Evento: Guerra de informações – Os Impactos da Inteligência Artificial na Geopolítica Mundial.
Este artigo é resultado de trabalho coletivo de Cauê Oliveira, Giovanne Roson e Maria Clara Padovani. Todos os autores contribuíram igualmente.
Ocorreu, no dia 11 de junho de 2026, no auditório do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo (USP), o evento “Guerra de informações: Como as IAs e a Mídia têm Moldado os Conflitos Geopolíticos Atuais”, proposto pelo Laboratório de Análise Internacional “Bertha Lutz” (LAI-BL), em parceria com o Laboratório de Diplomacia (LaD-USP) e a FGV Global – entidades estudantis das áreas de Relações Internacionais, dedicadas à pesquisa e capacitação de jovens em Relações Internacionais, Geopolítica e diplomacia.
O evento contou com 118 participantes, dentre alunos da graduação da USP, FGV e a comunidade externa, além dos palestrantes Sérgio Amadeu, Celbi Pegoraro e Silvio Cascione; o debate se desenvolveu com a mediação de Feliciano de Sá, professor associado do IRI-USP e editor-chefe da revista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).
Conheça um Pouco Mais sobre Cada Palestrante:
Sérgio Amadeu:
Referência no debate sobre tecnologia e sociedade, mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, é professor associado da Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador das implicações políticas da inteligência artificial, dos algoritmos e das tecnologias digitais na democracia, comunicação e privacidade. É membro do Comitê Científico Deliberativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber) e membro do Conselho Diretor da Internet no Brasil.

Celbi Pegoraro:
Docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e pesquisador nas áreas de jornalismo, comunicação, mídia digital e guerras culturais. É graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduado em Política e Relações Internacionais e Doutor em Ciências da Comunicação. Seu projeto de pós-doutoramento ”Guerras Culturais: Um Estudo de Jornalismo, Política e Revolução Digital” trata de um tipo específico de tensão política e social que ganhou força com o advento da internet e dos avanços tecnológicos, na qual o conflito ocorre na dimensão cultural – a arte, o pensamento, o universo de símbolos e valores.

Silvio Cascione:
Bacharel em Jornalismo pela Universidade de São Paulo, mestre em Ciência Política e doutorando em Relações Internacionais. É professor de MBA na Fundação Getúlio Vargas, trabalhou como correspondente da Reuters em Brasília antes de assumir o posto de colunista no Estadão e chefe da Eurasia Group no Brasil, uma das principais consultorias de análise de risco político do mundo, dona de uma Newsletter diária sobre geopolítica mundial.

Sobre o Evento:
O evento propôs um debate estratégico e interdisciplinar sobre a centralidade da informação na geopolítica contemporânea, explorando como inteligência artificial, plataformas digitais e meios de comunicação são mobilizados por Estados e atores não estatais para influenciar narrativas, opiniões públicas e dinâmicas de poder em contextos de conflito, desenvolvendo uma guerra de informação. A partir de uma análise ancorada em casos recentes e em diálogo com diferentes áreas do conhecimento, o encontro buscou oferecer ao público uma compreensão crítica e aplicada sobre como as IAs e a mídia tem moldado os conflitos geopolíticos atuais, posicionando-se como um espaço qualificado de reflexão e troca entre academia e prática.
O professor Sérgio Amadeu levantou pontos importantes durante a palestra, como o processo de dataficação que a sociedade se encontra e, também, como essa dataficação é levada ao campo militar-industrial da política. Navegações na internet, deslocamentos, preferências de consumo, relações sociais e até aspectos subjetivos do comportamento humano tornam-se elementos capturados, armazenados e analisados. Dissertando de maneira profunda sobre a transformação da atividade humana – em todas as dimensões da vida social – em dados e metadados ser o fenômeno central de nossa era, o professor argumenta que a forma de inteligência artificial contemporânea, baseada em estatística e probabilidade, permitiu uma concentração de poder inédita nas mãos das Big Techs e, agora, ocupam o coração do complexo militar-industrial. Dessa forma, os dados passam a ocupar uma posição estratégica, semelhante àquela que os recursos naturais ou a força industrial tiveram em períodos históricos anteriores.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial contemporânea emerge como uma tecnologia diretamente vinculada à disponibilidade massiva desses dados. Diferentemente da ideia frequentemente difundida de uma inteligência autônoma e racional, a IA atual funciona predominantemente a partir de modelos estatísticos e probabilísticos capazes de identificar padrões e realizar previsões. Quanto maior o volume de dados disponíveis, maior tende a ser a capacidade desses sistemas de aprender e produzir respostas sofisticadas. Segundo o professor Sérgio Amadeu, essa dinâmica gera um ciclo de concentração tecnológica, no qual empresas que controlam grandes fluxos de informações possuem vantagens competitivas cada vez mais difíceis de serem superadas.

Como consequência, observa-se uma concentração inédita de poder nas Big Techs, que deixaram de ser apenas empresas de tecnologia para se tornarem agentes centrais da organização econômica, política e social global. Essas corporações controlam infraestruturas digitais essenciais, como os serviços de nuvem, citados pelo professor Sérgio. Tal cenário amplia sua capacidade de influência sobre mercados, governos e populações, deslocando parcialmente o monopólio tradicional do poder exercido pelos Estados nacionais. Assim, as disputas por dados e infraestrutura digital passam a representar novos elementos de competição internacional.
Esse tópico desafia os estudantes a entenderem que a segurança internacional não depende mais apenas apenas dos Estados, mas também de corporações privadas que gerenciam infraestruturas de dados. Compreender o processo de dataficação e suas implicações torna-se, portanto, essencial para todos aqueles interessados em interpretar os novos mecanismos de poder, soberania e conflito presentes na ordem internacional contemporânea.
A partir dessa perspectiva, a análise apresentada pelo professor Celbi Pegoraro amplia as reflexões do docente Sérgio Amadeu ao deslocar o foco da infraestrutura tecnológica para seus efeitos políticos e comunicacionais. Se Amadeu demonstra como os dados e a inteligência artificial passaram a integrar complexos que vão muito além do mundo digital – como o militar – Pegoraro evidencia que essas mesmas corporações tecnológicas expandem seu poder por meio da aquisição de empresas de comunicação e mídia, concentrando simultaneamente o controle sobre as infraestruturas digitais e sobre a circulação global de informações. Nesse cenário, a disputa geopolítica deixa de ocorrer apenas no domínio material e tecnológico e passa a envolver também a produção e a difusão de narrativas capazes de influenciar percepções, opiniões e comportamentos coletivos da sociedade. A militarização dos dados, portanto, não se limita ao desenvolvimento de novas capacidades bélicas, mas alcança igualmente a dimensão do dia a dia daqueles que não estão fisicamente em regiões de conflito, transformando a comunicação em um importante instrumento de poder estratégico.
Nesse contexto, a segmentação dos algoritmos representa uma das principais ferramentas dessa dinâmica atual de poder. Por meio da coleta massiva de dados sensíveis e da personalização do conteúdo distribuído pelas plataformas digitais, os algoritmos são capazes de identificar e explorar as emoções daqueles que estão do outro lado da tela, favorecendo processos de manipulação e reduzindo a capacidade crítica dos usuários. Essa lógica anda por um caminho diferente do tradicional meio de soft power, o novo meio aproxima-se da manipulação deliberada e, também, da chamada guerra híbrida (quando utilizado por atores estatais), cuja finalidade consiste em enfraquecer instituições e polarizar sociedades. Se, na análise de Sérgio, o alvo desses novos métodos de poder é o corpo físico nas zonas de conflito, para Celbi, o objetivo desloca-se para o “coração e a alma” das pessoas, tornando as narrativas e a informação elementos centrais dos conflitos contemporâneos.
Corroborando com a conversa, para Silvio Cascione, as Big Techs apresentam riscos e ameaças preocupantes, comentando principalmente sobre a influência das redes sociais e da IA na política e na convivência humana e sobre sua regulamentação, a qual muitos governos se mostram aquém do que poderiam fazer e apresentam um descontrole sobre essa tecnologia. Nesse ponto, Cascione reafirma a fala do professor Amadeu acerca da posição vantajosa dessas empresas de empurrar sua tecnologia para o complexo militar-industrial do mundo todo, o que, também, é discutido no plano global, com os fóruns internacionais. Mesmo enfraquecidos nos dias atuais, estes tentam trazer os tópicos acerca das ameaças que a Inteligência Artificial pode provocar, por maximizar capacidades que, em outras mãos, seriam desestabilizadoras, como drones e guerra autônoma.

Mais um vez entrando em um assunto comum a todos os palestrante, Cascione também apresentou sua visão da soberania digital: como os países, e o Brasil, vão lidar com essa nova realidade em que não dominam a principal tecnologia. Traz a ideia de aliança com potências médias, como os países europeus, com o objetivo de reduzir a dependência das principais empresas e países que controlam esse mundo digital. Sem deixar de lado uma abordagem mais pragmática, que mostra que o uso de Inteligência Artificial pode ser eficiente e, até mesmo, pode ser usada para reduzir desigualdades. No Brasil e, em comparação ao mundo, todos esses debates estão caminhando bem devagar, sem uma estratégia clara para o desenvolvimento da soberania digital nacional, segundo o professor.
Por fim, destacou o cenário eleitoral brasileiro de 2026 como laboratório para testar o uso da IA em uma eleição com uma autoridade eleitoral mais forte e robusta (o Supremo Tribunal Eleitoral, STE), e com certas regulações em uso para aumentar o escopo do TSE para lidar com essa tecnologia, ampliando o que foi dito pelo professor Celbi sobre narrativas e comunicação.
Isso traz à tona que não só todas as esferas de governo devem estar preparadas para lidar com a IA e as Big Techs, mas também que a cooperação entre potências médias é essencial para isso, o que o LAI preza em seus eventos e capacitações. As Relações Internacionais estão estritamente ligadas ao mundo digital e é fundamental que todo internacionalista entenda essa conexão no mundo de hoje.
O evento conseguiu abordar o papel crucial da informação, da mídia e, principalmente, das Big Techs e da Inteligência Artificial na geopolítica mundial, seja feita por atores estatais ou não estatais. Partindo de análises de especialistas de diferentes áreas, foi analisada e discutida a influência das novas tecnologias nos conflitos geopolíticos atuais.
Gostaríamos de agradecer, mais uma vez, aos nossos convidados Sérgio Amadeu, Celbi Pegoraro e Silvio Cascione, que trouxeram ótimas reflexões sobre o tema e que possibilitaram um debate frutífero e importante para os estudantes.
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