Assim começou o discurso de posse de Javier Milei, que falou por trinta minutos para os apoiadores que o assistiam em frente ao Palácio do Congresso. Esse pequeno trecho é bastante representativo da propaganda ideológica de Milei, bem como a decisão de quebrar o protocolo usual da cerimônia e de discursar para a população.

Isso porque, como outras figuras políticas de direita no mundo – vejamos Jair Bolsonaro, Nayib Bukele e Volodymyr Zelensky, por exemplo – o economista busca se apresentar como um “homem do povo”, em oposição a quem o presidente se refere, com escárnio, como “a casta”. Para Milei, todavia, “a casta” assume um significado deveras particular. Como esclarece o historiador Paulo Pryluka, “a casta” à qual o presidente se refere não é, simplesmente, uma espécie de elite política tradicional indefinida, mas sim todos aqueles que sustentam o que consiste, em seu ponto de vista, no grande empecilho à prosperidade da Argentina: a democracia. Para angariar o apoio popular, portanto, Milei tende a reforçar sua persona de “outsider político” ao mobilizar a narrativa de que essa forma de governo permite que um grupo de políticos corruptos explore as massas. Nessa linha de raciocínio, os referidos políticos fazem uso do aparato estatal para permanecer no poder, ao utilizar o suborno para obter apoio político no que configura uma espécie de clientelismo (prática política de troca de favores), transformando o déficit orçamentário em um mecanismo cuja presença é pré-condição para sua sobrevivência como classe.

Em oposição, se encontram as “forças do céu” – em expressão bíblica empregada pelo próprio Milei – composta por aqueles que, sem devaneios, buscam implementar a “política da motosserra”. Ao longo da duração de seu mandato, todavia, tem-se detectado uma tendência de absorção da direita tradicional – sendo uma dessas figuras o ex-presidente Mauricio Macri – por essas forças divinas, mesmo que esta outrora fosse tida como parte da “casta política”. Alguns estudiosos consideram que essa conciliação pode significar um afrouxamento do fervor retórico de Milei e, outros, que se trata de nada além do reconhecimento prático de que tais alianças são necessárias à sobrevivência de seu mandato, e que, assim sendo, ainda há espaço para que seu governo derive para uma linha ideológica mais dura. Em suma, Milei busca fazer crescer entre seus apoiadores a ideia de que a política é sinônimo de “discurso”, de “manipulação”, e se apresenta como alternativa, enquanto, paradoxalmente, a ferramenta utilizada para tanto se trata justamente daquilo que Milei condena.

Um elemento que perdura no discurso político de Milei, em contrapartida, é a projeção, na esquerda, de um “bode expiatório”, o que desencadeia uma batalha cultural que afeta sobretudo trabalhadores sindicalizados, mulheres, classes em situação de fragilidade econômica e minorias como LGBTs e pessoas racializadas. Sinal disso foi a ameaça de retaliação proferida por Patricia Bullrich, ministra da Segurança, contra as manifestações populares, que só reforça o sentimento da população de que a repressão estatal é a única maneira de deixar os anos Kirchner – dos bloqueios de rua e das manifestações públicas – no passado. Para Pryluka, o projeto de Milei consiste em “encerrar uma longa história nacional de ação coletiva, trabalho organizado e solidariedade popular”, em uma tentativa de “desencadear uma revolução cultural” que atinge diversos âmbitos da sociedade e até mesmo da memória argentina.

Apagar Para Governar: o Esquecimento Programado da Ditadura

A ditadura militar, que assolou a Argentina entre 1976 e 1983 sob o nome de “Processo de Reorganização Nacional” é, sem dúvidas, um dos eventos mais marcantes da história do país.  Em meio a uma onda de golpes militares financiados pelos Estados Unidos e de apossamentos de regimes autoritários na América do Sul durante o mesmo período, a ditadura argentina é, ainda assim, tida como a mais sangrenta do continente, marcada por crueldades inimagináveis e pelo “desaparecimento” de algo entre 10.000 e 30.000 pessoas.

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Militares em frente à Casa Rosada no dia do golpe que depôs Isabelita Perón. Fonte: Bettman/Corbis/Latinstock

Por essa razão, a memória do que se passou durante os anos sombrios da ditadura militar esteve consideravelmente viva desde então, o que se traduz por datas como o 24 de Março, momento da redemocratização e dia oficial da lembrança, e pela dedicação da população e dos Três Poderes para encontrar as vítimas perdidas e condenar os culpados legalmente. Mas esse cenário mudou, em 2023, com a eleição de Javier Milei, que tem empreendido significativos esforços, ao longo de seus dois anos de mandato, para apagar de forma sistemática a verdadeira lembrança da ditadura, distorcendo-a e negando-a.

Assim tem sido desde o começo da carreira de Milei: nos anos 1990, o economista atuou como conselheiro do general Domingo Bussi, que encabeçou a Operação Independência, na qual famílias argentinas inteiras foram sequestradas e executadas extrajudicialmente. Eduardo Villarruel, pai da atual vice-presidente Victoria Villarruel, também participou dessa ação militar ilegal. Durante uma conversa com Sergio Massa, candidato da coalizão de tendência peronista Unión por la Patria, no contexto dos debates eleitorais, Milei declarou abertamente que “Para nós, na década de 1970, houve uma guerra e, nessa guerra, as forças do Estado cometeram excessos”. Ora, muitos dos cidadãos argentinos assassinados nem mesmo possuíam quaisquer ligações com os denominados “movimentos suvbersivos” de esquerda, e eram artistas, advogados, parentes, freiras, padres e jornalistas. Logo, é no mínimo cínico alegar que um caso de evidente perseguição, tortura e assassinato pelas próprias Forças Armadas consistiu em uma “guerra” e, ao fazê-lo, implica-se a sugestão de que a ditadura nada mais foi do que uma longa luta da qual participaram dois “lados” em pé de igualdade, como esclarece o sociólogo e jornalista Daniel Cholakian.

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Victoria Villarruel, vice-presidente, junto de Javier Milei. Fonte: Senado da Argentina

No dia 22 de março de 2024, uma mulher participante do grupo HIJOS, formado por filhos de desaparecidos pelo regime, foi atacada por homens armados que invadiram sua casa, e que lhe disseram “Sabemos tudo sobre você, sabemos onde você trabalha, o que faz, que está com [organizações] de direitos humanos […] Não viemos para te roubar, viemos para te matar”. O ataque foi denunciado pelos HIJOS e, em resposta, Javier Milei curtiu uma publicação no X que insinuava que o ataque teria sido falsificado com o objetivo de enfraquecer seu governo. Dois dias depois, no próprio dia 24 de março, a conta oficial da Casa Rosada no YouTube publicou um vídeo intitulado “Día de la Memoria por la Verdad y la Justicia. Completa.”. O vídeo começa com uma frase apropriada de Milan Kundera: “Para liquidar as nações, a primeira coisa a ser feita é tirar delas sua memória. Se destroem seus livros, sua cultura, sua história. E logo vêm e escrevem para elas outros livros, dão a elas outra cultura e inventam para elas outra história. Então a nação começa a esquecer o que é e o que foi”. Em seguida, são entrevistados Juan Bautista, escritor, María Fernanda Viola, que alega ter sido “vítima do terrorismo do ERP” e Luis Labraña, um “ex-guerrilheiro” que participou das guerrilhas peronistas Montoneros, FAP e FAR. Ao longo dos doze minutos de conteúdo audiovisual, os três defendem incessantemente o ponto de vista da “teoria dos dois males”, ou seja, de que a ditadura militar argentina foi uma guerra entre terroristas e militares cujo efeito colateral foi a morte de civis inocentes.

E essa atitude perante o genocídio argentino não se limita à figura de Milei: em 20 de março de 2024, o Ministro da Defesa, Luis Petri, esteve presente em um evento organizado no Círculo Militar, e no qual foi lançado o livro “Argentino del Valle Larrabure: mártir de Dios y de la Patria” que, supostamente, reune provas da inocência do coronel, sequestrado e morto pelo Ejército Revolucionario Popular (ERP) em 1975, um ano após o começo da ditadura militar. Petri foi convidado a falar, e declarou que a atuação das Forças Armadas na década de 70 estaria sendo  injustamente condenada como “demoníaca” por alguns setores da sociedade argentina. No mesmo evento, o ministro foi fotografado junto de Cecilia Pando – presidente da Asociación de Familiares y Amigos de Presos Políticos en Argentina (AFyAPPA) – e de outras esposas de militares condenados pela Justiça e presos por crimes contra a humanidade. A ocasião se deu em um período concomitante à campanha do governo Milei contra o narcotráfico na cidade de Rosario, terceira maior do país, para a qual seriam enviados contingentes das Forças Armadas, e, acerca da questão, Petri afirmou que “Há um fio condutor entre o combate ao terrorismo do passado e a necessidade de atuar em Rosario”.

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Cecilia Pando junto a Luis Petri em publicação no X. Fonte: X

Às vésperas do fim de seu primeiro ano de mandato, Milei começou a investir mais concretamente contra aqueles que buscam manter viva a memória da ditadura argentina. No dia 31 de dezembro, Alberto Baños, Secretário de Direitos Humanos da Nação, anunciou via WhatsApp as primeiras demissões de funcionários do Centro Cultural de Memória Haroldo Conti, instalado onde outrora funcionou a Escuela de Mecánica de La Armada (ESMA), uma instalação militar clandestina dedicada à repressão política e à tortura de prisioneiros durante a ditadura. A partir do dia 2 de janeiro de 2025, as dezenas de trabalhadores demitidos foram impedidos de acessar seu local de trabalho, e os salários dos que restaram foram reduzidos pela metade. Ultrajada pelo ataque, Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, acusou publicamente o presidente de querer fechar permanentemente a ex-ESMA. Carlotto também disse que “Dizem que é para limpar, dizem que é para organizar, mas para mim é destruir os espaços que falam da verdadeira história argentina, e que eles não querem que existam”. De fato, o Centro Cultural esteve “fechado temporariamente” desde então, com a desculpa, segundo Baños, de uma “restauração”.

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As Avós da Praça de Maio e a Associação dos Trabalhadores do Estado da Argentina em um protesto contra o fechamento do Museu, em Buenos Aires, no dia 4 de janeiro de 2025. Fonte: Opera Mundi

Esses ataques concretos, no entanto, não se limitaram ao Museu da Memória, mas foram direcionados, também, à ciência que busca pelos desaparecidos da ditadura. Dentre os 30.000, ao menos 358 eram mulheres grávidas, que foram encarceradas até que seus filhos nascessem e, depois, assassinadas. Quanto aos seus bebês, estes foram distribuídos entre famílias de policiais e de militares e tiveram quaisquer registros de sua verdadeira origem ocultados ou destruídos.

Muitas das mães e avós dessas crianças, todavia, nunca desistiram de encontrá-las novamente, fundando o famoso movimento social das Abuelas de Plaza de Mayo – localidade no coração de Buenos Aires que está em frente à Casa Rosada – promovendo manifestações públicas munidas de lenços brancos, atos de espionagem e investigações que se iniciaram durante a ditadura e permanecem até hoje, com os objetivos de protestar pelos filhos assassinados e de tentar localizar os filhos perdidos. Uma das iniciativas do movimento foi pressionar e contribuir para a fundação do Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), uma instituição científica que tem, durante quarenta anos, sido bem-sucedida em restaurar as crianças sequestradas pelas Forças Armadas às suas famílias biológicas. Após a queda da ditadura em 1983, e com a ajuda da geneticista americana de ideais progressistas Mary-Claire King, as abuelas foram pioneiras na utilização do sangue das avós – visto que, muitas vezes, não se dispunha dos genitores dos bebês – para identificar seus netos há muito perdidos, desenvolvendo ferramentas como o Índice de Avosidade e implementando o uso do DNA mitocondrial, que só é transmitido pelo lado materno.

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As Abuelas de Plaza de Mayo se manifestando durante a ditadura. Fonte: Papelitos

No entanto, como já sabemos, Javier Milei tem sido deveras agressivo em sua campanha para “cortar com a motosserra” os gastos públicos, e dentre eles, é claro, os gastos com pesquisa científica. Isso coloca o BNDG em sério risco, bem como a chance das abuelas de reencontrar seus netos, visto que algumas delas já ultrapassaram os 100 anos. O presidente, inclusive, infringiu danos deliberados ao movimento, eliminando os subsídios do governo e extinguindo um órgão estatal que colaborava diretamente com essas mulheres e sua missão. No dia 22 de maio de 2025, ainda, Milei emitiu um decreto que ordenava a “reestruturação” do biobanco, isto é, a submissão deste à disposição do governo. A medida, felizmente, foi parcialmente barrada pelo Judiciário no mês de junho.

Em resposta, a parcela do povo argentino que se opõe ao regime de ultradireita de Milei foi às ruas no dia 24 de março e a multidão tomou a Plaza de Mayo como nunca antes, com meio milhão de pessoas. Os protestos também ocorreram em grandes cidades como Córdoba e Rosario, com milhares de participantes.

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Manifestação na Plaza de Mayo no dia 24 de março de 2024. Fonte: Fernanda Paixão

Como relata a cobertura realizada pela Jacobina, estava presente no ato o cineasta Andres Habbeger, cujo pai era um militante peronista que foi sequestrado no Rio de Janeiro em uma ofensiva da Operação Condor. Caminhando ao lado de sua filha, Habbeger afirmou que “o que essa marcha faz é reverter isso, dizer ‘essa é a nossa história, isso aconteceu e a carregamos em nossos corpos, em nossas vozes, e convivemos com ela’”. Assim, esses filhos cujas identidades foram roubadas, suas mães, seus pais e suas abuelas seguem mantendo viva a memória do genocídio perpetrado pelas Forças Armadas na Argentina e, consequentemente, combatendo o projeto do esquecimento arquitetado pelo governo reacionário de Milei, que busca, nas palavras do cientista social Daneil Feiestern, legitimar a violência do passado para justificar a possível violência do futuro.

Economia no Governo Milei

A Argentina Pré-Milei

Para além do recrudescimento político, os dois primeiros anos do mandato de Milei foram também marcados, é claro, por uma reviravolta naquela que foi a principal temática dos debates eleitorais de 2023: a economia. Hiperinflação, déficit fiscal, pobreza, escassez de investimentos… são apenas alguns dos muitos sintomas da crise econômica que assola a nação alviceleste há tempos e parece não ter fim. 

Os tropeços econômicos, entretanto, nem sempre fizeram parte da história social deste país: de acordo com um estudo feito na Universidade de Groningen, no fim do século XIX, a Argentina chegou a ocupar o posto de sexta nação mais rica do mundo (em PIB per capita), à frente de grandes potências como a Alemanha, França e Itália. O passado de riqueza, entretanto, seguiu-se dos chamados “100 anos do declínio argentino”, durante os quais a instabilidade política, a falta de continuidade de políticas econômicas e o mal planejamento governamental fizeram desta a única nação a deixar de ser desenvolvida para, novamente, ser considerada “em desenvolvimento”. 

O princípio da década de 2.000 – quando a economia argentina, impulsionada pelo boom de preço das commodities, voltou a crescer – fez parecer que a era de declínio nacional finalmente teria chegado ao fim. O choque financeiro de 2008, porém, calou os ânimos populares, e o fantasma da crise econômica retornou. 

Desde então, sucessivos projetos políticos de reestruturação econômica falharam, até que, em 2023, ao fim do governo do peronista Alberto Fernández, a instabilidade econômica chegou ao seu auge: a inflação anual atingiu o incrível marco de 211,4%, o que, junto à recessão econômica (um decréscimo de -1,9% no PIB), tornou a manutenção do peronismo no poder insustentável. Como resultado, o povo, descrente da política tradicional e assombrado pelo peso da decadência nacional, elegeu, com margem apertada, Javier Milei, uma das figuras políticas mais controversas da história do país. 

Terapia de Choque

Por vezes apelidado de “o herói dos sonegadores de imposto”, Milei assumiu o poder da Casa Rosada sob a promessa de controlar a inflação e retomar o crescimento econômico. Seu obstáculo: a herança de uma nação quebrada, endividada e aterrorizada pela hiperinflação, pela desvalorização vertiginosa de sua moeda e por um Banco Central falido. 

Milei é famoso por sua atitude política agressiva e disruptiva. A economia não fugiu desta abordagem: desde o início de seu mandato, o líder de La Libertad Avanza deu vida a uma política econômica sem precedentes, firme mas controversa: uma verdadeira “Terapia de Choque”. 

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Javier Milei empunhando uma motosserra durante a campanha presidencial de 2023. Fonte: Folha – UOL

A abordagem do presidente argentino, tal como prometido em sua campanha eleitoral, veio de encontro com os preceitos neoliberalismo: diminuição do tamanho do Estado, desregulamentação de mercados, redução dos gastos públicos e da carga tributária, privatização da economia, entre outros. Desde o início do mandato, ainda em Dezembro de 2023, os efeitos desta nova política econômica já passaram a ser sentidos pelos mercados e pela população.

Um dos principais marcos das eleições de 2023 foi a frequente imagem de Milei empunhando uma motosserra, uma metáfora para a promessa de uma política fiscal violentamente austera. Mais tarde, veio a prova de que não se tratava de um blefe: apenas nos primeiros 6 meses de mandato, foi empreendido um impressionante corte de 35% dos gastos públicos, equivalente a 5,6% do PIB argentino.

A lógica por trás desse movimento é simples: ao reduzir a despesa estatal, diminui-se a necessidade de emitir moeda, o que, por sua vez, reduz a inflação. Os resultados, neste caso, foram positivos: ao fim de 2024 e 2025, respectivamente, a Argentina registrou inflações anuais de 117,8% e 31,5%. São valores ainda altos, mas que, comparados aos assustadores patamares do país nas últimas décadas, configuram um alívio à economia local. 

Entretanto, nos últimos meses, a inflação mensal voltou a crescer: de Maio a Dezembro de 2025, o índice saltou de 1,5% a 2,8%. Em resposta a isso, o presidente argentino prometeu que, a partir de Agosto de 2026, tais números estarão abaixo de 1% ao mês. Porém, projeções do Banco Central argentino indicam que estes valores provavelmente serão maiores.

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Taxa mensal de inflação na Argentina. Fonte: Trading Economics

Além disso, a drenagem das contas públicas rendeu ao governo dois anos seguidos de superávit fiscal. Em outras palavras, em 2024 e 2025, o governo arrecadou mais do que gastou, o que não ocorria desde 2010. Para os apoiadores do governo, esta foi uma de suas principais conquistas: a responsabilidade fiscal.

Tais reformas contribuíram também à recuperação da credibilidade financeira da Argentina, abrindo caminho para uma reconciliação com o Fundo Monetário Internacional e com o capital extrangeiro. O principal reflexo disso foi o comportamento do Risco-País, indicador responsável por medir a probabilidade de uma nação dar calote em suas dívidas externas – o que, indiretamente, reflete a confiança dos investidores estrangeiros para injetar recursos na região.

O Risco-País argentino, que alcançara o catastrófico patamar de 2500 pontos em 2023, chegou, em Janeiro de 2025, à positiva marca dos 560 pontos, a menor em muitos anos. Posteriormente, as cifras voltaram a subir mas, no começo de 2026, aproximaram-se novamente dos 500 pontos.

Esta, até agora, é uma das principais vitórias da administração Milei, pois a reconquista do capital internacional é essencial à uma nação como a Argentina, que carece de soberania econômica e, portanto, depende excessivamente do investimento externo. Ademais, a queda do Risco-País facilita a negociação de empréstimos por um custo bem menor, o que tende a aliviar a pressão inflacionária e a dívida externa. 

O meio mandato de Milei, entretanto, não foi feito só de conquistas, e os custos sociais e econômicos das bruscas reformas fiscais têm cobrado um preço alto.

Nem Tudo São Flores: os Efeitos da Austeridade

A reforma neoliberal de Javier Milei vem sendo mediada principalmente pelo congelamento orçamentário de setores como educação, saúde, pesquisa científica e obras públicas. Junto disso, a revogação de tetos de preços e subsídios, o congelamento de salários e a demissão em massa de funcionários públicos também vêm tendo papel importante. 

Para além da já citada estabilização de alguns indicadores macroeconômicos, as consequências dessa nova política econômica são adversas. Só no primeiro semestre de 2024, a parcela da população argentina vivendo abaixo da linha da pobreza saltou de 41,7% para impressionantes 52,9% e, como consequência, a fome cresceu em consideráveis proporções.

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Pobreza na Argentina: a favela Villa 31, em Buenos Aires. Fonte: UOL

A redução da inflação, portanto, gerou poucos benefícios ao dia a dia do povo: os preços, mesmo que em um ritmo reduzido, continuam a subir, não só devido à inflação como também à eliminação de subsídios e tetos de preço; em contraste, o congelamento dos salários e a retração do mercado de trabalho reduzem cada vez mais a renda popular. O resultado é que os produtos continuam a encarecer, mas o povo carece de recursos, configurando uma queda de proporções históricas no poder de compra dos argentinos. Para fins de comparação, no segundo semestre de 2023 (antes de Milei), a Argentina ocupava a nona posição no ranking de maiores custos de vida da América do Sul. Dois anos depois, passou a ocupar a terceira posição, atrás apenas de Uruguai e Guiana.

Além disso, a desigualdade social cresceu desde que o líder de La Libertad Avanza assumiu o poder. Isso porque, enquanto as classes mais abastadas se beneficiam dos ajustes macroeconômicos e da desregulamentação dos mercados, as classes baixas arrecadam e consomem cada vez menos. Com a renda mais concentrada em poucas mãos, a qualidade de vida da população piora.

Os efeitos econômicos das reformas de Milei não param por aí: para além da piora de indicadores sociais, o desemprego, a queda do consumo, a paralisação dos investimentos estatais e a instabilidade política têm afetado também o crescimento econômico na Argentina. Desde o início do mandato, mais de 1.900 estabelecimentos comerciais encerraram suas atividades. Ademais, especialmente o setor industrial tem sofrido com os elevados custos de produção e a redução do consumo. Consequentemente, no ano de 2024, houve recessão (a economia argentina encolheu -1,3%). Já no ano de 2025, ainda a passos de tartaruga, o crescimento foi retomado. 

Todavia, nos últimos meses, a pobreza na Argentina voltou a cair. De acordo com dados do governo, no terceiro trimestre de 2025, 27,5% da população encontrava-se abaixo da linha da pobreza, indicando uma melhoria expressiva. Entretanto, um importante relatório publicado pelo Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA) expôs que, por questões técnicas de cálculo, os dados superestimam a melhora social. Apesar disso, o estudo não nega que, mesmo assim, tenha havido uma recuperação que, em alguns indicadores, tenha inclusive superado os patamares pré-Milei. 

Independentemente das vitórias e derrotas, 2 anos é pouco tempo e, portanto, ainda é cedo para avaliar com propriedade o saldo total das mudanças. Ainda assim, alguns críticos e especialistas já alertam que as reformas de Milei atacam “a ponta do Iceberg”, negligenciando a necessidade de combater o problema em sua raíz. Inflação, endividamento público, recessão… estes são apenas os sintomas da crise, mas suas causas são muito mais estruturais e antigas do que o ultralibertário faz parecer. O equilíbrio nas contas públicas é importante, mas, sozinho, pode não ser capaz de estabilizar a economia argentina em um longo prazo. Para estes críticos, é preciso, para além disso, pensar em um projeto de longo prazo que transfigure a estrutura produtiva e comercial do país, movendo-a para setores mais diversificados, estáveis e estratégicos.

Política Externa na Era Milei

A Espetacularização da Geopolítica

Milei, ao se eleger presidente em 2023, entrou para a extensa lista de prêmies da extrema-direita que comandam nações por todo o globo terrestre. Desde então, o líder de La Libertad Avanza vêm nutrindo boas relações com nomes como Donald Trump, Viktor Orbán e Benjamin Netanyahu, ao mesmo tempo em que coleciona desentendimentos com presidentes que não se alinham com seus ideais políticos. 

Um exemplo gritante desses desentendimentos é o caso das relações com o Brasil, o principal parceiro econômico da Argentina. Milei nunca escondeu sua proximidade ideológica com Jair Bolsonaro, inimigo histórico de Lula que, atualmente, está preso por envolvimento em tentativas de golpe de Estado. Inclusive, não foram raras as vezes em que o líder argentino dirigiu ofensas a Lula: “corrupto”, “comunista”, “totalitário” e até mesmo “perfeito dinossauro idiota” são apenas alguns exemplos. 

Um dos principais desentendimentos diplomáticos de seu governo se deu com a Espanha. No primeiro semestre de 2024, Milei viajou para o país europeu não para se encontrar com representantes do governo local, mas sim, para comparecer a um evento organizado pelo partido de extrema direita local, Vox. Na ocasião, além das costumeiras críticas ao socialismo, o argentino acusou a esposa do presidente espanhol, o socialista Pedro Sánchez, de ser corrupta. A primeira dama, à época, era investigada por crimes de corrupção e tráfico de influência. A fala inaugurou uma crise diplomática entre os dois países, a qual, no fim, resultou na retirada do embaixador espanhol de Buenos Aires. 

Eventos como estes revelam um padrão de ação no que tange à política externa: o apelo à lógica da espetacularização. Nesse sentido, assim como outros líderes da extrema direita global, Milei intencionalmente atrai polêmicas, ofende líderes de Estado e constrói uma imagem de pouca polidez diplomática. Trata-se de uma estratégia para consolidar seu personalismo na política doméstica e internacional.

Em contraste, ao dirigir-se a nações como os Estados Unidos, Milei deixa de lado seu tom agressivo e disruptivo, optando por uma retórica mais amigável. Essa abordagem consolidou-se essencialmente a partir do início do mandato de Donald Trump, a quem Milei não economiza elogios. A admiração, inclusive, não demorou a surtir efeitos práticos em sua política externa: em Fevereiro de 2025, o ultralibertário anunciou que retiraria a Argentina da OMS, pouco depois de os EUA terem feito o mesmo. A decisão é, até hoje, alvo de fortes críticas da oposição interna na Argentina. 

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Milei ao lado de Trump em visita à Casa Branca. Fonte: Infomoney

Apoio a Netanyahu e Alinhamento Com o Genocídio Palestino

Como visto, não é uma novidade que os princípios de ultradireita de Milei estejam alinhados aos do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Este, como sionista, acredita na limpeza étnica do povo palestino, contra o qual tem investido, desde 2023, em mais uma onda violenta do genocídio – ou Nakba – que se prolonga desde a segunda metade do século XX. O apoio de Milei a esse projeto, todavia, se tornou significativamente mais vocal e deliberado ao longo de 2025.

A manifestação mais recente desse alinhamento se deu recentemente, quando o presidente estadunidense, Donald Trump, fez um convite formal às autoridades administrativas de alguns países ao redor do mundo – dentre elas, Lula – para fazer parte de um suposto “Conselho de Paz” para Gaza. A iniciativa faz parte do plano de vinte pontos do governo Trump para “acabar” com a “guerra” entre Israel e o Hamas, e Javier Milei foi um dos primeiros a aceitar o convite, e esteve presente na cerimônia de oficialização que ocorreu no dia 22 de janeiro de 2026, no Fórum Econômico Mundial, sediado em Davos, na Suíça.

O presidente argentino também visitou Israel e suas zonas de ocupação duas vezes durante o período de seu mandato. Na primeira visita, ocorrida em 6 de fevereiro de 2024 – correspondendo, portanto, a sua segunda viagem internacional como presidente, o que é bastante significativo – Javier Milei esteve em Jerusalém ocupada e foi fotografado em um momento de aparente emoção, no Muro das Lamentações. Lá, ele foi recebido pelo rabino Shmuel Rabinowitz e, junto dos outros representantes de seu governo que participaram da visita oficial, tomou parte em uma cerimônia que homenageou os israelenses mortos em 7 de outubro de 2023, durante o ataque do Hamas.

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Milei durante sua visita ao Muro das Lamentações. Fonte: Ministério das Relações Exteriores da Argentina

Ainda na mesma viagem, Milei fez uma série de declarações fervorosas de suporte ao Estado genocida de Israel: dentre elas, alegou que se converteria ao judaísmo e que, seguindo os passos de Trump, transferiria a embaixada argentina de Tel Aviv para Jerusalém – cidade cujo controle total, como se sabe, é aspirado por Israel. Até o momento atual, Milei não cumpriu nenhuma de suas promessas.

Em sua segunda viagem a Jerusalém, em 11 de junho de 2025, o presidente participou de uma sessão da Knesset – assembleia legislativa unicameral de Israel – na qual fez um discurso. Em sua fala aos parlamentares, Milei reiterou o compromisso de transferência da embaixada, alegando estar “orgulhoso em anunciar” que esse plano será concretizado em 2026. Ele também declarou seu repúdio à comunidade internacional, que estaria sendo “manipulada por terroristas”, e acusou a ativista sueca Greta Thunberg, presa ilegalmente e torturada pelo exército israelense, de ser uma “mercenária em busca da atenção da mídia”.

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Milei e Netanyahu apertam as mãos na Knesset. Fonte: Reuters

Em uma grande demonstração de incoerência, Milei também disse que “Israel é um exemplo radical de todos os valores que fizeram o Ocidente grande, porque em sua fundação era pouco mais que um deserto. Em apenas quase 70, 80 anos foi convertido, graças ao trabalho incansável de seus cidadãos, em um oásis de prosperidade e crescimento. Por isso, apoiar Israel é necessário para o nosso país, porque significa apoiar os valores que há cem anos nos fizeram grandes, mas que abandonamos, e por abandoná-los nos afundamos na miséria. É assim que hoje, mais do que nunca, temos que redobrar nosso compromisso com o bem e a verdade, tanto dentro como fora do país. Hoje, mais do que nunca, é nosso dever moral defender a verdade desses valores judaico-cristãos, porque sem dúvidas, esse compromisso firme com o bem, sem importar as críticas, mostra ao mundo que hoje somos um país melhor. E isso também é algo necessário para fazer a Argentina grande novamente”. Vale lembrar que, em seu discurso de posse, Milei vangloriou a conquista da independência argentina em relação ao status anterior do país como colônia espanhola, e que, agora, defende abertamente a exploração e a liquidação de outro povo oprimido.

Já em 25 de setembro de 2025, Javier Milei voltou a se reunir com Benjamin Netanyahu, desta vez em Nova York. No encontro, o presidente expressou seu apoio incondicional, bem como o desejo de colaborar com as autoridades israelenses para libertar os três reféns de origem argentina que se encontravam detidos na Faixa de Gaza desde outubro de 2023, como informou Manuel Adorni, porta-voz do governo. Durante a mesma estadia nos Estados Unidos, Milei também marcou reuniões com Claudio Epelman, diretor do Conselho Judaico Latino-Americano, e com Donald S. Lauder, presidente do Congresso Mundial Judaico.

Perto do fim de 2025, em 28 de novembro, o governo Milei lançou, em parceria cultural, política e econômica com Israel, os “Acordos de Isaac”, nomenclatura inspirada nos Acordos de Abraão mediados pelos Estados Unidos entre Israel e os países árabes aliados. A apresentação dos acordos – cujo objetivo é fortalecer a imagem deteriorada de Netanyahu no cenário internacional e, em especial, na América Latina – aconteceu um dia depois, em 29 de novembro, com a presença de Gideon Sa’ar, Ministro das Relações Exteriores israelense.

Os Acordos de Isaac foram financiados pela Genesis Prize Foundation, e apoiada por organizações sem fins lucrativos estadunidenses, e busca estabelecer projetos colaborativos nas áreas de tecnologia, segurança – isto é, de combate a movimentos latino-americanos pró-palestina – e comércio, tendo países latinos como o Panamá, a Costa Rica e o Uruguai sob sua mira. Em outras palavras, Milei busca se colocar – e a seu país – como um baluarte regional da “luta contra o terrorismo”, em repúdio à onda anti-sionista que tem se alastrado pela América Latina.

O Combate à América Latina

Quando os Estados Unidos de Donald Trump atacaram a costa e a capital da Venezuela, Caracas, e sequestraram o presidente e a primeira-dama do país na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, a América Latina condenou essa ação militar que infringe gravemente a lei internacional e a soberania venezuelana. Díaz-Canel, presidente de Cuba, disse que o ocorrido consistiu em um caso de terrorismo de Estado, e Gustavo Petro, da Colômbia, assim como Gabriel Boric, do Chile, e Claudia Scheinbaum, do México, expressaram preocupação, solidariedade e repúdio.

Na Argentina, no entanto, Javier Milei comemorou. Sua manifestação, como de costume, deu-se nos termos “La libertad avanza. Viva la libertad, c*****”. Milei publicou no X, ainda, um recorte em vídeo de seu discurso a respeito do sequestro, no qual a imagem de Milei era alternada com vídeos em que Lula escutava, como se reagisse a sua fala. Ao fim do vídeo, foi adicionada uma fotografia em que Maduro e Lula se abraçam em frente à bandeira da Venezuela, em uma clara provocação. O presidente brasileiro já classificou o sequestro como “inaceitável”, além de já ter alertado para os novos perigos que podem ser desencadeados por ele.

A postura de Milei em relação ao sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, é representativa da abordagem que o presidente argentino tem adotado em relação à América Latina, com uma forte tendência de “entreguismo” aos Estados Unidos.

Além de ser um crítico enfático do Mercosul e de priorizar acordos econômicos com o Norte Global, pode-se dizer que o projeto de separação entre a Argentina e o restante da América do Sul tem assumido, no governo Milei, contornos cada vez mais literais. O maior exemplo disso foi a declaração da intenção de instalar uma cerca de aço e arame farpado na fronteira com a Bolívia. A cerca substituiria o muro baixo já existente no local, teria 200 metros de extensão e 2,5 metros de altura, e seria erguida em Aguas Blancas, na divisa entre os dois países vizinhos, evitando travessias realizadas pelo rio Bermejo e direcionando-as para postos oficiais de controle migratório. Mais precisamente, a cerca seria instalada entre o escritório de migração e o terminal de ônibus, forçando os recém-chegados a caminhar ao longo da cerca para que possam dar entrada na Argentina.

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Local onde a cerca de arame farpado seria instalada. Fonte: Reprodução/Google Earth

Segundo uma nota publicada no dia 27 de janeiro de 2025, no Diário Oficial da província de Salta, a medida teria como objetivo prevenir a entrada de “imigrantes ilegais” e a proliferação do contrabando na Argentina, e faz parte do Plano Güemes do Ministério da Segurança da Argentina – então liderado por Patricia Bullrich. Além da promover a construção da cerca, está previsto no plano o alocamento de mais de trezentos soldados em “regiões críticas”, como às margens do rio Bermejo e na Rota Nacional 34, também conhecida como “rota das drogas”.

A Bolívia, é claro, não ficou satisfeita, e o Ministério de Relações Exteriores boliviano emitiu um comunicado que expressava desagrado em relação à falta de diálogo bilateral, assim como alertava para as consequências de “medidas unilaterais”, que poderiam afetar a “boa vizinhança” e a “coexistência pacífica entre povos irmãos”. A resposta argentina foi insuficiente, alegando que o governo da Bolívia estaria “mal informado”.

Não é coincidência, por fim, que essa iniciativa relembre os projetos do governo Trump nos Estados Unidos, que, ao longo de sua campanha presidencial em 2016, enfatizou a intenção de construir um muro na fronteira com o México, em uma obra milionária que, segundo ele, seria paga pelo próprio país latino. Como se sabe, a obra de fato se concretizou ao longo do primeiro mandato do político, resultando em 730 quilômetros de barreira que foram pagos pelo orçamento de segurança interna dos EUA. Na Argentina, pelo contrário, os preparativos para a construção da cerca de arame farpado na fronteira com a Bolívia chegaram a ser iniciados, mas não avançaram significativamente; ainda assim, com a crescente aproximação entre a Argentina e os Estados Unidos, percebe-se a tendência de que essa postura, por parte do governo Milei, se estenda a outros países da América Latina.

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  • cropped-PHOTO-2026-01-27-12-40-54-1-250x250 Javier Milei: Dois Anos de Mandato na Argentina

    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Jornalismo, Ásia Ocidental, América Latina, Capitalismo e Imperialismo, Cultura e Relações Internacionais.

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    Aluno da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Sul Global, Economia Internacional, Política Externa Brasileira, Crime Organizado, Guerra Fria e Desenvolvimento Econômico.

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Jornalismo, Ásia Ocidental, América Latina, Capitalismo e Imperialismo, Cultura e Relações Internacionais.