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80 Anos da Tragédia de Hiroshima: Poder, Ameaça e Aniquilação

80 Anos da Tragédia de Hiroshima: Poder, Ameaça e Aniquilação

Por Cecília Chalela e Maria Clara Santos

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Introdução à Era Atômica

Há exatos 80 anos, no dia 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos da América lançaram sobre a cidade japonesa de Hiroshima a bomba atômica Little Boy, causando uma destruição sem precedentes na história mundial e assassinando milhares de pessoas. Mediante o pretexto da necessidade de findar os conflitos da Segunda Guerra Mundial e de derrotar o Eixo de uma vez por todas, a ação se repetiu três dias depois, em 9 de agosto de 1945, desta vez em Nagasaki.

A tragédia de Hiroshima mudou para sempre o curso da humanidade, já que introduziu, de maneira vívida, o conceito da aniquilação que se dá em milésimos de segundos, de um apocalipse mais real e palpável do que jamais se poderia imaginar. Assim sendo, 1945 é o “ano zero” de uma era nuclear que é, de certa forma, irreversível, e que se estende até os dias atuais – frente à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, às tensões entre a Índia e o Paquistão, às ofensivas israelenses contra o povo palestino e à política externa inescrupulosa do segundo governo de Donald Trump nos EUA, isso nunca se fez mais evidente.

O Começo do Fim: Uma Breve História da Bomba Atômica

Das tecnologias de vigilância à indústria e à “inteligência” artificial, a humanidade já empreendeu, em nome de um suposto ideal de progresso, diversas invenções que se mostraram controversas e, muitas vezes, catastróficas. Mas talvez seja possível afirmar que, até então, a mais letal dentre elas tenha sido a bomba atômica. Como se deu, então, o processo de desenvolvimento de uma arma tão destrutiva?

O mundo presenciou uma explosão atômica, pela primeira vez, às 5h29 da manhã de 16 de julho de 1945. Tratava-se do Teste Trinity, empreendido pelos membros do Projeto Manhattan no Novo México – nesse dia, o calor abrasador da bomba ofuscou o ardor do deserto de Jornada del Muerto, nome coincidentemente adequado, e os efeitos do choque foram sentidos em um raio de 160 quilômetros. Quase duzentos anos de pesquisa científica multinacional foram necessários para que o Teste Trinity acontecesse, em uma sequência de descobertas cujos autores, muito provavelmente, eram incapazes de prever, mesmo nos confins de sua imaginação, o horror que viria depois.

Tudo começou quando Martin Klaproth, cientista alemão, descobriu, em 1789, o elemento metálico e denso que conhecemos como urânio. Mais de um século mais tarde, em 1896, o físico francês Henri Becquerel começou a estudar minerais naturalmente fluorescentes para analisar as propriedades dos raios-x – decifrados em 1895 por Wilhelm Roentgen. Ele depositou sulfato de uranila sobre placas fotográficas e as envolveu em papel preto, expondo-as ao sol, de modo a demonstrar sua hipótese de que o sulfato absorveria a energia solar e a emitiria em forma de raios-x, produzindo, assim, fotografias de alta resolução. Todavia, o experimento falhou, mas Becquerel decidiu revelar as fotografias mesmo assim, surpreendendo-se ao obter resultados perfeitamente nítidos. Chegava-se à conclusão de que o sulfato de uranila não necessitava de fontes externas de energia para emitir raios-x.

Ao estudar o mesmo fenômeno em seu laboratório, Marie Curie também chegou à conclusão de que o urânio é um elemento naturalmente “radioativo”. Foi ela, aliás, a autora do termo, que descreve a emissão de partículas eletromagnéticas por átomos em desintegração.Em 1911, o britânico Ernest Rutherford contribuiu para a pesquisa ao formular seu próprio modelo atômico. Nele, o átomo é composto por um núcleo que concentra grande parcela da massa atômica, pequeno, denso e de carga positiva, orbitado por elétrons com carga negativa.

Foi na Alemanha hitlerista de 1938, no entanto, que realizou-se a grande descoberta que impulsionou a criação da bomba atômica. Em 1933, o físico húngaro-alemão Leo Szilard considerou a hipótese de provocar reações de fissão nuclear em cadeia de forma proposital. Já o italiano Enrico Fermi separou nêutrons de urânio de maneira acidental durante a condução de seus próprios experimentos, concretizando as ideias de Szilard.

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, enquanto Szilard se refugiava do outro lado do Atlântico para fugir do antissemitismo, o austro-sueco Lise Meitner e o alemão Otto Hahn se uniram em um laboratório em Berlim e estiveram entre os primeiros a promover, com sucesso, a separação dos átomos do urânio. Impedido de prosseguir com suas pesquisas na capital alemã, Meitner, judeu, foi forçado a se estabalecer na Suécia, onde cunhou o fenômeno da fissão nuclear. Quanto a Hahn, este permaneceu na Alemanha, dando continuidade à sua pesquisa ao longo da Guerra. Fermi e sua esposa, Laura Capon, também judeus, fugiram para os Estados Unidos da América (EUA) para escapar da crescente fascita na Itália, e ambos aplicaram para uma residência na área.

Os progressos obtidos por Meitner e Hahn alcançaram Nova York e chegaram aos ouvidos de Szilard, que, com a ajuda de seu colega Walter Zinn, recriou o experimento. Seu primeiro pensamento, naquela mesma noite, foi de que “[…] o mundo estava destinado ao luto”. Assim, ele e Fermi começaram a trabalhar na construção de um reator nuclear na Columbia University, tremendo que os cientistas alemães estivessem fazendo o mesmo.

Naquele momento, eram os nazistas, portanto, que detinham mais concretamente o domínio nuclear, embora inúmeros problemas técnicos ainda se impusessem no caminho da efetivação de uma arma. Nesse contexto, o ilustre cientista Albert Einstein teve sua atenção particularmente voltada para os perigos desse conhecimento quando contatado por Szilard em Long Island, decidindo agir de modo a evitar um desastre. A resposta encontrada por Einstein foi redigir, em agosto de 1939 e com a ajuda de Szilard, uma carta de alerta para o então presidente estadunidense, Franklin Roosevelt. Mal sabia Einstein que uma simples carta viria a se mostrar devastadora.

O aviso só chegou às mãos de Roosevelt em outubro, e não tardou para que fosse fundado o Advisory Committee on Uranium, que iniciou seus trabalhos no mesmo mês, ainda que de forma bastante lenta. De fato, a urgência só foi sentida quando o Japão atacou Pearl Harbor, em 1941, empurrando os Estados Unidos para a Guerra. Ao mesmo tempo, cientistas britânicos confirmavam, em seus relatórios, que era realmente possível a construção de uma bomba de urânio.

Em resposta, os cientistas trabalhando no Committee se uniram aos militares, buscando por recursos e, dessa aliança, nasceu o famoso Projeto Manhattan. O Projeto secreto foi aprovado por Roosevelt em 28 de dezembro de 1942, se estendendo ao longo do país por 30 sedes, envolvendo mais de 100.000 colaboradores e custando exorbitantes 2.2 bilhões de dólares. Uma das sedes do Projeto, Los Alamos, coordenada por J. Robert Oppenheimer, viria a ser o berço da bomba atômica.

Quanto a Einstein, a Inteligência do exército estadunidense lhe negou a permissão para participar do Projeto Manhattan, e proibiu terminantemente qualquer contato entre ele e os cientistas empregados por Roosevelt. O motivo foi a suspeita do governo em relação a Einstein, que parecia, para o presidente, cultivar opiniões políticas inclinadas à esquerda.

A primeira bomba desenvolvida em Los Alamos era composta por plutônio, e se baseava no método da implosão, até então sem precedentes. Dada a magnitude desconhecida da bomba, Oppenheimer defendeu a necessidade de um teste, ao que o Coronel Leslie R. Groves – idealizador do Projeto Manhattan – acabou por ceder, depois de hesitar, dados o alto custo e a raridade do material. Assim foi empreendido o Teste Trinity, com resultados muito maiores do que os inicialmente esperados. Ao invés da equivalência estimada de 3 quilotons de TNT, a obtida foi sete vezes maior, de 21 quilotons, e seu brilho cegou espectadores posicionados a 10.000 milhas da explosão. A torre de aço da qual a bomba foi lançada evaporou, deixando em seu lugar uma cratera de quase 30 pés de diâmetro. 

As reações a esse resultado foram diversas: de acordo com relatos do próprio Oppenheimer, “Nós esperamos até que a explosão tivesse passado, saímos do abrigo e então tudo foi muito solene. Nós sabíamos que o mundo não seria mais o mesmo. Algumas pessoas riram, algumas pessoas choraram. A maioria das pessoas ficou em silêncio”. O cientista, ao ser atingido pelo brilho incandescente da bomba, recitou um verso do texto sagrado hindu Bhagavad Gita: “Agora me tornei a Morte, a Destruidora de Mundos”. 

De descoberta científica, a bomba atômica evoluiu para o status de arma de guerra. Logo, percebeu-se que ela era também um instrumento poderoso de morte e, menos de um mês mais tarde, a premonição de Oppenheimer se tornaria realidade.

Guerra no Pacífico: Estados Unidos versus Japão

Os conflitos entre os EUA e o Japão não se iniciaram no ataque a Hiroshima, mas no embate que se perpetuou durante a Segunda Guerra Mundial entre esses dois países. Em julho de 1939, os Estados Unidos anunciaram o fim do Tratado de Comércio e Navegação que havia sido estabelecido em 1911 com o Japão e, em 1940, passaram a restringir exportações, para o território japonês, de materiais que poderiam ser úteis na guerra. Esses conflitos acirraram-se quando, em julho de 1941 – período em que o Japão já havia ocupado a Indochina e formado aliança com a Alemanha e a Itália, países do chamado Eixo –, as autoridades estadunidenses decidiram romper as relações comerciais e financeiras com a nação japonesa. Com isso, os ativos do Japão foram congelados e as remessas de petróleo, dentre outros produtos importantes para o momento de guerra, sofreram embargos. 

Dentro desse contexto, ainda, a China exercia um importante papel na geopolítica da região asiática. Por questões políticas e de influência, os chineses e os japoneses já haviam instaurado uma atmosfera belicosa muito forte no continente – a Segunda Guerra Sino-Japonesa, que durou de 1937 a 1945, exemplifica tal cenário. Assim, quando os Estados Unidos, em 1938, fornecem seu primeiro empréstimo à China, as relações entre este país e o Japão passam a se agravar. Após os embargos orquestrados pelos EUA, em 1941, o ressentimento dos militares japoneses em relação às ações estadunidenses intensificou-se. Tornou-se claro, assim, que, mesmo após tentativas de reconciliação – como as que ocorreram no outono de 1941 –, seria impossível alcançar acordos de paz entre essas nações. 

Desse modo, na manhã do dia 7 de dezembro de 1941, o Japão ataca a base naval de Pearl Harbor, dos Estados Unidos, na Ilha de Oahu, Havaí, fomentando a série de tensões entre as duas nações que já estavam em curso. Foram enviadas quase 200 aeronaves, com aviões torpedeiros, bombardeiros e caças, e o objetivo do ataque era destruir o máximo possível a Frota do Pacífico dos Estados Unidos. A primeira onda de ataques consistiu no bombardeamento de hangares e de aeronaves que estavam nos aeródromos da ilha e, ainda, constituiu-se de lançamentos de torpedos contra navios de guerra norte-americanos que estavam atracados no porto.

Um dos encouraçados que foram atingidos, o USS Arizona, explodiu quando uma bomba alcançou seus depósitos de pólvora, o que resultou na morte de 1.177 tripulantes. Em duas horas, 21 navios foram deteriorados ou afundados, 188 aeronaves foram destruídas e 2.403 militares estadunidenses foram mortos. O conflito em Pearl Harbor paralisou a força naval dos EUA, mas a maioria dos encouraçados foram reparados posteriormente e voltaram a funcionar nos serviços demandados pelo país. Em 8 de dezembro, por fim, o Congresso norte-americano decidiu pela declaração de guerra contra o Japão, entrando na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados. 

No entanto, os conflitos entre japoneses e estadunidenses não tiveram fim em 1941. Ao longo da Guerra, o Japão progressivamente viu-se isolado, “sem o apoio de seus dois principais aliados, sem dinheiro e enfrentando sozinho a potência que mais cresceu durante a guerra: os Estados Unidos” – segundo Marcello Neto – em entrevista para a National Geographic –, doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor da tese “O brilho de mil sóis: história, memória e esquecimento sobre a bomba atômica nos Estados Unidos e no Japão”. Apesar de sofrer uma onda de fome e de bombardeamentos recorrentes, o Japão não se rendia e acreditava que sua permanência na guerra e sua resistência poderiam evitar a derrota de suas ilhas. 

Parecia, portanto, para os Aliados, que a derrota do Japão seria inevitável, visto sua situação econômica e militar, sem o auxílio de armas atômicas. Porém, com a resistência japonesa, ficou claro que talvez sua derrota demorasse muito tempo – possivelmente  anos – para ser finalizada. Assim, em 16 de julho de 1945, uma cidade do Novo México, Alamogordo, foi utilizada para o primeiro teste de bomba atômica, criada por norte-americanos, inclusive por Robert Oppenheimer, um dos principais cientistas envolvidos no desenvolvimento da arma. O experimento teve sucesso e, quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas divulgou seu interesse em invadir o Japão para forçar sua rendição, os Estados Unidos tornaram pública a existência da bomba e sua utilidade. 

Então, a nação japonesa é alvo de um ultimato, o qual estabelece uma ameaça de destruição total caso o país não decidisse pela rendição imediata. Diante disso, o Japão, todavia, nega o ultimato, o que fez com que o ataque tornasse-se uma prioridade para os EUA, que passaram a estudar quais seriam as cidades em que a bomba atômica deveria ser lançada. Alguns dos critérios para essa escolha foram: “nenhum dos locais a serem bombardeados poderia ser invadido por terra pelos soviéticos, até o mês de setembro”, de acordo com o historiador Marcello Neto; as cidades tinham que ser muito amplas (com um diâmetro grande); interessantemente, as cidades deveriam carregar “uma importância significativa para o Japão, tanto do ponto de vista estratégico militar quanto do cultural, de modo que o ataque influenciasse a rendição do país” – segundo a National Geografic. 

As duas cidades decididas foram, enfim, Nagasaki e Hiroshima. A primeira tratava-se de um território portuário e fabril, com montanhas ao redor, o que facilitava a concentração da radiação e a análise da destruição por parte dos EUA. Já Hiroshima foi escolhida, segundo Neto, por uma questão climática: era necessário um tempo aberto para o ataque e “Se houvesse vento, a radiação se espalharia além do esperado. Se chovesse, a radiação também seguiria outro fluxo e poderia atrapalhar o lançamento da bomba. O tempo aberto também era importante para a coleta de dados, como fotos da explosão, importantes para o fim científico que a missão tinha”. Logo, no dia 6 de agosto de 1945, a única cidade japonesa que detinha o contexto meteorológico propício para o bombardeio era Hiroshima.

Hiroshima e Nagasaki: Sombras na Parede

A ordem fora dada, e os membros do Projeto Manhattan, dentre eles Oppenheimer, trabalharam incansavelmente para que ela se tornasse realidade. Na Ilha de Tinian, parte das Marianas Setentrionais, soldados americanos carregam uma bomba e depositam-na em um compartimento que lhe fora exclusivamente destinado, a bordo de um B-29 batizado com o nome de Enola Gay. A bomba é a Little Boy, com 10 pés de comprimento, pesando 4 toneladas e meia, exigindo a força de trabalho de 140.000 pessoas e custando 2 milhões de dólares ao governo americano. Às 2h da manhã, um time de elite sobe a bordo da frota comandada pelo Coronel Paul Tibbets. Seu destino é incerto, tudo o que ele sabe é que deverá voar rumo ao Japão.

Do outro lado do Pacífico, os 350.000 habitantes da cidade japonesa de Hiroshima, em sua grande parte civis, acordam para um belo amanhecer de verão. É a segunda-feira do dia 6 de agosto de 1945. Hiroshima, nome que significa “Grande Ilha”, é uma cidade portuária atravessada pelo rio Ota que abriga guarnições de até 40.000 soldados, além da sede do Segundo Exército Geral Japonês, sendo crucial para os esforços de guerra do Eixo. A ameaça de bombardeios é, portanto, constante. Por isso, nesse dia, como em todos os outros, não há grande agitação quando soam, às 7h10 em ponto, as sirenes que prenunciam o caos. Pelo contrário, os locais observam entre o fascínio e a impassibilidade a procissão de aviões americanos B-29 que sobrevoam a cidade, como pássaros prateados.

Quase todos os homens adultos de Hiroshima foram enviados ao front, restando às mulheres e aos adolescentes manter a cidade e até mesmo algumas das tarefas militares em pleno funcionamento. É a hora do rush. Ocupados por suas tarefas cotidianas, muitos deixam suas casas em roupas leves, adequadas à estação. As meninas com mais de 12 anos conduzem bondes e levam a correspondência; os meninos trabalham nas fábricas. Nesse verão em específico, os jovens foram realocados nas tarefas de demolir edifícios, aumentando o espaço entre construções, e de construir barricadas de pedra, com o intuito de impedir o alastramento do fogo em caso de incêndios provocados pelos bombardeios. Esse empreendimento se comprovaria inútil em face ao que viria a seguir.

Quarenta e cinco minutos depois do soar dos alertas, tudo segue conforme o habitual: o Dr. Masakazu Fuiji lê o jornal Asahi nas dependências de seu hospital privado; a srta. Toshiko Sasaki toma seu lugar no escritório térreo da East Asia Tin Works, a fábrica de estanho onde trabalha; a viúva de um alfaiate, sra. Hatsuyo Nakamura, observa da janela da cozinha enquanto seu vizinho destrói sua própria casa de madeira, temendo um incêndio, e seus filhos brincam na sala ao lado; Shinichi Tetsuani, de 3 anos, anda de bicicleta no jardim de casa; o sr. Tsuboi, de 20 anos, acabara de tomar café da manhã com seus amigos e caminha pela rua; o pequeno Mitsuo Kodama, de apenas 13 anos, assiste à aula na escola.

No ar, o major Claude Eatherly, conhecido posteriormente como o “Piloto de Hiroshima”, é o responsável por pilotar o Straight Flush. Como determinador das condições climáticas ideais para o ataque, a palavra final sobre o momento de lançamento da bomba é sua. Às 8h15, Eatherly avista com clareza o alvo desejado e envia a Tibbets o sinal definitivo. Por um pequeno erro de cálculo que não faz do ato menos terrível e intencional, a Little Boy explode cerca de 600 metros, ou 2.000 pés, sobre o hospital Shima, no bairro civil de Saikumachi. Esse é o marco zero da destruição.

O espetáculo mórbido que se segue é inigualável: forma-se uma verdadeira bola de fogo, a uma temperatura de 6.000 graus celsius; a partir do hipocentro, raios gama e ventos infernais de 1600 quilômetros por hora varrem a cidade, destruindo 60.000 casas e edifícios, desmembrando corpos e deixando os contornos das vítimas impressos nas paredes. Em um raio de até 3 quilômetros, 90% da cidade é transformada em ruínas, e 70 mil morrem instantaneamente – devido à proximidade de várias escolas, 20% das vítimas são adolescentes, principalmente entre os 13 e os 14 anos, e cerca de 8.000 jovens dedicados à construção de barricadas se encontravam na região. Oppenheimer estimara 20.000 óbitos no primeiro segundo, o que ele não previa, porém, era que esse número seria, na verdade, 3,5 vezes menor que o real. 

Para aqueles que se encontram a uma distância relativamente segura do marco zero, a explosão assume a forma de uma branquitude resplandecente e de um baque surdo. Quase instantaneamente, a sete milhas e meia de altura, forma-se uma nuvem colossal em forma de cogumelo e, em seguida, tudo o que há é a escuridão.

Quando retomam a consciência, aqueles que não perderam a vida imediatamente são tomados pela confusão e pela dor. Estando, em sua maioria, fora de suas casas e vestindo roupas de verão no momento da explosão, seus cabelos estão chamuscados e seus corpos estão cobertos por queimaduras gravíssimas. Um homem carrega os próprios intestinos em suas mãos, e outro tem um de seus olhos pendurado sobre a face. À dor e ao desnorteamento se sobrepõe a sede, e todos, sem esperanças de encontrar atendimento médico especializado ou hospitais em funcionamento, têm a mesma ideia: ir até a ponte Miyuki, que oferece passagem sobre o rio Ota.

O fotojornalista Yoshito Matsushige está lá, e segura, nas mãos, uma câmera que produzirá as únicas cinco fotos da tragédia tiradas momentos após a explosão. Crianças queimadas, carregando ainda suas mochilas escolares, rumam em grupos para a ponte e sentam-se sobre as pedras sobressalentes onde, minutos antes, erguiam-se parapeitos. Uma jovem em desespero segura nos braços o irmão mais novo carbonizado. Um soldado carrega consigo óleo de colza, prescrito para tratar das queimaduras dos feridos. O óleo logo acaba, e é substituído por petróleo. Todos esperam pela ajuda que demorará a chegar.

Nas águas do Ota, convertido em um cemitério a céu aberto, flutuam dezenas de cadáveres. Uma chuva radioativa banha Hiroshima, mas não é suficiente para apagar o fogo. Mais tarde, uma carreta militar se aproxima, destinada ao papel de ambulância. Uma garotinha escala o veículo e recebe uma rude reprimenda do soldado responsável; ela se assusta, corre para longe e nunca mais é vista. Os militares ainda se recusam a ceder à rendição, e os soldados haviam recebido ordens de levar consigo apenas homens, aptos a empunhar armas no front.

Nos quatro dias que se seguiram, os sintomas da Praga de Hiroshima começaram a ser sentidos, e o número de óbitos se elevou para 120.000. Três dias depois do lançamento da bomba nuclear sobre Hiroshima, embora não em termos oficiais, o Japão já se encontra derrotado, mas Truman, presidente dos Estados Unidos da época, não está satisfeito. Na mesma Ilha de Tinian, outro B-29, o Bock’s Car, equipado com uma bomba de ainda maior magnitude apelidada Fat Boy, decola sob o controle do major Charles W. Sweeney – são 3h49 da manhã, horário local.

O alvo pretendido é a cidade japonesa de Kokura, que abriga sítios industriais e, é claro, zonas residenciais, mas o lugar está completamente encoberto por nuvens, e é preciso mudar de planos. A alternativa é Nagasaki, a 160 quilômetros de distância, cujo porto é um dos poucos que ainda se mantêm intactos. Às 11h02, a Fat Boy explode, pulverizando mais de 5 quilômetros quadrados e matando 73.000 pessoas. Mesmo dada a maior magnitude da bomba, a destruição não ultrapassa a de Hiroshima, devido à disposição geográfica de Nagasaki – os efeitos mortíferos do ataque foram contidos pelas paredes naturais que cercam o terreno da cidade.

Mas as consequências dos bombardeios de Hiroshima e de Nagasaki não acabam ali, na cena do crime. Elas se estendem até hoje e assumem não somente a forma das inúmeras vítimas tardias, como também da memória das sombras na parede que nunca voltarão e, sobretudo, das cicatrizes incuráveis dos sobreviventes.

Rosas de Hiroshima, Rosas Hereditárias, Rosas Radioativas

A tragédia em Hiroshima deixou marcas para todos os afetados e para todos os inocentes da região, marcas essas que se perpetuam até hoje. Os sobreviventes dos ataques a Hiroshima e a Nagasaki são chamados de “hibakusha” e muitos ainda sofrem com os efeitos das queimaduras e da radioatividade – como câncer e leucemia. Dentre o termo “Praga de Hiroshima” – que remete aos sintomas causados, muitas vezes, posteriormente à bomba atômica –, estão as seguintes doenças: catarata, neuroses, doenças hematológicas (anemia perniciosa, leucemia), queloides por queimaduras (que causaram irrupções tumorais na epiderme) e comprometimento hepático – de acordo com Günther Anders, em sua obra “” de 2025, na página 102. Além disso, os sobreviventes ainda tiveram que lidar com traumas psicológicos, sendo que muitos morreram tempos após os atentados devido ao envenenamento pela radiação. 

No Japão, ser hibakusha dá acesso a uma pensão e a uma assistência médica. No entanto, essa ajuda acaba prejudicando a convivência dos hibakusha com o resto da sociedade, já que são vistos com uma enorme estigmatização. As pessoas têm medo dos sobreviventes, acreditando que as mulheres terão filhos monstros ou que os homens são todos estéreis, como conta o documentário “Sob a nuvem de Hiroshima”, disponível no YouTube. 

Já em um viés psicológico, muitos ainda sofrem com a culpa de ainda estarem vivos e tentam esconder seu passado por medo de serem julgados ou excluídos da sociedade em que vivem. Muitos preferem buscar a existência silenciosa, com mais paz, agindo como se as bombas nunca tivessem devastado suas vidas. Contudo, ainda há pessoas que preferem lembrar do acontecimento. Em Hiroshima, em todas as manhãs, é tocado um sino, localizado no Parque Memória da Paz, em homenagem às vítimas dos atentados, e, todo o dia 6 de agosto, às 8h15, a cidade dá as boas-vindas para pessoas de todo o mundo para celebrar a paz. 

No documentário citado, que escuta diversos hibakusha, Goro Takeuchi – um dos sobreviventes e um cadete do exército há 22 anos – e Sunao Tsuboi – defensor do desarmamento nuclear e também hibakusha – contam que a prioridade do exército era salvar os militares, não mulheres, crianças e idosos, os quais eram considerados fracos. Assim, apenas homens jovens recebiam ajuda diante dos ataques atômicos, visto que “eram uma parte valiosa do esforço de guerra” e sabiam segurar uma arma. Nesse sentido, mulheres não sabiam atirar e, por isso, “mulheres e crianças eram consideradas de pouca utilidade e tinham que esperar, tinham que entrar na fila”. 

Já Bie Kutsuki ressalta o horror que é não saber o que aconteceu com seus entes queridos: “Quando um grande número de pessoas morrem ao mesmo tempo, é impossível saber o que aconteceu com cada um deles. Essa é a crueldade da guerra e da bomba atômica”. Sobre os sofrimentos e consequências biológicas dos ataques, o Doutor Harada, cirurgião do Hospital de Osaka, Japão, explica que “quando uma pessoa é exposta à radiação de uma bomba atômica, a pele absorve os raios e emite calor”, o que pode causar queimaduras “profundas e sérias”. Essas queimaduras, por sua vez, podem formar bolhas enormes, que estouram e deixam a carne exposta e as terminações nervosas passam a ter contato direto com o ar. 

Outra sobrevivente, Sayoko Tado, diz que outros afetados perguntavam o porquê de suas roupas estarem penduradas em seus braços, mas que, na verdade, eram sua pele. Seigo Nishioka conta que “a pele estava descolada, a carne, avermelhada, exposta e queimada”. Mais do que isso, mulheres deram à luz prematuramente na cidade ainda em chamas. Goro Takeuchi, cadete militar que deu auxílio nos partos de bebês natimortos, relata que os bebês “não eram vermelhos como deveriam, eles eram brancos”. 

Por fim, há muitos hibakusha – como Mitsuo Kodama, Seigo Nishioka, Yoshito Matsushige – que preferem lembrar dessa tragédia, justamente para passar essas informações para os jovens e para buscar a paz novamente, para que todos esses horrores não tenham sido em vão. Matsushige, em entrevista em 1986, diz: “Quero que eles entendam o quanto a paz é valiosa e que nunca se esqueçam de Hiroshima”.

“Ser ou não ser, eis a questão”

O choque e a realização, reações naturais a tragédias da escala do que se passou em Hiroshima e Nagasaki, só alcançaram de fato o mundo – e em especial o mundo ocidental – quando as primeiras imagens foram divulgadas. Embora isso não se aplique a todos, sentimentos de culpa coletiva, crises de consciência e percepções mais agudas acerca da real ameaça da bomba atômica foram suscitados, em focos, pouco a pouco.

Com as tensões bilaterais que viriam a assumir a forma da Guerra Fria, esse cenário era cada vez mais enquadrado no campo da ideologia, e despertou, em muitos ao redor do planeta, uma espécie de medo que, não obstante ainda incerto, era consideravelmente real. A sensação que se tinha era a de que o mundo poderia acabar a qualquer instante, e de que a existência da humanidade estava submetida ao desejo sádico de algum líder de Estado de apertar um botão. A situação, aqui, é muito menos prática do que moral, teórica – trata-se de uma espécie de terror psicológico da aniquilação que, como a radiação, paira no ar e demora-se a ir embora.

Para o governo americano e para os envolvidos na concretização do bombardeio, não havia remorso algum, exceto por Claude Eatherly. Nem mesmo Tibbets, que puxou com as próprias mãos a alavanca que liberou a Little Boy sobre Hiroshima, foi tomado por qualquer arrependimento.

Em 1958, realizou-se um congresso, em Tóquio, para abordar a questão latente das armas nucleares. Lá estava presente, além dos representantes diplomáticos de muitos países, de jornalistas e de ativistas, o filósofo Günther Anders – próximo a outros expoentes intelectuais como Walter Benjamin e Hannah Arendt –, que passou a dedicar-se avidamente ao assunto depois de escutar a notícia do bombardeio de Hiroshima pelo rádio.

Nesse congresso, surgiram diversas teorias acerca de como deveria proceder o desarmamento nuclear do mundo, objetivo ao qual os países detentores de armas nucleares eram amplamente hostis – quanto aos países menores, que não detinham poderio nuclear algum, parecia-lhes que algo lhes seria tomado antes mesmo que tivessem a oportunidade de possuí-lo. No último caso, o objetivo de obter essa posse, mesmo que tardiamente, tendia a sobrepor-se a todos os outros objetivos políticos, inclusive ao combate do problema nuclear.

 Uma das teorias foi proposta por Anders, apelidada de “Contagion Argument”: para o teórico, o que deveria ocorrer era uma espécie de “ascese nuclear”, isto é, países abertos ao desarmamento seriam convertidos em “zonas não nucleares” e, parcialmente extinta a ameaça destes em relação aos países vizinhos, as fronteiras dessa zona se estenderiam por “contágio”. Anders foi taxado de “sonhador” e “irrealista”, e o Congresso teve poucos resultados.

Nos anos 60, houve tentativas razoavelmente significativas, na Alemanha Ocidental, de organizar um movimento de massas contra o armamento nuclear, nomeado Kampf dem Atomtod (Luta contra a Morte Nuclear). Washington não demorou, todavia, a induzir o fim do financiamento das marchas, categorizando-as – assim como qualquer oposição pública ao que se passara em Hiroshima e Nagasaki – como “antiamericanas” e, consequentemente, como “pró-soviéticas”. Essas associações ideológicas forçadas atingiram tal ponto de desatino que a própria menção à palavra “paz” chegou, em alguns contextos, a ser entendida como hostil ao Ocidente.

Ao fim da década, a causa nuclear foi sobreposta por outras – também importantes, como o protesto contra o genocídio no Vietnã –, e amplamente deixada de lado. Para Anders, não obstante, essas lutas eram apenas secundárias à oposição à ameaça da “morte nuclear”, sendo essa, e nenhuma outra, a “luta definitiva de nossa era”. Em suas palavras, “a luta contra um futuro sem mundo ou um mundo sem futuro foi substituída […] pela luta contra os males contemporâneos ou contra males de um futuro inconteste”.

De fato, um dos maiores perigos do armamento nuclear reside na banalização da possibilidade de que Hiroshima e Nagasaki aconteçam novamente, ou, melhor, no abismo que há entre nossa capacidade de imaginar e de produzir. Isso diz respeito, também, à irreversibilidade da bomba – mesmo que a continuidade da fabricação de armas nucleares seja proibida, e todos os exemplares dessa classe bélica destruídos, a bomba atômica ainda existiria, porque o ser humano é incapaz de revogar o próprio saber e porque ele foi ultrapassado pela técnica. Na condição de engrenagens da máquina, nos tornamos cúmplices e, em outras palavras, a situação técnica do homem se determina “não só pelo que ele domina, mas pelo que ele é incapaz de não dominar”. Chegou-se, inclusive, ao nível de “domesticação do produto”, em uma “greve da produção” na qual os detentores da técnica vêem-se confrontados pela necessidade de produzir bombas “menos letais”. A capacidade de produzir dos equipamentos, a técnica, jamais serão aniquilados e, dificilmente, o desejo político de onipotência o será.  

A própria natureza da guerra não passou incólume ao efeito da invenção da bomba. De processo estratégico, ela passou a ser um processo puramente técnico – como se a própria guerra, já tão desumana, fosse exposta ao efeito da desumanização –, tão impessoal que a “ideia irrefletida” de uma nova guerra se tornou costumeira. Isso quer dizer que a inimizade, o ódio que já motivou tantos conflitos armados, agora praticamente deixou de existir, visto que a inimizade se tornou obsoleta. Segundo Anders, “A guerra do futuro não necessitará mais de odiadores, apenas de apertadores de botões que sejam de confiança”.

O que foi feito a Hiroshima e Nagasaki, aliás, já foi em si uma demonstração desse fato, uma vez que não consistiu na etapa final da Segunda Guerra Mundial – ou seja, de uma “guerra quente” – porque a guerra pressupõe a possibilidade, mesmo que pequena, de resistência; tampouco foi uma investida contra o totalitarismo de um Eixo já derrotado, porque a ameaça nuclear é totalitária por si só. Os lançamentos da Little Boy e da Fat Boy consistiram em atos de pura carnificina.

De certa forma, ainda, o estado de guerra – ou melhor, de ruína – se tornou onipresente e indissolúvel – alterando profundamente, também, a disposição do mundo e, consequentemente, as relações internacionais.

Anders acredita que “Nós – cada indivíduo e cada país – vivemos no mesmo tempo e no mesmo espaço, na vizinhança assassina de cada outro indivíduo e cada outro país; e cada dia de manhã vive na vizinhança assassina de cada dia de hoje”. As fronteiras nada mais são do que mecanismos formais, o que acontece em um lugar se passa simultaneamente em todos os lugares, e a política externa é afetada por essa novidade. Parte disso advém da impossibilidade de manter a ação nuclear dentro de um território específico, de modo que atos de “soberania” se transformam em atos de intervenção. O conceito jurídico de soberania, logo, é antiquado e deve se atualizar conforme a atualização da técnica: se, no passado, havia preocupações quanto à “identidade de local de ação e local de efeito”, preocupa-se, hoje, com o local de impacto. 

De forma semelhante, a história política ajustou seu andamento, nos últimos 35 anos, à velocidade da história da técnica. Se comparado ao panorama atual, aquele que se observava nos anos 60 era, para Anders, inofensivo. Isso porque as armas nucleares eram, ainda, propriedade de um “clube atômico” mais exclusivo, e não havia tanta preocupação, por parte das demais nações, com a equalização do poderio nuclear. Hoje, os números de armas nucleares, de testes e de mísseis se proliferaram de maneira incontrolável, e a história, segundo o intelectual, “corre tão rapidamente quanto a velocidade da modificação dos produtos”. Na atualidade, o que acelera a história é a concorrência que definirá quem serão as potências nucleares de amanhã, e a política, aliás, acontece dentro da situação nuclear – ela é definida por “fatos nucleares”, uma vez que essas armas deixaram de ser acessórios da política, como o eram nos tempos do “clube atômico”, para se tornarem seu objeto quase primário.

Por essa razão e por outras, o que é fundamental em nossa era é, justamente, a constância com que se mantém a inconstância de nossa existência – constância que, na história, é uma grande novidade. De maneira contraintuitiva, ainda, a potência da técnica torna cada vez mais inútil a medição do poder do protesto antinuclear por meio do número de indivíduos que o compõem. Com o aumento da magnitude técnica, a massa deixou de significar poder; esse poder é propriedade, agora, dos que detém o emprego da técnica.

Em seus diários, Anders narrou visitas cerimoniais a Hiroshima e Nagasaki, subsequentes a sua participação no Congresso de 1958. O que ele viu lhe deixou profundamente indignado: Hiroshima fora quase completamente reconstruída, exceto pela manutenção do Memorial à paz (um único prédio em ruínas no centro da cidade), e foram erguidos um hotel – sardonicamente apelidado de “New Hiroshima” – e um museu. Dentre as exposições do museu, encontrava-se uma dedicada ao “progresso das armas nucleares”, bem como às proezas da tecnologia nuclear “pacífica” e das “bombas limpas”. Hiroshima foi praticamente transformada em um ponto turístico, com uma rota convencional da comiseração traçada entre hotel, museu e memorial. Nesse exemplo de capitalização da tragédia, com seus memoriais insuficientes e rituais de luto, o que se sobressaiu, na percepção do filósofo, foi sua qualidade de “[…] demonstração do nunca mais num mundo do ainda e da repetição”. Anders, de fato, considerou todos esses empreendimentos como afrontas à memória e à história, alegando que “[…] a reconstrução é a destruição da destruição e, portanto, o ápice da destruição”. É como se a história – sendo a reconstrução parte dela – falsificasse a si mesma, convertendo-se na história da autofalsificação.

Em Nagasaki, Anders visitou as ruínas de uma catedral em reconstrução, ao que seu intérprete comentou “You brought it, you destroyed it” (“Vocês a trouxeram, vocês a destruíram”). “o que não existe em lugar nenhum está em todos os lugares, e o que não acontece em um momento determinado acontece em todos os momentos”

Certa vez, durante o auge das discussões acerca do armamento nuclear da Alemanha Ocidental no contexto da Guerra Fria, o físico Von Weizsäcker insinuou que é preciso aprender a “viver com a bomba”. A respeito desse comentário, Anders aponta com perspicácia que não se pode supor, por nem um momento sequer que, desde Hiroshima, já vivemos ou chegaremos a viver “sem a bomba”. O que resta, portanto, em um período tão avançado da era nuclear, é a superação do “tédio do apocalipse”. Temos de reaprender a unificar a causa e o efeito – cuja separação mutila a percepção e dificulta a responsabilização –, para então analisar a questão sob um olhar concreto, urgente e assustadoramente real, porque toda e qualquer resistência à ameaça nuclear, hoje, não se resume ao ato de lembrar. Talvez indispensável, como advoga Anders, até mesmo abolir o vocábulo “arma nuclear”, visto que ele anula qualquer entendimento prévio de que todo dispositivo nuclear é uma arma em potencial. É preciso, por fim, ter scientia-conscientia – o conhecimento que, autêntico, é também consciência, e consciência crítica – e, sobretudo, é preciso reconhecer que todo ato que falha em ser um gesto de oposição é, por consequência, um ato de conivência.

Referências

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  • cropped-PHOTO-2026-01-27-12-40-54-1-250x250 80 Anos da Tragédia de Hiroshima: Poder, Ameaça e Aniquilação

    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Jornalismo, Ásia Ocidental, América Latina, Capitalismo e Imperialismo, Cultura e Relações Internacionais.

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    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI), da Universidade de São Paulo (USP), e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de Interesse: Sul Global, História, Cultura, Sociologia, Diplomacia e Jornalismo.

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Jornalismo, Ásia Ocidental, América Latina, Capitalismo e Imperialismo, Cultura e Relações Internacionais.