Alianças do Sahel: Da Colonização ao Horizonte Pós Barkhane
Por Carolina Astúa e Lorena Parra
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
O Sahel
A palavra Sahel, سَاحِل sāḥil, significa “a margem” ou “costa” em árabe – fazendo referência à borda sul do deserto do Saara – e se trata, geograficamente, de uma extensa faixa de transição que separa os biomas árido e savana sudanesa, ao norte da África. É uma região bastante rica em recursos naturais e minerais, como petróleo, gás natural, urânio e ouro. São 6000 km de leste a oeste do continente, do Oceano Atlântico até o Mar Vermelho, e abriga mais de 400 mil pessoas em 10 países diferentes: Mali, Senegal, Gana, Mauritânia, Guiné, Burkina Faso, Níger, Chade, Camarões e Nigéria, enquanto região política.

A região sofre com diversos desafios climáticos, socioeconômicos e políticos, como o crescente processo de desertificação do ecossistema e, consequentemente, uma seca severa e perda da biodiversidade; a insegurança alimentar devido a diminuição da produção alimentícia, crescentes ondas epidêmicas; para além dos conflitos armados e a instabilidade política nos diversos países. A Organização Mundial da Saúde caracterizou a região do Sahel como uma das crises humanitárias mais gravemente crescentes no mundo.

Atualmente, o Sahel é também visto como um dos locais mais perigosos do mundo por concentrar a maioria das mortes globais por terrorismo. São diversos grupos armados que competem entre si pelo poder bélico e pela dominância territorial, como os jihadistas: o autointitulado Estado Islâmico da Província do Sahel (IS), um braço do Al-Qaeda chamado Jamaat Nusrat al-Islam al-Muslimin (JNIM), e o crescente Boko Haram; e ainda os próprios exércitos dos países, os quais ocupam cargos públicos autoritariamente. A cientista política e pesquisadora sobre sistemas de segurança nos países afro-francófonos, Niagalé Bagayoko, definiu a faixa como o “cinturão do golpe” na África, referindo-se aos múltiplos golpes de Estado que ocorreram durante os séculos XX e XXI, consequência dos processos de independência e a fragilidade dos sistemas de governo que ocuparam o poder subsequentemente.

Sobre as nações e povos que ocupam o Sahel, compreendem ⅔ da população mundial com menos de 25 anos, ou seja, uma população muito jovem. Existem diferentes culturas ao longo da região, sendo Hausa, Fulbe (ou Fula), Wolof, Soninke, Songhai e Malinké os que mais se destacam. Cada uma possui sua história de formação dos povoados e reinos, de colonização pelos europeus e, posteriormente, de independência. Nesse artigo, falaremos especialmente sobre os povos colonizados pela França, já que nosso interesse é a influência desse país na região e os desdobramentos de tal atuação, em especial, relacionada com a Operação Barkhane.

As Nações Francófonas do Sahel – Formação, Colonização e Independência
Mali
O Império de Mali teve seu auge durante os séculos XIII a XVII, se localizava no alto rio Níger e foi formado pela união de vários pequenos reinos Malinké. Possuía uma grande influência econômica, devido às abundantes reservas de ouro e sal; política, sendo a cidade de Timbuktu um grande polo de conhecimento; e militar, com um poderoso exército treinado. Os seus reis eram chamados ‘Mansa’ e o mais influente deles foi o Mansa Musa I, que trabalhou pela expansão territorial – chegando a dobrar o tamanho do império – e pelo avanço cultural especialmente na arquitetura, bibliotecas e sedes da fé islâmica. Durante seu projeto expansionista, ele ficou conhecido pelas suas riquezas e foi retratado como o homem mais rico de toda a região. Sua morte marcou o declínio do Império Mali e também a ocupação de outros reinos no seu território.

A colonização francesa em Mali teve início no final do século XIX através do estabelecimento de um forte na cidade de Medina, na região oeste, e a conquista – ora diplomática, ora pela força – do leste com a intenção de controlar o vale do rio Níger antes do exército britânico. O período colonial foi caracterizado pela exploração dos recursos como ouro, pelo trabalho forçado e pela junção de diversos reinos sobre o domínio francês. A França renomeou a área de Sudão Francês em 1905 quando a maioria dos reinos africanos já haviam sido tomados. Foi somente após a Segunda Guerra Mundial que o território conquistou autonomia administrativa interna – a partir da instituição da autodeterminação dos povos como princípio das Nações Unidas. No entanto, a independência se deu apenas em setembro de 1960, com o reconhecimento pacífico da soberania da República de Mali pela França e seu pertencimento à Comunidade Francesa (à exemplo da Commonwealth).

O governo foi amplamente constituído por integrantes do Partido Democrático Africano, inclusive o primeiro presidente eleito, Modibo Keita, e buscou se distanciar do colonizador e do ocidente ao estabelecer relações diplomáticas e econômicas com países comunistas. Tais relações foram fruto do posicionamento político do presidente, mas geraram grande descontentamento popular, cenário que possibilitou o primeiro golpe de Estado de Mali, encabeçado pelo Tenente Moussa Traoré em 1969.
Traoré permaneceu no poder durante 20 anos, uma ditadura que foi muito criticada e que gerou conflitos armados violentos contra outras nações – como Burkina Faso – e contra civis. Em 1991, um militar organizou outro golpe e assumiu o poder, o Coronel Amadou Touré. A partir desse momento, a história política do Mali envolveu líderes ditatoriais e sucessivos golpes de estado executados por militares até a atualidade.

Burkina Faso
Burkina Faso, que à época não tinha esse nome, foi formado pelos reinos Mossi, Uagadugu e Yatenga no século XI. Em sua história, resistiu fortemente às investidas expansionistas de reinos vizinhos, como o Fulanis e o Império Mali, mas não foi páreo para as armas francesas do século XIX. A colonização foi caracterizada por ser estratégica para a França, já que o território se localizava perto das nascentes dos três rios Volta, por isso o nome colonial “Alto Volta”, e próximo aos portos do golfo da Guiné. Durante o domínio francês, o povo burkinabé teve sua força e terra exploradas, principalmente, na Segunda Guerra Mundial, quando muitos soldados foram enviados para integrar o exército dos “lanceiros senegaleses”.
O ano 1960, marcado na história como o “Ano da África”, foi marcado pelas 17 nações africanas que alcançaram a independência de suas colonizadoras, sendo Burkina Faso uma delas. Um governo anticomunista eleito no mesmo ano colocou Maurice Yameogo no poder, no entanto, a instabilidade política e sua dureza levaram à subsequentes golpes de estado protagonizado por militares. Em 1984, no auge da Revolução socializante, em que o governo era formado por adeptos ao socialismo, houve a mudança de nome do país para Burkina Faso, um neologismo de línguas locais que significa “terra de homens dignos”.
O período de maior estabilidade política ocorreu ao longo do governo do Capitão Blaise Compaoré, de 1987 a 2010, pelo partido Frente Popular. Por mais de 20 anos, ele realizou reformas como a promulgação de uma nova Constituição, a descompressão do sistema monopartidário, desenvolvimento socioeconômico através da valorização popular em detrimento das elites, etc. Apesar disso, o país enfrentou e enfrenta muitas dificuldades. Além da incorporação da língua e costumes franceses, e consequente apagamento da cultura local, a população sofreu tanto com a exploração colonial quanto com o período pós independência, em que a França deixou a nação com uma economia fraca, um sistema político instável e baixíssima qualidade de vida.

Níger
O território conhecido como Níger fazia parte do antigo Império Songai e era uma importante área de comércio transaariano, pois interligava a África Ocidental ao Mediterrâneo, e foco da disseminação do islamismo. Muitos reinos ascenderam e caíram ao longo dos séculos até a dominação francesa acontecer em 1896. A colonização do Níger só foi inserida em 1922, a partir do estabelecimento do país como uma colônia de exploração e da abertura de mercado para os produtos franceses, sem migração significativa de colonos brancos para a região.

Assim como os outros países francófonos do Sahel, a independência do Níger aconteceu em 1960 após sua saída da Comunidade Francesa, também chamada de territórios ultramarinos, na qual o país era reconhecido como uma república autônoma da França e tinha uma pequena representação no parlamento francês. Esse movimento foi liderado pelo Primeiro-ministro da Assembleia Legislativa do Níger, Hamani Diori. Ele veio a se tornar o primeiro presidente do país, governando sob um regime unipartidário por 14 anos.
Em consonância com seus vizinhos, muitos golpes de estado ocorreram nos anos seguintes, bem como a permanência dos militares nas estâncias do governo. Diori foi retirado de seu posto devido à acusações de corrupção e favorecimento da França na exploração das recém descobertas reservas de urânio. Pela Primeira vez, em 1999, um presidente civil foi eleito no Níger, Tandja Mamadou. Entretanto, após a realização de manobras para estender seu mandato para um terceiro, em 2009, outro golpe militar foi executado tirando-o do poder.

“Não temos nada contra a população francesa, somos todos iguais, mas somos contra a política deles, somos contra o que o governo deles está fazendo, contra o que o seu governo nos está impondo. E graças a Deus, hoje, acho que cumprimos todos os acordos que assinamos com a França. Realmente, graças a Deus, e acho que eles vão meter-se na vida deles, nos seus próprios assuntos. Nós também vamos nos meter na nossa vida. […] Estes imperialistas montam e criam guerras só para nos roubarem, para ficarem com toda a nossa riqueza. Foi por isso que criaram o terrorismo. Nós, os povos do Sahel, não conhecíamos o terrorismo, não somos terroristas. No Sahel, antes da chegada dos imperialistas franceses e americanos, vivíamos a mistura de culturas. Vivíamos em simbiose”.
Amina Hamani, nigerina e integrante da Organização dos Povos da África do Oeste (OPAO), em entrevista à revista Brasil de Fato.
Operação Barkhane
Após as independências das colônias francesas, o país ainda buscava formas de manter sua influência na região como, por exemplo, no envio de funcionários públicos para integrarem os Ministérios, a institucionalização das intervenções – principalmente militares – para a democratização e para a luta anti-terrorista. Esse esforço da França de manter sua esfera de poder não só tinha raízes econômicas e políticas para demonstração de importância perante as outras potências mundiais – em especial depois do abatimento devido às Guerras Mundiais–, mas também seguia a ideologia civilizatória e “salvadora” europeia para com outras nações consideradas bárbaras ou atrasadas.
No contexto desse projeto francês, surgiu a Operação Barkhane, a última de 3 intervenções militares no Sahel: as Operações Épervier e Serval. Seu nome faz referência à um tipo de duna comum na área. Em 2014, durante o governo Macron, a França estabeleceu uma base militar no Chade e criou o G5 Sahel, uma organização intergovernamental com o intuito de promover o desenvolvimento e a segurança na região, além de promover ações conjuntas de monitoramento e combate ao terrorismo transnacional dos grupos jihadistas nos países africanos (Chade, Mali, Mauritânia, Burkina Faso e Níger) e, claro, na França. A criação desse grupo, entretanto, não passou de uma fachada para o fortalecimento da imagem da França como o país interventor legítimo na África.

A operação começou com o sucesso nas batalhas de reconquista das cidades de Timbuktu, Gao e Bamako, capital do Mali, tendo poucas baixas no exército aliado. Entretanto, a Operação Barkhane teve efeito oposto ao desejado quanto às rebeliões terroristas: os grupos viram a afronta como uma prerrogativa para o fortalecimento de suas crenças e para a conquista de mais membros. Dados confirmam que depois da retirada das tropas francesas, em 2022, os ataques se intensificaram – tornando-se cada vez mais complexos e mortíferos – e os grupos conquistaram expansão territorial em razão do vácuo de poder. Isso se deu pela objeção francesa à possibilidade de negociação com os grupos, sempre recorrendo ao uso da violência como contra ataque, mesmo quando os chefes de estado do G5 prefeririam buscar a mediação entre interesses.

A Operação Barkhane provocou muitos protestos civis contra a intervenção francesa em assuntos internos e o estabelecimento de bases militares nos países do chamado Françafrique, e tal descontentamento também foi direcionado aos governos do Sahel, considerados coniventes com o “neocolonialismo” francês. A vacância de poder e estabilidade política levou a golpes de Estado nas nações do G5, e os líderes que se seguiram vêm buscando amparo do oriente na luta contra o terrorismo e desenvolvimento socioeconômico, como será aprofundado posteriormente.

Durante os anos de ações militares, foram milhares de mortos e deslocados por todo Sahel. Burkina Faso representa ⅕ de todas as mortes por terrorismo do mundo, o Níger teve um aumento exponencial – o maior do globo – de 94% de mortes por terrorismo no último ano de 2024. O Mali é o único país que obteve uma melhoria nos dados de ataques e mortos, sendo de um decréscimo de 21%, porém os números ainda são muito altos: 604 fatalidades em 201 ataques.

Miragem Democrática e os Desafios da Estabilidade
O continente Africano, como abordado, ainda é palco de conflitos e instabilidades fruto das feridas abertas do colonialismo. Assim, as nações, historicamente, enfrentam caminhos tortuosos na manutenção da democracia e lutam contra os impactos de um efeito dominó cíclico, em que a fragilidade de um país repercute sobre a dos vizinhos. No início dos anos 2000, a batalha pela estabilização ocupou espaço central nas políticas, resultando em vitórias no funcionamento eleitoral e na expansão econômica. Entretanto, esse processo foi profundamente perturbado pela erupção dos desastres internacionais da pandemia de Covid-19 e da guerra russo-ucraniana, que até hoje impactam negativamente a qualidade de vida da população – especialmente pelo viés econômico, diante do aumento dos preços de itens básicos.
Dessa maneira, mais uma vez, o continente assistiu ao surgimento de múltiplos golpes militares. Desde 2020, quatro países do Sahel lidaram com a definitiva intervenção no governo: Mali, em 2020 e 2021, Chade, em 2021, Burkina Faso, em 2022, e Níger, em 2023. Tal escalada autoritária, segundo a Economist Intelligence Unit, resultou em uma diminuição de aproximadamente 5% na média do índice democrático entre 2006 e 2024 nos países dessa região. Para além desses limites geográficos, Gabão e Guiné também sucumbiram em autoritarismos; o Sudão teve seu regime novamente reestruturado pelos militares; e Gâmbia, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Serra Leoa foram abalados por golpes fracassados.
Nesse cenário de múltiplas dificuldades, identificam-se alguns aspectos comuns. Os golpes de Estado concentraram-se nas ex-colônias francesas que, amarradas ao passado, seguiram fortemente influenciadas pela potência. Com estratégias variadas, os regimes franceses mantiveram como constante a hipocrisia em relação ao assunto africano – como pode ser cisto pela discrepância entre proposta e a atuação da Operação Barkhane no combate ao terrorismo, e em muitos outros posicionamentos. Entre eles, o discurso público ganha destaque. Exemplo disso é a atitude omissa do presidente Emmanuel Macron ao manter relações com Idriss Déby e seu filho, Mahamat Déby, apontados como líderes do Chade pelas forças militares. De maneira ainda mais crua, é possível mencionar a exploração de recursos naturais, como no caso da relação Níger-França, em que o primeiro, com dificuldades econômicas e incapaz de abastecer sua própria população, fornecia a maior parte do urânio que mantém o sistema elétrico francês funcionando plenamente – e inclusive compõem parte do PIB do país europeu.

Tempestades de Areia: O Sahel em Mudança
Com isso em mente, é possível compreender as revoltas populares contra a dependência em relação ao Ocidente, diante da incapacidade dos mesmos de melhorar a situação dos países, e a favor de alternativas para uma condição melhor. Militares, então, se apoiaram nessas insatisfações e as mobilizaram por meio de uma agenda nacionalista e reformista, levando à realização dos golpes que marcaram os últimos cinco anos.
Em Mali, a situação começou em 2020. Entre protestos contra a presença francesa no país, alimentados por militares por mais de um ano, o soldado Assimi Goïta assumiu a liderança, pondo fim aos levantes ao depor arbitrariamente o ex-presidente Ibrahim Boubacar Keïta. Desde a posse, o governante se afasta das potências ocidentais – como evidenciado pela nacionalização de minas e pela intensificação de discussões e acordos com a Rússia – e age de forma autoritária, como ficou claro na dissolução dos partidos em maio deste ano e na forte repressão à oposição.
Atualmente, o país vive uma crise humanitária severa, envolvendo uma grande onda de deslocados e uma situação crítica – especialmente nas cidades de Gao, Dori e Timbuktu – com boicotes aos meios de comunicação e escassez de mantimentos básicos. Tais circunstâncias colocaram Mali entre os cinco maiores focos de fome do mundo em 2025, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A previsão da instituição para julho e agosto deste ano era de que 2,6 milhões de pessoas estariam em risco de insegurança alimentar catastrófica.

Em seguida, em 2022, Burkina Faso foi tomado por um regime militar em um golpe fragmentado. Em um primeiro momento, o Movimento Patriótico pela Salvaguarda e Restauração (MPSR) atuou na retirada do ex-presidente Roch Marc Christian Kaboré do poder – e na ocupação da presidência por Paul-Henri Sandaogo Damiba – além de invalidar a Constituição e fechar as fronteiras. Em um segundo momento, Ibrahim Traoré, dissidente do movimento, assumiu o poder com ainda mais violência. De acordo com a Human Rights Watch (HRW), mais de 200 civis, supostamente ligados a grupos armados de oposição, foram assassinados por militares durante o atentado que consolidou seu poder.
Sua atuação como líder tem construído uma imagem apelativa. Com posicionamento anti-imperialista, Ibrahim Traoré se apropria da memória de grandes líderes do passado – como o marxista Thomas Sankara, figura central na independência do país – o que o transformou em uma liderança carismática e amplamente apoiada pelo povo. Atendendo a essa base, afastou-se da França e do Ocidente por meio da nacionalização das minas – exploradas por estrangeiros devido à abundância de ouro, cobre e zinco, entre outros – banimento de agências midiáticas e jornalísticas europeias e estadunidenses, de tentativas de desvinculação da moeda francesa e de aproximação, via acordos, com potências orientais. Por outro lado, a violência não se limitou ao momento do golpe. De acordo com o Conselho Norueguês para os Refugiados, as mortes ligadas à violência dobraram em 2023. Além disso, as dificuldades vividas resultaram no aumento de 707 mil pessoas deslocadas no mesmo ano e em uma previsão da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que 6,3 milhões de pessoas, mais do que um quarto da população, necessitariam de assistência humanitária em 2024.

Foto: RADIO TELEVISION BURKINA FASO.
No Níger, a situação repetiu antigas dificuldades e recaídas autoritárias, porém trouxe uma nova característica: um enorme impacto internacional. Em julho de 2023, militares anunciaram um golpe contra o presidente Mohamed Bazoum, e o General Abdourahamane Tchiani se apresentou como novo líder do país. Entre as justificativas estavam a necessidade de uma nova gestão dos problemas de segurança e da situação socioeconômica e, especialmente, a condenação do ex-presidente por alinhamento ao Ocidente. A respeito desse último ponto, destaca-se inclusive o auxílio prestado pelo antigo governo à luta dos países europeus contra a migração pelo Mar Mediterrâneo.
O que concedeu ao golpe tamanha repercussão, entretanto, foi a resposta da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Economic Community of West African States – ECOWAS). O bloco já havia aplicado sanções ao país como represália às instabilidades políticas ao redor de 2010, mas, em 2023, essas atingiram nova intensidade. Diferentemente do posicionamento frente ao golpe em Mali – onde os embargos não afetaram produtos essenciais – as sanções ao Níger foram as mais graves na história da Comunidade, barrando o acesso do povo a remédios e alimentos básicos. Nesse cenário, 19 países do continente interromperam o comércio com o país. Como consequência, segundo o World Food Programme (WFP), a quantidade de pessoas sofrendo com insegurança alimentar mais do que dobrou nesse período. Além disso, as políticas econômicas foram acompanhadas de uma ameaça de intervenção militar que, embora não cumprida, mobilizou os países vizinhos Mali e Burkina Faso a firmarem um acordo informal de defesa mútua. Tal gesto representou os primeiros passos para a colaboração entre os três países do Sahel, agora unidos por um horizonte convergente de ideais transformadores manipulados por regimes militares.

O Poder da Dissidência e as Comunidades Internacionais
A aproximação de Mali, Burkina Faso e Níger uniu os interesses comuns dos novos regimes e do povo em um posicionamento a favor da soberania nacional e do pan-africanismo. Nessa síntese, foi construída uma agenda revisionista, ou seja, que propõe a mudança do sistema internacional e, neste caso, a quebra da hegemonia das grandes potências e o fim da submissão neocolonial. Como primeira ruptura desse cenário consolidado, destaca-se a formação da Aliança dos Estados do Sahel (AES) em oposição à histórica Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental.

A ECOWAS foi fundada a partir do Tratado de Lagos em 1975, com o objetivo de promover a cooperação econômica entre países africanos em prol do desenvolvimento e da melhoria generalizada da qualidade de vida. Em sua inauguração, o bloco englobou quinze membros: Benin, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo.
A princípio, seu foco era econômico, concentrando esforços no estabelecimento de uma área de livre comércio, na criação de uma tarifa externa comum, na facilitação da circulação de bens e pessoas e no investimento colaborativo em infraestrutura. Para além disso, as políticas também envolveram relações intercontinentais, sendo o bloco aberto a acordos com as potências ocidentais. A existência, desde 2014, do TIFA Council – em tradução livre: Conselho de Acordos-Quadro de Comércio e Investimento entre os Estados Unidos e a ECOWAS – demonstra tal intuito.
Por outro lado, a ECOWAS – com seus princípios liberais democráticos, de boa governança e de promoção da dignidade humana – passou a se posicionar mais veementemente nos assuntos políticos, até se tornar uma de suas pautas centrais. A partir da guerra na Libéria, em 1989, criou-se o Grupo de Monitoramento da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOMOG), responsável pela sondagem políticas dos membros e com capacidade de intervenção militar. Ademais, em 1999, foi implementado o Protocolo Referente aos Mecanismos de Prevenção de Conflitos, Gestão, Resolução, Manutenção da Paz e Segurança (tradução livre), que deu ainda maior ênfase ao viés diplomático. Já em 2001, a adição do Protocolo sobre Democracia e Boa Governança (tradução livre) buscou examinar os conflitos para além das disputas étnico-religiosas e previu, pela primeira vez, sanções como retaliação aos desvios autoritários.
Apesar dos princípios, muitos países não atuam conforme a comunidade propõe, e a imposição de penalidades ainda não possui um padrão bem definido. Ainda assim, o controle por regimes militares e autoritários é fortemente condenado. Nesse sentido, o golpe na Mauritânia em 2000 e sua saída do bloco – frente à divergência de valores, à insatisfação com a capacidade de gestão das necessidades específicas de cada membro e à busca de novas alianças – foi o primeiro baque à estabilidade e credibilidade da ECOWAS. O segundo foi justamente a dissidência dos três aliados do Sahel em uma nova comunidade.
A Aliança dos Estados do Sahel (AES), estabelecida em setembro de 2023, foi formada por Mali, Burkina Faso e Níger e trilhou um caminho inverso ao da antiga união, estabelecendo-se primeiro com uma cooperação militar baseada na segurança e na capacidade soberana dos próprios países africanos de se defenderem, e depois como aliança político-econômica. Assim, juntos, os governantes de cada país – Assimi Goïta, Ibrahim Traoré e Abdourahamane Tchiani – alimentam um movimento que condena a ECOWAS por submissão prejudicial aos países hegemônicos, antigos colonizadores – e até por apoio a grupos jihadistas terroristas que espalham insegurança pela região. Mais que uma reprovação, denunciam o bloco como uma ameaça ao Sahel.

Apesar desse posicionamento e rompimento de relações, a ECOWAS adotou uma resposta amena. Considerando possíveis consequências negativas para si – como a interrupção de rotas comerciais e o impacto no investimento internacional frente à deterioração de sua imagem – manteve as portas abertas aos países dissidentes, com perda gradual dos benefícios da comunidade econômica e possibilidade de retorno à parceria. A AES, por outro lado, seguiu firme na busca por afastamento abrupto e autonomia. Sob o prisma político-econômico, os países começaram a substituir o que uma vez foi padronizado pela ECOWAS, criando novas instituições, passaportes, alianças internacionais, reformulações monetárias, entre outros.
No âmbito militar, a tríplice tem como principais alvos os grupos jihadistas e, para seu combate, mobiliza forças que já chegam a aproximadamente 5 mil soldados nas áreas fronteiriças e de maior incidência de ataques. Essa massa, entretanto, é heterogênea, contando com grande participação de grupos locais paramilitares, como os Voluntários para a Defesa da Pátria (VDP) de Burkina Faso. Ademais, também tem sido apoiada por potência estrangeiras, evidenciado pelo uso de novas tecnologias e a atuação de grupos mercenários, sendo o caso russo notável. Por fim, destaca-se que, apesar dos esforços físicos, a AES não demonstra ter planos a longo prazo para os problemas da região. Assim, combate a violência com violência, sem preocupação em entender as causas do extremismo ou oferecer amparo às comunidades por meio do combate à pobreza, da corrupção ou da melhoria de sistemas de saneamento básico, saúde e educação, entre outros.
Deserto das Vacâncias e Sucessões
A atuação coordenada das forças europeias e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental teve impactos extensos sobre a região do Sahel. Entre as vertentes possíveis de análise, cabe destacar o efeito da construção de narrativas. De modo geral, a aliança simplificou as relações da região em uma disputa bilateral: de um lado, os “aliados” – as forças liberais – e, do outro, os “inimigos” – levantes militares e grupos terroristas. Esse olhar, além de mascarar o oportunismo dos países europeus na intervenção em território africano, também disfarçou a real ineficácia dessas forças em lidar com a multiplicação das células terroristas e demais formas de violência. Entretanto, embora a teoria estivesse longe de ser consolidada na prática, a força da imagem construída e a simples presença de tropas servia como fator estabilizador, na medida em que tal posição de poder já aparentava estar ocupada.
Desse modo, analisa-se um novo fenômeno: o rompimento da influência da ECOWAS e a retirada de tropas europeias como um ponto de virada para a vacância de poder na região do Sahel. Nesse sentido, o período atual pode ser descrito como transicional, em que a AES busca obter controle em parceria com novas potências, mas também corre o risco de subordinação a novas forças e de um crescimento terrorista ainda maior – como já é observado pelo aumento do fluxo de infiltração de membros do Boko Haram e do Estado Islâmico por países fronteiriços, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA) em 2024.

Em busca de amparo e supressão das necessidades básicas, a AES buscou o Marrocos como um dos primeiros parceiros. Sem a ajuda de grande parte de seus vizinhos, Mali, Níger e Burkina Faso perderam as rotas que lhes permitiam escapar da condição de países continentais. Isolados, aceitaram o acesso ao Atlântico pelo porto de Dakhla, no Saara Ocidental, oferecido por Marrocos e facilitado pela Mauritânia. Essa alternância de vias e novos acordos pode ser analisada pela perspectiva da oferta – em que o país ao norte projeta sua influência no Sahel – e pela perspectiva da busca – em que o sucesso da nova rota, sem considerar a Argélia, representa a tentativa de apartação da ECOWAS. Entretanto, esses novos acordos também trazem novos problemas: a influência de Magreb pode aumentar o espaço de atuação das vertentes radicais da Frente Polisário. O movimento revolucionário, que busca a autonomia do Saara Ocidental frente ao controle do Marrocos e a transformação em uma República Árabe Saharaui Democrática, tem tido membros radicalizados, fruto de um cenário de disputas duradouras e de péssimas condições. Assim, o risco se agrava na ligação desses coletivos às células jihadistas.
A influência chinesa também merece atenção e deve ser observada por uma óptica ampla e global, tal como é sua atuação. A grande potência, apesar de aparentar menos intervencionista, tem sido cada vez mais apelativa para o mundo oriental que busca sair da esfera de persuasão do Ocidente e diversificar parceiros. Nesse sentido, há um movimento chinês gradualmente crescente, porém estável, de investimento de capital nos países africanos. O destaque dessa política pode ser visto em alguns resultados, como a SUKALA – empresa de produção e processamento de açúcar dividida entre o governo malinês e o exterior – que já gerou mais de 35 milhões de dólares em impostos e taxas para o país africano. Ademais, também é o caso do setor de mineração nigerino, que recebe mais de 600 milhões de dólares, e do campo petrolífero de Agadem, construído por uma empresa chinesa, englobando o projeto de 2019 de 6 bilhões de dólares para a construção do maior oleoduto do continente.

Desse modo, também é visível que o laço não é unilateral. A China é fortemente beneficiada e abastecida com matérias-primas desses países e, portanto, possui interesse na manutenção da estabilidade regional. Com a saída da AES, por exemplo, o oleoduto que conectava Níger a Benin enfrentou problemas devido ao fechamento de fronteiras. Além disso, as novas insurgências nacionalistas resultaram em revoltas contra a exploração ilegal chinesa das minas – contra a qual o governo do Mali convocou o embaixador do país asiático – e contra os impacto gerais da atividade sobre o meio ambiente e a vida humana. incluindo a contaminação por mercúrio e desabamentos de terra. Em fevereiro deste ano, por exemplo, mais de 48 vidas de trabalhadores foram ceifadas em um colapso de mina na região aurífera de Mali.
Com objetivo de estabilização, e em um momento de transformações no Sahel, a influência chinesa mudou um pouco de teor, tornando-se também para a manipulação militar, sem desgastar sua imagem perante a população. Além do amparo à ONU, o país tem criado relações mais bilaterais com as nações, como exemplificado pelo investimento de mais de 45 milhões de dólares na força conjunta do G5 do Sahel em 2019, pelos compromissos em oferecer tecnologia e treinamento militar, e pela agenda de Segurança Global de 2022. De maneira geral, sua estratégia segue sendo mais distante – diferentemente da dos países ocidentais – concedendo uma autonomia e flexibilidade de acordos desejada pela maioria dos países africanos.
Por fim, observa-se a influência do Kremlin. Ao contrário do polo de Beijing, a Rússia se posiciona de forma brutal e escancarada no campo militar. Tornando-se parceira preferencial no entre golpes, ofereceu armas, tropas e tecnologia aos movimentos nacionalistas, motivada por dois objetivos: apoiar o revisionismo e a luta contra a hegemonia ocidental, e reviver a influência da era soviética. A intervenção, entretanto, não se limita aos meios oficiais. Grupos mercenários russos têm forte presença desde os golpes militares. Em Mali, por exemplo, desde 2021, mais de 1000 membros do Grupo Wagner foram identificados no país. Também se vê a reformulação do grupo no Africa Korps, que ampliou sua atuação no apoio ao treinamento dos exércitos locais. Entretanto, devido à ilegalidade e discrição dos paramilitares, sua atuação frequentemente é resultado direto dos interesses particulares do governo russo ou de atores locais, alimentando a violência, disputas étnicas e violando direitos básicos dos civis.

Nessa aproximação, torna-se essencial a construção de uma imagem. Para tal, Putin tem se posicionado publicamente a favor das parcerias, garantindo seu comprometimento com a cooperação e o respeito aos objetivos comuns:
“A Rússia e a África estão unidas por um desejo inato de defender a verdadeira soberania e o direito ao seu próprio caminho de desenvolvimento nas esferas política, econômica, social, cultural e outras”
Conjuntamente com as falas políticas, a formação de uma imagem russa como aliado não colonizador e militarmente forte, que compreenda as pautas das revoluções sahelianas, tem sido construída pela imprensa. Hoje, o canal televisivo RT e a agência jornalística Sputnik têm grande influência em países de todo o mundo, ganhando ainda mais visualizadores em nações do Sahel, onde há censura de vias de informação ocidental – também enviesadas a seu favor.
Com uma história única russa sobre o mundo atual, muitas manifestações populares em Mali, Burkina Faso e Níger têm se apropriado de símbolos russos para reivindicar sua própria soberania e pressionar por mudanças. Apesar de não haver consenso popular a respeito de muitos assuntos, o uso da bandeira estrangeira para representar um movimento nacional demonstra a enorme influência e falsa percepção de uma união independente dos interesses dos Estados. Esse processo não é restrito aos países do Sahel, sendo fruto da globalização e da disputa de narrativas das grandes potências através da mídia e de alianças em todo mundo, marcando inclusive a política brasileira, como se vê no empoderamento de bandeiras estadunidenses e israelenses em protestos da direita bolsonarista.


Referências
https://uniss-sahel.org/geography/
https://featured.undp.org/sahel
https://www.who.int/emergencies/situations/humanitarian-crisis-in-sahel-region-of-africa
https://www.ifad.org/en/west-and-central-africa/sahel
https://education.nationalgeographic.org/resource/mali-empire
https://www.britannica.com/topic/history-of-Mali#ref361370
https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/271070/001194033.pdf?sequence=1&isAllowed=y
https://hir.harvard.edu/how-france-failed-mali-the-end-of-operation-barkhane
https://www.visionofhumanity.org/sahel-dominates-top-10-countries-most-impacted-by-terrorism/
https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/loc_pdf/906/1/burkina_faso
https://vermelho.org.br/2023/08/31/niger-neocolonialismo-e-questao-nacional-no-sahel/
https://www.britannica.com/place/Niger/Government-and-society#ref283516
https://www.minervainstitute.es/alianza-estados-sahel-soberania-africana/
https://issafrica.s3.amazonaws.com/site/uploads/Paper230.pdf
https://www.parl.ecowas.int/estrutura-do-parlamento/?lang=pt-pt
https://www.crisisgroup.org/sites/default/files/2023-12/ecowas-05xii23_0.pdf
https://issafrica.org/iss-today/ecowas-must-look-beyond-the-use-of-force-in-niger
https://aei.pitt.edu/79030/1/Hartmann.Striebinger.pdf
https://www.bbc.com/news/articles/c5yvd91j72eo
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c04xm52jrymo
https://www.bbc.com/news/articles/cqj7z92xw9no
https://youtu.be/twUtws0T_uc?si=p6JmZqrhpEOOYAYL
https://www.dw.com/pt-br/macron-anuncia-retirada-de-militares-franceses-do-n%C3%ADger/a-66911684
https://www.al.pi.leg.br/tv/noticias-tv-1/onu-divulga-5-principais-focos-da-fome-no-mundo
https://orcasia.org/article/208/chinas-foreign-policy-in-the-sahel
Share this content:


