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Eleição Para Secretário Geral da ONU

Eleição Para Secretário Geral da ONU

Por Levi Cezar e Sarah Oliveira.

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Introdução

A Organização das Nações Unidas se prepara para escolher, em 2026, o sucessor de António Guterres em um dos momentos mais desafiadores de sua história. Em meio ao agravamento das disputas entre grandes potências, ao enfraquecimento do multilateralismo, à crise financeira e aos questionamentos sobre sua capacidade de responder aos principais conflitos internacionais, a eleição do próximo Secretário-Geral transcende a simples substituição de uma liderança administrativa e torna-se um teste para o futuro da governança global. 

Com o fracasso da Liga das Nações — primeira organização internacional universal — , na Segunda Guerra Mundial em agosto e em outubro de 1944, em Washington foi acordado entre Estados Unidos, União Soviética, China e Reino Unido que uma organização internacional baseada no princípio da igualdade entre os Estados soberanos seria criada. Assim, de 25 de abril a 26 de junho, na Conferência de São Francisco, 50 países redigiram e aprovaram a Carta das Nações Unidas. Logo após o término da guerra, em outubro de 1945, os países-membros ratificaram a Carta da Organização das Nações Unidas, documento constitutivo que estabelece as obrigações e os direitos dos membros, além da estrutura da organização. 

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Edward Reilly Stettinius Jr., Secretário de Estado e Presidente da delegação dos Estados Unidos, assina a Carta da ONU em uma cerimônia realizada no Veterans’ War Memorial Building. 1945. Fonte: ONU/Yould.

O Multilateralismo 

Nesse contexto, a Organização das Nações Unidas (ONU) consolida-se como a principal instituição do multilateralismo contemporâneo. Para Keohane, cientista político, em seu artigo “Multilateralism: An agenda for research” de 1990, multilateralismo é “a prática de coordenar políticas nacionais em grupos de três ou mais Estados” (Keohane, p. 731, 1990, tradução nossa). Essa coordenação, segundo o autor, ocorre por meio de normas, de instituições e de processos de negociação. 

A ONU foi concebida, desde o início de sua criação, como uma organização internacional de caráter permanente, com o intuito de preservar a paz e a segurança internacionais por meio da cooperação entre os Estados. Consequentemente, a Organização busca evitar a ocorrência de novos conflitos de grande escala, como aqueles que culminaram nas duas Guerras Mundiais, e evitar os riscos associados às ações unilaterais, isto é, à falta de transparência e à ausência de mecanismos de interação entre os Estados. 

Além da dimensão quantitativa (quantidade de Estados integrados, que é três ou mais) do multilateralismo, a ONU incorpora princípios estruturantes qualitativos do multilateralismo. Dentre eles, destacam-se a indivisibilidade, segundo a qual determinados problemas e interesses internacionais devem ser tratados coletivamente; a reciprocidade, que pressupõe relações de cooperação baseadas em benefícios mútuos e no cumprimento recíproco dos compromissos assumidos; a participação, que assegura aos Estados a possibilidade de integrar os processos de negociação e de deliberação em fóruns multilaterais, ela assegura aos Estados a possibilidade de integrar os processos de negociação, deliberação, fala, votação, eleição para órgãos representativos, presidir algum órgão; a legitimidade, conferida pela adoção de regras e de procedimentos reconhecidos coletivamente pelos membros da organização; a ação coletiva, que consiste na coordenação de esforços entre os Estados para enfrentar desafios comuns que dificilmente seriam solucionados por iniciativas isoladas, seja por meio de debates, deliberação ou composição de maiorias; por fim, os Estados membros precisam conscientemente e intencionalmente querer fazer parte desse espaço e desse projeto político, entendido como a construção de uma ordem internacional baseada em normas, instituições e objetivos compartilhados, voltados à promoção da paz, da segurança e da cooperação internacional. 

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Cúpula do Milênio na ONU. 2000. Fonte: Getty Images

A estrutura das Nações Unidas 

Conforme o 7º artigo da Carta, a organização é composta por seis órgãos principais. O principal órgão deliberativo, representativo e normativo é a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), onde os Estados-membros discutem temas relacionados à paz, à segurança, ao desenvolvimento, aos direitos humanos, ao orçamento e à admissão de novos membros.

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Sessão da Assembleia Geral da ONU para eleição dos membros não permanentes do Conselho de Segurança. 2026. Fonte: Michael Kappeler.

 Já o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) é o principal órgão responsável pela manutenção da paz e da segurança internacional, sendo composto por um total de quinze países-membros, dos quais cinco são permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) e dez são não permanentes, sendo que, para esta última categoria, são feitas eleições com mandatos de dois anos. Diferentemente da AGNU, o CSNU pode adotar medidas juridicamente vinculantes, ou seja, de cumprimento obrigatório pelos Estados-membros, diferentemente das resoluções da Assembleia Geral, que, em regra, possuem caráter apenas recomendatório, como sanções econômicas e autorizações para operação de paz. Além disso, os membros permanentes do Conselho podem vetar resoluções substantivas ao órgão, mesmo que a resolução possua a maioria dos votos favoráveis à aprovação. Um exemplo emblemático do exercício do veto no CSNU refere-se à Resolução 2728 (2024), que previa o cessar-fogo imediato, incondicional e permanente em Gaza. A Resolução obteve 13 votos a favor, mas foi vetada pelos Estados Unidos. É importante ressaltar, porém, que o veto pode “matar” uma resolução ou documento, mas não o tema tratado.

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Morgan Ortagus, vice-enviada especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio, levanta a mão para vetar um projeto de resolução durante uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a situação em Gaza, na sede da ONU. 2025. Fonte: Angela Weiss.

O Conselho Econômico e Social (ECOSOC) serve para coordenar as agências e os programas especializados da organização. No geral, promove debate e faz recomendações gerais sobre assuntos econômicos, sociais, de saúde pública, educacionais e de direitos humanos.

Por sua vez, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) é o principal órgão judicial da ONU, com sede em Haia. É formada por quinze juízes eleitos e com mandato de nove anos. A Corte emite decisões sobre disputas legais entre os Estados, contribuindo para resoluções pacíficas de disputa.

Por fim, o Conselho de Tutela, apesar de inativo, está previsto na Carta da ONU. O Conselho foi um dos principais órgãos criados pela Carta das Nações Unidas para supervisionar territórios sob administração fiduciária, sobretudo territórios não autônomos, com o ideal de promover seu progresso político, econômico, social e educacional rumo ao autogoverno ou independência. 

O Secretariado e o Secretário-Geral

O último órgão principal previsto na Carta é o Secretariado, responsável pela administração da organização e pela execução de suas atividades cotidianas. Atualmente, o Secretariado conta com 44 mil funcionários públicos internacionais e é  chefiado pelo Secretário-Geral, o mais alto funcionário administrativo da ONU, nomeado pela AGNU mediante recomendação do CSNU. Este cargo foi descrito pelo primeiro Secretário-Geral, como “o trabalho mais impossível da terra” (Lie, 2007, tradução nossa).

O Secretário-Geral, assim como todos os demais funcionários públicos internacionais, devem agir com total independência em relação aos governos. Sendo assim, esses funcionários não atuam nem representam o seu país ou um Estado específico, mas a organização como um todo. Além disso, o Secretário cumpre um mandato de cinco anos, podendo ser reconduzido ao cargo. 

Nos termos do art. 98, o Secretário deve atuar em todas as reuniões da AGNU, do CSNU e do ECOSOC, além de desempenhar as demais funções que lhe forem atribuídas por esses órgãos e de apresentar anualmente um relatório sobre as atividades da organização. Mais do que isso, o Secretário-Geral tem a prerrogativa de chamar a atenção do CSNU para qualquer assunto que, em sua avaliação, possa ameaçar a manutenção da paz e da segurança internacionais. 

Embora o Secretariado desempenhe funções eminentemente administrativas, o cargo de Secretário-Geral possui significativa dimensão política e diplomática. Nesse sentido, Simon Chesterman, em “Secretary or General? The UN Secretary-General in World Politics”, foi descrito como a personificação dos interesses coletivos da humanidade, o guardião das aspirações da Carta das Nações Unidas, o defensor da consciência do mundo (quando não o próprio símbolo dessa consciência) e, de forma mais pragmática, como o principal diplomata do planeta e o mais alto funcionário público internacional.

He has been variously described as the personification of the collective interests of humanity, the custodian of the aspirations of the Charter, the guardian of the world’s conscience (if not the symbol of the conscience itself), and more prosaically as the globe’s chief diplomat and its premier international civil servant. (Chesterman, 2007, p.34).

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António Guterres, atual Secretário-Geral. 2026. Fonte: Angela Weiss

A combinação entre essas funções administrativas, políticas e diplomáticas faz do Secretário-Geral uma das figuras mais relevantes do mundo para a governança global. Por isso, todo o processo ultrapassa a mera nomeação de um funcionário para um cargo na organização, porque inclui um momento de apreensão para o sistema internacional. Nesse contexto, a eleição de 2026 para o cargo ocorre em um período de aumento das crises globais, dos desafios financeiros e da legitimidade da organização.

A crise financeira

Para que possa desempenhar as funções previstas na Carta, a ONU depende de um sistema de financiamento composto por contribuições dos Estados-membros. Esse financiamento é dividido, em linhas gerais, em quatro categorias: as contribuições obrigatórias são as taxas que todos os Estados-membros precisam pagar como parte da sua adesão à organização; as contribuições essenciais voluntárias são fundos não vinculados — os fundos não vinculados são contribuições voluntárias sem destinação pré-definida — e consistem no principal meio de financiamento de programas, de fundos e de agências, como a Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), sendo fornecidos a critério dos contribuintes para orçamentos gerais da ONU; as contribuições vinculadas também são voluntárias, porém vinculadas a algum projeto específico; e, por fim, as receitas de outras atividades, que incluem a renda gerada por trabalhos prestados, por investimentos e por flutuação cambial. 

Para 2026, os Estados Unidos mantêm sua posição histórica como o maior contribuinte financeiro da ONU, respondendo por 22% (US$766.855.453) do orçamento regular da organização, o qual é fixado em US$3,45 bilhões. A China ocupa a segunda posição, com uma contribuição correspondente a 20% (US$691.361.387). Apesar desse elevado nível de financiamento, a organização encerrou 2025 com um recorde de US$1,57 bilhão em contribuições obrigatórias em atraso: embora as contribuições dos Estados-membros sejam obrigatórias, atrasos em seus pagamentos são recorrentes, inclusive por parte de grandes contribuintes, como os Estados Unidos, o que compromete a previsibilidade financeira e a liquidez da organização. Nos termos do artigo 19 da Carta, o Estado-membro cujos atrasos acumulados sejam iguais ou superiores ao montante das contribuições devidas pelos dois anos completos anteriores poderá perder o direito de voto na AGNU, salvo decisão em contrário da própria Assembleia quando o inadimplemento decorrer de circunstâncias alheias à vontade do Estado. 

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Agência de Direitos Humanos da ONU atravessa grave crise financeira. 2025. Fonte:Federico Parra/AFP 

Além disso, a ONU iniciou o exercício financeiro de 2026 com um déficit de caixa de aproximadamente US$400 milhões, acumulado ao final de 2025. Para manter a continuidade de suas operações, a organização precisou recorrer ao Working Capital Fund e à Special Account, mecanismos destinados a suprir insuficiências temporárias de caixa decorrentes, sobretudo, do atraso no pagamento das contribuições obrigatórias pelos Estados-membros.

Em outras palavras, ainda que o orçamento anual seja aprovado pela AGNU, a ONU necessita de recursos disponíveis em caixa para honrar, nos prazos estabelecidos, suas obrigações financeiras, como o pagamento de servidores, de fornecedores, de contratos e de operações de paz. Assim, quando as contribuições dos Estados-membros são pagas com atraso ou a arrecadação fica abaixo do esperado, a organização enfrenta problemas de liquidez, isto é, encontra obstáculos na transformação de um ativo em dinheiro ou em recurso financeiro disponível de forma rápida e com pouca ou nenhuma perda de valor. Nesses casos, a Organização é obrigada a recorrer às suas reservas financeiras para assegurar a continuidade de suas atividades e para evitar a interrupção de serviços essenciais. 

A crise de legitimidade

Além da crise financeira, a ONU também enfrenta uma crise de legitimidade. Para Maria Regina Soares de Lima, doutora em Ciência Política (Vanderbilt University), e  Marianna Albuquerque, doutora em Ciência Política (IESP-UERJ), a crise de legitimidade é  a incapacidade das instituições multilaterais de responderem a questões de paz e de segurança, o que gera perda de confiança acumulada e novas paralisias, isto é, situações em que divergências políticas entre os Estados impedem a adoção de decisões e de medidas concretas para enfrentar conflitos e crises internacionais, como visto pela calamidade Síria desde 2011.

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Desde 2011, a guerra na Síria deixou mais de 380 mil mortos. Foto: Alaa Al-Faqir/Reuters. 

Essa legitimidade possui duas dimensões: normativa e prática. A dimensão normativa baseia-se na própria Carta das Nações Unidas, tratado internacional que instituiu a organização, bem como seus objetivos, seus princípios, suas competências e sua estrutura institucional. O Artigo 24, por exemplo, atribui ao Conselho de Segurança a responsabilidade principal pela manutenção da paz e segurança internacionais. De maneira complementar, na segunda dimensão, espera-se que a instituição seja capaz de cumprir a esfera normativa a partir de respostas concretas para solucionar os conflitos, as crises humanitárias, a promoção da paz e a cooperação internacional. Na prática, porém, essa capacidade tem sido reiteradamente comprometida: entre 2011 e 2020, Rússia e China vetaram diversas resoluções sobre a Síria, e em 1994 a ausência de resposta tempestiva contribuiu para o genocídio em Ruanda. Estes episódios evidenciam o descompasso entre o que a Carta prevê e o que a organização consegue efetivamente entregar, mostrando que, quando a organização encontra dificuldades para cumprir essas funções, seja por impasses políticos, limitações institucionais ou restrições financeiras, sua efetividade passa a ser questionada e, consequentemente, sua legitimidade pode ser enfraquecida. 

Embora a organização tenha sido concebida na perspectiva de igualdade soberana dos Estados, na busca por interesses comuns e na adoção de regras compartilhadas, a estrutura decisória do Conselho de Segurança, por exemplo, frequentemente gera questionamentos sobre a aplicação desse princípio. O poder de veto conferido aos cinco membros permanentes do Conselho cria uma assimetria decisória entre o interesse coletivo da maioria dos membros e o dos membros permanentes, assimetria essa conhecida na literatura como minilateralismo.

Um emblemático exemplo foi o veto que a Rússia fez à Resolução dos Estados Unidos e da Albânia, em 2022, que condenava a invasão da própria Rússia na Ucrânia. Na prática, caso houvesse sido aprovada, a Resolução teria formalizado a condenação internacional da invasão russa e teria exigido a retirada das tropas russas da Ucrânia. Isso daria mais peso diplomático à posição da ONU e ajudaria a construir consenso para futuras medidas, inclusive para sanções mais amplas fora do CSNU. Apesar disso, mesmo que a AGNU tenha aprovado Resoluções condenando a invasão, esses documentos têm caráter apenas recomendatório e não vinculante, ou seja, sua aprovação não cria obrigações jurídicas para os Estados-membros, que não são legalmente obrigados a cumprir as medidas ou recomendações nela contidas. 

As crises globais

Durante seus 80 anos, a ONU buscou operar com base no seu preâmbulo “Nós, os povos das Nações Unidas” (Nações Unidas, 1945, p.1, tradução nossa), refletindo o seu ideal de que os desafios globais só seriam solucionados através da cooperação, do diálogo e do respeito ao direito internacional. Desde sua fundação, a Organização carregou em si a esperança máxima no multilateralismo e nas instituições internacionais, a ponto de autores como o economista e filósofo Fukuyama descreverem o Pós-Guerra Fria, o mundo do multilateralismo, como o “fim da história”. Nesse sentido, acreditava-se que conflitos entre grandes potências se tornariam menos prováveis e que organizações como a ONU assumiriam um papel cada vez mais central na governança global. 

No entanto, o cenário que se desdobra para a ONU no século XXI é totalmente diferente. As Nações Unidas encontram-se, nesse novo e incerto cenário geopolítico, no centro de uma enorme crise que abala justamente aquilo em que mais investiram: a legitimidade das instituições multilaterais. Esse colapso não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma convergência de tendências profundas. Desdobra-se, ali, um mundo marcado cada vez mais pela fragmentação, pelo ressurgimento de movimentos nacionalistas, por uma reviravolta na configuração do poder geopolítico e pelo aprofundamento de processos insuficientes que já marcavam a Organização desde sua fundação.

No epicentro do ressurgimento de políticas ultranacionalistas e unilaterais, encontram-se potências centrais e membros permanentes do CSNU, como os Estados Unidos sob o governo Trump e a Rússia sob o governo de Vladimir Putin. Ambos são exemplos de como esses países têm orquestrado políticas progressivamente mais agressivas, enquanto desprezam categoricamente as instituições internacionais no momento em que estas colidem com seus interesses domésticos. Essa conjuntura se exemplifica na invasão russa à Ucrânia, assim como na ampliação de políticas comerciais protecionistas dos EUA, através do estabelecimento de tarifas a inúmeras nações.

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Presidente dos EUA, Donald Trump, conversa com o presidente russo, Vladimir Putin, durante a cúpula da APEC, no Vietnã. 11/11/2017. Fonte: Jorge Silva/Reuters.

Este é um problema que se agrava à medida que evoluem os desafios transnacionais contemporâneos, como a crise ambiental, marcada pelas mudanças climáticas; a cibersegurança; os fluxos migratórios em escala cada vez mais massiva; e a própria mudança no equilíbrio do poder global. Tais dificuldades exigem respostas coletivas complexas e cada vez mais rápidas, para as quais a estrutura burocrática e limitada da ONU vem se mostrando ainda mais despreparada. Essa limitação decorre tanto da hegemonia decisória dos cinco membros permanentes do CSNU, cujo poder de veto permite que um único Estado bloqueie qualquer resolução, mesmo quando é parte interessada no conflito em pauta, quanto da lentidão dos próprios processos institucionais, já que qualquer reforma estrutural da ONU exige a ratificação desses mesmos cinco países, tornando a organização refém do mecanismo que a paralisa. 

Diante desta análise, Thomas G. Weiss, aclamado acadêmico de relações internacionais e governança global, descreve o sistema da ONU como um “sistema feudal” em seu livro “What ‘s wrong with the United Nations and how to fix it”. São agências espalhadas, sem hierarquia real, financiadas cada vez mais por contribuições voluntárias e carimbadas, isto é, recursos doados com destinação previamente definida pelos financiadores para projetos, programas ou países específicos, em vez de serem utilizados conforme as prioridades gerais da ONU e seus  recursos centrais. O autor mostra como isso distorce as suas prioridades: já em 2002, quase metade de todo o dinheiro doado pelos governos aos 25 apelos humanitários da ONU foi destinada ao Afeganistão e isso foi perpetuado como um padrão na década seguinte. É importante não confundir esse tipo de decisão com generosidade pura: podemos entender estes números como um reflexo de prioridades geopolíticas dos doadores. Isso ocorre porque grande parte do financiamento humanitário da ONU depende de contribuições voluntárias carimbadas, que permitem ao doador escolher exatamente o destino de seu aporte — diferentemente do orçamento central, cujas prioridades são definidas pela própria organização. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, o Afeganistão tornou-se prioridade estratégica de segurança nacional para os Estados Unidos e seus aliados, o que se refletiu diretamente nos volumes destinados ao país nos apelos humanitários seguintes — um fenômeno que a literatura chama de “efeito 11 de Setembro”: o direcionamento de recursos segue a agenda geopolítica dos doadores, e não necessariamente as necessidades objetivas medidas pela própria ONU. 

O resultado prático desta lógica é que outras crises humanitárias ficam cronicamente sub financiadas, enquanto o Afeganistão recebeu atenção desproporcional em determinados momentos, e desapareceu do radar em outros. Um exemplo emblemático dessa oscilação ocorreu em 2021, quando o Talibã retomou Cabul em meio à retirada das tropas dos EUA e da OTAN, provocando o colapso do governo afegão, o congelamento de bilhões de dólares em reservas do país no exterior e a paralisação de serviços básicos como saúde e sistema bancário. Nesse momento, a mesma arquitetura fragmentada e dependente de contribuições mostrou-se incapaz de reorganizar rapidamente os recursos para a nova onda de deslocamento interno. Enquanto isso, crises igualmente graves seguiam sem financiamento suficiente: planos de resposta humanitária para o Iêmen — classificado pela própria ONU como a maior crise humanitária do mundo — receberam repetidamente menos da metade do valor solicitado, assim como os apelos coordenados na África Austral e Oriental, financiados em média em menos de 30% de suas necessidades. Essa disparidade evidencia que a distribuição de recursos da ONU responde menos à gravidade objetiva das crises do que à relevância geopolítica que cada uma ocupa na agenda dos doadores. 

Essa mesma fragmentação institucional, sem coordenação central, aparece de forma ainda mais crônica em um terceiro caso: o Congo. Foi lá em que Dag Hammarskjöld, Secretário-Geral da ONU da época, morreu em 1961 e é lá em que a ONU mantém uma das operações de paz mais longas e mais caras de sua história, sem conseguir estabilizar a região leste do país. Thomas G. Weiss liga essa persistência a dois problemas concretos: primeiro, a ausência histórica de uma força de reação rápida da ONU, pois várias propostas (canadense, norueguesa, do Congresso americano) morreram na mesa por oposição dos países permanentes. Essa oposição é fortificada pela falta de vontade política dos membros e pela falta de enforcement da Organização (ou seja, a falta de meios práticos de aplicação das decisões tomadas), o que significa que a Organização segue dependendo de tropas emprestadas por Estados-membros, sob comando nacional, para cada nova crise. 

Segundo, o financiamento humanitário do Congo, historicamente, figura entre os piores índices de necessidades atendidas: em determinado ano, a República Democrática do Congo (RDC) teve o pior percentual de cobertura entre todos os apelos consolidados da ONU. Isto é: mesmo com uma missão de paz presente no território há décadas, o lado humanitário e de reconstrução do mesmo conflito é extremamente negligenciado, ilustrando, na prática, o mesmo desenho institucional pulverizado que Weiss descreve.

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Membros do M23 patrulham Goma, na República Democrática do Congo, após grupo armado tomar a cidade e agravar a crise humanitária na região. Foto: Guerchom Ndebo/The New York Times.

O que se desenha então, diante deste panorama, e o que conecta as crises da Ucrânia, do Afeganistão e do Congo não é um único defeito, mas o mesmo princípio fundacional da soberania de Westfália — modelo consolidado pelos Tratados de Westfália (1648), que estabelece a soberania e a não intervenção nos assuntos internos dos Estados —  que Weiss aponta como a doença mais profunda da ONU: a Organização foi desenhada para preservar a soberania dos Estados-membros — inclusive dos permanent five (os cinco países-membros permanentes) — e, por isso, tropeça de formas previsíveis sempre que um membro poderoso é parte do conflito (como o caso da Ucrânia e os episódios de paralisia por veto). Esses tropeços acontecem tanto quando o conflito depende de coordenação voluntária e do financiamento fragmentado entre dezenas de agências (Afeganistão com a bilateralização e as prioridades de doadores, por exemplo) quanto quando a crise se arrasta por décadas sem nunca gerar consenso político suficiente para uma capacidade de resposta mais robusta (como com Congo e a ausência de força de reação rápida, além do financiamento humanitário insuficiente).

Assim, se a crise de legitimidade do multilateralismo pudesse ser medida por um único indicador prático, esse indicador seria o desempenho das missões de paz da ONU, o instrumento mais visível, mais caro e mais simbólico que a Organização dispõe para responder a crises globais. É justamente nesse instrumento que a ineficiência estrutural da ONU se torna mais concreta, porque, ali, a distância entre o mandato formal e a capacidade real de agir fica exposta caso a caso. Percebe-se, então, como a Organização não está sofrendo crises isoladamente, mas uma única crise estrutural de legitimidade e de capacidade que se manifesta de forma diferente conforme o tipo de conflito e à medida que este atinge uma parte distinta de um mesmo sistema fragmentado.

Eleição para o novo Secretário-Geral

Apesar da Carta das Nações Unidas não contemplar um procedimento para indicação dos candidatos ao cargo, os candidatos são indicados por Estados-membros e, a partir de 2015, com intuito de maior transparência no processo, os candidatos precisam entregar alguns documentos como a Carta de Nomeação que deve ser enviada pelo(s) Estado(s) que patrocinam a candidatura ao Presidente da Assembleia Geral e ao Presidente do Conselho de Segurança, um Curriculum Vitae contendo as experiências profissionais, a trajetória diplomática, os cargos exercidos, a qualificação e uma declaração de financiamento de campanha. Além disso, um dos documentos mais importantes é o Vision Statement (Declaração de Visão), no qual o candidato deve apresentar sua visão para o futuro da ONU, os principais desafios que identifica na organização, suas propostas e suas estratégias para o fortalecimento do multilateralismo. 

Em busca do mandato, que começa em 1 de janeiro de 2027, seis nomes disputam atualmente o cargo de Secretário-Geral da ONU, dentre eles: Rebeca Grynspan, Macky sall, Michelle Bachelet, Rafael Grossi, María fernanda Espinosa Garcés e Carolyn Rodrigues Birkett. 

Os principais temas que estão sendo debatidos diante da eleição e dos candidatos deste ano dizem respeito à:

• Origem nacional do próximo candidato;  

• Possibilidade de uma mulher ser escolhida pela primeira vez desde sua fundação;

• Forma que os cinco membros permanentes do CSNU conseguirão superar suas diferenças políticas no atual contexto do sistema internacional; 

Nesse sentido, segundo a presidente da AGNU, Annalena Baerbock, o próximo Secretário-Geral deve combinar capacidade administrativa com liderança política, defendendo os três pilares fundamentais da ONU: paz e segurança, direitos humanos e desenvolvimento sustentável. 

Os candidatos

REBECA GRYNSPAN

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Rebeca Grynspan. 2026. Fonte: Stephane de Sakutin

Nascida na Costa Rica em 1955, Rebeca Grynspan é economista de formação e tem uma longa trajetória dentro da ONU. Foi vice-presidente da Costa Rica entre 1994 e 1998, após ter sido vice-ministra da Fazenda, ministra da Habitação e ministra-coordenadora de Assuntos Econômicos e Sociais. No início dos anos 2000, passou a ocupar cargos de direção na ONU ligados ao desenvolvimento. Foi diretora do escritório sub-regional no México da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) entre 2001 e 2006, depois diretora regional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para a América Latina e o Caribe (2006-2010) e, em seguida, subsecretária-geral da Secretaria-Geral Ibero-americana (SEGIB), cargo no qual coordenou cúpulas de chefes de Estado e aprofundou o diálogo entre 22 países da América Latina e Europa, sendo a primeira mulher a liderar a organização. 

Em seu vision statement, a candidata defende o fortalecimento do multilateralismo, do desenvolvimento sustentável, da redução das desigualdades, e da credibilidade da ONU. Em entrevista ao jornal Reuters, Grynspan declarou que a organização deve fazer “menos com menos”, devido aos atrasos de grandes contribuidores, como os Estados Unidos. Ao defender que a ONU deve fazer “menos com menos”, Grynspan reconhece que a organização enfrenta uma redução dos recursos financeiros e argumenta que, diante desse cenário, será necessário concentrar esforços em menos prioridades e atividades, direcionando os recursos disponíveis para as áreas consideradas mais estratégicas e essenciais.  

MACKY SALL

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Macky Sall. 2026. Fonte: Spencer Platt.

Engenheiro geólogo, especialista em geofísica e político senegalês, Macky Sall foi primeiro-ministro, Presidente da Assembléia Nacional e Presidente do Senegal (2012-2024). A República do Burundi o nominou para o cargo de Secretário em março de 2026. Sall iniciou a carreira pública como diretor-geral da companhia nacional de petróleo PETROSEN (2000-2001), depois, assumiu o cargo de Ministro das Minas, Energia e Água (2001-2003), Ministro do Interior e das Coletividades Locais (2003-2004) e, em 2004, foi primeiro-ministro do Senegal. Foi Presidente da CEDEAO (2015-2016), Presidente da União Africana (2022-2023) e Presidente do Comitê de Orientação NEPAD (2013-2019).  Em 2024, foi enviado-especial do “Pacto de Paris para Povos e o Planeta” para a agenda de reforma do financiamento global pós‑cúpula de Paris e, atualmente, ele preside o Global Center on Adaptation

Sua indicação chega com alguns passivos políticos, como a fragmentação dos Estados-membros do continente Africano. Ruanda, país vizinho do Burundi, criticou abertamente sua candidatura, tornando-se uma oposição. As críticas sucederam devido ao Burundi, na condição de Presidente rotativo da UA, não ter seguido os procedimentos adequados para sua indicação, já que não aguardou os Estados-membros da organização aprovarem formalmente e que, mesmo assim, endossaram o candidato. O Burundi tentou reverter o endosso por procedimento de “quebra de silêncio” — o Presidente apresenta um texto e, caso ninguém se oponha até horário previsto, considera-se aprovado — por 24 horas. Ao fim do prazo, 20 Estados-membros se manifestaram, quebrando o silêncio. A candidatura foi mantida, porém, o candidato não representa o continente.

Em 2024, o então presidente Macky Sall assinou um decreto que adiava as eleições presidenciais, originalmente previstas para fevereiro, sob a justificativa de controvérsias relacionadas à elegibilidade de candidatos. A medida, contudo, foi considerada inconstitucional pelo Conselho Constitucional do Senegal, que anulou o decreto e determinou a realização do pleito o mais rapidamente possível. A tentativa de adiamento provocou uma grave crise institucional, desencadeando protestos em todo o país, confrontos com as forças de segurança e acusações da oposição de que o governo estaria promovendo um “golpe constitucional” para prolongar sua permanência no poder. 

O candidato estrutura seu vision statement em três eixos centrais: a promoção da paz, da segurança, do desenvolvimento e da prosperidade compartilhada; a renovação e a revitalização do multilateralismo; e o fortalecimento da governança das Nações Unidas. Para concretizar esses objetivos, propõe três imperativos estruturais voltados à modernização institucional da Organização: a racionalização das atividades, de modo a evitar sobreposições entre agências, fundos e programas; a simplificação dos processos administrativos e decisórios, com a redução da burocracia nos mecanismos de funcionamento e de implementação de projetos; e a otimização da gestão, vinculando recursos financeiros e ações desenvolvidas a resultados concretos e mensuráveis. 

MICHELLE BACHELET JERIA 

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Michelle Bachelet Jeria. Fonte: Organização das Nações Unidas ( ONU), Seleção e nomeação do próximo Secretário-Geral.

Nascida em Santiago, no Chile, em 1951, Michelle Bachelet Jeria é formada em Medicina pela Universidade do Chile, com especializações em Saúde Pública, e estudou estratégia militar na Academia Nacional de Estratégia e Política do Chile. Filha de Alberto Bachelet, um general da força aérea chilena que morreu em decorrência de torturas sofridas durante a ditadura de Pinochet, foi presa e exilada ao lado da mãe em 1975, retornando ao país em 1979 para retomar os estudos de medicina. Sua trajetória na política nacional começou nos anos 2000, quando foi ministra da Saúde entre 2000 e 2002 e, em 2002, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa em toda a América Latina. Foi eleita presidente do Chile em duas ocasiões, de 2006 a 2010 e de 2014 a 2018, sendo a primeira mulher a chefiar o Executivo chileno.

Ao final de seu primeiro mandato presidencial, passou a ocupar cargos de liderança na ONU ligados a direitos humanos e à igualdade de gênero. Foi a primeira diretora executiva da ONU Mulheres, entre 2010 e 2013, órgão recém-criado para promover os direitos de mulheres e meninas globalmente, com foco em empoderamento econômico e em combate à violência de gênero. Após seu segundo mandato como presidente, foi nomeada pelo então Secretário-Geral, António Guterres, para o cargo de alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, função que exerceu entre 2018 e 2022, sendo a sétima pessoa a ocupar o posto desde a criação do escritório, em 1993.

À frente do Alto Comissariado, Bachelet liderou o órgão principal de direitos humanos da ONU durante um período marcado por desafios globais, como a pandemia de Covid-19. Um dos episódios mais controversos de sua gestão foi a publicação, em seus últimos dias no cargo, de um relatório independente sobre violações de direitos humanos contra a minoria uigur na China, o que causou fortes reações de protesto por parte do governo chinês. Também recebeu críticas de setores dos Estados Unidos por posicionamentos sobre Israel e por sua posição favorável ao direito ao aborto, o que atraiu oposição de segmentos conservadores norte-americanos.

Em fevereiro de 2026, sua candidatura ao cargo de secretária-geral da ONU foi formalizada por meio de indicação conjunta do Chile, do Brasil e do México, tornando-se, à época, uma das figuras mais experientes e politicamente destacadas entre os postulantes ao posto. Contudo, em março de 2026, o Chile retirou oficialmente seu apoio à candidatura, após a eleição do governo de extrema-direita de José Antonio Kast, que já havia criticado publicamente a gestão de Bachelet e considerado um erro do governo antecessor tê-la indicado. 

Em discurso como candidata, definiu a ONU como o mais importante fórum mundial de encontro, diálogo e busca por soluções comuns, defendendo o fortalecimento dos instrumentos do multilateralismo e da modernização da Organização.

RAFAEL MARIANO GROSSI 

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Rafael Mariano Grossi. Fonte: AP/ Vahid Salemi. 

Nasceu em Buenos Aires, na Argentina, em 1961, e tornou-se um diplomata de carreira formado pela Universidad Católica Argentina (UCA), com mais de 35 anos de experiência em não proliferação e desarmamento nuclear. Ingressou no Serviço Exterior argentino em 1985, ocupando cargos como chefe da embaixada na Bélgica e em Luxemburgo (1998-2002) e representante argentino junto à OTAN (1998-2001), além de representante suplente na Conferência sobre Desarmamento em Genebra. Entre 2002 e 2007, foi chefe de Gabinete da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), em Haia, e, entre 2007 e 2009, foi diretor-geral de Assuntos Políticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina.

Sua carreira dentro do sistema nuclear internacional começou de forma mais estreita a partir de 2010, quando assumiu o cargo de diretor-geral assistente para Políticas e chefe de gabinete na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Em 2013, foi nomeado embaixador da Argentina na Áustria e representante argentino junto à AIEA e demais organizações internacionais sediadas em Viena. Em 2015, presidiu a Conferência Diplomática da Convenção sobre Segurança Nuclear, obtendo aprovação unânime para a Declaração de Viena sobre Segurança Nuclear, marco nos esforços internacionais após o acidente nuclear de Fukushima Daiichi, em 2011.

Assumiu a direção-geral da AIEA em dezembro de 2019, sendo reconduzido ao cargo para o período de 2024 a 2027, com apoio, entre outros, do governo brasileiro. À frente da agência, Grossi tornou-se uma das figuras mais expostas a crises internacionais de alto risco da atualidade: lidou, por exemplo, com o colapso do acordo nuclear com o Irã. Esse processo rendeu ameaças de autoridades iranianas e proteção permanente da inteligência austríaca. Grossi também assumiu papel central na guerra entre Rússia e Ucrânia, ao liderar pessoalmente, desde 2022, missões da AIEA à usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, sob ocupação russa. Ademais, o candidato negociou diretamente com Putin e Zelensky diversos acordos de cessar-fogo pontuais para viabilizar reparos essenciais na planta e defende publicamente o estabelecimento de uma zona de proteção permanente ao redor da instalação, para evitar uma catástrofe radiológica em meio ao conflito.

Sua candidatura ao cargo da secretaria-geral foi oficializada pelo governo argentino sob a presidência de Javier Milei, que destacou sua “capacidade de liderança ante situações graves que afetam a paz e a segurança internacional”, numa referência implícita ao seu papel na Ucrânia e nas tensões nucleares globais. Grossi, no entanto, tem feito questão de se apresentar como candidato independente e não como representante de uma posição ideológica específica, afirmando publicamente não ser “candidato de direita”, mas um “funcionário internacional independente”. Em sua fala de campanha, sintetizou sua visão de liderança dizendo que a ONU precisa de um Secretário-Geral disposto a “calçar as botas e ir aonde o problema existe”, criticando implicitamente a ausência histórica do cargo na resolução direta de grandes conflitos internacionais.

MARÍA FERNANDA ESPINOSA GARCÉS 

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María Fernanda Espinosa Garcés. Fonte: Atilgan Ozdil/Anadolu Agency/Getty Images 

Nascida em 1964 em Salamanca, na Espanha, Espinosa Garcés é diplomata, poeta e escritora equatoriana, com mais de 20 anos de experiência multilateral em negociações internacionais, paz, segurança, defesa, desarmamento, direitos humanos, povos indígenas, igualdade de gênero, desenvolvimento sustentável, meio ambiente, biodiversidade e mudança climática. Em 2008, tornou-se a primeira mulher a ocupar o posto de representante permanente do Equador junto à ONU em Nova York, onde coordenou o Grupo de Trabalho sobre a revitalização dos trabalhos da Assembleia Geral, na 63ª sessão do órgão.

Ao longo da carreira, ocupou por duas vezes cargos de Relações Exteriores do Equador, além de Defesa Nacional entre 2012 e 2014, tornando-se a primeira mulher a chefiar o Ministério da Defesa no país, bem como o de Patrimônio Natural e Cultural, coordenando o Conselho Setorial de Política Externa e Promoção. Presidiu o Grupo dos 77 mais China até janeiro de 2018 e a Comunidade Andina. Como negociadora-chefe, participou das Conferências das Partes (COP) 16 e 17, da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e da Conferência Rio+20 sobre Desenvolvimento Sustentável, em que ajudou a viabilizar a adoção de elementos centrais do documento final “O futuro que queremos”. Como ministra da Defesa, participou de debates sobre mulheres, paz e segurança e promoveu a criação da Escola Sul-Americana de Defesa, no âmbito da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Em junho de 2018, foi eleita presidente da 73ª sessão da AGNU, tornando-se a primeira mulher latino-americana e caribenha e apenas a quarta mulher, em toda a história da Organização, a ocupar o cargo, além da primeira desde 2006.

Em maio de 2026, tornou-se a quinta candidata a ingressar na disputa pelo cargo de secretária-geral da ONU, com indicação apresentada formalmente pelo governo de Antígua e Barbuda — não pelo Equador, seu país de origem. Em seu vision statement, ela se descreve como uma liderança orientada a resultados, especializada em conectar os ideais multilaterais ao impacto concreto no território, com histórico de “redimensionar” organizações complexas, administrar orçamentos públicos volumosos e articular coalizões de alto risco entre Estados-membros, setor privado e organismos internacionais. 

CAROLYN RODRIGUES BIRKETT

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Carolyn Rodrigues Birkett. Fonte: Permanent Mission of Guyana to the United Nations 


Nascida em 1973, na aldeia ameríndia de Santa Rosa, na Guiana, Carolyn Rodrigues Birkett é formada em Trabalho Social pela Universidade da Guiana, com estudos na Universidade de Regina, no Canadá. Iniciou a carreira pública como coordenadora do Programa de Projetos Ameríndios do (SIMAP), sendo indicada em abril de 2001, aos 27 anos, como ministra de Assuntos Ameríndios da Guiana, e sendo a mais jovem pessoa e a primeira mulher a ocupar o cargo, além da representante de mais alto escalão de origem indígena no governo do país. Permaneceu até 2008, quando foi nomeada ministra das Relações Exteriores, cargo que ocupou até 2015, com a incorporação, em 2009, também das áreas de Comércio Exterior e Cooperação Internacional.

Após deixar o governo guianense, direcionou a carreira para o plano internacional: foi diretora do Escritório de Ligação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em Genebra, entre 2017 e 2020, período em que organizou eventos conjuntos sobre juventude, agricultura, florestas e água e em que redigiu o relatório anual sobre o estado da segurança alimentar e nutricional global. Em outubro de 2020, assumiu o posto de representante permanente da Guiana junto às Nações Unidas em Nova York, cargo que ocupa até hoje. Como embaixadora, liderou a delegação guianense durante o mandato do país como membro rotativo do CSNU, entre 2024 e 2025, um período marcado por debates especialmente tensos sobre a guerra em Gaza. Em junho de 2026, foi oficialmente indicada pelo governo da Guiana, por anúncio do presidente Irfan Ali, como candidata. 

No diálogo interativo com Estados-membros e sociedade civil, Rodrigues Birkett descreveu sua visão para o cargo como “principiada, pragmática e responsiva às necessidades da organização”, posicionando-se como defensora natural dos pequenos Estados. 

Expectativas sobre a eleição 

Em um contexto marcado pela intensificação das disputas no sistema internacional, pelo enfraquecimento do multilateralismo e pelas dificuldades financeiras da ONU, a escolha de um novo dirigente representa um momento decisivo para o futuro da instituição. Nesse sentido, a eleição de 2026 possibilitará superar dilemas históricos que, até então, não foram superados, como uma mulher assumir pela primeira vez o posto de Secretário-Geral da organização. 

Além disso, a possibilidade de uma mulher assumir o cargo pela primeira vez em oitenta anos ultrapassa a dimensão de representatividade. A ausência de uma representação feminina no mais alto cargo da ONU, dentro do Secretariado, expõe um paradoxo dentro da instituição, que tem como princípio a promoção da igualdade de gênero e dedica um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 5) ao empoderamento das mulheres e à ampliação representativa, mas que, ao mesmo tempo, nunca teve uma mulher ocupando esse posto tão importante para a governança global. 

Nesse sentido, mesmo com candidatas aptas à posição e uma eventual Secretária, essa possibilidade traz um avanço que, embora relevante, chega tardiamente em relação ao tempo de existência da organização. Apesar de a escolha de um novo Secretário-Geral ser prerrogativa dos Estados-membros e não da burocracia institucional da ONU, o fato de nenhuma ter sido eleita anteriormente ao cargo evidência os limites políticos do próprio sistema de governança da organização. 

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Debate entre os atuais candidatos. 2026. Fonte: John Lamparsk 

Entretanto, a representatividade, por si só, não será suficiente para responder aos desafios que se impõem ao próximo Secretário-Geral. Independentemente do candidato eleito, a nova liderança encontrará uma organização submetida a uma crescente crise de legitimidade, marcada pela dificuldade em responder aos principais conflitos internacionais, pela polarização entre as grandes potências, pelo enfraquecimento dos mecanismos multilaterais e por sucessivas restrições orçamentárias que comprometem sua capacidade operacional. 

Embora o Secretário-Geral seja frequentemente apresentado como o principal rosto político da Organização, sua capacidade de atuação permanece condicionada à vontade dos Estados-membros, especialmente dos cinco membros permanentes do CSNU. Isso significa que, mesmo quando dispõe de legitimidade política, capacidade diplomática e ampla experiência internacional, o ocupante do cargo não possui autonomia para superar, por iniciativa própria, os impasses estruturais que limitam a atuação da ONU. A condução de operações de paz, a adoção de medidas coercitivas, a implementação de reformas institucionais e, em grande medida, a própria capacidade de resposta da Organização continuam dependentes do consenso — ou, ao menos, da ausência de oposição — das grandes potências. Em outras palavras, o principal desafio do próximo Secretário-Geral não será apenas exercer uma liderança eficaz, mas fazê-lo dentro de uma estrutura institucional que restringe significativamente sua margem de ação e que, diante da crescente rivalidade geopolítica, torna cada vez mais difícil a construção de consensos multilaterais. 

Mais do que definir quem ocupará o cargo pelos próximos cinco anos, o processo eleitoral de 2026 servirá como um termômetro da disposição dos Estados em revitalizar o multilateralismo e em fortalecer a governança internacional. Caso prevaleçam, mais uma vez, interesses geopolíticos imediatos sobre a necessidade de modernização institucional, a eleição poderá representar apenas uma mudança de liderança, sem enfrentar as causas estruturais da perda de relevância e de legitimidade que hoje desafiam as Nações Unidas. 

REFERÊNCIAS

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    Mestrando em Relações Internacionais  pela Universidade Federal do ABC (UFABC), Especialização em Política e Relações Internacionais  pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Membro do núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026.

    Linhas de pesquisa: Organizações Internacionais, Multilateralismo, Integração Regional, Política Externa, Economia Política Internacional.

  • cropped-d7b098af-7e7c-4648-9428-f0a5285d65b7-250x250 Eleição Para Secretário Geral da ONU

    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz 2026. Áreas de interesse: eleições norte-americanas, dinâmicas políticas do Sul Global, com ênfase na América Latina e no Oriente Médio, e política internacional sob a perspectiva do jornalismo.

Mestrando em Relações Internacionais  pela Universidade Federal do ABC (UFABC), Especialização em Política e Relações Internacionais  pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Membro do núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Linhas de pesquisa: Organizações Internacionais, Multilateralismo, Integração Regional, Política Externa, Economia Política Internacional.