Nepal: Protestos Locais à Crise Nacional
Por Izabelli Goes e Sarah Oliveira
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
A Voz de uma Geração
Os protestos que tomaram conta do Nepal em setembro de 2025 marcaram um ponto de virada na história política do país, destacando a Geração Z como uma força de mobilização social e política sem precedentes. Embora a tentativa do governo de bloquear as redes sociais tenha sido o estopim imediato, o movimento é reflexo de um descontentamento mais profundo, com raízes em questões de corrupção, nepotismo, e a falta de oportunidades econômicas.
As manifestações, que rapidamente escalaram para confrontos violentos e resultaram na renúncia do primeiro-ministro Khadga Prasad Oli, foram diretamente impulsionadas por uma medida governamental controversa: o bloqueio de plataformas como Facebook, Instagram, WhatsApp e X (antigo Twitter). A justificativa oficial para o bloqueio era a falta de registro das empresas de tecnologia junto às autoridades, sob novas regulamentações. No entanto, para a juventude nepalesa, a ação foi percebida como uma tentativa direta de reprimir a dissidência e o crescente ativismo online.

As redes sociais tornaram-se o principal canal para os jovens exporem as mazelas do governo do país. Vídeos de filhos de políticos, os chamados “nepo babies”, exibindo um estilo de vida luxuoso em contraste com a pobreza da maioria da população, viralizaram, alimentando a indignação popular. A censura, nesse contexto, não apenas privou os indivíduos de um espaço de expressão, mas também evidenciou a fragilidade da democracia nepalesa.
Com uma idade média populacional de aproximadamente 25 anos, a Geração Z encontra-se no centro da demografia nacional. Esse grupo enfrenta um cenário de alta taxa de desemprego (cerca de 22% entre 15 e 24 anos) e falta de perspectivas, com muitos jovens buscando oportunidades no exterior. A frustração com a ineficiência governamental, a corrupção sistêmica e a desigualdade social encontrou nas redes sociais o palco ideal para a articulação e a disseminação das pautas de protesto. Nesse sentido, a resposta do governo, que incluiu o uso de força letal, apenas aprofundou o abismo entre o Estado e a população, intensificando a indignação.
O movimento nepalês, contudo, não se reduz a um levante digital; trata-se de um movimento híbrido, que usa o ambiente digital para se materializar nas ruas. O colapso demonstra como a tentativa de restringir a informação em um mundo hiperconectado pode ser contraproducente, transformando a repressão em um catalisador de mobilização. No entanto, a análise crítica deve evitar a simplificação. Os eventos não são uma mera repetição da “Primavera Árabe” de 2011. Embora haja semelhanças no papel da tecnologia como ferramenta de protesto, a identidade dos protestos atuais é marcadamente geracional. A crise no país é um lembrete contundente de que, na era digital, a insatisfação social pode explodir rapidamente, e que o controle da informação é uma batalha maior que a imaginada pelos governos autoritários.

Rachaduras Políticas
O Nepal vivencia uma profunda instabilidade política, marcada pela queda do governo de coalizão liderado pelo primeiro-ministro Pushpa Kamal Dahal, popularmente conhecido como “Prachanda”. Este evento é o ápice de uma crise multifacetada que combina disputas partidárias, protestos populares massivos e uma peculiar reviravolta digital, ilustrando os desafios da governança em uma democracia frágil.
A crise atual tem suas raízes em uma disputa política interna que se arrasta há meses. Prachanda, líder do Partido Comunista do Nepal (Maoista), governava em uma aliança instável com o Partido Congresso Nepalês, a principal força de oposição. Esta coalizão, por si só improvável, desfez-se quando os maoístas se aliaram ao Partido Comunista do Nepal (Unificado Marxista-Leninista) – UML, seu antigo rival, para formar uma nova maioria. Essa manobra, típica do xadrez político nepales, onde lealdades são fluidas e coalizões são formadas e dissolvidas com frequência, foi o estopim imediato para a perda de apoio no Parlamento.
No entanto, o cenário de fundo é significativamente mais complexo. Há meses, o país é palco de intensos protestos liderados por partidos de oposição e por grupos de jovens. O principal ponto de discórdia é um projeto de lei de cidadania que, segundo os críticos, discriminaria mulheres que se casam com estrangeiros ao não conceder automaticamente a cidadania aos seus filhos. Os manifestantes argumentam que a legislação é inconstitucional e ameaça marginalizar ainda mais comunidades já vulneráveis. A repressão violenta a esses protestos, que já resultou em dezenas de mortes e centenas de feridos, inflamou o sentimento público e ampliou a pressão sobre o governo, criando um clima de insustentabilidade.

Analogamente, um fenômeno peculiar fez-se presente: a política migrou para o Discord. Com a queda do governo, a sucessão do primeiro-ministro tornou-se um debate aberto e fervoroso. Um servidor no aplicativo de chat, inicialmente criado para discussões sobre tecnologia e jogos, transformou-se em um fórum político improvisado, reunindo até 145 mil nepaleses, muitos deles da diáspora e jovens. Nesse espaço digital, usuários debatem alianças, analisam a constitucionalidade de manobras políticas e tentam influenciar o processo decisório de seus representantes em Katmandu.
A queda do governo no Nepal não é um simples rearranjo de cadeiras no Parlamento. Ela representa o colapso de um frágil pacto de governança frente a pressões populares legítimas por direitos iguais e à insatisfação generalizada com a volatilidade e o caráter frequentemente oportunista da política partidária. Enquanto os líderes negociam nos corredores do poder, uma geração conectada e mobilizada fiscaliza e debate o futuro do país em plataformas digitais, exigindo que a política retorne seu foco para o bem-estar da nação e não para os interesses de facções. O desfecho desta crise permanece incerto, mas evidencia a árdua e conturbada trajetória da democracia nepalesa.
Danos Materiais e Simbólicos – O Abismo entre Governantes e Governados.
A escalada da violência se materializou mais intensamente, sobretudo, durante este mês de setembro no país. Após forte pressão popular, o primeiro-ministro, KP Sharma Oil, renunciou seu cargo em busca de “dar novos passos em direção a uma solução política”, o que, no entanto, não surtiu as consequências esperadas para acalmar os ânimos abalados. Na segunda-feira, dia 8, milhares de jovens, incluindo estudantes, foram impedidos pela polícia de se organizarem em direção ao prédio do parlamento, onde manifestações não são permitidas. Eles carregavam a bandeira nacional e cartazes com slogans como “Fechem a corrupção, não as redes sociais”, “Desbloqueiem as redes sociais” e “Jovens contra a corrupção”, enquanto marchavam por Katmandu. As imagens de TV mostraram alguns manifestantes atirando objetos contra policiais, aglomerados em um ponto, enquanto a fumaça das bombas de gás lacrimogêneo tomava a rua. Manifestantes também empurraram e derrubaram barreiras policiais.

Até esse dia (8), 19 manifestantes haviam morrido em confrontos com a polícia, o que posteriormente nutriu maior raiva e distúrbios, levando o número de mortos para 30, constando com dois policiais entre o número de vítimas. Os protestos continuaram de forma intensa, com um incêndio feito em massa na sede do Partido do Congresso Nepalês – parte da coalizão do governo – e na casa do presidente do partido, Sher Bahadur Deuba, ex-primeiro-ministro do Nepal. Na terça-feira, dia 9, os manifestantes protestaram também contra a violência policial do dia anterior e conseguiram invadir o complexo do Parlamento. Eles atearam fogo no prédio principal e também no prédio da Suprema Corte.

As autoridades impuseram toque de recolher ao redor do prédio do parlamento depois que milhares de manifestantes tentaram entrar no Legislativo rompendo uma barreira policial. Um porta-voz da polícia local, Muktiram Rijal, disse à Reuters que a medida decorreu dos manifestantes terem “ficado violentos” e que a polícia recebeu ordens para usar canhões de água, cassetetes e balas de borracha para controlar a multidão.
Os danos seguiram com invasões e mais incêndios pelos manifestantes, quebrando janelas e deixando mensagens contra corrupção nas paredes. Um caso notório pela tamanha crueldade que soma-se aos supracitados, envolve a invasão de um grande complexo que contém escritórios governamentais, chamado de Singha Durbar e que, dentre os feridos, consta a esposa do ex-primeiro-ministro Jhalanath Khanal, que sofreu queimaduras graves quando manifestantes incendiaram sua casa na terça-feira. A mulher, Ravilaxmi Chitrakar, estava no andar de cima de sua casa e a equipe de resgate a encontrou inconsciente, levando os veículos a noticiar sua morte. Porém, segundo seu marido, ela permanece em estado crítico, viva, sob cuidados na UTI.

Após a generalização destes protestos contra o governo, as chamas produzidas se espalharam da capital Katmandu para diversas outras partes. Nos demais locais, como o bairro de Bhaisepath, os ministros nepaleses passaram a sentir os efeitos mais diretamente, quando tiveram suas casas invadidas e incendiadas. Os prédios do governo e as casas dessas autoridades foram tomadas por fumaças, que se alastram analogicamente à eclosão do país. Semelhantemente, a polícia informa mais protestos organizados agora em Biratnagar e Bharatpur, nas planícies do sul, e em Pokhara, porta de entrada para o Monte Annapurna, a 10ª montanha mais alta do mundo, no oeste do Nepal.
Muitos no país do Himalaia acreditam que a corrupção é generalizada, e o governo do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli vem sendo criticado por opositores por não cumprir suas promessas e uma análise para além das perdas materiais, é possível enxergar como tal conjuntura é simbólica da fragilidade e da crise de confiança para com o Estado. Estrutura-se uma negação da legitimidade dessas instituições que foram atacadas depois de um longo período crítico que vinha se arrastando, simbolizando esse afastamento do povo, a corrupção e das demandas dessa sociedade vulnerabilizada.
Reações Institucionais e de Segurança
Atualmente, o país é governado pelo presidente Ram Chandra Poudel, de centro-esquerda, enquanto o primeiro-ministro que renunciou é do Partido Comunista. No entanto, a situação nepalesa decorre não somente do caos do presente mas sim de uma imensa frustração de jovens com a falta de empregos que assola o país há anos, no qual milhares necessitam se deslocar para o Oriente Médio, Coréia do Sul e Malásia para exercerem funções muitas vezes degradantes como em canteiros de obras e que somente através disso conseguem enviar dinheiro para suas casas. Segundo o Banco Mundial, mais de um terço (33,1%) do PIB do Nepal veio de remessas pessoais, um número que tem aumentado constantemente nas últimas três décadas. As revoltas acontecem, portanto, coerentemente ao cenário no qual estão inseridos e a recente renúncia mostra como essas mobilizações vêm sendo poderosas.
Após os ataques do dia 8 o exército do Nepal emitiu um comunicado afirmando que iria assumir a responsabilidade pela lei e pela ordem no país trazendo medidas para tentar controlar a situação, pedindo que as pessoas permaneçam em suas casas e em conjunto ao Ministério da Saúde requerendo a doação de sangue em hospitais locais e no banco de sangue central do país além de convites para negociação de paz com os manifestantes, que emitem em comunicados suas vontades: “Olhando para o futuro, acreditamos que a liderança do Nepal deva ser livre de vínculos com partidos políticos tradicionais, totalmente independentes e escolhida com base em competência, integridade e qualificação”, “Exigimos um governo transparente e estável, que trabalhe em prol do povo e não para benefício de indivíduos corruptos ou elites políticas.”
Com o presidente Paudel aceitando a renúncia de Oli, já havia se iniciado o processo para escolher um novo premiê, que teve como escolha interina, a única ex-presidente mulher a ocupar o cargo da Suprema Corte, Sushila Karki, anunciada pelo gabinete da presidência nepalesa na sexta-feira, dia 12. Karki, após a onda histórica de violência, traz um discurso diferente do que era vigente no governo, ela compromete-se em atender as demandas daqueles que suplicam pelo “fim da corrupção” acrescentando ainda, que ela e seu governo não possuem pretensão de “estar no poder por mais de seis meses”, data essa que indica as eleições, previstas para março de 2026.

Vale-se buscar entender a complexidade encontrada no país, que ao mesmo tempo passa por uma enorme política de contenção de danos, com medidas de “toques de recolher”, não se pode deixar seduzir pela repressão novamente e que, portanto, destaca-se a grande necessidade de líderes como Sushila Karki, que estejam a fins de reconquistar essa confiança perdida pela juventude, representante do futuro nepalês.
Entre Avanços Constitucionais e Violações Estruturais
A trajetória dos direitos humanos no Nepal é marcada por uma complexa interação entre um arcabouço legal progressista e a persistência de desafios estruturais profundos. Após uma década de guerra civil (1996-2006) e a subsequente abolição da monarquia, o país adotou uma constituição inovadora em 2015, amplamente elogiada por suas garantias formais de direitos fundamentais. No entanto, a efetiva implementação dessas disposições esbarra em obstáculos históricos, culturais e políticos, resultando em um cenário de contrastes onde conquistas convivem com violações graves.
Internacionalmente, o Nepal é signatário dos principais tratados de direitos humanos, incluindo o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), além de convenções específicas como a CEDAW (sobre a eliminação da discriminação contra a mulher) e a CRC (sobre os direitos da criança). O país também conta com uma Comissão Nacional de Direitos Humanos (NHRC), estabelecida como um órgão independente para monitorar e promover esses direitos.
Mas, embora o país possua um arcabouço legal avançado e seja signatário das principais convenções internacionais, violações são constantes, violações estruturais e profundamente enraizadas na sociedade. A discriminação baseada em casta e etnia continua a ser um pilar de exclusão social. Os Dalits (considerados “intocáveis” no sistema de castas) e comunidades indígenas (chamadas de Adivasi Janajati) enfrentam marginalização econômica, acesso limitado à educação e à justiça, além da sub-representação política. Tal hierarquização influencia diretamente no acesso à recursos, oportunidades e no próprio respeito à dignidade humana.

Paralelamente, a discriminação de genero perpetua uma grave crise de direitos, particularmente no âmbito dos direitos sexuais e reprodutivos. Estigmas sociais profundamente enraizados, falta de acesso a serviços de saúde adequados e leis que não são plenamente aplicadas contribuem para altas taxas de violência doméstica, casamento infantil e mortalidade materna. Mulheres e meninas, especialmente em áreas rurais, veem seu direito à saúde e à autonomia corporal severamente comprometidos.

Outra área crítica encontra-se no sistema de justiça de transição, criado para lidar com os crimes e violações de direitos humanos cometidos durante a guerra civil, tem sido amplamente criticado por sua lentidão e inefetividade. A impunidade para os responsáveis por abusos graves, incluindo tortura e desaparecimentos forçados, permanece a norma, corroendo a confiança pública nas instituições e negando justiça às vítimas e suas famílias. A ONU tem reiteradamente apontado o diálogo como via essencial para superar esta crise política e de direitos humanos, exortando o governo a acelerar o processo de justiça transicional de forma crível e centrada na vítima.
Neste contexto, O Nepal encontra-se numa encruzilhada. Enquanto o país possui um dos quadros constitucionais mais progressistas do Sul da Ásia – demonstrando um compromisso formal com os direitos humanos -, a distância entre a lei e a realidade cotidiana para milhões de nepaleses permanece abissal. A combinação de patriarcado enraizado, discriminação de casta, impunidade sistêmica e instituições fracas cria um ciclo de violações que dificultando o próprio desenvolvimento social e econômico da nação.
O Impacto das Vulnerabilidades Ambientais
Anteriormente à escaladas de violências ocorridas em setembro, o país já era assolado por tragédias naturais, como terremotos destruidores, deslizamentos de terras e chuvas intensas, responsáveis por dezenas de desaparecimentos e mortes, no qual entre em um dos casos mais recentes refere-se ao mês de abril deste ano, quando pelo menos oito pessoas morreram e mais de duas dezenas ficaram desaparecidas após a enchente do Rio Bhote Koshi, que destruiu a “Ponte da Amizade”, a qual une a China ao Nepal.

Esta atmosfera trágica contribuiu significativamente para o estopim, uma vez que aumentam ainda mais o sentimento de abandono que afeta a população. Também, a ineficácia para lidar com infraestrutura e uma reconstrução adequada, associam-se a esse vazio, à corrupção e ao mau uso do dinheiro público. Enquanto os mais ricos se encontram afastados destas problemáticas, comunidades mais vulneráveis estão desamparadas, fazendo com que as tragédias deixem de ser somente fenômenos naturais e sim resultados da negligência estatal.
Referências
https://www.conexaopolitica.com.br/internacional/entenda-o-que-esta-acontecendo-agora-no-nepal
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4g9wy3y14yo
https://nepjol.info/index.php/kmcrj/article/view/79059/60573
https://www.bbc.com/portuguese/articles/crme73m7ypxo
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/09/12/numero-de-mortos-protestos-nepal.ghtml
https://www.tnh1.com.br/variedades/o-que-aconteceu-no-nepal-que-esta-todo-mundo-comentando/
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