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Guerra das Malvinas

Guerra das Malvinas

Por Kauan Siqueira e Lorena Parra

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

As Malvinas, ou Falklands, compõem um arquipélago com mais de 200 ilhas no Oceano Atlântico Sul, ao sudeste da Argentina, a 500 km da costa. As principais ilhas se chamam Gran Malvina, a oeste, e Soledad, a leste, onde se localiza a capital, Porto Argentino; seus outros nomes – britânicos – são West e East Falkland, com a capital Port Stanley.

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Mapa territorial – Fonte: Eric Gaba.

As ilhas agrupam aproximadamente 3 mil e 500 habitantes, a maioria de ascendência britânica, em 12.173 km². O clima predominante é frio, com chuva e ventania praticamente o ano todo. Há um canal entre as ilhas maiores, conhecido por estreito de San Carlos, referenciando o navio espanhol que o atravessou em 1768, ou Falkland Sound, em homenagem ao visconde de mesmo nome que tinha patrocinado uma das primeiras expedições ao local.

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Porto Porto Stanley – Foto: Martin Zwick.

Apesar de se tratar de um território tutelado internacionalmente pelo Reino Unido nas relações exteriores, militares e moeda lastreada à libra – muito comum dos chamados territórios ultramarinos – as Falklands possuem governo administrativo interno. Sua economia é formada pela criação de ovinos, turismo, reabastecimento de navios e pesca. A biodiversidade única e a vida selvagem atraem diversos turistas para o arquipélago todo ano, como por exemplo a observação de pinguins nativos. 

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Ilha Saunders – Foto: David Merron.

A Última Ilha do Mar

As disputas entre hispanos e ingleses pelo arquipélago ocorrem desde o século XVI, tendo os espanhóis reivindicado o território em 1540, após terem-na avistado vinte anos antes. Já a coroa inglesa declara que o descobrimento do local só teria acontecido em 1592 por um explorador inglês.

Fato é que o assentamento de colônias só foi estabelecido a partir de 1764, na segunda metade do século XVIII, com a chegada de franceses da cidade de Saint Malo, ao noroeste da França, comandados pelo oficial Louis Antoine de Bougainville. Eles batizaram o lugar referenciando sua origem e que, posteriormente, levaria ao nome espanhol do arquipélago: de “Iles Malouines” para “Islas Malvinas”.

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Mapa das ilhas Malvinas datado do século XVIII – Fonte: Felipe Ruiz Puente, primeiro governador espanhol.

Em 1765, os britânicos chegam e se instalam na porção leste, ignorando a presença dos rivais. O principal objetivo deles seria deter o controle da passagem pelo Cabo Horn, considerado o “fim do mundo”, onde há o encontro do oceano Atlântico com o Pacífico. Ali, fundaram o povoado de Porto Stanley e onde permaneceram por quase uma década. Já os espanhóis, com o conhecimento da presença de bases das coroas inimigas nos arredores de seu império colonial, procuraram comprar a ilha a oeste das mãos da França e expulsar os ingleses.

A consolidação da Espanha no arquipélago seguiu sem muitas intromissões até as guerras napoleônicas, quando o irmão de Napoleão ocupou o trono espanhol. Naquele momento, sob a perspectiva de aproximação entre Espanha e França, a Inglaterra aproveitou o caos para atacar possessões de ambos os reinos, como na ocupação de Buenos Aires e no avanço sobre as ilhas Falkland em 1810. As tropas coloniais abandonaram seus postos insulares, deixando o território desocupado e desgovernado em 1811.

A partir da debilitação do império colonial espanhol, a Argentina se declarou independente em 1816 com o Congresso Tucumán. Ainda em formação, o país contava muito com o poder administrativo da maior cidade, que organizou a reclamação das ilhas Malvinas para seu território. Foi nessa ocasião que eles fundaram a cidade de Porto Soledad e os colonos passaram à ocupa-la a partir de 1821. 

Neste período de ocupação portenha, uma figura foi muito importante para a construção de vida nas ilhas e é usado até hoje pela chancelaria argentina como base de sua reivindicação de soberania territorial: o Luis Vernet. Francês mas “naturalizado” argentino [pitada de anacronismo] depois de seu casamento com a sobrinha de um governador malvino, Vernet foi um dos primeiros a formar um assentamento e sua filha, Matilda Saez y Vernet, foi o primeiro registro de nascimento do arquipélago.

No entanto, as disputas se seguiram: em 1833, ingleses retornam à ilha e declaram a retomada do território, que agora se chamaria Falkland Islands, à posse do império britânico, depois da fragilização do governo argentino devido aos conflitos locais com baleeiros estadunidenses. Houve ataques argentinos contra a entrada inglesa, mas que não foram suficientes para detê-los. Lá, os ingleses permaneceriam até a década de 1980.

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Área de desembarque em Porto Porto Stanley – Fonte: Flickr.

O século XX nas ilhas foi marcado por ainda mais conflitos. Alemanha e Grã-Bretanha se envolveram em batalhas próximas ao arquipélago, no que seria um dos primeiros grandes combates da 1ª Guerra Mundial: a Batalha das Ilhas Falklands. A questão da soberania do governo das ilhas estava mais em segundo plano, com protestos e amenidades diplomáticas para além da tentativa de venda amistosa por parte do governador de Buenos Aires à coroa inglesa como forma de abater a dívida externa do país.

Foi a partir da 2ª Guerra Mundial que as relações entre os dois países começaram a azedar, devido ao afastamento econômico – que antes era uma questão relevante para a resolução pacífica do impasse sobre a propriedade das ilhas – e ao fortalecimento do movimento peronista na Argentina.

A Ditadura Argentina

O nacionalismo de Perón foi peça chave para entender os subsequentes eventos envolvendo as ilhas Malvinas e a atual relação entre os países. A queda do governo anterior por um golpe militar colocou o sindicalista e Secretário do Trabalho, o General Domingo Perón, no poder da Argentina em 1945. O caráter paternalista e o apelo à adesão emocional, principalmente dos mais pobres, gerou um governo bastante popular porém igualmente autoritário e centralizador em sua persona.

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Perón – Fonte: GettyImages.

Durante seu regime, Perón fez diversas campanhas à favor da retomada das Ilhas Falkland (imagino sua confusão com a mudança de nomes mas lembre-se da timeline, Falkland até 1982) sob justificativas de que a presença britânica na região era um modo de manter a influência do imperialismo inglês, se tratando de uma usurpação clara e inadmissível. Havia propaganda pelas ruas e escolas contra os britânicos, como essa abaixo a qual mostra um soldado inglês vestido com uma camisa floral e falando de ilhas tropicais, fazendo referência à desinformação europeia sobre o continente sulamericano e em especial às Ilhas Falklands que são um lugar de muito frio.

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Fonte: Martin Gersbach/Wikimedia Commons.

Em 1947, houve um tensionamento da situação devido ao envio de tropas navais argentinas às imediações das ilhas, ao que os britânicos reagiram com o estabelecimento de uma pequena base militar no local; mas não houve combate. Seis anos depois, em 53, a Argentina fez uma proposta de compra das ilhas a Churchill que, austeramente, decidiu recusar e levar a questão para a Corte Internacional Judicial.

Tentativa da ONU

A ONU buscou apaziguar as relações diplomaticamente através do reconhecimento de ambas reivindicações na resolução 2065: para a Argentina, a identificação de seu passado colonial na ilha aumentou o desejo pela consolidação de sua soberania; já para a Inglaterra, o fato da organização ter emitido uma resolução em que se frisava a importância da opinião e interesses dos habitantes das Falklands, em sua maioria de ascendência britânica, para a constituição de um governo tutelado.

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Diplomata argentino Miguel Ángel Zavala Ortiz em sessão na ONU, 1965 – Fonte: UN/Photo.

Os Caóticos Anos 1960-70

No ano de 1964, uma aeronave pousou e desembarcou nas ilhas sem autorização com o objetivo de hastear a bandeira argentina no solo e reclamar o território para seu país. Outra ação de tomada das ilhas à força foi o sequestro de um avião com passageiros para o pouso nas Falklands, chamada de Operativo Condor, em 66 durante a visita do príncipe Philip à Argentina. A operação foi composta por 17 militantes peronistas, mas mal sucedida visto que a pequena base militar inglesa foi suficiente para rendê-los. 

Nesse meio tempo, Perón foi deposto por um golpe, exilado e retornou para ser reeleito. Uma crise política gigantesca era o palco das decisões que afetariam o arquipélago na década de 1970. No seu segundo mandato, o presidente procurou apostar em uma postura de cooperação com os habitantes das Malvinas, com o intuito de amenizar as distâncias entre o povo argentino e os nativos insulares para a facilitação no processo de transferência de soberania. Exemplos dessas ações afirmativas foram o “intercâmbio” de jovens para estudarem na Argentina, no fornecimento de combustível diretamente da estatal petrolífera argentina e na modernização de instalações malvinas.

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Placa com protesto em favor da soberania argentina, localizada na província de Mendoza – Foto: Tjeerd Wiersma.

No entanto, com a morte do líder amado, outra ditadura tomou seu lugar em 1976 com um viés muito mais sangrento, um prenúncio do que estaria por vir nos próximos anos, e em especial para o arquipélago.

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Soldados lendo jornal sobre o golpe em 76 – Fonte: Associated Press.

A Guerra das Malvinas

Com a forte repressão política da ditadura argentina e o caos socioeconômico na década de 80, a junta militar liderada pelo general Leopoldo Galtieri decidiu invadir o arquipélago com o objetivo de distrair a população da difícil conjuntura do país a partir de um ato patriótico. Assim, em 2 de abril de 1982 forças argentinas desembarcaram nas ilhas, tomaram a capital e derrotaram a pequena guarnição britânica presente no local.

Em função do arquipélago estar situado a quase 13 mil km de distância de Londres, a Argentina pensou que o Reino Unido não iria reagir militarmente à tomada das Malvinas e que a ação serviria como base para a transferência de sua posse para o país sul-americano. No entanto, isso não aconteceu. Margaret Thatcher, então primeira ministra britânica, foi enfática ao defender a possessão das Malvinas por parte do Reino Unido.

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Hasteamento da bandeira argentina no desembarque das tropas às ilhas Malvinas, em abril de 1982 – Fonte: Rafael Wollmann.

A Argentina foi apoiada de forma passiva pela maioria dos países da América do Sul, menos pelo Chile, que disputava regiões fronteiriças com o seu país vizinho. Enquanto isso, o Reino Unido recebeu apoio dos Estados Unidos, da União Europeia, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da ditadura de Pinochet, recebendo armamento e informações de inteligência de seus aliados. Em tempos de Guerra Fria, a Argentina cogitou pedir apoio à URSS; entretanto, se conteve em receber armamentos de origem soviética, incluindo mísseis antiaéreos, por parte de Muammar Gaddafi, então ditador da Líbia.

Pelo erro de cálculo de não esperarem uma reação militar do Reino Unido, os argentinos enviaram soldados pouco experientes para as Ilhas Malvinas, em decorrência do fato de que as suas melhores tropas estavam presentes nas fronteiras montanhosas do país com o Chile. Além disso, devido à pista de pouso de Port Stanley ser muito curta, a Força Aérea Argentina foi extremamente prejudicada, tendo que partir do continente para entrar em combate com as forças britânicas, perdendo muito combustível e apresentando baixa eficiência.

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Tropas argentinas invadem Port Stanley – Fonte: Gamma-Rapho/Getty Images

O Reino Unido montou uma força-tarefa para retomar o controle das ilhas, com a frota britânica contendo porta-aviões, fragatas, contratorpedeiros e navios logísticos. As forças do império expulsaram as forças argentinas da Geórgia do Sul e, posteriormente, das Ilhas Sandwich do Sul, tornando a primeira um ponto estratégico de controle e reabastecimento durante a guerra. Os argentinos estavam mal equipados, com pouca munição, e o frio intenso marcou um quadro dramático nos campos de batalha.

Assim, se seguiram 74 dias de intensos combates terrestres, aéreos e marinhos entre os dois países, em que a superioridade militar do Reino Unido impôs a humilhante rendição dos argentinos em 14 de junho de 1982, dando fim à guerra. Foram mortos 649 militares argentinos, 255 militares britânicos e 3 civis.

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Manchete “Estamos ganhando” do jornal argentino Gente, de 06/05/1982 – Fonte: PropagandaPosters/Reddit.

Ecos da Guerra

Apesar da censura e da manipulação dos meios de comunicação, a ditadura argentina não conseguiu esconder da população a derrota que o país sofreu perante os britânicos. Dessa forma, com o regime já extremamente enfraquecido, o general Galtieri renunciou 4 dias após a rendição das tropas argentinas em Port Stanley. Um governo de transição foi instaurado e conduziu a nação pelo período de redemocratização que resultou na eleição de Raúl Alfonsín, presidente democraticamente eleito que tomou posse em dezembro de 1983.

Do outro lado do hemisfério, o conflito produziu resultados diametralmente opostos. A guerra das Malvinas gerou grande comoção nacional em favor de Margaret Thatcher, que foi firme em sua resposta à agressão argentina e conduziu o país a uma guerra popular e vitoriosa. Assim como no cenário político argentino, a Primeira-Ministra enfrentava baixos índices de aprovação e a defesa patriótica do arquipélago foi um fator crucial para a melhora de sua popularidade, o que permitiu que o partido Conservador obtivesse outra vitória nas eleições gerais de 1983.

Os dois países retomaram as suas relações diplomáticas somente em 1990. Desde então, a soberania argentina das Ilhas Malvinas ocupa o imaginário da população em torno de um ideário patriota, em que independentemente da posição ideológica dos presidentes, a questão é vista como consenso. Contudo, mesmo decorridos mais de 40 anos do fim da guerra, o conflito acerca da possessão do arquipélago continua sem soluções definitivas.

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A soberania das Ilhas Malvinas ainda causa animosidade entre a Argentina e o Reino Unido – Fonte: Vijay Chander/ Unsplash

O Reino Unido possui grandes interesses na localização geoestratégica das Malvinas, que servem como base de acesso ultramarino europeu no Atlântico Sul e oferecem uma proximidade geográfica com a Antártica, detentora de extensas reservas de petróleo, gás e também rica em minérios e na pesca. A partir de 1985, uma base militar britânica em Mount Pleasant, controlada pela Royal Air Force, passou a atuar na região.

A Argentina utiliza a Convenção do Direito do Mar da ONU que determina a jurisdição de 370 km de distância das costas para a definição de fronteiras marítimas da Argentina que, nesse caso, estão justapostas às águas territoriais britânicas em razão do arquipélago. Ainda sob essa definição, a vizinha sul-americana brasileira também demanda a sua soberania sobre as Ilhas Sandwich do Sul e a Geórgia do Sul.

Em 2013, os habitantes das Malvinas votaram em um referendo observado internacionalmente em que 99,8% expressaram o desejo de permanecer sob domínio britânico, já que possuem cidadania britânica e usufruem dos seus serviços públicos de qualidade. A Argentina rejeitou o resultado, defendendo que a população das ilhas foi colonizada por potências ultramarinas e, portanto, não poderia exercer plenamente o direito de autodeterminação dos povos.

Mesmo com negociações e esforços diplomáticos de ambas as partes, uma solução pacífica e definitiva para a longa disputa pela soberania das Ilhas Malvinas parece estar longe de se tornar realidade.

Referências

https://www.nationalgeographicbrasil.com/viagem/2024/03/qual-e-a-localizacao-exata-das-ilhas-malvinas

https://en.wikipedia.org/wiki/Falkland_Sound

https://www.quarkexpeditions.com/blog/5-fun-facts-falkland-islands-malvinas

LOUREIRO, Fernando. As Falklands-Malvinas: uma breve história da disputa que levou à guerra entre Argentina e Inglaterra. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/falklands-malvinas-a-historia-de-uma-longa-disputa/. ISSN: 2674-5917.

https://oglobo.globo.com/epoca/vinte-coisas-que-voce-talvez-nao-saiba-sobre-as-ilhas-malvinas-23567432

https://www.dw.com/pt-br/1982-come%C3%A7ava-a-guerra-das-malvinas/a-488473

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/40-anos-apos-guerra-argentina-e-reino-unido-ainda-disputam-malvinas/#goog_rewarded

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/04/03/milei-reivindica-malvinas-entenda-por-que-argentina-entrou-em-guerra-e-perdeu-e-ate-hoje-disputa-a-ilha-com-o-reino-unido.ghtml

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/02/internacional/1491155935_117217.html

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    Aluna de graduação em Relações Internacionais no Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em (2026/2025).

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    Aluno de graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e membro sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: América Latina, Estados Unidos, Ásia Ocidental, Sul Global e Direitos Humanos.

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Aluna de graduação em Relações Internacionais no Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em (2026/2025).