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O Natal e as Relações Internacionais

O Natal e as Relações Internacionais

Por Cecília Chalela

Entre presépios, pinheiros e luzes, o Natal que conhecemos hoje é uma celebração cristã, embora cada vez mais secularizada e global, que ocorre anualmente no dia 25 de dezembro, em comemoração ao nascimento de Jesus Cristo em Belém – o próprio latim Natalis remete ao “dia do nascimento”. Mais do que qualquer coisa, porém, o Natal se tornou um costume predominante no mundo ocidental, utilizado como pretexto para reuniões de fim de ano entre familiares e amigos nas quais há troca de presentes, dentre outros pormenores.

O Natal, além disso, já coincidiu com algumas datas históricas que se mostraram importantes, e é, também, bastante político: dado seu histórico de união de elementos de diversas tradições, a data comemorativa tem sido um fator surpreendentemente influente nas relações internacionais ao longo do tempo, seja por acentuar ou representar a faceta religiosa e cultural de conflitos já existentes, ou por amenizá-los, ao despertar o “fator humano” enquanto apelo de seu “caráter universal”.

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A Turíngia, na Alemanha, em época de Natal – Fonte: Martin Kirchner/Thuringia Touris.

Uma Breve História do Natal

A história do Natal começa com o registro da narrativa bíblica do nascimento de Jesus. Segundo o livro sagrado do cristianismo, Maria teria sido escolhida para dar à luz ao “filho de Deus” e, logo depois, perto da data do nascimento, ela e seu marido José teriam embarcado em uma jornada mandatória rumo a Belém para participar de um censo. Ao chegar, o casal teria se deparado com uma profusão de visitantes e com a consequente falta de alojamento, o que os levou a dormir no estábulo cedido por um estalajadeiro, onde Jesus nasceu. Em seguida, Jesus teria sido depositado na manjedoura em meio ao canto de anjos e ao brilho de uma estrela no céu, o que explica alguns dos simbolismos que se mantiveram constantes na tradição natalina.

Por muito tempo, uma data específica não foi atribuída a esse evento bíblico, até que, no ano 336, elegeu-se para tanto o dia 25 de dezembro, durante o reinado de Constantino em Roma. Buscava-se, por razões políticas, incorporar ao cristianismo a celebração pagã da Saturnália, um festival romano dedicado ao deus Saturno, divindade da agricultura e das colheitas, no Solstício de Inverno. A Saturnália já exibia alguns elementos duradouros do Natal, como as guirlandas, os presentes e os banquetes, e aspectos como o visco e os pinheiros foram adotados, respectivamente, dos Vikings e dos Saxões. A tradição saxã da árvore, inclusive, é proveniente de outra celebração pagã, o Festival de Yule – nela, que ocorre no dia mais curto do ano, está presente o tronco de Yule, que representa a renovação e a vitória da luz sobre a escuridão. Os druidas celtas, por sua vez, costumavam celebrar uma festa de inverno de dois dias na qual se acendiam velas e as casas eram decoradas com visco e azevinho.

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“Saturnália”, de Antoine-François Callet, 1783 – Fonte: Antoine François Callet/Wikipedia.

Na Idade Média, o Natal se tornou consideravelmente mais grandioso, à medida que novas tradições surgiam. Na Inglaterra, por exemplo, a temporada natalina envolvia um festival de doze dias no qual os convidados eram entretidos por peças de teatro, banquetes fartos, hinos e canções tradicionais, trocas de presentes e celebrações do nascimento de Jesus. Até mesmo as universidades começaram a desenvolver o costume de coroar um “Rei do Natal”. Mais tarde, em 1647, os puritanos ingleses baniram o Natal por ordem de Oliver Cromwell, cujo governo, segundo historiadores, foi severamente enfraquecido por esse ato, incentivando uma guerra civil.

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Natal na Inglaterra medieval – Fonte: English Heritage.

A Alemanha também teve um papel importante na construção do Natal. Lá surgiu a primeira versão de “O Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos”, em 1816, de autoria de E.T.A. Hoffman, com adaptação posterior e popularização pelas mãos do ilustre escritor francês Alexandre Dumas. Essa história chegou até a Rússia e se transformou em um balé de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, hoje mundialmente encenado no mês de dezembro. São de origem alemã, da mesma maneira, as guirlandas e os famosos mercados de Natal, populares em toda a Europa. Esse país também foi responsável pela incorporação definitiva, dentre outras, da tradição da árvore de Natal, herdada dos chamados “povos bárbaros”. Na versão dos alemães, colocavam-se, no interior das residências, pinheiros adornados com velas e presentes, chamados de Tannenbaums. Esse costume chegou à Grã-Bretanha quando o Príncipe Albert de Saxe-Coburgo-Gota contraiu matrimônio com a Rainha Victoria da Inglaterra.

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A Rainha Victoria da Inglaterra, o Príncipe Albert e seus filhos ao redor da árvore de Natal, 1848 – Fonte: Image Wikimedia.

Aliás, a literatura exerceu um papel crucial no processo de cristalização da concepção moderna de Natal: na Alemanha, a publicação do conto de fadas Hänsel und Gretel, dos Irmãos Grimm, nos princípios do século XIX,  instituiu as casas de biscoito de gengibre; já na Inglaterra vitoriana, Charles Dickens foi um protagonista nesse fenômeno, com a publicação de sua obra A Christmas Carol, em 19 de dezembro de 1843, popularizando o hábito de presentear crianças com livros natalinos infantis.

Tal qual os britânicos, os puritanos americanos também baniram o Natal em 1659, no estado de Massachusetts. Por isso, as celebrações natalinas nos Estados Unidos só ganharam força graças à Guerra da Secessão (1861-1865), de modo que, em 1870, o Congresso transformou o Natal no primeiro feriado nacional estadunidense. Foi com a chegada de uma soma considerável de imigrantes na segunda metade do século XIX, inclusive, que criou-se, segundo o historiador William D. Crump em sua Encyclopedia of Christmas, “uma espécie de caldeirão de Natal, com a assimilação de diversas culturas em feriado mais uniforme e amplamente comemorado em casa, junto da família”.

Todos esses elementos se unificaram na figura do Santa Claus, ou Papai Noel, isto é, o patriarca de barba branca que viaja pelos céus em um trenó puxado por renas voadoras e que desce pelas chaminés das crianças bem-comportadas para presenteá-las. Essa representação surgiu à guisa de São Nicolau de Mira, um bispo grego do século 3 d.C. que foi associado a dar presentes no mês de dezembro. Levado aos EUA junto dos imigrantes holandeses e alemães, São Nicolau foi objeto de obras literárias de Washington Irving e do poema “A Visit from St. Nicholas”, de Clement Clarke Moore. Já os aspectos estéticos do símbolo do Natal foram desenhados pelo ilustrador Thomas Nast, que se inspirou no folclore europeu e, em 1890, o mercador James Edgar foi o primeiro a se vestir de Papai Noel e interagir com os clientes de sua loja de departamento.

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Ilustração do Santa Claus por Thomas Nast, 1863 – Fonte: Thomas Nast/Wikipedia.

Em 1882, surgiu uma nova inovação: a lâmpada de Thomas Edison. Posteriormente, Edison também foi creditado pela invenção do primeiro fio de luzes e, seu parceiro de negócios Edward Johnson, pela primeira árvore de Natal iluminada com luz elétrica. Mais tarde, no século XX, surgiram os cartões de Natal modernos e os papéis de presente, em substituição ao papel pardo, ambos nos Estados Unidos.

A Trégua de Natal de 1914

Um dos momentos mais notáveis dentre aqueles nos quais o Natal produziu efeitos surpreendentes se deu em meio aos horrores da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), produzindo uma trégua não oficial que durou uma noite e um dia.

Para os historiadores, ainda não é exatamente claro como esse evento sucedeu, mas tudo indica que sua origem foi espontânea. Os relatos disponíveis narram que, na véspera de Natal de 1914, a troca de tiros cessou no front ocidental da guerra, e que, em seguida, músicas natalinas começaram a ser ouvidas nas trincheiras, vindas de soldados britânicos, belgas, franceses e alemães. Esse momento de paz temporária encorajou os exércitos inimigos, no dia 25 de dezembro, a se aventurar na perigosa Terra de Ninguém, com o objetivo de enterrar os mortos. Mais que isso, também teria havido troca de suprimentos, presentes e fotografias, e até mesmo partidas de futebol.

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Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados jogam futebol no Natal de 1915, em Salonika – Fonte: Wikimedia.

A trégua desagradou profundamente os superiores de cada exército, arquitetos da guerra, que temiam que a paz temporária remetesse aos tempos anteriores ao conflito e suscitassem a desobediência e a revolta entre os soldados, colocando a “vitória” em cheque. Por essa razão, durante os quatro anos restantes de carnificina, artilharia pesada foi ordenada categoricamente em antecedência a datas comemorativas, o que nem sempre surtiu os efeitos desejados: em 2010, o historiador Thomas Weber, da University of Aberdeen, compartilhou evidências epistolares de que, em suas palavras, “soldados nunca pararam de tentar confraternizar com seus oponentes durante o Natal”. Tais circunstâncias – que compunham o sistema apelidado de “Live and Let Live” foram, por muito tempo, propositalmente omitidas dos registros bélicos.

A Trégua de Natal de 1914 é, provavelmente, o exemplo mais famoso da influência do Natal na diplomacia internacional, reforçando a tese de que elementos à primeira vista externos à política podem exercer efeito sobre ela. Mas, acima de tudo, esses acontecimentos comoventes revelam o que é, talvez, a faceta mais sombria da guerra: sua irracionalidade.

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Ilustração da Trégua de Natal publicada no Illustrated London News em 1915 – Fonte: The Guardian/The Illustrated London News.

O Bombardeio do Hotel Brink

O Natal não deixou de produzir impactos em outros tempos de guerra, mas, desta vez, em circunstâncias menos amistosas – o bombardeio do Hotel Brink se deu no ano de 1964, em plena Guerra do Vietnã (1955-1975), guerra por procuração que ocorreu no contexto da Guerra Fria, e que consistiu em uma disputa entre o Vietnã do Norte e o Vietnã do Sul, diretamente influenciado e auxiliado pelos Estados Unidos.

O Hotel Brink, acomodação de luxo no centro da cidade de Saigon (então capital sul-vietnamita), hospedava na ocasião oficiais americanos. O local já havia, inclusive, sido renomeado – por iniciativa de Washington – em homenagem ao general Francis G. Brink, o primeiro comandante estadunidense em solo vietnamita, após seu suicídio.

Em 24 de dezembro de 1964, dois combatentes Vietcongs, em sua luta contra o domínio imperialista americano, vestiram-se com uniformes do exército Vietnã do Sul e dirigiram até Saigon, carregando aproximadamente 90 quilos de carga explosiva. Às 17:45, sentados em um café oposto do Hotel, ambos assistiram à explosão que deixou o local em ruínas, resultando na morte de dois oficiais estadunidenses e deixando trinta e oito feridos.

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Registro do Hotel Brink após a explosão, em 1964 – Fonte: Manh Hai, AP Photo/Horst Faas.

Ainda não há consenso entre historiadores em relação à real motivação do ataque, discussão que pode assumir caráter bastante controverso e dicotômico. Segundo Nguyen Thanh Xuan, um dos responsáveis pela explosão, os comandantes Vietcong “haviam ordenado que atacássemos o lugar quando o maior número de americanos estivesse lá. E foi exatamente como esperávamos, porque eles estavam no Hotel Brink para planejar suas atividades de Natal”. O ex-professor americano Mark Moyar, da Marine Corps University, no entanto, conta uma história diferente em seu livro Triumph Forsaken, alegando que o verdadeiro propósito do Vietnã do Norte teria sido assassinar Bob Hope – comediante que, por meio de especiais de Natal, entreteve as tropas estadunidenses durante a Guerra do Vietnã –, que se apresentaria no Hotel Brink naquele dia, mas que, por causalidade, não chegou a tempo do bombardeio porque foi detido no aeroporto.

Em 30 de abril de 1975, Saigon caiu nas mãos do Vietnã do Norte, que venceu a guerra, consolidando a unificação e a independência do Vietnã e trazendo humilhação para o exército estadunidense.

O Lançamento da Apollo 8

Essa ocorrência natalina se passou, igualmente, durante a Guerra Fria, em 21 de dezembro de 1968, sendo parte da famosa corrida espacial disputada entre os Estados Unidos e a União Soviética. O lançamento da Apollo 8, como etapa inicial da primeira viagem humana bem-sucedida à Lua, era, sobretudo, uma declaração política de poder ocidental em meio a uma acirrada disputa ideológica.

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Lançamento da Apollo 8 – Fonte: Bettmann/Getty Images.

Assim, o teor religioso da data – véspera de Natal – também foi instrumentalizado pelos Estados Unidos: durante a transmissão do lançamento na TV, os tripulantes da missão leram trechos da Bíblia. A mensagem, disfarçada de “Merry Christmas”, foi uma provocação direta à URSS, que era um estado ateu. Além disso, a demonstração cristã dos astronautas causou um rebuliço dentro do próprio país, com declarações de violação da Primeira Emenda, que determina a laicidade constitucional.

A “Revolução de Natal” Romena

No dia de Natal de 1989, o presidente da República Socialista da Romênia Nicolae Ceausescu, junto de sua esposa Elena, foi executado por um pelotão de fuzilamento, após um julgamento.

Tudo começou na metade do mês de dezembro, quando parte da população romena iniciou uma insurreição contra o regime “comunista” de Ceausescu, que já se prolongara por 24 anos. A rebelião ocorreu na cidade de Timișoara, e o líder romeno ordenou que seus componentes fossem severamente punidos, acusando-os de “agitadores fascistas”.

 Em 21 de dezembro, o presidente discursava em uma sacada voltada para a Piața Palatului, em Bucareste, mas a reação do público não foi de adoração, e sim de rechaço e de violência, espalhando “sangue pelas calçadas”, como relata Rabagia, que testemunhou o desenrolar dos acontecimentos da “Revolução de Natal”. Houve mais de mil mortes.

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Rebeldes mostram bandeiras romenas enquanto protestam contra Ceausescu, em 21 de dezembro de 1989 – Fonte: Getty Images.

De fato, com a URSS à beira do colapso, a Romênia, centrada em pagar dívidas externas, passava por tempos difíceis, com dificuldades econômicas e escassez. Enquanto isso, os Ceausescu investiam em obras ptolomaicas, como o Palácio do Povo. No dia seguinte à rebelião, Nicolae e Elena tentaram fugir da capital de helicóptero, mas foram capturados e levados ao tribunal, onde foram sentenciados à morte por “crimes contra a humanidade”.

O simbolismo do 25 de dezembro, evidentemente, não impediu a execução. A Romênia, afinal, era um estado ateu e, embora tivesse declarado independência política da União Soviética em 1964, ainda compartilhava de algumas práticas, sendo uma delas a implementação de propaganda, nas escolas, contrária a alguns dos símbolos natalinos considerados capitalistas, dentre eles a da árvore de Natal.

Hoje, o Natal é celebrado na Romênia à moda ocidental, mas os eventos de 1989 deixaram feridas abertas na Romênia. Nas palavras de Rabagia, “Para todos os outros o Natal é o Natal, mas para nós é a memória de como nossos pais, nossos filhos, nossas mães terminaram em caixões […] A árvore de Natal que meu pai comprou para nossa família terminou em seu caixão, como flores”.

A “Operación Navidad” Colombiana

Na Colômbia, o Natal foi mobilizado pelo governo para lidar com a questão das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). As FARC são a guerrilha colombiana mais antiga, tendo sido pioneiras, também, na América Latina como um todo. Elas surgiram entre os anos 1940 e 1950 na forma de um movimento libertário de inspiração marxista-leninista, em um panorama internacional de Guerra Fria e, nacional, de intensas desigualdades sociais, de constantes tentativas de intervenção estrangeira (em especial dos Estados Unidos) e de uma marcante tradição oligárquica. Os próprios colombianos encontam dificuldades ao definir a atuação das FARC – segundo Stephen Ferry, há três definições mais comuns: “um ciclo de retaliação pelas atrocidades cometidas no passado”; um empreendimento bélico que se sustenta pelo tráfico de drogas; uma expressão da luta de classes entre camponeses revolucionários e um sistema corrupto.

Com o passar do tempo, de fato, as FARC foram cada vez mais influenciadas pelo Partido Comunista da Colômbia (PCC), e adquiriram crescente caráter revolucionário, que se consolidou na Segunda Conferência do Bloco Guerrilheiro do Sul da Colômbia, entre abril e maio de 1966.

Em 2005, as FARC haviam adquirido considerável poderio militar em seu território, com cerca de 20 mil combatentes organizados em sete blocos, setenta frentes e quinze linhas móveis, e estavam equipadas com armamento e equipes de comunicação terrestres e aéreas. Quanto ao alcance de seus objetivos históricos – tomada do poder por meio de uma revolução armada, reforma agrária, fim do imperialismo e do sistema oligárquico e erradicação da pobreza –, as Forças Revolucionárias empregavam como método primário o sequestro e a subsequente extorsão financeira de agentes produtivos, e a fonte de sustento do movimento provinha do cultivo e do tráfico ilícito de drogas. 

Entre 1998 e 2002, houve uma campanha governamental para a desmobilização das FARC que não teve os efeitos desejados. Como resposta, em contrapartida, o presidente Álvaro Uribe Vélez, durante seus dois mandatos (2002-2010), tornou muito mais violento e autoritário o embate contra a guerrilha, prezando pelo apoio estadunidense e negando quaisquer tentativas de negociação, mesmo com as severas derrotas impostas às Forças Revolucionárias. A situação delicada chegou a causar a ruptura diplomática entre a Colômbia e a Venezuela de Hugo Chávez.

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Álvaro Uribe Vélez, ex-presidente da Colômbia – Fonte: Luisa González/Reuters.

Com a eleição de Juan Manuel Santos em 2010, todavia, os ânimos se acalmaram, uma vez que o governante se mostrou mais disposto a dialogar. Mas, antes da primeira reunião formal entre o governo da Colômbia e a liderança das FARC – sediada em Oslo, Noruega, em 2012 –, o Ministério da Defesa da Colômbia empreendeu uma campanha inusitada pelo desarmamento das Forças Revolucionárias, conhecida como “Operación Navidad”.

A operação consistiu na instalação, por parte do exército colombiano, de dez grandes árvores de Natal – de cerca de 25 metros de altura – iluminadas. Os enfeites foram posicionados em locais que remetiam aos conflitos com as FARC, na selva e nas montanhas, tendo sido um deles, inclusive, o parque natural La Macarena, onde Mono Jojoy, mais importante chefe militar das FARC, foi assassinado. O slogan adotado foi “Desmobilizem-se. No Natal, tudo é possível”, e um número significativo de membros do grupo armado de fato se desmobilizou. 

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As FARC colombianas durante a campanha de pacificação – Fonte: O Globo.

Embora as Forças Revolucionárias tenham declarado cessar-fogo unilateral e por tempo indeterminado em 2014, a campanha pela paz só se firmou de maneira oficial com os Acordos de Paz de 2016, que fizeram com que as FARC alterassem formalmente seus objetivos para a conquista da plena participação política e da reforma agrária dentro dos ditames da Constituição.

Datas Polêmicas

Por não ser explicitamente mencionada na Bíblia, a data do Natal é um quesito aberto a discussões não somente religiosas como, também, políticas. 

Isso produziu efeitos na Ucrânia, em 2023. Volodymyr Zelensky, presidente do país e aliado dos países do Norte Global – com especial menção aos Estados Unidos – promulgou uma lei que determinava que o Natal não mais seria comemorado no dia 7 de janeiro, e sim no dia 25 de dezembro, como a maioria do Ocidente. Note-se que isso ocorreu frente ao pano de fundo da guerra de longa data entre a Rússia de Vladimir Putin e a Ucrânia, que se intensificou em 2022, com a invasão russa ao território vizinho. Na Rússia, o Natal é celebrado no dia 7 de janeiro, dada a predominância da igreja ortodoxa no país. Em seu pronunciamento natalino, Zelensky alegou que uma mudança na data permitiria que o povo ucraniano “abandonasse a herança russa de impor as comemorações no dia 7 de janeiro”.

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Volodymyr Zelensky em frente a uma árvore de Natal – Fonte: Roberto Schmidt/AFP/Getty Images.

utro acontecimento recente – e de alta repercussão na mídia – que envolveu uma mudança na data do Natal foi uma iniciativa de Nicolás Maduro, presidente reeleito da Venezuela. As eleições presidenciais de 2024 geraram diversas controvérsias, com uma parte considerável da comunidade internacional se negando a reconhecer a vitória do candidato de orientação chavista.

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Maduro em uma coletiva de imprensa em setembro de 2025 – Fonte: REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria.

Assim, no dia 8 de setembro de 2025, Maduro apareceu em um programa da emissora estatal VTV e anunciou que as comemorações de Natal seriam antecipadas para o dia 1º de outubro, medida  decretada pelo político pelo segundo ano seguido – além disso, o Natal também havia sido antecipado em 2013 e 2020. O anúncio veio depois de um ataque pirata estadunidense a um navio venezuelano que navegava as águas do Caribe, em uma suposta operação americana mobilizada contra o “narcoterrorismo”.

Quanto à justificativa para tal procedimento inusitado, o chefe de Estado disse: “Com alegria, comércio, atividade, cultura, canções natalinas, gaitas… É a maneira de defender a felicidade, o direito à felicidade, o direito à alegria […] Ninguém e nada neste mundo tirará nosso direito à felicidade, à vida e à alegria”.

O Natal em Belém e Jerusalém

Na atual Cisjordânia, território palestino ilegalmente ocupado por Israel, está localizada a cidade histórica de Belém, a qual como já mencionado anteriormente, teria sido palco do nascimento de Jesus. Logo depois do muro construído por Israel, está Jerusalém, uma cidade milenar considerada sagrada pelas três grandes religiões monoteístas: o islamismo, o cristianismo e o judaísmo.

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A cidade de Jerusalém durante o Natal – Fonte: Getty Images.

A distância entre as duas cidades é tão pequena que, para os turistas que chegam anualmente no mês de dezembro, com objetivo de concretizar suas peregrinações religiosas, é como se elas fossem uma só, com o único empecilho de ter de passar pelo checkpoint israelense – para os palestinos, cuja passagem é proibida, é como se as cidades constituíssem dois mundos distintos.

Não é novidade que, dados seus antecedentes históricos, Belém e Jerusalém sejam cidades em que a diversidade religiosa assume formas concretas, de modo que uma mescla de tradições faz parte de seu cotidiano. Em Belém, por exemplo, está localizada a Basílica da Natividade – lugar exato onde supostamente nasceu Jesus –, que, em 2002, esteve cercada por soldados israelitas durante quase quarenta dias. Não muito longe, fica o Túmulo de Raquel, local sagrado para o judaísmo e, portanto, resguardado entre as paredes de uma fortificação estabelecida por Israel em plena Cisjordânia.

Do outro lado do muro, Jerusalém não é diferente, com suas duas facetas bastante heterogêneas. Enquanto Jerusalém Ocidental é moderna, remetendo à Europa ou até mesmo aos Estados Unidos, Jerusalém Oriental, de maioria muçulmana, tem ares mais ancestrais, consistindo na parte antiga da cidade. Em um território elevado sagrado para as três religiões citadas e localizado no coração da cidade, sendo conhecido como Morro do Templo, podem ser encontrados o Domo da Rocha, a Mesquita de Al-Aqsa e o Muro das Lamentações.

O caráter cosmopolita de Jerusalém, onde fiéis de diferentes religiões já conviveram em harmonia, entretanto, não é reconhecido por todos e em todas as épocas, e tem enfrentado desafios explícitos relacionados a projetos políticos de ordem internacional: em 1980, Israel decretou por lei a unidade de Jerusalém como capital (até 1967, ano da Guerra dos Seis Dias, a cidade estivera dividida entre Israel e a Jordânia por uma “linha verde”) e, em 2017, Donald Trump anunciou que seu país reconheceria Jerusalém como capital de Israel, substituindo Tel Aviv. Em resposta, as luzes da praça onde se instala a grandiosa árvore de Natal de Belém se apagaram durante “três dias de ira”, em protesto. Segundo o frade franciscano Artemio Vítores, entrevistado por Ricardo Marques, “Esta praça costuma estar cheia de gente, sempre. Mas este ano [2017] está assim, sem ninguém”.

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Trump visitando o Muro das Lamentações em maio de 2017 – Fonte: Ronen Zvulun.

O Natal, portanto, não atua necessariamente como causa de conflitos, e sim como uma espécie de barômetro para a instabilidade da região, isto é, para o genocídio cometido por Israel contra os palestinos, desde o estabelecimento do Estado de Israel em 1948.

Dessa forma, a situação na qual se encontra o conflito tende a influenciar as celebrações natalinas, tão características das duas cidades, a depender de sua severidade. Durante a Primeira Intifada (1987-1993) e a Segunda Intifada (2000-2005) – episódios nos quais o povo palestino se revoltou contra o colonialismo israelense e as Forças de Defesa de Israel (IDF), tendo sido o segundo mais organizado que o primeiro –, por exemplo, o turismo, a chegada de peregrinos, a promgramação tradicional do Natal e até mesmo o deslocamento dos locais foram gravemente comprometidos, dada a intensificação da “segurança” nos postos de controle localizados entre Jerusalém e Belém.

Em 2023 e desde então, com a potencialização das práticas violentas israelenses contra a Palestina, Belém cancelou as festividades na Praça da Manjedoura, em tom de luto e como forma de protesto e demonstração de solidariedade às vítimas de Gaza. Uma igreja em específico, a Igreja Evangélica Luterana de Natal, transformou seu presépio, disposto pelas famílias da congregação, em uma manifestação: nele, o menino Jesus foi representado entre escombros e vestindo um keffiyeh (tradicional lenço palestino que simboliza a resistência e a luta pela terra). Ao mesmo tempo, no Vaticano, o Papa Francisco iniciava as cerimônias de Natal dizendo que “Esta noite, nossos corações estão em Belém”.

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Belém em época de Natal – Fonte: Yannis Behrakis.

Natal, Capitalismo e Globalização: Integração ou Imperialismo?

Como já mencionado anteriormente neste artigo, o Natal, apesar de sua origem religiosa – que, na realidade, sempre esteve ligada à política – está se tornando cada vez mais secular e materialista, o que se deve, sobretudo, ao capitalismo, embora essa já fosse uma tendência anterior à consolidação do capitalismo tardio, cujas principais características são o consumo em massa e a apropriação de ideias e elementos culturais para transformá-los em mercadoria. Pesquisas realizadas pelo centro estatístico estadunidense Gallup em 2019 demonstraram que, dos nove a cada dez americanos que alegaram celebrar o Natal, apenas 35% afirmaram interpretar a data como “fortemente religiosa”.

Nesse sentido, para a historiadora Lisa Jacobson em uma entrevista concedida ao The Current, “As pessoas têm reclamado da comercialização excessiva do Natal desde sua [moderna] encarnação na metade do século XIX”. De acordo com a pesquisadora, a passagem das festas centradas em torno da comida, da música e da bebida se deu especialmente nos Estados Unidos, na segunda metade dos anos 1800. Curiosamente, antes dessa época, os comerciantes viam os feriados com maus olhos, porque “se você estava bebendo, festejando e se divertindo, isso significava que nenhum trabalho seria feito”. Cada vez mais, todavia, com o advento da propaganda sistemática, os proprietários de lojas começaram a enxergar nessa e em outras datas certo potencial de lucro e de alavancamento dos negócios. Começaram, então, as decorações natalinas nos estabelecimentos de comércio, e o próprio aspecto punitivo do Papai Noel foi deixado de lado para torná-lo mais aprazível. As mudanças no papel social da família colaboraram enormemente para esse salto: quanto mais a classe média se tornava essencial para a economia, e mais os núcleos familiares pertencentes a essa classe se “sentimentalizavam”, mais fazia sentido gastar dinheiro com as crianças. Em outras palavras, a reinvenção da vida privada – como artifício (ou sintoma) do capitalismo e da Indústria Cultural – e, com ela, a ressignificação da família como a antítese da vida pública, trazem à tona a necessidade de ritos direcionados ao âmbito interno e familiar. O Natal, como se pode concluir, era o candidato perfeito, tendo sido convertido, desde então, no festival doméstico por excelência.

No século XIX, entretanto, ainda havia uma dicotomia visível entre o Natal comercial e o Natal religioso. O fenômeno que se observa hoje é, pelo contrário, de dissolução dessa ambivalência, e de sua fusão em uma forma na qual a contradição se tornou tão normalizada – naturalização que não necessariamente ocorreu de forma natural, mas para a qual houve esforços – que parece homogênea: um único Natal, simplesmente. Robinson interpreta esse processo de maneira enxuta ao dizer que “Há muitas vezes nas quais mercadores de massa tentaram criar novos feriados com o interesse de inventar uma nova temporada para gastar. Mas essas tentativas nem sempre são bem-sucedidas […] As que são bem-sucedidas o fazem porque se tornam casadas com outros tipos de valores tradicionais. É por isso que acredito que os gastos festivos não são tanto sobre ceder ao lado mau, e sim sobre convencer a si mesmo de que você não está cedendo ao lado mau”.

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Ilustração – Fonte: The Skyline Review/John Harrison.

Outra discussão importante, intimamente associada à questão do Natal materialista, é a da globalização, conceito que se refere ao encurtamento subjetivo do espaço-tempo por meio do aumento dos fluxos globais de capital e informação, das inovações tecnológicas (que contribuem para a formação de uma “aldeia global”, ainda que esse termo possa ser controverso), à formação de mercados globais e à intensificação dos intercâmbios culturais. Uma das características mais importantes a se levar em conta sobre a globalização moderna, no entanto, é o fato de que ela é tida como a fase atual do capitalismo técnico-científico-informacional e que, portanto, tal como no sistema capitalista, ela está permeada por desigualdades.

É um questionamento válido, afinal, indagar acerca do motivo pelo qual o Brasil, um país latino-americano – bem como diversos outros países do Sul Global, mesmo que essa exportação cultural não esteja restrita a eles – celebra o Natal nos moldes americano-europeus, com renas e trenós decorando as mesmas avenidas comerciais que são assoladas pelo calor de dezembro. Mais que isso, é importante analisar como e quando o Natal se tornou uma espécie da “tradição universal”, e quais as motivações por trás dessa expansão territorial. Na Turquia, por exemplo, a prevalência do Natal ocidental já foi questionada: em 2015, ativistas religiosos e políticos se mobilizaram para protestar contra a influência desproporcional dessas tradições na sociedade turca, que é, por sinal, majoritariamente islâmica.

Tal fenômeno também produz efeitos sobre o florescimento da cultura local: uma vez que o capitalismo impõe o Natal em forma de objetos comercializáveis e de conteúdos midiáticos, é comum que símbolos culturais estrangeiros e cadeias de produção internacionais e precarizadas, com produtos mais baratos e mais propagandeados, sejam priorizadas em detrimento da arte e das economias locais, no que configura uma espécie de colonialismo comercial e referencial. Em cidades alemãs como Nuremberg e Estrasburgo, nas quais o Natal é bastante tradicional, essa tendência é combatida via organização de mercados natalinos, dos quais participam artesãos da região.

Isso não quer dizer que o capitalismo fez com que todos os países do mundo celebrem o Natal da mesma maneira, e a realidade é, por sinal, oposta: costumes como o hábito vigente na Islândia de ler após a meia-noite, ou a celebração das aranhas praticada na Ucrânia, o atestam. Há, inclusive, uma linha tênue entre o sincretismo e o apagamento – na modernidade, entre a integração proporcionada pela globalização e o imperialismo –, o que se torna evidente quando relembramos a incorporação dos ritos pagãos pelo cristianismo, nos princípios da história do Natal.

Mas essa não é, de maneira alguma, uma dualidade bem definida. Segundo Daniel Miller, da University College London, “[…] nós vemos claramente que a habilidade desse festival para se tornar, potencialmente, o próprio epítome da globalização deriva da mesma qualidade do sincretismo fácil que anteriormente fez do Natal, em todos os lugares, o triunfo do localismo, o protetor e legitimador de costumes e tradições especificamente regionais e particulares”. O que Miller aparentemente falha em reconhecer é que o fator imperialista advém do fato incontestável de que essa “troca” supostamente benévola não se dá, principalmente nesse caso, em pés de igualdade, visto que se trata, na maior parte das vezes, da adoção de tradições advindas de países mais influentes e poderosos na esfera global por outros que, na teia alimentar do capitalismo, se encontram em posição desfavorável.

Por fim, é crucial ressaltar que a tese aqui defendida não é a de que o Natal não seja celebrado nos lugares nos quais ele não é nativo, e tampouco que os aspectos da celebração natalina que vieram dos Estados Unidos ou da Europa sejam abolidos – a única exceção seja, talvez, o consumismo. O que é, realmente, de suma importância, é a compreensão crítica de que esse feriado não é, e nunca foi, meramente religioso, e muito menos puramente sentimental: há, longe disso, uma explicação bastante racional – e sobretudo econômica – para que essa data esteja, tal como ela é hoje e tem sido desde meados do século XIX, presente na maioria dos recantos do Planeta, e essa explicação está diretamente relacionada a um sistema de dominação imperialista que subjuga o mundo, e que é uma constante ao se analisar as relações internacionais. Mais que isso, cada aspecto aparentemente inofensivo do Natal está carregado de significado e de historicidade, e remete à uniformização cultural e à abstração do espaço-tempo.

Referências

https://www.nationalgeographic.com/history/article/how-christmas-has-evolved-over-centuries

https://www.theatlantic.com/international/archive/2011/12/the-annals-of-christmas-diplomacy/250176

https://www.politico.eu/article/7-times-christmas-day-got-political-charlemagne-ussr-george-washington-william-the-conqueror

https://www.iwm.org.uk/history/the-real-story-of-the-christmas-truce

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37181620

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2010/12/101218_colombia_arvore_guerrilheiros_cc

https://expresso.pt/internacional/2017-12-30-O-Natal-triste-de-Belem-reportagem-de-Ricardo-Marques-em-Jerusalem

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2023/12/25/guerras-politizam-o-natal-e-afetam-tradicoes-populacoes-e-o-calendario.htm

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/09/08/maduro-antecipa-o-natal-na-venezuela-e-decreta-inicio-das-comemoracoes-para-1o-de-outubro.ghtml

https://www.bbc.com/news/world-europe-50821546

https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/romania/11307063/Nicolae-Ceausescu-and-Romanias-Christmas-revolution.html

https://www.bbc.com/travel/article/20251208-the-anti-materialist-christmas-rituals-around-the-world-that-swap-gifts-for-meaning

https://www.moas.org/The-History-of-Christmas-1-37.html

https://www.journals.uchicago.edu/doi/full/10.14318/hau7.3.027

https://news.ucsb.edu/2018/019292/ghosts-christmas-presents

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  • cropped-PHOTO-2026-01-27-12-40-54-1-250x250 O Natal e as Relações Internacionais

    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Jornalismo, Ásia Ocidental, América Latina, Capitalismo e Imperialismo, Cultura e Relações Internacionais.

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Jornalismo, Ásia Ocidental, América Latina, Capitalismo e Imperialismo, Cultura e Relações Internacionais.