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Independência da Bahia

Independência da Bahia

Por Maria Luísa Cordeiro e Enrique Cánovas

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Introdução: o contexto brasileiro 

A história da Independência do Brasil tem sido contada de maneira incompleta, excluindo narrativas externas às elites fluminense e paulista do século XIX. Apesar do país ser considerado independente desde 7 de setembro de 1822, ainda havia tropas portuguesas no território após o famoso Grito do Ipiranga de Dom Pedro I. A declaração de independência não significou, de fato, a emancipação de todo o país. Estados como a Bahia, o Maranhão, o Piauí e o Pará (na época, Grão-Pará) tinham, em seus territórios, tropas portuguesas e oficiais que permaneceram leais à Corte, arrastando as lutas independentistas até 2 de Julho de 1823.

Com a fragilidade militar inicial do novo Estado, o governo brasileiro recrutou mercenários estrangeiros e contratou oficiais experientes, sobretudo europeus, para estruturar o exército e a marinha. Essas medidas ajudaram a neutralizar a resistência portuguesa e a garantir a adesão das províncias remanescentes ao Império, mas não representaram a real luta do povo brasileiro pela liberdade. 

O 7 de Setembro precisou ser incorporado à feição popular, uma vez que o que é visto hoje como independência da nação, na verdade, foi um processo protagonizado pelas elites, sem participação direta das massas e sem mudanças reais na vida da população. Eric Hobsbawm, historiador britânico, conceitua tal fenômeno como “invenção das tradições”, em que os Estados, em especial, buscam maneiras de promover a coesão e o pertencimento para reforçar o ideal da nação. Dessa maneira, essa tal nação perpetua e ovaciona datas e conquistas sem levar em consideração o que, de fato, aconteceu. Nesse sentido, a idealização de que o 7 de Setembro significou, automaticamente, a mudança na realidade dos brasileiros é deturpada, uma vez que padrões coloniais e protagonismos de populações privilegiadas permaneceram como uma constante. Contudo, pela necessidade do Estado de validação e união, esse dia é visto com estima e relevância para o povo brasileiro, não necessariamente condizendo com o que realmente aconteceu na época. 

Em contrapartida, na Bahia, ocorreram as Batalhas de Independência singulares, estreladas pelas massas populares, nas quais muito sangue foi derramado em prol da tão almejada emancipação. Civis, tomados pela indignação diante da exploração portuguesa e pela necessidade compartilhada de mudança, foram os responsáveis por fazer a diferença acontecer em seu estado. No dia 2 de julho de 1823, Salvador, capital baiana, finalmente livrou-se das garras europeias, tornando-se independente com mérito das classes subalternizadas. Desde então, a data virou feriado estadual e, os mesmos grupos que se empenharam pela liberdade, passaram a celebrar anualmente suas conquistas, relembrando sua força e sua união. 

Dito isso, a celebração do Cortejo do 2 de Julho se mostra como uma oposição direta ao conceito de “invenção das tradições” de Hobsbawm. Organizado e protagonizado pelo povo baiano, o Festejo celebrado é de maneira genuína, sem a necessidade de forjar uma identificação, pelas massas que — por orgulho de seus ancestrais, por identificação com os heróis (que eram pessoas comuns) e pelo sentimento de força que as minorias ganham por meio da visibilidade — se reúnem pelo estado para homenagear essa história, e é por isso que essa data merece a atenção nacional e reconhecimento de sua relevância.  

Do início até o estopim 

Diferentemente da Independência de caráter freudiano feita por Dom Pedro I no Brasil, com um grito de independência que soava mais como um ato de rebeldia familiar de um filho tentando subverter as vontades de um pai do que um ato político, a Independência da Bahia foi feita com a dor e o sangue do povo. 

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“O Primeiro Passo para a Independência da Bahia”, de Antônio Parreiras, 1931. Fonte: Wikipédia.

Contudo, é importante entender que a Independência da Bahia se deu pelo fato de que Portugal não aceitou a emancipação de Dom Pedro I. A Coroa Portuguesa não reconheceu o grito do fico, afinal, Dom Pedro desobedeceu as vontades portuguesas, e pôs a frente aquilo que o povo de seu país de coração queria. Fato é, toda essa oposição do príncipe português acabou por acalentar os ânimos da família Bragança

Há de se imaginar que aqueles que detinham o poder temiam esse novo Brasil e viam em Dom Pedro uma figura “progressista” o suficiente para abolir a escravidão e, consequentemente, potencial de desestruturar seu status quo econômico. O tempo mostrou algo diferente, o tal progressismo de Dom Pedro era uma farsa, afinal, mesmo que o Brasil tenha alcançado o poder de hastear uma bandeira com seu nome e se declarar independente para o mundo, a estrutura extrativista e colonizadora se manteve. É impossível dizer se foi por medo ou indiferença do Édipo lusitano, mas isso pouco importa, ao fim, nada havia para o setor escravista temer no novo rei, afinal, ele sempre esteve do lado dos ricos.

A junta provisória da Bahia, após a volta de Dom João a Portugal, agia de forma submissa aos interesses dos lusos. Essa atitude, somada a casos de corrupção, fez o povo se mostrar cada dia mais insatisfeito com o governo. Em meio a esse contexto, o governo baiano recebeu uma carta da Corte Portuguesa exigindo que o general Madeira de Melo tomasse o posto de general das armas do Estado. Madeira exigiu assumir o comando, entretanto, os generais brasileiros se mostraram contra a decisão, dando a ele a única opção de tomar o poder à força. 

A batalha e a expulsão dos portugueses

Em 19 de fevereiro de 1822, o presente antagonista dessa narrativa mandou suas tropas para atacar o Forte de São Pedro e o Quartel da Mouraria, em Salvador, local onde os soldados brasileiros estavam rebelados. O ataque não foi incisivo, foram 4 dias de tumulto na primeira capital do Brasil, dias de terror, saques e violência generalizada pela cidade. Os soldados de Madeira estavam invadindo prédios nesse processo, sob pretexto de procura dos soldados brasileiros que lá poderiam estar escondidos, como foi o caso do convento da Lapa, perto do quartel. No local, foram impedidos de entrar no prédio pela Madre Superiora do convento, Joana Angélica, mas, por cima do cadáver dela, passaram. Ao fim, Madeira tomou a cidade de Salvador, que viu seu povo fugir para o recôncavo, tal como nada, ou melhor, como refugiados de guerra. Cachoeira, cidade do interior, se tornou o principal destino do povo baiano fugido, assim, tornando-se capital provisória da Bahia durante os tempos calamitosos. 

No dia 25 de Junho do mesmo ano, os residentes de Cachoeira e os Soteropolitanos lá abrigados, em meio a festejos de apoio a Dom Pedro, foram surpreendidos por uma escuna canhoneira enviada por Madeira. As histórias contam que o primeiro disparo do navio bateu na coluna de uma casa, ricocheteando e, em consequência, dando de encontro com um soldado do exército brasileiro, Soledade, que, no momento, apenas estava tocando tambor para a multidão. A escuna não cessou e continuou a disparar ininterruptamente rajadas de canhão contra as casas dos brasileiros. Naquele dia, em Cachoeira, muitos morreram, como de se imaginar, pelos disparos de Madeira, mas também por culpa de portugueses da cidade que, de suas janelas, atiraram nos brasileiros que corriam desesperados em meio ao caos.

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Batalha do Pirajá“, por Hector Julio Páride Bernabó, 1978. Fonte: Projeto Colabora.

Em meio a tamanha violência, a reação parecia ser uma perspectiva restrita à imaginação. Mas ela se tornou realidade por meio de um canhão velho, que era exposto na praça da cidade como artefato histórico, sendo resgatado de sua posição de acervo para que voltasse às funções a qual lhe foram pensadas em sua confecção. Além disso, pequenos barcos de pescadores foram usados para se aproximar da grande escuna de Madeira com o intuito de, assim, atirar de maneira mais precisa contra ela. Com o tempo, a munição da escuna acabou, obrigando o capitão português e seus 26 marinheiros a levantar bandeira branca.

Após a derrota, Madeira de Melo decretou Lei Marcial em Salvador, firmando seu governo autocrático na cidade, enquanto os reforços prometidos pela coroa de Portugal não chegavam. Mesmo com a vitória, a situação do exército brasileiro não era de se admirar: estavam maltrapilhos, sem calçados, doentes, em uma realidade que faltava para eles tanto médicos quanto hospitais, e tão pouco ainda tinham o que comer. As armas, além disso, faltavam, e as poucas que tinham eram feitas de maneira improvisada. O capital humano dessas tropas era formado por soldados regulares e por voluntários: Negros libertos, Brancos pobres, Tupinambás e Escravizados. Segundo a carta enviada por Pedro Labatut, general francês contratado por Dom Pedro para coordenar esse exército, nenhum filho de proprietário de terras se apresentou para servir, constatação que faz jus à introdução deste texto: a Independência da  Bahia foi a Independência do povo. 

Labut organizou suas tropas com o objetivo de isolar Madeira e seus soldados em Salvador, impedindo a entrada de suprimentos na cidade dominada pelos portugueses. O tempo passou, e a comida ficou escassa, obrigando Madeira a revidar, pois, caso não, levaria ele e todos seus subalternos à cova, de fome. Assim, no dia 8 de Novembro de 1822, Madeira atacou as tropas brasileiras na famosa batalha de Pirajá, luta que envolveu por volta de 10 mil soldados, e um importante nome para a história da Bahia, Maria Quitéria. Em certo ponto da batalha, os brasileiros estavam em larga desvantagem, com a derrota quase concretizada, até que o jogo virou, por conta de um herói improvável. Um major pediu para o soldado corneteiro, Luís Lopes, que desse o sinal de recolher em seu instrumento. Fato é, de propósito ou acidente, Luís tocou outro sinal para os soldados, “Cavalaria, avançar e degolar!”. Porém, o exército brasileiro não tinha cavalaria, mas a música tocada na trompeta assustou os portugueses, que bateram em retirada, assim, dando a vitória para a Bahia. Essa história, pouco se sabe se é verdade ou não, mas o enredo se tornou um grande mito da Bahia, e pôs como improvável herói um mero corneteiro, que ganhou dos portugueses não pela força, mas pelo medo. 

Madeira e suas tropas estavam ainda mais isoladas, e a vinda de 1300 soldados portugueses não foi suficiente para derrotar o exército do Brasil. Eles já sentiam os efeitos da fome e do cansaço, resultado de uma cidade que estava com os acessos de suprimentos fechados. Na madrugada da virada do dia 1 para o dia 2 de julho de 1823, Madeira e suas tropas subiram em seus navios e zarparam em mar para longe de Salvador. Naquele momento, Salvador estava livre e a Bahia saía vitoriosa de uma luta de oprimido contra opressor. Pouco a pouco, o povo saiu à rua e aqueles bravos soldados, descalços e maltrapilhos, percorriam pela cidade, como heróis.

Heroínas da Independência

Como dito anteriormente, diferentemente de outros processos independentistas no Brasil, a Independência da Bahia foi protagonizada pelas massas populares. Joana Angélica, Maria Quitéria, Maria Felipa e o Corneteiro Lopes (já citado) são algumas das figuras mais aclamadas e reverenciadas no Cortejo. Eles são a personificação da gama diversa e singular que lutou pela expulsão dos portugueses e pela liberdade do Estado. 

Maria Quitéria de Jesus foi a primeira mulher a integrar o Exército Brasileiro, reconhecida em 28 de junho de 1996 como a patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro — título que a coloca como representação máxima de coragem e de dedicação para essa ala da corporação —, e uma figura extremamente valorosa para a Independência da Bahia. Nascida por volta de 1792, no que hoje é o município de Feira de Santana, órfã de mãe desde a infância e filha de um pai pouco afetuoso, Maria Quitéria montava a cavalo desde jovem e apresentava grande facilidade no manejo de armas de caça. 

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“Retrato de Maria Quitéria de Jesus Medeiros”, de  Domenico Failutti, 1920. Fonte: Acervo Digital do Museu do Ipiranga. 

Em setembro de 1822, um emissário da Junta do Governo foi até a fazenda onde Quitéria morava com o pai a fim de recrutar voluntários para se reunirem às tropas do Recôncavo contra a armada portuguesa. Seu pai, pouco interessado, não se voluntariou, nem permitiu que seus escravos participassem. Contudo, Maria Quitéria, apoiada pela irmã e escondida do pai, vestiu as roupas do cunhado e se alistou no Regimento de Artilharia sob o nome de José Medeiros. Ao descobrir a fuga da filha e sua luta nas batalhas independentistas, seu pai foi ao batalhão, revelou sua identidade e ordenou que a filha voltasse para casa. 

Apesar de seu disfarce ter sido descoberto, por volta de março de 1823, a participação de Quitéria nas batalhas foi tão importante que o Conselho Interino do Governo ordenou que lhe dessem um saiote e uma espada para combate. Já em Salvador, fez vários prisioneiros inimigos, escoltando-os sozinha até o acampamento. Os feitos de Maria Quitéria foram tão notáveis que ela foi condecorada pessoalmente pelo imperador D. Pedro I com a Imperial Ordem do Cruzeiro, no grau de cavaleiro. 

Outra figura feminina de participação notável na Independência da Bahia foi Joana Angélica de Jesus, freira devota e mártir da Independência. Abadessa no Convento da Lapa, sua coragem marcou o fim de sua vida. Em fevereiro de 1822, foram ordenados ataques portugueses a casas de civis ao Convento, sob a justificativa de que lá haveria patriotas escondidos. Na tentativa de impedir a invasão portuguesa e de proteger a clausura e a integridade das outras freiras do convento, Joana Angélica, aos 60 anos, ordenou que suas irmãs fugissem pelos fundos e, assim, ela se colocou como último obstáculo à invasão, sendo assassinada pelos portugueses por golpes à baioneta (arma em forma de faca projetada para ser acoplada à ponta do cano de um fuzil).

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“Retrato de Soror Joanna Angélica”de  Domenico Failutti, 1921. Fonte: Acervo Digital do Museu do Ipiranga. 

À Joana Angélica é atribuída a frase “Para trás, bandidos! Respeitai a casa de Deus! Só entrarão passando por cima do meu cadáver!”, e assim foi. Ela é considerada a primeira mártir da Independência Baiana e, pela sua bravura e devoção, setores da Igreja defendem que pode e deve ser reconhecida como beata — terceiro dos quatro passos para a canonização — e, posteriormente, como santa. 

Por último, mas não menos importante, outra mulher baiana que é significativamente cortejada nos festejos e no cotidiano do estado é Maria Felipa de Oliveira. Marisqueira —- trabalhadora da pesca, catando mariscos, moluscos e crustáceos em regiões costeiras e manguezais —- nascida na Ilha de Itaparica, a atuação de Maria Felipa não tem comprovação documental, mas sua história segue viva até hoje na memória popular. 

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Retrato falado de Maria Felipa. Por Filomena Orge, 2004. Fonte: Impressões Rebeldes.

A narrativa conta que Felipa, liderando um grupo de mulheres, atacou os portugueses com folhas de cansanção, uma planta urticante típica da região e que produz coceira intensa. As mulheres teriam atraído os portugueses à praia e, assim que eles se aproximaram, começaram os ataques. Outra atuação marcante da baiana foi a queima de inúmeras embarcações portuguesas, causando uma enorme perda estratégica ao inimigo. 

Apesar das discussões quanto à sua atuação, colocar o nome de Maria Felipa no Cortejo representa a identidade das maiorias numéricas, mas, ainda assim, marginalizadas que lutaram com todas as suas forças nas guerras de Independência, representando grupos que foram e são deixadas à deriva nas celebrações relacionadas à emancipação do Brasil. Sua significância é tamanha que, em 26 de julho de 2018, Felipa foi declarada Heroína da Pátria Brasileira pela Lei Federal nº 13.697. 

As histórias dessas heroínas da independência merecem e devem ser perpetuadas e festejadas pois, reunindo suas singularidades, representam a união de um povo em prol de sua liberdade. Não porque foram obrigados, ou porque estão servindo a uma elite, mas porque, do sentimento genuíno de revolta e não conformação, os baianos lutaram pela sua real independência. Homenagear tais personagens a partir dos festejos e defender seu reconhecimento nacional significa imortalizar a luta popular baiana, que há muito vem sendo apagada. 

À medida que, no resto do país, só é estudado, festejado e perpetuado o 7 de Setembro como Independência do Brasil, as lutas populares perdem espaço para a narrativa elitizada e excludente desse processo. Comemorar o 2 de Julho como mais uma perspectiva fulcral acerca da emancipação do país não significa excluir ou diminuir a significância do 7 de Setembro, mas reconhecer que essa conquista foi demorada, diversa e, especialmente, civil. 

Os festejos na contemporaneidade

Registros apontam que a primeira Festa do 2 de Julho aconteceu em 1824, no ano seguinte à independência. Desde então, a data é extremamente simbólica para o povo da Bahia, sendo um feriado estadual que mobiliza as ruas. Salvador, capital do estado, concentra o maior cortejo, mas é importante pontuar que o dia é comemorado em todo o estado.  

Dito isso, o ritual começa em 30 de Junho, com o fogo simbólico, que representa a união dos povos que lutaram pela independência. Já no dia 02, o desfile começa no Largo da Lapinha, com a queima de fogos, e passa por bairros históricos de Salvador, remontando a história daqueles que lutaram pela emancipação. Os festejos passam pelo Barbalho, caminhando pelo Centro Histórico e pela Avenida Sete de Setembro, até chegar no Campo Grande. Ao longo desse percurso, é possível ver as casas tradicionais enfeitadas com bandeiras da Bahia e do Brasil e há a execução do Hino Nacional, sempre levando a tocha que reflete toda a luta popular pela conquista da liberdade.

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Foto da Cabocla no Cortejo do 2 de Julho, por Camila Souza, 2023. Fonte GOVBA

Os protagonistas do Festejo são o Caboclo e a Cabocla, que representam os indígenas, mestiços, negros libertos e escravizados que lutaram pela Independência Baiana. Durante o caminho, as duas figuras recebem pedidos, coroas de flores e frutas daqueles que agregam ao Cortejo. Há, também, homenagens feitas às populações indígenas, nordestinas, afro-descendentes e femininas que participaram fervorosamente das guerras de Independência. Meninas vestidas de Maria Quitéria, imagens de Joana Angélica Angélica e Maria Felipa, danças e músicas populares e a união de um povo orgulhoso de sua luta marcam esse dia especial. 

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Cortejo do 2 de Julho. Fonte: IPAC-BA

É por conta desse destaque que o Cortejo de 2 de Julho se torna tão especial e único, trazendo o reconhecimento merecido dos grupos inferiorizados e invisibilizados para o foco, se diferenciando das tantas comemorações elitistas do eixo Rio-São Paulo. Nestes locais, a independência é comemorada com homenagens à Marinha, ao Exército e às Forças Aéreas. Não é à toa que esses desfiles são chamados de Cívico Militares, já que trazem um holofote ainda maior para a atuação militar no período, se afastando, desse modo, das tradições culturais, sincréticas e próximas ao povo do Festejo do 2 de Julho. No Hino ao 2 de Julho, o destaque à significância dessa data já se traduz na primeira estrofe, indicando que é nela que até mesmo o Sol nasce brilhando mais que no primeiro dia do mês, pois, nesse dia, até o Sol se torna brasileiro para comemorar essa conquista.

Mesmo com tantas pautas relevantes agregadas, o Cortejo de 2 de Julho tem aclamação quase inexistente no resto do país, tornando de suma importância o seu tombamento como bem cultural pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), que ocorreu em 2006, como forma de romper com o imaginário popular de um processo emancipacionista pacífico e instantâneo. Além disso, no ano de 2026, foi sancionada a lei que prevê a transferência simbólica da capital do Brasil para a cidade de Salvador no dia 2 de Julho. Tais medidas são maneiras de reconhecer a relevância histórica da data e de trazer visibilidade para a comemoração. Ainda há aqueles que defendem que o 2 de Julho deve ser um feriado nacional, para que todo o país conheça e celebre a luta do povo que, de fato, expulsou os portugueses do território. 

Portanto, relembrar a Independência da Bahia é festejar aqueles que não desistiram pelo seu país e pelo seu povo. É crucial que as escolas em todo o país estudem esse dia para que saibam a diferença que pessoas comuns fizeram na história de uma nação. 2 de Julho de 1823 é um dia que deve ser lembrado, comemorado e perpetuado, até porque, “nunca mais o despotismo regerá nossas ações” uma vez que “com tiranos não combinam brasileiros corações” (LADISLAU DOS SANTOS TITARA, 1824).

REFERÊNCIAS

KRAAY, H. A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA E OS HERÓIS POPULARES DO DOIS DE JULHO. [s.l: s.n.].

A convergência de forças para a expulsão das tropas portuguesas. Disponível em: <https://www.salvadordabahia.com/o-2-de-julho-independencia-do-brasil-na-bahia/>. Acesso em: 8 jun. 2026.

Quem foi Maria Quitéria, mulher que se vestiu de homem para lutar na Independência do Brasil. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59953275>. Acesso em: 28 jun. 2026.

Maria Quitéria. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Quit%C3%A9ria>. Acesso em: 28 jun. 2026.

Joana Angélica, a mártir católica que é considerada heroína da Independência. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-60428893>. Acesso em: 30 jun. 2026.

FRAZÃO, D. Joana Angélica. Disponível em: <https://www.ebiografia.com/joana_angelica/>. Acesso em: 30 jun. 2026.

Joana Angélica. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Joana_Ang%C3%A9lica>. Acesso em: 30 jun. 2026.

Quem foi Maria Felipa, a escravizada liberta que combateu marinheiros portugueses e incendiou navios. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62353785>. Acesso em: 30 jun. 2026.

GRAHAM, M. Diário de uma viagem ao Brasil. Tradução: AMÉRICO LACOMDE . [s.l: s.n.].

Lei torna Salvador capital simbólica do Brasil em 2 de Julho. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-07/lei-torna-salvador-capital-simbolica-do-brasil-em-2-de-julho>. Acesso em: 2 jul. 2026.

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    Fundado por alunos de Relações Internacionais da USP, somos um grupo de extensão que tem como missão promover a pesquisa e a extensão universitária na área de Relações Internacionais.

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    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Membro do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: História, Esferas de Poder, Diplomacia e América Latina.

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