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Palestina Censurada: O Combate à Autodeterminação Palestina na Europa

Palestina Censurada: O Combate à Autodeterminação Palestina na Europa

Por Cecília Chalela

Liberdade de Expressão: Para Quem?

Desde o ataque do Hamas a Tel Aviv em 7 de outubro de 2023, seguido de uma resposta notoriamente desproporcional da parte de Israel e da “retomada” das hostilidades na Faixa de Gaza, a grande maioria dos países europeus adotou uma política ainda mais rigorosa em relação a manifestações públicas de apoio à Palestina – assunto que sempre foi, aliás, um grande tabu.

O Parlamento Europeu, por exemplo, não tardou em emitir uma nota oficial condenando o ataque e exigindo a liberação imediata dos reféns, além de reiterar o “direito de Israel à autodefesa”, comentário que se torna irônico quando recordamos que a Nakba – isto é, a expropriação e perseguição violenta do povo palestino por parte do movimento sionista – acontece desde 1947, com o endossamento da Europa.

Em 7 de outubro de 2025, no aniversário de dois anos do ataque, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer também publicou uma declaração dramática sobre o evento: “[…] O tempo não diminui o mal que presenciamos naquele dia. O pior ataque contra o povo judeu desde o Holocausto. A tortura e o assassinato brutais e a sangue-frio de judeus em suas próprias casas. […] este país sempre se levantará contra aqueles que desejam o mal e o ódio às comunidades judaicas”. Em outras circunstâncias, Starmer já acusou os protestos pró-Palestina de serem “antibritânicos”. Países como a França, a Itália e muitos outros também expressaram, de imediato, “solidariedade total” para com Israel e, ainda em outubro de 2023, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, chegou ao ponto de culpar o Hamas pela crise humanitária em Gaza.

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Ursula von der Leyen se encontra com Netanyahu, em outubro de 2023 – Fonte: GPO.

Ao mesmo tempo, as ofensivas militares israelenses contra a Palestina não enfrentaram retaliação semelhante, seja tão rápido ou com tanta veemência. Hoje, com mais de 70.000 palestinos assassinados na Faixa de Gaza desde outubro de 2023, isso ainda não mudou de forma significativa, enquanto um número consideravelmente menor de vítimas civis na Ucrânia – cerca de 14.000 desde 2022, segundo a Human Rights Watch – causa mais impacto e incita reações indignadas. Tal comparação faz com que seja difícil chegar a qualquer outra conclusão que não a de que a postura da Europa é motivada, dentre outras razões, por um escancarado preconceito racial.

Segundo estudo da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH), divulgado em 2025, a criminalização contra protestos pró-Palestina cresceu no Ocidente, sobretudo nos Estados Unidos, na Alemanha, no Reino Unido e na França. Nesta última, onde as manifestações desse gênero foram banidas ainda em 2023, a polícia já foi instruída a atacar os manifestantes com gás lacrimogêneo e canhões de água. Sobre isso, Yosra Frawes, responsável pelo departamento do Oriente Médio da FIDH, afirmou que a tendência à utilização de leis antiterrorismo e da narrativa do antissemitismo para combater o apoio à causa palestina “reflete uma guinada rumo à normalização de medidas excepcionais para lidar com posições críticas”. Essa perseguição, que se esconde sob o aparato estatal, não atinge somente ativistas, mas também acadêmicos, artistas, jornalistas e servidores públicos, e inclusive foi concomitante, segundo o relatório, a um aumento percentual das demonstrações islamofóbicas e antissemitas na Europa.

Por todas essas razões, é possível afirmar que, em casos como esse, a liberdade de expressão – baluarte da superioridade e da civilidade europeias – nunca tarda em se tornar relativa. Por isso, questiona-se: esse proclamado “valor” ocidental se aplica, na prática, a quem?

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A política francesa ataca os ativistas pró-Palestina em manifestação pacífica na França – Fonte: Reuters.

O Apoio Financeiro a Israel

No mesmo comunicado de imprensa emitido pelo Parlamento Europeu, em 19 de outubro de 2023, reconhecia-se a necessidade de reforçar a ajuda humanitária a Gaza, tomando, no entanto, as devidas medidas para assegurar que “nenhum dinheiro da UE financia direta ou indiretamente o terrorismo”. Entretanto, a Europa continua a ser uma das maiores financiadoras de Israel e de seu governo, cujas ações configuram sinais inconfundíveis de terrorismo de Estado. A ajuda econômica europeia não é tão grande quanto a estadunidense e não se dirige à indústria bélica de forma direta, mas, mesmo assim, acaba por viabilizar os ataques contínuos, por fortalecer o aparato militar israelense e por garantir a imposição do apartheid ao povo palestino.

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Representação das alianças comerciais entre a União Europeia e Israel – Fonte: SOMO.

Além de manter fortes relações comerciais com o país – a União Europeia (em especial os Países Baixos) é a maior parceira de Israel nesse sentido, tendo sido movimentados 42.6 bilhões de euros no comércio bilateral em 2024 –, a Europa contribui financiando pesquisas, universidades e inovações tecnológicas israelenses por meio do programa Horizon Europe. Em tese, o programa deveria apoiar projetos voltados à aplicação civil, mas ele próprio reconhece que, muitas vezes, as tecnologias financiadas também são passíveis de aplicação militar. Não somente isso, como algumas das organizações que se beneficiam do projeto mantêm conexões com o “setor de defesa”, isto é, com o exército, sendo alguns exemplos a Israel Aerospace Industries (IAI), que fornece drones e suprimentos de aviação para as Forças Armadas de Israel, e a Elbit Systems, empresa israelense que produz tecnologia militar e possui subsidiárias espalhadas pelo continente europeu. Entre 2021 e 2026, estima-se que o Horizon Europe forneceu cerca de 747 milhões de euros a Israel; entre 2008 e 2023, o Reino Unido, por sua vez, autorizou aproximadamente 574 milhões de libras em licenças de exportação de armas para Israel, prática que, embora reduzida, ainda permanece.

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Ataque aéreo isralense em Gaza, setembro de 2025 – Fonte: Anadolu via Getty Images.

“Oh no! I Spilled Some Paint”

No Reino Unido, a repressão aos protestos tem se tornado progressivamente violenta ao longo de 2025 e no começo de 2026, adquirindo o caráter de perseguição explícita aos apoiadores da causa palestina. A principal vítima dessa perseguição é o movimento de nome Palestine Action, um grupo de “ação direta” criado em 2020 para “findar a participação global no regime genocida e de apartheid de Israel”, e que tem como principais alvos magnatas do complexo industrial-militar que, de alguma forma, colaboram com as ofensivas israelenses. Algumas das táticas utilizadas pelos ativistas do Palestine Action são: invadir fábricas, destruir equipamentos, se acorrentar ao maquinário e jogar tinta vermelha em prédios.

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Manifestante no Trafalgar Square, Londres, segura uma placa com os dizeres “Oh, não! Eu derrubei um pouco. Isso faz de mim terrorista?” – Fonte: Leon Neal/Getty Images.

Um dos principais e contínuos alvos do Palestine Action é, justamente, a sede da Elbit Systems, baseada em Bristol. Em 2024, alguns ativistas do movimento se dirigiram ao local e utilizaram pés de cabra e martelos para danificar equipamentos, além de jogar tinta. Seis deles foram presos e acusados de bandidagem e violência severa, mas foram absolvidos em fevereiro de 2026.

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Ativistas do Palestine Action – Fonte: Palestine Action.

O Palestine Action foi, em julho de 2025, oficialmente reconhecido pelo governo do Reino Unido como uma “organização terrorista”, com base em uma medida aprovada pelo Parlamento com pouquíssima resistência interna, e que faz parte do Terrorism Act 2000. Segundo o governo, o grupo atende ao “critério” necessário para que seja considerado como tal: dano à propriedade e uso ou ameaça de violência para coagir um governo a colaborar com causas raciais, religiosas, políticas ou ideológicas. Alguns dos parlamentares conservadores que votaram a favor da medida – como Harriet Cross e Dan Jarvis – manifestaram abertamente sua crença de que a forma de protesto adotada pelo Palestine Action é atroz e ilegítima. Em contrapartida, Clive Lewis, parlamentar do Partido Trabalhista, deixou claro que acredita haver uma distinção entre ação direta e ação terrorista.

De todo modo, a aprovação da medida faz com que qualquer demonstração de apoio ao Palestine Action passe a ser considerada como ofensa criminal, passível de punição com até quatorze anos de prisão. Logo depois da oficialização do voto parlamentar, inclusive, quatro manifestantes foram presos, acusados de ameaçar a ordem pública.

No dia 23 de dezembro de 2025, a ativista sueca Greta Thunberg, grande apoiadora da causa palestina, participou, no Reino Unido, de uma demonstração de solidariedade aos membros do Palestine Action que foram presos durante suas atividades. Ainda que o protesto fosse completamente pacífico – a participação de Greta consistia em sentar no chão, de pernas cruzadas, segurando um cartaz com os dizeres “Eu apoio os prisioneiros do Palestine Action. Eu me oponho ao genocídio” –, a polícia de Londres sentiu-se ameaçada e classificou o ato de Greta como uma mobilização em apoio ao terrorismo, prendendo-a sob os ditames da Lei Antiterrotismo.

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Greta Thunberg é abordada por um policial antes de ser presa em Londres – Fonte: Prisoners for Palestine.

Ao longo de 2025, mais apoiadores do Palestine Action foram encarcerados “preventivamente”. Oito deles decidiram iniciar uma greve de fome durante seu tempo na prisão, ato que chegou a durar sete semanas e que os conduziu a estado de saúde “crítico e mortal” e a hospitalizações de emergência. Esse episódio levou à elaboração de uma carta a David Lammy, secretário de Justiça, assinada por 800 juristas, familiares e médicos, e na qual se exigia fiança imediata e se denunciava a criminalização dos movimentos pró-Palestina e o tratamento desumano recebido pelos ativistas no sistema carcerário britânico. David Lammy se recusou a se reunir com os advogados dos ativistas.

A falta de resposta do governo do Reino Unido suscitou outro protesto, realizado às portas da prisão Wormwood Scrubs. A Polícia Metropolitana de Londres enviou uma guarnição ao local, mas os manifestantes se recusaram a dissipar-se, o que resultou em oitenta e seis prisões.

Staatsräson: O Caso da Alemanha

Na Alemanha, onde a memória do nazismo e dos seis milhões de judeus assassinados no Holocausto ainda é vívida, a repressão às expressões de solidariedade à Palestina é, contraditoriamente, mais austera do que no restante do continente. O país intercedeu a favor de Israel no contexto da abertura de um caso para ordenamento do cessar-fogo definitivo em Gaza, requisitado pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça e, em uma ocasião, o chanceler Olaf Scholz chegou a afirmar: “Israel é um Estado democrático guiado pelos princípios mais humanitários. Assim, vocês podem ter certeza de que o exército isralense atuará em concordância com a lei internacional. Eu não tenho nenhuma dúvida disso”.

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Benjamin Netanyahu e Olaf Scholz lado a lado e vestindo o quipá, adereço religioso judaico – Fonte: Spiegel.

No âmbito político, como se pode observar, o antagonismo à autodeterminação do povo palestino fica cristalino: por meio do conceito de Staatsräson (“razão de Estado”), determina-se o senso de “responsabilidade especial” da Alemanha quanto a Israel – note-se que há referência ao Estado de Israel, e não ao povo judeu. Na nota oficial lançada por Scholz após o 7 de outubro, inclusive, lia-se: “Há apenas um lugar para a Alemanha estar agora: ao lado de Israel. É isso que queremos dizer quando falamos: a segurança de Israel é parte da raison d’état da Alemanha”. Apesar de tudo – o que pode ser ainda mais preocupante –, a defesa de Israel como Staatsräson alemã não está descrita em termos legais e jurídicos na Constituição, isto é, o conceito está suficientemente internalizado na esfera pública mas não possui status, clareza ou delimitação constitucionais.

Segundo Zafer Meşe, professor de Ciência Política, em uma matéria para o Politics Today, a mobilização do Staatsräson como “interesse nacional” alemão, por parte do governo, é uma “jogada de mestre”. Isso porque o princípio dos interesses nacionais diz que “o Estado tem o direito de invocar a primazia de seus próprios interesses para legitimas suas próprias políticas, de priorizar interesses de Estado acima de outros valores, e de se isentar de transparência para com seu próprio povo”. Para Meşe, isso quer dizer que o Estado alemão utiliza tal princípio para que não precise justificar publicamente seu apoio incondicional a Israel, mesmo diante de crimes de guerra e de um completo desprezo pela lei internacional.

Mas esse cenário não se resume à intransparência. Nessa perspectiva, Meşe menciona a existência, desde os ataques do Hamas, de uma ação coordenada entre organizações midiáticas, personalidades e instituições importantes da sociedade alemã, que se configura como uma espécie de “caça às bruxas” ou de “macartismo antissemita”. O professor explica que, na Alemanha, essa prática foi introduzida por outro contexto, o do “paradigma da securitização”, desenvolvido pela Escola de Copenhague. Nas palavras do autor: “Nas relações internacionais e na política nacional, securitização é o processo de transformação de questões políticas que precisam ser controladas por atores estatais em questões de ‘segurança’. Dessa maneira, tais questões – no caso presente, o interesse alemão em proteger Israel – são forçosamente transformadas em matéria de segurança aos olhos da população, para difundir a crença de que o problema – o “antissemitismo”, ou as manifestações pró-Palestina – só pode ser combatido por medidas extraordinárias que estão acima da moralidade e da própria legislação. Cinicamente, toda e qualquer crítica ao sionismo ou ao Estado de Israel é tida como sinal de um discurso de apartheid e de ódio racial aos judeus e, em meio a tudo isso, o principal alvo se converte na parcela da população que deseja exercer seu direito à liberdade de expressão – além, é claro, dos muçulmanos que habitam o país –, e que é criminalizada pelo Estado.

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A polícia alemã intimida manifestantes pró-Palestina em Berlim – Fonte: Sean Gallup via Getty Images.

Esse expurgo envolveu, desde 2023, banimentos – como o do ex-ministro grego Yanis Varoufakis, por denunciar as injustiças cometidas na Palestina –, a perseguição e destitução de acadêmicos e de figuras públicas – curiosamente, de acordo com uma pesquisa realizada por Emily Dische-Becker, cerca de um terço dessas vítimas era de origem judaica – e, finalmente, a prisão, agressão e condenação de ativistas. Ava Moyaeri, de origem germano-iraniana, foi taxada de terrorista por gritar o slogan “Do rio ao mar, a Palestina será livre”, o qual, na opinião dos tribunais alemães, corresponde a uma “negação do direito de existir do Estado de Israel”.

Não é surpresa, portanto, que a reputação internacional da Alemanha tenha sido seriamente comprometida, e que seu pretenso “soft power”, recuperado após a deterioração de meados do século XX, já não exerça mais tanto apelo. Hoje, a Alemanha é conhecida como um país que, escondendo-se atrás da máscara de um estéril sentimento de culpa pelo genocídio cometido há quase cem anos, empreende esforços consideráveis para justificar outro genocídio.

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Manifestantes na Alemanha empunham faixa com os dizeres “Um genocídio não justifica outro” – Fonte: Al Jazeera.

A Dissidência Irlandesa

Ainda que não tenha abolido completamente suas relações comerciais com Israel – continuando a ser, de certa forma, cúmplice da violência israelense –, e que seu posicionamento não seja necessariamente revolucionário, a Irlanda é o país europeu que se manifestou com maior clareza e reprovação em relação ao que está acontecendo na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada.

Em 2024, o Taoiseach – ou primeiro-ministro – irlandês Simon Harris declarou, em público, que “A Irlanda não é anti-Israel, mas a Irlanda está absolutamente contra a imposição da inanição a crianças”. Esse simples comentário rendeu-lhe, por parte do então ministro do exterior de Israel, Gideon Saar, uma acusação de antissemitismo.

O governo da Irlanda, ainda, apoiou os casos da Corte Internacional de Justiça contra Israel,  reconheceu formalmente o Estado da Palestina. Como consequência, as atividades da embaixada israelense em Dublin foram encerradas. Acerca da decisão, Dana Erlich, embaixadora de Israel na Irlanda, alegou que “Infelizmente […] temos visto a Irlanda se colocar em uma posição mais drástica do que qualquer outro país”, e que fechar a embaixada havia sido custoso para ela e para sua terra natal.

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Simon Harris, político irlandês – Fonte: Irish Legal News.

Além disso, a população local é, em geral, uma grande apoiadora da causa palestina. Não somente em Dublin, mas também nas pequenas cidades do interior e da costa, os muros, as janelas e as lojas estão repletos de bandeiras palestinas. Isso talvez se dê porque, reconhecidas as evidentes diferenças, pode-se dizer que a história da opressão do povo irlandês dentro do próprio contexto europeu – a história da exploração, da pobreza e da fome impostas pela metrópole –, bem como da luta irlandesa por autodeterminação, produz ecos na história do povo palestino.

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A bandeira irlandesa e a bandeira palestina, em um mastro no Condado de Galway, Irlanda – Fonte: Cecília Chalela (autoral).

Também em 2024, estudantes da renomada Trinity College, em Dublin, organizaram um acampamento em solidariedade à Palestina e em reprimenda às relações mantidas pela universidade com empresas israelenses. Ao contrário de universidades norte-americanas, a Trinity não reprimiu a manifestação com autoritarismo e violência, e negociou com os estudantes, que obtiveram o apoio de parte do corpo docente e, sobretudo, uma vitória para a campanha Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), já existente há mais de uma década. Após o evento, a Trinity assumiu uma postura crescente de antagonismo ao apartheid imposto aos palestinos por Israel, assim como o fez, no século passado, em relação ao apartheid britânico na África do Sul.

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Estudantes protestando no Trinity College – Fonte: Artur Widak/NurPhoto via Getty Images.

Mais conhecidamente, importantes personalidades do cenário cultural irlandês se posicionaram contra Israel. Uma delas foi a mundialmente famosa escritora Sally Rooney que, em agosto de 2025, após a decisão do Parlamento Britânico de criminalizar o Palestine Action, declarou que utilizaria os royalties de suas obras para ajudar financeiramente o movimento. Para ela, o Palestine Action provém de “uma longa e orgulhosa tradição de desobediência civil – a quebra deliberada de leis como ato de protesto”, e o dano à propriedade é uma forma legítima de protestar por uma gama de causas, seja contra práticas que agravam as mudanças climáticas ou contra o genocídio. Isso a colocou em uma posição difícil no Reino Unido, já que o pagamento dos royalties à autora por parte de sua editora britânica, a Faber&Faber, e da BBC – produtora das adaptações de seus livros para a TV –, seria considerado como “financiamento do terrorismo”. Assim, Rooney teve sua posição como artista gravemente comprometida no Reino Unido, e corre o risco de ser presa caso se encontre em solo britânico.

Uma Suíça (Não Tão) Neutra

A Suíça normalmente é conhecida – e almeja se fazer conhecer – por ser uma espécie de “zona de neutralidade”, mas a realidade, no entanto, é deveras divergente. Diante dos eventos do 7 de outubro, o país condenou duramente o Hamas, e manifestações pró-Palestina foram banidas em Zurique desde o começo da retomada das ofensivas de grande porte na região. Ademais, esse país mantém relações comerciais, científicas e diplomáticas ininterruptas com Israel desde que estas foram formalmente estabelecidas, em 1949. Essas relações apenas se expandiram a partir da segunda Intifada, apesar do conhecimento do contínuo desrespeito aos direitos humanos por parte do governo e do exército israelenses.

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Palestinos durante a Segunda Intifada – Fonte: El País.

Como membro da EFTA (European Free Trade Association), a Suíça faz parte do pacto de livre comércio com Israel, cujos ditames se limitam a produtos fabricados em solo nacional israelense. Na década de 60, todavia, descobriu-se que Israel estava exportando bens fabricados em territórios ocupados ilegalmente, sob a etiqueta falsa de “Made in Israel”. Apesar da existência de provas irrefutáveis para a quebra dos termos do acordo, a EFTA não sentiu a necessidade de pôr fim às ligações econômicas com o país.

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Assinatura dos acordos da EFTA, em Estocolmo, 1960 – Fonte: Luxembourg Centre for Contemporary and Digital History.

As contribuições suíças em investimento científico costumam se dar nas áreas de cibersegurança, fintech – tecnologia de financiamento – e medicina, algumas das quais possuem “dual use”, isto é, podem ser empregadas tanto no âmbito civil quanto no militar, havendo registro de colaborações entre empresas suíças e a IAI. Israel representa em torno de 1,2% a 1,8% das exportações suíças, que englobam diamantes, relógios, químicos e produtos farmacêuticos. Mais importante, a Suíça também é uma grande exportadora de armas que compõem o aparato militar israelense, o que começou em 1955, e cerca de 10% das importações militares suíças são provenientes de Israel. Uma fábrica de armas de propriedade do governo suíço, a RUAG, em parceria com o exército suíço, gastou 600 milhões de francos no desenvolvimento israelense de bombas de dispersão (cluster bombs), entre 1988 e o começo do século XXI. As bombas resultantes desse investimento causaram grande destruição no Líbano, no verão de 2006, mas, apesar de tudo, a Suíça continua a autoproclamar-se “neutra”, defendendo a solução de dois Estados.

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Bombas atingem o Líbano na Guerra de Verão de 2006 – Fonte: Kate Brooks/Redux.

Inclusive, um episódio mais recente envolvendo a FIFA (Fédération Internationale de Football Association) – cuja sede principal está localizada em Zurique, na Suíça – chamou a atenção do público. Não é novidade que, no contexto dos ataques constantes de Israel, o futebol palestino foi praticamente deixado em suspenso desde 2023, com mais de 400 jogadores mortos como resultado direto das ofensivas. Além disso, a Palestina só se tornou um membro oficial da FIFA em junho de 1998, enquanto a atual IFA (Israel Football Association), então Palestine Football Association, garantiu sua filiação em 1929.

A presença da IFA na FIFA tem sido um assunto bastante abordado por movimentos como a campanha BDS e a PACBI (Campanha Palestine pelo Boicote Acadêmico e Cultural a Israel). Segundo esta última, em declaração presente na matéria da revista Jacobin, “a cumplicidade da FIFA e sua incapacidade de responsabilizar Israel são uma zombaria do direito internacional e dos próprios estatutos da FIFA. Alimentam a cultura de impunidade que permite a Israel intensificar seu genocídio contra os palestinos em Gaza”. Quando a Federação Palestina de Futebol pediu pelo banimento da IFA, a resposta de Gianni Infantino, italiano presidente da Federação Internacional de Futebol, foi covarde e insuficiente: “precisamos de paz”. Vale lembrar que, em 1976, a África do Sul foi banida da FIFA devido ao regime de apartheid vigente no país, e que o mesmo aconteceu com a Rússia em 2022, em retaliação à invasão da Ucrânia. De fato, para muitos, as regras da FIFA quanto ao protocolo nessas situações são propositalmente ambíguas: ao mesmo tempo que afirma que não se envolverá em questões ideológicas de política e religião, a Fédération garante para si o direito de punir a discriminação com “suspensão ou expulsão”. Na prática, tudo se resume ao poder e à influência, e seleções como a palestina se encontram em “posição racialmente marginalizada […] na hierarquia esportiva internacional”.

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Torcedores da seleção feminina da Palestina, em uma partida na Irlanda, em 2025 – Fonte: Stephen McCarthy via Getty Images.

O Silêncio como Conivência

Desde que a Europa adentrou oficialmente sua era da decadência, após a Segunda Guerra Mundial, o continente parece ter adotado uma política permanente de “moderação” ao posicionar-se politicamente, seja essa postura influenciada por “valores” locais ou por temor à retaliação dos novos magnatas da ordem internacional. Essa busca frenética por meios-termos, no entanto, é infrutífera e paradoxal – na realidade, não pode nem mesmo ser considerada como legítima, visto que o ato de aprisionar e atacar manifestantes pacíficos dificilmente pode ser tido como uma medida de neutralidade, assim como a ideia de que o genocídio de um povo deve inspirar abordagens brandas é pouco assimilável.

O continente europeu não parece entender – ou não quer entender – que o Estado de Israel, tal como existe hoje, é uma ameaça à existência da Palestina, e que sua história não pode ser dissociada da história do sionismo, que é um movimento político fundamentalmente racista. A busca magnânima pela imparcialidade não é uma preferência pela justiça – nesse caso, não há meios de ser imparcial, é preciso tomar um lado –, e sim o resultado do medo e do preconceito enraizado que hoje prosperam no Velho Mundo.

Diante da pressão popular, é claro, há concessões. Quando a reputação de um governo é ameaçada por sua conivência com tais atrocidades, a saída é fácil: reconhece-se a Palestina como Estado e, na prática, nada muda. Aliás, como já sabemos, as escassas demonstrações europeias de apoio ao povo palestino sempre vêm acompanhadas de um “porém”, são tímidas e desviam de qualquer comprometimento tangível.

Segundo a Convenção sobre Genocídio da ONU, o termo se define como um ato “cometido com a intenção de destruir, totalmente ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Trata-se de um termo cuja definição apresenta poucas nuances, e que os europeus não deveriam temer utilizar. Ora, reconhecer o Estado Palestino – afinal, a população palestina se reconhece como tal, unida por um senso comum de nacionalidade e habitando o território da Palestina, desde o fim do século XIX – e chamar a opressão israelense pelo nome que lhe é adequado – de genocídio – são posicionamentos cuja obviedade transforma em demonstrações mínimas de apoio. O Hamas atingiu com mísseis um festival de música em Re’im – até então, a resistência do povo palestino costumava dispor de pouco além de pedras. Israel, por sua vez, mantém um povo inteiro sob um regime violento de separação racial, que visa abertamente e sem escrúpulos à limpeza étnica e conduz centenas, diariamente, à inanição sistemática, impedindo deliberadamente a chegada de ajuda humanitária.

A Europa, que se levanta para defender em alto e bom som o “direito de Israel à autodefesa”, se limita a mencionar, quando se defronta com a agressão de longa data aos palestinos, a solução de dois Estados, que é nada mais do que uma ode ocidental à continuidade do apartheid cruel que toma lugar em Gaza e na Cisjordânia. E essa mesma Europa acredita que seu silêncio vergonhoso é uma prova de sua imparcialidade, quando é, na verdade, uma demonstração inconfundível de conivência com o genocídio perpetrado por Israel, uma vez que ficar em silêncio também é falar.

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Bandeira de Israel e bandeira da União Europeia – Fonte: Vocal Europe.

Referências

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  • cropped-PHOTO-2026-01-27-12-40-54-1-250x250 Palestina Censurada: O Combate à Autodeterminação Palestina na Europa

    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Jornalismo, Ásia Ocidental, América Latina, Capitalismo e Imperialismo, Cultura e Relações Internacionais.

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Jornalismo, Ásia Ocidental, América Latina, Capitalismo e Imperialismo, Cultura e Relações Internacionais.