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O Esporte e a Política Migratória de Trump 

O Esporte e a Política Migratória de Trump 

Por Gabriela Abarca e Laura Burgos 
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Desde sua posse na Casa Branca em 20 de Janeiro, Trump estabeleceu uma série de medidas acerca da imigração e da emissão de vistos, com a justificativa principal de que imigrantes ilegais são uma ameaça à segurança do país. Ordens executivas, campanhas de buscas, detenções e deportações estão dentre as principais políticas de seu governo, causando inclusive conflitos com o judiciário acerca da constitucionalidade das ações.

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Donald Trump assina Ordem Executiva em 20 de Janeiro – Fonte: Anna Moneymaker/Getty Images.

De modo mais concreto, um dos movimentos do governo para expandir a política de deportação foi o uso do Alien Enemies Act, usado apenas três vezes na história dos EUA. Esse ato, criado em 1798, permite a detenção e deportação de estrangeiros em caso de guerra declarada ou invasão ao país e foi direcionado para supostos membros do grupo venezuelano Tren de Aragua – classificado pelo governo como terrorista. Desde então, venezuelanos supostamente associados ao grupo têm sido perseguidos, as autoridades utilizam tatuagens e outros indicadores não confiáveis para alegadamente identificá-los e detê-los, sem permitir o direito a julgamento, o que constitui uma violação da 5ª Emenda da Constituição dos EUA. 

“A Warm Unwelcome”

Se manifestar contra os interesses do país, também pode levar à perda de direitos, como o de permanecer nos EUA. Esse é o caso de Mahmoud Khalil, um migrante legal sírio e ativista contra o genocídio na Palestina, que foi preso por se manifestar à favor da causa palestina na Unversidade de Columbia esteve em risco de deportação por meio do uso do Immigration and Nationality Act of 1952. Tal ato, originado na Guerra Fria, confere ao Secretário de Estado – atualmente, Marco Rubio – autoridade para apontar não cidadãos que ameacem os objetivos de política externa estadunidense. Segundo Rubio, Khalil teria contribuído para enfraquecer o combate ao antissemitismo no mundo, contudo não foram apresentadas provas para tal. 

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Mahmoud Khalil – Fonte: Angelina Katsanis/Reuters.

Subvertendo a 14ª Emenda, Trump também emitiu uma Ordem Executiva no primeiro dia de governo para excluir a cidadania de crianças nascidas em território estadunidense com pais ilegalmente ou temporariamente nos EUA. No entanto, diversas organizações, como a American Civil Liberties Union (ACLU), agiram para que a ação fosse revertida. Com sucesso, a Suprema Corte decidiu a favor da ACLU e não questionou a proteção ao direito à cidadania conferida pela 14ª Emenda, protegendo dezenas de milhares de crianças de prisões, deportações e recusa de cuidados básicos. Apesar disso, a organização reconhece que “a luta legal está longe do fim”. 

Impactos Políticos e Econômicos

Mais recentemente, o mesatenista Hugo Calderano teve sua isenção de visto aos EUA barrada por ter ido à Cuba disputar o campeonato panamericano em 2023 e a qualificação para as Olimpíadas de 2024. O atleta tentou uma dispensa de visto, que é possível para passaportes de 42 países – Calderano usou um passaporte português – desde que seguidas algumas medidas. No entanto, essa facilidade é impedida caso o viajante tenha visitado um dos países “banidos”, entre eles, Cuba. 

Somado à isso, vistos para estudantes estão sendo revogados por violação à lei americana e estadia prolongada (overstays). Dentre as violações, cita-se “apoio ao terrorismo” (leia-se oposição ao genocídio palestino). As concessões de vistos para estudantes também sofreram uma pausa e, ao retornar, passaram a a pedir as redes sociais dos aplicantes, buscando por “quaisquer indicadores de hostilidade aos cidadãos, cultura, governo, instituições, ou princípios fundadores dos EUA”, além de “quem defende assitência ou apoia grupos terroristas estrangeiros e outras ameaças à seguraça nacional; ou que perpetuam assédio ou violência antissemita”.

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Cidadãos protestam nos EUA contra as políticas anti-imigração – Fonte: Michael Reynolds/EPA.

Ademais, vistos de turistas do Malawi e da Zâmbia estão sujeitos a cauções de 15000 dólares, visando evitar estadias excessivas. Os países foram selecionados com base em altas taxas de estadia prolongada, deficiências na seleção e verificação, preocupações relativas à aquisição da cidadania por investimento sem requisito de residência e considerações de política externa.

Ainda, doze países foram sujeitos a proibições totais de visto, e sete a limitações parciais. São eles: Afeganistão, Burma, Chade, República do Congo, Guiné Equatorial, Eritreia, Haiti, Irã, Líbia, Somália, Sudão, Iêmen, Burundi, Cuba, Laos, Serra Leoa, Togo, Turcomenistão e Venezuela. 

Turismo e Esporte

Para os demais países que necessitam de visto para entrada nos EUA, passará a ser cobrada uma “taxa de integridade do visto” de 250 dólares, o que, segundo a World Travel & Tourism Council e a Forbes, terá impacto significativo no setor de turismo. O valor se adiciona à taxa de emissão de visto já em vigor, que pode variar de 185 a 205 dólares, a depender da modalidade. 

Há reações mistas em relação a essas medidas no ramo turístico. O presidente da US Travel Association, Geoff Freeman destacou que as medidas podem melhorar a infraestrutura e segurança do país, o que seria benéfico inclusive para a Copa do Mundo da FIFA, em 2026, e os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028. No entanto, Freeman se opõe aos maiores custos aos turistas, chamando as taxas de “tarifas auto-impostas”, “que não tem outra função senão desencorajar visitas em uma época em que viajantes já estão preocupados com a hospitalidade e os altos preços”.

A Copa do Mundo 2026

A escolha do país-sede da Copa do Mundo ocorre durante os Congressos da FIFA, tradicionalmente sete anos antes da realização do torneio. As candidaturas são, em geral, formalizadas anteriormente, recebem uma nota de avaliação da FIFA e depois são colocadas para votação. Atualmente, a regra em vigor é de que qualquer país pode concorrer ao processo de seleção, desde que a sede do torneio anterior não tenha sido um país membro da sua Confederação. 

A Copa do Mundo 2026 será a primeira na história com a participação de 48 seleções e 3 países-sede: Estados Unidos, Canadá e México. Entretanto, a mídia e opinião pública vem questionando a viabilidade deste novo formato de forma mais intensa desde a volta de Donald Trump à Casa Branca. Ainda em 2017, os três países anunciaram o lançamento da candidatura conjunta para sediar o evento em meio à um contexto tenso, por conta das renegociações do NAFTA (acordo de livre comércio composto pelos 3 países) e, sobretudo, do projeto do presidente Trump (então em seu primeiro mandato) de construção de um muro na fronteira entre México e EUA. 

Ainda assim, Trump demonstrou apoio à candidatura, que conquistou o direito de sediar a Copa do Mundo 2026 ao receber 134 votos no 68° congresso da FIFA, ocorrido em Moscou em 2018. Na época, a proposta da sede-tripla norte-americana bateu a candidatura do Marrocos, que recebeu apenas 65 votos, incluindo o do Brasil. Considerada mais pronta, a aliança de EUA, México e Canadá levou vantagem por conta de sua infraestrutura esportiva e hoteleira já bem consolidada e uma previsão de lucro duas vezes maior do que a da proposta marroquina. 

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Representantes de México, EUA e Canadá se abraçam após vitória na votação – Fonte: Felipe Trueba (EFE).

O Futuro Incerto

Entretanto, diversas mudanças importantes ocorreram na política americana de lá para cá. Após 4 anos de governo democrata, às eleições de 2024 marcaram a volta de Donald Trump ao poder e, passados 8 meses de mandato, sua administração tem chamado atenção do mundo todo por conta de suas políticas protecionistas e agressivas. Como explicado anteriormente, para além do tarifaço e outras medidas econômicas, as novas políticas migratórias, que incluem deportação em massa e restrição de vistos, têm sido uma das marcas do segundo mandato do presidente republicano. E, cada vez mais, há o questionamento de como essas políticas afetam a realização de um evento esportivo como a Copa do Mundo.

Um exemplo claro é a questão do Irã. Apesar de classificado para o torneio, o país integra a lista dos 12 países cujos cidadãos estão totalmente restringidos de entrar nos EUA. A postura da administração Trump é considerada bastante divergente do que normalmente se observa dos países-sede de eventos como a Copa, que costumam relaxar temporariamente suas políticas de visto para facilitar a entrada de turistas e atletas. A FIFA ainda não se pronunciou sobre o assunto e vem sendo acusada de conivência com a situação, dada a proximidade entre o presidente da federação Gianni Infantino e Donald Trump. 

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Gianni Infantino e Donald Trump em jogo da Copa do Mundo de Clubes – Fonte: Alex Grimm/Getty Images.

O Esporte na Disputa Brasil x EUA 

Outra entidade que ainda não deu seu parecer foi a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). No último dia 29 de Julho, a Embaixada dos EUA no Brasil utilizou-se de uma postagem na rede social X (antigo Twitter) para comunicar sobre o prazo de solicitação de vistos para viajar ao país para a Copa do Mundo: “A Copa do Mundo de 2026 será a maior de todas, com partidas em 11 cidades dos EUA”, diz a publicação. “Incentivamos os viajantes estrangeiros que precisam de visto para os EUA a solicitarem agora”. Essa postagem chamou muita atenção por conta de seu contexto: o alerta foi publicado em meio aos anúncios de imposição de tarifas do governo dos EUA sobre o Brasil e o acionamento da Lei Magnitsky contra o ministro do STF, Alexandre de Moraes. 

Em apuração feita pela CNN Brasil, a CBF afirmou estar ciente da possibilidade do banimento de vistos para brasileiros nos EUA, mas que iria aguardar outros desdobramentos para tomar qualquer atitude. Enquanto isso, integrantes do Departamento de Seleções da entidade estiveram nos EUA para avaliação de possíveis estruturas de hospedagem, que, segundo o presidente da CBF, Samir Xaud, serão definidas somente após o sorteio da competição, que ocorre em dezembro. 

O Caso dos Jogos Olímpicos

Por outro lado, o processo para se tornar anfitrião dos Jogos Olímpicos consiste em 4 passos e não tem duração determinada, estando o Comitê Olímpico Internacional (COI) sempre aberto para dialogar sobre a recepção das Olimpíadas, os Jogos Olímpicos de Inverno, os Jogos Olímpicos de Verão ou Inverno da Juventude. As etapas são supervisionadas por duas Comissões de Anfitriões Futuros – uma para o Verão e outra para o Inverno – compostas por membros do COI e demais partes do Movimento Olímpico, que podem recomendar futuros anfitriões aos executivos do COI.

 Em primeiro lugar, realizam-se trocas informais entre o COI, o Comitê Olímpico Nacional, além da cidade ou da região considerada. Em seguida, caso as conversas tenham bons frutos, as partes entram em diálogo contínuo, com o possível anfitrião tornando-se Parte Interessada, que passa a receber apoio do COI no planejamento dos jogos. Com a evolução positiva da análise de viabilidade dos jogos os países tornam-se Anfitriões Preferidos, abre-se a fase de diálogo direcionado, no qual são considerados mais delicadamente a edição a ser realizada, os custos, opinião pública e impacto ambiental. Por fim, o Quadro Executivo pode chamar uma eleição onde os Anfitriões Preferidos apresentam seus projetos e discutem com o COI, há uma apresentação final e, por fim, a votação.

O Esporte e o Reflexo do Panorama Geopolítico

Mais do que uma seleção, a disputa pela realização dos Jogos Olímpicos – assim como por qualquer outro mega-evento esportivo, como a Copa do Mundo – é uma ação política que muitos não possuem recursos para sustentar. Para além da quantidade de medalhas, o que por si só já é um elemento de soft power, a imagem do país que recebe o mega-evento entra em destaque, atraindo turistas, ampliando o comércio e investimento externo e incentivando um sentimento de orgulho nacional. O uso desta imagem é, inclusive, uma forma de anunciar países em rápido crescimento ou até mesmo reverter percepções externas negativas e desviar atenções de polêmicas internas, processo este denominado sports washing.

Ilustração clara disso foram as Olimpíadas de 2008 em Beijing. Com investimentos de 64 milhões de libras, desde a cerimônia de abertura até o encerramento dos jogos, a China se mostrou um país em ascensão e modernização ao mesmo tempo em que honrou e reforçou a conexão com suas raízes culturais, o que ao menos amenizou a percepção internacional prévia de uma nação atrasada e oprimida. 

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Tom Cruise em uma motocicleta com a bandeira olímpica durante a cerimônia de encerramento no Stade de France, em 2024. Getty Images.

Os EUA em Destaque

Nesse sentido, é possível que os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028, tenham objetivos econômicos, como o turismo e atração de investimentos, mas também de projeção de poder, em especial com o crescente ganho de visibilidade de influências de diversos países, o que pode ser visto como relativa “perda de espaço” do americanismo no mundo. Dentro da própria política estadunidense, a ideia do “Make America Great Again” tornou-se central após a reeleição de Donald Trump, refletindo uma suposta necessidade de recuperar o orgulho e a grandeza nacional, também vista nas vitórias esportivas, no modelo de financiamento privado da gestão pública e na própria infraestrutura dos eventos. 

Assim, tendo em vista os potenciais retornos econômicos e políticos que tanto a Copa do Mundo de 2026 quanto os Jogos Olímpicos de 2028 trariam, faz sentido que a administração Trump apoie intensamente os projetos. Para atletas, técnicos, familiares e equipe de assistência dos esportistas, o acesso aos EUA será liberado. Turistas, no entanto, ainda estão sujeitos às respectivas medidas estabelecidas e o governo recomendou que iniciem o processo de aquisição do visto com antecedência. Não obstante, oficiais dos Jogos Olímpicos de LA relataram estarem confiantes com o governo republicano em sua contribuição para a realização do evento, sobretudo nas áreas de segurança, transporte e logística.

Referências

https://veja.abril.com.br/mundo/o-alerta-da-embaixada-dos-eua-sobre-a-copa-do-mundo

https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/futebol-internacional/trump-pode-banir-vistos-para-brasileiros-na-copa-do-mundo-de-2026

https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/futebol-internacional/entenda-os-desafios-da-fifa-ate-a-copa-do-mundo-de-2026

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/13/deportes/1528880488_562714.html

https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/01/protecting-the-meaning-and-value-of-american-citizenship

https://www.aljazeera.com/news/2025/7/10/mahmoud-khalil-files-20m-claim-against-trump-for-wrongful-detention

https://www.bbc.com/news/articles/cg411rrnkkko

https://www.latimes.com/sports/olympics/story/2025-08-18/why-la-cant-back-out-of-2028-olympicsv

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    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2025. Áreas de interesse: Análise de Risco Político, América Latina, Sul Global, BRICS, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável .

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    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2025. Áreas de interesse: América Latina, Cultura, Relações Internacionais, Imperialismo, Sul Global

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2025. Áreas de interesse: Análise de Risco Político, América Latina, Sul Global, BRICS, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.