A Questão Curda na Síria e a Resistência Feminina
Por Levi Cezar e Ágata Cesquim
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Os curdos foram primeiramente identificados em registros antigos como “Cyrtii”, a partir do século II a.C. Naquele contexto, provavelmente constituíam uma combinação de tribos indo-europeias que chegaram à região por diferentes rotas e em diferentes períodos. No entanto, o termo “curdo” nem sempre teve um sentido étnico claramente definido. Possuía um significado socioeconômico, sendo associado a grupos nômades que habitavam o planalto do Irã e fundibulários mercenários selêucidas — guerreiros das montanhas Zagro que eram recrutados pelo exército.
Além dos registros históricos, existem mitos que buscam explicar a origem dos curdos. Um deles afirma que os curdos são descendentes de crianças que fugiram para as montanhas para escapar de Zahhak, figura central da mitologia persa que representa um rei tirano, com serpentes no ombro que precisam ser alimentadas diariamente com o cérebro de crianças. Há, ainda, um outro mito semelhante, segundo o qual os curdos são filhos das escravas do Rei Salomão, que foram expulsas para as montanhas por gerarem filhos do demônio Jasad. Outro afirma que Sara, esposa de Abraão, era curda. Em conjunto, essas narrativas contribuem para a profunda ligação dos curdos com as montanhas e para uma ideia de antiguidade mítica.

O Curdistão
Um reflexo da diversidade curda pode ser observado na variedade linguística existente entre seus grupos. As duas principais línguas curdas são o kurmanji, predominante entre os curdos do norte, e o sorani, falado majoritariamente pelos curdos do sul. Além deles, há outras variedades utilizadas por minorias significativas. No sudeste do Curdistão — região montanhosa situada sobretudo entre os atuais territórios da Turquia, Irã, Iraque e Síria —, especialmente entre Sanandaj e Kermanshah, fala-se um dialeto mais próximo do persa moderno do que do sorani. Já no noroeste do Curdistão, entre curdos sunitas e alevitas, encontra-se o zazaki. Nas regiões montanhosas do sul, por sua vez, destaca-se o gurani. Essa diversidade linguística reforça a complexidade histórica da formação da identidade curda.

Atualmente, os curdos não possuem um território próprio que seja reconhecido como Estado pelo sistema internacional, sendo um povo presente em diferentes regiões do Oriente Médio, como Turquia, Síria, Iraque, Irã e outras localidades, com uma estimativa total de 34 milhões de pessoas, embora, associados ao Curdistão, esse espaço não corresponda a um Estado soberano unificado. A primeira vez que o Curdistão foi mencionado em obras de geógrafos mulçumanos foi no século XVI. No entanto, apesar de possuírem línguas próprias, identidade cultural compartilhada e forte vínculo histórico com a região, os curdos permanecem sem reconhecimento internacional como Estado independente.

O caso mais institucionalizado de autonomia curda ocorreu no Iraque, onde o território do Curdistão obteve reconhecimento formal na Constituição iraquiana em 2005. Contudo, a denominada “questão curda” na Síria, durante a era de Bashar al-Assad, assumiu características próprias, marcadas pela política de exclusão e negação de direitos de cidadania. Sobretudo, a “questão curda” não se limitava ao conflito entre al-Assad e os curdos, também envolvia uma disputa interna pelo comando do país.
Essa ausência de reconhecimento estatal está ligada, sobretudo, a um processo centenário de fragmentação. Durante os séculos XVI e XVII, a região montanhosa do Curdistão, situada na fronteira entre os Impérios Otomano e Persa, tornou-se alvo de diversos confrontos entre otomanos sunitas e os safávidas xiitas, dinastia persa que governava o Irã. O Tratado de Zuhab, assinado em 1639, representou uma resolução parcial aos conflitos travados entre os impérios, definindo que a maior parte do território do Curdistão pertenceria aos otomanos sunitas e o restante aos persas. Esse acordo é considerado um dos grandes primeiros marcos da fragmentação do território curdo.
Os curdos viram o desmembramento do Império Otomano como uma oportunidade de conquistar um Estado nacional. Nesse período, contudo, os curdos não possuíam uma liderança política unificada. A população curda encontrava-se distribuída em diferentes regiões e organizada por meio de estruturas tribais, lideranças religiosas e chefias locais, além de movimentos políticos emergentes. Essa fragmentação interna dificultou a construção de uma representação política única capaz de defender de forma coesa os interesses curdos nas negociações internacionais.
Apesar desse contexto, o discurso de autodeterminação não foi aplicado de forma igualitária, em especial no Oriente Médio. Na região, as potências vencedoras da guerra, sobretudo Reino Unido e França, frequentemente priorizaram interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos em detrimento das reivindicações nacionais das populações locais. A definição das novas fronteiras desconsiderou, em muitos casos, a complexidade étnica da região, buscando preservar áreas de influência política e interesses econômicos. Como resultado, povos como os curdos foram divididos entre diferentes Estados, enquanto outras reivindicações nacionais também foram limitadas ou ignoradas.
O Tratado de Sévres foi um acordo internacional assinado em 1920 entre potências aliadas, vencedoras da Primeira Guerra, e representantes do Império Otomano. Entre suas disposições estava a criação de mecanismos que poderiam levar à autonomia e à fundação de um Estado curdo. No entanto, a proposta não abrangia todos os territórios habitados por curdos, excluindo áreas que passaram para o controle francês na Síria e deixando indefinidas questões territoriais com a Arménia. Essas limitações somaram-se às divisões políticas já existentes entre diferentes lideranças e movimentos curdos.

O acordo foi considerado uma humilhação às elites do Império Otomano e foi rejeitado pelo Movimento Nacional Turco — movimento nacionalista liderado por Mustafa Kemal Atatürk —, que via as propostas como uma imposição das potências vencedoras e uma ameaça à integridade territorial da futura Turquia. A vitória dos nacionalistas na Guerra de Independência Turca, combinada ao crescente desinteresse das potências aliadas em impor as condições de Sèvres, levou à substituição do acordo pelo Tratado de Lausanne, em 1923. O Tratado de Lausanne, por sua vez, não possuía qualquer menção à autonomia ou independência curda, mantendo uma ordem regional que separa a população em diferentes nações.
A Questão Curda na Síria
A questão curda na Síria está relacionada à presença histórica de populações curdas no norte e nordeste do país, especialmente em regiões próximas à fronteira com a Turquia. Para Harriet Allsopp, Dra. em Ciência Política, em The Kurds of Syria: political parties and identity in the Middle East, “no momento em que a Síria se tornou um Estado, a identidade curda já estava bem estabelecida; os curdos a haviam defendido durante séculos contra governos estrangeiros e invasões” (tradução nossa). Assim, durante o período do Mandato Francês e, depois, com a formação do Estado sírio independente, os curdos passaram a ocupar uma posição ambígua: eram parte da sociedade síria, mas não se encaixavam plenamente no projeto nacional árabe que ganhou força no país ao longo do século XX. Por isso, desde cedo, a identidade curda foi tratada pelo Estado sírio com desconfiança, sobretudo por estar ligada a uma população não árabe situada em áreas fronteiriças sensíveis.
Nos anos 60, o Estado sírio adotou políticas restritivas para a identidade curda. Um dos marcos, ocorrido em 1962, foi a retirada e a negação da cidadania a milhares de curdos, classificando-os como ajanib e maktumin (estrangeiros e não registrados, respectivamente), evidenciando que a questão central, antes de militar, era de cidadania e reconhecimento.
Entre as décadas de 1980 e 1990, as relações entre Síria e Turquia foram atravessadas por disputas territoriais, rivalidades regionais e conflitos ligados ao controle das águas dos rios Tigre e Eufrates. Nesse cenário, Hafez al-Assad (pai de Bashar al-Assad) permitiu a atuação do PKK (Partiya Karkerên Kurdistanê, Partido dos Trabalhadores do Curdistão) — organização curda fundada na Turquia em 1978 e liderada por Abdullah Öcalan, em áreas sob influência Síria. Tal tolerância não representava apoio pleno à causa curda, mas uma estratégia de pressão contra Ancara. Öcalan viveu por anos na Síria, enquanto o PKK organizava militantes e mantinha bases de apoio em territórios vinculados à esfera de Damasco, como o Vale do Bekaa, no Líbano.
A lógica do regime sírio era de instrumentalizar a causa curda, permitindo a permanência do PKK como uma forma de pressionar militarmente e indiretamente Ancara, ao mesmo tempo que os curdos não podiam desenvolver livremente suas próprias políticas, partidos ou reivindicar autonomia. Ou seja, os curdos serviam como uma moeda de troca conveniente para o desgaste da Turquia e preservação do poder político sírio na região.

O Surgimento do PYD e a Experiência de Autonomia de Rojava
Nesse contexto, diferentes frentes regionais curdas organizaram-se como forma de resistência às políticas e aos movimentos contrários à sua identidade étnica. Embora formas anteriores de organização curda já existissem, sobretudo por meio de lideranças regionais, religiosas, intelectuais e associações culturais, foi a partir das restrições impostas pelos Estados nacionais no século XX que novas formas de mobilização política ganharam força. Como a população curda ultrapassa as fronteiras dos Estados nacionais modernos, sua organização política não se desenvolveu de maneira homogênea. Cada comunidade regional precisou adaptar suas formas de mobilização às condições políticas, sociais e territoriais em que estava inserida, dando origem a partidos, a estratégias e a organizações diversas. Apesar dessa fragmentação organizacional, permaneceu, em maior ou menor grau, o ideal comum de pertencimento a uma nação curda.
Nesse sentido, com o Acordo de Adana em 1998 e com a expulsão de Öcalan, o PKK encerrou a presença formal em território sírio, mas não eliminou as redes políticas e militantes associadas ao seu campo ideológico. Os simpatizantes ligados a esse campo político não desapareceram. Parte deles se reorganizou clandestinamente e, em 2003, surgiu o PYD (Partiya Yekîtiya Demokrat, Partido da União Democrática).

A criação do PYD representou uma mudança importante na organização política dos curdos sírios. Diferentemente de muitos partidos curdos tradicionais da Síria, frequentemente marcados pela fragmentação interna, pela liderança familiar ou regional e pela baixa capacidade de mobilização, o PYD surgiu com maior disciplina organizacional e com uma base ideológica mais definida. Sua proximidade com o pensamento de Abdullah Öcalan fez com que o partido adotasse a ideia de confederalismo democrático, proposta que deslocava a luta curda da reivindicação clássica por um Estado nacional independente para a defesa de autonomia local, da democracia de base, de pluralismo étnico e da participação direta da sociedade.
Esse projeto ganhou maior relevância com o início da guerra civil síria, em 2011. A crise do regime de Bashar al-Assad abriu um vazio de poder em diversas regiões do país, inclusive no norte e nordeste sírio, onde a presença curda era historicamente significativa. Em 2012, quando o governo sírio retirou parte de suas forças dessas áreas para concentrar seus recursos militares em frentes consideradas mais estratégicas, o PYD e suas forças armadas, as Unidades de Proteção Popular (YPG) passaram a controlar cidades importantes, como Kobane, Afrin e áreas da Jazira. Esse processo marcou o início da experiência de autonomia curda conhecida como Rojava.

A ascensão de Rojava, no entanto, não significou apenas a formação de uma administração curda no norte da Síria. O projeto buscava apresentar-se como uma alternativa política para a região baseada não somente na identidade curda, mas também na convivência entre diferentes grupos étnicos e religiosos, como árabes, assírios, armênios, turcomanos, yazidis e cristãos. Essa dimensão era importante porque o PYD procurava evitar que sua experiência fosse compreendida apenas como separatismo curdo.
O Protagonismo das YPJ
Nesse contexto, o papel das mulheres tornou-se um dos elementos mais característicos da experiência curda no norte da Síria. A participação feminina não se limitou à retórica política, mas ganhou expressão militar e institucional. No campo armado, destacaram-se as YPJ, Unidades de Proteção das Mulheres, criadas como força feminina vinculada ao projeto de autodefesa curda.

Esse protagonismo feminino, porém, não se limitou ao campo militar. Na administração de Rojava, as mulheres também passaram a ocupar espaços institucionais por meio do sistema de copresidência, no qual cargos de liderança deveriam ser compartilhados por um homem e uma mulher. Além disso, foram criados conselhos, assembleias e organizações autônomas de mulheres, voltados à participação política, à mediação de conflitos sociais, à proteção contra violência de gênero e à ampliação da presença feminina na vida pública.

Embora as YPJ tenham se tornado o exemplo mais conhecido da presença militar feminina curda, sobretudo pela visibilidade internacional conquistada durante a batalha de Kobane contra o Estado Islâmico, a participação de mulheres em organizações armadas curdas não se restringe à Síria. Em outras regiões do Curdistão, especialmente no Irã, grupos como o PJAK(Partiya Jiyana Azad a Kurdistanê, Partido da Vida Livre do Curdistão), o PAK (Parti Azadi Kurdistan, Partido da Liberdade do Curdistão) e o PDKI (Partî Dêmokiratî Kurdistanî Êran, Partido Democrático do Curdistão Iraniano) também contaram com presença feminina em suas estruturas políticas ou militares.

Kobane, Projeção Internacional e os Desafios da Autonomia Curda
A projeção internacional dos curdos sírios aumentou principalmente a partir da batalha de Kobane, entre 2014 e 2015. O cerco imposto pelo Estado Islâmico à cidade transformou Kobane em símbolo da resistência curda. Com apoio aéreo dos Estados Unidos, as YPG e YPJ conseguiram resistir ao avanço jihadista e, posteriormente, tornaram-se parte central das Forças Democráticas Sírias (SDF/FDS).
No entanto, o fortalecimento curdo também aprofundou a oposição da Turquia. Para Ancara, o avanço curdo ao longo da fronteira turco-síria foi interpretado como ameaça direta à segurança nacional turca. A partir de 2016, a Turquia realizou intervenções militares no norte da Síria com o objetivo de impedir a formação de uma faixa territorial contínua sob controle curdo. Em 2018, forças turcas e grupos sírios aliados tomaram Afrin, antes administrada pelos curdos. Em 2019, nova ofensiva turca atingiu áreas do nordeste sírio, alterando novamente o equilíbrio territorial da região.
Embora as forças curdas tivessem se tornado parceiras dos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico, sua segurança territorial permaneceu vulnerável às decisões das grandes potências e às pressões regionais. A autonomia de Rojava nunca foi reconhecida formalmente pelo Estado sírio nem pelo sistema internacional. Assim, os curdos sírios passaram a depender de um equilíbrio instável entre apoio externo, negociação com a Síria, resistência militar e tentativa de conter o avanço turco.

A experiência de Rojava conferiu à participação feminina um papel que ultrapassou a atuação militar e a resistência armada. O protagonismo feminino configurou um dos elementos mais característicos da experiência curda na Síria, contribuindo para a visibilidade internacional, especialmente durante a resistência ao Estado Islâmico. A atuação das YPJ tornou-se um dos símbolos mais importantes para o reconhecimento da causa curda contemporânea, evidenciando que a experiência em Rojava não se limita à busca por autonomia territorial, mas envolve, também, disputas sobre formas de organização política, participação social e reconhecimento, nas quais a resistência feminina passou a ocupar um papel central.
REFERÊNCIAS
ALLSOPP, Harriet. The Kurds of Syria: political parties and identity in the Middle East. London: I.B. Tauris, 2014.
CANBY, Sheila R. The Shahnama of Shah Tahmasp: the Persian Book of Kings. New York: The Metropolitan Museum of Art; New Haven: Yale University Press, 2014.
ESPOSTI, Nicola Degli. Nation and Class in the History of the Kurdish Movement. Cham: Palgrave Macmillan, 2022.
MCDOWALL, David. A modern history of the Kurds. 4. ed. London: I. B. Tauris, 2021.
MUKRIYAN, Rojin. From Sèvres to Lausanne: Kurdish Society and the Nation-State Model. The Kurdish Center for Studies, 2 ago. 2023. Disponível em: https://nlka.net/eng/from-sevres-to-lausanne-kurdish-society-and-the-nationstate-model/. Acesso em: 30 maio 2026.
PAES, Gabriel. 100 anos do Tratado de Sèvres. Relações Exteriores, 28 set. 2020. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/100-anos-do-tratado-de-sevres/. Acesso em: 29 maio 2026.
RADPEY, Loqman. Kurdistan on the Sèvres Centenary: How a Distinct People Became the World’s Largest Stateless Nation. Nationalities Papers, v. 50, n. 6, p. 1187-1216, nov. 2022. Publicado online em: 28 set. 2021. DOI: https://doi.org/10.1017/nps.2021.32. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/nationalities-papers/article/kurdistan-on-the-sevres-centenary-how-a-distinct-people-became-the-worlds-largest-stateless-nation/A8A41F9088ABB9443BCEFF51EAAEC76D. Acesso em: 29 maio 2026.
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