“Lute como um Americano”: os Quadrinhos como Arma Política
Por Ágata Cesquim, Alice Jasmin e Isadora Estanislau.
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Soft Power e a disputa por narrativas globais
No final da década de 1980, com o evidente declínio da autoridade internacional estadunidense devido aos desgastes econômicos da Guerra Fria, o conceito de “Soft Power”, ou “Poder Brando”, cunhado por Joseph Nye, tornou-se central para compreender como o país norte-americano não apenas manteve seu domínio ideológico, como continuou a propagá-lo com instrumentos que ultrapassaram as tradicionais forças bélica e econômica.
Nesse viés, a capacidade de um Estado influenciar e moldar as preferências de grupos sociais, Organizações Internacionais e até mesmo de outros países por meio de instrumentos não-coercitivos (força militar ou sanções econômicas, por exemplo), ou seja, por persuasão e propaganda, é o que caracteriza “Soft Power”. O poder em questão, postula Nye, passa a ser cada vez mais distinto entre as estratégias políticas atuais, edificadas sobre redes de comunicação globais e, consequentemente, pela instantaneidade da informação. Dessa forma, em razão de altos valores econômicos atribuídos ao uso da força militar ao impor a vontade de um país sobre outro, o Soft Power torna-se uma alternativa menos custosa a inúmeros países.
Com efeito, “[…] a capacidade de obter os resultados desejados e, se necessário, mudar o comportamento dos outros para obtê-los” foi aproveitada pelos Estados Unidos, os quais, utilizando instrumentos como a cultura, a propagação de valores políticos domésticos e a diplomacia estratégica, buscavam expandir seu domínio militar, econômico e cultural durante a Guerra Fria.
Essa expansão ideológica estadunidense baseou-se na estrutura de “cascatas normativas”, em que a socialização de uma narrativa entre países ganha força conforme é adotada por mais Estados, no caso, os aliados ao sistema capitalista durante o conflito, o que ampliou a disputa por narrativas globais na segunda metade do século XX.

Dessa forma, com enaltecimento ou censura diplomática, com sanções materiais ou com incentivos culturais, ou seja, fazendo uso do “Soft Power”, mais agentes políticos integravam a parcela capitalista do globo, porque “[…] uma combinação de pressão por conformidade, desejo de aumentar a legitimidade internacional, e o desejo de líderes de Estado por engrandecer a própria imagem facilita as cascatas normativas”.
Entretanto, vale ressaltar que a instrumentalização da diplomacia e da cultura de massa em torno do Soft Power não se fundamenta sozinha. Ou seja, para que um país tenha a capacidade de influenciar ideologicamente outros Estados, faz-se necessário que ele já detenha de certo poder econômico e/ou militar, ou ainda disponha de recursos e produtos interessantes a terceiros. Tomando por exemplo os Estados Unidos, a disputa por hegemonia global durante a Guerra Fria (1947-1991) mobilizou forças políticas e culturais (Soft Power) bem como forças bélicas, em intervenções militares em países como a Coreia (1950), o Vietnã (1955), a ilha caribenha de Granada (1983), o Panamá (1989), entre outros, além do apoio a atores armados ou a forças ditatoriais na Namíbia, na Nicarágua, em Angola, em El Salvador, na Líbia e em muitos outros Estados.
Em razão disso, é difícil mensurar exatamente a dimensão dos impactos desse “poder brando” para as dinâmicas internacionais. Ao compreender que o Soft Power não age sozinho, mas muitas vezes atua em conjunto ao Hard Power, o “Poder Duro”, relacionado a guerras, a operações militares e a sanções econômicas, evidencia-se que a pressão por conformidade e o desejo de alcançar maior legitimidade internacional supracitados são construídos sobre a base dos poderes coercitivos tradicionais.
Ou seja, em um contexto de tensões ideológicas como o da Guerra Fria, a assimilação dos valores estadunidenses pelos países não era adotada apenas por sua persuasão e propaganda, mas, muitas vezes, para evitar desvantagens políticas e de segurança, como intervenções militares e sanções econômicas aplicadas a Estados do bloco socialista e até a países considerados neutros na disputa. Sob esse olhar, o Soft Power, embora apelativo, não configurou a dominação ideológica de todos países alinhados ao bloco capitalista, porque aderir ao bloco comandado pelos Estados Unidos era, muitas vezes, uma decisão baseada em evitar desgastes políticos e ofensivas militares.
Ainda assim, é importante destacar como os símbolos culturais dos EUA e de sua doutrina socioeconômica foram moldados como instrumentos políticos de grande importância, tendo em vista a caracterização “universal, sincrética e capaz de estabelecer um conjunto de normas e instituições que possam estabelecer governança global” que a cultura estadunidense adquire conforme sua instrumentalização.
Nesse sentido, conforme o imaginário sociopolítico mundial era moldado pela disputa entre capitalismo e comunismo, as narrativas propagadas pelo governo e pela mídia estadunidense visavam preservar a democracia liberal e proteger a hegemonia estadunidense em um momento de crise, e faziam isso ao tornar a imagem do país o mais atraente possível. Fatores como defesa da democracia, existência do livre-mercado, campanhas pelos direitos humanos e “liberdade cultural” foram essenciais para estruturar a aparência atrativa almejada pelo governo dos EUA.
Desse modo, inúmeros esforços foram mobilizados para que tais crenças ideológicas, que constituíam a hegemonia americana, passassem por um processo de internalização, ou seja, de naturalização nos países aliados ao bloco capitalista, a ponto de serem aceitos e propagados pelas populações e pelos agentes políticos locais.
Para alcançar tal naturalização de suas ideologias, o governo estadunidense financiou e manipulou a produção artística e cultural, promovendo o modernismo, por exemplo, para combater a influência soviética no imaginário popular. Segundo Frances Saunder, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) foi, nesse sentido, essencial para projetar a imagem de um EUA de liberdade criativa e de superioridade ocidental a partir de exposições e de festivais de arte abstrata e modernista.
Nesse sentido, a instrumentalização da cultura nos aspectos do “Soft Power” foi sutil o suficiente para que certos artistas estadunidenses, mesmo aqueles alinhados a ideologias políticas de esquerda, acreditassem expressar livremente suas opiniões, quando na verdade estavam condicionados a produzir propaganda capitalista.
Por outro lado, a assimilação de obras pela propaganda capitalista também foi articulada com o propósito de promover o bloco capitalista durante o conflito. Ou seja, autores críticos ao autoritarismo e às ofensivas militares muitas vezes encontravam suas obras apropriadas pelo governo dos Estados Unidos e vendidas como propaganda da “liberdade americana”.
Portanto, diversas mídias artísticas e de entretenimento foram aproveitadas em prol da expansão ideológica durante a Guerra Fria, com destaque às histórias em quadrinhos, populares entre o público infantojuvenil, em que personagens fictícios tinham valor estratégico sobre o domínio do imaginário popular e serviam aos valores de cada nação, consolidando a narrativa pretendida.
Contexto histórico da criação da Marvel
A arte reflete as condições de existência, as aspirações e os projetos políticos de uma sociedade ao longo de determinados contextos históricos, geográficos ou culturais. Sendo assim, as histórias em quadrinhos americanas – sobretudo no período da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria – são um espelho do sentimento patriótico estadunidense, dado que a cultura pop foi utilizada como instrumento de autoafirmação da soberania nacional frente a quaisquer que fossem os inimigos da vez. Se os vilões nos quadrinhos eram fascistas ou comunistas, então – através de capas, títulos e demais recursos linguísticos e semióticos –, os super-heróis deveriam personificar a própria figura dos Estados Unidos no combate a esses antagonistas Ao traduzir propagandas ideológicas em formato de entretenimento, os gibis obtiveram amplo alcance de leitores de todas as idades.
Foi nesse cenário que o editor de revistas Martin Goodman criou o selo Timely Comics, e no dia 31 de agosto de 1939, publicou a edição “Marvel Comics #1”, responsável por introduzir os personagens Tocha Humana e Namor. Com a venda de mais de 80 mil exemplares, Goodman contratou os cartunistas Joe Simon e Jack Kirby, que logo criaram o herói Steve Rogers, o Capitão América, em 1941. Nesse mesmo ano, Stan Lee foi promovido a editor interino, e passou a escrever aventuras para a mais nova revista, “Captain America Comics #1”.
Meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor, episódio que marcou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial em dezembro de 1941, a editora atualmente conhecida como Marvel já ilustrava seus personagens engajados na luta contra as potências do Eixo. Em uma dessas narrativas, Tocha Humana, Namor, Capitão América e Bucky se uniram para impedir que soldados alemães e japoneses invadissem os EUA a partir do Estreito de Bering – fora da ficção, mesmo que aliadas na Segunda Guerra, as forças armadas japonesas e alemãs nunca atuaram em uma operação militar conjunta. Assim, mesmo que retratasse um acontecimento improvável, o quadrinho espelhou um sentimento comum à população norte-americana: o medo de que a guerra, majoritariamente travada em campos de batalha europeus, finalmente chegasse ao seu território.
Antes de Pearl Harbor, já havia vilões asiáticos na literatura estadunidense. Mas eles, em sua maioria, eram chineses, a exemplo de Ming, o Impiedoso, principal inimigo do herói espacial Flash Gordon. Durante o conflito contra o Eixo, entretanto, isso mudou, já que o rancor americano contra os soldados japoneses produziu retratos racistas e caricatos, nos quais estes eram sempre ilustrados como anões monstruosos, dentuços e com óculos fundo de garrafa.
Como quase todos os gibis da época apresentavam personagens super poderosos envolvidos em combates, a criatividade dos roteiristas precisou ser testada para explicar como a Segunda Guerra durou 6 anos, e não apenas cinco segundos. Com o eventual início da Guerra Fria, uma nova onda de super-heróis surgiu para rivalizar com os comunistas.
Em abril de 1961, Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem a viajar para o espaço, na nave Vostok I. Em agosto, a Alemanha Oriental iniciou a construção do Muro de Berlim, símbolo concreto da polarização ideológica vigente. E em novembro desse mesmo ano, o primeiro gibi do Quarteto Fantástico, uma cocriação de Stan Lee e Jack Kirby, foi publicado. Quando o narrador da edição menciona que os EUA estão em uma “corrida espacial” contra uma “potência estrangeira”, fica claro que o grupo criado para rivalizar com a Liga da Justiça faz uma referência à disputa entre Estados Unidos e União Soviética. Reed Richards – o Senhor Fantástico –, com seu brilhantismo e equipamentos avançados, incorpora o potencial e a esperança americana de obter futuras conquistas interestelares.
A família de heróis ganhou seus poderes através da exposição acidental a raios cósmicos, o que alterou seu DNA permanentemente, durante uma viagem espacial. Esse episódio ilustra o medo, a curiosidade e a incerteza que, durante os anos 60, pairaram sobre discussões envolvendo tecnologia, bioquímica, radiação, energia nuclear e espaço sideral. Esse receio frente ao desconhecido também compõe a trama de outro herói criado pela parceria Lee-Kirby: O Incrível Hulk.

O Dr. Bruce Banner é um cientista que, após ser exposto a uma bomba de raios gama detonada propositalmente por um espião iugoslavo, transfigura-se em um monstro vítima do “horror atômico”. Apesar de lutar contra os soviéticos, ele também enfrentava a perseguição de membros do exército americano e o remorso por ter criado a arma destrutiva responsável por sua transformação. Entre o terror – a uma guerra apocalíptica ou a mutações desastrosas – e o fascínio – perante os avanços medicinais da radioterapia e as usinas energéticas –, o desenvolvimento da física nuclear gerou reações multifacetadas tanto nos quadrinhos quanto na vida real.
De volta ao Quarteto Fantástico, as habilidades obtidas pelos astronautas foram utilizadas para defender sua nação de ameaças que também referenciavam o contexto da Guerra Fria, como os inimigos Fantasma Vermelho – obviamente uma analogia ao comunismo – e Doutor Destino – governante de um pequeno país do Leste Europeu chamado Latvéria, em referência à Letônia (em inglês, Latvia), que na época era uma república da URSS. O vilão com punhos de ferro, que chegará aos cinemas em dezembro no novo filme dos Vingadores, pode ser interpretado como uma referência à expressão “Cortina de Ferro”, popularizada pelo ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill para se referir à barreira política, militar e ideológica que dividiu a Europa em um bloco capitalista e outro socialista.
Falando desse minério, é impossível não mencionar Tony Stark, que fez sua primeira aparição nos quadrinhos em março de 1963. O bilionário, que construiu sua fortuna à base da indústria de armamentos, é apresentado como fornecedor de equipamentos para o exército americano na Guerra do Vietnã. Ao viajar para uma zona de conflito a fim de supervisionar testes de seus produtos, ele acidentalmente pisa em uma mina explosiva e é capturado por vietcongues, ilustrados de modo semelhante aos japoneses na Segunda Guerra Mundial. Para escapar, o herói constrói sua icônica armadura com marcapasso, tornando-se enfim o Homem de Ferro, pronto para destroçar vietnamitas no caminho de volta para casa.
Na realidade, a Guerra do Vietnã representou uma das empreitadas militares mais desastrosas e impopulares da história dos Estados Unidos, visto que sua derrota colocou em xeque a suposta superioridade ocidental capitalista. O próprio Stan Lee chegou a retratar-se publicamente sobre a origem de Tony Stark, alegando que, na época de sua criação, ainda havia uma visão muito ingênua do conflito como “uma guerra do bem contra o mal”. Mesmo com uma introdução polêmica, o personagem continuou sendo um símbolo anticomunista, enfrentando soviéticos ou chineses, como Dínamo Escarlate (vários times de futebol da URSS se chamavam Dínamo) e a famosa Viúva Negra, espiã do KGB que futuramente iria trair o bloco socialista ao apaixonar-se por uma série de super-heróis americanos.
Nos cinemas, a história do Homem de Ferro foi adaptada para o quadro dos EUA pós-11 de setembro, referenciando diretamente os esforços antiterroristas empregados como resposta ao ataque às Torres Gêmeas. Ao invés do Vietnã, o primeiro filme da trilogia – lançado em 2008 – se passa no Afeganistão, mudança feita pelo diretor Jon Favreau.
Capitão América: “o sonho americano”
Em 1941, logo na capa de sua primeira HQ, Steve Rogers acerta em cheio um soco no rosto de Adolf Hitler. Já em sua estreia, podemos observar a construção dos valores do personagem, que ultrapassam o sentimento anti-nazista. O garoto pobre e franzino dos subúrbios de Brooklyn, ao receber o soro de supersoldado, torna-se um ideal de militar americano: forte, corajoso e — claro, o mais importante — patriota. Desde seu traje nas cores da bandeira estadunidense até o seu aniversário em 4 de julho — dia da independência das 13 colônias —, todos os elementos gráficos e narrativos da história do Capitão América evidenciam que o herói não é mais apenas um indivíduo; ele incorpora todo o vigor bélico da nação.

Seu icônico escudo transmitia uma mensagem óbvia: “Não atacamos, mas nos defendemos quando preciso”. Considerando o histórico imperialista e intervencionista dos EUA, a frase parece até uma piada. Contudo, a ideia era associar as missões do Capitão América com a imagem de um país defensor da liberdade, dos direitos individuais e dos valores burgueses. Sua figura era a de um salvador, um símbolo de paz, que promovia diálogos diplomáticos de forma sensata, mas que também poderia usar da força bruta caso fosse necessário.
Apesar de atualmente Hitler estar salientado no imaginário coletivo como um dos ditadores mais cruéis da história da humanidade, na época do lançamento do gibi, meses antes dos Estados Unidos entrarem de fato na Segunda Guerra Mundial, a capa gerou controvérsias, e os criadores do super-herói chegaram a receber proteção policial contra ameaças de morte. Mesmo assim, sua ousadia foi recompensada com altos lucros, ultrapassando a marca de 1 milhão de exemplares vendidos por edição.
As futuras missões de Steve Rogers incluíram a Batalha da Normandia: o crucial Dia D. Para cumprir essa tarefa, ele foi designado à “Big Red One”, Primeira Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos, subseção que realmente existe. De acordo com a coordenadora do First Division Museum, Laura Lyn Sears, o personagem torna a história militar americana mais interessante para crianças, pois transforma “cada membro da Primeira Divisão de Infantaria em super-heróis”. Ou seja, por meio da cultura pop, valoriza-se o cotidiano das forças armadas e incentiva-se o alistamento.
Com o desenrolar do conflito, o Capitão passou a enfrentar vilões cada vez mais ligados às potências do Eixo. Seu principal arqui-inimigo, o horripilante e grotesco Caveira Vermelha, era um dos generais nazistas mais próximos de Adolf Hitler. O contraste entre suas aparências reforçava o papel de Steve Rogers como “bom moço”, apesar de o herói branco, de olhos azuis e de cabelos loiros aproximar-se muito mais do ideal de raça ariana do que o próprio alemão.
Além de comandar projetos para destruir os Estados Unidos e alcançar a dominação mundial, o Caveira Vermelha chegou a liderar a Hidra, cujas origens ficticias remontam a uma organização científica paramilitar de elite do partido nazista. Essa instituição rivalizava com a S.H.I.E.LD., agência de espionagem e segurança, responsável por proteger a soberania estadunidense de ameaças externas, fossem elas consideradas terroristas ou sobrenaturais. Composto de antigos membros da CIA e do Mossad, o grupo é literalmente uma romantização do serviço secreto americano, exaltando sua superioridade, bravura e desenvolvimento tecnológico.
Segundo Tom Brevoort, ex-editor executivo da Marvel, “o Cap participou de mais aventuras em seu tempo ativo na guerra do que haveria dias de combate durante o conflito”. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Steve Rogers ficou sem seu principal campo de batalha, e por isso, a produção de seus quadrinhos decaiu. O personagem só foi ser descongelado — figurativa e literalmente — em 1964, agora para combater os comunistas. Perto de novos heróis, como o Homem Aranha e os X-Men, o Capitão América parecia um tanto antiquado, mas logo se adaptou: foi nesse período que o Falcão foi introduzido, e a trama passou a abordar questões de raça e de assistência social.
Bucky Barnes — parceiro clássico de Steve, que nas primeiras edições atuava como uma cópia explícita da relação entre Robin e Batman — passou a ganhar maior destaque após um retcon escrito por Ed Brubaker em 2005, na revista Captain America (Vol. 5). Apesar de durante a Segunda Guerra ele ter sido dado como morto após uma explosão, o jovem conseguiu sobreviver (com um braço a menos). Entretanto, foi capturado pela URSS, onde, submetido a sessões de tortura, foi transformado no Soldado Invernal, um assassino comunista mortal sem memórias de sua vida anterior. Sua convivência com o Capitão América é uma clara referência às relações entre os próprios Estados Unidos e União Soviética, que, apesar de terem lutado juntos contra os nazistas, na Guerra Fria ocuparam extremos opostos de um mundo bipolar.
Encarcerado pelo Departamento-X, subseção do KGB, Bucky participa do treinamento da Sala Vermelha, onde teve um envolvimento amoroso com Natasha Romanoff. O Programa Viúva Negra, do qual Natasha é parte, é caracterizado por sua perversidade: além de utilizar da mesma tecnologia de lavagem cerebral aplicada no Soldado Invernal, o treinamento para transformar jovens russas em espiãs impiedosas também incluía esterilização forçada. Em algumas HQs, elas eram até mesmo acorrentadas em suas camas para evitar fugas. Enquanto as forças armadas americanas eram responsáveis pela criação de heróis nacionais, a inteligência secreta russa era representada como impessoal, cruel e sombria.
Nos anos 70, após o escândalo de Watergate — uma crise política que levou à renúncia de Richard Nixon em 1974 — os quadrinhos do Capitão América passaram por uma fase interessante. O mais ufanista dos heróis americanos, desiludido com a corrupção e a imoralidade das estruturas governamentais de seu país, abandona o uniforme clássico e adota a alcunha de Nômade, um herói sem pátria. Seu isolamento e sua solidão refletiam o sentimento de abandono dos soldados americanos no desenrolar da impopular Guerra do Vietnã (1955-1975). Steve volta a vestir o traje de estrelas e listras nos anos 1980, durante a era Ronald Reagan, após concluir que deveria representar os ideais americanos, e não o governo.

X-Men: “Eu tenho um sonho”
13 dias após o histórico discurso de Martin Luther King, “Eu tenho um sonho”, durante a “Marcha de Washington” de 1963, as primeiras edições de X-Men chegavam às bancas dos Estados Unidos. Sua capa estampava os dizeres: “Os super-heróis mais estranhos de todos!”. Criados por Stan Lee e Jack Kirby, os mutantes de fato não eram nada como os demais personagens da Marvel. Embebidos do contexto do movimento em prol de direitos civis e contra a segregação racial nos Estados Unidos, os “filhos do átomo” — jovens com poderes inatos, adquiridos através de mutações espontâneas geradas pelo aumento dos níveis de radiação terrestre após a Segunda Guerra Mundial — enfrentavam o preconceito e a alienação de uma sociedade conservadora.

Logo em sua primeira aventura, o telepata Professor-X convoca mutantes para treiná-los e engajá-los na luta por seu grande “sonho”: um mundo onde possam conviver harmoniosamente com os humanos. Pacifista e idealista, ele pode ser relacionado ao caráter esperançoso do pastor e ativista social Martin Luther King, enquanto seu antagonista, Magneto, corresponde ao líder antirracista Malcolm X, que defendia a emancipação e autocondução do povo negro, compreendendo a violência como uma alternativa de autodefesa diante de séculos de discriminação estrutural.
Segundo o jornalista Sean Howe, autor do livro Marvel Comics, “X-Men fala sobre encontrar alívio entre outros marginalizados” e, possivelmente, foi “o primeiro quadrinho de super-heróis sobre identidade política”. Mesmo refletindo as ansiedades de seu tempo, o título só foi se tornar um verdadeiro sucesso de vendas em meados dos anos 70, graças ao trabalho do roteirista Chris Claremont, que escreveu novas aventuras por 16 anos contínuos. Personagens clássicos, como o Wolverine, só vieram a ser introduzidos nessa fase, que contou com uma maior preocupação com a diversidade de nacionalidades e etnias. Nesse período, surgem: o russo Colossus, a afro-americana (de ascendência queniana) Tempestade, o índigena norte-americano Pássaro Trovejante e o japonês Solaris.
Magneto, que nas versões originais era apenas um mutante com rancor da humanidade, com a contratação de Claremont — de origem judia —, ganhou maior profundidade psicológica e um passado de origem, que finalmente é revelado ao leitor: o icônico vilão é um sobrevivente de Auschwitz, campo de concentração nazista no qual sua família foi massacrada. De acordo com o professor Karl Schurste, brasileiro coautor do livro “Magneto e a Paratradução do Holocausto nos Comics”, os quadrinhos funcionam como dispositivos de memória, com a capacidade de traduzir o trauma judaico para as novas gerações, sem banalizá-lo. Dessa forma, a cultura pop é usada como instrumento de reflexão ética e histórica sobre o mal, a violência e a exclusão.
Em 1982, Claremont lançou “Deus Ama, o Homem Mata”, graphic novel icônica que inspirou o roteiro do filme X-Men 2, de 2003. Na trama, o pastor de histórico militar William Stryker lidera o grupo Purificadores, cuja premissa é exterminar a raça mutante, que segundo sua crença, seriam descendentes do diabo, enquanto os humanos são filhos de Deus. Diante dessa ameaça, os X-Men e Magneto deixam suas diferenças de lado e se unem para impedir um genocídio. Além de abordar o fanatismo religioso, a narrativa tem paralelos explícitos com o racismo e a homofobia.
Stan Lee, em entrevista cedida em 2013, afirmou: “Eu queria que eles fossem diversos. O principal objetivo dos X-Men foi tentar ser uma história anti-preconceito, mostrar que o bem e o mal existem dentro da mesma pessoa”. Além do forte racismo na época da criação da equipe de jovens superpoderosos, os Estados Unidos também lidavam com a perseguição aos homossexuais, sendo comuns batidas policiais em bares frequentados pela comunidade LGBTQIAPN+. Entre os mutantes que fazem parte da sigla estão Mística, Homem de Gelo, Colossus (no universo Ultimate) e Estrela Polar (membro da Tropa Alfa, equipe canadense ligada aos X-Men), sendo que o último é considerado o primeiro herói abertamente gay em quadrinhos, tendo saído do armário em 1992. Em 2012, ele protagonizou o primeiro casamento gay das HQs mainstream. Apesar de sem respaldo oficial, o subtexto narrativo do relacionamento de Charles Xavier e Erik Lehnsherr é uma inspiração para jovens casais de todo o mundo.
Mesmo com seu potencial subversivo, as aventuras dos X-Men, assim como os demais super-heróis da Marvel, impulsionaram formas de propaganda americana, principalmente ao difundir a perspectiva ocidental e liberal da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, conflitos que são pano de fundo das adaptações cinematográficas que compõem o catálogo da franquia. Wolverine foi literalmente dilacerado pela bomba atômica em Nagasaki — durante Wolverine: Imortal (2013) —, e o Instituto Xavier chegou a ser temporariamente fechado quando a maioria dos alunos e professores foram convocados para servir na Guerra do Vietnã — em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014). Nesse mesmo filme, Mística tenta assassinar o cientista criador dos robôs Sentinelas durante os Acordos de Paz de Paris, série de tratados que pôs fim ao envolvimento militar direto dos Estados Unidos no conflito.
Em X-Men: Primeira Classe (2011), adaptação ambientada na década de 60, os mutantes atuam em uma batalha entre as marinhas dos EUA e da URSS, nas proximidades de Cuba, impedindo a deflagração de uma guerra nuclear. A tensão é claramente inspirada na Crise dos Mísseis, fato histórico ocorrido em 1962. Em sua versão fictícia, a disputa entre as potências teria sido orquestrada por Sebastian Shaw, ex-liderança nazista, para dizimar a humanidade e assegurar a supremacia mutante sobre o planeta.
O clímax do filme reside no conflito de interesses entre seus protagonistas. Enquanto o Professor Xavier acredita que sua operação militar para conter o disparo de mísseis atômicos mostrará para o mundo o heroísmo dos mutantes — neutralizando a desconfiança para com seres de habilidades superiores —, Magneto herda não somente o capacete anti-telepático de Shaw, mas também sua visão de mundo. Cego por vingança após os EUA e a URSS redirecionarem seus projéteis para exterminar todos os mutantes na ilha cubana, o personagem se aproxima de tendências cada vez mais genocidas. Com o intuito de defender sua superioridade genética, ele por fim funda a Irmandade Mutante, organização antagonista dos X-Men. Suas ações são justificadas sob o lema: “Nunca Mais”, comumente utilizado por sobreviventes do Holocausto, o que chega a ser um tanto irônico.
Detective Comics pelo Tempo e Os Três Grandes
As histórias em quadrinhos desempenharam um papel fundamental na construção do imaginário coletivo ocidental durante o século XX. Sua popularidade e grande capacidade de alcance a distintos públicos foram essenciais para que a propaganda política, principalmente a estadunidense, se enraizasse no entretenimento comum.
Nesse sentido, a criação da revista Detective Comics (DC), em 1937, às prévias da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi fortemente influenciada pelo teor belicista que então envolvia os Estados Unidos. Assim, o patriotismo e os ideais do estilo de vida estadunidense foram integrados às histórias que circulavam pelo país e que logo tiveram as vendas expandidas para outros territórios.
Essa propagação dos valores liberais dos EUA edificou-se com o surgimento dos super-heróis, personagens fantásticos que representavam não apenas a suposta liberdade estadunidense, mas também o patriotismo e o consumismo característico do American Way of Life (“Estilo de Vida Americano”, idealizado e propagandeado durante o século XX). Nomes como Superman, Batman e Mulher Maravilha – com a primeira aparição nos quadrinhos em, respectivamente, 1938, 1939 e 1941 – foram grandes sucessos para os civis e até para os militares, já que os quadrinhos eram distribuídos nos fronts da guerra.
Criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, o Superman foi definido na primeira edição da Action Comics como “um campeão dos oprimidos, jurado a dedicar sua existência para ajudar os necessitados”. No contexto da Segunda Guerra Mundial, seus criadores, sendo ambos judeus, canalizaram as injustiças sociais em um símbolo que representasse não apenas as minorias sociais, mas também as dificuldades por elas enfrentadas.
Vale ressaltar que o cenário político mundial encontrava-se extremamente conturbado pela ascensão do nazifascismo, e não somente nos campos de batalha, mas também no espaço ideológico coletivo. Desse modo, a criação de um “super-homem” por Siegel e Shuster — em um momento em que judeus e diversos outros grupos minoritários eram exterminados pelo regime nazista alemão — idealizava a esperança de vencer aquilo que corrompia e explorava a humanidade enquanto parte da luta antifacista.
No livro “Superman: A História Completa”, escrito por Les Daniels, o depoimento dado por Jerry Siegel narra sua motivação para construir um personagem que pudesse se conectar com o público menos abastado, “Nós éramos jovens e, se quiséssemos ir ao cinema, tínhamos que vender garrafas de leite, então sentíamos que estávamos bem lá embaixo e podíamos ter empatia pelas pessoas”.
Nesse viés, as primeiras edições em que o Homem de Aço tomava contorno eram caracterizadas não por super-vilões e catástrofes, mas por certa radicalização e militância política. O herói kryptoniano lutava por melhores moradias aos necessitados, enfrentava as autoridades locais por não garantirem a segurança da população e, por ter sido criado por imigrantes, suas histórias simpatizavam com a esquerda política e ele agia de forma audaciosa com forte teor social.
Assim também eram escritas diversas outras histórias em quadrinho, já que grande parte dos autores que trabalhavam com esse tipo de publicação eram judeus, imigrantes, pessoas não brancas ou mulheres, impedidos de atuar em campos mais prestigiados da escrita. Em razão de preconceitos enraizados no imaginário do século XX, essas pessoas eram marginalizadas também nas produções literárias, de modo que a indústria das comics foi fundada com influência das narrativas sociais que seus autores se identificavam.
Entretanto, dois fatores minaram o teor social das histórias de Kal-el, o nome kryptoniano de Superman. Com o rápido crescimento das vendas de seus quadrinhos, para garantir seu sucesso e popularidade, os direitos autorais foram rapidamente vendidos, de modo que Siegel e Shuster perderam o controle do rumo do herói. Ademais, o início da Segunda Guerra Mundial corroborou para que os temas abordados nas histórias se voltassem às batalhas, tanto as reais quanto as ideológicas.
Alistado ao esforço da guerra, Superman criticava abertamente os regimes fascistas enquanto lutava contra figuras como Adolf Hitler em seus quadrinhos. Após o ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941, o herói veste completamente a capa do patriotismo estadunidense. Seu slogan, que antes era “Verdade e Justiça”, torna-se “Verdade, Justiça e o Jeito Americano” (originalmente, “Truth, Justice and The American Way”).
O exército estadunidense se tornou um dos maiores compradores dos quadrinhos do Homem de Aço, enviando as edições para os militares em meio a campos de batalha de modo a mantê-los sob a propaganda da guerra. As histórias, assim, não eram apenas uma distração dos soldados, mas uma fonte de correntes ideológicas que alimentavam uma moral coletiva.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Superman foi readequado ao cenário tenso, mas não mais tão beligerante. Seus vilões passaram a ser alienígenas e criaturas fantásticas, o que também contribuiu para que os quadrinhos fossem aceitos pelo selo de regulamentação da Comics Code Authority, que indicava uma leitura segura para crianças, por exemplo.
Não por qualquer razão, esse tipo de restrição aplicada aos quadrinhos ocorreu em meio à Guerra Fria, em que a disputa ideológica superou batalhas armadas, e o efeito dos quadrinhos no imaginário popular era essencial para garantir a eficácia do Soft Power estadunidense.
Nesse contexto, as narrativas foram adequadas ao que o governo dos EUA considerava moralmente correto. Se qualquer teor social ainda pincelava as falas do kryptoniano, isso foi eliminado frente a ótica da “ameaça comunista”. Durante a década de 1950, Superman ganha caráter paternalista em suas histórias, tornando-se o “grande escoteiro azul”, um símbolo do bom cidadão estadunidense.
A imagem do Superman se modificou com o tempo – ou melhor, conforme o que a indústria de quadrinhos, o governo estadunidense e a indústria midiática pretendiam influenciar e moldar no imaginário popular. Assim, diferentes momentos históricos e políticos ressignificam as histórias em quadrinho até os dias atuais.
Criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger, Batman foi uma encomenda da DC Comics após o grande sucesso de Superman. O novo herói se destacava por sua humanidade. Sem poderes mágicos ou de outro mundo, ele se especializou em artes marciais e fez jus ao nome da editora ao ser um verdadeiro detetive.
As primeiras edições de Batman foram marcadas pelo estilo policial noir e ambientadas em Nova York – já que sua característica cidade Gotham só é retratada nas comics em dezembro de 1940). O urbanismo e o teor sombrio das histórias definem o nascimento do personagem no ano em que se inicia a Segunda Guerra Mundial. Vestido como um morcego e capaz de planar como um, devido ao formato de sua capa, o detetive Bruce Wayne investiga um caso de assassinato em sua primeira história: o conto “O Caso do Sindicato dos Químicos”.
Impetuoso e violento, Batman chega a matar um dos criminosos nesse pequeno conto, o que contraria fortemente a atual imagem de um protetor heróico, ainda que soturno. Assim como as histórias do Superman deixaram de ter um teor social, os quadrinhos do Homem Morcego sofreram inúmeras mudanças, muitas vezes pela censura estadunidense ao longo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e da Guerra Fria (1947-1991).
Dessa forma, é válido destacar que as histórias em quadrinho já eram articuladas como instrumentos de propaganda política e de identidade nacional devido à sua influência sobre o imaginário coletivo estadunidense. Como mencionado, mesmo os soldados em linhas de batalha recebiam esse meio barato de comunicação e entretenimento, o que os estimulava a lutar pela nação representada nos heróicos quadrinhos.
Diferentemente de Superman, Batman não chegou a enfrentar diretamente Hitler ou as forças do Eixo (Alemanha nazista, Itália fascista e Japão imperialista) em campos de batalha, mas fazia uma importante ofensiva contra espiões, máfias e agentes disfarçados dentro dos Estados Unidos. O combate ideológico e nacionalista dentro das histórias em quadrinho se acentua, pois o herói simboliza, em sua humanidade, o que o cidadão comum poderia fazer ao se deparar com uma ameaça interna: utilizar seu intelecto e disciplina para proteger seu país e denunciar aquilo que o ameaçasse.
Para além do próprio Homem-Morcego, seu fiel ajudante também desempenhou um papel importante no imaginário político das crianças que liam tais histórias. Em 1940, Robin tem sua primeira aparição direcionada a capturar a atenção de um público mais infantil. A mensagem retratada na criação desse personagem era a de que o combate ao crime poderia ser feito mesmo pelos mais jovens.
Incentivando os mais jovens para o alistamento no exército estadunidense, Batman e Robin também apoiavam os militares ao persuadirem os leitores a comprarem os selos de guerra junto aos quadrinhos. Logo, a veiculação dessas histórias era um método efetivo de garantir apoio civil aos esforços bélicos tanto no viés ideológico quanto no econômico.
Esse ideal de patriotismo estadunidense, canalizado no esforço civil e na união da população contra o Eixo, é o que define o Homem Morcego no início da década de 1940. A sutil reformulação ideológica do herói também abrandou seu modo de agir, de forma que a pressão do público, principalmente pais e mães preocupados com a influência que a violência mortífera das comics desempenharia sobre seus filhos, tornou o Batman um personagem que repudiava o assassinato e trabalhava juntamente à polícia no combate ao crime.
Fora dos quadrinhos, a criação do Batman encontrou um verdadeiro sucesso no público, o que permitiu a criação de um seriado em 1943, homônimo ao herói. Nele, o vigilante luta contra um representante do Império Japonês, Dr. Daka, que visava transformar os Estados Unidos em um território dominado pelo país do Eixo. Os títulos dos episódios variam entre “Uma Armadilha Nipônica”, “Escravos do Sol Nascente” e “A Perdição do Sol Nascente”, reflexo de como a produção midiática se moldava em prol da guerra mesmo fora dos fronts.
Após a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria, o teor das histórias de Bruce Wayne e Richard “Dick” Grayson (Batman e Robin) passou por inúmeras mudanças. Inicialmente, o herói forjado sob a violência deixou de cometer crimes e, com um novo parceiro juvenil, passou a se aproximar de enredos leves e cômicos.
Já em meio à corrida ideológica contra os soviéticos, os quadrinhos se aproximavam ainda mais dos ideais políticos fomentados pelo governo e por outros tipos de mídia, o que configurou um movimento operado por inúmeros setores sociais e estatais, e, caso as histórias divergissem desses caminhos, a crítica enfrentada era grave. A indústria midiática, buscando evitar perdas econômicas e atender às reivindicações do público, direcionou-se, então, ao âmbito político.
Assim, o órgão privado Comic Codes Authority (CCA) foi fundado em 1954, contornando censuras governamentais ao instaurar uma autorregulação entre as editoras para revisar os quadrinhos. Como já mencionado, o CCA revisava e censurava HQs com o intuito de garantir que a produção atendesse às expectativas políticas e ideológicas do momento.
Em uma análise mais pontual, o CCA pode ser visto como uma resposta ao livro “Sedução do Inocente” (1954), do psiquiatra Fredric Wertham, que, com um forte moralismo conservador, culpava as HQs pelo que chama de “delinquência juvenil”. O autor criticou as histórias do Batman, entre outros motivos, por apresentarem um teor homossexual. Isso porque Bruce Wayne não apresentava pares românticos femininos duradouros enquanto vivia em sua mansão com o jovem Richard Grayson.
A análise insensata de Wertham deturpou narrativas dos quadrinhos sob a ótica de que os jovens leitores seriam “doutrinados” por consumirem histórias que não se encaixavam exatamente nos moldes de valores tradicionais — como o Batman que, por não ter uma esposa ou parceira, era um ultraje para o modelo da “família americana”. O próprio título “Sedução do Inocente” apelava para que as histórias em quadrinho fossem responsabilizadas por uma suposta perversão da juventude. Paralelamente, nos dias atuais, muitas mídias que escapam desses moldes tradicionalistas recebem o mesmo tratamento por parte de grupos conservadores da sociedade.
Dessa forma, em 1956, a personagem Batwoman estreia nos quadrinhos como a contraparte romântica do protagonista, visando afastar as acusações de Wertham. Ainda que uma figura feminina pareça representar algum tipo de emancipação, isso não ocorreu. Kathy Kane, a identidade secreta de Batwoman, estava sujeita a estereótipos de uma sociedade extremamente conservadora e machista.
As comics eram carregadas de um tom condescendente e paternalista, ao que Kathy, por exemplo, não carregava um cinto de utilidades com ferramentas importantes, mas sim uma bolsa em que cada objeto tinha o design de um utensílio de beleza – como um batom que se transformava em maçarico. Ademais, a personagem era constantemente sexualizada em suas representações, servindo apenas como contraparte romântica e objeto de atração para livrar o Batman das acusações absurdas de Wertham. Não obstante, a Batwoman das histórias atuais teve sua origem ressignificada e é assumidamente lésbica.
De volta ao passado, o escândalo causado por essa crítica, tão grande ao ponto de que foi aberta uma investigação no congresso estadunidense, limitou a liberdade criativa dos produtores de quadrinhos. Tramas com violência explícita já não eram bem vistas nas histórias em quadrinho. Batman, principalmente na década de 1950, deixou de ser um herói soturno com intrigas policiais e os enredos que o acompanhavam tornaram-se mais cômicos e infantis para se adequar à imagem de bom cidadão estadunidense. Inofensivas e agradáveis ao CCA, essas histórias em quadrinhos tornavam-se “cada vez mais inócuas”.
Entretanto, vale destacar a obra “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (1986), de Frank Miller, essencial para induzir o leitor a uma reflexão política quanto à Guerra Fria. Já próximo ao fim do conflito, o lançamento dessa HQ não seguiu o antes fervoroso ideal capitalista e anti-comunista ou as aparências brandas do CCA.
Miller retorna ao herói de aparência sombria, violenta e audaciosa. O enredo parte de um Batman aposentado, após a morte de Robin, em um país cansado (econômica e coletivamente) das guerras que financiou. O Homem-Morcego volta às ruas de Gotham em uma onda de violência e de calor, combatendo o crime agressivamente, desafiando leis e sendo mal-visto pelo governo estadunidense, que envia Superman para enfrentá-lo.
Contudo, o conflito entre o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas é adiado pela invasão militar dos Estados Unidos a Corto Maltese, país fictício das ilhas caribenhas, “simpatizante dos soviéticos […], numa possível referência a Granada, invadida pelo exército estadunidense em 1983, ou mesmo Cuba, principal aliado da URSS na América.”, segundo a análise de Carlos Krakhecke.
Ao que o símbolo de patriotismo estadunidense, incutido no Superman, parte para a guerra na ilha, e Batman se volta ao combate em Gotham, e o enredo torna-se cada vez mais complexo. Finalmente, os heróis se enfrentam, refletindo a disputa ideológica não entre capitalismo e socialismo, mas entre um nacionalismo cego e o cansaço proveniente do esforço bélico.
Krakhecke postula em sua obra que “A vitória de Batman, portanto, significa uma vitória sobre o obscurecido governo norte-americano, pois, ao final da HQ, Superman é posto a refletir sobre seus atos e, uma vez que ele […] representa o próprio governo estadunidense, é como se Batman convidasse o leitor a refletir sobre os atos do governo”.
Nesse sentido, a ressignificação do herói durante a Guerra Fria foi de grande importância instrumental para o governo estadunidense, majoritariamente no início do conflito ideológico, e para a sociedade civil, ao fim desse. A depender do nível de liberdade de seus escritores, o mesmo herói foi conduzido a papéis muito distintos.
É importante destacar que Miller reconfigurou a imagem de Batman, associando-o ao título de sua obra e tornando-o um verdadeiro cavaleiro das trevas. Atualmente, grande parte das produções midiáticas do herói, sejam quadrinhos ou filmes, baseiam-se nas características taciturnas e sombrias revitalizadas por Frank Miller.
Em 1941, o psicólogo William Marston e o desenhista H.G. Peter criam uma personagem muito intrigante para o universo dos quadrinhos. Criada do barro por Hipólita, a rainha das amazonas, um grupo de guerreiras filhas do deus da guerra Ares, a Mulher Maravilha une a ação das HQs com a mitologia grega ao receber seus poderes do próprio Zeus.
Apesar de sua história ter sido escrita por um homem, a heroína é um grande destaque para a luta feminista e para a representação feminina em uma mídia majoritariamente masculina. Marston, escritor e roteirista, foi fortemente influenciado pela presença feminina em sua vida, criado pela mãe e por quatro tias, ele viveu um relacionamento intricado com sua esposa, Elizabeth Holloway, e Olive Byrne. Há quem os caracterize como poliamorosos, por terem vivido, os três, na mesma casa e criado em conjunto os filhos de ambas as mulheres com Marston. Por outro lado, há registros que apontam que o escritor se apaixonou por Byrne após seu casamento com Holloway, mas não deu outra opção à esposa senão aceitar outra mulher em sua própria casa.
A história de Marston é essencial para compreender a criação da Mulher Maravilha, pois o desenho inicial da personagem foi o reflexo dos ideais tão feministas quanto sexistas de seu criador. Se, por um lado, o escritor estava rodeado de mulheres que tomaram parte em sua vida, por outro, ele ainda pensava como esperado de um homem da década de 1940.
Doutor em psicologia por Harvard, William Marston é frequentemente creditado como criador do detector de mentiras — o que, ironicamente, não é totalmente verdade, apesar da essencialidade de suas pesquisas em torno das reações biológicas perante dizer a verdade ou contar uma mentira. Seus estudos certamente o inspiraram a criar o icônico laço da verdade, um artefato poderoso da Mulher Maravilha, que obriga aqueles por ele envoltos a dizer apenas a verdade absoluta.
Cordas, laços, braceletes e correntes são extremamente recorrentes nas primeiras edições dos quadrinhos de Diana Prince, a Mulher Maravilha. Não por qualquer razão, o psicólogo abordava temáticas adultas nas HQs por meio de metáforas, como em All Star Comics nº8 (1941), em que a heroína perde seus poderes por ter seus braceletes amarrados por um homem, segundo a chamada “lei de Afrodite”, na qual uma mulher é privada de sua força ao ser “dominada” por um homem.
Curioso é o fato de que uma personagem tão poderosa, criada por guerreiras e abençoada por Zeus, estaria sujeita a uma lei bizarra e vulgar. Esse teor persiste nas primeiras edições dos quadrinhos, ao ponto em que a própria personagem se manifesta: “Estou cansada de ser amarrada”.

Estreando na revista All Star Comics nº8, a Mulher Maravilha deixa a ilha paradisíaca de Themyscira para lutar contra o facismo que se alastrava no mundo dos homens. Vestida em um corpete, saia e botas altas vermelhas, sua imagem é sexualizada e desafiadora para o momento. Em 1942, a Organização Nacional para a Literatura Decente categorizou o quadrinho da heroína em uma lista de “Publicações Desaprovadas para Jovens” por um motivo: “A Mulher Maravilha não está vestida o suficiente”.
Durante a década de 1940, a Mulher Maravilha foi escrita conforme o questionável estilo de Marston. Até que, em 1947, o falecimento do psicólogo acarretou em uma grande mudança no estilo narrativo da personagem: Robert Kanigher assume o rumo da amazona e deixa de abordar as teorias psicosexuais do autor anterior.
As histórias da heroína são de extrema complexidade, pois sua invenção representou tanto uma forte propaganda de guerra quanto a radical mudança do papel social das mulheres no século XX. O esforço de guerra é traduzido principalmente na primeira edição da revista solo Mulher Maravilha, de 1942, em uma história paralela que aborda uma jovem enfermeira da Cruz Vermelha em apoio aos militares estadunidenses. Pouco conectada à personagem principal, esse conto aparece de maneira forçada para influenciar jovens garotas a se alistarem e contribuírem com os Estados Unidos durante o conflito.
Por outro lado, a Mulher Maravilha refletiu também os esforços sufragistas durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente porque as mulheres assumiram os papéis tradicionalmente masculinos em fábricas, indústrias e em diversas áreas políticas e econômicas enquanto os homens compunham as frentes da guerra. Assim, uma personagem que lutasse não em igualdade com homens, mas ainda mais forte e bravamente, foi certamente impactante na década de 1940.
Os quadrinhos da Mulher Maravilha, assim como os do Batman, eram vendidos juntamente com selos de guerra, tornando o leitor um investidor do exército. Lutando contra espiões nazistas e enfrentando militares do Eixo, a personagem foi um grande símbolo de patriotismo e esforço civil feminino ao longo da Segunda Guerra Mundial.
A propaganda estadunidense de que seu exército certamente venceria a guerra estava muito presente nos quadrinhos, alimentando o ânimo dos civis na América e dos militares na Europa. Em Mulher Maravilha nº1 (1942), Ares, o deus grego da guerra, é confrontado por Afrodite, deusa do amor, que garante aos personagens e aos leitores que, quando os Estados Unidos ganhassem a guerra, (e não “se”, pois não era uma possibilidade, mas uma questão de tempo) o mundo encontraria a paz.
Contudo, sabe-se que a história não foi composta dessa maneira. Após o fim da Segunda Guerra e o subsequente início da Guerra Fria, as histórias da Mulher Maravilha perderam sua força política e as tramas adentraram temas domésticos, característicos do conservadorismo pós-guerra.
Com a “ameaça comunista à espreita”, uma mulher forte e independente não poderia ser retratada nos quadrinhos, pois essas histórias adotariam um teor de luta social por emancipação feminina, e o próprio conceito de luta social era associado ao “perigo vermelho” soviético. Dessa forma, durante as décadas de 1950 e 1960, Diana Prince foi remodelada para os parâmetros políticos da potência capitalista, os Estados Unidos, de modo que seus dilemas deixaram de ser bélicos ou filosóficos e passaram a tratar de moda e namoros com Steve Trevor, seu par romântico.
O Comics Code Authority (CCA), também atuou sobre a princesa de Themyscira. No mesmo livro já destacado, a “Sedução do Inocente” (1954), a Mulher Maravilha é acusada de ser lésbica e induzir a juventude ao sadomasoquismo.
Críticas tão duras e conservadores mobilizaram a população, através do medo irracional, a temer pela educação de seus filhos, principalmente em um momento histórico em que a batalha travada era ideológica e muitas editoras de HQs haviam sido fechadas. Mesmo as histórias da Mulher Maravilha sofreram grandes quedas no interesse popular, apesar das adequações nos roteiros e do selo do CCA em sua capa.
Já em 1968, a Mulher Maravilha enfrenta uma reformulação radical. O roteirista Dennis O’Neil a faz perder os poderes, a força e o ímpeto voraz inicialmente tão característicos à heroína e, naquele momento, ela se torna uma agente secreta que domina artes marciais. Entretanto, O’Neil recebeu tantas críticas que precisou pedir desculpas a um público indignado com a depreciação de uma personagem outrora tão valente.
Gloria Steinem, uma jornalista e símbolo ativista feminista na época, criticou duramente a descaracterização de Diana. Steinem, cofundadora da Ms. Magazine, uma revista voltada ao debate de pautas feministas, colocou o traje original da personagem na capa da Ms. Magazine em 1972 e exigiu o retorno dos poderes e da originalidade da Mulher Maravilha.
Entretanto, ressalta-se que a jornalista em questão foi contratada pela CIA com a finalidade de desviar a atenção do movimento feminista das pautas raciais, prejudicando a reivindicação de igualdade entre negros e brancos dentro da luta por direitos civis. Assim, por mais que Steinem aparentasse defender a pauta feminista, suas ações eram deliberadamente calculadas para que a repercussão do movimento não atingisse certos setores da sociedade e mantivesse o nível de desigualdade que beneficiava os homens brancos no poder.
Nesse sentido, é importante destacar que, até meados de 1967, as HQs da amazona não tinham mais tanta popularidade. Foi preciso que sua história fosse apagada tão repentinamente para que o público voltasse a atenção a Diana novamente e recuperasse o interesse pela Mulher Maravilha.
Essa retomada de importância de Diana Prince foi marcada pelo seriado de televisão Mulher Maravilha, em 1975. Interpretada por Lynda Carter, a personagem volta a ter poderes, traje clássico e enfrenta seus inimigos lutando diretamente contra eles, recuperando sua imagem preferida pelos leitores e espectadores.
Já no fim da Guerra Fria, durante a década de 1980, a editora DC Comics introduz um arco de personagens chamado “Crise nas Infinitas Terras”, em que os universos — no plural, pois havia muitos escritores trabalhando com diversos personagens, de modo que uma história do Superman, por exemplo, poderia se conectar a um quadrinho do Batman, mas não seria necessariamente o mesmo Batman que aparecia atuando em parceria com a Mulher Maravilha de outra HQ, o que a editora explicava por se tratarem de universos diferentes — tão complexos fossem extinguidos. Assim, os escritores recomeçaram a maioria das histórias dos heróis da DC Comics.
Para a Mulher Maravilha, a Crise se mostrou uma oportunidade de desenvolvimento e melhorias em vários pontos da história. George Pérez foi o responsável por transformar a heroína em uma guerreira amazona que luta pela igualdade de gênero, tratando de temas como violência e justiça.
Não mais abençoada por Zeus, mas por Héstia, Atena, Ártemis, Deméter, Afrodite e Hermes, Diana luta pela paz contra o deus da guerra Ares. Suas histórias passaram a focar muito mais em diplomacia e mitologia do que em conflitos reais, mas isso não significou perda de impacto no imaginário político de seus leitores. Pelo contrário, a Mulher Maravilha reconquistou o público em metáforas e contos que debatiam o espaço da mulher em um mundo patriarcal. Apesar disso, a personagem continua refletindo uma narrativa estadunidense a respeito de conceitos como paz e justiça, espalhando-a no imaginário coletivo desse país e daqueles que acompanham a trajetória da heroína.
Propagandas & Quadrinhos: Como as HQs se moldam atualmente?
As histórias em quadrinho, em sua maioria, utilizavam seus personagens para canalizar o esforço de guerra e comprometimento nacional pretendido nos militares, que recebiam as baratas revistas nos fronts de batalha, e na população civil, que as consumia diariamente.
Desse modo, essa mídia de poucos custos de produção, se comparada a livros maiores ou ao cinema, foi facilmente recebida pelo público geral, fosse nos Estados Unidos ou em qualquer país que comprasse os quadrinhos da Marvel ou da DC Comics. Caracterizada como arte sequencial, ou seja, arte em que se apresenta uma mensagem a partir da disposição de imagens contínuas, a produção das HQs se destacou pela suposta liberdade de criação de seus autores.
Por ser uma indústria pouco valorizada nos ramos intelectuais das artes, essa produção não era muito restringida por regras internas ou requisitos a seus autores, de modo que os escritores e desenhistas apresentavam certa autonomia em seus trabalhos. Capazes de se conectar com o público do qual faziam parte — como os autores de Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster, judeus em meio a Segunda Guerra Mundial —, os escritores de quadrinhos transformavam suas indignações com preconceitos de classe, religião ou cor em motivo para que heróis aclamados lutassem pela justiça social.
Dessa maneira, nomes como Superman, Mulher Maravilha e Magneto carregaram, e ainda o fazem, muitos enredos pautados em reivindicações populares e movimentos políticos. Em virtude disso, pode-se compreender como as comics têm um importante papel na pautas sociais e na integração do imaginário sociopolítico coletivo.
Will Eisner, renomado quadrinista estadunidense, destaca como as histórias em quadrinho são um modo inusitado de proporcionar entretenimento na mídia, pois “A configuração geral da revista de quadrinhos apresenta uma sobreposição de palavra e imagem, e, assim, é preciso que o leitor exerça suas habilidades interpretativas visuais e verbais. As regências da arte […] e as regências da literatura […] superpõem-se mutuamente. A leitura da revista de quadrinhos é um ato de percepção estética e de esforço intelectual.” (1999, p.8).
A combinação dessa percepção estética e do esforço intelectual destacada por Eisner edifica a complexidade e a importância das HQs ao longo da história. Esse veículo de informação e de entretenimento também é um grande instrumento de estratégia política, ao que carrega debates sociais globais, capaz de atrair leitores por todo o mundo em prol de um sentimento comunitário transformado em símbolo.
Isso significa que uma mesma história pode abarcar inúmeras interpretações de acordo com a realidade de seus leitores e com o tempo histórico em que é escrita e lida. Com efeito, a leitura de uma comic é capaz de induzir o leitor a refletir sobre o cenário de seu país e sobre sua posição política. “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (1986), de Frank Miller, como já mencionado, cumpre esse propósito ao debater a decadência do projeto capitalista estadunidense no fim da Guerra Fria, por exemplo.
Nesse quadrinho, o autor explora a política em seus traços mais excêntricos, fazendo com que o ideal americano, o nacionalismo cego, representados pelo Superman, e o cidadão cansado, aposentado da guerra mas não da missão de continuar vivendo, representado pelo Batman, se enfrentem. A vitória do Cavaleiro das Trevas é muito mais do que uma batalha épica para os fãs de HQs, é uma vitória sobre a versão idealizada das propagandas de guerra, é a chave para que o leitor se questione quanto à política dos Estados Unidos durante o fim do conflito ideológico contra a União Soviética.
Logo, afere-se que as histórias em quadrinhos operam como instrumentos de comunicação de massa e de grande influência social. Nesse aspecto, momentos históricos como guerras, insurreições, movimentações populares estão fortemente presentes nas histórias de super-heróis, seja em metáforas, seja com os próprios personagens travando as guerras junto a seus países.
Sob esse olhar, o editor Rogério de Campos, da editora Veneta, especializada em HQs, diz que “Os quadrinhos florescem em períodos de revoluções e tumultos sociais. Respiram bem gás lacrimogêneo”. Assim, esse tipo de arte têm suas raízes na política e carrega a interpretação de seus autores sobre desdobramentos históricos para a narrativa.
Atualmente, a moldagem dos quadrinhos sob essa visão política e social pode ser averiguada no novo universo da DC Comics, o Universo Absoluto, ou apenas Absolute. Nos quadrinhos que carregam esse selo, personagens clássicos têm suas origens completamente reinventadas.
Superman já não caiu na Terra quando bebê e não foi criado pelos bons Kents, como contam a grande maioria dos quadrinhos do herói. Em “Superman Absolute”, escrito por Jason Aaron em 2024, Kal-el só chegou à Terra depois de sua adolescência, e o tempo que passou em Krypton, seu planeta natal, foi essencial para que o personagem desenvolvesse consciência de classe, o que alavanca a narrativa para o patamar das lutas sociais.

O brasão em “S” característico do personagem, no Universo Absoluto, é o símbolo da casta menos abastada de Krypton, o planeta natal de Superman. Os trabalhadores são obrigados a utilizarem o brasão como identificação de seu lugar na sociedade extremamente desigual, o que é visto por muitos com vergonha e humilhação.
Mas não para Kal-el, que encara a disparidade social com o fervor de um adolescente revoltado, e nem para sua família, que constantemente luta contra as injustiças impostas à sua casta; entre elas, a repressão, a censura e a pobreza.
Essa adaptação de Superman, um herói clássico agora mais soturno e revolucionário, foi pensada e publicada no atual cenário de imensas disparidades socioeconômicas, em que enquanto poucos chegam a acumular trilhões de dólares, muitos mal têm o que comer.
Nesse sentido, Superman Absolute é uma obra de alerta e de combate ao conservadorismo crescente, que questiona o leitor quanto às desigualdades existentes não apenas numa sociedade fictícia, mas muito presente no mundo real.
Apesar disso, como qualquer produção humana, essa nova saga carrega o viés e as percepções daquele que a criou. Ao contestar a estrutura de classes com o clássico herói que carregou o patriotismo estadunidense e defendeu forças militares, constrói-se, novamente, a simbologia de que os Estados Unidos são os “nobres defensores da democracia” e os pioneiros na luta pela “liberdade”.
Discussões de Classe e a Reconfiguração do Herói
Um dos aspectos mais reveladores da evolução dos quadrinhos de super-herói é a forma como eles lidam com a questão de classe, um tema que foi central em suas origens, mas que foi gradualmente sendo apagado ou reconfigurado. O Homem-Aranha de Stan Lee e Steve Ditko, criado em 1962, era um herói revolucionário por sua identificação com as classes trabalhadoras. Peter Parker era um jovem de classe baixa, de bairro periférico, que lidava com problemas cotidianos como pagar contas, ajudar sua tia doente e ser desprezado pela elite intelectual e midiática da cidade. Sua famosa máxima, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, não era um chamado para manter o status quo, mas sim um imperativo categórico de um trabalhador que, mesmo com seus próprios problemas, não podia ignorar o sofrimento dos outros.
Essa essência de Peter Parker foi traída no Universo Cinematográfico Marvel (MCU) durante os anos 2010 e 2020. A versão do Homem-Aranha não é mais o herói do povo, mas um “puxa-saco” de bilionários. Sua origem é subvertida: ele não desenvolve sua atuação como super-herói como resultado da perda de seu tio que faz ele ver a importância dos valores de responsabilidade e humildade, mas é recrutado ativamente por Tony Stark, um dos maiores símbolos do capitalismo tecnológico na ficção. O traje de Peter não é feito por ele em seu quarto, mas é um presente de alta tecnologia de Stark: em outras palavras, a luta de classes é substituída por uma dinâmica de mentor e pupilo, onde o jovem prodígio é validado pelo magnata, e sua responsabilidade deixa de ser para com o bairro, passando a estar vinculada a uma espécie de missão cósmica, pré-definida por seus superiores.

A trajetória do Superman na DC Comics oferece um paralelo igualmente preocupante. Originalmente criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, o herói era um campeão dos oprimidos, um imigrante que defendia os trabalhadores contra a corrupção e a ganância corporativa. Suas primeiras histórias mostravam-no derrubando grandes empresários e expondo políticos corruptos. Contudo, com o tempo, Superman foi se tornando símbolo de conservadorismo e da “American Way of Life”, ou seja, sua imagem foi cooptada para representar o modo de vida americano, frequentemente defendendo as instituições que ele antes confrontava. Ele deixou de ser um agente de mudança social para ser um agente de estabilidade. A perda de seu caráter inicial de protetor dos trabalhadores reflete a própria despolitização dos quadrinhos mainstream, que preferem heróis inofensivos e apolíticos a figuras revolucionárias.
A recente proposta de “Absolute Batman” surge, portanto, como uma subversão radical desse movimento de elitização dos heróis. Nesta nova versão, Bruce Wayne não é o bilionário playboy que usa sua fortuna para se tornar o Cavaleiro das Trevas. Em vez disso, ele é retratado como um trabalhador comum da construção civil, um homem da classe média-baixa que enfrenta a corrupção sistêmica de Gotham com os recursos limitados que possui.
Essa reinvenção dos arquétipos de classe nos quadrinhos não é mero acaso, mas uma resposta a uma demanda do público por narrativas mais autênticas e representativas. O cansaço com as histórias de bilionários filantropos, que salvam o mundo enquanto perpetuam sistemas de desigualdade, abriu espaço para que editoras como a DC arriscassem com interpretações mais radicais. A discussão que se impõe é: o herói deve ser um defensor do mundo tal como ele é, ou um agente para o mundo como ele deveria ser? Ao transformar o Homem-Aranha em um capacho de Stark e esvaziar o Superman de sua luta de classe, a indústria de quadrinhos não apenas traiu suas origens, mas também demonstrou seu alinhamento com uma ideologia profundamente liberal e conservadora. O Batman Absolute é, talvez, um sinal de que essa corrente está sendo contestada.
Adaptações Atuais (2021-2026) e a Propaganda Contemporânea
O panorama dos quadrinhos de herói entre 2021 e 2026 é marcado por uma crise de identidade e uma tentativa de reinvenção, em um contexto de profunda polarização política e questionamento de antigas narrativas. As histórias em quadrinhos e, principalmente, suas adaptações cinematográficas, já não vendem abertamente o “sonho americano”, mas uma versão mais indireta do “soft power”, que tenta conciliar a defesa de pautas progressistas, como diversidade e inclusão, com a manutenção de valores nucleares, como o militarismo o capitalismo.
Esse período viu a ascensão de narrativas que buscam “desconstruir” o herói, questionando sua própria existência e eficácia. Filmes como The Batman (2022) apresentam um herói atormentado, cuja luta contra o crime parece mais como uma resposta disfuncional ao trauma de perder os pais do que uma missão messiânica de purificar a cidade de Gotham. Essa tendência revela uma propaganda menos triunfalista. Os EUA, representados por seus heróis, não são mais apresentados como a solução infalível, mas como uma força que, mesmo falha e confusa, ainda é a melhor ou a única esperança.
O novo filme do Superman (2025), por outro lado, traz uma narrativa muito mais otimista que seus antecessores da década de 2010, seguindo uma tendência chamada na internet de “Hope Core”. O filme levanta debates sobre imigração, atuação das Big Techs na disseminação de ódio e desinformação nas redes sociais e validade da interferência externa dos Estados Unidos, fazendo alusões ao conflito entre Israel e Palestina durante a obra. Apesar disso, o clímax do filme ainda é uma equipe de heróis estrangeira solucionando as mazelas da nação fictícia Jarhanpur através do assassinato do líder da também fictícia Borávia. É uma estratégia de “soft power defensivo”, que admite defeitos para parecer mais autêntico, mas que, no fundo, reforça a necessidade contínua da intervenção americana. As discussões de classe, gênero e raça são incorporadas, mas frequentemente de forma superficial, como marketing para nichos, sem desafiar as estruturas que perpetuam esses problemas.
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