O Prêmio Nobel: Quando a Paz tem a Face da Guerra
Por Cecília Chalela e Enrico Spinelli
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Introdução
Marie Curie, física e química polonesa que promoveu consideráveis avanços no estudo da radiação e descobriu os elementos polônio e rádio; Malala Yousafzai, que foi baleada pelo Talibã por defender o direito das mulheres paquistanesas à educação; Gabriel García Márquez, que escreveu Cem Anos de Solidão, uma das mais célebres obras da literatura latino-americana; Martin Luther King Jr., que empreendeu uma resistência pacífica mas efetiva contra o racismo nos Estados Unidos. Todas estas figuras notáveis foram, em algum momento de suas vidas, as vencedoras de alguma das seis categorias do Prêmio Nobel – Literatura, Medicina, Química, Física, Economia e Paz – uma forma de reconhecimento simbólica e monetária – de cerca de 1,1 milhão de dólares – que é anualmente concedida àqueles que, de acordo com a percepção do comitê responsável, geraram, no ano anterior, “grande benefício à humanidade”, sendo essas personalidades notáveis celebradas em um jantar luxuoso na Prefeitura de Estocolmo.

Recentemente, todavia, acontecimentos polêmicos como a pretensão do atual presidente estadunidense Donald Trump ao Prêmio Nobel da Paz, bem como a concessão deste à ex-deputada venezuelana María Corina Machado, reavivaram as discussões acerca das controvérsias que circundam a premiação sueca ao longo de sua existência e desde sua origem.
Alfred Nobel e o Nascimento de um Lobby
Desde sua idealização, o Prêmio Nobel esteve embebido em controvérsias. Isso porque seu fundador, o químico e engenheiro sueco Alfred Bernhard Nobel, foi também o inventor da dinamite e de outros tipos de explosivos, o que levou um jornal francês – em um obituário de Nobel publicado por engano, quando este ainda estava vivo – a atribuir-lhe o apelido de “Mercador da Morte”. É importante notar que o trabalho de Nobel com materiais explosivos foi a principal razão da riqueza que o cientista adquiriu ao longo da vida, transformando-se em empresário.
O Prêmio, tal como inicialmente idealizado por Nobel, contava com cinco categorias de seu interesse – Medicina, Literatura, Química, Física e Paz, tendo sido esta última, acredita-se, inspirada por sua grande amizade com a pacifista austríaca Bertha von Suttner. A categoria Economia foi criada postumamente pelo Banco Nacional Sueco em 1968. Instituições diferentes, ainda, são responsáveis pela escolha do vencedor de cada categoria, sendo elas: a Academia Real Sueca de Ciências (Física e Química), o Karolinska Institutet (Medicina), a Academia Sueca (Literatura) e um comitê eleito pelo Parlamento Norueguês (Paz).

Depois disso, desde sua primeira edição em 1901, o Prêmio Nobel tem sido alvo de duras críticas por diversos motivos: machismo, eurocentrismo, exclusão de contribuidores de pesquisas (o Nobel pode ser destinado a um número limitado de pessoas, o que não reflete a realidade das pesquisas científicas), assédio sexual no comitê e a seleção, em vários momentos, de personalidades controversas.
Houve, inclusive, uma ocasião na qual Adolf Hitler foi nomeado para o Nobel da Paz de 1939. A iniciativa se deu no contexto da nomeação do então primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain para a honraria, por sua participação na negociação do acordo de Munique. Em protesto, doze membros do Parlamento Norueguês apresentaram a nomeação do austríaco, alegando que, se Chamberlain poderia ser nomeado por impedir uma guerra, então Hitler deveria sê-lo por não iniciar um conflito em primeiro lugar. A justificativa foi irônica e deveria servir como piada, mas não arrancou muitas risadas.
As alegações de machismo, por sua vez, são corroboradas pelas estatísticas: entre 1901 e 2025, 990 indivíduos diferentes receberam o Nobel – seja individualmente ou em conjunto – e, dentre estes, apenas 67 eram mulheres, o que corresponde a, aproximadamente, ínfimos 6,7%. E é um engano pensar que essa realidade está mudando conforme a passagem do tempo, já que, nos últimos dois anos, nenhuma mulher ganhou o Prêmio – pelo contrário, a última ocasião na qual a honraria foi destinada a uma figura feminina aconteceu em 2023, quando o trabalho da defensora de direitos humanos iraniana Narges Mohammadi foi reconhecido pela instituição. Em 2024, Gary Ruvkun e Victor Ambros receberam o Nobel de Medicina por sua descoberta dos microRNAs e de seu papel na regulação genética, mas, embora Rosalind Lee, a esposa de Ambros, fosse explicitamente citada como autora nos documentos da pesquisa, o Academia limitou-se a parabenizá-la nas redes sociais, em uma negação vergonhosa de reconhecimento que já havia acontecido outras vezes. Como disse Alexandra Thompson em seu artigo para a NewScientist, “talvez eles tenham pensado que um prêmio por residência fosse o suficiente”. A maioria das recipientes femininas, aliás, foram premiadas nas categorias de Paz (vinte premiações) e Literatura, com pouquíssima representação na área das ciências.

Essa última característica também se evidencia quando analisamos a tendência etnocentrista do Nobel. Nenhuma pessoa negra, por exemplo, jamais venceu nessas categorias – mesmo com candidatos excepcionais, como Charles Drew (que descobriu como estocar plasma sanguíneo por longos períodos de tempo) e Percy Julian (que foi capaz de sintetizar componentes medicinais a partir de plantas) – tendo havido, durante a história do premiação, apenas 17 vencedores negros (1,7% do total) distribuídos pelas categorias de Paz, Literatura e Economia. Quanto aos latino-americanos, houve apenas 16 vencedores (1,6% do total), concentrados majoritariamente na categoria de Literatura (6 premiados), mas com relativa representatividade na área das ciências, com laureados argentinos, venezuelanos e mexicanos nas categorias de Física, Química e Medicina, além de 3 vencedores do Nobel da Paz. Quanto aos asiáticos, estes estão um pouco melhor representados, com 78 laureados (sendo 33 japoneses) distribuídos por todas as categorias. Geograficamente falando, grande discrepância também pode ser observada, com predominância evidente da América do Norte – seja por nascimento ou por residência.
Muitos fatores indicam, portanto, que a história do Prêmio Nobel pode ser vista como a história do desenvolvimento de uma espécie de lobby – sendo o termo referente à prática, proveniente de indivíduos, empresas ou organizações, de influenciar ou tomar decisões tendo em vista seus próprios interesses, favorecendo um grupo, uma classe ou uma ideia específica de sociedade. Nesse sentido, as instituições que compõem o processo decisório do Prêmio Nobel foram capazes de construir um lobby que defende uma perspectiva essencialmente ocidental, elitista, hegemônica e talvez até mesmo meritocrática – dada a supervalorização de feitos individuais – bem como ideias profundamente questionáveis sobre a “Paz”, como veremos mais adiante na seção intitulada “A Paz como conceito hegemônico”.
Quando o Nobel foi Recusado
Ainda que receber o Prêmio Nobel tenda a ser considerado pela maioria como uma grande honra, isso nem sempre aconteceu: em duas raras ocasiões, a honraria foi rejeitada voluntariamente.
Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista e escritor francês, foi o primeiro a fazê-lo, quando o Prêmio Nobel da Literatura lhe foi oferecido em outubro de 1964, em reconhecimento a obras como La Nausée (1938) e a peça de teatro Huis Clos (1944). Segundo a Academia, o trabalho de Sartre, “[…] rico em ideias e repleto do espírito da liberdade e da busca pela verdade, tem exercido uma influência longeva em nosso tempo”.

Mas Sartre foi pouco comovido por esses elogios, e sua recusa foi consistente tanto com suas convicções ético-filosóficas quanto com suas ações anteriores – o escritor já se negara, em 1945, a aceitar a Legion d’Honneur, assim como nunca demonstrou qualquer interesse em integrar o Collège de France. Para ele, que defendia de maneira incisiva o engajamento político do artista, o escritor deveria estar consistentemente livre de amarras institucionais. Quando questionado acerca de suas razões, Sartre disse que seu ato foi baseado em seu próprio conceito do papel do autor: “Um escritor que adota posições políticas, sociais e literárias deve atuar apenas com seus próprios meios – a palavra escrita. Todas as honras que ele venha a receber expõem seus leitores a pressões que não considero desejáveis. Assinar Jean-Paul Sartre não é a mesma coisa que assinar Jean-Paul Sartre, Vencedor do Prêmio Nobel. Um escritor deve recusar-se a se deixar transformar em uma instituição”.
Durante uma entrevista a respeito de sua recusa – cujo trecho em questão faz parte do documentário Human, All Too Human, da BBC – o intelectual francês foi mais incisivo ao criticar a Fundação Nobel como instituição, além de fazer alusão a seu próprio posicionamento político comunista: “Porque eu estava politicamente envolvido, o estabelecimento burguês quis acobertar meus ‘erros passados’. Agora, há uma admissão! Então eles me deram o Prêmio Nobel. Eles ‘me perdoaram’ e disseram que eu merecia”. Por fim, em tom de indignação, ele exclama: “Foi monstruoso!”.
Recentemente, descobriu-se, ainda, que Sartre já planejava rejeitar a premiação desde o momento de sua nomeação. De acordo com documentação antes sigilosa, Sartre teria enviado uma carta à Academia Sueca pedindo que a organização não o escolhesse, e nem mesmo o considerasse como um possível vencedor, visto que ele “não poderia” aceitar um prêmio como aquele. O pedido, todavia, chegou tarde demais, e a Academia já o havia escolhido como laureado. Ironicamente, foi criado e instituído no meio literário, mais tarde, o “Prêmio Sartre pela Recusa de Prêmios”.
A segunda pessoa a voluntariamente rejeitar o Nobel foi Lê Ðúc Tho, por motivos que foram, pode-se argumentar, muito mais polêmicos. Tho, diplomata vietnamita, recebeu o Prêmio Nobel da Paz no ano de 1973, junto do Secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger. Dois dias antes, em 27 de janeiro, ambos haviam assinado os Acordos de Paz de Paris, que deveriam estabelecer o cessar-fogo da Guerra do Vietnã, com os EUA se retirando oficialmente do conflito.

Lê Ðúc Tho fora um dos fundadores do Partido Comunista Indochinês em 1929, e participara ativamente do Viet Minh e da luta anticolonial contra o domínio francês. Após a divisão do Vietnã pelo Paralelo 17 (1954-1975), Tho foi um dos responsáveis pela insurreição de uma guerrilha no Sul e, durante as negociações dos Acordos de Paz de Paris, ele representou o governo do Vietnã do Norte.
O diplomata vietnamita justificou sua recusa do Nobel em uma carta para o comitê, na qual relembrava os longos anos de agressão estadunidense contra seu país e declarava a causa da luta vietnamita pela autodeterminação e pela paz como uma causa de toda a parcela progressista da humanidade. De acordo com a cobertura dos eventos realizada pelo New York Times, além disso, Tho expressou desgosto pelo desrespeito sul-vietnamita e norte-americano a quatro cláusulas chave dos Acordos de Paz de Paris, e acusou Kissinger de violar ativamente a trégua. Ele afirmou que “a paz ainda não foi realmente instaurada no Vietnã do Sul”, e disse que só aceitaria o reconhecimento quando “os Acordos de Paris forem respeitados, as armas forem silenciadas, e a paz verdadeira for estabelecida no Vietnã do Sul”.
Entre 1973 e 1975, os EUA continuaram a apoiar a luta do Vietnã do Sul contra o Vietnã do Norte, até que, sob a liderança de figuras como Lê Ðúc Tho, Saigon finalmente caiu sob o controle do Viet Minh e do comando comunista, de modo que a reunificação do Vietnã foi concretizada.
Henry Kissinger: “Prêmio Nobel da Guerra”
Ainda com os holofotes direcionados ao Prêmio Nobel da Paz de 1973, se faz necessário destrinchar a figura controversa de Henry Kissinger, o outro nomeado para o que viria a ser chamado de “Prêmio Nobel da Guerra”.

Henry Kissinger serviu como Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 1969 a 1975, durante os governos de Richard Nixon e Gerald Ford, e como Secretário de Estado de 1973 a 1977. Convocado logo após Nixon tomar posse em 1969, Henry Kissinger iniciou conversações secretas com o governo comunista do Vietnã do Norte – personificado nas negociações por Tho – para solucionar o conflito na região, desaguando nos Acordos de Paz de Paris, em 1973, que lhes renderam o Prêmio Nobel da Paz daquele ano.
Diversas controvérsias circundam a figura de Kissinger quanto aos seus méritos para a obtenção de tal premiação. No mesmo ano de 1973, o Secretário de Estado esteve diretamente ligado aos golpes de Estado no Chile e Uruguai, além da intensificação dos bombardeios norte-americanos no Camboja – descumprindo sistematicamente cláusulas dos Acordos de Paris que exigiam a retirada das tropas estrangeiras do Laos e do Camboja. Além disso, a suposta paz no Vietnã pela qual Henry K. recebeu o Prêmio Nobel não aconteceu na prática, e o conflito continuava em grande parte do Vietnã do Sul quando ele e Tho foram laureados – motivo pelo qual Tho recusou o prêmio.
As reações internacionais foram fortemente contra a nomeação de Kissinger, levando o New York Times a apelidar ironicamente a honraria como “Prêmio Nobel da Guerra”. Outras figuras importantes se manifestaram contra a nomeação, como professores de Harvard, ex-funcionários do alto escalão americano e jornalistas do mundo inteiro. Na Noruega, o jornal Arbeiderbladet também fez duras críticas ao prêmio, alegando que“O Comitê Nobel Norueguês se desonrou”. Além disso, a decisão de premiar Henry K. levou membros do comitê a renunciarem ao cargo, situação que só havia acontecido em 1935, em resposta à premiação de Carl von Ossietzky.
Apesar disso, a presidente do Comitê Nobel Norueguês, Aase Lionæs, comentou na cerimônia de premiação sobre a centralidade das contradições do prêmio nessa edição, mas não tratou a decisão como um erro: “Ao conceder o Prêmio em 1973 a dois políticos responsáveis que estavam no centro dos eventos, o Comitê Norueguês do Nobel reforça sua convicção de que a solução para as muitas controvérsias que levaram ou podem levar à guerra deve ser por meio de negociações, não por meio de uma guerra total visando a vitória total”.
Em 1975, com a queda do governo do Vietnã do Sul, Kissinger tentou devolver a honraria recebida por acreditar que os acordos celebrados em 1973 haviam falhado, mas não obteve sucesso. Até hoje, o prêmio concedido ao ex-secretário de estado perdura como uma crítica ao Prêmio Nobel. Após a guerra, foi revelado que Kissinger pode ter sabotado as negociações de paz no Vietnã em 1968 para contribuir com a eleição de Nixon, o que suscitou ainda mais críticas sobre a atuação de Henry K. no Sudeste Asiático.
No mesmo ano de sua morte, em 2023, documentos sobre o processo de nomeação de Tho e Henry K. em 1973 foram revelados, tornando público que os próprios membros do comitê acreditavam que ambos eram escolhas ruins, além de que os Acordos de Paris não trariam paz duradoura. Desde então, alguns veículos midiáticos voltaram a abordar o escandalosa premiação de Kissinger, como Al-Jazeera, conglomerado de mídia catari, que veio a rotulá-la como “um tapa na cara das vítimas da brutalidade de Kissinger”, além do The Washington Post que também publicou um artigo intitulado “Henry Kissinger: Prêmio Nobel da Paz, criminoso de guerra?”. É perceptível, portanto, que a premiação do ex Conselheiro de Segurança Nacional sempre ficará na história, marcado pelas contradições de uma honraria que tem levantado debates e polêmicas desde suas primeiras edições.
Barack Obama: Guerra no Sul Global, Paz nos Estados Unidos
Mantendo as atenções nos atores políticos estadunidenses laureados pelo Nobel da Paz, o nome de Barack Obama, 44º presidente norte-americano, se faz incontornável.

Obama ascendeu ao Poder Executivo, em 2009, sob argumentos que remetiam a uma postura americana mais aberta ao diálogo e disposta a acabar com as intensas campanhas militares empreendidas por seu antecessor, George W. Bush, especialmente no Iraque e Afeganistão – onde a ação americana é frequentemente associada a diversos crimes de guerra e a infrações graves do Direito Internacional.
Sob esse contexto, Obama ganha as eleições e, antes do fim do mandato, é nomeado vencedor do Nobel. Quando questionado, Thorbjoern Jagland, presidente do Comitê Nobel Norueguês, afirmou que a honraria foi destinada ao presidente americano para “apoiar o que ele está tentando atingir” e, em um comunicado do próprio comitê, reiterou que “Apenas muito raramente uma pessoa capturou na mesma medida que Obama a atenção do mundo e deu a seu povo esperança de um futuro melhor”. A mídia mundial criticou a nomeação, tal como sua precipitação – Obama não havia cumprido nem parcialmente as metas propostas por sua campanha.
Como bem evidenciam os esforços norte-americanos quanto à mitigação do uso de armas nucleares no contexto da Guerra Fria, à aproximação com o mundo árabe e às tentativas de pôr fim aos embargos contra Cuba – bem como de desativação da base militar americana em Guantánamo – os discursos de Obama inauguraram uma nova fase da política externa dos Estados Unidos. No entanto, esses esforços não tiveram grandes efeitos na prática, argumento que é constantemente levantado pelos críticos da nomeação de Obama ao Nobel. Dessa forma, a premiação, com o slogan da paz, no ano de 2009, foi escancaradamente política, como bem traz José Renato Salatiel, da UOL: “Foi uma escolha política do Comitê, uma maneira de os europeus ratificarem sua liderança, popularidade e, mais do que isso, o que Obama representa em relação ao governo anterior, em pelo menos três pontos: política externa, desarmamento nuclear e meio ambiente”.
Também é importante reiterar que, no próprio ano de 2009, Barack Obama reforçou a quantidade de tropas norte-americanas no Afeganistão e, apesar de seu discurso anti-belicoso, manteve, durante toda a sua presidência, presença militar na Ásia e norte da África. Participou de incursões na Líbia de Gaddafi, manteve efetivos militares no Iraque e ingerência externa no Afeganistão. Militares americanos também participaram de ações em outras áreas do globo, como Paquistão, Somália e Iêmen, durante a “campanha contra o terrorismo”, o que só torna visível a discrepância entre o discurso promotor de paz e a política externa que, em vários aspectos práticos, mostrou-se pouco diferente da de George W. Bush.

Ademais, Barack Obama, honrado com o Nobel da Paz logo em seu primeiro ano na Casa Branca, foi o único presidente norte-americano que passou todos os dias de seu mandato presidencial em guerra com outra nação – isso significa que, por oito anos ininterruptos, houve tropas estadunidenses em combate ativo espalhadas pelo mundo. Embora a presença militar norte-americana na Ásia e África tenha visivelmente diminuído, Obama contrariou tanto pacifistas quanto setores favoráveis a uma atuação militar mais ativa nessas áreas, já que não foi capaz de efetivamente traduzir toda a atmosfera de paz que compunha em seus discursos e nem de intervir o suficiente para agradar os mais conservadores. Eliot Cohen, professor de história da universidade Johns Hopkins, diz à BBC: “Obama será lembrado como um presidente de tempos de guerra, o que é irônico, porque isso é a última coisa que ele planejava ou desejava”.
Donald Trump: Esperanças Frustradas
Quando se fala em Nobel da Paz, o nome de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, se faz incontornável. Não por ter ganhado o prêmio, já que isso não aconteceu, mas por sua incisiva e massiva campanha, que projetava sua autoimagem como pacificadora e simbólica da moralidade “universal” visando lançar-se como candidato plausível à honraria.

Desde que ingressou na política, ainda na década passada, Trump ganhou muita notoriedade por ser considerado um emblema da polarização política. Em tempos cada vez mais digitais, Trump transformou o processo eleitoral, os debates políticos e até a vida presidencial em verdadeiras novelas midiáticas que põem em foco sua própria figura em detrimento de tópicos verdadeiramente importantes. Dessa forma, o presidente norte-americano é um ícone do exibicionismo e do marketing diplomático, alimentando ambientes hostis, ressentimentos e divisões sociais como consequência de seus atos políticos personalistas.
Em 2025, ano em que retornou à Casa Branca, Trump empreendeu o que Celso Mello, ex-ministro do STF, chama de “diplomacia do desprezo”, marcado pelo constrangimento de outras figuras políticas e chefes de Estado como forma de afirmar a superioridade de seu país e de sua própria imagem. A visita de Zelensky – presidente da Ucrânia – e de Cyril Ramaphosa – presidente da África do Sul constrangido por um vídeo surpresa durante uma reunião com Trump – são grandes exemplos dessa política diplomática. Além disso, Trump gerou grande incômodo ao empreender uma guerra comercial unilateral contra quase todos os países do globo, ao negociar o fim da Guerra da Ucrânia sem a presença dos europeus (e da própria Ucrânia) e ao o genocídio perpetrado por Israel em Gaza, bem como outras infrações de soberania estatal em todo o Oriente Médio. Vale lembrar, inclusive, que Trump foi indicado ao prêmio por Benjamin Netanyahu – primeiro-ministro israelense cassado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade e crimes de guerra – evidenciando ainda mais o teor político de sua indicação em preterimento do teor moral.
Ainda sim, após a anunciação da vencedora desta edição do Prêmio Nobel da Paz no dia 10 de outubro, a Casa Branca emitiu um comunicado alegando que “O Prêmio Nobel da Paz é ilegítimo se o presidente Trump – o presidente da paz por excelência – for privado do reconhecimento que merece por trazer harmonia ao mundo” (The New York Times). A vontade de vencer o prêmio já foi assunto em dezenas de discursos públicos de Trump ao longo de seus dois mandatos, e constantemente se notam comentários atravessados do presidente pressionando o comitê do Parlamento Norueguês para que este o escolha. Como exemplos, são passíveis de citação: uma declaração de Trump, em fevereiro deste ano, e durante uma reunião com Benjamin Netanyahu, na qual este disse que “Eles nunca vão me dar um Prêmio Nobel da Paz. É uma pena. Eu mereço, mas eles nunca vão me dar”; uma afirmação da própria Casa Branca, do mês de julho, de que “já passou da hora” de o “pacificador-chefe” receber o Prêmio Nobel da Paz”; e, finalmente, uma ocasião ocorrida em agosto na qual, sem aviso prévio, Trump fez uma ligação a um ministro norueguês para indagar acerca do prêmio.

Assim, ao analisar as atitudes do presidente frente aos desafios políticos que este enfrenta, desde debates eleitorais a guerras em outros continentes, nota-se que Trump adota uma postura incondizente com os valores morais que o Nobel da Paz busca transpassar (ainda que seus verdadeiros princípios sejam questionáveis). Embora se coloque como um emissário da paz e um “negociador nato e voraz”, constantemente se vangloriando pelos conflitos que supostamente resolveu – como os embates entre a Índia e o Paquistão, Irã e Israel – Trump enfraquece o multilateralismo ao desestabilizar o funcionamento pacífico e eficaz das organizações internacionais e polariza as relações interestatais ao discursar em prol do protecionismo. Ele consistentemente promete levar a nação americana de volta aos “tempos áureos” criando um universo de incertezas e apreensão – vide suas decisões de sair da Organização Mundial da Saúde (OMS), de paralisar a Organização Mundial do Comércio (OMC) e de cortar verbas da Organização das Nações Unidas (ONU) – isso sem citar seus poucos parcos para combater a crise climática ou para atenuar a crise humanitária em Gaza, dado o grande potencial dos Estados Unidos para, em sua condição de potência, interromper a ocupação israelense na região.

Corroborando essas ideias, Trump, embora muito midiático e impositivo, não conseguiu convencer o comitê do Parlamento Norueguês de que suas atitudes são o suficiente para consagrá-lo vencedor. Apesar disso, é importante ressaltar que o atual presidente estadunidense só sente que possui liberdade para criticar e pressionar pela premiação porque o reconhecimento máximo da promoção da “paz” está carregado de hipocrisias – analogamente ao que aconteceria caso Trump houvesse sido laureado, Henry Kissinger venceu o prêmio Nobel da Paz no mesmo ano em que ordenou golpes militares na América Latina e descumpriu sistematicamente tópicos-chave dos próprios acordos que renderam-lhe o prêmio. Dessa forma, as esperanças frustradas de Trump se traduzem em pressão e constrangimento de lideranças diplomáticas e políticas a fim de influenciar futuras votações a seu favor, desgastando o emblema moral já exaurido da Fundação Nobel.
María Corina Machado: Soberania em Vertigem
Enquanto as esperanças de Donald Trump foram frustradas, as ambiguidades morais semelhantes de seu arauto, María Corina – o rosto da ingerência estadunidense na Venezuela – bem como sua carreira política permeada por caos e por violência, lhe garantiram um lugar entre os laureados pelo Prêmio Nobel da Paz.
Maria Corina Machado é filha de Henrique Machado Zuloaga, um magnata da indústria pesada, cuja empresa, Sivensa, é a maior produtora privada de aço da Venezuela, e esteve diretamente ligada à crise econômica que assolou o país no início do século XXI. Com uma posição privilegiada dentro da sociedade venezuelana, Corina sempre esteve presente na política advogando ideais econômicas ultraliberais, o que a colocou na frente de oposição ao regime chavista e, posteriormente, madurista.

No início dos anos 2000, fundou a ONG Súmate, criada para “monitorar” as eleições na Venezuela, mas que acabou por atuar de maneira muito mais incisiva do que sua justificativa de existência deveria abranger: a organização teve um papel ativo em diversos momentos da história política recente do país, como nas revoltas que culminaram no golpe de Estado que afastou Hugo Chávez do poder em 2002. É interessante apontar, ainda, que a organização de María Corina conta com financiamento do National Endowment for Democracy (NED) – organização norte-americana abastecida com verbas estatais e utilizada para propagar os ideais hegemônicos americanos de forma a influenciar nos rumos políticos de outros países, seja pelo apoio financeiro a grupos de oposição ou pelo aporte a grupos rebeldes ou separatistas. O NED também foi responsável, por exemplo, pelo financiamento de movimentos rebeldes cruciais para o colapso do regime de Kadafi e pelas revoltas anti-china em Hong Kong.
Somado a isso, Corina se encontrou com o presidente Bush em 2005, um momento de tensões elevadas entre o governo venezuelano e os EUA devido às fortes críticas de Chávez quanto à ingerência externa norte-americana e ao repúdio de Bush em relação ao governo em Caracas. Esse encontro curioso confirmou as suspeitas de que María C. Machado estava atuando em consonância com os estadunidenses para derrubar o governo chavista – após o evento, Corina foi declarada “golpista” e “conspiradora dos EUA” por Chávez.
Já em 2010, a líder da oposição tornou-se deputada, mas seu mandato foi cassado em 2014 – ano crítico para o governo venezuelano – quando ela aceitou o cargo de embaixadora do Panamá na OEA (Organização dos Estados Americanos). Como é de conhecimento de muitos, aceitar um cargo de governo estrangeiro é considerado lesa-pátria, ou seja, um crime de alta traição contra a soberania nacional. Vale ressaltar, também, que o governo panamenho ofereceu o posto a Corina com o objetivo declarado de “denunciar a violência cometida” pelo presidente Nicolás Maduro. Durante o tempo que se manteve como embaixadora, a magnata explicitamente apoiou as sanções econômicas à Venezuela como forma de pressionar o governo.
Ainda em meio ao caos político venezuelano de meados de 2014, María C. Machado, enquanto fundadora do partido de oposição Vente Venezuela, distinguiu, em meio aos embates violentos entre as forças policiais e os manifestantes que buscavam paralisar o país – chamados de “guarimbas” – uma oportunidade única para se projetar como líder indiscutível dos setores anti-maduristas, alimentando as ondas de revoltas populares e se envolvendo em outra tentativa de golpe de Estado para derrubar o presidente reeleito.
Desde então, apoiou o governo paralelo ilegítimo e autoproclamado de Juan Guaidó entre 2019 e 2022, além do bloqueio imposto por Donald Trump por meio de rigorosas sanções que visavam pressionar a saída de Maduro do poder – sendo importante assinalar que essas sanções causaram a morte de mais de 40 mil venezuelanos. É nesse contexto que, em 2020, durante uma entrevista à agência alemã Deutsche Welle, a ex-deputada chegou a pedir por uma “intervenção militar cirúrgica, que retire Maduro do poder”. Tal requisição de intervenção estrangeira não foi um caso isolado, visto que a líder da oposição já havia enviado uma carta pública em 2018 a Benjamin Netanyahu e Mauricio Macri, ex-presidente da Argentina, pedindo para que esses líderes de Estado “aplicassem força e influência para avançar no desmantelamento do regime criminoso venezuelano”.
Em consonância a isso, Corina se manteve como a grande figura opositora de Maduro durante a última eleição presidencial de 2024 e, embora não possa concorrer como candidata devido à cassação de seu mandato em 2014, personificou suas demandas no ex-diplomata Edmundo Gonzalez – um indivíduo amplamente desconhecido não apenas no mundo, como na própria Venezuela – o qual foi proclamado vencedor nas urnas por países como Argentina, Uruguai e EUA.
Em 2025, María C. Machado foi laureada pela Fundação Nobel “por seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”, mesmo ano em que a ex-deputada apoiou publicamente as novas sanções de Trump à Venezuela – incluso os exercícios militares da marinha norte-americana no Caribe e o aumento de recompensa ao Maduro, acusado de ser um líder de uma organização terrorista internacional (Cartel de Soles). Sua busca pela queda do governo chavista e madurista está calcado em atos que vão contra o Estado Democrático de Direito e o Direito Internacional, vide sua atuação direta no golpe de Estado em 2002 contra Hugo Chávez – governo eleito democraticamente – seu apoio às sanções econômicas e políticas que puseram a Venezuela em uma grave crise de abastecimento – dados apontam mais de 40 mil mortes de venezuelanos em decorrência das sanções de Trump, apoiadas por Corina.
Em análise de suas decisões políticas atuais e passadas, fica claro que Corina é o rosto sorridente da máquina de golpes de estado da CIA, a porta-voz das sanções, da privatização e da intervenção estrangeira, todas elas precariamente disfarçadas de defesa da democracia. Dessa forma, atribuir o Prêmio Nobel da Paz a Maria Corina Machado só agrava a crise de credibilidade que a honraria tem enfrentado, evidenciando que são as vontades das potências ocidentais que ditam e sempre ditaram a premiação, e que a “Paz” é um véu que tenta esconder debilmente as hipocrisias e a sede de poder insaciável das nações e classes historicamente dominantes.
A Paz como Conceito Hegemônico
Como já foi mencionado anteriormente, o Prêmio Nobel existe, em grande parte, como um lobby de instituições renomadas que defendem, por meio da escolha dos laureados, uma visão específica, duvidosa e hegemônica sobre o mundo, o que se torna progressivamente evidente – e chocante – quando falamos sobre a “Paz”.
Peiman Salehi, filósofo político e analista de relações internacionais baseado no Teerã, descreveu esse fenômeno com precisão em seu ensaio para a Pressenza: “O Prêmio Nobel da Paz nunca esteve divorciado do poder. Mas ele costumava fingir. Nas últimas duas décadas, sua ilusão de neutralidade tem se tornado cada vez mais precária. A premiação, hoje, frequentemente espelha as prioridades ideológicas do Ocidente – a promoção da democracia, a liberalização e a ‘paz por via da força’ – ao invés de qualquer comprometimento genuíno com a justiça estrutural, a desmilitarização e a não-violência”.
Devemos parar para analisar, um a um, os laureados pelo Prêmio Nobel da Paz. Nesse sentido, mesmo quando nos deparamos com figuras que, de certa forma, estiveram a frente de seu tempo nos respectivos contextos nos quais estavam inseridas, é possível notar um padrão desconfortável: todas elas alimentam, de uma maneira ou de outra, a narrativa ocidental de “missão civilizatória”. Sim, isso se aplica até mesmo a Martin Luther King Jr., o qual, como sabemos, defendeu o fim do racismo valendo-se do pacifismo e do discurso integracionista; se aplica inclusive a Malala, que, por ser ao mesmo tempo uma defensora da educação feminina e uma vítima do Talibã, o “mal do Oriente”, teve sua já discutível narrativa de “empoderamento individual” apropriada por instituições como o Nobel, e dissociada de críticas mais abrangentes – é rara, por exemplo, qualquer menção ao papel crucial dos Estados Unidos na chegada do Talibã ao poder. Um caso ainda mais claro é o da Madre Teresa, que venceu o Prêmio Nobel da Paz em 1979 devido ao trabalho desenvolvido por sua organização, os Missionários da Caridade, a qual, supostamente, “trouxe ajuda à humanidade em sofrimento” e “superou a pobreza e a angústia no mundo”. Ora, deixando de lado as limitações evidentes da caridade, as contradições impostas por suas crenças religiosas e o caráter jesuítico e colonial da “missão” da laureada, é inaceitável que a atuação de uma mulher acusada de falta de transparência, de aceitar doações de ditadores e de manter seus pacientes em condições propositalmente precárias – e que afirmou abertamente, em uma negação do conhecimento e da própria medicina, que o aborto e os métodos contraceptivos são “os maiores destruidores atuais da paz”, classificando-os como “guerra e assassinato diretos” – seja considerada como baluarte da “Paz”.

Portanto fica visível, valendo-se mesmo de uma análise histórica superficial, que a noção de “Paz” defendida pelo Nobel está intimamente associada ao conceito de democracia liberal. Um grande – e recente – acontecimento que ilustra essas visões fundamentalmente ocidentais de democracia do Nobel é a concessão do Prêmio Nobel de Economia a Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson, em 2024. O trabalho dos três economistas é uma defesa cínica do capitalismo e tem como uma de suas principais bases um livro previamente publicado por Acemoglu e por Robinson, intitulado sugestivamente de “Por que as nações falham”, no qual se insinua que há uma relação entre a “qualidade” das instituições sociais de um país e seu desenvolvimento econômico, existindo, entre o primeiro e o segundo fatores, uma relação de causalidade. Embora tenham sido amplamente reconhecidos e parabenizados por seus estudos, Acemoglu, Johnson e Robinson também foram amplamente criticados: Jostein Hauge, economista político que leciona em Cambridge, declarou, no X, que a escolha da premiação “expõe como a disciplina de economia falha em fazer questionamentos críticos sobre o colonialismo, o imperialismo e a universalidade das instituições ocidentais”.

A pesquisa do trio divide tais instituições em duas categorias deveras nebulosas: as instituições inclusivas, que reforçam o direito à propriedade, impõem limites à corrupção, permitem que todos contribuam com a economia de acordo com suas habilidades – o que reflete o conceito geral do Prêmio Nobel – e protegem a democracia (elas são, por acaso, predominantes em países de alta renda); e as instituições extrativas, que permitem a concentração desproporcional de poder e atuam contra a liberdade político-econômica. Em seguida, é argumentado que a implementação de instituições inclusivas – estruturas típicas do modelo ocidental de democracia liberal – promovem diretamente a prosperidade econômica, ou melhor, são uma pré-condição para que esta aconteça. Acemoglu, Johnson e Robinson utilizam uma comparação entre colônias de povoamento e de exploração como modelo ilustrativo para sua teoria: de acordo com eles, o que explica a maior prosperidade das colônias de povoamento como os Estados Unidos, a Austrália e o Canadá é o fato de que, nelas, predominaram as instituições inclusivas, o que os leva à conclusão de que as instituições europeias são mais adequadas para incentivar o desenvolvimento – como se as instituições extrativas implementadas nas colônias de exploração não fossem parte crucial do mecanismo europeu de dominação. Em nenhum momento é ponderado que uma das possíveis razões para o menor índice de desenvolvimento das colônias de exploração tenha sido o genocídio em massa dos povos originários, bem como o subsequente saqueamento de seu patrimônio cultural, material e natural. Acemoglu, inclusive, chegou a declarar abertamente que nunca esteve preocupado em “questionar se o colonialismo é bom ou ruim”.
De acordo com Mushtaq Khan, professor de economia da University of London, a proposição de Acemoglu, Johnson e Robinson é enviesada e historicamente imprecisa, e só serve para provar que, de fato, países ricos pontuam mais no quesito de número de instituições “inclusivas”, mas não prova, de maneira convincente, que estas são a razão de sua supremacia econômica. De acordo com uma matéria publicada no The Atlantic, “Você não precisa ter um diploma em economia ou em estatística para ser cético sobre os argumentos deles. O mundo real simplesmente provém muitos exemplos contrários”.
Yuen Yuen Ang, autora de livros sobre o desenvolvimento econômico chinês, também criticou os laureados, alegando que as instituições sociais estadunidenses estiveram impregnadas por corrupção durante toda a trajetória do país rumo à sua consolidação como potência internacional. Casos que não condizem com a tese dos três são, por exemplo, o Japão, os Tigres Asiáticos – Cingapura, Coréia do Sul e Taiwan – e a própria China. Pode-se argumentar, ainda, que nem mesmo os exemplos do Canadá e da Austrália sustentam a tese de Acemoglu, Johnson e Robinson, já que, mesmo tendo sido colônias de povoamento, estes países não possuem grande relevância contemporânea na área da inovação tecnológica – enquanto o Canadá, assim como o Reino Unido, enfrenta uma estagnação de longa data em seu sistema produtivo, boa parte da riqueza australiana foi e é proveniente de recursos naturais.
Ainda segundo o The Atlantic, em uma matéria de autoria de Mark Zachary Taylor, cientista político do Georgia Institute of Technology: “Democracias ocidentais muito frequentemente assumem que instaurar as instituições certas trará os resultados desejados. Isso não é verdade. Uma sociedade faz uso das instituições para alcançar seus objetivos. Mas os objetivos vêm antes, e eles são determinados por lutas sobre riqueza, recursos, ideias, identidades, cultura, história, raça, religião e status”.
Isso faz lembrar até mesmo o conceito de “Paz Perpétua”, elaborado por Immanuel Kant em um texto de suma importância para o direito internacional, servindo como inspiração para a fundação da Organização das Nações Unidas (ONU) e, também, como um marco do pensamento ocidental no que se refere à “Paz”. Para Kant, a “Paz Perpétua” é um estado das relações internacionais que é antagônico ao “estado de natureza”, e que se sustenta sobre as bases do republicanismo constitucional – forma de governo existente que representava o mais alto grau de liberalismo nos tempos de Kant – e do direito cosmopolita, ou seja, é um estado no qual todos os países do mundo estão organizados em uma grande “Federação de Estados Livres” essencialmente republicana e regida por um conjunto de leis universais. Kant falhou em perceber, todavia, que as “leis universais” nada mais são do que as leis europeias: assim sendo, seu ideal de “Paz Perpétua” é reflexo, simplesmente, da vontade de exportar à força – em uma retórica que soa mais colonialista do que os iluministas gostariam de admitir – as crenças e os costumes do continente europeu. Essa visão é ao mesmo tempo idealista, por ignorar a realidade imperialista das relações internacionais, e profundamente pessimista, por ser incapaz – ou por não desejar – enxergar caminhos alternativos que venham a solucionar os problemas da humanidade. Já o Nobel, ao adotá-la, contribui para ilustrar a arrogância e a ignorante pretensão do Ocidente quanto à universalidade e a superioridade de seus princípios e de suas instituições. Para a Fundação Nobel, a “Paz” e a Pax Europaea são indissociáveis entre si.

A premiação de Kissinger, de Obama e, por último, de María Corina, apenas reforçam um julgamento hegemônico, limitado e não solicitado acerca da “saúde” dos sistemas políticos ao redor do mundo, e confirmam que, como disse Salehi, “A única paz que conta […] é a paz daqueles que se alinham nitidamente ao capitalismo liberal, e não daqueles que resistem a seu maquinário”. Ainda nas palavras do internacionalista iraniano, quando este menciona a ocasião da concessão da honraria a Obama: “Não era a paz que estava sendo recompensada – era a promessa de um império palatável”.
Em conclusão, por conseguinte, ressalta-se que a medalha que coroa o recebimento do Prêmio Nobel é um totem da decadência do capitalismo tardio, que exalta o indivíduo isolado como promotor da “Paz” e que reforça as convicções de um sistema no qual cada um atua por si e tem seu mérito laureado pelo êxito particular em uma grande competição alienante, que ofusca qualquer possibilidade legítima de cooperação. A verdadeira paz não é a ausência de guerra, mas é disruptiva, crítica, combativa quanto às injustiças da estrutura social hegemônica em nível nacional e internacional, e profundamente inconveniente ao status quo. Por isso e por todos os motivos aqui explicitados, é inadmissível que uma instituição como a Fundação Nobel seja levada a sério.
Referências
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38642556
https://www.aljazeera.com/opinions/2023/12/2/kissinger-a-war-criminal-with-a-nobel-peace-prize
https://www.nobelprize.org/prizes/literature/1964/sartre/documentary
https://www.theguardian.com/books/2015/jan/05/sartre-nobel-prize-literature-letter-swedish-academy
https://www.theparisreview.org/blog/2017/12/06/literary-prize-refusal-literary-prizes
https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2024/11/democracy-acemoglu-nobel-prize/680522
https://pt.wikipedia.org/wiki/Henry_Kissinger
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cjede7gdwklo
https://www.washingtonpost.com/world/2023/11/30/henry-kissinger-war-criminal
https://pt.wikipedia.org/wiki/Comit%C3%A9_Nobel_Noruegu%C3%AAs
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/10/091009_obamapazatualiza_ir
https://brasil.elpais.com/brasil/2014/08/08/internacional/1407462393_485529.html
https://www.nobelprize.org/prizes/lists/nobel-prize-awarded-women
https://theconversation.com/this-years-nobel-prize-exposes-economics-problem-with-colonialism-241400
https://www.bbc.com/portuguese/articles/clylkmlkdjro
https://www.nytimes.com/2025/03/24/us/politics/trump-nobel-peace-prize.html
https://www.conjur.com.br/2025-out-13/uma-sabia-decisao-premio-nobel-da-paz-e-negado-a-trump
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpqvw82ex1zo
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy04e56xe2wo
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