Extermínio, Apagamento e Desumanização: O Genocídio Negro na Construção Identitária da Argentina
Por Ana Laura Maurano Maciel e Maria Clara Previatelli da Silva
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

RESUMO
Neste artigo, estuda-se a natureza do genocídio negro que se deu na Argentina, principalmente no período pós-abolição da escravidão, sob a ótica de dois pilares: o extermínio da população afro-argentina, e o apagamento e desumanização de sua cultura e presença. Aprofundando-se em cada um desses pilares, foram analisadas as estruturas que os compõem. No pilar do extermínio, foram exploradas a segregação social e a participação massiva da população negra argentina em guerras, tentativas de embranquecimento da população, falta de dados sobre a população negra e intencionalidade do extermínio. Já no pilar do apagamento cultural e desumanização, foram exploradas a missão civilizatória europeia na formação identitária da Argentina e a propaganda de uma suposta Argentina branca. Também, foram analisadas a política eugenista na Argentina e a intencionalidade do apagamento de sua presença e cultura. Por fim, foi dado um panorama sobre a Argentina contemporânea, abordando a composição demográfica da população negra no território, os casos de racismo e as políticas afirmativas.
Palavras-chave: Argentina, Genocídio, População Negra, Extermínio, Apagamento, Desumanização, Embranquecimento, Intencionalidade

1. INTRODUÇÃO:
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO
Ao estudar a história da Argentina, nota-se que a existência da população negra – principalmente na forma de africanos escravizados e de seus descendentes – antecede a estruturação do Estado. Entretanto, esse grupo é historicamente marginalizado e invisibilizado, tanto pelo governo, quanto por grande parte da população do país. Durante a formação da sociedade argentina, tomaram protagonismo políticas de apagamento racial e de discriminação, a fim de introduzir uma ideia, falsamente concebida, de que o país formou-se unicamente a partir de imigrantes brancos europeus¹.
As ondas imigratórias de europeus para o território fazem parte, também, de um processo o qual identificava a população negra já presente como incapaz de prosseguir com o povoamento, uma vez que, de acordo com as ideologias da época, esse povo não poderia ser “reeducado”². Para concretizar esse processo de apagamento da população negra, foram empregadas diversas formas de extermínio, tanto físicas quanto culturais e ideológicas, que serão abordadas no decorrer deste artigo.
A chamada “cegueira cromática argentina”³, é um dos pilares do “mito da homogeneidade racial” – expressão que relativiza a ideia de que a sociedade é unicamente composta por pessoas brancas – advém de políticas institucionalizadas de invisibilização das populações pretas e pardas. Um exemplo é a inexistência de dados estatísticos que contabilizassem essas pessoas de maneira precisa, a nível nacional, até o censo de 2010, o que partiu de uma concepção de que essas pessoas eram numericamente irrelevantes, pois estavam em vias de desaparecimento e não seria necessário, portanto, contabilizá-las⁴. Ao tomar conhecimento de tais políticas, assim, é possível relativizar alguns dados que apresentam a Argentina como um país unicamente branco e de descendência europeia, sem grandes influências do processo de escravização e resgatar, também, dados e documentos dessas populações que foram perdidos ou deliberadamente escanteados como parte do processo de homogeneização forçada, uma vez que, como disse Juan Jose Martinez Barraza em entrevista para a BBC, “quando a historiografia liberal enfatizou a república nascente e deixou para trás a colônia, colocou debaixo do tapete tudo relacionado à escravidão e escravos.”⁵
¹ CIRIO, Norberto P. Tinta negra en el gris de ayer. Los afroporteños a través de sus periódicos entre 1873 y 1882. Buenos Aires: Teseo, 2009.
² Entende-se, aqui, por “reeducados”, a adequação da população afrodescendente da América aos padrões eurocentrados impostos pelos colonizadores – estes que, antes da revisão historiográfica e do avanço do movimento negro na Argentina, eram tidos como os únicos agentes da formação do país. TÉRAN, Oscar. Vida intelectual en Buenos Aires fin-de-siglo (1880-1910): derivas de la “cultura científica”. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2008.
³ “Cegueira cromática argentina”: apagamento de certos indivíduos no que diz respeito a suas ancestralidades ao não serem reconhecidos diversos tons de pele em censos demográficos (Maffia; Tamagno, 2014)
⁴ MAFFIA, Marta M; TAMAGNO, Liliane E. Indígenas, africanos y afrodescendientes en la Argentina: convergencias, divergencias y desafíos. 1. ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Biblos, 2014. p. 238-242.
⁵ GONZÁLES, J. Por que a escravidão foi praticamente apagada da história de Chile e Argentina: ‘Aqui não há negros’. BBC News Brasil, 16 Jun. 2019. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48600318 Acesso em: 18/05/2026

1.2 JUSTIFICATIVA
Este artigo se insere como um projeto do Núcleo de Pesquisa do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz (LAI-BL) da Universidade de São Paulo (USP), o qual visa democratizar o estudo das Relações Internacionais por meio de iniciativas que contribuam com o acesso à pesquisa científica⁶. Tendo isso em vista, as autoras escolheram o tema “O genocídio negro na construção identitária da Argentina” para constituir sua pesquisa pois acreditam que esse genocídio é um fator que molda estruturas, relações e dinâmicas raciais presentes hodiernamente tanto na Argentina quanto na América Latina, e que o Estado Argentino difundiu internacionalmente a narrativa de que a população negra desapareceu de forma natural na Argentina, não estando mais presente nesse território. Nesse sentido, ao realizar uma pesquisa sobre o tema, evidencia-se a necessidade de se confrontar a versão oficial da História propagada pela Argentina, trazendo luz sobre a intencionalidade de extermínio da comunidade negra da área para que uma nação homogeneamente branca e de raízes europeias lá se estabelecesse.
1.3 HIPÓTESE
A Argentina, hoje, enxerga-se como um país de homogeneidade racial⁷, ou seja, um país puramente constituído por pessoas brancas descendentes de europeus. Dessa maneira, a hipótese sustentada neste artigo é de que essa visão da população e do Estado argentinos é baseada num projeto de nação articulado pelo amplo genocídio da população negra que se deu a partir da abolição da escravidão no país, instituída no ano de 1853, sendo tal genocídio alicerçado no extermínio físico da população negra, em seu apagamento sistemático e institucional perante o Estado e na desumanização dessa comunidade.
⁶ Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz. Missão, valores e visão do mundo. Disponível em: https://laibl.com.br/quem-somos-laboratorio-de-analise-internacional-lai-usp/modelo-institucional/. Acesso em 12 maio 2026.
⁷ OMAR ORSI, Guillermo. “Não há negros na Argentina”: o mito da homogeneidade racial argentina. 2021/2022. Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/92658631/_Nao_ha_negros_na_Argentina_o_mito_da_homogeneidade_racial_argentina-libre.pdf?1666120329=&response-content-disposition=inline%3B+filename%3DNao_ha_negros_na_Argentina_o_mito_da_ho.pdf&Expires=1778612919&Signature=UL88KFiyNVD7mVMT9x2HiBPrl9FLIuQbsF0EQWcGyd6P~1yupiBht9vIGuhNPb94OkCYFMBqAEt9WeZi6uWUsXCU8qV7awQxw76BMZEBr2y5VhCBpoCj37U8wvWHE~GrHmzgLsOGvNNjrNo14C5THqMsHt~px3tvxCN0aT8s~UR32rO56sS2EXGoKfMuyZsxvnajmTmMSkNaGgazZJZD6iF42oNcvtT9GTIzT0olGGdMzyW0AOZ4AXkQm-LUkRMF1Ehlqi9EelIsz3ndsXOgQiFanOobyP1hOrhgOjKqhgC2–aaXztSOWucnNkXVTuV6kRiNAAF7RimXYOCxvnuOQ__&Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA. Acesso em 12 maio 2026.

2. DESENVOLVIMENTO:
2.1 SEGREGAÇÃO SOCIAL
Muitas tentativas institucionalizadas de extermínio da população negras foram implementadas pelo Estado argentino no contexto posterior à abolição da escravidão no país, dada em 1853. Embora agora iguais perante a lei, a população preta continuava a serviço da elite branca, trabalhando nas fazendas dessas elites na planície do Rio da Prata ou servindo como capatazes, além de ser também segregada de muitos espaços públicos e de lazer por meio de um “código social”.
A partir da segunda metade do século XIX, esse “código social” de segregação muitas vezes superava a autoridade da própria legislação⁸ e, portanto, representava um isolamento institucional e social da população negra, apesar da conquista da igualdade jurídica. A exemplo, os negros não poderiam acessar espaços de lazer e convívio, como teatros, salões de baile, jardins e circos devido à presença de avisos de proibição colados às portas e às paredes de tais lugares. Assim, eram confinados a locais lidos socialmente como de “baixa categoria”. Além disso, a comunidade também sofreu com a invisibilidade institucional por meio da exclusão de carreiras políticas, sendo impedidos de acessarem cargos mais elevados nesse ramo.
Ademais, a população negra argentina também era segregada educacionalmente, em razão das amplas tentativas de separação racial no meio de ensino. Foram criados os chamados “colégios de castas”, colégios exclusivos para crianças negras, e muitas escolas públicas proibiam a entrada de pessoas negras. O “código social” também impunha tabus sobre o matrimônio inter-racial, tornando-o mal visto perante a sociedade e sendo retratado em muitas canções e tangos da época⁹.
⁸ MÁNTARAS, Mirta. Genocidio en Argentina. Cooperativa Chilavert Artes Gráficas Ltda. Disponível em: https://condor-atlanta.org/wp-content/uploads/2024/01/1-Genocidio-en-Argentina.pdf. Acesso em: 12 maio, 2026.
⁹ MOLAS, Ricardo Rodriguez. O negro na história da Argentina (1852-1900). Alfa: Revista de Linguística, São Paulo, v. 4, 2001. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3225. Acesso em: 12 maio, 2026.

2.1.2 PARTICIPAÇÃO EM GUERRAS
A população negra também foi peça-chave nos conflitos que impulsionaram a formação do Estado nacional argentino, mesmo que continuasse invisibilizada ao longo da duração desses conflitos e também posteriormente¹⁰.
Antes da elaboração da Constituição de 1853, a comunidade negra argentina era composta tanto por escravizados quanto por libertos, ambos exercendo grande protagonismo nas Guerras de Independência do país, as quais ocorreram do ano de 1810 ao ano de 1824. Nesse período, foram formadas as chamadas “tropas de cor”, que eram organizadas por soldados negros e “mulatos”¹¹ sob o lema de empunhar a espada para defender a nascente democracia, refletindo os valores iluministas da época, porém, muitas vezes tais soldados negros lutavam obrigados ou coagidos. Durante os mandatos de Juan Manuel de Rosas (1829-1832 e 1835-1852), o governo fazia uso de estratégias específicas para garantir a lealdade da comunidade negra, como o uso da “meia língua”, um dialeto comum entre a população, em poesias e jornais, e a criação de batalhões específicos para homens negros em idade reprodutiva. Esse contingente populacional que participou das batalhas de independência foi severamente dizimado, o que causou um grande impacto demográfico na população negra do país ao longo do século XIX, muito embora alguns sobreviventes, chamados de “negros velhos”, evidenciassem uma identidade em comum como resultado do tempo no campo de batalha, contrastando com a identidade homogeneamente branca argentina já preconizada pelo Estado em formação.
A mesma prática foi empregada durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). Um enorme contingente populacional negro foi enviado como “bucha de canhão”, ou seja, foi colocado estrategicamente na linha de frente de batalhas sangrentas. Alguns intelectuais negros da época, a exemplo de Horácio Mendizabal, denunciavam o Estado e a elite branca latino-americana, que tratavam o negro como um indivíduo “sem pátria”, exceto na hora de morrer por ela enquanto defendia os interesses da classe dominante. Além de Horácio, o jornalista e diplomata Hector Varela, de pseudônimo Orion, alegava que era uma infâmia o Estado exigir o sangue de negros e “mulatos” para defender a liberdade nacional em tempos de ameaça, enquanto lhes negava direitos básicos de cidadania e convívio social em tempos de paz. Nesse sentido, os negros eram instrumentalizados como elemento de guerra, o que culmina em um paradoxo sobre a cidadania para essa população.
Dessa forma, após a participação negra em tais guerras, ocorreu um enfraquecimento demográfico e político dessa comunidade, ao invés da esperada ascensão social proporcional. Nessa perspectiva, as guerras foram um dos principais fatores de “desaparecimento” negro na Argentina, somado a epidemias de cólera, varíola e disenteria, muito comuns no contexto da Guerra do Paraguai, e que afetavam majoritariamente a população negra por conta do acesso precário a direitos básicos de saúde.
¹⁰ MÁNTARAS, Mirta. Genocidio en Argentina. Cooperativa Chilavert Artes Gráficas Ltda. Disponível em: https://condor-atlanta.org/wp-content/uploads/2024/01/1-Genocidio-en-Argentina.pdf. Acesso em: 12 maio, 2026.
¹¹ Aqui, o termo “mulato” será utilizado entre aspas pois sua origem etimológica remete à palavra “mula”, aludindo ao híbrido entre cavalo e jumento, para referência ao filho de uma pessoa negra com uma pessoa branca. Essa visão remete ao período colonial, que objetificava e animalizava pessoas mestiças ou pardas.

2.1.2 TENTATIVAS DE EMBRANQUECIMENTO DA POPULAÇÃO
Durante o século XIX, muitos Estados latinoamericanos, inclusive o argentino, estimularam a imigração europeia para o continente, visando um embranquecimento da população local e a modernização da elite do respectivo país. Por conta desse processo, houve um deslocamento social e econômico da população negra, transformando radicalmente a fisionomia populacional argentina.
Além do massivo crescimento da população, a imigração europeia para a Argentina foi tão intensa que, até o momento, a grande maioria da população argentina descende desses imigrantes, enquanto a comunidade negra foi sendo diluída e silenciada, além de perder suas tradições culturais objetivando uma suposta adequação diante da pressão exercida pelos padrões de progresso europeus.
Ademais, o imigrante europeu substituiu ativamente a mão de obra negra no mercado de trabalho pós-escravidão. O sentimento causado pela substituição foi amplamente retratado em músicas e poesias da época, a exemplo da sociedade negra “6 de Enero”, que reproduzia em suas canções o ressentimento dos “napolitanos usurpadores” que tomavam postos como os de sapateiros, pescadores, vendedores e pintores de parede, anteriormente exercidos pela mão de obra negra.¹²
Somando-se à substituição da mão de obra, a imigração europeia também mudou a organização urbana e cultural. Ruas, bairros e cultura popular tornaram-se majoritariamente de imigrantes, escanteando a população negra para a periferia, tanto das cidades quanto da produção cultural, a exemplo do tango, que embora de origem africana, foi sendo assimilado por grupos brancos.
Dessa forma, a imigração europeia foi instrumentalizada para mudar não somente a fisionomia da nação argentina, mas também seus costumes culturais, mercado de trabalho e configuração urbana. A exemplo, o Artigo 25 da Primeira Parte da Constituição da Nação Argentina do ano de 1853, consta que o país tinha preferência sobre imigrantes europeus e que o governo federal encorajaria a imigração europeia¹³. Além desse Artigo, pode-se citar o texto “ Bases y puntos de partida para la organización política de la República Argentina”, do diplomata argentino Juan Bautista Alberdi, escrito em 1852. Nele, Alberdi discorre sobre a necessidade da imigração europeia para a modificação da população da época, o que é descrito no trecho:
No son las leyes las que necesitamos cambiar; son los hombres, las cosas. Necesitamos cambiar nuestras gentes incapaces de libertad por otras gentes hábiles para ella, sin abdicar el tipo de nuestra raza original, y mucho menos el señorío del país; suplantar nuestra actual familia argentina por otra igualmente argentina, pero más capaz de libertad, de riqueza y progreso.¹⁴
¹² MOLAS, Ricardo Rodriguez. O negro na história da Argentina (1852-1900). Alfa: Revista de Linguística, São Paulo, v. 4, 2001. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3225. Acesso em: 12 maio, 2026.
¹³ ARGENTINA. Constituição (1853). Constituição da República Argentina. Disponível em: https://ampf.org.br/wp-content/uploads/2023/08/Constituicao-da-Argentina-em-Portugues.pdf. Acesso em: 6 jul. 2026.
¹⁴ ALBERDI, Juan Bautista. Bases y puntos de partida para la organización política de la República Argentina. Buenos Aires, 1852. Disponível em: https://relial.org/uploads/biblioteca/44413618663a8cbdf14518f1f19c85f6.pdf. Acesso em: 6 jul. 2026.

2.1.4 FALTA DE DADOS SOBRE A POPULAÇÃO NEGRA ARGENTINA
Em adição aos fatores de participação em guerras e imigração europeia, o censo demográfico de pessoas negras na Argentina também sofreu intervenções deliberadas do Estado por meio de projetos de subnotificação e negligência institucional.
Anteriormente à abolição da escravidão na Argentina, os dados demográficos do ano de 1780 revelavam que os negros compunham 50% da população¹⁵. Entretanto, dados de 1863, 10 anos após a abolição, apontam que apenas 6 mil pessoas negras habitavam em Buenos Aires, o que indica um forte desaparecimento demográfico. Nesse sentido, tal desaparecimento se deve a uma multiplicidade de fatores empregados pelo Estado argentino para que houvesse subnotificação e negligência institucional dessa população em nome do estabelecimento de uma crença de homogeneidade racial no país. Um desses fatores é o branqueamento nos registros oficiais, que se deu no período de 1850 a 1950, ou seja, no período de ápice da imigração europeia para a Argentina. Nesse intervalo, nascimentos de pessoas mestiças eram registrados cartorialmente como brancos, o que gerou uma subnotificação contínua acerca da população negra do país.
Outro desses fatores é o longo hiato na coleta de dados sobre a ancestralidade africana ao longo da história dos censos demográficos argentinos Nesse contexto, o desaparecimento do elemento negro não somente dificultou os estudos sobre a trajetória dessa população no país, mas também dificultou o próprio reconhecimento e a autodeclaração de parte da população do país como negra, o que auxilia na corroboração da ideia de que a Argentina seria um país homogêneo racialmente.
¹⁵ A HISTÓRIA dos negros argentinos: por que eles quase “sumiram” do mapa por lá? Géledes Instituto da Mulher Negra, 2016. Disponível em: https://www.geledes.org.br/historia-dos-negros-argentinos-por-que-eles-quase-sumiram-do-mapa-por-la/. Acesso em 12 maio, 2026.

2.1.5 INTENCIONALIDADE DO EXTERMÍNIO
Diante disso, o desaparecimento da população negra argentina não foi um processo acidental ou natural, mas foi resultado de uma intencionalidade institucional e social.
Essa intencionalidade se manifesta por meio de políticas de Estado, como o incentivo e, em alguns casos, a obrigação à participação da população negra em conflitos tais quais as guerras de independência e a Guerra do Paraguai, nas quais eram criados batalhões especificamente para pessoas negras e que eram mandados para a linha de frente das batalhas.
Além disso, a intencionalidade também está presente na negligência deliberada do Estado para com a população negra, que, após a abolição da escravidão, viu-se entregue à própria sorte sem a garantia de direitos básicos pelo governo. Adicionalmente , a comunidade foi segregada do restante da sociedade, sendo empurrada para guetos, favelas e cortiços, nos quais não havia higiene ou saneamento básico. Esse contato com a insalubridade tornou-a mais suscetível a epidemias, resultando em mortes em massa que o Estado não buscou evitar.
Ademais, a intencionalidade também se manifesta no projeto de branqueamento populacional e cultural da Argentina. Esse projeto se deu por meio de ferramentas como substituição étnica via incentivo à imigração europeia, cujo objetivo era não apenas substituir a mão de obra negra, mas também “civilizar” e modernizar o país segundo padrões europeus, o que contribuiu para a aniquilação da influência negra sobre a formação do povo e da cultura. Além dessa substituição, o projeto de branqueamento utilizou da subnotificação demográfica e branqueamento de registros para diluir oficialmente a presença africana nos censos e pesquisas.
Fomentando todo esse processo, estava o código social, que era muitas vezes superior à legislação e que impedia o acesso de pessoas negras a cargos e espaços de prestígio, boa educação e até mesmo ao matrimônio com pessoas brancas, o que criava barreiras intransponíveis para sua integração na sociedade.
Dessa forma, o Estado argentino operou um massacre a longo prazo da população negra que combinava o sacrifício em guerras, a negligência deliberada e uma política de imigração e apagamento em registros civis. Assim, esse massacre intencional levou ao desenho de uma sociedade em que o elemento negro é cultural e estatisticamente inexistente.
2.2 APAGAMENTO CULTURAL E DESUMANIZAÇÃO
2.2.1 A MISSÃO CIVILIZATÓRIA EUROPEIA E A FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DA ARGENTINA
Como mencionado anteriormente, criou-se na Argentina a ideia de que promover o país como sendo fruto apenas de imigração europeia e, portanto, propagação de normas e costumes europeus ao invés da perpetuação da cultura afro-argentina – considerada “insuficiente” e “irrelevante” para os colonizadores – seria a lógica seguida para a formação identitária local. Partindo disso, pode-se notar que a “missão civilizatória”¹⁶ europeia apresentou-se de maneira extremamente intensa no território analisado, obtendo êxito em subalternizar e desumanizar a população negra ali presente.
Parte do processo “civilizatório” se deu com base na “domesticação” dos negros, os quais, durante o processo de escravização – que deixou resquícios que podem ser apontados até a atualidade, como casos explícitos de racismo e o próprio mito da inexistência dos negros na Argentina – foram entendidos como meras mercadorias componentes de um plano eurocentrista de sistematização das sociedades a partir de ideais concebidos por uma elite da Europa que visava expandir o modelo por eles idealizado para os demais territórios do globo, desconsiderando as especificidades culturais de cada um. Como diz Pratt (apud McClintock, 2010, p. 62): “Pois o que eram o comércio de escravos e o sistema de plantation senão maciços experimentos em engenharia social e disciplina, produção em série, sistematização da vida humana, padronização de pessoas”. Ou seja, a ideia de uma Argentina branca encaixou-se nos padrões idealizados pelos colonizadores, uma vez que apaga da história a influência daqueles que não eram nem ao menos tidos como indivíduos, mas sim como objetos de conversão, os quais deveriam se habituar ao modelo econômico vigente, à origem histórica e aos valores culturais impostos e comandados pela Europa.
O papel da domesticidade desses grupos, para McClintock, é descrito como:
Através dos rituais da domesticidade¹⁷, cada vez mais global e muitas vezes violenta, animais, mulheres e pessoas colonizadas eram retiradas de seu estado de “selvageria” putativamente “natural”, ainda que, ironicamente, pouco “razoável” e eram induzidas, através da narrativa doméstica do progresso, a uma relação hierárquica para com os homens brancos. Assim, a ideia histórica da domesticidade mantém uma relação ambivalente com a ideia imperial de natureza, pois a “domesticação” se impõe energicamente à natureza para produzir uma esfera social que é considerada natural e universal em primeiro lugar.¹⁸
Ou seja, a subjugação dos negros na sociedade argentina promoveu um processo de perda de identificação, uma vez que, em uma sociedade moldada a partir de padrões europeus, a cultura e os costumes dos afro-argentinos não pareciam “razoáveis” e, portanto, não pertencentes àquela nação, fortificando a ideia de um país unicamente branco.
¹⁶ Entende-se aqui, por “missão civilizatória”, o conjunto de práticas europeias de dominação, as quais abarcaram tanto aspectos físicos e demográficos – como extermínio de povos originários, escravização, massacres etc. – quanto a imposição de ideais europeus em territórios estrangeiros a fim de adequar suas populações aos moldes que mais beneficiavam os colonizadores. Sob o pretexto de levar a “civilização” – partindo do preceito de que os outros povos, por não serem europeus, não seriam civilizados –, os europeus forçaram seus costumes, idioma, economia e política sobre comunidades que tiveram suas culturas sufocadas e, em muitos casos, esquecidas.
¹⁷ “Tantas vezes alardeado como um espaço universal natural – abrigado nos interiores mais recônditos da sociedade, ainda que teoricamente além do domínio da análise política –, o culto da domesticidade envolve processos de metamorfose social e sujeição política das quais o gênero é a dimensão permanente, mas não a única.” MCCLINTOCK, Anne. Domesticidade e racismo da mercadoria. In: MCCLINTOCK, A. Couro Imperial: Raça, Gênero e Sexualidade no Embate Colonial. Editora Unicamp, 2010. Acesso em 05/07/2026
¹⁸ McClintock, Anne. Domesticidade e racismo da mercadoria. In: MCCLINTOCK, A. Couro Imperial: Raça, Gênero e Sexualidade no Embate Colonial. Editora Unicamp, 2010. Acesso em 18/05/2026

2.2.1.1 A PROPAGANDA DE UMA “ARGENTINA BRANCA”
Tendo em vista os avanços nos estudos a respeito das origens étnicas da Argentina e a luta de coletivos negros por representatividade e reconhecimento, um viés otimista apontaria para a diminuição dos discursos que pregam a homogeneidade racial, entretanto, este não é o panorama vivenciado no país latino-americano atualmente. Muitas vezes, o argumento de que o país recebeu ampla leva de imigrantes europeus é utilizado para, na verdade, implicitamente propagar um discurso racista e eugenista, muitas vezes atrelado a falas preconceituosas contra outros Estados que possuem presença mais expressiva de populações afrodescendentes.
Em declaração memorável, o ex-presidente argentino Alberto Fernandez declarou: “os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas nós, argentinos chegamos em barcos, barcos que vinham da Europa”¹⁹. Além de uma preposição preconceituosa, que visava subjugar os mexicanos e os brasileiros em razão da presença de povos não-europeus na população, Fernandez demonstrou a lógica exposta por McClintock, segundo a qual populações eurocentradas eram vistas como o “ideal” e, portanto, o “modelo correto” de uma civilização, caracterizando o “ser”, enquanto as que se distanciavam desse padrão eram o “não ser”.
Nesse sentido, a declaração do ex-presidente subordina os povos originários de países da América Latina, humilhando-os ao, por exemplo, dizer que os brasileiros “saíram da selva” – em uma aproximação que buscava animalizar os povos originários do Brasil ao compará-los com animais selvagens – aos europeus, os quais, nesse discurso, em razão de sua origem étnica, configurariam um status maior de “civilidade” aos argentinos, enquanto os outros povos aparecem, não como exemplos de pluralidade, mas sim como empecilhos para o estabelecimento de normas europeias em um território não-europeu. Nesse sentido, a história argentina é marcada pelo abafamento de práticas e costumes que distoaram dos parâmetros europeus, tanto por uma imposição direta – com o massacre de afro-argentinos e demais povos não-europeus – quanto por um sufocamento gradativo de quaisquer práticas que pudessem trazer à tona práticas de populações negras também constituintes da história argentina. Sobre isso, analisa McClintock:
A domesticidade denota tanto um espaço (um alinhamento geográfico e arquitetônico) quanto uma relação social de poder. O culto da domesticidade, longe de ser um fato universal da “natureza”, tem uma genealogia histórica. A ideia do “doméstico” não pode ser aplicada de maneira geral a qualquer casa ou domicílio como fato universal ou natural.
Ao mencionar a “genealogia histórica” da domesticação, a pesquisadora faz referência, justamente, à ideia de que o silenciamento e o sufocamento de um determinado grupo social é um componente pensado e articulado de um projeto colonizador. Assim, ao apresentar a Argentina como um país homogeneamente branco, ressalta-se o êxito de uma política que, desde sua idealização, visou ao escanteamento de culturas que não compunham o padrão eurocentrista de se compreender o mundo.
¹⁹ CARMO, M. ‘Ainda há argentinos que acham que são europeus’, diz sociólogo. BBC News Brasil, Jun. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57422962 Acesso em 19/05/2026

2.2.2 A ANIMALIZAÇÃO COMO UMA FORMA DE CONTROLE COLONIAL
“Nossa tropa de choque recebeu a missão de transformar essa certeza abstrata em realidade: a ordem é rebaixar os habitantes do território anexado ao nível do macaco superior para justificar que os colonos os trate como bestas de carga.”²⁰. Este trecho do livro “Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, demonstra como a subalternização e a desumanização das populações exploradas consolidou-se como uma premissa essencial para a exploração colonial e para a imposição de valores estrangeiros sobre a cultura dominada. Nesse sentido, opõe-se a imagem do europeu branco como sendo o objetivo final, o exemplo de indivíduo “irretocável” e detentor da moral “correta” e “merecedora” de ser propagada ao afro-argentino o qual, frente às diversas tentativas de apagamento, enfrenta ainda, a mazela de ser apresentado como não digno de reconhecimento, como um obstáculo e aproximado a um animal que tem de ser eliminado da história argentina. Assim sendo, o colonialismo foi responsável por determinar o ser e o não-ser, nesse caso, baseado na raça: o ser, ou seja, o “correto” a ser seguido é o padrão do homem branco europeu, enquanto o não-ser corresponde àquilo que deve ser dizimado, a população preta. ²¹
Com base nisso, pode-se notar que diversos discursos racistas promovidos, tanto internamente no território argentino quanto fora dele partem de pressupostos que minimizam a existência de pessoas negras, reduzindo-as à incômodos e, portanto, alocando-as no espectro do “não-ser”. Por isso, não é incomum deparar-se com relatos como os de Marta Salgado – ativista chilena, que vive em situação similar aos afro-argentinos, uma vez que o Chile também passa por um constante processo de extermínio cultural, identitário e físico da população afrodescendente –, que relata sentir-se como uma estrangeira dentro de seu próprio país em razão de sua cor de pele. ²²
Além disso, não é incomum a observação de comportamentos preconceituosos que têm como base a comparação de pessoas negras com animais, exemplificando a lógica da animalização como um meio de menosprezar e humilhar indivíduos ao colocá-los em um patamar de subalternidade. Isso pode ser visto, também, em ambientes que transpassam as barreiras territoriais e atingem indivíduos de outros países, como é o caso da advogada argentina Agostina Páez que, no Rio de Janeiro, foi condenada e detida após cometer injúria racial com uma funcionária de um estabelecimento no bairro de Ipanema. Em síntese, a narrativa colonial de, ao animalizar as comunidades negras colocando-as no espectro do “não-ser” se faz presente em toda a história, até a atualidade, como uma forma de desumanização e controle de narrativa do que a elite branca argentina deseja que seja passado como o processo de formação da identidade do país.
²⁰ FANON, F. Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968, p. 9
²¹ FERREIRA, B. Animalização Humana: biopoder e a besta interior. Tese de Doutorado (Doutorado em Direito) – Departamento de Direito, Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, 2022.
²² GONZÁLES, J. Por que a escravidão foi praticamente apagada da história de Chile e Argentina: ‘Aqui não há negros’. BBC News Brasil, 16 Jun. 2019. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48600318 Acesso em: 19/05/2026

2.2.2.1 A POLÍTICA EUGENISTA NA ARGENTINA
Em 1918 foi fundada, na Argentina, a Sociedad Argentina de Eugenesia (Sociedade Argentina de Eugenia), por Victor Delfino, que veio a se tornar o maior nome dentro das políticas eugênicas na Argentina, estabelecendo amplo contato com outros embaixadores dessa mesma ideia em outros países, como é o caso de Renato Kehl, no Brasil. Dentre os principais objetivos dessa organização estava a “purificação da Argentina”, ou seja, intensificar o processo já em andamento de extermínio e isolamento de qualquer indivíduo não-branco, até que fosse estabelecido seu completo apagamento do ideário nacional. ²³
Tal instituição de propagação do racismo tinha como premissa a ideia de que o controle da mentalidade dos indivíduos para que eles fossem condicionados a agir contra qualquer expressão de pluralidade que fugisse aos padrões europeus deveria se iniciar nos primeiros anos da educação escolar. Para isso, foi planejado um sistema de incentivo ao ensino da higiene nas escolas, não com um teor de preocupação com a saúde pública, mas sim remetendo novamente à animalização dos negros, os quais, sob essa ótica eugenista, são considerados sujos e, portanto, “atacados” pelos principios sanitaristas.
O fortalecimento dos ideais eugenistas promovidos por essa Sociedade ocorreu com o golpe de Estado liderado por José Félix Benito Uriburu, em 1930, uma vez que este intensificou o contato entre os propagadores do eugenismo argentino e os italianos, os quais, envoltos por um contexto de avanço do fascismo, avançaram os estudos que promoviam o massacre de indivíduos não-brancos. Sendo um admirador do fascismo italiano, Uriburu promoveu viagens, as quais facilitaram o intercâmbio de pensamentos entre os eugenistas de ambos os países e culminou na criação da Associação Argentina de Biotipologia, Eugenia e Medicina Social (1932-1943), pelos médicos Arturo Rossi e Octávio López após visitas aos centros de biotipologia italianos. Essa Associação, nesse contexto, serviu como um espaço de ampla circulação de ideias eugenistas e contato de intelectuais com obras internacionais, a exemplo da ampla bibliografia a esse respeito escrita pelo brasileiro Renato Kehl. Segundo as pesquisadoras Kinoshita e Rocha²⁴:
[…] Os trabalhos publicados por Renato Kehl no Brasil dialogavam com o contexto de ascensão da ciência eugênica na Argentina, servindo, em muitos casos, como apoio ao movimento, e também como base teórica para o desenvolvimento de tais ideias no país. O entusiasmo argentino em relação às obras de Renato Kehl era tão intenso, que algumas obras chegaram a ser traduzidas e adaptadas para a língua espanhola […]
Ou seja, além de um movimento amplamente difundido nacionalmente de desumanização dos negros a partir de uma política intensa de embranquecimento populacional e massacre – tanto físico quanto ideológico – o viés eugenista argentino se baseava, também, em posições internacionais, vindas tanto de países latinos, como o Brasil, quanto europeus, como é o caso da Itália e da Inglaterra.²⁵
²³ ROITBERG, G. A educação eugenista latino-americana: correspondências entre os intelectuais brasileiros e argentinos nas décadas de 1920 e 1930. Diálogos Latinoamericanos, Universidade Federal de São Carlos, Brasil, v.29, 2020
²⁴Kinoshita, C.T.; Rocha, H.H.P. 2013. “Renato Kehl, Victor Delfino e Alfredo Verano: circulação de ideias eugênicas entre Brasil e Argentina”. Anais do VII Congresso Brasileiro de História da Educação. Disponível em: http://bit.do/kehl. Acesso em 20/07/2020. Rocha, S. 2010. “Eugenia no Brasil: análise do discurso ‘científico’ no Boletim de Eugenia: 1929-1933”. Tese (doutorado). Programa de História da Ciência. PUC-SP.
²⁵ ROITBERG, G. A educação eugenista latino-americana: correspondências entre os intelectuais brasileiros e argentinos nas décadas de 1920 e 1930. Diálogos Latinoamericanos, Universidade Federal de São Carlos, Brasil, v.29, 2020

2.3 PANORAMA DA SOCIEDADE ARGENTINA ATUAL
A Argentina contemporânea se vê majoritariamente como europeia, mas encontra-se em um processo de redescoberta de suas raízes africanas.
Mesmo que cerca de 85% da população argentina se reconheça como descendente de imigrantes europeus, sobretudo italianos e espanhóis, a ancestralidade negra argentina tem emergido²⁶, impulsionada especialmente por meio de medidas como os censos demográficos de 2010 e 2022, que agora levam em conta métricas étnico-raciais e dados sobre populações afrodescendentes e indígenas no país.
Entretanto, a estrutura social argentina ainda perpetua casos severos de racismo, refletindo processos históricos de exclusão, invisibilização e inferiorização, muito embora haja no país o discurso de que “não há racismo porque não há negros”.
²⁶ A HISTÓRIA dos negros argentinos: por que eles quase “sumiram” do mapa por lá? Géledes Instituto da Mulher Negra, 2016. Disponível em: https://www.geledes.org.br/historia-dos-negros-argentinos-por-que-eles-quase-sumiram-do-mapa-por-la/. Acesso em 12 maio, 2026.

2.3.1 COMPOSIÇÃO DEMOGRÁFICA NEGRA
Foi somente no ano de 2006 que o governo argentino decidiu realizar um censo-piloto focado na questão da ancestralidade africana, no qual mais de 5% dos entrevistados sabiam ter antepassados africanos, e 20% consideravam essa possibilidade. Entretanto, esse censo-piloto foi aplicado em bairros e cidades com forte histórico da presença negra, como Monserrat em Buenos Aires e Santa Fé.
Nessa perspectiva, dados do censo demográfico argentino realizado em 2010 contabilizaram que 0,4% da população se reconhece como afrodescendente ou possui antepassados negros ou africanos. Já no censo de 2022, os dados apontam que a população que se reconhece como afrodescendente ou possui antepassados negros ou africanos totaliza 0,7% da população total de pessoas que habita em domicílios particulares no país.
Dessa forma, é possível perceber que o alcance territorial muda a percepção da negritude na Argentina. Ainda assim, tais dados são uma grande conquista para a visibilidade negra na Argentina em razão de possibilitarem a reflexão sobre ancestralidade e ampliarem o processo de autodeclaração negra no país.
2.3.2 CASOS DE RACISMO
Como consequência da estrutura social moldada pelo projeto de Estado argentino de invisibilização, segregação e morte da comunidade negra do país, manifestam-se o racismo e a marginalização dessa população até a contemporaneidade. Muito desse preconceito advém da crença, resultante de tal projeto de Estado, de que a Argentina seria uma nação exclusivamente branca e de raízes europeias, na qual cerca de 85% dos cidadãos se identificam como descendentes de imigrantes europeus²⁷. Dessa forma, tal percepção demográfica alimenta na sociedade o discurso de que “se não há negros na Argentina, não há racismo no país”.
No entanto, esse discurso é tendencioso e falacioso, já que a população negra ainda está presente no país, além de que a Argentina já protagonizou múltiplos casos de racismo nos mais diversos âmbitos, sejam domésticos ou internacionais. Um caso de destaque aconteceu em fevereiro de 2026, durante um jogo de futebol entre os times Benfica e Real Madrid para a Uefa Champions League. Nos primeiros cinco minutos do segundo tempo, o atleta brasileiro Vinícius Jr., do Real Madrid, marca um gol e comemora, mas logo relata ao árbitro que o jogador argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, ofendeu-o com insultos racistas.
Outro caso emblemático, o qual ganhou notoriedade na mídia brasileira, foi o da advogada argentina Agostina Páez, que foi acusada de injúria racial por funcionários de um bar em Ipanema, no Rio de Janeiro, pois os ofendeu com palavras e gestos racistas. Após a denúncia, Páez foi sentenciada com prisão domiciliar e uso de tornozeleira eletrônica, além de ser impedida de sair do Brasil durante a tramitação.
Esses casos tornam explícito o fato de que a Argentina e seus cidadãos ainda vivem sob uma estrutura social fundada no racismo e no preconceito, muito embora, historicamente, o discurso hegemônico advindo de um projeto de Estado é de que “não há racismo porque não há negros.”
²⁷ A HISTÓRIA dos negros argentinos: por que eles quase “sumiram” do mapa por lá? Géledes Instituto da Mulher Negra, 2016. Disponível em: https://www.geledes.org.br/historia-dos-negros-argentinos-por-que-eles-quase-sumiram-do-mapa-por-la/. Acesso em 12 maio, 2026.

2.3.3 POLÍTICAS AFIRMATIVAS
Embora ainda estejam em processo de emergência, as políticas afirmativas na Argentina contemporânea apresentam avanços significativos na última década, o que contribui expressivamente para o acesso de pessoas negras a espaços negados a elas historicamente e para o combate ao imaginário nacional branco e europeu.
Em virtude desse imaginário de nação, as políticas afirmativas ainda buscam se firmar nos campos acadêmicos e político-institucionais da Argentina²⁸. Contudo, alguns marcos de avanço para as ações afirmativas são a inclusão de uma pergunta sobre autorreconhecimento étnico no Censo de 2010, o que permite a retirada de dados estatísticos sobre a população afro-argentina e elaborar maneiras de atender a suas demandas, a criação do Plano Nacional Afro (2021-2024), o qual objetivou gerir políticas de inclusão e melhora de condições de vida da população negra por todo o território nacional, e o estabelecimento do dia 8 de novembro como Dia Nacional dos/as Afro-argentinos/as e da Cultura Afro, além de incorporar o tema nos currículos e calendários escolares, visando ao maior reconhecimento histórico dessa população perante a sociedade argentina.
Apesar da elaboração de respectivas ações afirmativas, ainda inexistem, no país, cotas raciais para ensino superior e para cargos de liderança no trabalho, dificultando o acesso de pessoas negras a diversos ambientes negados a elas historicamente. Entretanto, há cátedras e programas específicos para a população negra dentro das universidades, como a Cátedra de Direitos das Comunidades Negras na Faculdade de Direito da UBA, de 2022, e o programa de bolsas Progresar, que passou a incluir a variável étnico-racial em seus registros
Dessa forma, as ações afirmativas ainda estão em fase de construção na Argentina, buscando visibilidade e reconhecimento institucional e acadêmico para que os afro-argentinos usufruam de políticas de equidade e combate ao racismo.
²⁸ ÓCORO LOANGO, Anny. Igualdade racial e ações afirmativas na Argentina e no Brasil. Educação & Sociedade, v.43, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/es/a/CgRTS9W8tLdXJPfWXQPNkcF/?format=html&lang=pt. Acesso em: 18 maio, 2026

3. CONCLUSÃO:
Neste artigo, foram abordadas as complexidades envolvendo o “mito da homogeneidade racial” na Argentina. Frente às proposições que buscam estabelecer o país latino-americano como historicamente construído a partir de, unicamente, imigrações europeias, diversos estudos e análises demonstram como, na verdade, tal alegação é baseada em décadas de racismo e de apagamento deliberado das populações negras lá existentes.
Como foi apresentado, o extermínio ocorreu tendo como base três pilares principais: o extermínio físico, o apagamento cultural e a desumanização. Assim sendo, nota-se, na história da Argentina, uma concepção de que as populações negras seriam “descartáveis” e, por isso, não deveriam ser contabilizadas em dados estatísticos. Para contribuir com isso, durante as guerras, não era incomum que esses indivíduos fossem utilizados como “escudos humanos” sob o pretexto de, por exemplo, defender a democracia, como ocorreu no caso das guerras de independência com a formação das “tropas de cor”²⁹. Ademais, o processo de embranquecimento do país, por meio da intensa imigração europeia, o qual se intensificou principalmente no século XIX contribuiu para o apagamento e consequente invisibilização dos negros, os quais tiveram seus postos de trabalho tomados pelos europeus, além de uma imposição da cultura estrangeira sobre a local. ³⁰
Em termos estatístico, a tentativa de extermínio da população negra explicita-se ao jogar-se luz sobre as análises dos censos demográficos do Estado, uma vez que a autodeclaração de uma pessoa como “negra” ou “parda” só foi incluída em 2010, demonstrando o extremo descaso de órgãos governamentais para com essas populações, considerando-as irrelevantes e, na maioria das vezes, inexistente.³¹ Sendo assim, percebe-se que o processo de colonização e, posteriormente, o processo de formação de uma Argentina independente se deu com base na subjugação dos indivíduos pretos à uma elite imigrante europeia e branca, o que pode ser compreendido a partir de lógicas de “domesticação” dessas pessoas desde o período colonial, fazendo com que suas existências fossem reduzidas a um papel de submissão forçada.³²
Com isso, conclui-se que a ideia de que a Argentina é um país inteiramente branco deve ser relativizada, considerando que essa perspectiva tem como base, na realidade, séculos de apagamento cultural e extermínio físico, os quais buscaram – e ainda têm esse objetivo na atualidade – eliminar uma grande parcela populacional com base em ideologias racistas e eurocentristas, as quais podem ser notadas no cotidiano do povo negro argentino, os quais, mesmo sendo nativos, sentem-se estrangeiros no próprio território em razão das políticas neste artigo abordadas. Por fim, ressalta-se a importância de estudos sobre esse tópico, a fim de trazer luz à aspectos da demografia argentina tão invisibilizados nos últimos anos, mas igualmente relevantes para a construção cultural e demográfica do Estado.
²⁹ MÁNTARAS, Mirta. Genocidio en Argentina. Cooperativa Chilavert Artes Gráficas Ltda. Disponível em: https://condor-atlanta.org/wp-content/uploads/2024/01/1-Genocidio-en-Argentina.pdf. Acesso em: 12 maio, 2026.
³⁰ MOLAS, Ricardo Rodriguez. O negro na história da Argentina (1852-1900). Alfa: Revista de Linguística, São Paulo, v. 4, 2001. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3225. Acesso em: 12 maio, 2026.
³¹ MAFFIA, Marta M; TAMAGNO, Liliane E. Indígenas, africanos y afrodescendientes en la Argentina: convergencias, divergencias y desafíos. 1. ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Biblos, 2014. p. 238-242.
³² McCLINTOCK, Anne. Domesticidade e racismo da mercadoria. In: McCLINTOCK, A. Couro Imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: Editora Unicamp, 2010. Acesso em: 18 maio. 2026.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
A HISTÓRIA dos negros argentinos: por que eles quase “sumiram” do mapa por lá? Geledés Instituto da Mulher Negra, 2016. Disponível em: https://www.geledes.org.br/historia-dos-negros-argentinos-por-que-eles-quase-sumiram-do-mapa-por-la/. Acesso em: 12 maio. 2026.
ALBERDI, Juan Bautista. Bases y puntos de partida para la organización política de la República Argentina. Buenos Aires, 1852. Disponível em: https://relial.org/uploads/biblioteca/44413618663a8cbdf14518f1f19c85f6.pdf. Acesso em: 6 jul. 2026.
ARGENTINA. Constituição (1853). Constituição da República Argentina. Disponível em: https://ampf.org.br/wp-content/uploads/2023/08/Constituicao-da-Argentina-em-Portugues.pdf Acesso em: 6 jul. 2026.
CARMO, M. ‘Ainda há argentinos que acham que são europeus’, diz sociólogo. BBC News Brasil, jun. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57422962. Acesso em: 19 maio. 2026.
CIRIO, Norberto P. Tinta negra en el gris de ayer. Los afroporteños a través de sus periódicos entre 1873 y 1882. Buenos Aires: Teseo, 2009.
FANON, F. Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968. p. 9.
FERREIRA, B. Animalização Humana: biopoder e a besta interior. Tese de doutorado (Doutorado em Direito) – Departamento de Direito, Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, 2022.
GONZÁLEZ, Jaime. Por que a escravidão foi praticamente apagada da história do Chile e Argentina: ‘Passo por estrangeira no meu próprio país por causa da minha cor’. BBC News Brasil, 11 fev. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz6ejjw33jpo. Acesso em: 19 maio. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA Y CENSOS (INDEC). Censos de población en la Argentina. Buenos Aires: INDEC, 2022. Disponível em: https://censo.gob.ar/index.php/historia/. Acesso em: 12 maio. 2026.
MAFFIA, Marta M.; TAMAGNO, Liliane E. Indígenas, africanos y afrodescendientes en la Argentina: convergencias, divergencias y desafíos. 1. ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Biblos, 2014. p. 238-242.
MANTARÁS, Mirta. Genocidio en Argentina. Cooperativa Chilavert Artes Gráficas Ltda. Disponível em: https://condor-atlanta.org/wp-content/uploads/2024/01/1-Genocidio-en-Argentina.pdf. Acesso em: 12 maio. 2026.
McCLINTOCK, Anne. Domesticidade e racismo da mercadoria. In: McCLINTOCK, A. Couro Imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: Editora Unicamp, 2010. Acesso em: 18 maio. 2026.
MOLAS, Ricardo Rodriguez. O negro na história argentina (1852-1900). Alfa: Revista de Linguística, São Paulo, v. 4, 2001. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3225. Acesso em: 12 maio. 2026.
OCORÓ LOANGO, Anny. Igualdade racial e ações afirmativas na Argentina e Brasil. Educação & Sociedade, v. 43, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/es/a/CgRTS9W8tLdXJPfWXQPNkcF/?format=html&lang=pt. Acesso em: 18 maio. 2026.
OMAR ORSI, Guillermo. “Não há negros na Argentina”: o mito da homogeneidade racial argentina. 2021/2022. Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/92658631/_Nao_ha_negros_na_Argentina_o_mito_da_homogeneidade_racial_argentina-libre.pdf. Acesso em: 12 maio. 2026.
QUEM é Gianluca Prestianni, argentino do Benfica que Vinicius Jr. acusou de fala racista em jogo do Real Madrid na Champions League. ESPN, 17 fev. 2026. Disponível em: https://www.espn.com.br/futebol/champions-league/artigo/_/id/16325562/quem-gianluca-prestianni-argentino-benfica-vinicius-jr-acusou-fala-racista-benfica-real-madrid-champions-league. Acesso em: 19 maio. 2026.
REID ANDREWS, George. Los afroargentinos en Buenos Aires. Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 1989.
ROITBERG, G. A educação eugenista latino-americana: correspondências entre os intelectuais brasileiros e argentinos nas décadas de 1920 e 1930. Diálogos Latinoamericanos, Universidade Federal de São Carlos, Brasil, v. 29, 2020.
TERÁN, Oscar. Vida intelectual en el Buenos Aires fin-de-siglo (1880-1910): derivas de la “cultura científica”. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2008.
Share this content:


