50 Anos, 20 Anos: Ecos da Guerra no Líbano
Por Cecília Chalela e Lara Belezia
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
“O Carvalho e o Cipreste Não Crescem à Sombra um do Outro”
Recentemente, a paisagem montanhosa do sul do Líbano, dentre cujos declives correm as águas do rio Litani, foi novamente perturbada pelo som dos caças israelenses.
O bombardeio violento nas cercanias de Nabatieh não é um fenômeno atípico na costa oriental do Mar Mediterrâneo; pelo contrário, os aviões militares de Israel têm estado constantemente presentes na região durante os últimos seis meses, e o ataque representa mais um passo do projeto sionista no Oriente Médio, bem como uma extensão do conflito na Palestina, disfarçados sob o pretexto de uma cruzada contra o Hezbollah: de acordo com o Comando Norte do exército de Tel Aviv, a cidade abrigaria um complexo de túneis e de armas pertencentes ao grupo paramilitar xiita, fundado em meio a um cenário tumultuoso no fim da década de 70.
De fato, após o assassinato de seu líder Hassan Nasrallah em 2024 – durante outra ofensiva israelita aos bairros xiitas de Beirute – e com os desfechos da queda de Bashar al-Assad na Síria; frente aos ataques recentes entre o Irã e Israel; entre o agravo do genocídio palestino e os ecos contemporâneos de uma longa tradição política emblemática no Líbano, estão mais abertas do que nunca as feridas jamais cicatrizadas de dois eventos canônicos da história libanesa: a Guerra Civil de 1975 e a Revolução dos Cedros de 2005.

Vento Oeste, Vento Leste: o Líbano Liberto e o “Adeus” à Dominação Francesa
O vento oeste soprou efetivamente no Líbano em 1920, e chegou sob a forma da França.
Mas, bem como a história da formação do Estado libanês contemporâneo, o processo que levou a esse momento tem origens muito anteriores, e está intimamente associado à convivência ora tolerante, ora conturbada, entre o cristianismo e o islamismo e, ainda, entre as tradições políticas locais e coloniais. Essas relações podem ser resumidas pelo “fator confessionalista”, presente desde a época na qual o território do Líbano fazia parte dos domínios do Império Otomano, e expresso pela divisão da sociedade islâmica em seitas ou millets.
Mais do que grupos religiosos, as seitas eram – e são – formas de organização administrativa e jurídica, ou seja, modelos de participação e de inserção na vida civil. Tal era o grau de complexidade dessas comunidades, que elas se tornaram gradativamente autônomas em relação ao poder centralizado na figura do sultão. Dentre os grupos confessionais que mais se destacaram, configurando-se como elites políticas, está o dos cristãos maronitas; para eles, a autoridade suprema era representada pelo Papa de Roma, e não pelo soberano otomano sunita, sentimento de repúdio que se alastrou, ao longo do século XIX, para o restante dos millets então minoritários, como os gregos, os judeus, os xiitas e os drusos.
E foi justamente a vulnerabilidade dessas seitas, acompanhada da clássica retórica da necessidade de proteção externa, que foi adotada pela Europa como pretexto para se fazer presente no Oriente Médio – a brisa imperialista começava a causar calafrios.
A já existente instabilidade se agravou – e viria a causar a queda do Império no século seguinte -, de modo que um conjunto de reformas denominado Tanzimat foi desenvolvido e aprovado entre 1836 e 1876, baseado em tendências da modernidade europeia e incitado sobretudo pelos interesses coloniais da Inglaterra – livre acesso à Índia por via marítima – e da França – dominação do Magreb e contenção das conquistas territoriais dos vizinhos bretões. Consolidou-se, então, a ideia de que a estrutura obsoleta do Império Otomano precisava ser sofisticada o quanto antes e de acordo com princípios europeus.
Uma das mais notórias reformas do Tanzimat foi a introdução do conceito ocidental de “cidadania otomana”, segundo o qual os membros de todos os grupos confessionais deveriam desfrutar de igualdade legal. O desfecho, todavia, foi outro: a ventania tratou de pender a balança da igualdade para o lado cristão e, à medida que os maronitas ganhavam notoriedade, os integrantes dos millets muçulmanos eram relegados às margens da sociedade.
No Líbano, em específico, o fracasso inevitável dos Tanzimats colaborou para o retorno da supremacia do confessionalismo no cenário político, principalmente após os massacres religiosos no Monte Líbano nas décadas de 1840 e 1860, instigados pela rivalidade entre as alianças franco-maronita e anglo-druso-otomana. Era o fim da convivência pacífica entre as seitas, e a escalada de tensões apresentou oportunidades tanto para uma tentativa de mediação por parte da Áustria quanto para o desembarque do exército francês no Líbano.

Em 1861, o imperialismo europeu avançou com a introdução do Mutassarifato. Tratava-se de um regime administrativo que hierarquizava as comunidades confessionais a fim de submetê-las à liderança de um governador otomano – necessariamente cristão e não libanês – e de um Conselho Administrativo constituído por representantes de seis millets, embora sempre com preponderância maronita.
O Mutassarifato acabou provocando a cisão administrativa entre regiões do próprio país, como o Vale do Bekaa e o Monte Líbano, e foi suspenso em 1914, dada a participação do Império Otomano na Tríplice Aliança. Com a suspensão, alguns dos ex-governadores colaboradores do regime foram executados pelos turcos, entendidos como agentes dos interesses ocidentais, evento que acendeu as faíscas iniciais da conquista da independência do Estado libanês.
O jugo colonial, não obstante, demoraria a se findar. No ano de 1916 – situado no fim da Primeira Guerra Mundial e, portanto, em um contexto de vulnerabilidade econômica da Europa -, deu-se, de maneira furtiva, a assinatura do Acordo Sykes-Picot entre os ingleses e os franceses. O acordo determinava, de forma diplomática, a repartição das províncias otomanas entre as duas potências.
No entanto, foi apenas com o desarmamento definitivo da Alemanha e com a declaração da vitória das potências ocidentais aliadas, que a própria Liga das Nações reconheceu a legitimidade do documento, inaugurando assim um longo período de colonialismo francês nas terras libanesas, agora oficialmente tidas como mais um “protetorado” europeu no Oriente Médio.
As ações da França representam, sobretudo, uma tentativa frenética de agarrar-se ao que restava de seu poder de outrora por meio do assenhoramento de regiões que ainda se encontravam à mercê do imperialismo. Assim, em 1920, esse controle colonial alegadamente indireto foi inaugurado com a proclamação do “Estado do Grande Líbano”, constituindo pela primeira vez a forma que o território assume nos dias atuais: foram anexadas ao antigo Mutassarifato do Monte Líbano as regiões de Sidon, Tiro, Trípoli e, é claro, Beirute, visando à garantia da autossuficiência agrícola.
Em 1926, entrou em vigor uma nova Carta Constitucional de caráter liberal e provisório, deliberadamente inspirada pela Constituição Francesa de 1875. Por duas razões o documento mostrou-se contraditório: o Líbano se transformava em um Estado “unitário” – cuja tradição étnica sofria um apagamento velado em prol da criação, no papel, de uma identidade nacional homogênea – no qual, paradoxalmente, as comunidades confessionais possuíam ordenamento administrativo; ao mesmo tempo, o país era “independente” e submetido à tutela da França, com o francês como língua secundária apenas ao árabe. Em suma, a Constituição de 1926 foi um reflexo da crise econômica, do imperialismo, das disputas entre millets e da totalidade das complicações sociopolíticas vivenciadas pelo Líbano no momento de sua elaboração.
Em setembro do mesmo ano, o grego ortodoxo Charles Debba foi eleito o primeiro presidente nominal libanês, graças ao amálgama entre o Senado e a Câmara dos Deputados e ao fortalecimento do Poder Executivo, cada vez mais próximo da França.
A magnitude a que chegara o poder colonial francês pode ser entendida através do censo populacional de 1932, cuja realização deveria, em tese, facilitar a concessão proporcional de poder político às elites confessionais. Seu verdadeiro objetivo, porém, era outro, muito mais ardiloso.
O resultado do censo, única estimativa demográfica formal já empreendida no país, representa, talvez, uma virada de chave na história do Líbano. Até então, o país estivera, majoritariamente, sob comando islâmico, sendo os cristãos minorias políticas e religiosas; naquele momento, o fenômeno que se observava era o oposto, isto é, dos princípios da construção da nação libanesa como predominantemente cristã. Em outras palavras, forneciam-se convenientes indícios, respaldados pelo aspecto científico da contagem, de que os maronitas mereciam, por direito, vantagens sobre a política libanesa, que deveria ser ocidentalizada.
Pouco depois, à iminência de novas eleições e diante das disputas acirradas dentro da própria comunidade maronita – de um lado, o Bloco Nacional pró-França de Émile Eddé e, do outro, o Partido Ad-Dustour de Bechara al-Khoury, nacionalista e inclinado ao pan-arabismo – e da união dos muçulmanos em apoio a Muhammad al-Yisr, o alto-comissário francês Henri Ponsot, temendo o fim do “equilíbrio” do poder, julgou prudente suspender os termos da Constituição de 1926 e estender o mandato de Debba por um ano. Se isso já não estava claro, essa série de atos arbitrários e autoritários do governo francês evidenciaram a situação precária do Líbano como colônia, e alastraram uma forte rajada de descontentamento e de sentimento nacionalista entre a população.
Léon Blum foi, em 1836, eleito primeiro-ministro da França, e instaurou o governo socialista da Frente Popular, nomeando o ex-governador-geral da Argélia – Maurice Violette – para um cargo em seu gabinete. Os dois buscaram estabelecer novas relações entre a potência central e suas colônias, e se mostraram dispostos a negociar não só com os argelinos, como também com os nacionalistas da Síria e do Líbano, dentre cujas demandas estava o ingresso na Liga das Nações como Estados soberanos.
Com velocidade prodigiosa, um tratado franco-libanês foi redigido e enviado para aprovação em Paris e em Beirute, mas as esperanças logo se dissolveram: ainda que a Câmara libanesa tenha aprovado o acordo sem mais delongas, o lobby colonial persistia na França com demasiada influência, e a votação pela Assembleia Nacional foi obstruída até a queda definitiva do governo de Blum em 1937.
Devido à ocupação nazista da França, em maio de 1940, o chamado regime colaboracionista de Vichy estendeu suas garras sobre a Síria e o Líbano, sob a liderança do general Henri Dentz. Em resposta à inclinação pró-Eixo de Dentz, os britânicos se uniram às Forças Francesas Livres e ocuparam ambos os países. Em nome do general Charles De Gaulle, declarou-se que a aliança anglo-francesa chegava para colocar fim ao mandato internacional e para proclamá-los livres e independentes.
No entanto, a situação se manteve sem grandes reviravoltas até 1943.
Em 26 de novembro de 1941, clamou-se, sem sucesso, pela independência libanesa. Os franceses conseguiram adiar o momento da emancipação, mas, enfraquecidos pela Segunda Guerra Mundial, viram-se subitamente incapazes de impedir o acontecimento derradeiro no qual, dois anos mais tarde, a Câmara dos Deputados do Líbano aprovou a revogação de todos os artigos constitucionais que corroborassem o poderio da França. A reação foi imediata: o chefe de governo, três ministros e o presidente da República foram presos, e Émile Eddé – defensor da libertação do país mediante um acordo pacífico – foi nomeado líder temporário.
Ao contrário do efeito desejado, o que verificou-se foi um episódio extraordinário no qual praticamente todas as forças políticas libanesas deixaram de lado suas divergências em favor da união por um objetivo comum, promovendo uma poderosa insurreição que não deixou outra alternativa aos franceses senão a libertação dos prisioneiros em uma cerimônia realizada na Praça dos Mártires, bem como o reconhecimento do retorno de Bechara al-Khoury à presidência do Líbano, em 22 de novembro de 1943.

Depois desse avanço no processo de independência, quase dois anos adicionais de luta contra a intransigência francesa foram necessários. Na Síria, principalmente, ataques violentos permearam esse embate, com o Parlamento sendo reduzido a escombros. Enfim, em julho de 1945, por pressão das colônias e da comunidade internacional, os franceses cederam e transferiram o controle das forças militares e de segurança para os respectivos governos de Damasco e de Beirute.
O vento leste soprava mais forte, ao menos por enquanto.
O Kataib, a Guerra Fria e os Estados Unidos: Entre Mares Inóspitos
Seria errôneo pensar que, no caso libanês, o período que se seguiu à conquista da expulsão dos franceses e de sua presença opressora foi marcado pela estabilidade. No panorama que sucedeu a independência, o Líbano corria o sério risco de ser inundado por torrentes internas e externas, fossem elas desconhecidas ou familiares.
Ainda em 1943, foi ratificado, sem inscrição em documento oficial, o Pacto Nacional, um projeto tácito de compartilhamento do poder entre millets – e de oficialização da comunidade maronita como maioria político-administrativa – que foi encabeçado por setores reacionários, e cuja consequência foi o reforço do sectarismo das elites confessionais no campo burocrático. Se as diferenças se acirraram, entretanto, havia ao menos um sentimento comum capaz de atenuá-las: o rechaço aos estrangeiros. Essa rejeição exerceu apelo particularmente forte sobre os jovens, sendo um deles um personagem que viria a ser consideravelmente relevante no decorrer do século: Pierre Gemayel.
Gemayel, de ascendência francesa, tomara parte nos Jogos Olímpicos de 1936 como integrante da seleção libanesa de futebol, em uma Berlim dominada pelo Partido Nacional Socialista de Adolf Hitler. Fascinado pela máquina estatal nazista e por outros regimes fascitas ao redor do mundo, ele regressou ao Líbano com o projeto de criar, ao lado de cinco outros jovens maronitas, um movimento nacionalista de direita – assim surgia o Partido Falangista Libanês, também conhecido pelo nome de Kataib.
O movimento rapidamente se definiu como contrário ao pan-arabismo e à unificação entre o Líbano e a Síria defendidos tanto por muçulmanos libaneses na Conferência da Costa, quanto pelo Partido Social Nacionalista Sírio, ameaçando, em caso de extrema necessidade, recorrer até mesmo à França.
Nessas circunstâncias, pouco importava a crença de Gemayel e de seus partidários falangistas em um Estado laico, de modo que o fator religioso, com alusões a Deus e à instituição familiar, mostrou-se bastante estratégico. Afinal, a necessidade de preservação do Líbano como país de maioria cristã, ao contrário do vizinho ao norte, constituía um argumento sólido e incontornável.
De modo geral, então, pode-se dizer que o Kataib adquiriu proporções consideráveis e passou a liderar a ampla mobilização pela garantia da prevalência administrativo-política dos maronitas, já anteriormente reforçada pelo censo de 1932 e pelo Pacto Nacional de 1943.
Nos anos seguintes, os ânimos se apaziguaram, os fervores se acalentaram e a conjuntura libanesa passou por algumas ligeiras mudanças. Elites políticas que datavam da época da independência, dentre elas os sunitas que habitavam a costa e uma burguesia maronita alinhada a al-Khoury e cética em relação ao Kataib e às aproximações internacionais, passavam por um processo de ascensão e consolidação. O Conselho de Ministros seria presidido pelo sunita Riad al-Sulh; a presidência do Parlamento caberia aos muçulmanos xiitas.
Às vésperas do fim de seu segundo mandato, Bechara al-Khoury recorreu a meios anti-constitucionais na tentativa de exercer um terceiro mandato, o que gerou desconfortos e terminou com sua demissão. Desse modo, a liderança foi assumida por Fuad Shihab, chefe do exército, até a eleição de um novo presidente.
Camille Chamoun, em uma disputa acirrada, foi eleito pelo Parlamento em 1952, e logo substituiu a política pan-arabista de al-Khoury – a qual também angariava forças no Egito de Gamal Abdel Nasser – pela aproximação com os signatários do Pacto de Bagdá de 1955: Inglaterra, Irã, Iraque, Paquistão e Turquia.
Devido aos acontecimentos conturbados da Crise de Suez, a Europa deixara de ser uma aliada provável. Simultaneamente, em plena Guerra Fria, os Estados Unidos começavam a entrar em cena, e Chamoun aderiu à Doutrina Eisenhower sob o pretexto de buscar proteção contra a “ameaça soviética”, quando, na realidade, a estratégia estava ligada à preocupação com a expansão do nacionalismo árabe, influente nas comunidades muçulmanas libanesas e entre os cristãos aos quais desagradava a aliança com os EUA. A pedido do presidente libanês, que temia pela integridade de seu mandato, o exército estadunidense não perdeu tempo em organizar a Operation Blue Bat, isto é, o envio de fuzileiros navais para Beirute, sufocando quaisquer rebeliões populares. Era a Crise Libanesa de 1958, que durou cerca de três longos meses.

Diante de conflitos que repartiam o Líbano em dois e que transformaram o país em um campo de batalha entre estadunidenses e nasseristas, a incoerência do Pacto Nacional nunca fora tão evidente.
A Pérola do Oriente
O Líbano já recebeu muitos nomes, e a maioria deles alude ao período em que Fuad Shihab presidiu o país, entre 1958 e 1964.
No mundo árabe, o nacionalismo que depositava sua representatividade no líder egípcio Gamal Abdel Nasser, cuja sua glória se dera na década de 1950, começava a se desgastar. A nação libanesa, por sua vez, se encontrava exaurida no momento da posse de Shihab, e o presidente estava absolutamente comprometido com um projeto socioeconômico polêmico que prezava pelo equilíbrio de instituições até então frágeis sobre o alicerce de um Estado centralizador, sem que houvesse participação direta, para tanto, de forças políticas estrangeiras. Em benefício desse intento, foram aprimorados o sistema de ensino, os serviços públicos básicos e as redes de saneamento e de eletricidade, e determinou-se a fundação de entidades burocráticas como o Ministério do Planejamento e o Banco Central Libanês.
Embora seja inegável que o programa de Shihab levou a um relativo aumento da qualidade de vida no Líbano, tampouco se pode deixar de mencionar que, de certa forma, essa tentativa de “modernização”correspondia a um mascaramento dos problemas políticos estruturais que assolavam o território nacional, relegando-os a segundo plano ao mesmo tempo que a liberalização da economia era propagandeada como um feito capaz de ofuscar um passado e um presente nacionais conturbados.
O sintoma mais expressivo dessa negligência foi a permanência intacta da repartição de um poder monopolizado entre as elites confessionais, já que a Constituição continuava a respaldar a autonomia jurídica de cada seita e um sistema eleitoral fundamentalmente confessional, de modo que o Estado se mantinha às margens da vida civil.
Mas nem esses impasses internos nem as tensões geopolíticas podiam ameaçar manchar a nova reputação que se construía para o Líbano no exterior, em grande parte associada à ostensiva ocidentalização dos costumes, fenômeno semelhante àquele pelo qual já passara a Turquia, na década de 1930, nas mãos de Mustafa Kemal Atatürk. Visando garantir que isso não acontecesse, Shihab optou por dedicar sua atenção a outros empreendimentos: o turismo e a indústria.

Agora, Beirute era conhecida como a “Paris do Oriente Médio” por sua arquitetura, por seus cafés e restaurantes, por seus cassinos e sua vida noturna e, em geral, por seus ares de capital francesa com traços de exotismo; já o Líbano era a “Pérola do Oriente” – tesouro do Mar Mediterrâneo -, e a “Suíça do Oriente”, dada sua transformação em uma zona franca bancária e comercial.
Esse último apelido é, possivelmente, o mais controverso: como conciliar, afinal, o profundo tradicionalismo burocrático e o pretenso liberalismo do Estado? A resposta é incerta, mas o que se sabe é que o projeto de governo de Shihab implodiu, e que sua renúncia aconteceu em 1964.
Ainda assim, o panorama político que o Líbano enfrentava pouco mudou. As elites confessionais se fortaleciam cada vez mais e, em 1969, o país foi, por intermédio de Abdel Nasser, um partidário silencioso dos Acordos do Cairo, que tornavam legal a presença da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), liderada por Yasser Arafat, em solo libanês – recordemos que, dois anos antes, tomara lugar o conflito árabe-israelense conhecido como Guerra dos Seis Dias.
A assinatura dos Acordos enfatizou as dissonâncias entre os interesses das seitas, visto que algumas delas reprovavam veementemente a tímida concessão de apoio à Palestina, temendo o aumento da população islamita no Líbano, e inaugurou uma série de disputas entre presidentes da República – cristãos maronitas, comunidade em processo de declínio e deslegitimação desde 1950 – e primeiros-ministros – muçulmanos (sunitas, xiitas e drusos) que se alinhavam à causa palestina, mais por repúdio comum a Israel do que por solidariedade.
O rebuliço abriu caminho para a ascensão de grupos armados nos anos 1970. O Kataib de Pierre Gemayel foi um deles, voltando a atuar em prol dos cristãos libaneses, e o líder de esquerda Kamal Jumblatt, em oposição, começava a ganhar notoriedade.
É importante ressaltar que a divisão ideológica não se restringia aos limites do confessionalismo. Assim como nem todos os cristãos estavam de acordo com as milícias maronitas, muitos muçulmanos viam com desconfiança a mera presença do movimento palestino em seu meio.
Como resultado, a eleição parlamentar de 1972 teve saldos inéditos, com o predomínio de partidos laicos, o desaparecimento político de algumas seitas e a quase subtração do Kataib. O Líbano estava, novamente, dividido em dois: de um lado, o Ocidente, de outro, o mundo árabe e a Palestina. Somado aos resquícios nocivos do Pacto Nacional e à Guerra Fria, um conflito armado se soerguia.
A Pérola do Oriente seria, a partir de 1975, violentamente saqueada.
Guerra Civil: 15 Anos de Tempestade
A tempestade começou na primavera de 1975, quando os pescadores abandonaram o mar.
Tratava-se de uma greve de trabalhadores muçulmanos da cidade de Sídon, no sul do Líbano, em resposta a um consórcio que ameaçava criar um monopólio pesqueiro e prejudicar seu único meio de subsistência. Esse consórcio era integrado pelo ex-presidente Camille Chamoun – agora ministro do Interior – e por outros maronitas.
As manifestações foram reprimidas com fogo pelo exército libanês, que assassinou Maruf Saad, membro de um partido de esquerda de orientação nasserista e líder muçulmano sunita. Diante disso, o Movimento Nacional – coalizão política forjada, no começo da década, entre pan-arabistas, muçulmanos, drusos, organizações de esquerda e setores cristãos simpatizantes à instauração de uma democracia laica, sob a liderança de Kamal Jumblatt – expressou sua veemente condenação da intervenção militar, de modo que os ânimos começaram, mais uma vez, a se exaltar, alimentados pela ameaça de extinção da identidade do Líbano como Estado majoritariamente cristão no Oriente Médio.
Não tardou para que uma revolta popular eclodisse em Sídon, na qual milícias palestinas e libanesas investiram contra o exército nacional, o que se propagou até Beirute. Na capital, foi empreendido um atentado falho – cujo saldo foi de três mortes – à vida de Pierre Gemayel, fundador do Partido Falangista Maronita que agora possuía sob seu comando cerca de 15 mil indivíduos armados, ou seja, a maior milícia do Líbano. Como forma de retaliação, os falangistas mataram os 28 passageiros de um ônibus que atravessava o bairro cristão de Ain Rummaneh, em sua maioria palestinos.
Os embates se acirraram por sete semanas e se consagraram no dia 31 de maio, assumindo aspecto cada vez mais religioso. Nesse dia, referido como “sexta-feira negra” pela mídia da época, muçulmanos levantaram uma barricada no bairro de Bashoura – ser cristão e se deparar com um ponto de verificação de identidade significava ser abatido. No total, houve dez execuções.
Em meio ao calor escaldante do verão de 1975, os cadáveres e as ruínas aos poucos se confundiram à normalidade da vida cotidiana. Os ataques entre as milícias islamo-progressistas de esquerda e a milícia falangista eram constantes, ainda que desiguais. Alguns meses mais tarde, em outubro, parte do Movimento Nacional sitiou o distrito hoteleiro onde operavam as forças maronitas, em cujo socorro Chamoun, em sua condição de ministro, enviou 2 mil soldados do exército. Da mesma forma, quando quatro falangistas foram sequestrados e mortos, os milicianos maronitas tiraram a vida de algo entre trezentos e quatrocentos civis muçulmanos. Em troca, as milícias da oposição também mataram centenas de cristãos. Esse dia entrou para a história como Sábado Negro.
No começo do ano seguinte, os ventos estrangeiros se somaram à tempestade mais uma vez, e a Guerra Civil começou a ser cada vez mais determinada pelas implicações da ordem mundial bipolar e pelo conflito árabe-israelense. Isso porque, graças à Guerra Fria, à corrida armamentista e ao aumento do preço do petróleo, a venda de armas para possíveis aliados pró-ocidentais se tornou um verdadeiro mercado – algo de que a URSS e os EUA já tiravam proveito há muito tempo -, tão lucrativo que até mesmo outros Estados do Oriente Médio julgaram vantajoso integrá-lo. Além disso, havia também o fator ideológico, visto que armar as milícias libanesas significava aumento da influência sobre o país. Assim, as milícias maronitas receberam apoio bélico dos israelenses – milicianos falangistas chegaram a receber treinamento militar em Israel – e, segundo rumores, dos sauditas, enquanto o Movimento Nacional obtinha armas provenientes da União Soviética, por intermédio do Iraque e da Líbia.

O restante do ano de 1976 consistiu em massacres e retaliações entre os maronitas e os seguidores de Jumblatt, sendo os palestinos em território libanês as principais vítimas, dada sua vulnerabilidade. Ainda assim, muitos libaneses culparam-nos diretamente pela Guerra.
No mês de março, o Parlamento aprovou uma moção pela renúncia do então presidente Suleiman Franjieh, que se recusou terminantemente a acatá-la. Diante do desacato, forças dissidentes do exército da República bombardearam o palácio presidencial em Beirute, e Kamal Jumblatt também se pôs em alerta.
Com centenas de libaneses no exílio, cerca de 30 mil mortos e 70 mil feridos em um ano e meio de conflito – dentre uma população de 3,25 milhões de pessoas -, além de uma grave crise política, findava a primeira etapa da Guerra Civil.
Em meio à crise, emergiram dois candidatos: por um lado, Raymond Eddé estava do lado do Movimento Nacional e dos reformistas e, por outro, Elias Sarkis era respaldado pelas milícias maronitas, pelas alas mais conservadoras de cristãos e pelo regime de Hafez Assad na Síria, o que determinou sua vitória sobre Eddé.
O apoio sírio nunca foi uma questão de aproximação ideológica – o ataque aos campos de refugiados palestinos com mísseis soviéticos o comprova; o que Assad queria era um passe livre para intervir como lhe aprouvesse, e o principal meio escolhido foi o posicionamento de tropas em locais estratégicos ao redor do Líbano. É importante ressaltar que, nesse momento, a Síria – em oposição do Irã – era um estado árabe de caráter nacionalista, laico e contrário à mobilização islâmica.
Enquanto, para os Estados árabes o aumento da proeminência de Damasco representava uma preocupação – não o suficiente, todavia, para que seus exércitos fossem comprometidos -, a recepção interna da Síria foi, em um primeiro momento, completamente distinta: a presença expressiva do exército sírio em solo libanês não pareceu causar grandes incômodos, talvez porque, cansado da guerra e da chuva incessante, o povo se ancorasse em qualquer esperança de paz.
No dia 18 de outubro de 1976, a cúpula sediada em Riad – que contara com a presença de Sarkis, de Yasser Arafat, do Kuwait, do Egito e da Síria, e que nada mais fora do que um artifício para a legitimação da ocupação síria – anunciou seus planos para o Líbano. Como de costume, a solução encontrada foi o envio de uma tropa pacificadora, desta vez de 30 mil soldados, dentre os quais 26500 eram sírios. Além disso, entrou em vigor o 56º acordo de cessar-fogo desde 1975.
Dessa maneira, foi possível a instalação de uma “linha vermelha”, mediada pelos Estados Unidos e acordada entre a Síria e Israel com o objetivo de conferir o controle do norte do Líbano a Damasco e, do sul, a Tel Aviv.
Para os telejornais estrangeiros, a paz finalmente encontrara o Líbano, mas a carnificina não cessou, e foram inaugurados os atentados com carros-bomba. Para a comunidade internacional, a Guerra Civil durou 2 anos; para os libaneses, durou 15.
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A complexidade do conflito aumentou exponencialmente entre 1977 e 1983, abarcando uma gama crescente de nações e de milícias.
Com a derrota dos combatentes alinhados à esquerda que atuavam no Líbano, Damasco julgou conveniente forjar uma aliança com a seita xiita, voltando-se contra os próprios maronitas. Essa aliança súbita pode ser explicada pela drástica reorganização da comunidade xiita ao longo dos anos 1970. Superado o panorama exposto pelo censo de 1932, esse grupo confessional se tornara o mais populoso do Líbano, concentrado no sul do país e no norte do vale do Beca. A expressividade numérica, entretanto, não se traduzia em poder político, desvantagem que levou os xiitas a optar pelo ingresso em partidos predominantemente laicos, como o Partido Comunista Libanês e o Partido Nacional Socialista Sírio. Foram fundados, ainda, o Movimento dos Despossuídos e sua respectiva milícia, conhecida como Amal, por iniciativa do clérigo iraniano Musa al-Sadr.
Nesse contexto, houve tentativas de colaboração entre o Amal e o que restava do Movimento Nacional, mas Sadr logo rompeu relações com Jumblatt, acusando-o de querer “combater os cristãos até o último dos xiitas”. Também existiam desavenças quanto ao movimento palestino, que continuava a dispor de bases no sul do Líbano para operar contra Israel, o que provocava revanches israelenses que atingiam os xiitas de forma direta e certeira. Consequentemente, a única aliada restante foi a Síria.
Sadr desapareceu durante uma viagem à Líbia em 1978, percalço que favoreceu o processo de identificação entre a política xiita, os princípios da Revolução Iraniana e a proclamação da República Islâmica do Irã, em 1979. Havia laços duradouros tanto culturais quanto religiosos entre os xiitas e o país, e o Movimento dos Despossuídos necessitava de novas figuras de liderança. Por conseguinte, retratos do aiatolá Khomeini – líder da Revolução – se juntaram aos de Musa al-Sadr nas ruínas romanas de Baalbek e nos bairros pobres ao sul de Beirute. A conquista dessa vantagem foi muito conveniente para o Irã, que encontrara um novo e promissor ponto de pressão que poderia ser utilizado contra o Iraque, Israel e os Estados Unidos.
Os três anos seguintes foram bastante determinados pela Guerra Irã-Iraque de 1980 e pela deterioração das relações da República Islâmica com os EUA. O Líbano, em virtude da relação triangular composta pelo Amal, pelo Irã e pela Síria, estava no centro dos desentendimentos.
Esse triângulo se reforçou com a catastrófica invasão israelense do Líbano no verão de 1982, presença que se estenderia por 18 anos.
O bode expiatório utilizado por Israel como desculpa para adentrar o território do vizinho ao norte foi o ataque do grupo terrorista Abu Nidal, em Londres, do qual o embaixador israelense Shlomo Argov escapou por pouco. Na realidade, um dos verdadeiros motivos da ocupação era o combate a Yasser Arafat e à Organização pela Libertação da Palestina, o que faz do pretexto israelense um argumento ainda mais cínico – o Abu Nidal já havia atentado, da mesma forma, contra a vida de Said Hamammi, diplomata da OLP, dessa vez com sucesso. Mesmo em 1982, o Abu Nidal continuava a se opor à Organização.
Nesse momento, Menachem Begin ocupava o posto de primeiro-ministro israelens e, junto de seu ministro da Defesa, Ariel Sharon, tinha planos de garantir um tratado de paz com o Líbano mediante a expulsão da OLP e dos sírios das terras do país, tornando mais simples a anexação da Cisjordânia.
Assim, em 4 de junho, um contingente impressionante de navios e aeronaves deu início a um bombardeio ao sul do Líbano e à Beirute Ocidental. Dois dias mais tarde, o exército israelense cruzava a fronteira. Passadas dez semanas, a “Operação Paz para a Galileia” já havia deixado 30 mil feridos, em sua maioria civis, e 17 mil mortos, libaneses e palestinos. Em agosto, momento em que a violência chegou a seu ápice, milhares de toneladas de bombas foram lançadas sobre zonas xiitas da capital por doze horas ininterruptas.

Dada a magnitude da chacina promovida por Israel, o olhar internacional se voltou para o Líbano, exercendo pressão para que o cerco encontrasse um fim. Begin, todavia, só cedeu quando recebeu um telefonema de Washington: Ronald Reagan ligava para convencê-lo a interromper as ofensivas.
O acordo de cessar-fogo foi, portanto, intermediado pelo governo republicano de Reagan. Seus termos estipulavam a retirada da OLP de solo libanês por via marítima, o recuo do exército israelense e, ao mesmo tempo, a chegada de uma força multinacional composta pelos EUA, pela França e pela Itália. Era o fim da OLP como atividade coesa de combate – os combatentes foram forçados a deixar para trás seus entes queridos e a se espalhar pelo Oriente Médio -, e a hostilidade da sociedade libanesa ao movimento palestino nunca fora tão significativa.
A força multinacional deveria permanecer na capital por trinta dias e assegurar a tranquilidade da transição, mas sua presença foi considerada redundante depois de 20 dias, já que tudo aconteceu com relativa serenidade.
No momento em que o último contingente francês deixou o Líbano, em setembro, Israel viu em sua retirada a oportunidade de assumir a guarda dos campos de refugiados palestinos. As nuvens da tempestade fechavam o céu libanês mais uma vez, anunciando a iminência de outro massacre.
Nesse ponto da Guerra, a democracia libanesa, que já fora tão cara ao Ocidente, havia sido reduzida a frangalhos. A última eleição parlamentar se dera há uma década, em 1972, sete parlamentares estavam entre as baixas do conflito e menos da metade dos que restaram continuavam no Líbano.
Begin e Sharon, limitados pelo cessar-fogo, planejavam recorrer a uma aliança política de longa data com os maronitas para concretizar seu esquema colonialista, o que se mostrou menos complicado do que se esperava: Bashir Gemayel, filho de Pierre Gemayel, foi o único a se candidatar às eleições de 1982, pelo Partido Falangista. Sua eleição foi quase consensual, e chegou a ser genuinamente celebrada pelos libaneses.

O presidente recém-eleito morreu menos de um mês depois, antes que pudesse assumir o cargo, quando uma bomba atingiu a sede do Partido Falangista, localizado na parte leste de Beirute. O autor do atentado, motivado pela discordância quanto à aproximação de Gemayel a Israel, foi o jovem maronita Habib Shartouni, membro do Partido Nacional Socialista Sírio. Os falangistas, enxergando na Síria uma rival demasiado poderosa, voltaram seu desejo de vingança para os refugiados palestinos dos campos de Sabra e Chatila.
Por 36 horas, a milícia falangista assassinou de maneira sistemática e sem piedade mulheres, homens, crianças, jovens e idosos. Além disso, os campos foram nivelados com retroescavadeiras, e muitos palestinos morreram soterrados pelos escombros. Israel, que nada fez para impedir a passagem dos falangistas maronitas, contabilizou oitocentas mortes; a Cruz Vermelha palestina estimou mais de 2 mil.

Tarde demais para fazer o que haviam prometido – isto é, proteger os civis palestinos que haviam permanecido no Líbano -, a força multinacional regressou ao país.
Amin Gemayel, irmão mais velho de Bashir Gemayel, foi eleito o próximo presidente. Israel, que demonstrava pouco interesse em deixar o Líbano, viu nessa nova figura uma renovação da expectativa de que seus projetos não estavam condenados. Essa esperança durou pouco, uma vez que Amin estava mais interessado em Damasco do que em Tel Aviv.
Os termos aos quais se chegou foram consumados no Acordo Israelense-Libanês de 17 de maio de 1983, condenado pelos xiitas como um “acordo humilhante” e, pelo mundo árabe, como uma farsa judiciária através da qual os estadunidenses forçavam o Líbano a compensar Israel pela destruição.
Segundo o Acordo de 17 de Maio, o Líbano agora se comprometia a integrar o exército do sul do Líbano – uma milícia cristã financiada com recursos israelenses – ao exército nacional, e ficava responsável por garantir a seguridade da fronteira norte de Israel. Para isso, um terço da porção sul do território libanês, a partir da cidade de Sídon, seria convertida em uma “zona de segurança”. Os sírios, por sua vez, saíram em grande desvantagem, já que o Acordo exigia o desaparecimento completo das tropas sírias do território libanês, algo que Hafez Assad não estava particularmente inclinado a fazer.
Bairros cristãos de Beirute foram bombardeados à medida que os conflitos se reiniciaram, por iniciativa síria, e essa foi a deixa encontrada pelos Estados Unidos para tomar parte ativa na Guerra. Todavia, os estadunidenses não estavam, no cenário libanês, em condições de competir com a Síria, o Irã e a resistência xiita apoiada pela URSS, de modo que se depararam com uma recepção que lhes era amplamente hostil.

A virada da tempestade contra os EUA e Israel representou um clima propício para o surgimento do que viria a ser o mais famoso movimento islâmico do Líbano – o Partido de Alá, ou Hezbollah.
O Hezbollah nasceu nos campos de treinamento promovidos pela Guarda Revolucionária Iraniana na cidade de Baalbek, no vale central do Beca. Os campos eram frequentados por centenas de jovens xiitas que recebiam treinamento militar avançado, bem como educação religiosa e política – os inimigos do Irã eram seus inimigos, e a Revolução Islâmica era seu ideal.
O Partido de Alá absorveu inspiração de uma cultura de martírio inaugurada pelo imã Hussein, neto do profeta Maomé, que morreu no ano de 680, lutando contra a dinastía omíada na cidade iraquiana de Karbala. Nesse sentido, o primeiro atentado suicida xiita – ou “operação de martírio” – ocorrido no Líbano fora levado a cabo pelo jovem Ahmad Qasir, da Resistência Islâmica, que chocou contra a sede do exército israelense, em Tiro, um carro repleto de explosivos.
A tentativa israelense de aniquilar a Resistência Islâmica, precursora do Hezbollah, nada fez além de escalar a brutalidade.
Na manhã de domingo de 23 de outubro de 1983, o frescor do alvorecer foi cortado por uma onda ardente de calor que atingiu toda Beirute. Por volta das seis e vinte da manhã, e quase simultaneamente, dois homens-bomba se aproximaram de seus alvos: um deles, do quartel dos fuzileiros navais dos Estados Unidos e, o outro, do quartel-general dos paraquedistas franceses.
Mesmo em meio ao caos generalizado da Guerra Civil em andamento, a explosão que matou mais de trezentas pessoas foi um choque inigualável. O principal suspeito do caso é, até hoje, a organização xiita conhecida como Jihad Islâmica, a qual assumiu, ainda, a responsabilidade pelo carro-bomba que devastou uma ala da Embaixada dos Estados Unidos no centro da capital.

Os empreendimentos xiitas de revanche conquistaram a revogação completa dos Acordos de 17 de Maio. Em janeiro de 1985, ainda, os israelenses por fim concordaram em limitar sua presença no Líbano à zona de segurança ao sul.
A luta contra Tel Aviv e Washington, contudo, nada mais representaria para o Hezbollah do que, em última instância, a criação de um Estado islâmico no Líbano. De acordo com sua Carta Aberta redigida em 1985: “Não queremos que o islã governe no Líbano pela força, como acontece atualmente com o maronismo […] Mas queremos ressaltar que estamos convencidos de que o islã é uma fé, um sistema, um pensamento e uma norma de governo, e pedimos a todos que o reconheçam e vivam de acordo com a sua lei”.
Analogamente ao caso da Guerra do Vietnã, que terminou em 1975, os empreendimentos estadunidenses no Líbano revelaram-se uma imensa derrota. Como os vietnamitas, e ao contrário dos combatentes palestinos em solo libanês, o Hezbollah e os demais aliados xiitas lutavam pelo direito à sua própria terra.
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Tropas sírias, controle israelense da zona de segurança, milícias rivais armadas por fundos estrangeiros, um Estado falido, devastação generalizada e uma geração inteira que cresceu sem conhecer qualquer coisa além da guerra. Esse era o panorama libanês às vésperas do fim da década de 1980, e a paz nunca havia estado tão longe.
O governo de Amin Gemayel se estendeu de 1982 a 1988, e é lembrado pela história como um período de recaída da política libanesa. Rashid Karami, muçulmano sunita e primeiro-ministro de 1984 a 1987, reuniu em torno de si um séquito de políticos veteranos que consideravam o Pacto Nacional de 1943 estéril, e clamavam por uma reforma nas bases do sistema político libanês que fosse capaz de evitar futuros flagelos similares à Guerra Civil.
Gemayel era o foco dos ataques reformadores; as sessões de gabinete presididas por ele eram boicotadas, e o governo via-se totalmente impotente. Em 1987, Karami renunciou, e foi vítima de uma bomba plantada no helicóptero que o transportava quatro semanas mais tarde. Depois de seu falecimento, ninguém estava disposto a correr o risco de assumir o cargo e de ter o mesmo destino e, mesmo com o fim do mandato de Gemayel em 1988, o Parlamento – responsável pela eleição do presidente – não dispunha do quórum exigido. Parecia impossível chegar a um consenso sobre quem deveria presidir o país dali em diante. Mais uma vez, um único candidato improvável se apresentou: o ex-presidente Suleiman Franjieh, durante cujo mandato se acenderam as primeiras faíscas da Guerra Civil.
A candidatura, por razões óbvias, não foi levada adiante, e o Líbano ficou sem presidente, caso em que, de acordo com a Constituição, o primeiro-ministro e seu gabinete deveriam assumir o poder executivo. Recordemos, em contrapartida, que o Pacto Nacional assegurava aos sunitas o cargo de primeiro-ministro, o que punha em risco o status quo maronita.
Selim Hoss, ex-ministro sunita da Educação que fizera parte do gabinete de Karami , e que assumira com relutância o cargo de primeiro-ministro nos anos finais do governo de Gemayel, era visto como uma opção para a presidência que desagradava os maronitas.
Buscando evitar a promoção de Hoss ao executivo – caso em que o sistema confessionalista do Pacto Nacional seria substituído por uma democracia aberta sob a tutela da Síria -, o general maronita Michel Aoun arquitetou um golpe e, valendo-se do constrangimento de Gemayel, nomeou-se primeiro-ministro às 23h45 de 22 de setembro de 1988 – posição que, considerando-se os critérios do Pacto, ele não poderia ocupar.
O golpe, é claro, não foi reconhecido por Hoss e por seus apoiadores, de modo que, ao invés de nenhum, o Líbano agora tinha dois governos distintos, como se fosse composto por dois pequenos Estados, sendo um deles cristão maronita, apoiado por Bagdá e, o outro, sunita e xiita, apoiado por Damasco. A única instituição burocrática a não sofrer o impacto da cisão foi o Banco Central Libanês, que deparava-se com a obrigação de financiar os dois governos.
Aoun, ameaçado pela influência de Hafez Assad, declarou uma guerra de emancipação contra a Síria em março de 1989, à qual o governo sírio respondeu com um bloqueio sobre a parte cristã do Líbano. Essa desavença gerou o bombardeio mais fatal a atingir o solo libanês desde o cerco israelense em 1982.
Para discutir o fim de mais uma etapa da Guerra Civil Libanesa, reuniram-se em Casablanca os líderes da Arábia Saudita, do Marrocos e da Argélia, apelidados como “a troika”. Depois de seis meses de negociações, a cúpula foi capaz de convencer a Síria a respeitar o cessar-fogo, e o Iraque a interromper o fornecimento de armas a Aoun. Durante 23 dias, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, o príncipe Saud al-Faisal, presidiu a reunião da qual surgiria o anteprojeto da Segunda República do Líbano. Foram elaborados, também, os Acordos de Taif, que, malgrado preservassem aspectos do sistema confessional, preocupavam-se em refletir as proporções demográficas do Líbano moderno.
Isso não quer dizer que a igualdade entre millets se tornou uma realidade – a relutância em desfazer-se do Pacto Nacional, mesmo que parcialmente, persistia em certo grau. O presidente continuaria a ser obrigatoriamente maronita, sob o título de “chefe de Estado e símbolo de unidade”; o Conselho de Ministros era reservado aos sunitas e o cargo mais alto que um xiita poderia ocupar era o de porta-voz do Parlamento, assessor do presidente quanto à nomeação do primeiro-ministro. Sem o respaldo sírio, ainda, a consagração dos Acordos era impossível, o que fez perdurar a estadia da Síria no Líbano, desfrutando de “relações privilegiadas em todos os campos”. Em suma, os Acordos de Taif foram aceitos por todos, mas ninguém ficou satisfeito.
Em 5 de novembro, os Acordos foram formalmente aprovados pelo Parlamento, e os arranjos para a posse do respeitado deputado maronita René Moawad como presidente foram encaminhados. No 17º dia de seu governo, logo após as comemorações do Dia da Independência do Líbano, Moawad foi vítima de uma bomba, fatalidade que pôs em cheque os Acordos de Taif. Hafez Assad não perdeu tempo em anunciar o preenchimento do posto vazio por Elias Hrawi.
Aoun, que fora restituído a seu papel anterior de general do exército, foi desempossado por Hrawi. A esse decreto, seguiu-se uma batalha escancarada entre os apoiadores de Aoun e as próprias milícias das forças maronitas libanesas, ambos financiados pelo Iraque de Saddam Hussein. Tratando-se de desavenças entre facções cristãs, o Vaticano foi chamado para mediar o cessar-fogo, em maio de 1990, com pouco sucesso.
Fora do Líbano, a invasão do Kuwait pelas forças armadas iraquianas, em agosto do mesmo ano, acirrou a rivalidade entre Assad e Hussein, antagonismo que foi arrastado para dentro das fronteiras libanesas. Aviões sírios bombardearam, por solicitação do presidente Hrawi, as tropas do general Aoun no palácio presidencial de Baabda. Seu pedido de asilo na embaixada francesa foi capitulado em três horas.
Em novembro de 1990, ordenou-se que todos os movimentos armados saíssem de Beirute e, em dezembro, as barricadas erguidas entre o oeste muçulmano e o leste cristão da capital foram derrubadas. A cidade recuperava sua integridade depois de seis anos de divisão. Às vésperas do Natal, Omar Karami, irmão de Rashid Karami, anunciou um governo de unidade nacional, e foi concedido às milícias um prazo de alguns meses para seu desarmamento. A única exceção foi o Hezbollah, que deu continuidade a sua jihad.
Depois de uma interrupção de 15 anos no fornecimento de serviços públicos em muitas áreas do país, de 200 mil óbitos, de centenas de exilados e de incontáveis feridos, a tempestade encontrava seu fim.
Vinhas da Ira: a Paz que o Vento Levou
O sangue da população libanesa, vermelho como o sumak utilizado em sua culinária típica, banhava as ruas do país depois de mais de uma década de Guerra Civil. Entretanto, mesmo que a fumaça trazida pela guerra ainda pairasse sobre o território libanês, os ventos foram capazes de carregar em pequenos sopros as primeiras sementes de paz.
Essas sementes foram plantadas na cidade saudita de Taif, onde líderes políticos e parlamentares do Líbano reuniram-se para negociar um suposto fim para os embates. Os chamados Acordos de Taif foram o primeiro passo de uma longa caminhada rumo à pacificação do país após o fim da guerra. Suas cláusulas pressupunham uma revisão histórica da formação política libanesa pós-independência, isto é, uma reconfiguração do Pacto Nacional de 1943, no intuito de reduzir ao máximo a influência do sectarismo no país, ainda que de forma gradual. Através de uma significativa desconcentração do poder executivo e de uma alteração no modelo de representatividade política vigente, os acordos visavam igualar a participação dos distintos grupos confessionais do interior do Líbano na política do país, não mais privilegiando maronitas, mas sim equiparando cristãos e muçulmanos.
No entanto, as diversas tentativas de negociações de paz mostraram-se infrutíferas. Os próprios Acordos de Taif foram um remédio de efeito passageiro para solucionar o esgotamento da população e das lideranças globais envolvidas após 15 anos de Guerra Civil e para aliviar as tensões internas que prevaleceram no país mesmo com o fim do conflito. Apesar de defenderem o desarmamento de milícias e a saída dos estrangeiros, os acordos apenas ressaltaram, para o povo libanês, sua maior ferida: os domínios da Síria e de Israel. Isso se deu porque boa parte da população passou a acreditar que o domínio estrangeiro não seria a melhor solução para a crise na qual o Líbano se encontrava, passando a ficar extremamente insatisfeita com a presença constante de tropas sírias e israelenses em diversas porções do país. Assim, as feridas da guerra se reabriram por baixo de um curativo que poderia ser arrancado a qualquer instante.

No âmbito político, Michel Aoun perdia apoio da população e dos atores internacionais, deixando o país em um cenário de fragilidade e instabilidade ao exilar-se na França após ser derrotado pelos sírios e tirado do poder.
Já que a política se rearticulava a passos lentos, o governo libanês tentou amenizar as tensões retomando o projeto de crescimento econômico do país, por meio da reelaboração da infraestrutura nacional. Através do uso de capital estrangeiro como base orçamentária, o país iniciou um processo de reconstrução, com reformas econômicas e estruturais. O planejamento trouxe um fôlego à economia do Líbano, que foi capaz de dar início à exploração de seus recursos naturais, sobretudo petrolíferos. A obtenção de tais recursos em específico trouxe grande simpatia internacional de investidores estrangeiros no país, sobretudo países da península arábica com grande interesse na exploração de materiais fósseis, como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. A maior parte do capital estrangeiro que passou a entrar no país foi direcionado para a reconstrução imobiliária de Beirute, no intuito de reafirmar a nação como um centro turístico regional: planejava-se polir a Pérola do Oriente. Diante desse cenário, as sementes da paz começaram a gerar os primeiros frutos; no entanto, seu gosto era um tanto amargo.
No contexto da reconstrução econômica e do apoio ao desenvolvimento do país, uma figura política libanesa essencial surgiu. Rafiq Hariri, um importante homem de negócios libanês extremamente ligado à Arábia Saudita, fundou uma sociedade libanesa anônima conhecida como Solidere, em 1994. Na época, Hariri era primeiro-ministro do Líbano, e o apoio da Solidere às causas em Beirute trouxeram ao líder grande reverência populacional. Concomitantemente, a ascensão política do Hezbollah e do Amal acompanhou a instabilidade política que pairava sobre o país. Para agravar ainda mais a situação, as eleições de 1996 foram precedidas por uma série de assassinatos de civis xiitas e maronitas, e sucedidas por inúmeras acusações de corrupção e por boicotes políticos das maiorias maronitas parlamentares, sobretudo das famílias Aoun, Chamoun e Gemayel. Mesmo diante de uma conjuntura política imprevisível, no parlamento preponderava a favorabilidade ao grupo ideológico de Hariri, consolidando ainda mais sua relevância no púlpito político libanês.
Nesse sentido, como uma andorinha só não faz verão, a tensão sociopolítica no país acentuou-se ainda mais quando o exército israelense deu início a uma operação militar em território libanês que ficou conhecida como Operação Vinhas da Ira. Durante o ataque, os israelenses promoveram um bloqueio aos portos libaneses de Beirute e atacaram partes da cidade como forma de cortar o fornecimento de armas do Hezbollah de maneira estratégica, alegando que aquele seria o meio mais adequado de “cortar o mal pela raiz”. Os ataques israelenses ao grupo xiita não só fracassaram como também agravaram o estado de conflito na região, ainda que a retirada de tropas israelenses do sul do Líbano tenha se dado em março de 2000, pouco tempo depois da invasão.
As sementes tornaram-se frutos. Os ramos tornaram-se vinhas. E o momento da colheita chegava cada vez mais perto.
Revolução no País dos Cedros
Força, longevidade, prosperidade e resiliência. Esses são os valores da população libanesa, imortalizados na bandeira do país pela árvore em seu centro: o cedro. Mais que um símbolo sagrado para diversas religiões, o cedro tornou-se a representação da luta do povo libanês e um dos primeiros símbolos a refletir um certo nível de identidade nacional, apontando um fenômeno sem precedentes na história do país.
Exemplo claro de tal união apesar das diferenças ocorreu pouco tempo depois da retirada do exército israelense do sul do Líbano. Foi nesse momento que uma enorme ventania varreu por completo a paz semeada após a guerra civil.
Após a virada do século, movimentos políticos ao redor do país cresceram, colocando-se a favor da retirada imediata das tropas sírias do Líbano. Lideranças políticas como Gemayel e Hariri ganharam voz à frente da população transtornada, e até mesmo os maronitas posicionaram-se contra a ocupação síria, demonstrando que a colaboração de grupos antes combatentes entre si era possível quando direcionada contra um inimigo comum. Desse modo, o clima de tensão invadiu o parlamento, e culminou num processo legal que conduziu à demissão de Rafiq Hariri, levando a um descontentamento geral da população libanesa. O vento chacoalhava os cedros libaneses, e não pararia até que todas as pragas caíssem das árvores como folhas no outono.
Com a nova escalada das tensões no país, o Líbano ficou em foco na mídia e nos debates internacionais. Com isso, pouco tempo depois, em setembro de 2004, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou uma das primeiras resoluções (Resolução 1559) sobre os conflitos que tomaram forma no país durante tantas décadas. A resolução demandava o fim da ocupação síria no Líbano e o desarmamento imediato da milícia xiita do Hezbollah, além de também mencionar a questão dos inúmeros refugiados palestinos alocados em território libanês após os atentados a seu povo. Tudo corria bem, até que, no ano seguinte, o mundo foi surpreendido por uma grande reviravolta.
Em 14 de fevereiro de 2005, um carro-bomba cheio de explosivos foi usado em um ataque a um dos bairros mais nobres da cidade de Beirute. Dentre os 21 mortos, no entanto, estava o ex-primeiro-ministro, Rafiq Hariri. A morte do antigo lider politico libanês foi logo considerada como assassinato, atraindo os olhares da mídia interncional para as tensões locais. Para além da atenção midiática, suspeitas a respeito dos responsáveis pelo assassinato começaram a surgir no exterior. Enquanto a Síria e o Irã acusavam Israel, as Nações Unidas colocavam os sírios como os principais suspeitos. Diante desse cenário, a população libanesa foi às ruas, tirando proveito da conjuntura política instável e da atenção global para mais uma vez manifestar-se avidamente contra o domínio sirio em seu território. Tais mobilizações populares ficaram conhecidas como Revolução dos Cedros.

A diversidade dos manifestantes da Revolução foi um dos fatores que lhe conferiu um caráter tão singular. De sunitas a xiitas, de drusos a maronitas, a união das mais distintas seitas religiosas e filiações políticas no Líbano contra os inimigos sírios simbolizou a harmonia alcançada por tais grupos em nome de uma soberania nacional. Assim, a Revolução no país dos cedros representou não apenas um marco na história do país, como também uma guinada no tabuleiro geopolítico e uma vitória representativa na luta de muitas outras nações por suas respectivas libertações. Como consequência adicional, a Revolução levou à retirada definitiva do exército sírio das terras libanesas, em 27 de abril do mesmo ano, e encerrou uma ocupação militar que reinou no país por mais de três décadas.
O relevo sinuoso das colinas libanesas que se erguem entre o mar e as planícies reproduz as cicatrizes das lutas travadas pelo povo libanês ao longo de séculos. Mesmo que os fantasmas dos inúmeros atentados politicos e dos conflitos armados ainda assombrem a população libanesa, a Revolução reverberarou nas ruas de Beirute e produziu ecos na atualidade.
“Uma Oliveira nas Colinas do Líbano Sobreviverá a Todos os Seus Feitos”
Muitas das feridas abertas durante a Guerra Civil e a Revolução dos Cedros não foram cicatrizadas no Líbano, e a população do país ainda enfrenta as sequelas desses anos dolorosos.
Em 23 de fevereiro de 2025, o funeral de Hassan Nasrallah, realizado no estádio Camille Chamoun Sports City de Beirute, reuniu uma multidão em polvorosa.
Nasrallah era o líder carismático do Hezbollah desde 1992 e, talvez, o personagem mais popular e influente do Líbano até sua morte durante um ataque israelense aos bairros xiitas de Beirute, em setembro de 2024. As ondas do bombardeio que matou Nasrallah chegaram a ser sentidas nos países vizinhos, evocando os eventos de 1983.
Ainda que dividisse opiniões, a retórica anti-israelense e pró-arabista de Nasrallah era admirada por defensores da causa do povo palestino ao redor do mundo. Na celebração de seu enterro, muitos dos presentes – inclusive Leila Khaled, membro da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP) – portavam keffiyehs.
Constantemente descrito pela mídia ocidental como um grupo terrorista, o Hezbollah tem, para muitos dos libaneses, uma imagem muito diferente: em sua terra de origem, o Partido de Alá é um fornecedor de serviços de saúde, educação, assistência social e até mesmo segurança para as regiões nas quais atua, além de um defensor cotidiano da comunidade xiita, a qual compõe 30% da população. Sua martirização, ainda, coincidiu com a queda de Bashar al-Assad na Síria, o que impôs sérias dificuldades à logística da “crescente xiita” – o território sírio era uma importante ponte geográfica para a comunicação e o envio de recursos entre o Irã e grupos combatentes como os Houthis, do Iêmen, e o Hezbollah.
Mesmo assim, enquanto os caças israelenses cortavam o ar, os seguidores de Nasrallah que compareceram ao funeral portavam, emocionados, cartazes com os dizeres islâmicos “estamos na promessa”.
Quanto ao fator confessionalista, ele nunca foi de fato superado, e a população libanesa continua a viver de acordo com a divisão em dezoito seitas. A segregação entre bairros cristãos e muçulmanos ainda é uma realidade e, embora a convivência se dê, em grande parte do tempo, de forma pacífica, uma espécie de ressentimento velado pela desumanidade da Guerra Civil ainda existe. O próprio Hezbollah e a Palestina continuam a ser divisores de águas. Estar nos bairros cristãos de Beirute é sinônimo de segurança, mas, inclusive nos bairros muçulmanos, os xiitas são recebidos com pouca hospitalidade, por medo que que Israel descarregue suas bombas onde quer que um xiita esteja presente.
Embora pareça claro que boa parte dos problemas pelos quais passa o Oriente Médio são fruto do imperialismo, e que o Hezbollah só existe porque a ocupação sionista existe, há um grande esforço da ala pró-israelense e pró-estadunidense para instaurar o ódio entre os grupos confessionais, criando, entre os cristãos maronitas, a narrativa de que os palestinos e os xiitas são os verdadeiros causadores de sua desgraça.
Em resumo, o Líbano é, nos dias de hoje, um país que se ergue sobre mais de um século de instabilidade, e a ameaça de novos conflitos parece ser eterna. Nos últimos dias, a população libanesa assistiu impotente e pouco impressionada à troca de mísseis entre o Irã e Israel.
Mas o Líbano não é a expressão da guerra. O Líbano é o país dos cedros, da hospitalidade, da pluralidade étnica e de uma paisagem ancestral. Sobretudo, o Líbano é o povo libanês. E como, nas palavras do poeta Khalil Gibran, “do sofrimento emergem as almas mais fortes”, o Líbano ainda terá esperança enquanto os libaneses resistirem.

Referências
MEIHY, M. Os Libaneses. São Paulo: Contexto, 2016.
ROGAN, E. Os Árabes. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
https://www.aljazeera.com/news/2014/4/13/lebanon-marks-civil-war-anniversary-2
https://piaui.folha.uol.com.br/cenas-funeral-nasrallah-libano-hezbollah/
https://diplomatique.org.br/o-velho-libano-resiste-a-mudanca/
https://hummusforthought.com/2013/12/20/khalil-gibran-on-lebanon/
Os versos no primeiro e no último subtítulos são de autoria de Khalil Gibran.
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