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O Destino Manifesto e a Formação dos Estados Unidos

O Destino Manifesto e a Formação dos Estados Unidos

Por Ester Kodaira e Lara Belezia

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Nos últimos anos, especialmente durante o governo de Donald Trump, observamos a retomada de discursos que reforçam ideias de grandeza nacional, soberania e até mesmo uma certa lógica expansionista americana. Desde ações intervencionistas até decisões multilaterais tomadas pelos EUA no tabuleiro internacional, essa postura e esses discursos resgatam elementos históricos profundamente enraizados na sociedade americana desde a formação dos Estados Unidos. Dentre eles, podemos citar a ideia de que o país possuiria um papel único no cenário geopolítico e histórico global.

Além disso, vemos hoje um crescimento importante dos debates sobre os direitos de povos indígenas e originários, tanto no âmbito dos Estados Unidos quanto globalmente. Essas discussões trazem à tona processos históricos de expulsão, violência e marginalização que estão diretamente ligados à expansão e à formação do território norte-americano, em especial durante a chamada doutrina do Destino Manifesto. Assim, vamos entender um pouco melhor como esses ideais foram construídos e como eles ainda fazem parte das políticas dos Estados Unidos nos dias atuais.

“Viva os Estados Unidos da América!”

A formação dos Estados Unidos está diretamente ligada ao processo de ruptura com o domínio colonial britânico, que culminou na Revolução Americana e na declaração de independência do país em 1776. Mais do que um conflito político, esse processo foi sustentado por um conjunto de ideias que circulavam no mundo atlântico naquele período, especialmente aquelas associadas ao Iluminismo.

Esse processo foi fortemente influenciado pelos ideais iluministas europeus Entre os principais princípios iluministas que influenciaram os colonos, destacam-se a defesa dos direitos naturais, como a vida, a liberdade e a propriedade, a crítica ao absolutismo e a ideia de que o poder político deve derivar do consentimento dos governados. Nesse sentido, pensadores como John Locke foram fundamentais na disseminação desses ideais, ao argumentar que um governo que não protege esses direitos perde sua legitimidade. Esse tipo de argumento foi central para justificar a independência, já que os colonos passaram a enxergar o domínio britânico não apenas como opressor, mas como ilegítimo.

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Washington Crossing the Delaware, por Emanuel Leutze (1851). Fonte: Culturalizando.

Ao mesmo tempo, esses ideais se articularam com uma valorização crescente do republicanismo. Diferente da monarquia, o republicanismo pressupunha um governo baseado na representação, na limitação do poder e na ideia de bem comum. Havia também uma forte ênfase na virtude cívica, ou seja, na ideia de que os cidadãos deveriam participar da vida política e agir em função do coletivo. Isso não era só uma teoria institucional, mas um projeto de sociedade que foi central para a construção da identidade americana. Não se tratava apenas de criar um novo país, mas de fundar uma sociedade que seria exemplo para o mundo. 

Nesse sentido, a independência dos Estados Unidos não pode ser entendida apenas como um desdobramento de ideais iluministas. Ela resulta da articulação entre um projeto político baseado no republicanismo e a ruína dos ideais iluministas, que mais para frente se somaria a uma visão religiosa, a qual atribuiria à nova nação um papel especial na história. E é justamente dessa combinação que emergiriam, a partir dali, as bases do Destino Manifesto.

O Destino Manifesto e o “Povo Escolhido”

O termo “Destino manifesto” foi utilizado pela primeira vez em 1845 pelo jornalista americano John O’Sullivan em sua coluna semanal “Anexação”. Em um contexto de tensão entre os Estados Unidos e o México, a expressão foi escrita pelo jornalista para tentar descrever o cumprimento inevitável de uma lei geral que estaria guiando a população norte-americana rumo ao oeste do continente. Ainda que o termo só tenha sido cunhado em meados da metade do século XIX, o significado e a simbologia por trás do Destino Manifesto nasceu anos antes.

A expansão territorial já era uma questão mesmo durante o período colonial. Em 1763, a Coroa britânica estabeleceu um limite para o avanço territorial dos colonos: os Apalaches. O Rei George III queria que as terras a oeste dos montes e até o Rio Mississippi fossem deixadas para as comunidades de povos originários da região. No entanto, essa decisão gerou revolta entre os colonos recém chegados em solo americano, sobretudo devido ao seu anseio cada vez maior por terras e sua noção de uma necessidade de povoamento dos territórios mais a Oeste. Essa indignação popular foi mais um dos motivos pelos quais as treze colônias optaram por declarar sua independência em relação à Coroa britânica em 1776.Todavia, os norte-americanos não apenas ansiavam pela expansão como também sentiam-se responsáveis por perpetrá-la. Essa mentalidade surgiu com os primeiros colonos, especialmente os puritanos, os quais foram profundamente influenciados pelo Calvinismo, uma das vertentes protestantes que foram forjadas na Europa em meados do século XVI. Dentro dessa tradição, a ideia de predestinação ocupava um lugar central: a crença de que Deus já teria determinado, de antemão, quem seria digno da salvação. Isso criava uma relação particular de seus praticantes com o resto do mundo, na qual o sucesso, a disciplina e a organização social podiam ser interpretados como sinais dessa eleição divina.

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Gravura de colonos puritanos desembarcando na América do Norte no século XVII. Suas crenças protestantes tinham profundas raízes calvinistas. Fonte: BBC

No contexto norte-americano, essa lógica acabou sendo expandida para além do indivíduo. Aos poucos, foi se consolidando a ideia de que não apenas pessoas, mas toda a comunidade, e posteriormente a própria nação, poderia ser entendida como escolhida por Deus. Os puritanos viam sua experiência na América como a construção de uma sociedade exemplar, quase como um projeto moral que deveria servir de referência para o resto do mundo. Essa noção ajudou a consolidar uma visão divina da existência dos Estados Unidos, e de seu povo como aquele que estaria “destinado” a governar. Dessa forma, os americanos poderiam provar que seus ideais republicanos seriam superiores aos princípios monárquicos do Antigo Regime  em crise no início do século XIX.

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“Progresso Americano”, do pintor John Gast, 1872. O quadro tornou-se a representação mais famosa da doutrina do Destino Manifesto, representando uma figura angelical que seria responsável por trazer a luz, o progresso e os valores de liberdade e republicanismo aos povos do Oeste.

Essa ideia de “povo escolhido” foi crucial para a construção da identidade americana no período pós-independência, pois acabou sendo difundida no imaginário da população, embasada pela prosperidade que muitas das colônias viviam na época e pela vitória sobre a Coroa britânica na Revolução Americana. A propagação dos ideais de predestinação também foi idealizada pelos chamados Founding Fathers (do inglês, “Pais Fundadores”). Líderes políticos como Thomas Jefferson e Benjamin Franklin deram forma a esse espírito de época, trazendo símbolos que remetessem aos EUA como dignos e iluminados pelo caminho divino. 

Dentre esses símbolos podemos citar até mesmo o brasão de armas da época. O escudo continha, dentre as treze listras (que representam as treze colônias fundadoras), a cor branca, que simboliza a pureza, e a vermelha, que faria menção à resistência do povo americano. Para além disso, o brasão surge no peito de uma águia de asas abertas, representando a autonomia dos EUA ao seguirem sempre suas próprias virtudes. No verso do brasão, o chamado Olho da Providência desenhado no meio da pirâmide inacabada também pode ser entendido como o apoio divino à causa americana.

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Versão original do Grande Selo ou do Brasão de Armas americano. Fonte: G1

Os ideais de predestinação dos americanos somaram-se a outras vertentes nacionalistas emergentes da época, em especial por volta da década de 1830, o que acabou fundindo os projetos de nação à noção de eleição divina. Essa realidade foi intensificada pela priorização dos interesses americanos em resposta a esse caráter nacionalista do governo vigente, sobretudo devido ao contexto da chamada Doutrina Monroe. 

Em 1823, o presidente norte-americano, James Monroe, fez um discurso no Congresso Nacional, ressaltando a importância da luta contra a recolonização europeia nas américas a partir de uma perspectiva não intervencionista. A política surgiu como um alerta às potências europeias sobre o colonialismo, estabelecendo que a América seria “para os americanos” e que medidas imperialistas que explorassem o continente jamais seriam toleradas novamente. No entanto, na conjuntura do Destino Manifesto, a Doutrina sofreu uma transformação profunda: dali em diante, a América seria para os “norte-americanos”. Essa mudança colocou a política de Monroe como uma forma de reafirmação não apenas da soberania pós-independência do país, mas também da superioridade norte-americana, evoluindo como a base de seu tão necessário expansionismo territorial ao lado dos ideais de predestinação. 

A Doutrina Monroe influenciou a política interna e externa dos EUA durante mais de 200 anos, e evoluiu muito ao longo da história. Anos mais tarde, a mesma política foi utilizada como pretexto em inúmeras intervenções militares, políticas e econômicas na América Latina, colocando a região como o “quintal dos EUA” no contexto do “Big Stick”, no governo de Theodore Roosevelt. 

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Charge ilustrativa da Doutrina Monroe. Fonte: BBC.

Diante desse contexto, os princípios territorialistas e a necessidade americana de conectar o Leste ao Oeste por terra conduziram o pensamento da população e dos políticos da época, mas não foram suficientes para convencer, em especial, a elite agrária dos estados, que viam inúmeros benefícios econômicos na anexação. A expansão para a aquisição de vastos territórios forneceria a essas elites terras férteis e baratas nas quais elas poderiam mais do que dobrar sua produção e sua riqueza. Para além disso, elas viam-se dignas dos recursos naturais presentes nessas terras. 

O único empecilho encontrado pelos norte-americanos em seus anseios expansionistas estava relacionado à presença dos indígenas em muitas das terras a oeste dos Apalaches e mesmo próximas ao Rio Mississippi, e a quem a posse de tais terras havia sido permitida desde o domínio colonial britânico. No entanto, os povos originários da região não permaneceram muito tempo como um problema para os americanos, que logo começaram a fazer planos para expulsá-los de suas terras… 

A Superioridade Anglosaxã Americana e os Ideais Raciais

Sob a visão de que a expansão seria não apenas benéfica, mas inevitável, os líderes e as elites norte-americanas começaram a perceber que o único empecilho que restava a frente de seu Destino Manifesto era a posse das terras a oeste dos Apalaches por indígenas nativos da região. Diante desse cenário, a doutrina que colocava o povo americano como o “escolhido”, não parou apenas em argumentos religiosos baseados em uma crença na predestinação. Mas para entender as ramificações desses ideais, as quais tomaram conta da mentalidade da época, é preciso analisar a primeira metade do século XIX sob uma outra perspectiva.

Com o tempo, as justificativas americanas para essa expansão territorial ganharam uma conotação racial. Desse modo, o ideal de predestinação foi aos poucos se transformado numa crença de que os norte-americanos seriam uma raça pura e superior, descendente dos povos anglosaxões que haviam seguido na direção do Sol com o objetivo de levar a civilização para os outros povos do mundo. Ao unirem seus ideais de republicanismo e liberdade pós-independência às noções de supremacia racial, os americanos foram capazes de criar um discurso missionário que os colocava como os “libertadores” das almas perdidas. Sua missão era difundir seus valores e suas instituições entre as raças distintas das suas, consideradas por eles como inferiores, mas merecedoras de compaixão, e não de qualquer forma de repúdio. Ao menos inicialmente.

De início, a visão missionária ajudou a transmitir a ideia de um projeto de assimilação cultural como a única solução para o empecilho à expansão que era seu destino. A ideia era forçar a aculturação em comunidades indígenas e civilizá-las, a partir de valores liberais e republicanos, para que essas pudessem atingir algum tipo de progresso, em um projeto sem nenhum caráter belicoso. O governo federal dividiu terras de reservas de uso comunitário em lotes individuais, e forçou os indígenas a adotarem os sistemas de agricultura familiar tradicional europeus. As terras que ficassem de fora da divisão eram vendidas à membros da elite branca, o que levou a uma perda massiva de terras de reservas indígenas. Para além da perda significativa de seu território, os indígenas também foram em muitos casos desmoralizados e forçados a viver sob os costumes tradicionais dos brancos norte-americanos: falar inglês, vestir suas roupas e praticar apenas suas religiões.

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Fonte: BBC.

Com o tempo, os maiores apoiadores do projeto de assimilação passaram a perceber que muitas das tribos indígenas que haviam sido submetidas ao processo de aculturação foram desmoralizadas ou desestruturadas, e ,em muitos casos, dizimadas. No entanto, ao invés de culpar o projeto em si e a violência cultural nele envolvida, os americanos passaram a considerar que seu fracasso estava relacionado a uma incapacidade inata ao indígenas inferiores de alcançarem qualquer tipo de progresso ou mesmo de serem “educados”. 

Todavia, vale notar que uma análise das aplicações do projeto de assimilação em diferentes estados dos EUA na época revelou que, em regiões onde as tribos eram menores e mais diversas, o projeto havia de fato falhado, mas apenas por questões quantitativas e organizacionais de cada uma das tribos. Em estados mais ao sul, a assimilação havia dado resultados e os indígenas haviam sido “educados”. Tal conjuntura prova que os americanos não se importaram em usar justificativas falhas para suas decisões políticas quando as mesmas não atendiam aos seus verdadeiros interesses, ou quando mostravam-se prejudiciais a eles. 

Dessa forma, a retórica missionária que havia sido usada desde o início do século alterou-se quando os ideais raciais já haviam se propagado de maneira irreversível no imaginário da população. Até mesmo aqueles poucos que falavam em defesa dos indígenas os enxergavam como racialmente inferiores. Os americanos passaram a considerar a expulsão desses povos de suas terras, pois passaram a enxergar os indígenas como incapazes de assimilar os valores republicanos e progressistas que eles tanto tentavam propagar. Ainda assim, seria necessário um embasamento teórico forte para transformar os novos planos americanos em doutrinas políticas institucionalizadas.

Foi então que os ideais raciais passaram a ser reforçados pelas correntes cientificistas emergentes na época, em especial pelo racismo científico. Tratava-se de pseudociências que realizavam estudos teóricos para comprovar, através de métodos científicos e interpretações distorcidas, uma diferença biológica e antropológica entre determinadas “raças da humanidade”, que passaram a ser consideradas evolutivamente inferiores. O racismo científico caiu como uma luva para os americanos, que precisavam de um argumento de autoridade para colocar um pingo de verdade em seus discursos racistas.

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Um dos maiores métodos utilizados entre as pseudociências era a craniometria, que atribui hierarquias biológicas e raciais entre indivíduos baseado no formato de seu crânio. Fonte: El País

O embasamento teórico conferido aos ideais raciais pelas teorias cientificistas ampliou o alcance dos discursos de desumanização. Os indígenas passaram a ser considerados bárbaros, indignos de compaixão e incapazes de serem salvos, ou mesmo de participar de um sistema republicano ou de uma sociedade civilizada, sendo vistos como predestinados à extinção. Mas não apenas os indígenas foram alvo de tais discursos de ódio. Depois de 1830, os ideais raciais passaram a ser usados também para definir os mexicanos, durante a guerra dos EUA contra o México (1846 – 1848), e escravos negro-africanos trazidos pelo tráfico transatlântico do continente africano para trabalharem no sul do país. 

Assim, a visão dos indígenas como selvagens que não poderiam ser salvos pelo republicanismo e pela civilização é abandonada, e esses passam a ser considerados como inferiores, que poderiam ser expulsos de suas terras pelo interesse maior dos anglosaxões norte-americanos. Isso deixa claro como a adoção de uma visão de superioridade racial é estratégica para justificar as ações motivadas pelas ambições internas e pessoais das elites brancas estadunidenses. Com isso, existe uma afastamento estratégico do ideal de republicanismo e da busca pela liberdade de todos, com as teorias cientificistas de superioridade de raças sendo usadas como respaldo para que as elites e os EUA possam buscar seus interesses de expansão da sua república e do anglosaxonismo americano, mais especificamente a marcha para o Oeste. 

E assim, os americanos perpetraram seus planos de expansão, expulsando e matando milhares de tribos indígenas de suas reservas e perpetuando seus ideais de superioridade racial e predestinação religiosa. Leis foram criadas para a institucionalização da remoção dos indígenas de suas terras e campanhas foram estruturadas para subjugar os nativos. Tribos como os Cherokee, Chickasaw e Choctaw foram praticamente dizimadas em um movimento que é por muitos considerado o maior genocidio de nativos da história dos EUA. 

A  Formação do Território Americano e a Guerra Contra o México

Para ter uma noção do crescimento do território americano, basta entender que a porção que antes representava as chamadas treze colônias era oito vezes menor que o território dos EUA atualmente. Boa parte dessa expansão territorial deu-se  durante o século XIX, sob o véu do Destino Manifesto e a anexação de territórios indígenas. No entanto, nem todas as conquistas territoriais que incorporaram o contorno da “maior nação da América” foram realizadas facilmente.

Uma das primeiras grandes expansões foi feita em 1803, quando o então presidente norte-americano, Thomas Jefferson, decidiu comprar o território da Louisiana da França. As intenções iniciais do líder americano envolviam tomar posse das terras ao longo do Rio Mississippi e, principalmente, do porto marítimo que ficava mais ao sul do país, na região de New Orleans. Além disso, Jefferson temia uma intervenção militar francesa no recém formado território americano, a qual lhe parecia um risco iminente.

Diante disso, Jefferson fez um acordo com Napoleão Bonaparte para comprar o vasto território da Louisiana (atualmente uma faixa de terra que vai desde os estados de Montana e Dakota do Norte até Louisiana). O estrategista francês já havia desistido de suas ambições imperiais na região após a Revolução do Haiti (1791 – 1804), e por isso aceitou abrir mão do território desabitado e de cara manutenção no coração da América do Norte. 

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Contorno do território de Louisiana comprado de Napoleão Bonaparte pelos EUA em 1803. Fonte: Atlas.

A aquisição do território da Louisiana dobrou a extensão territorial do país, que teve um acréscimo de mais de 2 milhões de quilômetros quadrados. No entanto, os líderes do “povo escolhido” não pararam por ali. Alguns anos mais tarde, o democrata James K. Polk foi eleito presidente, vencendo as eleições em 1844 contra o partido Whig da oposição. No século XIX, o partido democrata possuía uma conotação diferente da atual: eram homens que compunham a elite agrária americana e defendiam o federalismo (maior autonomia para os estados) e o anti-abolicionismo (contra a abolição da escravidão). Assim, Polk foi um dos maiores defensores do expansionismo americano e, sobretudo, da anexação do estado do Texas, ideais que usou em sua campanha eleitoral durante os anos 1840.

Entretanto, a anexação da região do Texas mostrou-se mais complicada do que os democratas haviam imaginado, principalmente devido à intensificação das disputas com o México pelo território. O país encontrava-se extremamente desgastado e empobrecido após anos de guerra de independência (1810 – 1821). Diante da miséria de sua população, o governo decidiu permitir a venda de terras a preços baixos e à prazo, com isenção de impostos e de taxas alfandegárias, com o objetivo de melhorar a economia do país, permitindo que qualquer estrangeiro que quisesse se tornasse cidadão mexicano.

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James K. Polk. Fonte: Wikiquote

Essa política criou um fluxo imigratório de americanos para a região norte do México, próximo à fronteira com os EUA, em especial, em estados como Texas, Novo México e Califórnia. A partir de então, tensões populacionais na região levaram a um movimento separatista no Texas que culminou em sua independência e na criação de uma República, independente do México, em 1836. Nos anos seguintes, os EUA, em sua política expansionista, passaram a demonstrar interesse na anexação dos territórios do Texas, e mesmo da Califórnia, considerada uma das regiões mais economicamente promissoras da América, com portos em águas profundas cobiçados por todos os que pretendiam comercializar com a Ásia. Em 1845, o Congresso Nacional votou a favor da anexação do Texas, que estava interessado em fazer parte da nação norte-americana. 

Alguns meses depois, Polk autorizou a entrada de tropas americanas em solo mexicano e, em março de 1846, declarou guerra contra o México. Com o país ainda fragilizado, a guerra terminou com a vitória dos EUA, em 1848, e a assinatura de um tratado que concedia aos americanos as regiões onde hoje são os estados do Texas, Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah e partes Colorado, Wyoming, Kansas e Oklahoma. O México perdeu mais da metade de seu território em uma derrota que gerou um trauma que perdura até os dias atuais no país.

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A guerra dos EUA contra o México (1846 – 1848). Fonte: G1.

A decisão de Polk de invadir o México levantou questões sobre o caráter da doutrina do Destino Manifesto. O termo passou a ser usado de forma pejorativa por aqueles que defendiam que os EUA expandiram seu território de forma imperialista, e que essa noção expansionista estaria baseada em ideais puramente democratas, e não nacionais. 

Além disso, nos últimos anos da guerra, foi possível observar uma pressão constante por parte da população americana sobre o domínio das terras mexicanas. Isso porque  falava-se de forma depreciativa da miscigenação que o contato com os mexicanos poderia causar. Mas esses ideais de diferenças raciais não surgiram apenas com a guerra no México, eles estavam presentes desde o início do século XIX, e foram a base da doutrina expansionista no ideário da população americana, como uma consequência direta do Destino Manifesto.Ainda, enquanto lutavam contra o México, os americanos aceitaram um acordo que dividiria um território a noroeste dos EUA, o qual havia sido ocupado por britânicos e americanos em conjunto desde 1818. Após o chamado Tratado do Oregon, em 1846, a área que hoje abrange os estados de Oregon, Washington, Idaho e partes de Montana e Wyoming foi anexada ao território americano, no intuito de evitar outras guerra contra os britânicos durante o conflito em andamento contra os mexicanos.

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Charge que satiriza as guerras e compras de território que  vieram a “engordar” o Tio Sam ao longo da história. Fonte: G1.

Outras expansões foram realizadas ainda no século XIX, como a negociação pelo território do Alasca com o czar russo, Alexandre II, em 1867. Após a compra do território, o líder norte-americano, William Seward, foi amplamente criticado por ter anexado ao país terras sem grande valor econômico e nem estratégico. Décadas depois, após a descoberta de ouro e jazidas de petróleo na região, a aquisição do Alasca mostrou-se uma decisão de extrema relevância geopolítica, ainda mais com a importância militar adquirida pelo território no contexto da Guerra Fria. 

Os Ecos da Expansão sob a Terra Prometida

A doutrina do Destino Manifesto e seus impactos reverberaram durante décadas, mesmo após o fim das expansões territoriais norte-americanas.  

Ainda no século XIX, a divisão da elite americana e dos partidos políticos em torno dos projetos de expulsão de tribos indígenas de suas reservas influenciou uma posterior divisão dessa elite, também, em relação a questões abolicionistas. Após a marcha para o Oeste, a disputa para decidir se os territórios conquistados seriam escravistas ou não dividiu o país. Cada novo estado incorporado à União significava novos deputados e senadores e, portanto, um aumento do debate político sobre os benefícios e a viabilidade da abolição da escravidão. Enquanto os estados do sul eram, em sua maioria, democratas e favoráveis à escravidão, o norte encontrava-se fragmentado. Em estados como a Nova Inglaterra, a abolição da escravidão era indiscutível. No entanto, em outros mais a oeste, como Illinois, Michigan e Nebraska, a expansão da escravidão deveria ser proibida, mas aqueles já escravizados até o momento poderiam ser mantidos da mesma forma. 

O debate tornou-se o cerne de questões não apenas políticas mas econômicas. O sul reafirmava que os escravizados seriam a maior força motriz de sua produção agrícola, e que, sem eles, a economia do país ruiria. Enquanto isso, o norte defendia a libertação dos povos negros, não por valores de liberdade ou igualdade, mas sim para que os libertos pudessem integrar a mão de obra assalariada das indústrias que passaram a se desenvolver na região. Essa polêmica levou ao surgimento do Partido Republicano em meados de 1850, o qual evoluiu até a eleição de Abraham Lincoln em 1856.

 Apesar de tais desavenças econômicas, a maior parte da elite política norte-americana concordava que os negros-escravizados não eram parte da sociedade dos EUA. Em Ohio, mesmo após a abolição da escravidão, a entrada de negros no estado era proibida. Mesmo alguns políticos republicanos, como o próprio Lincoln, defendiam políticas de colonização que buscavam levar os povos negros, após a abolição, para regiões como o Haiti recém liberto. Tais circunstâncias comprovam que a mentalidade racial difundida no início do século, a partir do Destino Manifesto, ainda predominava no país apesar de suas bases republicanas, liberais e pretensamente universalistas. 

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Guerra Civil Americana entre a União (estados do Norte) e a Confederação (estados do Sul)(1861-1865). Fonte: Getty Images

A eleição de Lincoln foi o estopim para que os estados sulistas escravistas decidissem separar-se dos EUA e fundar uma nova república, o que, somado a outras razões de disputa entre o Norte e o Sul, acabou resultando na chamada Guerra de Secessão americana (ou Guerra Civil Americana, 1861-1865). Mesmo após o fim da Guerra Civil e a rendição dos estados do Sul (Confederação), os quais foram reintegrados à União, a abolição definitiva da escravidão com a 13ª Emenda não pos um fim a mentalidade racial dos norte-americanos. 

Durante a reconstrução do país, após a guerra, leis de segregação racial foram institucionalizadas na tentativa de legalizar o racialismo e segregar as tão distintas raças sob o olhar dos brancos norte-americanos. As chamadas Leis Jim Crow deram forma à mentalidade racial do início do século XIX e perpetraram o racismo de forma institucional por mais de 80 anos. Na visão dos norte-americanos, não haveria contradição alguma em relação à Constituição, já tais leis sigma uma lógica de “separados, mas iguais”.

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Segregação de espaçõs públicos, até mesmo banheiros e bebedouros, foi institucionalizada nos UEA durante a segregação racial. Fonte: O Globo.

Os espaços públicos foram segregados: transportes públicos, estabelecimentos comerciais, banheiros. Eram separados mesmo após a morte, com cemitérios distintos para pessoas brancas e negras. Foram privados de seu direito ao voto e violentados por grupos que faziam de tudo para manter a supremacia branca do país. Mesmo após mobilizações sociais contra a segregação racial nos EUA, a institucionalização da mentalidade racial teve fim apenas na década de 1960.

Leia mais sobre em Consciência Negra: Memória, Luta e Resistência

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A segregação racial afetou em especial mulheres negras na época. Fonte: O Globo

Para além dos ecos da perspectiva racial desenvolvida a partir do Destino Manifesto, as noções de superioridade e predestinação relacionadas ao expansionismo territorial seguiram acompanhando os americanos até os dias de hoje. Ainda no final do século XIX, Lincoln assinou o Homestead Act, uma lei que concedia terras públicas para cidadãos ou imigrantes, mesmo negro-africanos e mulheres solteiras, que quisessem praticar agricultura e contruir moradia por mais de cinco anos. A lei visava continuar a ocupação americana das terras a oeste mesmo após o fim da Guerra Civil, integrando ainda mais o território após o risco da secessão. 

Já no século XX, os ideais expansionistas não abandonaram os líderes políticos americanos. Durante a Guerra Fria, os EUA continuaram buscando expandir seus ideais, colocando-se como destinados a combater o comunismo e expandir seus valores capitalistas, mesmo o fazendo em detrimento das liberdades e autonomias de outros povos. Exemplo disso foram as intervenções políticas, econômicas e militares dos EUA nas ditaduras da América Latina durante o período, já que os americanos se colocaram no direito de interferir em seus governos, realizando também inúmeras guerras de procuração. Os mesmos ideais de expansão de valores foram mantidos durante a chamada Doutrina Bush, no início do século XXI, e podem ser vistos até os dias atuais, com os discursos de soberania nacional e superioridade dos americanos sendo proferidos tanto por republicanos quanto por democratas. 

Quer saber mais sobre a Doutrina Bush? Leia em Os EUA e a ruptura do paradigma internacional

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Ditaduras militares na América Latina foram comuns durante a Guerra Fria. Fonte: Guia Ensino.

Dessa forma, a identidade nacional americana foi construída sob um ideal de superioridade e predestinação que foi usado para justificar doutrinas expansionistas que iam de acordo com os interesses americanos. Deixando de lado os valores de republicanismo e liberalismo adotados no pós-independência, os EUA passaram a considerar-se mais dignos que qualquer outro povo e usaram de argumentos raciais para construir uma lógica de supremacia que difundiu-se na mentalidade da população e vigorou no país até o século XX. Atualmente, com o crescimento cada vez mais exacerbado de nacionalismos e discursos expansionistas, podemos perceber que os americanos ainda não abandonaram as crenças que remontam da época do Destino Manifesto, e que as raízes históricas de tantos conflitos não poderiam ser mais atuais. 

Referências

HORSMAN, Reginald. “Race and the Manifest Destiny: Origins of American Racial Anglo-Saxism”. Harvard University Press, 1981.

https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2024/noticia/2024/10/29/o-que-e-destino-manifesto-doutrina-que-faz-eua-se-enxergarem-como-nacao-escolhida.ghtml

https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/marcha-para-oeste.htm

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgrp3x22d7wo

https://www.britannica.com/topic/Homestead-Act

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/27/5-territorios-comprados-pelos-eua-ao-longo-de-sua-historia.ghtml

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/08/07/a-revolta-da-bandeira-do-urso-rebeliao-que-fez-o-mexico-perder-a-california-para-sempre.ghtml

https://www.fflch.usp.br/138881

https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548855461_4579a8463b08f1303c4133bf225d5d58.pdf

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  • Foto-site-LAI-oficial O Destino Manifesto e a Formação dos Estados Unidos

    Estudante de Relações Internacionais da USP e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional (LAI) Bertha Lutz em 2026.

    Áreas de interesse: Organizações Internacionais, Direito Internacional, Direitos Humanos, Ásia Ocidental e África.

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Estudante de Relações Internacionais da USP e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional (LAI) Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Organizações Internacionais, Direito Internacional, Direitos Humanos, Ásia Ocidental e África.