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Superman e a Geopolítica dos Super-heróis

Superman e a Geopolítica dos Super-heróis

Por Stefano Romano e Carolina Azevedo

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Cinema, Super-heróis, Política e Geopolítica

Não é novidade que os grandes eventos geopolíticos da história se associam em tempo real às artes e, especialmente, à produção cinematográfica norte-americana. Ao longo dos “Loucos anos 1920”, por exemplo, o surgimento do American Way of Life refletiu-se em diversos programas de TV que exaltavam o consumismo e o conservadorismo; após a Segunda Guerra Mundial, por outro lado, não foram raras as produções hollywoodianas que tratavam os EUA como uma figura messiânica, responsável por libertar o mundo das correntes do nazifascismo; até a queda do Muro de Berlim, por fim, destacaram-se variados filmes que idealizavam a democracia liberal e o capitalismo, em oposição ao socialismo totalitário dos soviéticos. 

A simbiose entre cinema e política – muitas vezes interpretada como uma verdadeira máquina de propaganda – é, portanto, uma constante desde o surgimento da sétima arte. Ao longo das últimas décadas, entretanto, um gênero em específico veio a ser cada vez mais mobilizado nessa relação: os filmes de super-heróis. 

Isso deve-se não só à ampla popularidade do gênero, como também ao caráter messiânico e moralmente perfeito de seus protagonistas, o qual, quando contextualizado em cenários alegóricos da realidade, torna-se útil à construção de narrativas históricas convenientes. 

É o caso, por exemplo, do  Capitão América: vestindo as cores da bandeira norte-americana, o super-herói é, neste caso, um soldado que lidera os aliados no combate aos nazistas. Para além do mero entretenimento, portanto, sua história promove uma interpretação conveniente da Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, o caráter heróico do Capitão América extrapola para sua nação como um todo: os Estados Unidos são, nesse viés, o super-herói da guerra. 

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Pôster do filme Capitão América: O Primeiro Vingador (2011) – Fonte: Disney Plus.

As interpretações acerca desses filmes, como é de se esperar, dividem opiniões. Na verdade, suas referências acabam, muitas vezes, sendo mais vagas e generalizadas, uma tentativa dos estúdios de não se queimar com os fãs das variadas vertentes ideológicas. 

Ao longo das últimas décadas, as adaptações das HQ’s de Super-heróis às telas de cinema tornaram-se cada vez mais frequentes, com destaque, é claro, aos dois universos cinematográficos mais famosos desse meio: a MARVEL (cujos personagens mais conhecidos são o Capitão América, o Homem de Ferro e o Homem Aranha) e a DC comics (que conta com heróis como o Batman, a Mulher-Maravilha e, é claro, o Superman). 

Entre os fãs do gênero, existe uma compreensão de que as duas fabricantes, inclusive, nutrem uma certa polarização. Nesse sentido, a DC é frequentemente associada a uma postura mais autoritária e conservadora, uma vez que seus heróis costumam atuar como protetores supremos da ordem. Na MARVEL, por outro lado, os heróis vêm a ser lidos como benfeitores, de postura mais moderada.

Recentemente, entretanto, a compreensão acerca da tradição ideológica da DC veio a ser desafiada pelo seu último lançamento, o filme Superman, um verdadeiro sucesso nas bilheterias norte-americanas. Esse sucesso todo, entretanto, não foi mero resultado de uma narrativa envolvente. Na verdade, deveu-se, em grande parte, às polêmicas que levaram diversos críticos a classificá-lo como “o filme de Super-Heróis mais político já feito”.

O Novo e Polêmico Superman

Em Julho deste ano (2025), foi lançado um novo filme do Superman, sob a direção do diretor James Gunn e com a atuação de David Corenswet no papel do herói mais famoso da DC. O filme, mesmo antes de sua estréia, causou muito barulho devido a uma série de supostas referências a personalidades controversas da política internacional, a conflitos geopolíticos, a correntes político-ideológicas da extrema direita e muitos outros elementos, fomentando discussões em noticiários e nas redes sociais. 

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Pôster do novo filme do Superman (2025) – Fonte: DC studios.

Ao longo deste artigo, serão analisadas essas supostas referências, seus contextos históricos e suas repercussões. É importante ressaltar, portanto, que este texto contém spoilers.

Superwoke? A Questão Migratória no Novo Filme do Superman

Desde a publicação das primeiras HQs, o início da história do Superman sempre foi o mesmo: ele não é um ser humano, mas sim, um alienígena, cujas origens remetem a um planeta fictício chamado Krypton. Devido à iminente destruição da sociedade kryptoniana, o herói, ainda bebê, é enviado pelos pais ao planeta terra, na esperança de sobreviver e dar continuidade à sua raça. A bordo de uma pequena nave, portanto, ele chega enfim ao Kansas, onde é adotado por um casal de camponeses que o criam até que, já adulto, o kryptoniano se transforma no herói que conhecemos.

Para muitos, a origem do Superman, que data de 1938, é um reflexo da história de vida de seus criadores, Jerry Siegel e Joe Shuster, ambos filhos de imigrantes judeus que fugiram do antissemitismo na Europa. 

Sob esse contexto, a chegada do herói kryptoniano à terra é frequentemente interpretada como uma alegoria da história de Moisés. O profeta, de acordo com a tradição judaico-cristã, teria sido abandonado pelos pais para que pudesse salvar-se da morte iminente (tal qual o Superman) e, quando adulto, estaria destinado a libertar o povo hebreu da escravidão. O Superman adquiriu semelhante caráter messiânico, sendo tratado como um verdadeiro “Deus entre os homens”, destinado a salvar não os hebreus, mas sim, a humanidade como um todo. 

Desde sua criação, portanto, o personagem nunca deixou de ser um imigrante, e nas várias adaptações de sua trama ao cinema, esse elemento não costumou gerar grandes incômodos. O novo filme, porém, destoou dessa tendência histórica, resultado não só das escolhas feitas por James Gunn na escrita do roteiro, como também da crescente polarização política na sociedade estadunidense. 

A pauta anti-migração, não só nos Estados Unidos como também na Europa, tem se tornado a principal plataforma política dos cada vez mais poderosos partidos de extrema direita. Nos EUA, sob a liderança do atual presidente Donald Trump, essa pauta é motivada pelo incômodo com a chegada de imigrantes principalmente do México e do Haiti e, em segundo plano, também de países do Oriente Médio, do Caribe e de outros locais. Devido ao atual momento histórico, portanto, era de se esperar que as origens migratórias do Superman, que outrora passavam despercebidas, tornassem-se agora alvo de críticas da extrema-direita.

Ao mesmo tempo, é certo que James Gunn buscou, ao menos levemente, alfinetar essa ala política. Nesse sentido, a origem estrangeira do protagonista, assim como os ataques que ele sofre por ser “estrangeiro”, tornam-se temáticas centrais do enredo. 

Na verdade, fica evidente que a motivação central do vilão, o bilionário Lex Luthor, não é o seu interesse em dominar a terra fictícia de Jarhanpur ou os lucros financeiros que podem acompanhá-la, mas sim, a morte em si do Superman. Seu ódio visceral pelo super herói parece injustificado ao longo do filme, até que, próximo do fim, Luthor admite odiá-lo pura e simplesmente pelo fato de ele ser estrangeiro ou, em outras palavras, um imigrante. 

As críticas a tal abordagem do filme partiram principalmente da rede de TV norte-americana Fox News, conhecida por seus viés pró-partido republicano. A rede ativamente acusou a DC de doutrinação social em seus filmes, dedicando ao herói o apelido “Superwoke”. 

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Manchete na rede de TV Fox News. Tradução: “Superwoke, filme icônico de herói que abraça temas pró-imigração” – Fonte: CBN, Globo.

Além disso, no embalo das acaloradas discussões na internet, popularizaram-se as hashtags #NotMySuperman e #WokeSuperman. Ganhou destaque também uma campanha pelo incentivo ao boicote ao filme.

Por fim, o ator hollywoodiano Dean Cain, conhecido por ter interpretado o Superman em Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman, de 1997, desferiu também uma série de críticas ao novo filme, classificando-o como excessivamente woke.

O termo “woke” descreve, originalmente, uma consciência social e política sobre questões de justiça social, igualdade e diversidade, especialmente em relação a minorias identitárias. No entanto, o termo também tem sido alvo de críticas e controvérsias, sendo frequentemente mobilizado de forma pejorativa por grupos conservadores como uma ameaça aos valores tradicionais.

Em resposta à repercussão negativa, o diretor do filme, James Gunn, afirmou que “ele [o filme] é a história dos Estados Unidos, a história de um imigrante que veio de outro lugar e povoou o país. Sobretudo, para mim, é uma trama que advoga pela gentileza humana básica como valor”.

Superman e a Teoria da Grande Substituição

Como visto até aqui, é difícil assistir ao novo filme do Superman e não associá-lo à questão migratória e sua relação com a extrema direita e, especialmente, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Essa análise, entretanto, pode se aprofundar ao considerar-se as possíveis referências, talvez pouco intencionais, traçadas entre o roteiro e a Teoria da Grande Substituição, uma conspiração racista e ultranacionalista que vem ganhando cada vez mais adeptos nos EUA e na Europa. 

Criada pelo autor francês Renaud Camus, a Teoria da Grande Substituição defende, sem provas concretas, que os imigrantes (principalmente latino-americanos e mulçumanos) estariam invadindo os países da Europa e América do Norte para substituir as populações brancas e, a partir disso, tomar essas nações “de dentro para fora”. 

Esse movimento, de acordo com os conspiradores, estaria sendo financiado por uma elite oculta e pouco identificada: a culpa já veio a ser direcionada, por exemplo, à esquerda, aos judeus, às grandes empresas e até ao Partido Democrata dos EUA. Entre seus principais adeptos, destacam-se não só a extrema direita como, em especial, o grupo neonazista estadunidense Ku Klux Klan.

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Protesto organizado por supremacistas brancos em 2017 em Charlottesville, EUA. Sob o canto “You will not replace us” (vocês não nos substituirão), os manifestantes faziam referência à Teoria da Grande Substituição – Fonte: The Washington Post.

De acordo com os conspiradores, a tomada de poder seria feita, principalmente, por meio da natalidade e do voto. Nesse viés, os imigrantes estariam, supostamente, entrando ilegalmente sob o objetivo de se reproduzir em larga escala. Dessa maneira, a população de origem migratória, gradualmente, tornaria-se maioria e, a partir disso, poderia vencer no voto os “nativos étnicos”, configurando, finalmente, a tomada do poder político.

Mas, afinal, qual a relação dessa teoria com o novo filme do Superman? A resposta encontra-se na análise da maneira como o vilão, Lex Luthor, busca colocar o próprio povo local contra o super-herói imigrante. 

Nesse sentido, Luthor argumenta, em rede nacional, que o Superman teria vindo à terra não para proteger a humanidade, mas sim, para dominá-la. Esse processo, não seria concretizado apenas por seus super-poderes, mas sim, tal qual dita a conspiração, pela natalidade. 

De acordo com o vilão, o Superman, secretamente, teria um harém, onde ele se reproduziria com várias mulheres e, a partir disso, iniciaria sua própria Grande Substituição: dessa vez, não seriam os nativos étnicos a ser substituídos pelos mulçumanos e latinos, mas sim, os terráqueos a ser substituídos pelos Kryptonianos. 

Vale citar que a palavra “harém”, utilizada no ocidente e no filme como sinônimo de um prostíbulo, tem origem árabe. Originalmente, entretanto, refere-se ao conjunto de aposentos independentes, na casa de um sultão muçulmano, destinados à habitação das mulheres de sua família, principalmente suas esposas. 

Elon Musk e Lex Luthor: Os Bilionários como Novos Vilões de Hollywood

Outro elemento do filme que repercutiu e gerou debates entre os fãs foi a semelhança entre o vilão, Lex Luthor, e o homem mais rico do mundo, Elon Musk. Musk possui um patrimônio líquido de mais de 380 bilhões de dólares, sustentado por empresas como Tesla, Starlink e SpaceX. Lex é também um bilionário, cujas riquezas advém de companhia fictícia LuthorCorp. As semelhanças, entretanto, vão muito além do patrimônio financeiro.

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À esquerda, Lex Luthor; à direita, Elon Musk – Fonte: Fast Company.

Em primeiro lugar, ambos são figuras um tanto megalomaníacas, ou, em outras palavras, possuem um certo “complexo de salvador”: agem em nome de um conceito distorcido de bem geral, que se confunde com seus interesses e ideais particulares. Além disso, fazem uso, muitas vezes, de meios ilícitos para conseguir aquilo que desejam. Esse fenômeno, é claro, acompanha-se de uma certa teatralidade, uma necessidade de ser visto e comentado.

Em segundo lugar, tanto Musk quanto Luthor demonstram possuir contatos importantes dentro do governo, o que os garante uma poderosa influência sobre as grandes decisões políticas da nação. No filme, por exemplo, existe uma cena onde o vilão, em alguma espécie de reunião secreta, busca convencer lideranças políticas e militares dos EUA a tratar o Superman como uma ameaça. Paralelamente, Elon Musk, devido ao seu amplo poderio financeiro, sempre teve considerável influência sobre o governo estadounidense. O auge dessa influência, inclusive, se deu ao longo dos primeiros meses do segundo mandato de Donald Trump, quando o multibilionário esteve à frente do Departamento de Eficiência Governamental dos EUA. Recentemente, entretanto, a parceria entre o magnata e o republicano veio a ser rompida.

A semelhança que mais chama a atenção, entretanto, vem à tona em uma cena em que Luthor expõe um laboratório seu onde diversos macaquinhos, em tempo real, fazem posts nas redes sociais xingando e conspirando contra o super-herói. Uma das mais poderosas armas do vilão, portanto, não envolve a força física, mas sim, a manipulação da opinião pública: Luthor ativamente coloca o próprio povo contra o protagonista. 

Ao assistir essa cena, é difícil não se recordar da maneira como Musk lida com o X (antigo Twitter), uma das mais utilizadas redes sociais, a qual veio a ser comprada por ele em 2022 sob a declarada meta de “salvar a liberdade de expressão”. Desde então, o magnata vem incentivando na plataforma a disseminação de fake news, teorias conspiratórias e propagandas políticas, apoiado por um algoritmo que favorece a viralização de conteúdos alinhados à extrema direita. 

Musk vem favorecendo também a repercussão de seus próprios posts na plataforma, muitos deles recheados de conteúdos duvidosos. Ao longo do ano passado, por exemplo, suas postagens sobre o processo eleitoral – das quais 87 foram classificadas como enganosas – vieram a ser reproduzidas mais de 3 bilhões de vezes.

Por fim, para coroar a comparação, Elon Musk, tal qual o vilão, nutre uma relação ácida com as comunidades imigrantes e, inclusive, já fez declarações públicas defendendo a Teoria da Grande Substituição. Em certa ocasião, por exemplo, ao referir-se à pauta pró-imigração o magnata veio a afirmar que “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”, classificando a postura receptiva aos refugiados como uma “empatia suicída”.

Intencional ou não, essa interpretação destoa da maneira como os bilionários se acostumaram a ser retratados no cinema. O próprio Elon Musk, por exemplo, serviu de inspiração ao roteirista Mark Fergus na caracterização do Homem de Ferro. Inclusive, em Homem de Ferro 2 (2010), há uma cena em que o herói, amigavelmente, cumprimenta Musk e o elogia pela qualidade dos motores produzidos pela SpaceX.

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Cena em Homem de Ferro 2 em que o herói e Musk se cumprimentam – Fonte: Rolling Stone Brasil.

A mudança na abordagem cinematográfica acerca das Big Techs e seus donos pode ser interpretada como um reflexo do desgaste da imagem pública dessas empresas: cada vez mais, elas são vistas como corporações que colocam seus interesses e lucros acima do bem comum. Essa mudança, inclusive, não se fez presente apenas nos filmes de super-heróis: em The Circle (2017), Glass Onion (2022) e Jurassic World: Domínio (2022), por exemplo, os antagonistas apresentam fortes semelhanças, respectivamente, com Mark Zuckerberg (Meta), Elon Musk e Tim Cook (Apple). 

Superman e geopolítica: a narrativa como super-poder   

Em uma das cenas mais emblemáticas do filme, Clark e sua namorada Lois Lane, ambos jornalistas, aparecem discutindo sobre a validade do conflito na região da Borávia. Para Lois, que nunca esteve na região do conflito e o observa de óptica distante e sob a lente sobreposta da mídia, a definição dos ataques é incerta, sendo difícil determinar quem está certo e quem está errado. Já para Clark, que já esteve no meio do conflito e entrou em contato com as verdadeiras vítimas, é indiscutível que se trata de um genocidio e que a ocupação do território Jarhanpur é injustificável. 

Após o lançamento do filme, o diretor James Gunn foi imediatamente questionado sobre o conflito que inspirou a premissa do enredo. Em uma declaração à revista Variety, o escritor do roteiro afirmou: “quando eu o escrevi [em 2022], o conflito no Oriente Médio não estava acontecendo. […] É a história de uma invasão por um país muito mais poderoso, liderado por um déspota, a outro país que é problemático em termos de formação de sua história política, mas que não tem qualquer meio de defesa contra o outro país. É ficcional”. 

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Cena de “Superman” (2025) em que, sob o ataque borávio, os “palestinos” de Jarhanpur ateiam uma bandeira, chamando pela ajuda do super-herói – Fonte: G1, Globo.

Apesar disso, os paralelos entre a crítica do filme e o conflito entre Israel e Palestina são muitos para passarem despercebidos. Um exército extremamente bem equipado se postando diante de uma população com apenas suas armas improvisadas em mãos: isso é tudo o que temos visto na mídia ultimamente. Contudo, como Gunn bem demonstra – e não é difícil acreditar quando diz que o roteiro é alheio ao recente conflito – não é tão difícil extrapolar as realidades contemporâneas em um clássico de heróis e vilões, ainda mais porque a história da humanidade se confunde com a história dos conflitos entre os povos e, quando não aprendemos com eles, tornam-se cíclicos e previsíveis.

Por esse motivo, é possível apontar referências também a outros conflitos, como Rússia e Ucrânia, por exemplo. O sotaque eslavo carregado e uma aparência caucasiana e, ainda, desleixada, como algo que se assemelha a uma caricatura do presidente russo Vladimir Putin, é uma sátira velada ao discurso de engrandecimento próprio e autocratização do poder no país. Entretanto, os paralelos entre os dois conflitos não vão muito além disso, uma vez que o país fictício é retratado como aliado dos EUA e a Ucrânia, apesar de nao se equipar a Rússia em termos de potência bélica, está longe de ser uma Nação indefesa e completamente esquecida pelo cenário internacional.

Do ponto de vista da narrativa, o filme bate na tecla da confusão geral da população, mostrando uma sociedade constantemente suscetível à manipulação tanto da mídia quanto dos discursos de ódio de figuras políticas, seja quando a Fake News sobre o Super herói é compartilhada ou quando o presidente tenta justificar suas ações com um discurso racista, as pessoas aparentam não ter um aparato crítico para se defenderem da alienação. Nos últimos dois, algo semelhante ocorre com a opinião pública frente ao conflito Israel-Palestina.

A relutância da mídia em usar as nomenclaturas corretas, como “genocidio” e de chamar o povo pelo seu nome, ao invés de reduzi-los a um grupo político extremista, contribui para a nebulosidade na consciência social. O historiador israelense Ilan Pappe, especialista em conflitos árabes, afirmou em palestra para a Faculdade de Direito da USP: “É preciso dar às coisas os nomes que as coisas merecem ter”. Essa crítica se volta para a mídia global que no momento em que precisa documentar crimes israelenses se vale de eufemismos e quando precisa retratar as tragédias que acontecem no lado palestino, estruturam a manchete na voz passiva analitica, ocultando o causador do sofrimento.

O controle da narrativa midiática é, portanto, de absoluta importância para vencer uma guerra. A conquista da opinião pública, que no filme acontece através da vilanização do Superman e consequentemente do povo que ele defende e na vida real a ocorre a partir da instrumentalizacao do Holocausto e a perpetuacao do sionismo em todas as camadas sociais, tornam o estado de Israel imbativel com todo o respaldo internacional é ofertado. Principalmente quando levado em conta que o povo Palestino é incapaz de lutar para sobreviver e contar a sua propria historia, como aponta a professora Arlene Clemesha do departamento de estudos arabes da USP.

Contudo, seria inconcebível o lançamento desse filme, mesmo que não fazendo nenhuma menção direta, se a popularidade das ações de Israel não estivessem perdendo força da maneira em que estão diante da opinião americana. Uma produtora jamais investiria tanto dinheiro em um filme se soubesse que correria riscos de ameaça ou que as pessoas não entendessem Israel como um estado genocida, mas apenas um aliado dos Estados Unidos se defendendo de um inimigo comum entre ambos. Por isso, o novo Superman não desafia apenas a duradoura imagem perfeita de Israel, mas também a arrogância das políticas americanas. 

Por fim, a imagem da batalha final em que o Superman precisa decidir entre impedir a dominacao do vilarejo de Jarhanpur – como seu único defensor – ou salvar o mundo da ameaça de Lex Luthor, carrega uma semelhança simbólica com as tentativas das fotilhas da liberdade e das organizacoes internacionais, como a ONU, de quebrarem o cerco hermético no qual o povo palestino se encontra para fornecem apoio humanitario.

Entre a Caridade e o Interesse: Quem é o Vilão e quem é o Herói?

O plot twist do filme ocorre quando os protagonistas descobrem que Lex Luthor estava ajudando o país da Borávia e enviando armamentos a um preço ínfimo, apenas para cumprir sua satisfação pessoal de perseguir o Superman.

Fora da Ficção, Israel, de acordo com o departamento de Estado dos EUA, recebe $3.3 bilhões de dólares anualmente do governo americano em forma de ajuda militar. De acordo com o secretário do governo, Mellman, “A realidade é que a cooperação beneficia os EUA tanto quanto Israel […] beneficia Israel à medida que impede ataques de outras superpotências bélicas como o Irã, o que ajuda os Estados Unidos a prevenir guerras maiores”. 

Para entender essa política dos Estados Unidos é preciso entender o conceito de Guerra por Procuração. Ocorre quando uma nação maior e mais poderosa se instaura em uma nação menor e a usa para atingir outros territórios. Nesse cenário, o interesse dos Estados Unidos no Oriente Médio está intrinsecamente ligado a sua ajuda tanto militar quanto ideológica nos planos de Israel.

A partir disso, Hassan Sayed, economista da Universidade de Princeton, afirma: “Há um engano prevalente na comunidade árabe sobre o relacionamento EUA-Israel. Nós sempre ouvimos que o lobby zionista é o culpado – que os judeus dominam a América e são os tomadores de decisão. Não. America é a tomadora de decisões. Na América, você tem as grandes corporações, as grandes companhias de petróleo, a indústria bélica, e o chamado ‘Cristianismo-Sionista’. A tomada de decisão está nas mãos dessa aliança. Israel costumava ser uma ferramenta nas mãos dos britânicos e agora é uma ferramenta na mão dos americanos”. O discurso do Lobby Sionista é apenas mais uma narrativa, diga-se de passagem, anti-semita, para ocultar a real motivacao dessa relacao, o controle das riquezas da região.

Os interesses geopolíticos quase sempre se sobressaem sobre qualquer discurso ideológico e, se há um discurso ideológico envolvido, este provavelmente oculta uma motivação política. Por esse motivo outras nações relutam em romper com Israel, como o Brasil, cujo presidente, apesar de ter escrito cartas condenando as ações do Estado, reluta em romper com Israel.

Glarkos: Caricatura do Autoritarismo 

Dentre as figuras familiares retratadas no filme, há também o retrato do presidente covarde, que se sente à vontade para disseminar um discurso de ódio, por se considerar respaldado pelo seu eleitorado e pelo próprio aparato estatal de seu próprio governo. O líder da Boravia, Vasil Glarkos (Zlatko Buric), pode surgir em Superman como uma caricatura dos líderes autoritários que ganharam cada vez mais espaço nas maiores democracias nos últimos anos. Meio pateta, meio perigoso, com falas que ficam na linha tênue entre piada e discurso de ódio (quase sempre ultrapassando para o discurso de ódio) e que, em parte, esconde a falta de escrúpulos ideológicos na vontade de ser visto e comentado. Nele estão Donald Trump, Vladimir Putin, Netanyahu, Jair Bolsonaro, Zelensky e todos os outros políticos produtos da espetacularização da política.

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Vasil Glarkos, presidente do país fictício Borávia, em Superman (2025) – Fonte: DC Universe wiki.

O diretor inclui, ainda, o relacionamento de subordinação entre o bilionário e seu político de estimação. Seja Trump com Elon Musk ou Bolsonaro e Silas Malafaia, sempre há uma mente megalomaníaca por trás de uma política liberal de esfacelamento do estado.

As cenas dos discursos odiosos e pantomímicos do presidente Glarkos apresentam uma semelhança irrefutável aos comícios de Trump durante a corrida presidencial de 2024. Durante sua candidatura, o americano chegou a acusar uma comunidade inteira de imigrantes nos EUA de comerem bichos de estimação. Os alvos desses ataques eram quase sempre minorias raciais, étnicas e religiosas. Como consequência, o número de casos de bullying contra minorias nas escolas aumentou e imigrantes passaram a se sentir mais inseguros no país. 

A retórica agressiva de influências políticas afetou as atitudes dos apoiadores, que se sentiram seguros para agir com intolerância. Em uma análise feita pela revista Perspectives on Terrorism, foi concluído que o ódio disseminado por Trump nas redes sociais gerou a perseguição e, consequentemente, danos psicológicos diretos e indiretos em seus inimigos declarados.     

Outra faceta desse fenômeno que foi escancarada pelo filme é a forma como essas figuras tendem a falar agressivamente tudo aquilo que desejam enquanto acham que estão protegidas pelo direito ao que elas entendem como liberdade de expressão, mas que, quando são confrontadas com a justiça, demonstram covardia. Isso é retratado na cena que após o discurso de ódio proferido pelo presidente Glarkos em rede nacional, Superman o leva para ter uma conversa no deserto e adverti-lo e, nesse momento, o presidente transparece seu medo e pede perdão aos prantos para o super-herói.  

Traçando um paralelo com a realidade e, indo além, com o cenário brasileiro, esse comportamento pode ser identificado nos recentes acontecimentos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante seu mandato, o político se sentia confortável para proferir falas preconceituosas em rede nacional, implicando, inclusive, que era intocável pelo sistema judiciário, com falas como “Ninguém vai tomar meu celular”. Contudo, no último ano, após ser julgado e condenado pela justiça brasileira por tentativa de golpe de estado, Bolsonaro fez uma declaração pública pedindo anistia. O senso de invencibilidade.

Super-heróis e a Mão Invisível do Pentágono

O documentário Teatros da Guerra, produzido pelo jornalista investigativo Tom Saker, revela a forma como a CIA e o Pentágono interferem na produção Hollywoodiana de forma direta, agindo como uma agência reguladora. Nesse contexto, qualquer retrato em obras cinematográficas que mostre os Estados Unidos como fraco ou fora do controle da situação recebe uma notificação dos órgãos do governo. A partir disso, é possível entender a relação das figuras de super-heróis com o imagético que os americanos e o mundo têm da “Maior Democracia do Mundo”. 

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Pentágono: a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Na imagem, sua principal base, localizada no condado de Arlington, Virgínia – Fonte: Instituto Cátedra.

Desde o lançamento da primeira revista em quadrinhos estadunidense desse gênero, em 1939, os super-heróis são utilizados como uma ferramenta de soft power do governo americano, sempre engajadas nos conflitos geopolíticos que o país se encontra inserido no momento da publicação. O soft power, além de ser um mecanismo político lucrativo, é caracterizado como um meio de obter poder sem precisar do uso da força. 

De acordo com o professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto, Caio Graco, “o poder é entendido, classicamente, pelo poder militar, então é o hard power, o poder de você obrigar os outros a fazer o que você quer. O soft power, por sua vez, vai se afirmar em oposição a esse conceito de hard power e vai tentar abarcar outros recursos para convencer sem a necessidade de recorrer à violência. A maneira mais eficiente de impô-lo é, portanto, através da Indústria Cultural, uma vez que as pessoas estão com a guarda baixa e não se sentem manipuladas por algo que elas escolheram consumir”.

Tendo isso em vista, tanto a Marvel quanto a DC se valem desse fenômeno para retratar a visão da América que o país gostaria que o mundo tivesse, sempre o salvador da democracia global. Um exemplo clássico é a criação do Homem de Ferro, em 1963, com o seu alter-ego Tony Stark sendo um fornecedor de armas para o exército americano, que é capturado na selva vietnamita e, para sobreviver, cria uma armadura que o torna invencível. Um ano depois, a Marvel surge com o Capitão América, um tradicional patriota americano que precisa aprender a lidar com as rápidas transformações do mundo. Ambos os personagens marcam o início do envolvimento ideológico do mundo dos quadrinhos com a Guerra Fria.  

O Superman, criado pela DC, e o primeiro dos heróis conhecidos até os dias atuais, ganhou o título de herói político desde a sua primeira aparição. Seus inimigos sempre coincidiram com os inimigos estadunidenses: versões disfarçadas de comunistas, espiões soviéticos ou cientistas malucos com planos totalitários, que simbolizavam a maneira como o país enxergava o outro lado da cortina de ferro. A presença dos super heróis foi especialmente favorável ao governo, em termos de política interna, no período do Macartismo – também chamado de caça às bruxas comunista – que foi marcado pela perseguição, incitada pelo senador anti-comunista Joseph Mccarthy, àqueles que fossem associados a Ameaça Vermelha.

A importância política do super-herói no contexto da disputa com a União Soviética foi tamanha que, em 2003, a DC Comics publicou a minissérie Superman: Red Son, de Mark Millar, retratando um cenário em que o herói pousou na URSS ao cair na terra, ao invés do Kansas nos EUA. Na HQ, o herói se torna um símbolo heroico para os comunistas, que luta para instaurar a utopia socialista de Joseph Stalin. A obra é uma crítica satírica  ao determinismo ideológico, mostrando que até as lendas invencíveis e moralmente superiores são moldáveis pelo contexto político em que estão inseridos. 

Uma vez vencida a Guerra Fria, o inimigo americano se tornou outro: o Oriente Médio. Consequentemente, o inimigo de toda a “Classe heróica” se tornou o mesmo. Já na era do cinema, a Guerra ao Terror instaurada pela Doutrina Bush – batizada em homenagem ao presidente americano que a criou – já estava presente na política externa americana. 

Desse modo, após a intervenção americana no Iraque, houve a produção em massa de obras que retratavam o assunto da perspectiva americana sendo lançados, inclusive, remakes de filmes anticomunistas, agora no contexto do Oriente Médio. Sendo o filme do Homem de Ferro, lançado em 2008, o primeiro de seu tempo no mundo dos super heróis a retratar diretamente os árabes como vilões. 

Ao longo dos anos, os EUA caminharam em uma linha tênue entre a espetacularização e o distanciamento dos acontecimentos do 11 de setembro como fonte de afirmação de seu poder, afinal, o desenrolar dos acontecimentos ainda estava e está, de certa forma, em aberto. Logo, todas as representações do acontecimento, mesmo que sutis, tinham como objetivo ressaltar a superioridade dos EUA frente aos terroristas. Tendo isso em mente, os fãs das histórias em quadrinhos entendem que a Marvel referenciou a tragédia de uma forma implícita no primeiro filme dos Vingadores. 

Lançada em 2012, a adaptação retrata o grupo de heróis combatendo uma invasão alienígena que destrói completamente a cidade de Nova York. O filme, contudo, apresenta os EUA como bem-sucedidos no seu combate ao terrorismo, tendo o controle total da situacao, apos derrotar os invasores.

Referências

https://docs.google.com/document/d/13TaNB_y2JNr9OfPWgvNZFMUaW9yi2_0ciIYXy5saFQI/edit?usp=drivesdk https://www.uol.com.br/splash/noticias/2025/07/11/a-verdade-sobre-o-superman-woke-de-james-gunn.htm

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https://pt.icct.nl/article/donald-trump-aggressive-rhetoric-and-political-violence

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https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/soft-power-a-estrategia-sutil-dos-paises-para-ganhar-poder

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  • 8835bef9-f1f0-4549-bf90-ef4295c2ba9a-250x250 Superman e a Geopolítica dos Super-heróis

    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Gestora do Núcleo de Educação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Educação, América Latina, povos originários e política brasileira.

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    Aluno da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Sul Global, Economia Internacional, Política Externa Brasileira, Crime Organizado, Guerra Fria e Desenvolvimento Econômico.

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Gestora do Núcleo de Educação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Educação, América Latina, povos originários e política brasileira.