Edição #14 Newsletter Globalidades – Ditaduras Latino-americanas
Bem-vindo(a) à Nossa Décima Quinta Edição da Newsletter!
O LAI Bertha Lutz preparou uma newsletter para você se manter informado sobre os principais temas que podem cair em seu vestibular. A cada mês enviaremos um e-mail com as principais notícias do período, um aprofundamento de um macrotema que pode aparecer em questões e temas de redação, e, para finalizar, algumas questões de prova resolvidas para te ajudar a estudar! O tema desta edição é “Ditaduras Latino-americanas”, muito importante para entender o cenário geopolítico atual.

Notícias do Mês de Outubro
Zohran Mamdani é o novo prefeito de Nova Iorque
No último dia 4 de novembro de 2025, Zohran Mamdani foi eleito prefeito de Nova York e tornou-se o primeiro muçulmano a ocupar o posto na maior cidade dos Estados Unidos. Em uma eleição marcada por alta participação popular e forte polarização, Mamdani venceu o pleito municipal com mais de dois milhões de votos e e impôs uma derrota simbólica ao presidente Donald Trump, que havia se posicionado contra sua candidatura. Filho de imigrantes africanos e indianos, o novo prefeito nasceu em Uganda e se mudou para os Estados Unidos aos sete anos de idade, onde construiu sua trajetória política no distrito do Queens, em Nova Iorque. A vitória de sua campanha, pautada por propostas progressistas e defesa de direitos sociais, foi celebrada como um contraponto ao avanço da extrema-direita nos EUA.
Em seu primeiro discurso, Mamdani destacou sua identidade como “jovem, muçulmano e democrata socialista”, afirmando que não se desculpará por nenhuma dessas características. Analistas políticos apontam que sua ascensão pode provocar uma reconfiguração nas estratégias dos partidos Democrata e Republicano, sinalizando uma abertura para lideranças mais à esquerda no cenário nacional: jornais como o The New York Times e o The Wall Street Journal ressaltaram a ascensão meteórica de Mamdani, sobretudo no uso estratégico das redes sociais e da comunicação com o público jovem por sua campanha.

Operação no Rio de Janeiro deixa mais 120 mortos e é a mais letal da história do estado
No dia 28 de outubro, uma megaoperação envolvendo cerca de 2.500 policiais civis e militares foi realizada no Rio de Janeiro e teve como alvo integrantes do Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão, objetivando conter a expansão da facção. Até o momento, foram confirmadas 113 prisões e 121 mortes, o que tornou a operação a mais letal da história do estado. Imagens e vídeos mostraram uma “zona de guerra” nas comunidades.
Nesse sentido, a ação foi um marco na discussão sobre segurança pública em todo o país e levantou questionamentos acerca de sua realização. Por um lado, o governo estadual e as forças de segurança defenderam a necessidade e o sucesso da operação e, de acordo com o governador do RJ, Cláudio Castro (PL), as mortes seriam uma consequência do uso “desproporcional da força” pelos traficantes. Em outra perspectiva, grupos de direitos humanos e alguns representantes políticos apontaram a ação como “chacina” e criticaram o uso de violência excessiva, exigindo esclarecimentos sobre as mortes e iniciando um debate sobre a efetividade de abordagens como essa para a segurança pública.
Politicamente, a megaoperação também mobilizou a discussão acerca da necessidade da aprovação da PEC da Segurança Pública, que articula uma atuação integrada entre estados e o governo federal. Além disso, o governador Cláudio Castro anunciou o lançamento de um consórcio interestadual de segurança pública com governadores aliados. Por sua vez, o Governo Federal, após reunião do presidente com ministros e autoridades federais, anunciou a criação de um escritório de emergência de combate ao crime organizado no Rio de Janeiro.

Eleições legislativas na Argentina
No dia 26 de outubro, os argentinos foram às urnas para votarem nas eleições legislativas do país, renovando 127 cadeiras das 257 da Câmara dos Deputados da Argentina e um terço do Senado. A eleição era vista como um referendo do governo de Javier Milei e da implementação da sua política econômica neoliberal para enfrentar o cenário extremamente inflacionário do país que, por mais que tenha reduzido consideravelmente as taxas mensais de inflação, afetou significativamente a população mais pobre com cortes em subsídios, seguridade social, repasses para as províncias e investimentos estatais em áreas como saúde, educação e ciência e tecnologia.
Além disso, a crise cambial e o recente caso de corrupção envolvendo a irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, Karina Milei, em um suposto esquema de repasse de verbas da Agência Nacional para a Deficiência em que ela seria uma das beneficiárias abalou a popularidade de Milei e aumentou a percepção do público e dos agentes econômicos de que as eleições não trariam bons resultados para a coalizão legislativa do presidente, causando um temor nos mercados de que as suas reformas econômicas seriam barradas pelo Congresso Nacional.
A votação se encerrou com baixa participação dos eleitores e, de forma surpreendente, resultou em ótimos resultados para o partido do líder do Executivo, La Libertad Avanza, que conquistou 64 dos 127 assentos em disputa da Câmara e 13 das 24 cadeiras do Senado. Com a sua vitória nas eleições legislativas, a coalizão do presidente poderá barrar a derrubada de vetos presidenciais a projetos de lei e dar prosseguimento às suas reformas econômicas.

Eleições na Bolívia
Em 19 de outubro, ocorreu um inédito segundo turno nas eleições presidenciais da Bolívia, em que o senador centrista Rodrigo Paz (Partido Democrata Cristão) derrotou o conservador Tuto Quiroga (Libre), marcando o fim do domínio quase ininterrupto de 20 anos na presidência do país do partido político esquerdista MAS (Movimento ao Socialismo), liderado pelo ex-presidente Evo Morales.
Antes um aliado, o atual presidente Luis Arce foi expulso do partido MAS devido aos seus desentendimentos com Evo Morales. Em adição às disputas internas do partido, a Bolívia enfrenta a sua pior crise econômica em 40 anos, marcada por crises de desabastecimento de combustível, altas taxas de inflação e uma crise cambial causada pela falta de dólares, fazendo com que a esquerda perdesse apoio popular após quase duas décadas de bonança econômica revertida em programas de redistribuição de renda possibilitados pelo boom das *commodities* e a seguinte **estatização da exploração de petróleo, gás natural e minerais.
O presidente eleito Rodrigo Paz defendeu a descentralização do governo, a promoção do crescimento do setor privado a partir da redução da burocracia e dos impostos, além de defender um ajuste fiscal, mantendo programas sociais no que ele nomeou como “Capitalismo Para Todos”, um plano para enfrentar a crise econômica do país sem aumentar a pobreza. Já no âmbito internacional, busca o fomento do multilateralismo para “reposicionar o país no cenário global”, desejando uma aproximação com os Estados Unidos. Em relação ao Brasil, o presidente afirmou que, mesmo discordando do governo Lula (PT), pretende fortalecer as relações entre os dois países e também propôs uma maior cooperação econômica com projetos de infraestrutura conjuntos, mantendo a participação da Bolívia no Mercosul e nos Brics.

Primeira mulher é eleita para o cargo de primeira ministra no Japão
Sanae Takaichi foi eleita primeira ministra do Japão no dia 21 de outubro, tornando-se a primeira mulher eleita para o cargo na história do país. A mulher de 64 anos venceu com clara maioria – 237 votos na câmara dos representantes e 125 na câmara dos conselheiros – como líder do partido vigente Partido liberal democrático (LDP).
Defensora de políticas conservadoras e uma admiradora de Margaret Thatcher, ex -primeira-ministra do Reino Unido, a política assume em um momento complicado na economia japonesa, com custos e vida cada vez mais altos e uma sociedade “workaholic” cada vez mais frustrada.
Nos últimos anos, o japão tem enfrentado muitas incertezas. A quarta maior economia, baseada principalmente na indústria tecnológica, ela é a quarta pessoa no cargo em apenas 5 anos, após seus antecessores terem deixado o posto devido a escândalos e péssimas avaliações nas pesquisas.
Apesar de ter vencido de quatro homens do partido na disputa pelo cargo, seu caminho até a vitória foi turbulento, tendo perdido apoio de membros do próprio partido e ganhando suporte de membros da oposição.
Ao assumir, Takaichi tera alguns desafios que precisará enfrentar no cargo. Dentre eles, estão a queda de natalidade que cresce cada vez mais no país, uma vez que as mulheres se sentem cada vez menos respaldadas pelo estado e cada vez mais necessidade de trabalhar para conseguir um futuro estável no país. Para muitas japonesas, o casamento não é nem um pouco atrativo, devido a cultura opressora do país.
Outro desafio é o momento da política externa japonesa. A Coreia do Sul, nos últimos anos, tem visto um crescente sentimento revisionista da história entre os dois países, vindos principalmente de alas a direita coreano, inclinadas ao nacionalismo. Além disso, há uma posição vigilante em relação à cada vez mais poderosa China.

Macrotema: Ditaduras Latino-americanas
Introdução
Durante a segunda metade do século XX, a América Latina foi palco de uma sucessão de golpes de Estado que derrubaram regimes democráticos e instauraram ditaduras militares repressivas, como ocorreu no Brasil em 1964, na Argentina em 1966 e no Chile em 1973. Apesar dos processos de redemocratização que se consolidaram no final do século, esse período autoritário ainda produz fortes repercussões nos dias atuais, refletidas na erosão democrática, no avanço da desinformação e em um revisionismo histórico que tenta relativizar os crimes cometidos pelas ditaduras.
Paralelamente, o mundo enfrenta uma crise nas democracias liberais, fenômeno que também se manifesta na América Latina com o surgimento de uma nova onda de autocracias eleitorais, governos que chegam ao poder pelo voto, mas enfraquecem gradualmente as instituições democráticas. Esses regimes buscam concentrar poder controlando a mídia, restringindo o Judiciário e acentuando a polarização política e social.
Compreender a crise democrática atual exige, portanto, revisitar o passado e analisar como as ditaduras latino-americanas se formaram, se sustentaram e moldaram a vida política da região. A partir dos casos do Brasil, da Argentina e do Chile, esta edição da newsletter investiga as origens desses regimes, seus mecanismos de poder e as marcas profundas que deixaram nas sociedades latino-americanas.
Contexto Histórico
A ascensão dos militares ao poder na América Latina está intimamente ligada ao contexto histórico em que o mundo vivia: a Guerra Fria, momento em que o mundo estava dividido em dois blocos ideológicos – o capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o socialista, liderado pela União Soviética. Os Estados Unidos, que viam a América Latina como seu “quintal estratégico”, temiam que governos de esquerda, inspirados pela Revolução Cubana (1959), se aproximassem do bloco socialista, o que, na visão norte-americana, colocaria a segurança nacional do país em perigo, em destaque devido à proximidade geográfica de ambos os países.
Dessa forma, por meio da Doutrina de Segurança Nacional, os Estados Unidos passaram a apoiar politicamente, financeiramente e militarmente golpes de Estado e regimes antisocialistas na região. Esse respaldo internacional, aliado à conjuntura de crises econômicas e à desigualdade social extrema, serviu como um forte incentivo para que militares que se opunham aos governos de esquerda, em países como Argentina, Brasil e Chile, derrubassem presidentes democraticamente eleitos e assumissem o poder. Nesse sentido, a CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, foi sistematicamente utilizada para gerar instabilidade política e social, e criar um clima ideal para golpes de Estado.
Brasil
A ditadura militar no Brasil teve início com o golpe de 1964, quando oficiais do exército tomaram o poder após a deposição do então presidente João Goulart. A razão por trás desse ato previsto como “passageiro” era a contenção da “ameaça comunista” e o desejo de restabelecer a ordem no país, as mesmas razões por trás da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, manifestação aproveitada pelos militares para legitimar o golpe.
No mesmo ano começaram a ser outorgados os Atos Institucionais (AIs), normas de caráter repressivo que se sobrepunham à própria Constituição, dentre eles a cassação de mandatos de opositores e a instauração do bipartidarismo: o partido governista Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o partido de oposição Movimento Democrático Brasileiro (MDB). O prolongamento da duração da intervenção militar fez com que as críticas ao regime militar crescessem e levassem à movimentos estudantis de oposição em 1968, como a Batalha da Rua Maria Antônia e a Marcha dos 100 mil, a qual foi fortemente reprimida.
Essa repressão fez com que o deputado Márcio Moreira Mendes (MDB) fosse à público denunciar a ditadura, no entanto, os resultados foram ainda piores. Em dezembro de 1968 foi publicado o AI-5, o mais rigoroso ato institucional, que suspendia direitos individuais, proibia manifestações populares de caráter político e impunha a censura à imprensa e à arte, inaugurando os “anos de chumbo” sob a presidência do General Médici. Esse foi o período de maior repressão, com exorbitante número de pessoas presas, torturadas e exiladas pelo regime militar.
Apesar da grave censura do momento, movimentos culturais de resistência tiveram grande importância na luta contra a ditadura. Canções de protesto como as de Chico Buarque e Geraldo Vandré, o Tropicalismo e o Cinema Novo foram essenciais para fortalecer a oposição no combate ao regime repressor.
A situação começou a mudar em 1974, sob o governo de Geisel, com a promessa de abertura política. As principais razões para a distensão foram o crescimento da oposição e a decadência do que se chamava “milagre econômico”. No entanto, esta seria “lenta, gradual e segura”, totalmente controlada pelos militares. Nesse contexto o AI-5 é revogado, no entanto, há o falso suicídio do jornalista Vladmir Herzog, caso em que houve o assassinato do mesmo.
No mandato de Figueiredo se inicia a campanha pela anistia “ampla, geral e irrestrita”. Assim é criada a Lei da Anistia, medida contraditória já que apenas os apoiadores do governo tiveram perdão incondicional. Também ocorreram as manifestações das “Diretas Já”, que apesar de não conquistarem seu objetivo principal, abriram caminho para que fosse eleito indiretamente Tancredo Neves, presidente civil. Dessa forma, termina a ditadura e se inicia a redemocratização no Brasil.
Argentina
O regime instituído em 1966 era auto denominado “Revolução Argentina” e tinha uma ideologia muito similar ao governo ditatorial do Brasil, tendo se inspirado pelo golpe de 64. Além disso, possuía um grande foco na construção da família e dos valores do Estado, salvando a pátria da ameaça comunista de corromper a Argentina. Porém, esse governo autoritário fracassou rapidamente, sendo deposto em 1970, com Perón voltando ao poder em 1973.
Com a morte de Perón em 1974 e as subsequentes crises econômicas, criou-se um ambiente favorável ao retorno dos militares, que em 1976 voltaram ao poder com uma junta militar que duraria até 1983. Esse governo também tinha forte viés conservador, autoritário e de ideologia de proteção contra a ameaça comunista, se portando como o regime que traria ordem e orgulho de volta à Argentina. A junta militar foi fortemente marcada pela sua violência e repressão a grupos guerrilheiros, estudantis, ativistas, intelectuais etc, o que marcou o período como a “Guerra Suja”. Foram criados mais de 364 campos de concentração e centros de detenção e tortura, responsáveis pelos mais de 30 mil mortos e desaparecidos durante a ditadura argentina.
Dentre os movimentos ativistas se destacam as “Madres de la Plaza de Mayo”, movimento em que as mães de vítimas de sequestro iam à Praça de Maio, local em frente a Casa Rosada, sede do governo argentino em Buenos Aires, protestar pelo desaparecimento de seus filhos. Analogamente, o movimento “As Avós da Praça de Mayo” também se tornou popular, dessa vez sendo caracterizado pelo protesto pelos netos de diversas mulheres que tiveram suas filhas sequestradas e levadas para centros de detenção enquanto grávidas, de forma que seus filhos, netos das protestantes, eram entregues para famílias de repressores e associados a junta militar.
A grave crise econômica passada na Argentina, somada às denúncias de violação de direitos humanos e o fracasso na campanha pelas Malvinas fez com que a junta militar se desfizesse, de forma que em setembro de 1983 foram estabelecidas eleições gerais para a Presidência. Após o fim da ditadura, a lei da anistia foi anulada e diversos militares foram julgados e condenados pelos seus crimes e violações dos direitos humanos pela CONADEP (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas).
Chile
Já no Chile, o governo ditatorial (1973-1990) de Augusto Pinochet se caracteriza pela ocorrência de inúmeras violações de Direitos Humanos e pela violência contra opositores do governo, Mas, antes de se aprofundar mais, precisamos analisar seu contexto.
Em 1970, o socialista Salvador Allende foi democraticamente eleito presidente do Chile, pretendendo adotar medidas nacionalistas e populares. Allende contava com o apoio de Cuba e da URSS, que, no contexto da Guerra fria, buscavam um aliado na América do Sul. Os EUA, apoiavam Eduardo Frei Montalva, ex-presidente do Chile, que não podia se reeleger.
Apesar de ter ganhos sociais e econômicos com seus projetos de governo, Allende passou por um período de inflação e pressão econômica dos EUA. Com a soma de tais fatores, em 11 de setembro de 1973 e com o apoio dos Estados Unidos, as Forças Armadas depuseram Allende através de um golpe militar, levando Pinochet ao poder.
O novo governo ditatorial chileno, concretizado a partir da substituição do Congresso Nacional pela Junta Militar promoveu exílios, torturas e assassinatos contra sua população, além da censura e do culto da personalidade do ditador. Dessa forma, houve 30 mil mortos na primeira semana e 200 mil exilados, enquanto em relação ás questões econômicas, o governo adotou uma “política de choque” para reverter a crise anterior, convocando a ajuda de economistas apelidados como “Chicago Boys”, os quais implementaram um modelo liberal que foi responsável por um corte de gastos públicos, o qual envolveu uma demissão em massa de funcionários do Estado. Após um desaceleramento intenso da economia, as política públicas mencionadas acima produziram resultados a partir de 1977, quando se deu início ao “boom” ou “milagre chileno”, o qual também produziu um alto custo social, de forma que até o fim da ditadura, mais de 40% da população vivia em pobreza, representando 20% a mais do que antes do golpe.
Em 1988, com o quase fim da Guerra Fria e a pressão internacional para o fim da ditadura, um plebiscito marca o fim do governo ditatorial de Pinochet.
“Ditaduras” da Atualidade
Após compreender melhor as ditaduras militares do século XX, é possível perceber que vários países latino-americanos vivem hoje novas experiências autoritárias que lembram, ainda que de outra forma, esses períodos de ruptura democrática. Em vez de tanques nas ruas ou golpes militares, muitos governos atuais seguem um caminho mais sutil de erosão democrática: o legalismo autocrático.
Esse fenômeno acontece quando líderes eleitos democraticamente usam as próprias regras e leis do sistema para enfraquecer a democracia por dentro. Ou seja, eles não rompem com a Constituição de maneira explícita, mas vão mudando leis, atacando instituições de controle e concentrando poder aos poucos, sempre afirmando que “estão seguindo a legalidade” e que têm apoio popular. Por isso, continuam mantendo a aparência de democratas, mesmo enquanto desmontam mecanismos que protegem a liberdade e limitam o poder individual.
O legalista autocrático pode ser identificado quando começa a atacar o Judiciário, o sistema eleitoral, a imprensa e outras instituições que servem para fiscalizar o governo. Para se proteger, ele costuma reforçar a ideia de que autoritarismo só acontece como nas ditaduras antigas, com censura aberta, militares no poder e um ditador clássico, criando a sensação de que qualquer coisa diferente disso ainda seria “democracia”.
No Brasil, o exemplo mais conhecido é o do ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante seu governo e especialmente após perder a reeleição, ele colocou em dúvida o sistema de urnas eletrônicas e atacou o TSE sem apresentar provas. Além disso, usou grupos de WhatsApp, Telegram e outras redes sociais para espalhar desinformação, manipular narrativas e pressionar instituições democráticas. Mesmo assim, sempre dizia estar “defendendo a Constituição” e a “vontade do povo”.
Mas esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Outros países da região enfrentam situações parecidas, como El Salvador com o presidente Nayib Bukele, que, apesar de muito popular, demitiu juízes da Suprema Corte, mudou regras de reeleição e ampliou seus próprios poderes, sempre alegando que age “pela segurança do povo”. Em determinado momento, ele invadiu com militares o congresso e se sentou na cadeira do presidente da assembleia para pressionar os legisladores a aprovar um projeto de lei do governo.
Esses exemplos mostram que, hoje, democracias podem ser ameaçadas de forma muito mais silenciosa e lenta do que no passado. O legalismo autocrático ajuda a entender como líderes modernos conseguem minar instituições usando justamente as ferramentas legais que deveriam protegê-las. Ao olhar para a América Latina, fica claro que ataques ao sistema eleitoral, pressões sobre a mídia e uso estratégico das redes sociais para espalhar desinformação são sinais importantes desse tipo de erosão democrática.
Questões de vestibulares
(UFPR 2024)
“O golpe militar contra o governo de Salvador Allende no fatídico dia 11 de setembro de 1973foi provavelmente o mais brutal de todos nas ações para consolidar seu êxito. Nos primeirosdias após o bombardeio do palácio La Moneda, milhares de pessoas foram levadas ao EstádioNacional, em Santiago do Chile, submetidas a interrogatórios, surras e toda sorte dearbitrariedade. Cerca de mil detidos foram sumariamente executados. Os direitos civis foramsuspensos e a população devia obedecer ao toque de recolher, enquanto casas eram invadidase os suspeitos de contrariar a nova ordem, levados na calada da noite. Muitas vezes para nuncamais voltar.”
Entre junho e setembro de 1973, Uruguai e Chile tiveram a derrubada de governos democráticos levada a cabo por ditaduras militares. Esses movimentos foram apenas dois dos vários que ocorreram nos anos 1950, 1960 e 1970 na América Latina.
Com base no trecho acima e nos conhecimentos sobre História Contemporânea, assinale a alternativa correta.
a) A brutalidade do golpe militar no Chile criou aguerridos movimentos de resistência quereverberaram por toda a América Latina, inspirando a ditadura brasileira a decretar o AtoInstitucional n.º5.
b) O golpe militar contra Salvador Allende foi motivado tanto pelo anticomunismo vigente noperíodo quanto pelas intenções do líder chileno de instaurar uma economia neoliberal.
c) O autoritarismo nacionalista da ditadura chilena colocou o país em conflito direto com oReino Unido, tendo como consequência a Guerra das Malvinas.
d) Os altos níveis de perseguição e violência da ditadura de Augusto Pinochet causaram odistanciamento de outros governos autoritários da região.
e) O serviço de inteligência do Chile, juntamente com outros países do Cone Sul, esteve envolvido no mecanismo de repressão política conhecido como Operação Condor.

(UNESP 2024)
Analise a imagem e leia o excerto.

Há 40 anos, as primeiras Mães da Praça de Maio – como só ficariam conhecidas depois – saíram a reclamar a reaparição, com vida, de seus filhos sequestrados. Naquele já distante 30 de abril de 1977, elas compunham um grupo de apenas 14.
Depois de perguntar inutilmente pelos jovens em delegacias, repartições do Estado, igrejas, hospitais e de pedir ajuda, inutilmente, aos grandes jornais e meios televisivos, elas decidiram que marchariam todas as quintas-feiras, às 15h30, com panos brancos envolvendo a cabeça, diante da Casa Rosada – sede do governo argentino.
O fato de serem logo identificadas como “as Loucas da Praça de Maio” diz muito não apenas sobre o machismo da sociedade argentina daquele tempo, mas também sobre o alto teor de cumplicidade, medo ou covardia de grande parte dos argentinos diante de um problema que ia-se fazendo cada vez mais presente: dia após dia corriam boca a boca novas histórias de pessoas que iam sendo sequestradas pelos agentes da repressão da ditadura militar (1976-1983).
Neste aniversário de 40 anos da luta das Mães, vale lembrar esse detalhe que parece uma piada de mau gosto: o fato de terem sido chamadas de “loucas” por um bom tempo. Essa lúgubre anedota é sinal de que essas mulheres não sofreram apenas a perda dos filhos, mas também o preconceito e o menosprezo por parte de muitos. Nos dias de hoje, em que voltaram a surgir vozes que questionam o número de mortos e que tentam minimizar os horrores do regime, parece que esse adjetivo pejorativo de 40 anos atrás volta a ganharvida.
(Sylvia Colombo. “No começo, eram as Loucas da Praça de Maio”,30.04.2017.www.folha.uol.com.br.)
a) Identifique, no excerto, o objetivo do movimento das “Mães da Praça de Maio” e uma reação de parte da sociedade aos protestos por elas realizados.
b) Contextualize a situação política dominante no Cone Sul da América nos anos 1970 e indique um acontecimento essencial para a mudança política na Argentina no início dos anos 1980.

(ENEM PPL 2023)
Nos governos de Vargas e Perón, o esporte começou a ser visto como um importante elemento na relação entre o regime e a sociedade. Tal fato não deve ser entendido apenas como uma resposta à crescente popularidade do esporte. Ainda que crescente em seus governos, a massificação do esporte já havia ocorrido muito antes. Talvez a influência dos regimes de Mussolini e Hitler sobre os dois governantes latino-americanos possa apontar para um melhor entendimento dessa nova visão política, uma vez que ambos tiveram uma estreita ligação com o esporte e a sua utilização como propaganda política.
DRUMOND, M. Vargas, Perón e o esporte. Revista Estudos Históricos, n. 44, jul.-dez. 2009.
De acordo com o texto, o uso do esporte nos regimes políticos mencionados foi explorado com o objetivo de
a) construção de identidades nacionais.
b) reprodução de poderes autocráticos.
c) celebração de festividades cívicas.
d) formação de cidadãos saudáveis.
e) contestação de símbolos pátrios.

(Ufjf-pism 3 2022)

A respeito da Operação Condor, podemos afirmar que:
a) Promoveu uma maior integração regional através de alianças políticas em defesa da redemocratização no Cone Sul.
b) Contribuiu para a formação de alianças em torno da legalização do comércio de tecnologia militar no contexto das ditaduras no Cone Sul.
c) Fortaleceu os laços diplomáticos entre as repúblicas do Cone Sul para a futura instalação do Mercosul, nos anos 1990, com foco em transferência de tecnologia militar.
d) Flexibilizou as fronteiras dos Estados nacionais envolvidos com base na doutrina de segurança nacional contra atividades consideradas subversivas pelos regimes militares em vigor.
e) Reduziu os atos de violência cometidos pelos órgãos repressores ao longo dos anos 1970 nos países do Cone Sul.
Gabarito
Resposta da questão 1: [E]
O serviço de inteligência do Chile, juntamente com outros países do Cone Sul, esteve envolvido no mecanismo de repressão política conhecido como Operação Condor.

Resposta da questão 2:
a) Segundo o excerto, as Mães da Praça de Maio tinham como objetivo exigir a reaparição, com vida, de seus filhos sequestrados. Diante do silêncio das autoridades, que não forneceram as respostas esperadas, essas mulheres iniciaram marchas semanais próximas à Casa Rosada, sede do governo argentino. No entanto, a resposta da sociedade a esses protestos foi hostil e marcada por um notável machismo, rotulando-as pejorativamente como “as Loucas da Praça de Maio”. Esse estigma evidencia a resistência e a rejeição sociais em relação às legítimas reivindicações das Mães da Praça de Maio, que buscavam justiça e esclarecimentos sobre o paradeiro de seus filhos desaparecidos.
b) Na década de 1970, a realidade política predominante no Cone Sul da América era marcada pela existência e ascensão das Ditaduras Militares, instauradas com a anuência política dos Estados Unidos. Esses regimes autoritários, baseados na Doutrina de Segurança Nacional, estabeleceram um cenário político caracterizado por repressão, censura e violações dos direitos humanos em países como Brasil, Chile e Argentina. A cooperação entre esses governos era evidente e visava, principalmente, criar uma rede para reprimir movimentos considerados subversivos, ignorando flagrantemente os direitos humanos e as liberdades individuais.
No contexto específico da Argentina, um evento crucial para a mudança política ocorreu no início dos anos 1980: a Guerra das Malvinas. Desencadeado em 1982, este conflito, travado entre Argentina e Reino Unido pela posse das ilhas Malvinas, teve implicações profundas na economia e no governo militar argentino. A derrota neste embate foi diretamente associada ao declínio do regime militar então vigente, uma vez que não apenas minou a legitimidade do governo perante a população, mas também exacerbou as tensões internas politicamente, contribuindo para enfraquecer o poder militar e abrir caminho para o retorno à democracia.
Resposta da questão 3: [A]
Construção de identidades nacionais.

Resposta da questão 4: [D]
Flexibilizou as fronteiras dos Estados nacionais envolvidos com base na doutrina de segurança nacional contra atividades consideradas subversivas pelos regimes militares em vigor.

Fontes
COLLIER, David (org.). The New Authoritarianism in Latin America. Princeton: Princeton University Press, 1979.
COMISIÓN NACIONAL SOBRE LA DESAPARICIÓN DE PERSONAS (CONADEP). Nunca Más. Buenos Aires: Eudeba, 1984.
DINGES, John. Operação Condor: uma década de terrorismo internacional no Cone Sul. Rio de Janeiro: Record, 2005.
FICO, Carlos. O grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
GASPARI, Elio. A ditadura derrotada. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
KIM LANE SCHEPPELE. Autocratic Legalism. The University of Chicago Law Review, v. 85, n. 2, p. 545–583, 2018.
LEVITSKY, Steven; WAY, Lucan. Competitive Authoritarianism: hybrid regimes after the Cold War. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
SKIDMORE, Thomas; SMITH, Peter; GREEN, James. Brasil: de Getúlio a Lula. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010.
SCHEDLER, Andreas. The Politics of Uncertainty: sustaining and subverting electoral authoritarianism. Oxford: Oxford University Press, 2013.
WAISBORD, Silvio. Communication: a post-discipline. Cambridge: Polity Press, 2019.
BRADSHAW, Samantha; HOWARD, Philip N. The Global Disinformation Order: 2019 Global Inventory of Organised Social Media Manipulation. Oxford: Oxford Internet Institute, 2019.
WINN, Peter (org.). Victims of the Chilean Miracle: workers and neoliberalism in the Pinochet era, 1973–2002. Durham: Duke University Press, 2004.
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