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A Reconstrução da Política Externa da República Popular da China

A Reconstrução da Política Externa da República Popular da China

Por Levi Cezar

A política externa da República Popular da China não pode ser compreendida apenas como produto da Guerra Fria, da ascensão econômica recente ou das transformações do sistema internacional nas últimas décadas. Sua formação está profundamente vinculada a uma experiência histórica de vulnerabilidade, fragmentação e subordinação externa que, na narrativa política chinesa, ficou conhecida como o “século das humilhações”. Mais do que uma lembrança do passado, essa experiência tornou-se um elemento estruturante da forma pela qual o Estado chinês passou a conceber soberania, segurança, reconhecimento e projeção internacional.

Nesse sentido, a República Popular da China foi fundada em 1949 como resultado da vitória comunista da Guerra Civil Chinesa, a qual se insere num processo revolucionário mais amplo. Esse processo não apenas consolidou a estrutura da política interna, mas, também, representou uma resposta histórica para o período anterior caracterizado como “século da humilhação”. A construção da política externa chinesa, portanto, esteve, desde o início, associada a um objetivo central: superar a vulnerabilidade histórica do país e restabelecer sua condição de ator soberano e reconhecido. 

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Cerimônia de hasteamento da bandeira realizada no Memorial das Vítimas do Massacre de Nanjing, 2024. Fonte: Xinhua.

Humilhação e Reconhecimento no Sistema Internacional

Para Leandro Conde, Doutor em Ciência Política, em Humilhação e reconhecimento: Brasil e China em busca de status internacional, “a humilhação pode ser tanto um ataque à dignidade humana contra um indivíduo quanto a uma nação inteira […]”. Neste sentido, a humilhação nas relações internacionais refere-se a um fenômeno político e social vinculado à posição relativa de um Estado no sistema internacional, estando profundamente associada à negação de reconhecimento, à assimetria de poder e à marginalização de seu status internacional. 

Essa condição, à luz de Kenneth Waltz, pode ser compreendida a partir da forma como o sistema internacional se organiza, caracterizado pela anarquia e pela distribuição desigual de capacidades entre os Estados. Nesse contexto, situações de humilhação internacional tendem a emergir quando determinados Estados, situados em posições de menor poder relativo, são submetidos à imposição de interesses por parte de potências mais fortes, tendo sua autonomia e seu reconhecimento limitados.

Diante disso, o status de reconhecimento na política internacional refere-se à posição que um Estado ocupa no sistema internacional, não apenas por suas capacidades materiais, mas, por validação, por parte dos demais Estados, de suas reivindicações de legitimidade, de autoridade e, principalmente, de soberania. Ou seja, o reconhecimento nas relações internacionais não decorre exclusivamente de autodeterminação, mas de um processo relacional de aceitação dos demais atores. Importa destacar que esse processo não se restringe à formação histórica dos Estados-nação, permanecendo um elemento ativo na política internacional contemporânea, em que disputas por legitimidade e status continuam em curso.  No caso chinês, a questão do reconhecimento esteve diretamente associada à experiência de perda de autonomia diante das potências estrangeiras e à posterior tentativa de reconstrução de status. 

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12º Dia Nacional da Memória em Nanquim, 2025. Fonte: Xinhua/Li Bo 

O Século das Humilhações

O chamado “século das humilhações” chinesa tem início, de forma geral, com a Primeira Guerra do Ópio, ocorrida no século XIX durante a dinastia Qing, em conflito com os ingleses da Grã-Bretanha — os quais eram chamados de “bárbaros” pelos chineses . O estopim do conflito deu-se quando a corte celestial Qing decidiu erradicar a comercialização do ópio, amplamente promovida por mercadores ocidentais, o que desencadeou uma reação militar britânica. 

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Oficial Lin Zixu prendendo tabaqueiros em Guangdong, autor desconhecido. Fonte: The Opium War Museum.

O poderio inglês era tecnologicamente superior, especialmente ao que se refere à capacidade naval e de canhões. Ainda assim, a liderança chinesa acreditava que sua longínqua história de primazia, aliada à distância necessária para os ingleses transporem, resultaria numa escassez de alimentos periódicos e os soldados ficariam desencorajados. Porém, tal expectativa não se confirmou. Os navios conseguiram avançar sobre o território e bloquear os principais portos do Império. Como resultado, a Dinastia Qing se viu obrigada a firmar tratados como o de Nanquim (1842), que impôs condições consideradas humilhantes à China, incluindo indenizações, cessão de Hong Kong, abertura de portos ao comércio estrangeiro e concessão de direitos extraterritoriais. 

De 1856 à 1860, período em que ocorreu a Segunda Guerra do Ópio, se impôs uma humilhação ainda maior do que a anterior. A China foi forçada a ceder muito mais do que direitos comerciais. Com a convenção de Pequim (1860), em uma série de tratados, entregou direitos extraterritoriais de longo prazo aos estrangeiros. Kowloon e uma parte de Vale Yangtze ficaram sob influência do Reino Unido, além da presença francesa ampliada em Guangzhou e da Rússia na Manchúria e na Mongólia Exterior. Além disso, os estrangeiros não se submeteram às leis chinesas e a China precisou realizar compensações financeiras às potências e legalizar o comércio de ópio. Ainda, apesar desses eventos, a China era reconhecida como Estado soberano (tutelado). 

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Alfândega de Guangdong, desconhecido. Fonte: The Opium War Museum.

Ainda na dinastia Qing, somado à crise econômica, a capacidade de reagir às recentes crises — como a crise de fome, criminalidade e desemprego — eram mínimas. E, com um Estado debilitado, a China sofreu mais uma humilhação com a Primeira Guerra Sino-japonesa (1894–1895), encerrada com mais um tratado desigual que forçou a cessão sobre territórios estratégicos, como da Península de Liaodong, ilhas Penghu e Taiwan. 

Quatro anos após a Primeira Guerra Sino-Japonesa, em 1900, no contexto da Revolta dos Boxers, Pequim foi ocupada por forças estrangeiras da chamada Aliança das Oito Nações. Em 1901, a China foi novamente compelida a assinar um acordo considerado humilhante — o Protocolo dos Boxers — , que impôs pesadas indenizações a serem pagas ao longo de décadas, autorizou a presença militar estrangeira permanentemente em Pequim e em áreas estratégicas, bem como estabeleceu punições às autoridades chinesas envolvidas no levante.

Esse conjunto de imposições aprofundou a crise interna do Império Qing, intensificando disputas políticas e fragilizando ainda mais sua legitimidade. Paralelamente, reformas institucionais foram implementadas nos anos seguintes, como a reestruturação administrativa e o fim do sistema de exames imperiais, vigente desde o século VII. Tais transformações, somadas à instabilidade política crescente, contribuíram para o desencadeamento da Revolução Xinhai, em 1911, que culminou no fim da dinastia Qing.

Com o fim da Dinastia Qing, a China buscou organizar-se politicamente sob a forma republicana, na tentativa de se inserir no sistema internacional moderno enquanto Estado soberano. Nesse contexto, a recém-estabelecida República da China passou a participar das dinâmicas internacionais emergentes, incluindo a Liga das Nações. No entanto, a expectativa de reconhecimento internacional não se concretizou plenamente. Na Conferência de Versalhes, em 1919, a decisão de transferir territórios chineses, como de Shandong ao Japão, evidenciou a continuidade da negação de status à China no sistema internacional, reforçando a percepção de humilhação mesmo após o fim do regime imperial. Simultaneamente, o país mergulhou em conflitos internos durante a Guerra Civil Chinesa (1927-1949), que, no entanto, foi interrompida com o início da Segunda Guerra Sino-japonesa (1937–1945). A invasão japonesa só ganhou destaque internacional após os avanços do Japão no Pacífico. Apesar disto, o país avançou sobre o território chinês e capturaram a capital Nanjing, o que ficou conhecido como “Massacre de Nanjing”, resultando no assassinato de civis, estupros e incêndios.

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Cerimônia nacional em memória das vítimas do Massacre de Nanjing realizada no Memorial das Vítimas do Massacre de Nanjing, 2024. Fonte: Yang Bo.

Fim do Século das Humilhações e Consolidação da República Popular da China

Com a rendição dos japoneses na Segunda Guerra Mundial em 1945, a disputa pela centralização de poder na China foi retomada entre os nacionalistas e os comunistas. O conflito teve fim em 1949 com a vitória dos comunistas, com a liderança de Mao Zedong e com a fundação da República Popular da China. Por sua vez, os nacionalistas recuaram para Taiwan, onde estabeleceram um governo separado.

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Mao Zedong, 1939. Fonte: Ministry of Foreign Affairs People’s Republic of China.

Após a consolidação do poder pelo Partido Comunista Chinês em 1949, sob a liderança de Mao Zedong, a política externa da recém-criada República Popular da China passou a ser profundamente marcada pelo contexto da Guerra Fria e pela necessidade de garantir a sobrevivência do novo regime. Nesse primeiro momento, a China adotou uma orientação ideológica fortemente alinhada à União Soviética, buscando apoio econômico, militar e político para sua reconstrução interna e consolidação internacional.

Essa fase inicial caracterizou-se por uma política externa revolucionária expressa tanto no apoio a movimentos comunistas quanto na participação direta em conflitos, como a Guerra da Coreia (1950–1953). Conforme destaca Henry Kissinger, diplomata norte americano, em Sobre a China, o país buscava não apenas assegurar sua segurança, mas também afirmar seu papel dentro da ordem internacional emergente, ainda que em posição subordinada no bloco socialista.

Entretanto, reduzir a política externa chinesa desse período a um simples alinhamento ideológico seria insuficiente. Desde os anos 1950, a diplomacia da República Popular passou a enfatizar princípios de soberania, integridade territorial, não agressão, não interferência, igualdade e benefício mútuo, consolidados na formulação dos Cinco Princípios da Coexistência Pacífica. Esses princípios foram articulados entre 1953 e 1954 e se tornaram uma referência duradoura da diplomacia chinesa.

A importância desses princípios ultrapassava a retórica. Eles permitiam à China apresentar-se como um Estado revolucionário, mas também como defensor de uma ordem internacional fundada no respeito à soberania, especialmente entre países recentemente descolonizados. Esse movimento ganhou projeção na Conferência de Bandung, em 1955, que ajudou a ampliar os contatos diplomáticos da China com países afro-asiáticos e reforçou sua imagem como parceiro do mundo pós-colonial. 

A partir do final da década de 1950, o rompimento sino-soviético introduziu nova inflexão. Isolada em relação tanto ao bloco ocidental quanto ao soviético, a China aprofundou a busca por autonomia estratégica. A política externa passou, então, a ser guiada por um cálculo cada vez mais próprio, no qual a preservação da independência decisória ocupava lugar central. Nesse sentido, a defesa da soberania deixou de ser apenas reação ao passado imperialista e passou a constituir um princípio organizador da atuação internacional chinesa.

Na década de 1970, a política externa chinesa passou por uma inflexão significativa, marcada pela aproximação sino-americana e pela reinserção da China em organismos internacionais. Um marco desse processo foi a aprovação da Resolução 2758 da ONU, em 1971, que reconheceu a República Popular da China como representante legítima do país na organização. Esse movimento indicava a gradual transição de uma política externa fortemente orientada por critérios ideológicos para uma abordagem mais estratégica, pragmática e voltada à inserção internacional. Tal mudança se consolidaria no final da década de 1970, com as reformas lideradas por Deng Xiaoping, quando o desenvolvimento econômico e a ampliação da presença chinesa no sistema internacional passaram a ocupar posição central na diplomacia do país. 

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Delegação da República Popular da China na ONU, 1971. Fonte: United Nations.

Reformas, Pragmatismo e Inserção Internacional

Sob o inaugurado governo de Deng Xiaoping, a política externa chinesa foi reorientada em função do desenvolvimento econômico. A prioridade já não era a exportação da revolução, mas a criação de um ambiente internacional estável que permitisse modernização interna, atração de investimentos e ampliação das capacidades nacionais. A soberania continuou sendo um valor central, mas o método de sua preservação tornou-se mais pragmático e menos confrontacional.

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Deng Xiaoping no “The Great Hall of The People”, 1989. Fonte: Getty imagens.

Diante disso, um dos princípios centrais dessa política externa consistia em evitar assumir a de posições de liderança internacional, bem como não desafiar diretamente os Estados Unidos ou buscar a condição de potência hegemônica. Embora a China se organize sob um regime de orientação comunista —  descrito como um “socialismo com características chinesas” — , sua atuação externa difere da adotada pela União Soviética durante a Guerra Fria. 

Nesse novo contexto, emerge a estratégia conhecida como Tao Guang Yang Hui (韬光 养晦), “Keeping a Low Profile” (KLP). A interpretação da estratégia pode ser entendida como “ocultar capacidades e esperar o momento oportuno”. No debate doméstico, diferentes leituras foram mobilizadas para definir o alcance da estratégia. Nesse sentido, Xiong Guangkai, General chinês, propõe uma compreensão mais literal do conceito, enfatizando a ideia de “esconder o próprio brilho e fortalecer-se fora de vista”, o que reforça o caráter pragmático e defensivo da política externa chinesa nesse momento.

Mais do que simples moderação, essa estratégia expressava uma leitura específica do tempo internacional. A China reconhecia que ainda não possuía condições plenas de disputar centralidade global e, por isso, priorizava o acúmulo gradual de poder econômico, tecnológico e institucional. O baixo perfil, nesse sentido, não significava ausência de ambição, mas a decisão de adiar sua expressão mais visível. 

Durante esse período, a China ampliou sua presença em instituições internacionais, diversificou parcerias, aprofundou relações com países em desenvolvimento e consolidou sua integração à economia mundial. Ao mesmo tempo, preservou elementos que se tornariam marcas persistentes de sua diplomacia, como a defesa da não interferência e a recusa de condicionalidades políticas em suas cooperações. Essa postura a distinguia do modelo soviético da Guerra Fria e reforçava sua apresentação como parceiro pragmático, especialmente no Sul Global. 

A Reorientação da Política Externa

De Keep a Low Profile à Striving for Achievement

Com o crescimento sistêmico da China, sua estratégia de KLP passou a ser progressivamente questionada. Parte dos atores internacionais passaram a interpretá-la como uma forma de ocultação de capacidades, sob a hipótese de que o país estaria apenas aguardando um momento oportuno para ampliar sua projeção de poder. Além disso, parte da elite do país, a partir dos anos 2000, começou a argumentar que a estratégia já não era mais suficiente para garantir um ambiente internacional favorável. Soma-se a isso o fato de que, após os Jogos Olímpicos de 2008, a China passou a enfrentar crescentes pressões internacionais para assumir maior responsabilidade em questões de segurança global. 

Nesse contexto, diversos países passaram a interpretar a KLP como uma estratégia deliberada de evasão de responsabilidades internacionais, especialmente em temas não diretamente vinculados aos interesses chineses, ao mesmo tempo em que o país insistia em se apresentar como uma economia em desenvolvimento. A partir de 2012, com a ascensão de Xi Jinping, a política externa passa a apresentar sinais mais evidentes de uma reorientação. Ainda que não se tratava de uma ruptura abrupta, a manutenção estrita da KLP tornava-se cada vez menos compatível com os novos objetivos do país. Nesse contexto, ganhou destaque a formulação de uma postura mais ativa, frequentemente associada ao conceito de striving for achievement (em chinês: Fen Fa You Wei, 奋发有为).

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Xi Jinping em sua visita à Pequim, 2026. Fonte: State Council Information Office of the People’s Republic of China (SCIO).

Na interpretação de Yan Xueton, cientista político Chinês, a KLP tinha orientação predominantemente econômica; a SFA, por sua vez, possui orientação primordialmente política. Em vez de priorizar apenas estabilidade para o crescimento, a nova estratégia busca aumentar o apoio político à China, ampliar sua influência diplomática e fortalecer sua credibilidade estratégica junto a outros Estados.

A SFA aparece associada a conceitos como credibilidade, moralidade, benefício mútuo e comunidade de destino compartilhado. No quadro analítico de Yan Xuetong, uma potência em ascensão não se afirma apenas por força material, mas por sua capacidade de gerar confiança, atrair parceiros e apresentar-se como liderança politicamente legítima. Por isso, a SFA atribui importância especial à chamada “credibilidade estratégica”, entendida como condição para que a China amplie sua influência internacional e reduza resistências à sua ascensão. 

A estratégia de striving for achievement representa uma inflexão em relação à lógica de contenção da KLP, ao propor que a China não apenas evite confrontos, mas atue de maneira mais proativa na defesa e promoção de seus interesses. Isso se traduz em uma política externa mais assertiva, caracterizada pela ampliação da participação em instituições internacionais, pela busca de maior influência em agendas globais e pela disposição de moldar normas e práticas da ordem internacional. Diferentemente da KLP, que priorizava o acúmulo  silencioso de capacidades, a SFA enfatiza sua projeção e conversão em poder efetivo.

Ao mesmo tempo, a SFA não deve ser lida simplesmente como abandono completo da prudência. O que se observa é uma redefinição da prudência em novas bases: a China continua evitando confrontação aberta e rejeitando, em seu discurso oficial, pretensões hegemônicas clássicas, mas passa a considerar insuficiente a antiga autocontenção da fase Deng. Em outras palavras, a ascensão das capacidades chinesas produz uma mudança de método: em vez de apenas adaptar-se às estruturas existentes, Pequim procura influenciá-las de maneira mais ativa e favorável aos seus interesses. 

A centralidade do rejuvenescimento nacional sob Xi Jinping reforça essa inflexão. O Chinese Dream rearticula a política externa como parte de um projeto mais amplo de restauração histórica da China, incluindo prosperidade interna, fortalecimento estatal e reconhecimento internacional. Neste enquadramento, a SFA funciona como instrumento diplomático de uma nova etapa da ascensão chinesa: não mais apenas evitar a repetição da humilhação, mas demonstrar que a China recuperou condições de participar ativamente da definição das regras, instituições e agendas da ordem internacional. 

Rejuvenescimento Nacional

Para Xi Jinping, a revitalização da nação chinesa emerge como o maior sonho do país na história moderna, incluindo nesse objetivo tanto a memória das humilhações históricas quanto a expectativa de restauração da posição da China no sistema internacional. 

Nos discursos de 2012 e 2013, Xi vincula esse processo às chamadas “metas dos dois centenários”: a construção de uma sociedade moderadamente próspera até 2021 e a edificação de uma “moderna nação socialista” próspera e forte até 2049, momento em que o rejuvenescimento da nação seria efetivamente realizado.  Nesse sentido, essa transformação não significa uma ruptura, mas uma continuidade, dependendo da manutenção do socialismo com características chinesas, da valorização do patriotismo e da mobilização da força coletiva do povo chinês.

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Xi Jinping, em direção ao Monumento aos Heróis do Povo, 2025. Fonte: Greg Baker.

Na prática, o rejuvenescimento nacional aparece ligado à modernização, ao desenvolvimento, à ampliação do bem-estar e à ideia de prosperidade compartilhada, o que permite converter metas econômicas e sociais em etapas de um mesmo projeto civilizacional. O cumprimento das metas dos centenários, a defesa da unidade nacional e a continuidade do desenvolvimento passam, então, a ser narrados por Xi como provas materiais de que o “Sonho Chinês” está em curso.

Por fim, o conceito possui um efeito importante de integração entre política doméstica e política externa. Parte da literatura mostra que, sob Xi Jinping, a diplomacia chinesa passa a ser formulada de maneira cada vez mais explícita como instrumento a serviço do rejuvenescimento nacional, deslocando o foco exclusivo do desenvolvimento econômico para a construção de um ambiente internacional favorável à ascensão chinesa. Nessa chave, a política externa não aparece como esfera autônoma, mas como prolongamento do mesmo projeto histórico que, internamente, legitima a centralização política, disciplina partidária, modernização econômica e coesão nacional. 

Referências


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YAN, Xuetong. From Keeping a Low Profile to Striving for Achievement. The Chinese Journal of International Politics, v. 7, n. 2, p. 153–184, 2014. DOI: https://doi.org/10.1093/cjip/pou027. Disponível em: https://academic.oup.com/cjip/article-abstract/7/2/153/438673?redirectedFrom=fulltext. Acesso em: 26 abr. 2026.

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    Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Membro do núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026.

    Áreas de interesse: Organizações Internacionais, Multilateralismo, Oriente Médio, China, Política Externa, Inserção Internacional do Brasil.

Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Membro do núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Organizações Internacionais, Multilateralismo, Oriente Médio, China, Política Externa, Inserção Internacional do Brasil.