Genocídio de Ruanda: da Violência Colonial à Tentativa de Reconciliação
Por Francisco Carvalho Silva

Com a chegada dos meados de julho, faz-se memória aos 32 anos do fim do genocídio de Ruanda, ocorrido ao longo de apenas 100 dias – entre abril e julho – e responsável por ceifar a vida de, aproximadamente, 800 mil pessoas, bem como por acarretar em pedidos de refúgio por milhares de outras. Entretanto, antes de analisar os horrores cometidos em 1994, é preciso ponderar acerca dos eventos que culminaram no massacre, além de elucidar como tais desavenças foram construídas. Além disso, é preciso observar como essas violências foram ignoradas e, posteriormente, culminaram em uma difícil reconciliação dentro do país.
Colonização: a formação de um país enquadrada na violência
Inicialmente, é necessário ressaltar/lembrar que Ruanda é um pequeno país localizado no interior da África – mais especificamente, da África Oriental –, e faz fronteira com a República Democrática do Congo (RDC), a Uganda, a Tanzânia e o Burundi. Suas origens remontam ao século XI, quando, dentro do Reino de Ruanda, conviviam duas principais etnias: uma maioria hutu e uma minoria tutsi. Enquanto os primeiros eram agricultores e realizavam funções sacerdotais, os segundos eram pastores de animais e também protegiam militarmente as comunidades. Dessa forma, apesar de etnicamente diferentes, ambos apresentavam uma convivência harmônica, considerando que tinham funções complementares dentro da sociedade, além de falarem a mesma língua – o kinyarwanda – e praticarem a mesma religião. Assim, pode-se observar que, durante séculos, as etnias mantiveram uma relação de troca mútua, independente de quaisquer diferenças.

Contudo, já no final do século XIX, apresenta-se um dos principais motivos que inauguraram um período de convivência violenta: a colonização. A invasão alemã – parte do processo da partilha da África, em que as nações europeias se reuniram para definir suas respectivas áreas de influência dentro do continente africano – promoveu as primeiras rachaduras dentro da sociedade ruandesa. Ao iniciarem seu domínio, os alemães focaram no estabelecimento e manutenção do controle colonial, para tal, visando garantir uma vantagem nesse domínio, as lideranças alemãs priorizaram uma associação com a minoria tutsi – assegurando uma proximidade com a elite política local e ressaltando as diferenças físicas junto de discursos eugenistas.
Considerando as motivações apresentadas, a presença, no momento da colonização alemã, de um reinado tutsi dentro da monarquia ruandesa, levou ao desejo de associação com essas lideranças políticas pelos alemães como forma de facilitar o domínio territorial. Mais do que isso, as observações de diferenças físicas entre as duas etnias – os hutus eram mais baixos, tinham a pele mais escura, além de rostos redondos; já os tutsis eram mais altos, apresentavam a pele mais clara, bem como rostos longilíneos – foram associadas aos discursos eugenistas em ampla difusão dentro do continente europeu, promovendo uma valorização de fisionomias mais próximas à europeia. Por fim, diante dessas ações, o domínio colonial focou, principalmente, na submissão política da maioria étnica, possibilitando a redução de esforços – tanto diplomáticos quanto econômicos – para a formação de alianças políticas locais e evitando o fornecimento de mecanismos (e de poder) para eventuais tentativas de insurreição.
Assim, o colonialismo alemão resultou no início da segregação entre etnias, dado o tratamento distinto em benefício dos tutsis. Com isso, houve a concessão de privilégios a essa minoria, permitindo um acesso à educação e concedendo a exclusividade na ocupação de certas funções administrativas dentro do domínio colonial. Além disso, a promoção da fragmentação era de interesse alemão, em virtude da diminuição da resistência à invasão,visto que, ao alimentar desavenças entre si, as etnias não entravam em conflito com as tropas alemãs.

Porém, após a 1ª Guerra Mundial e, consequentemente, após a derrota do Império Alemão, houve uma transferência do domínio colonial dos alemães para os belgas. Para assegurar a manutenção de sua influência, as autoridades belgas implementaram um controle colonial mais agressivo, marcado pela manutenção de um discurso em favor da minoria tutsi e pela criação de uma política sistemática de divisão étnica. Tendo isso em vista, e ainda utilizando a aparência como fator de distinção, houve a segregação oficial da população ruandesa por meio da criação de uma carteira de identidade que indicava a etnia de cada indivíduo. A materialização da divisão, portanto, concretizou a retórica de que diferentes etnias deveriam receber tratamento e direitos distintos – incluindo uma diferença na oferta de empregos e cargos políticos –, e estabeleceu que os tutsis eram um grupo dominante e superior, enquanto os hutus eram subordinados.
Além disso, dentro dos círculos religiosos observou-se uma ampliação progressiva do discurso de distinção étnica entre os tutsis e hutus. Dessa forma, para além de uma suposta superioridade étnica, também ocorreu a estigmatização e a mitificação de suas origens, vinculando a minoria étnica à descendência de Cam – figura bíblica e filho irreverente do próprio pai, Noé. Em conclusão, a presença de um tratamento diferenciado pelas autoridades belgas junto da circulação de um determinado discurso religioso contribuíram para a ampliação do ressentimento dos hutus em relação aos tutsis.

Diante de tantas informações a respeito da colonização de Ruanda, demanda-se recair sobre a invenção de uma segregação, ou seja, a forma como o domínio estrangeiro criou fissuras sociais entre etnias que, antes, apresentavam uma convivência pacífica. Nessa perspectiva, é preciso notar a perversidade da invasão colonial e imperialista das nações europeias dentro do continente africano, marcada pela criação de rivalidades a partir de noções superficiais e estereotipadas acerca dessas populações. Mais do que isso, destaca-se a racionalidade por trás desse domínio, considerando a utilização dessas segregações inventadas como motor para ampliação da influência colonial. Tendo isso em observação, é possível identificar que há um pensamento estratégico por detrás da presença europeia, ou seja, há a aplicação da maneira mais simples de assegurar o domínio colonial, priorizando a criação de desavenças internas independente de suas consequências sociais locais. Desse modo, a colonização foi um estopim para o surgimento de desavenças, levando ao desejo de uso da violência para subversão da lógica social imposta.
Guerra Civil: o clique final para a divisão
Considerando os desgastes sociais advindos da colonização, era notável uma crescente insatisfação da maioria hutu. Dessa forma, em 1959, tal ressentimento se concretizou com a derrubada da monarquia regida pelos tutsis e, consequentemente, com a fragilização das estruturas coloniais dentro do país, principalmente aquelas vinculadas ao domínio político tutsi. Em sequência, em 1962, a ineficácia de tentativas de controle popular por parte das autoridades coloniais resultou na proclamação de independência da República de Ruanda, permitindo a ascensão ao poder de um governo hutu.
Em vista dessa inversão de poder, houve uma ampliação da fragmentação entre os grupos étnicos, marcada pela presença de disputas por terras, conflitos políticos e sucessivas crises financeiras durante os primeiros anos de independência. A minoria étnica foi culpabilizada diante dessas problemáticas e, assim, deu-se início à perseguição social aos tutsis através do recém-criado exército ruandês, o que resultou no exílio de centenas de pessoas em países vizinhos, como a Uganda ou o então Zaire (atualmente RDC). Assim, dentro de Ruanda, a ascensão do governo hutu significou, por meio da ampliação dos gastos militares, a intensificação do autoritarismo e da repressão, incluindo a abolição das liberdades civis dos tutsis, bem como a redução de investimentos em infraestrutura.
Tendo isso em vista, o êxodo de tutsís para o exílio acarretou no desejo de retorno ao país por parte dos exilados, bem como de retomada do controle político. Nesse viés, em 1987, a criação da Frente Patriótica de Ruanda (FPR) – por exilados na Uganda – significou o surgimento de uma resistência organizada ao governo hutu estabelecido no pós-independência. Com isso, os membros da FPR visavam criar uma ação unificada e coordenada para retomar o poder dentro do país, o qual perderam desde o fim do domínio colonial.

Dessa maneira, em 1990, as tropas da FRP realizaram a ocupação do território ruandês e, como efeito, deram início à guerra civil de Ruanda, destacada pelo confronto generalizado entre o exército ruandês e a FRP – liderados, respectivamente, por hutus e tutsis. Ao longo do conflito, como forma de dissuasão da investida tutsi, o governo ruandês foi responsável por disseminar diversas propagandas “anti-tutsi”, ou seja, promotoras da narrativa de que a expulsão total dos tutsis era o caminho para a solução dos problemas de Ruanda. Assim, nota-se como a presença de uma ameaça real ao governo hutu levou a uma desestabilização política dentro do país, demandando uma escalada das medidas de coerção popular acerca da ameaça tutsi.
A partir dessa perspectiva, é possível observar os primeiros efeitos da segregação, isto é, a promoção de ressentimentos advindos do período colonial influenciou, direta e indiretamente, a ocorrência de uma guerra civil acompanhada de uma crise política em Ruanda. As desavenças levaram ao desejo de assegurar o poder político dentro do país por ambos os grupos, fazendo com os hutus lutassem para mantê-lo, enquanto os tutsis combatessem para retomá-lo. Mais do que isso, a instabilidade proveniente da guerra reverberou dentro do governo ruandês e ressaltou, novamente, as marcas da colonização: a guerra civil demonstrou como um discurso utilizado para separar as etnias e facilitar o domínio colonial encontrou ecos, ainda que reformulado, dentro do conflito.
Em seguida, já em 1993, verificou-se o desgaste militar de ambas as partes e, consequentemente, a falta de perspectivas para o fim do conflito. Entretanto, na tentativa de manter esforços para a imposição do domínio hutu, houve a criação da “Interahamwe” – termo que, em kinyarwanda, significa “aqueles que lutam juntos” –, uma milícia hutu composta por jovens treinados e equipados pelo exército ruandês que deveria promover um confronto direto contra os tutsis. Além disso, sucedeu a entrega dos meios de comunicação públicos para os extremistas hutus, almejando a exaltação da diferença entre etnias e incitando, publicamente, a perseguição aos tutsis através da veiculação de boatos sobre um suposto planejamento de ataques por parte da minoria étnica. Apesar da incerteza de vitória, os hutus insistiram no conflito e, principalmente, na caça aos tutsis para assegurar o poder de qualquer maneira.

Diante desse cenário, ainda que já houvesse tropas francesas no território ruandês – estas em aliança com o governo hutu em uma tentativa de defesa da “Françafrique” (conjunto de países africanos sob influência francesa) diante de avanços ingleses na região –, ocorreu a intervenção de tropas estrangeiras tanto da ONU quanto da Bélgica para mediação de um acordo de paz através da Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda (UNAMIR). Com isso, perante uma pressão internacional, as lideranças da FPR concordaram com a criação de um governo de transição – composto por tutsis e hutus – e o presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, acabou por se ver obrigado a também aceitar tal proposta, visando evitar qualquer desavença diplomática com as nações ocidentais. Dessa forma, depois de 3 anos de confrontos, conquistou-se a assinatura de um acordo de paz, denominado Acordo de Arusha, entre o presidente ruandês e os líderes da FPR, dando um fim ao conflito civil. Tal negociação causou a insatisfação dos extremistas hutus, que desejavam a continuação do conflito até a expulsão total dos tutsis e interpretaram a assinatura do acordo como uma demonstração de “fraqueza” por parte do presidente. A aparente paz obtida com o acordo mostrou-se deveras instável perante às opiniões de uma parcela da população: por um lado, uma resolução diplomática; por outro, um povo revoltado.
Portanto, considerando tal contexto de oposição entre as ações políticas e as opiniões populares, percebe-se que, apesar da assinatura do acordo, a “sobriedade” diplomática do governo ruandês simbolizou o desejo de articulação junto ao Ocidente, ainda que diversas medidas para manutenção do conflito tivessem sido colocadas em prática pouco antes das negociações de paz. Por parte de Juvenal e seus apoiadores, não parecia haver o interesse real de erradicar uma enorme agitação popular – construída ao longo de anos e estimulada pelas ações da Interahamwe e dos canais de rádio – simplesmente com a validação internacional de uma assinatura. Em suma, o Acordo de Arusha representou apenas um fim formal ao conflito, enquanto as desavenças e insatisfações populares ainda se manifestavam independentemente das ações tomadas pelas lideranças políticas.
Genocídio: o flash da violência
Tendo em vista que a revolta incessante dos extremistas hutus era decorrente das próprias ações do governo ruandês, é preciso ressaltar que houve um planejamento meticuloso do genocídio. Ao longo dos meses que antecederam o massacre, ocorreu a distribuição de fuzis de assalto, granadas, facões, machados e outras armas para que os civis hutus se preparassem para um eventual ataque aos tutsis. Além disso, observou-se a alocação de tropas armadas por todo o território ruandês, indicando o preparativo de uma ação coordenada. Tais ações foram financiadas através do gasto de US$134 milhões, considerando o financiamento de parte substancial do armamento, principalmente, pela França. Portanto, além da veiculação de um discurso em que a eliminação dos tutsis corresponderia ao fim dos problemas de Ruanda, o governo também foi responsável por inserir dinheiro para o armamento da população, indicando que havia um plano para o extermínio dos tutsis.

Perante tal cenário, em 6 de abril de 1994, a sociedade de Ruanda, que até então celebrava a recém conquista da paz, foi surpreendida com a derrubada do avião que transportava os presidentes de Ruanda e Burundi – respectivamente, Juvenal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira –, após a assinatura do acordo de paz. Considerando que ambos eram hutus, a notícia do assassinato foi, imediatamente, respondida com uma acusação do envolvimento da FPR pelos extremistas hutus, alegando a comprovação dos boatos de um ataque tutsi que circulavam meses antes e, portanto, significando a justificativa necessária para o início de uma campanha organizada de assassinatos. Enquanto isso, sem sucesso, as lideranças da FPR argumentaram que havia participação dos próprios hutus, em que estes somente visavam a criação de uma desculpa para retomar os ataques aos tutsis.
Com isso, em 7 de abril de 1994, o assassinato da primeira-ministra Agatha Uwilingiyimana, que era uma hutu moderada, ou seja, que buscava o diálogo entre as etnias, e de 10 soldados belgas inseridos nas tropas dos “capacetes azuis” – identificação dos membros das missões de paz da ONU – indicou o estopim para os assassinatos em massa de tutsis, hutus moderados ou qualquer pessoa que se opusesse às ações das milícias. Além disso, a circulação de mensagens, via rádio, como “matem os baratas” ou “cortem as árvores altas”, também incentivaram a população hutu a iniciar a tentativa de extermínio. Assim, tanto membros dos grupos armados quanto civis saíram às ruas e começaram a perseguir e a assassinar os tutsis e seus defensores.

É preciso apontar, ainda, o incentivo para a invasão de casas e o ataque entre vizinhos, amigos e/ou casais interétnicos como consequência do discurso corrente e, principalmente, da ameaça de morte emitida pelos extremistas diante de uma eventual recusa. Mais do que isso, por meio das carteiras de identidade, houve a implementação de bloqueios nas estradas para a identificação seguida de assassinato imediato de qualquer tutsi e, através de listas, também ocorreu a delação de opositores ao regime hutu, bem como de seus familiares. A recorrência de denúncias e o registro étnico em um documento oficial foram as principais formas de identificação das vítimas, facilitando a ação organizada dos extremistas hutus.
Diante da constante perseguição, visando salvar a própria vida, os tutsis começaram a se esconder em escolas, hotéis, igrejas ou qualquer local com alguma proteção estrangeira – principalmente, com a presença de tropas da ONU. Por exemplo, a presença de reforço militar estrangeiro nestes locais, como o Hotel des Milles Collines ou o Estádio Amahoro, em Kigali, assegurou certa segurança para centenas de perseguidos por determinado período. Junto a essa busca, a maioria dos tutsis tentou fugir para os países vizinhos, como Burundi e Uganda, onde pediam refúgio ou encontravam conhecidos. Porém, apesar dos esforços para manutenção da vida, a presença de informações privilegiadas acerca da localização das vítimas, a constante delação – alguns padres católicos denunciaram a presença de tutsis em suas igrejas, por exemplo – e o desejo voraz de extermínio por parte dos extremistas hutus fez com que muitos tutsis fossem mortos, muitas vezes em massa, quando grupos escondidos ou em fuga eram descobertos.
Outra questão recaía, exclusivamente, sobre as mulheres tutsis. Centenas delas, principalmente as jovens, tinham suas vidas poupadas, mas, para tanto, deveriam se submeter à escravidão sexual. Nesse cenário, a violência sexual era recorrente, marcada por estupros em massa. Assim, considerando que a recusa de satisfação das vontades dos homens hutus corresponderia à morte, as mulheres tutsis, muitas vezes, aceitavam tal exploração para preservação da própria vida.
As múltiplas violências mencionadas anteriormente ilustram como o genocídio vai além do desejo de extermínio de um outro grupo social, mostrando que a instauração do medo e da desconfiança contribuem para uma atuação mais prática das milícias. É necessário ponderar que a ausência de organização do tutsis – que, a esse ponto, apenas pensavam em assegurar a própria vida – resultava na inexistência de uma resistência interna às ações dos extremistas hutus. Além disso, a presença de chantagens, como as praticadas com as mulheres tutsis, promoviam o total controle da minoria étnica, considerando que aqueles que dominavam as armas tinham a capacidade de ditar quem viveria ou não e, consequentemente, poderiam demandar qualquer favor. Por exemplo, além da violência sexual, muitos hutus praticavam violência psicológica ao chantagearem seus prisioneiros, levando à extorsão de quantias de dinheiro em troca da menor esperança de sobrevivência. Em suma, os assassinatos eram acompanhados de muitas outras violências, visando desestabilizar qualquer sobrevivente e assegurando o caos social para fácil articulação dos grupos armados.

Considerando a articulação das milícias, houve uma centralização da comunicação por rádio, possibilitando uma mobilização ágil após a descoberta de novas informações. A utilização de emissoras de rádio, como a Rádio Télévision Libre des Mille Collines (RTLM), permitiam um contato constante, prático e funcional entre os extremistas hutus e a população, utilizando da baixa taxa de alfabetização acompanhada da forte tradição oral do país. Com isso, a rádio possibilitou a incitação de discursos de ódio étnico de uma maneira cotidiana através da linguagem coloquial e, principalmente, da transmissão de informações sobre a localização de tutsis e comunicados oficiais entre as músicas.
Levando em conta a importância dos veículos de comunicação dentro do conflito, as mídias foram responsáveis por organizar as informações disponíveis para pessoas tanto dentro de Ruanda quanto espalhadas pelo mundo. Internamente, como dito anteriormente, os meios de comunicação contribuíram para uma naturalização do ódio, bem como dos assassinatos. Internacionalmente, porém, os noticiários, inicialmente, mostravam atualizações do massacre, ainda que rotulassem o conflito com “tribal”, e, depois, pararam de noticiar os acontecimentos do pequeno país africano. Portanto, enquanto a mídia ruandesa corroborava com os confrontos, a mídia internacional começou com uma curiosidade pelo “exótico” e, posteriormente, foi parando de informar os novos desdobramentos, invisibilizando o massacre.
A presença de informações sobre o genocídio demonstra como os meios de comunicação são fundamentais dentro de um conflito, considerando que estes são responsáveis por fazer o recorte que será acessado pela população. As notícias moldam o imaginário popular sobre os acontecimentos e, consequentemente, incitam sentimentos e reações perante os informes. Por exemplo, a mídia de Ruanda promoveu a agressividade dos hutus contra os tutsis, enquanto a mídia estrangeira gerou um choque seguido de uma sensação de superioridade dos estrangeiros em relação aos habitantes do país africano. Assim, os assassinatos em massa e os noticiários mostraram como as mídias promovem a minimização de um massacre tanto pela sua naturalização quanto por sua “tribalização”.
Inação Internacional: a ignorância da violência revelada
A circulação de notícias acerca da progressão do massacre deflagrado em Ruanda possibilitou que muitas pessoas ao redor do globo pudessem tomar conhecimento da existência do território ruandês e, consequentemente, dos assassinatos que ali aconteciam. Porém, ao mesmo tempo que o mundo acessava informações sobre o massacre, a grande maioria apenas se chocava com o ocorrido e, logo em seguida, seguia com a própria vida indiferentemente. A falta de uma sensibilidade real e, por isso, de uma demanda pela atuação das autoridades estrangeiras demonstraram tanto como o noticiário quanto o governo influenciaram e deturparam a percepção acerca do sofrimento dos tutsis, promovendo a imagem de algo “exótico” e distante da realidade.
Tendo o conhecimento do horror que se espalhava por Ruanda, muitos se perguntaram: “mas a ONU não estava presente no país?”. A resposta é sim, haviam tropas da ONU e da Bélgica em território ruandês que visavam assegurar a paz antes do início do genocídio. Entretanto, depois do começo dos assassinatos em massa, os sobreviventes se chocaram com a inação das tropas internacionais. Dessa forma, considerando que o Conselho de Segurança foi responsável por limitar as ações dos “capacetes azuis”, é necessário retomar as motivações para tal falta de ação: visões conflitantes e extensa burocracia.

Por um lado, o primeiro impasse reside na própria composição da ONU e, especialmente, do Conselho de Segurança, em outras palavras, a presença de países com perspectivas (e interesses) próprias e, frequentemente, em oposição faz com que a discussão sobre qualquer ação a ser tomada pelos “capacetes azuis” demande muito tempo e, provavelmente, não seja bem sucedida – levando em consideração a existência do poder de veto pelos membros-permanentes -. Por outro, o segundo dilema compreende a complexa demanda por documentos e autorizações para realização das movimentações e das eventuais interferências das tropas da ONU, evidenciando a ausência de soberania da organização e, consequentemente, a necessidade de ordens para possibilidade de atuação no conflito. Mais do que isso, para além da inexistência de qualquer intervenção, houve uma demora por parte das Nações Unidas para a utilização do termo “genocídio”, como consequência de uma pressão por parte dos Estados Unidos – que estava relutante para enviar tropas após a perda de soldados na Somália, no ano anterior ao massacre -. Assim, diante dos assassinatos em massa, a inação e a dissimulação da ONU não podem ser justificadas, mas podem ser explicadas pela inexistência de consenso entre os membros-permanentes do Conselho de Segurança – inclusive, a França era aliada do governo hutu -, pelo poder de influência dessas cinco nações sobre as Nações Unidas e pela demanda por diversas autorizações para algum tipo de envolvimento dos “capacetes azuis”.
Diante dessa ociosidade, a presença de interesses econômicos, políticos e, até mesmo, militares influenciou a possibilidade de intervenção de um conflito por parte de agentes externos. No caso em análise, os países ocidentais preferiram observar o assassinato de centenas de milhares de pessoas em razão das suas alianças políticas, do desejo de preservação dos próprios exércitos ou do crescimento das próprias indústrias armamentistas, evidenciando as fragilidades da ONU – em que os interesses particulares de cada país estava acima da preservação da vida (um dos objetivos centrais da criação da ONU) -. O genocídio de Ruanda mostrou as lacunas da aliança internacional, desconstruindo o ideal de que todos os países priorizariam uma atuação conjunta em prol da vida e da humanidade. Além disso, a presença de tropas estrangeiras em território ruandês causou uma ilusão nas vítimas do massacre, estas acreditavam que seriam defendidas por esses soldados e acabaram se decepcionando diante da constante negação da possibilidade de envolvimento dos “capacetes azuis” no conflito (nem mesmo para assegurar a proteção dos perseguidos).

Como mencionado acima ou anteriormente, a ONU revelou a incapacidade de atuação diante de situações iminentes de crimes contra a humanidade, como o genocídio. A ausência de diretrizes claras sobre a atuação dos “capacetes azuis”, bem como a existência do poder de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança, fizeram com que os diversos alertas sobre a escalada das tensões entre grupos étnicos fossem ignorados pelas autoridades das Nações Unidas. Ademais, após o início do massacre, também foram negados quaisquer pedidos para uma intervenção mais incisiva, colocando diversas pessoas em risco de vida.
Porém, o que já era crítico, se agravou perante a ordem de retirada das tropas da ONU junto de qualquer estrangeiro expatriado (principalmente europeus e estadunidenses, incluindo jornalistas) do território ruandês – sendo a única ordem do Conselho de Segurança, a de saída – , deixando os tutsis sem qualquer proteção. A remoção de qualquer ajuda estrangeira expôs ainda mais os perseguidos à voracidade dos ataques dos extremistas hutus, ampliando os assassinatos. Entretanto, apesar de fragilizados e abandonados pelos estrangeiros, os tutsis não desistiram de resistir à tentativa de extermínio.
Fim do Genocídio: a observação das consequências
Observando a saída das tropas estrangeiras e o avanço dos ataques dos extremistas hutus, era de se esperar que não haveria mais fim ao genocídio de Ruanda e que, de fato, os tutsís seriam exterminados. Porém, a minoria étnica jamais deixou de lutar pela própria sobrevivência e foi capaz de resistir perante tantas adversidades, se organizando militarmente para promover uma oposição ao governo hutu. Então, ao longo de alguns dias, as tropas da FPR – apoiadas pelo exército de Uganda – conseguiram, novamente, adentrar e conquistar, gradativamente, o território ruandês, de tal modo que, em 4 de julho de 1994, a resistência tutsi realizou a conquista de Kigali. Assim, a tomada da capital foi responsável por desmantelar o sistema de organização do governo e das milícias hutus através da captura dos principais perpretradores do massacre e, consequentemente, por colocar um fim ao genocídio de Ruanda.
Diante da retomada do poder pelos tutsis, houve a promoção da fuga de cerca de 2 milhões de hutus, tanto civis quanto membros do governo, para a fronteira com a RDC, estes temendo retaliações pelo ocorrido nos meses anteriores. O exílio dos hutus foi acompanhado de diversas acusações de assassinato de milhares de pessoas pela FPR, tanto na tomada de poder em Ruanda quanto na entrada de suas tropas na RDC para perseguição da Interahamwe, por parte de grupos de direitos humanos, tais denúncias sempre foram negadas pelas lideranças da FPR. Com isso, levando em conta a anterior caça dos extremistas hutus por tropas tutsis, deu-se continuidade ao conflito entre esses grupos étnicos, entretanto os confrontos passaram a ocorrer em território congolês.

A entrada de um grande contingente de pessoas, acompanhada de uma disputa militar causou diversas instabilidades dentro da sociedade congolesa. Por exemplo, diante da demanda das organizações internacionais nos campos de refugiados, junto de delações sobre a entrega das estruturas de assistência para as milícias hutus, a população local acabou ficando desamparada – carecida de assistência médica – e, em razão disso, sofrendo com surtos de doenças, como cólera. Após o genocídio em Ruanda, surgiu o conflito entre o Movimento 23 de Março (M23), grupo predominantemente tutsí, e as Forças Democráticas pela Libertação de Ruanda (FDLR), grupo dos hutus agora exilados, marcado pela alegação de defesa em prol das comunidades de suas proprias etnias-. Assim, ao longo de décadas, esses confrontos vitimaram, aproximadamente, 5 milhões de pessoas, principalmente civis – deixados no meio das trocas de acusações dos grupos financiados pela FPR e dos grupos mantidos pelos extremistas hutus – , e mesmo diante deste cenário não apresentaram uma solução.
Tendo em perspectiva um país pós-genocídio e outro inserido em um conflito, observa-se como as desavenças entre grupos étnicos podem tomar proporções inimagináveis e gerar consequências desvastadoras. Por um lado, o fim do conflito permitiu a observação da magnitude do massacre, ou seja, apenas após a pacificação do caos social foi possível observar, de maneira chocante, a gravidade dos eventos que marcaram a história de Ruanda, em que quase metade da população ruandesa – antes do genocídio, o país possuía, aproximadamente, 7 milhões de habitantes – foi morta ou obrigada a sair da país em razão dos confrontos entre tutsis e hutus. Por outro, o conflito não apresentou, de fato, uma resolução, já que este prosseguiu na RDC após deixar Ruanda, de modo que, para além de devastar a sociedade ruandesa, os ataques entre tutsis e hutus gerou uma crise humanitária em outro país. Apesar de por um fim ao genocídio, o governo da FPR não visou a paz em sua plenitude ao dar continuidade ao conflito.

Considerando que as tropas da FPR foram capazes de prender as principais lideranças responsáveis pelo genocídio, bem como identificar a vasta maioria daqueles que contribuíram de alguma forma com a perpetuação do massacre, houve a necessidade de julgamento dos crimes cometidos durante os 100 dias de genocídio. Dessa maneira, perante a inexistência de um tribunal internacional, criou-se o Tribunal Penal Internacional de Ruanda (TPIR) por intermédio do Conselho de Segurança da ONU para transmitir uma maior neutralidade de julgamento, tanto que a sede de tal tribunal era Arusha, cidade localizada na Tanzânia e também onde foi assinado o acordo de paz da Guerra Civil de Ruanda.
A acusação de quase 2 milhões de pessoas, entre perpretradores e civis, demandou uma divisão dos julgamentos, de tal forma que o TPIR ficou responsável pelos líderes do genocídio, a Corte Judicial de Ruanda pelos planejados e as recém-criadas “gacaca” – representação de um tribunal local e comunitário que, em kinyarwanda, significa “sentar e discutir um assunto” – pelo restante dos acusados. Diante do enorme volume de casos, as “gacaca” representavam uma tentativa de acelerar o processo jurídico, sendo realizados, aproximadamente, 12 mil julgamentos entre 1996 e 2015, ainda que 10 mil pessoas tenham morrido antes de serem julgadas. Diferentemente das decisões rápidas das “gacaca”, o TPIR apresentou julgamentos longos e onerosos,sendo responsável pela acusação de 93 pessoas – principalmente, altos funcionários do antigo governo -. Assim, apesar de demandar décadas para serem concluídos, a deliberação sobre os envolvidos em um crime contra humanidade simbolizou a busca pela verdade, ou seja, a procura das motivações para permitir uma punição justa.
Ao analisar o julgamento daqueles que contribuíram para o genocídio, muitas vezes, há o questionamento de quais são as razões para um grupo desejar e atuar para o extermínio de outro. A a resposta reside na desumanização desse outrem, porém, como se constrói tal insensibilização? Por meio da solidificação de ressentimentos e, consequentemente, do reforço da necessidade de remoção para superação de qualquer problema. Dessa forma, é possível observar que, a partir da colonização, há a divisão dos grupos étnicos, capaz de perpetuar privilégios e, como resultado, reforçar um rancor dos hutus pelos tutsis. Posteriormente, com a conservação dessa mágoa por gerações, a associação de qualquer problema com a existência do outro se tornou algo natural – a famosa imagem do “bode expiatório” – e tal relação promoveu o desejo de eliminação desse segundo. Por fim, a remoção do fator humano através do uso de termos como “baratas” e “árvores altas”, juntamente com a naturalização desse discurso de ódio, simbolizaram a confirmação de que os tutsis representavam um empecilho para a população hutu e, portanto, deveriam ser eliminados.
Representações em Obras: o clique da memória
Após o acompanhamento dos horrores do genocídio de Ruanda, foi essencial representar os ocorridos entre abril e julho de 1994 através da produção de obras, como livros, filmes, fotografias, entre outros. A criação de produções indicou uma maneira de fazer memória às vítimas e de conscientizar-se acerca do massacre, permitindo com que fossem evidenciadas as motivações e, principalmente, as consequências desse conflito étnico. Com isso, da mesma forma como em outras situações de crimes contra a humanidade – por exemplo, o holocausto -, a produção de obras significou uma maneira de não esquecer a desumanização e a dissimulação diante do sofrimento dos tutsis, além de destacar como o fim do genocídio não representou o fim dos problemas em Ruanda. Assim, tais criações possibilitaram a percepção – a partir de diferentes perspectivas – do colapso da sociedade ruandesa, bem como asseguraram o direito à memória.

Diante de tantas produções, faz-se importante apresentar algumas dessas obras: os livros “Pequeno País” e “Jacarandá” de Gael Fayë, além dos livros “Baratas” e “Nossa Senhora do Nilo” de Scholastique Mukasonga, do filme “Hotel Ruanda” protagonizado por Don Cheadle e da série de fotografias “Êxodos” de Sebastião Salgado. Sendo estas importantes vias de resgate e rememoração dos acontecimentos que marcaram a história de Ruanda, destacando uma pluralidade de visões.
Portanto, é importante ressaltar que a possibilidade de materializar tais narrativas expressou a possibilidade de conceder um espaço para que os ruandeses escrevessem a própria história nos próprios termos, ecoando a conscientização acerca do sofrimento e da devastação, bem como da reconciliação, que marcaram Ruanda. Também percebe-se a participação de estrangeiros na divulgação dos efeitos devastadores do massacre. Nessa perspectiva, as produções centralizadas nos acontecimentos antecedentes ou decorrentes do genocídio representam a autonomia dos artistas ruandeses (e estrangeiros) para contar essa história, ainda que a agentes hegemônicos – como a indústria cinematográfica estadunidense – também tenham se utilizado dessas narrativas para fazer retrato dos eventos que marcaram a sociedade ruandesa. Desse modo, é fundamental a presença de figuras como Gael e Scholastique que transmitem, de maneira artística, as vivências interferidas pelo genocídio, esclarecendo distorções e destacando o lento processo de reaproximação da sociedade ruandesa.
Presente: um filme a ser revelado
Como mencionado acima, atualmente, a população ruandesa vivencia um difícil processo de reconciliação, ou seja, a retomada do convívio entre pessoas que tiveram um passado marcado por assassinatos, ódio e ressentimentos. Apesar de todo o sofrimento, há um considerável senso de comunidade entre os ruandeses, apoiado pelo discurso de “união e reconciliação” promovido pelo governo, para que haja a superação do passado e, consequentemente, em busca de garantir a paz dentro do país. Nesse viés, diante de uma geração pós-genocídio, que nasceu ou cresceu fora do país, surge a necessidade de superação das mágoas pela morte de parentes e amigos junto ao retorno do convívio cotidiano entre sobreviventes e ex-agressores. Isso se mostrou possível através de políticas para a descentralização das etnias, como fator identitário, dentro da sociedade ruandesa. Assim, pode-se notar que a reconciliação atravessa diversas fronteiras, principalmente dentro da política e da sociedade como um todo.

Politicamente, desde 2000, o país é presidido por Paul Kagame, líder da FPR e principal figura política de Ruanda pós-genocídio, por meio da promoção de uma estabilidade política, bem como de um constante e rápido crescimento econômico. De acordo com a primeira, a presença de uma nova constituição acompanhada de uma política de ênfase na coesão social, garantiu a remoção da identificação étnica das carteiras de identidade, além de ter definido a proibição de diálogos sobre etnia. Com isso, reduziu a a possibilidade de discussões acerca dos grupos étnicos e, consequentemente, amenizou o cenário político, apesar de questionamentos sobre os empecilhos para a reconciliação. Porém, de acordo com denúncias do Human Rights Watch, a pacificação da sociedade ruandesa foi derivada da utilização de realocação forçada, campos de reeducação para seguidores do governo anterior e outras medidas extremas. Já, tendo em vista a segunda, a realização de investimentos no desenvolvimento do setor agrícola e, posteriormente, nos setores de serviços, indústria e tecnologia, permitem a transformação de um dos países mais pobres da África em uma das nações que mais prosperam no continente, possibilitando o aumento de indicadores sociais. Dessa maneira, tais características de governo agradam a população ruandesa e consolidam o controle de Kagame do sistema político de Ruanda, ainda que haja diversas críticas acerca da inflexibilidade e do autoritarismo do líder político, marcados pela ausência de uma oposição real (minimização da liberdade política), além do encontro de diversos adversários políticos presos ou mortos sem razão aparente.
Socialmente, percebe-se o esforço para superação do massacre, mesmo que haja um difícil processo de recuperação emocional após a experiência de tantos horrores. Tendo em perspectiva esse desejo de reunião, há a tentativa de retomada da sociedade ruandesa pré-conflito e, para tal, existe a demanda pela repatriação dos mais de 100 mil refugiados – estes presentes em países fronteiriços – , considerando a presença de uma sentimento de desconfiança para o retorno ao país natal. Dessa forma, a diáspora representa o principal obstáculo para a reconciliação, evidenciando que a circulação de informações polarizadas dentro das redes sociais e a distância para com os centros de discussão do processo reconciliatório, levam a manutenção de parte da população em conflito. Portanto, a repatriação dos milhares de refugiados junto da ampliação dos espaços para discussões, são alguns dos principais pontos para a união sólida da população ruandesa.
“Estamos tentando encorajar as pessoas que voltem para casa, queremos usar a força vital da nação para a reconciliação. A filosofia do governo para a reconstrução e unidade é a de erradicar o fenômeno de refugiados e subsidiá-los para que voltem e reconstruam o país” – Serafine Mukantabana, ministra para a Gestão de Desastres e Assuntos de Refugiados

Já no âmbito internacional, desde o fim do genocídio até anos recentes, nota-se a estrategia de mea-culpa orquestrada pela ONU, pela igreja católica e por países ocidentais, principalmente a Bélgica e a França, através de pedidos formais de desculpas, envio de dinheiro e/ou reconhecimento da responsabilidade. Por exemplo, em 2021, o presidente francês, Emmanuel Macron, reconheceu a conivência francesa na perpetuação do genocídio – mesmo que tenha rejeitado qualquer culpa ou cumplicidade – , simbolizando uma fala histórica após anos de negação do envolvimento francês, pelas próprias autoridades francesas, marcando a tentativa de reaproximação entre França e Ruanda. Entretanto, é fundamental retomar que muitas dessas ações apresentam interesses particulares desses agentes estrangeiros, de modo que, a Bélgica, o Vaticano e a ONU realizarem pedidos de desculpas tentando minimizar a imagem negativa desses agentes, a França promover uma reaproximação, todos juntos visam manter sua influência dentro do continente africano diante de conflitos no Sahel e a realização de doações bilionárias – chegando ao envio de US$1 bilhão por ano -. Isso indica a busca pela “compra do silêncio”, ou seja, evita a menção de uma negligência por parte do governo ruandês. Assim, mesmo com a demonstração de uma eterna “dívida” em relação as vítimas do genocídio, a atuação internacional evidencia os interesses próprios desses agentes para autopromoção e utilização de Ruanda como aliado político e militar.
Em análise do comportamento da sociedade ruandesa e das autoridades políticas tanto de Ruanda quanto de outros países, é possível notar como o genocídio, apesar de ter ocorrido em 1994, ainda apresenta reverberações no presente. Internamente, a consolidação do desejo comum de superação do passado evidencia que há a vontade de construção de um novo país, destacando que a história de Ruanda inclui o genocídio, mas não se reduz a ele. Internacionalmente, a mea-culpa demonstra que, muitas vezes, os interesses políticos, econômicos e militares demandam um reconhecimento do erro para serem negociados. Dessa forma, o massacre não só resultou na morte de quase 800 mil pessoas, mas também modificou para sempre a vida de milhões de outras. O genocídio de Ruanda serve de lição sobre como a construção de uma segregação pode levar a um crime contra a humanidade, além de evidenciar a capacidade do perdão e da construção de uma nova história.
“Recordar o que aconteceu em Ruanda há 30 anos não deve ser algo apenas para os tutsis que sobreviveram ao genocídio, mas também deve servir para que o mundo inteiro aprenda sobre esse crime contra a humanidade” – Freddy Mutanguha, cidadão ruandês
Referências
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BBC NEWS BRASIL. Genocídio em Ruanda: como foi o massacre de 100 dias que terminou com 800 mil mortos. BBC, 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce5e8n3dr76o. Acesso em: 7 jul. 2026.
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