AGNU Como Palco Diplomático: Os Discursos de Lula e Trump
Por Ester Kodaira e Lara Belezia
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Dos dias 23 a 29 de setembro, em Nova York, nos Estados Unidos, ocorreu a 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU). A reunião contou com a presença dos 193 Estados-membros e de mais de 150 líderes mundiais, e serviu como palco para discursos e intensos debates em distintas esferas no cenário internacional. Dos conflitos na Faixa de Gaza a questão ambiental, o tema central da 80ª sessão da AGNU foi “Better together: 80 years and more for peace, development and human rights” (“Melhor juntos: 80 anos e mais pela paz, desenvolvimento e direitos humanos”).

Entre Resoluções e Diplomacia: A Assembleia Geral
A AGNU é o principal órgão representativo das Nações Unidas, responsável por eleições internas da organização, análises em torno de temas como geopolítica mundial e desenvolvimento socioeconômico, além de recomendações no âmbito da cooperação internacional e resolução de conflitos. A Assembleia é constituída por 193 países membros, os quais possuem um voto cada em processos de votação internos e na tomada de decisões.
A Assembleia também possui seis comitês principais, com escopos específicos em áreas distintas das relações internacionais. São eles:
- Comitê de Desarmamento e Segurança Internacional (DISEC);
- Comitê Econômico e Financeiro (ECOFIN);
- Comitê Social, Humanitário e Cultural (SOCHUM);
- Comitê Especial Político e de Descolonização (SPECPOL);
- Comitê Administrativo e Orçamentário (ACABQ);
- Comitê Jurídico;

Todos os anos, um presidente diferente é eleito, alternando-se com base nos diferentes grupos geográficos representados na assembleia. Este ano, as sessões foram guiadas por Annalena Baerbock, ex-ministra do exterior da Alemanha, eleita no dia 2 de junho deste ano para presidir a Assembleia Geral.
Além da presença da presidente, a abertura das sessões contou com o discurso do Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, o qual criticou o cenário internacional atual e reafirmou a importância da cooperação entre as nações como base da criação da ONU. Guterres também enumerou as prioridades a serem seguidas pela organização ao seu ver, mencionando a urgência climática, a prevenção de conflitos e a reestruturação financeira.
“A paz não é um benefício do desenvolvimento. É sua base – e seu investimento é maior retorno.” António Guterres

Vale ressaltar que, apesar da importância e da magnitude das reuniões da AGNU, sua eficiência possui controvérsias. A AGNU é um órgão recomendatório da ONU. Isso significa que suas resoluções, mesmo que amplamente aprovadas, não necessariamente serão acatadas pelos países membros. Tal natureza não vinculante das decisões tomadas na Assembleia tornam sua eficácia questionável, ainda que os discursos e debates ali ocorridos sejam de extrema relevância diplomática.
Assim, nesta sessão especial da Assembleia, que ocorreu após 80 anos da fundação da organização internacional, as discussões giraram em torno das crises e conflitos recentes, de ameaças à democracia e à soberania dos países, e de pautas climáticas. Entretanto, paralelamente, posicionamentos oficiais de distintos líderes mundiais foram oferecidos ao longo dos cinco dias de reunião, refletindo uma série de mudanças no tabuleiro geopolítico atual.
Clivagem Diplomática: Os Discursos de Trump e Lula
Na Assembleia Geral da ONU, os discursos de chefes de Estado cumprem papel estratégico ao projetar a visão de cada país sobre a ordem internacional. Os pronunciamentos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump ilustram bem essa dimensão, revelando abordagens contrastantes de política externa e o posicionamento de Brasil e Estados Unidos em temas sensíveis.
No caso de Lula, seus discursos marcaram a defesa do multilateralismo e da reforma das instituições internacionais, com ênfase no combate à fome, à miséria e às desigualdades globais. Em diversas ocasiões, Lula se solidarizou explicitamente com o povo palestino, destacando que a paz no Oriente Médio exigia o enfrentar as causas estruturais da violência, como desigualdade e exclusão.

Nesse contexto, Lula voltou a classificar os ataques de Israel à população palestina em Gaza como genocídio, afirmando que nada justifica a morte indiscriminada de mulheres e crianças, tampouco o uso da fome como arma de guerra. Segundo ele, há um risco real de desaparecimento do povo palestino se não for garantido um Estado independente e reconhecido pela comunidade internacional. Reiterou ainda que “o Brasil vai cobrar da ONU” para que seja criado o Estado da Palestina nos mesmos moldes da criação de Israel.
Além da questão palestina, Lula também criticou sanções, tarifas e restrições impostas pelos Estados Unidos em reação ao julgamento e à condenação de Jair Bolsonaro, classificando-as como tentativas de intervenção externa sobre instituições brasileiras. Reafirmou que a democracia no Brasil é forte, que há independência do Judiciário e que a soberania nacional é inegociável.
Outro ponto de destaque foi o uso do palco da ONU como denúncia das lacunas institucionais internacionais. Lula criticou o Conselho de Segurança, em especial o poder de veto, chamando-o de “tirania do veto” que paralisa decisões cruciais em crises como a de Gaza.
Esse posicionamento fortaleceu a imagem do Brasil como ator mediador e defensor do reconhecimento da Palestina como Estado, alinhando-se à tradição diplomática brasileira de buscar soluções negociadas para conflitos internacionais.
Já o discurso do presidente norte-americano Donald Trump na ONU seguiu uma lógica oposta. Marcado pelo lema “America First”, Trump defendeu a soberania nacional acima do multilateralismo, criticando organismos internacionais que, em sua visão, limitavam a autonomia dos Estados Unidos. Em relação ao Oriente Médio, seu governo manteve uma agenda de forte alinhamento com Israel, retomando sua defesa do reconhecimento de Jerusalém como capital israelense e acusando a ONU de ineficácia diante de crises que “já deveriam ter sido resolvidas”.
Trump também fez menções específicas ao Brasil e à relação com Lula. Acusou o Brasil de aplicar tarifas injustas contra os EUA e justificou a adoção de tarifas retaliatórias “fortes” sobre produtos brasileiros. Criticou ainda o país por, segundo ele, praticar censura, repressão, corrupção judicial e perseguição a críticos políticos, mencionando até mesmo cidadãos americanos supostamente afetados.
Apesar do tom duro, Trump relatou um breve encontro com Lula nos corredores da Assembleia, que descreveu como “cerca de 39 segundos”. Disse que houve “excelente química” e anunciou a intenção de realizar uma reunião bilateral na semana seguinte. Porém, ao mesmo tempo, declarou: “Brazil is doing poorly and will continue to do poorly. They can only do well when they’re working with us.”, sugerindo que, em sua visão, o Brasil só prospera quando alinhado aos Estados Unidos.

A comparação entre os dois líderes evidencia uma clivagem diplomática. Enquanto Lula projetou o Brasil como defensor da cooperação Sul, do fortalecimento da ONU e do direito à autodeterminação dos povos, o que inclui a causa palestina, Trump reforçou uma visão unilateralista e de distanciamento do multilateralismo.
A importância desses discursos vai além da retórica. Para o Brasil, a fala de Lula consolidou a imagem de um país disposto a exercer liderança internacional independente, equilibrando relações com diferentes blocos e ampliando sua influência diplomática. Já a posição de Trump, ao reduzir o espaço para negociações multilaterais sobre a Palestina, pressionou outros países a se posicionarem, reforçando a relevância da diplomacia brasileira como voz de mediação e equilíbrio no sistema internacional.
Assim, a defesa do reconhecimento da Palestina feita por Lula não apenas reafirma a tradição do Itamaraty de apoiar soluções de paz negociadas, mas também contribui para a projeção do Brasil como ator global comprometido com justiça social, desenvolvimento e cooperação internacional.
AGNU80: Uma Agenda para o Futuro
Em meio a um cenário marcado por adversidades, a 80ª sessão da Assembleia Geral da ONU contou com importantes posicionamentos oficiais de líderes mundiais, os quais abordaram questões de extrema relevância para o tabuleiro geopolítico. Dentre os discursos enunciados, alguns deles se destacaram por seus fortes apelos ao multilateralismo e mesmo por condenações feitas contra atos considerados tirânicos.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, usou de falas anti-imperialistas para condenar os atos proferidos pelos EUA à região do Caribe. No início do mês de setembro, em uma ofensiva contra o regime venezuelano de Nicolás Maduro, o governo de Donald Trump lançou um míssil em um barco que estaria transportando drogas da região caribenha à costa americana, deixando em torno de 15 mortos. Trump alegou que os ataques aéreos teriam sido uma defesa aos EUA e que fariam parte de uma ofensiva contra gangues como o Tren de Aragua e o Cartel de Soles.
Por sua vez, Petro afirmou que o presidente americano estaria proferindo “atos tirânicos” ao atacar, sem provas concretas, embarcações que levavam jovens, os quais estariam “apenas tentando escapar da pobreza”. Nesse sentido, especialistas passaram a questionar se os ataques proferidos em águas internacionais teriam sido não apenas ilegais, como também violações graves de direitos humanos.

Diante disso, Petro reforçou perante a Assembleia Geral que o princípio de proporcionalidade da força havia sido violado, e que Donald Trump deveria enfrentar processos criminais pelo ocorrido. Paralelamente, em seu discurso, Petro reforçou sua aversão à política antidrogas imperialista americana e demonstrou seu apoio à população palestina, condenando o genocidio perpetrado por Israel. O líder colombiano já havia cortado relações diplomáticas com a nação israelense e reduzido exportações para o país desde sua ofensiva à Faixa de Gaza, e ordenou, recentemente, a abertura de uma embaixada colombiana na cidade palestina de Ramallah, na Cisjordânia.
“A política antidrogas não é feita para deter a cocaína que chega aos Estados Unidos. A política antidrogas serve para dominar os povos do Sul como um todo.” Gustavo Petro
O reconhecimento da Palestina como um Estado foi pauta de vários outros discursos na Assembleia. Em agosto deste ano, a ONU já havia reconhecido oficialmente a crise de fome imposta por Israel aos habitantes da Faixa de Gaza, após já ter reconhecido a Palestina como Estado observador das Nações Unidas em 2012. Nessa sessão da AGNU, países como o Canadá, Austrália, França, Portugal e Reino Unido, reconheceram oficialmente o Estado Palestino. O reconhecimento britânico e canadense foi especialmente simbólico, já que foram as duas primeiras nações do G7 a formalizarem a medida. Tais movimentos aumentaram a lista de países que reconhecem o Estado palestino oficialmente para cera de 150 dos 193 Estados membros da ONU.
Leia mais sobre em A escassez como arma em Gaza.

Dessa forma, sob uma agenda pautada com um olhar para o futuro, a Assembleia Geral abordou temas relevantes da atualidade e formalizou debates e discussões entre nações. Em meio ao caos do mundo exterior, os líderes foram capazes de discursar de forma diplomática, mas não menos assertiva sobre suas respectivas posições no tabuleiro geopolítico. Tal conjuntura não necessariamente indica um afrouxamento das relações internacionais, mas sim uma previsão para mudanças significativas que podem estar por vir.
Referências
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c33rp0klerzo
https://news.un.org/pt/events/unga80
https://docs.un.org/en/A/80/150
https://www.un.org/en/delegate/annalena-baerbock-elected-president-80th-general-assembly
Share this content:


