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Dicionário do Conflito Israel-Palestina

Jerusalém. Fonte: The Top Ten Traveler

Dicionário do Conflito Israel-Palestina

Dicionário do Conflito

A avalanche de termos e palavras-chave que o conflito Israel-Palestina apresenta torna a compreensão geral da guerra mais difícil. Tendo isso em mente, o LAI desenvolveu um pequeno dicionário que visa ajudar quem acompanha o desenrolar do conflito e busca entender melhor as sinuosas relações entre os dois lados.

 

Sionismo

Sionismo é o movimento nacional judaico, cujo objetivo histórico era o de criar um Estado judeu na região da Palestina.

Por muito tempo, a diáspora judaica foi alvo de perseguição deliberada na Europa, inclusive na forma de pogroms – ataques violentos e massivos orquestrados contra minorias étnicas e suas propriedades, aceitas ou toleradas por autoridades – principalmente no Império Russo.

Nesse contexto, entre os séculos XVI e XVIII, surgem duas correntes divergentes na comunidade judaica: a Haskala (chamada de “Iluminismo judaico”), que promovia a secularização e assimilação com as culturas locais, e os “Amantes de Sião” (em referência à região do Monte Sião, próxima a Jerusalém), predominantes entre a população residente na Europa Oriental, que não enxergava a possibilidade de integração, defendendo o assentamento de judeus na Palestina.

A ligação do povo judeu com a região palestina, chamada por eles de Eretz Yisraʾel – “Terra de Israel” -, que data dos tempos dos reinos bíblicos de Davi e Salomão, quase mil anos antes de Cristo, foi difundida e ganhou apoio, na época de ascensão do nacionalismo na Europa, de judeus e não-judeus, que passaram a incentivar e financiar a sua migração e a fixação na Palestina, então sob controle do Império Otomano.

Os contornos políticos do movimento que veio a se chamar “Sionismo” foram dados pelo austríaco Theodore Herzl, no Primeiro Congresso Sionista, realizado em Basel, Suiça, em 1897, e atingiriam um novo patamar de reconhecimento com a consequente Declaração Balfour (1917), que formalizava o patrocínio do governo britânico, na figura de seu secretário do exterior, Arthur Balfour, ao “estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional ao povo judeu”.

A realocação de judeus para a região do Levante nos anos seguintes e a possibilidade de criação de um etnoestado foram veementemente opostas pelas populações árabes locais, de composição mulçumana e cristã, que organizaram uma série de revoltas entre os anos 1920 e 40.

Seguindo-se o fim da Segunda Guerra Mundial e a tragédia do Holocausto, que resultou na morte de mais de 6 milhões de judeus europeus, a causa sionista ganhou apoio internacional, resultando na Resolução 181 da Assembleia Geral das Nações Unidas de 1947 que, com 33 votos favoráveis, 13 contrários e 10 abstenções, resultou na partilha do Mandato Britânico da Palestina em um Estado árabe e um judeu, com a cidade sagrada de Jerusalém a ser administrada internacionalmente.

Evidente pelos 13 votos de oposição à resolução da ONU, o estabelecimento do Estado de Israel e o subsequente deslocamento de palestinos foram sujeitos a uma rejeição substancial, principalmente no mundo árabe. Assim, há um debate corrente acerca da natureza do movimento sionista, com este sendo, por um lado, defendido por uma parcela da comunidade judaica com base na “conexão religiosa e histórica” com a região, e, por outro, frequentemente caracterizado como “colonialista” e “racista”, com base no modo como foi implementado.

 

Nakba

“Catástrofe” em árabe, refere-se à desapropriação e ao deslocamento em massa de cerca de 700 mil palestinos no período da Guerra Árabe-Israelense de 1948.

Com a difusão do movimento sionista e, posteriormente, com a ascensão do nazismo na Alemanha nos anos 1930, a migração de judeus para a Palestina aumentou significativamente. Os novos colonos passaram a se estabelecer a partir da compra de terrenos, fenômeno que continuou até a formalização do Estado de Israel e que, consequentemente, levaria à desapropriação de terras palestinas e a sua expulsão gradual ao longo de décadas.

Com a aprovação da divisão da Palestina em dois Estados e uma crescente escalada de tensões na região, uma coalizão de países árabes lançou-se em guerra contra o recém-criado Estado de Israel em Maio de 1948, logo depois da saída de tropas britânicas da região, dando início à primeira guerra árabe-israelense.

O conflito foi marcado por uma espiral de violência generalizada e atrocidades cometidas contra civis dos dois lados. Um exemplo, e parte fundamental da memória comum palestina desde então, foi o massacre de Deir Yassin, nos arredores de Jerusalém, em que mais de 100 civis palestinos foram sistematicamente mortos e violentados por milícias extremistas sionistas depois de um sangrento combate urbano na vila. Em resposta, um comboio médico israelense foi alvo deliberado de forças árabes, em que 70 não-combatentes morreram.

O medo, a brutalidade da guerra e a subsequente vitória israelense levariam ao deslocamento permanente de quase 3/4 de milhão de palestinos para a Faixa de Gaza, Cisjordânia e para fora da Palestina, gerando uma comunidade global que hoje totaliza cerca de 7 milhões de refugiados e de seus descendentes, que exigem tanto compensações financeiras, quanto o seu “direito de retorno” às terras que deixaram em 1949.

Palestinos costumam enxergar a Nakba como parte de um programa maior de limpeza étnica na região, enquanto autoridades israelenses tendem a minimizar sua participação no deslocamento da população árabe.

 

Assentamentos

Comunidades israelenses construídas ilegalmente nos territórios ocupados da Cisjordânia e das Colinas de Golã.

Com a sua vitória na Guerra dos Seis Dias (1967), Israel estendeu sua soberania para Jerusalém Oriental, à Cisjordânia e às Colinas de Golã. Desde então, e quase sempre com a anuência do governo israelense, colonos têm se fixado, desenvolvido e expandido bolsões de comunidades civis nesses territórios, nas quais valem as leis civis e criminais de Israel e que estão conectadas aos seus serviços de água, eletricidade e segurança.

Atualmente, há mais de 270 assentamentos só na Cisjordânia, onde vivem cerca de 700.000 pessoas, majoritariamente judeus israelenses, e que se dividem entre seculares e não seculares.

Dentre as principais razões consideradas para o estabelecimento dos assentamentos estão: tornar mais difícil a consolidação de um Estado palestino, somado à justificativas de segurança nacional por parte de Israel, que visa promover, a partir de assentamentos construídos no coração da Cisjordânia e próximos ao Rio Jordão, profundidade territorial em caso de um ataque árabe e, ainda, motivações ideológicas, por parte de sionistas religiosos, que defendem a ocupação total da histórica Terra de Israel por judeus, em detrimento das populações árabes.

Diversas resoluções da ONU, por sua vez, condenam, com base na lei internacional, os assentamentos israelenses. A sua ilegalidade é continuamente reafirmada pela Assembleia e considerada “um obstáculo para a paz”. Outras organizações, como a Corte Internacional de Justiça, a Cruz Vermelha e a União Europeia, também reforçam o caráter ilegal da ocupação israelense da Cisjordânia e de Golã.

 

Kibutz

“Reunião” em hebreu, eram, originalmente, comunidades agrárias coletivas israelenses de raízes socialistas e sionistas.

Alvo dos massacres indiscriminados do Hamas do último dia 7 de outubro, os Kibutz de Kfar Aza, Be’eri, Nahal Oz e Magen são exemplos de pequenas comunidades de algumas centenas de residentes que historicamente se ergueram ao redor de fazendas coletivas.

O primeiro Kibutz, estabelecido em Degania, na Palestina ainda sob controle otomano, em 1910, foi fundado por refugiados judeus dos pogroms da Rússia Czarista, que imaginavam uma sociedade voluntária baseada na igualdade e na coletivização da propriedade, com forte cooperação no desenvolvimento da educação e vida social, além de uma democracia direta e participativa. Por isso, sociólogos e pesquisadores os consideram como os exemplos mais bem sucedidos da experiência socialista, mas aos moldes judaicos.

Com o tempo, os kibbutzim – plural de kibutz -, multiplicaram-se e transformaram-se. A maioria abandonou a coletivização e abraçou, com maior ou menor intensidade, o modo de vida capitalista, abrigando comércios, indústrias e polos de turismo.

Os Kibutzikim, moradores dos Kibutz, compõem, aproximadamente, apenas 3% da atual população israelense, mas seu impacto foi significativo para a delimitação das fronteiras do Estado de Israel e no processo de formação de sua identidade político-cultural, especialmente nas primeiras décadas em que a política israelense era dominada por facções de esquerda.

 

Iron Dome

Sistema móvel avançado de defesa antiaérea israelense.

O Iron Dome – “Domo de Ferro” em português – é um sistema de defesa baseado em baterias antiaéreas desenhado para interceptar foguetes e munições de artilharia de curto alcance (de 4 a 70km), fazendo uso de mísseis guiados, que, uma vez em contato com esses projéteis, detonam sua ogiva e liberam uma carga que os fazem explodir antes de completarem sua trajetória.

O seu desenvolvimento envolveu a participação e financiamento diretos dos Estados Unidos, na casa dos bilhões de dólares. Cada bateria custa cerca de US$50 milhões e cada míssil pode custar de 100 a 150 mil dólares.

Em operação desde 2011, Israel possui um sistema integrado com essas baterias, que se provaram particularmente eficazes ao longo do mês de outubro, quando foi palco de ataques de mísseis lançados pelo Hamas a partir da Faixa de Gaza. Estima-se que cerca de 90% dos foguetes foram abatidos no ar, antes que atingissem seus alvos no chão.

Abaixo, uma figura da BBC ilustra o funcionamento do Iron Dome.

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Intifada(s)

Traduzida do árabe como “sacudir”, foram duas revoltas populares palestinas contrárias à ocupação israelense de Gaza e da Cisjordânia.

A Primeira Intifada, que teve início em 1987, tem, em contexto maior, a resposta à expansão dos assentamentos israelenses promovida pelo governo de direita do Likud, e a crescente oposição interna em Israel ao envolvimento do país na Guerra Civil do Líbano. A escalada de tensões nos meses anteriores culminou em um episódio onde um caminhão israelense colidiu com vans carregando trabalhadores palestinos. Foi o estopim para um movimento de desobediência civil, com boicotes a Israel, de um lado, e de ampla violência palestina e israelense, em que se destacou o uso de coquetéis molotov e toda a sorte de armas leves e caseiras, de outro.

Por fim, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o governo israelense concordaram em se encontrar para uma pragmática rodada de negociações, no que veio a se chamar de Acordos de Oslo, em 1993. Criou-se a Autoridade Palestina, que se comprometeu a condenar as práticas terroristas e a reconhecer o Estado de Israel. Os israelenses, por sua vez, comprometeram-se a reconhecer a OLP como representante legítima da Palestina e a organizar uma retirada gradual da Cisjordânia e Gaza. O Hamas, ainda um grupo extremista palestino em ascensão, rejeitou os acordos e continuou a fazer uso de violência contra Israel.

Por sua vez, os israelenses aumentaram o número de assentamentos nos territórios ocupados, e os avanços do acordo foram revertidos, abrindo espaço para a Segunda Intifada. O estopim havia sido a visita de Ariel Sharon, candidato do Likud ao cargo de primeiro-ministro de Israel, ao Monte do Templo, local sagrado para os muçulmanos. Ainda mais sangrenta que a primeira, a Segunda Intifada, que durou de 2000 a 2005, contou com a participação ativa do Hamas em ataques suicidas contra a população civil israelense e com resposta dura do exército israelense contra os territórios palestinos. Ao todo, mais de 4.200 baixas, dos dois lados, foram reportadas.

Referências:

https://www.britannica.com/topic/United-Nations-Resolution-181

https://www.britannica.com/topic/Zionism

https://www.vox.com/2018/11/20/18080010/zionism-israel-palestine

https://www.un.org/unispal/about-the-nakba/#:~:text=The Nakba%2C which means “catastrophe,the 1948 Arab-Israeli war.

https://www.dw.com/en/what-is-the-palestinian-nakba-and-why-does-it-matter/a-65539735

https://www.vox.com/2018/11/20/18080030/israel-palestine-nakba

https://solutionsnotsides.co.uk/sites/default/files/2023-04/ISRAEL-PALESTINE VOCAB GUIDE.pdf

https://www.britannica.com/place/Israeli-settlement

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/07/01/o-que-sao-os-assentamentos-israelenses-na-cisjordania-e-por-que-eles-estao-ali.ghtml

https://www.amnesty.org/en/latest/campaigns/2017/06/israel-occupation-50-years-of-dispossession/

https://www.aljazeera.com/news/2023/6/20/un-chief-tells-israel-to-halt-illegal-settlements-in-palestine

https://www.jewishvirtuallibrary.org/traditional-narratives-of-israeli-and-palestinian-history

https://israelpolicyforum.org/west-bank-settlements-explained/

https://remix.aljazeera.com/aje/PalestineRemix/settlement.html

https://www.bbc.com/news/world-middle-east-67281022

https://www.npr.org/2023/10/12/1205284601/what-is-a-kibbutz-the-roots-of-israels-communal-villages-where-violence-raged

https://edition.cnn.com/2023/10/11/middleeast/kibbutz-explainer-israel-gaza-intl/index.html

https://www.bbc.com/news/world-middle-east-20385306

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/10/entenda-como-funciona-o-sistema-de-israel-que-intercepta-misseis-no-ar.shtml

https://edition.cnn.com/2023/10/09/world/iron-dome-israel-defense-explained-intl-dg/index.html

https://www.britannica.com/topic/intifada

https://www.dw.com/pt-br/o-que-são-as-intifadas/a-41715345

https://www.vox.com/2018/11/20/18080066/israel-palestine-intifadas-first-second

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Graduando em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (IRI-USP) e membro do Núcleo de Comunicação do LAI desde 2023. Escrevo artigos focados nas áreas de política e segurança internacional.