Sionismo: a Última Face do Colonialismo Europeu
Por Cecília Chalela e Vinícius Salum
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Gaza, Netanyahu e o Sionismo: a Destruição como Projeto Contemporâneo
Nas últimas semanas, o exército israelense, apesar da promessa de um cessar-fogo, continuou a bombardear a população e os territórios da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, causando centenas de mortes. Israel também intensificou o cerco a essas regiões, impedindo propositalmente a chegada de ajuda humanitária e privando os palestinos de seus direitos básicos, como demonstra o caso do sequestro dos integrantes da Flotilha da Liberdade.

Embora a mídia ocidental hegemônica frequentemente se refira ao conflito como uma guerra entre Israel e o Hamas, o panorama que se observa na Palestina hoje faz parte de um longo histórico de preconceito, de xenofobia, de imperialismo e de hegemonia do Ocidente sobre o Oriente, e pode ser explicado como mais uma etapa do projeto sionista herdado pelo atual primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Mas o que é, afinal, o sionismo?
Uma Breve História do Antissemitismo
Primeiramente, é importante esclarecer que não se pode definir o sionismo como uma consequência direta e inevitável do antissemitismo. Esse é, na realidade, um argumento frequentemente apresentado pelos sionistas como justificativa ideológica: alegava-se, desde os primórdios da estruturação do movimento, que o repúdio ao povo judeu, o qual se concentrava na Europa mas começava a emigrar para o restante do mundo e para as Américas, era resultado da “anormalidade” da presença dos judeus em territórios que não lhes pertenciam enquanto povo nacional. Ainda assim, é essencial compreender o antissemitismo como um elemento que suscitou, de maneiras diversas, desejos de reversão da situação vivida pelos judeus.
Antes de contar a história do antissemitismo, no entanto, é preciso estar a par de alguns conceitos que a permeiam e que determinam, de certa forma, a perspectiva sob a qual essa história é contada. A palavra “semita”, por exemplo, se refere aos povos que, acredita-se, descendem do filho mais velho de Noé, conhecido como Sime ou Sem. Os povos semitas seriam os antepassados dos israelitas, e pertencem ao mesmo ramo cultural, linguístico e religioso que outros povos do Oriente Próximo, como os hebreus e os árabes. O termo “israelita”, por sua vez, é muito mais amplo, mas consideravelmente menos nebuloso: pode ser utilizado, no português, como um equivalente do gentílico inglês israeli, que delimita a nacionalidade dos cidadãos do moderno Estado de Israel; no imaginário bíblico, se refere aos habitantes do antigo reino de Israel, descendentes do profeta Jacó ou Jacob, ao qual teria sido concedido o nome de Israel por Jeová (Deus para o judaísmo); por último, pode ser empregado como adjetivo que qualifica determinada instituição como pertencente ao Estado de Israel. Já a palavra “judeu” possui duas dimensões: por um lado, do ponto de vista religioso, aplica-se àqueles que praticam oficialmente o judaísmo, independententemente do local de nascimento; por outro lado, do ponto de vista étnico-cultural, designa quem descende dos israelitas. O vocábulo “hebreu” é comumente empregado de forma anacrônica, quando na realidade faz referência ao povo semita nômade originário da região do atual Estado de Israel, bem como à sua língua, sendo mais apropriado para falar do passado do que do presente. Há, ainda, a discussão que envolve o próprio “judaísmo”: quando se fala nele, pretende-se aludir a um povo, a uma nação, a uma religião ou a todos ao mesmo tempo? Não há uma única resposta para a pergunta, que foi adereçada em diferentes períodos históricos e por concepções políticas diferentes, variedades que serão exploradas ao longo do artigo.
O antissemitismo, a nível básico, se trata da discriminação de caráter étnico-racial contra judeus – no sentido abrangente da palavra -, considerando-os como um grupo inferior e não digno de pertencer a outras nações que não seu lugar de origem. Essa crença existe entre pessoas de todo o espectro ideológico, contextos e religiões. Na atualidade, existe ampla aceitação de que tal discriminação, apesar da etimologia da palavra, não se estende aos demais falantes de línguas semitas – não obstante já se tenha servido do termo nesse sentido -, assim como não se restringe aos judeus falantes do hebraico. No campo acadêmico, essa possível confusão levou a questionamentos do próprio uso do hífen entre as unidades “anti” e “semitismo”. A título de exemplificação, Emil Fackenheim, professor de filosofia da Universidade de Toronto e rabino reformista – o qual aderiu ao sionismo em 1967 -, defendeu fervorosamente a supressão do hífen para “repelir a noção de que há todo um ‘semitismo’ ao qual o ‘antissemitismo’ se opõe”.
Essa forma de preconceito, embora só tenha se transformado de fato em uma política oficial de Estado no período entreguerras do século XX, já estava presente na Europa – onde judeus eram uma minoria – muito antes, tendo o cristianismo ocupado sua centralidade durante séculos.
Junto do cristianismo e do islamismo, o judaísmo é uma das três grandes religiões monoteístas, sendo a mais antiga delas. Assim, os primeiros adeptos do cristianismo acreditavam que os cristãos haviam substituído os judeus como o povo escolhido de Deus. A principal razão para isso era a não aceitação de Jesus como messia por este último grupo. A partir de então, uma série de ideias anti-judaicas foram desenvolvidas ou englobadas pelos ensinamentos do cristianismo em seu primeiro milênio, culminando nas bases do antissemitismo. Dentre elas, estão: as concepções de que os judeus eram aliados do Diabo, de que eram responsáveis pela crucificação de Cristo e de que a destruição do Templo pelos romanos fora uma punição divina resultante da resistência judaica em abdicar de sua religião; a personificação do estereótipo do judeu traidor e pouco confiável na figura de Judas Iscariotes; as acusações de “libelo de sangue”, isto é, de que os judeus promoviam o sacrifício ritualístico de crianças cristãs.

Nos séculos X e XI, à medida que a Europa se tornava um continente cristão e que a dimensão religiosa tomava conta tanto da vida pública quanto da vida privada, o preconceito se intensificou. Com o sucesso da conversão dos “povos bárbaros”, o judaísmo era uma das poucas, senão a única religião alternativa que ainda sobrevivia em território europeu, mas mesmo a conversão de judeus ao cristianismo era vista com desconfiança. Isso se deu graças ao duplo aspecto militar e espiritual das Cruzadas, à Cisma do Oriente de 1056 – separação definitiva entre o catolicismo romano e a ortodoxia grega – e às ondas de invasões muçulmanas, que puseram os cristãos católicos em uma posição de constante enfrentamento à perda de influência para outras crenças.
Esse antissemitismo teológico atingiu seu ápice na Idade Média, período no qual as práticas conhecidas como pogroms – as quais consistiam em ataques planejados contra a população judaica – se tornaram mais frequentes, em especial dadas as catástrofes que assolavam a humanidade, como a peste bubônica do século XIV, pela qual os judeus foram popularmente culpados. Alguns desses ataques foram verdadeiros massacres, como a chacina de 1066 em Granada, a Cruzada Alemã de 1096 e o Édito de Expulsão da Inglaterra de 1290. Como demonstrado pelo Decreto de Alhambra de 1492 – no qual os reis católicos determinavam a expulsão e a posse dos bens dos judeus praticantes -, a Inquisição passou a promover uma perseguição mais sistemática dos judeus europeus.

Em seguida, as instituições cristãs, fossem católicas ou ortodoxas, decidiram pelo banimento da usura – empréstimo de dinheiro com juros excessivamente altos -, prática comum entre os judeus da época perante a dificuldade encontrada para desempenhar outras funções. Dessa forma, os judeus vieram a se estabelecer como grupo que atuava como prestamista – uma profissão de má reputação – para a maioria cristã, até que, no começo da era moderna, foram incentivados pelos aristocratas e pelos governantes a exercer tarefas comerciais e administrativas, pelas quais a nobreza não nutria apreço e tampouco inclinação.
Um exemplo cultural claro é o personagem Shylock, um judeu veneziano e “vilão” da comédia de Shakespeare intitulada “O Mercador de Veneza”, de 1600 – ainda se discute se o autor era realmente antissemita, ou se meramente decidiu explorar o antissemitismo como tema em uma de suas peças. O judaísmo de Shylock é declarado abertamente por ele mesmo na primeira cena do terceiro ato, na qual ele diz: “Eu sou judeu. Não tem olhos um judeu? Não tem um judeu mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afeições, paixões? Alimentado com a mesma comida, ferido com as mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e resfriado pelos mesmos inverno e verão, tal como é um cristão?”.
De qualquer maneira, Shylock, que é um prestamista egoísta e amargurado, empresta dinheiro ao mercador Antonio sob a condição de que este lhe conceda uma libra de sua própria carne, caso não seja capaz de pagá-lo até o prazo combinado. O motivo do empréstimo é Bassanio, membro da pequena nobreza de Veneza e amigo de Antonio, que necessita de dinheiro para cortejar Portia. Em suma, o que aqui nos interessa é que Shylock é constantemente adereçado com desdém pelos venezianos cristãos, mesmo em sua posição relativamente vantajosa de credor. Sua própria filha o deserda, fugindo para se casar com um cristão e abandonando sua origem judaica. No final da peça, ainda, Antonio se vê incapaz de pagar a dívida, porque perdeu todos os seus navios em um naufrágio, e o caso é levado à justiça. Decide-se, então, enganar Shylock: o acordo determinava que era direito do judeu, única e exclusivamente, uma libra da carne de Antonio, de modo que a carne deveria ser retirada sem que uma gota sequer de sangue fosse derramada. Diante da impossibilidade da tarefa, Shylock é acusado de conspirar contra um cidadão cristão veneziano, e sua pena é o confisco de sua fortuna, a não ser que ele aceite se converter ao cristianismo, caso no qual lhe será permitido manter metade de seus bens.
Com o decorrer do tempo, outras profissões foram designadas ou permitidas aos judeus da Europa Ocidental. Eles agora se ocupavam do comércio, do fornecimento, da manufatura, das finanças, do jornalismo, da arte, da música, da literatura e do próprio teatro. Algumas famílias judias prosperaram – poucas, quando comparadas ao número total de famílias judaicas residentes na Europa -, enquanto a maioria se mantinha na pobreza extrema.
A situação na Europa Central e na Europa Oriental era mais parecida com essa última: os judeus eram proibidos de possuir terras, de integrar o serviço militar ou de prestar qualquer serviço burocrático ao Estado – postos considerados bastante nobres -, a menos que se convertessem ao cristianismo, o que não era uma garantia de plena inserção social.
O movimento Iluminista foi um propulsor de modificações nas ideias antissemitas, principalmente devido à descentralização progressiva da religião em relação à vida civil. Novos parâmetros culturais, políticos e intelectuais começavam a surgir. Esse processo se estendeu ao longo do século XIX, à medida que as nações europeias estabeleciam, ao menos em termos constitucionais, o princípio da igualdade perante a lei, de modo que as restrições legais à ocupação laboral e à residência dos judeus foram abolidas. Isso não quer dizer, todavia, que o antissemitismo deixou de existir, e sim que ele se reformulou: ele agora assumia a forma de um antissemitismo secular, político, social e amplamente determinado por aspectos econômicos, e os fatores religiosos não passavam de um pano de fundo.
Entre 1837 e 1839, nos deparamos com outro caso marcante de representação desse novo antissemitismo na literatura: trata-se de Fagin, no “Oliver Twist” de Charles Dickens. Ao longo do romance, o antagonista Fagin é inúmeras vezes referido simplesmente como “o judeu”, ou como “receptor de bens roubados”, visto que sua principal ocupação é ensinar crinças órfãs a roubar.
De fato, o ódio se direcionava à ocupação, por judeus, de lugares antes destinados exclusivamente aos cristãos – somavam-se aos citados anteriormente a direção de bancos e da indústria, o direito e a medicina -, em especial quando muitos viam-se incapazes de acompanhar as rápidas mudanças nos meios de subsistência ocasionadas pela Revolução Industrial.
Outro fator crucial somou ao antissemitismo: a considerável aderência de judeus a movimentos políticos progressistas, e particularmente ao comunismo, sendo o próprio Karl Marx um judeu. Em 1843, inclusive, Marx adereçou diretamente a situação dos judeus na obra polêmica “Sobre a questão judaica”, argumentando contra a tese do não judeu Bruno Bauer de que os avanços instaurados após a Revolução Francesa permitiriam a emancipação política e, a partir daí, a emancipação total, dos judeus. Embora o termo só fosse ser cunhado muito depois, por Abraham Léon, era o começo do tratamento da questão judaica como um problema de “povo-classe”. Muitos acusaram o próprio Marx de ser antissemita.
No último quarto do século XIX, outra expressão do antissemitismo passou a existir: a científica. Na Europa, o cientificismo e o Darwinismo Social estavam em seu ápice, e isso fez com que a “raça judia” passasse a integrar o rol daquelas inferiores à “raça branca”, condição de inferioridade que tentou-se explicar fazendo uso das novas noções de psicologia e de genética. Basicamente, as alegações consistiam em argumentar que o comportamento dos judeus – ou seja, o estereótipo judeu – era inerente a questões biológicas hereditárias e, logo, imutável. A pseudociência da eugenia racial, por sua vez, defendia a ideia de que faziam parte de uma conspiração judaica o casamento e a reprodução com membros da “raça superior”, o que provocaria seu subsequente enfraquecimento genético e abriria caminho para a dominação do mundo pelos judeus. Dois dos expoentes dessa teoria foram os austríacos Georg von Schönerer (1842-1921) e Karl Lüger (1844-1910).
Entre 1894 e 1906, o hemisfério ocidental assistiu ao desenrolar do que provavelmente é o caso individual mais famoso de antissemitismo: o caso Dreyfus. Essa crise política da Terceira República francesa revolveu em torno da acusação feita ao oficial judeu Alfred Dreyfus, que teria vendido segredos militares aos alemães. O rebuliço foi noticiado majoritariamente por jornais antissemitas da época – dentre eles o La Libre Parole -, mas não havia, no entanto, qualquer prova da culpa do réu. Pelo contrário, foram descobertas informações que corroboravam a culpabilidade de outro membro do exército, o oficial Ferdinand Walsin-Esterhazy. Tais informações incentivaram o crescimento do movimento pró-Dreyfus, que antes se restringia a seus familiares e amigos, angariando o apoio de jornalistas, políticos e intelectuais. Um deles foi o ilustre escritor Émile Zola, por meio da carta intitulada “J’accuse”.

Assim, em 1898, Esterhazy foi julgado e condenado por traição pela corte marcial, mas ainda não havia consenso entre a sociedade francesa, dividida superficialmente entre os contrários e os favoráveis a Alfred Dreyfus, tendo estes últimos o interesse adicional de republicanizar o exército, subordinando-o ao parlamento. De fato, entre a década de 1880 e o final do século XIX, pode-se dizer que foi vivenciado o princípio do conhecido fenômeno de magnificação e de apropriação do antissemitismo pelas alas da direita (na França, até então, ele fora uma tendência relativamente fraca que partira majoritariamente da esquerda). Em agosto de 1899, foi encontrado um documento que incriminava fortemente o major Hubert-Joseph Henry de forjar a acusação de Dreyfus.
Concomitantemente, a repercussão do caso era uma fonte cada vez maior de preocupações para a Câmara dos Deputados. Os nacionalistas antissemitas ameaçavam a integridade do regime parlamentar, e uma coalizão de esquerda se formou, em 1899, para contrapô-los em prol da República e do ajuste judicial do caso Dreyfus. Os enfrentamentos eram tão acirrados que, quando Dreyfus foi condenado pela corte marcial de Rennes no mesmo ano, o próprio presidente o perdoou. O exército não reconheceu sua inocência até 1995.
No extremo da Europa Oriental, ou na porção ocidental do Império tsarista, as condições de vida dos judeus ao anoitecer do século eram, talvez, as piores. A maior concentração de judeus europeus residia nas atuais Lituânia, Ucrânia, Bielorrúsia e Polônia e, lá, as leis opressoras persistiam. Nem mesmo a proletarização, que levara à criação de organizações de trabalhadores judeus como o Bund, alcançara esses lugares remotos. A miséria, somada à adoção do antissemitismo como verdadeira política de Estado pelo Tsar, levou uma parcela considerável dessa população a migrar para os Estados Unidos. Esse panorama se reverteu quase por completo com a Revolução de 1917, sendo Lênin e Trotsky grandes opositores do antissemitismo. Alguns anos antes, Rosa Luxemburgo já detectara, na Europa Central, o antissemitismo não como mero resquício religioso medieval, mas sim como sintoma do capitalismo.
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, uma nova onda de antissemitismo, agora amplamente consolidado na direita política, se alastrou pela Europa. No lado perdedor, com destaque para a Alemanha e para a Áustria, a derrota, encarada com incredulidade, precisou ser atribuída a “inimigos internos”, espectros maléficos que assumiram a forma dos judeus e dos comunistas. Essa lenda foi bastante disseminada entre a população, e sustentada pelo envergonhado exército alemão. Havia, além disso, o medo dos “vermelhos”, sendo muitos dos líderes revolucionários de ascendência judaica. Outras alegações incluíam a exploração, pelos judeus, da pobreza gerada pela guerra, bem como um grande plano de enfraquecer as nações e de arruinar a Europa, assumindo o poder.
Esses novos estereótipos ganhariam força, até que, em meio aos desfechos catastróficos da Grande Depressão de 1929, o Partido Nazista se popularizou mediante a apresentação dos judeus como a fonte primária de uma sorte de problemas econômicos, políticos, sociais e morais enfrentados pelos alemães. Assumindo oficialmente o poder em 1933, o partido, liderado por Adolf Hitler, passou a perpetrar e incentivar atos violentos contra a população judia, tais como boicotes, queimas de livros, legislações anti-judaicas e episódios como a infame Noite dos Cristais (Kristallnacht), na qual as vidraças de lojas pertencentes a judeus foram quebradas, deixando algumas vítimas. Os elementos simbólicos também desempenhavam um papel crucial no apelo popular de Hitler. Por toda parte, em cartazes e no cinema, judeus eram representados de forma caricata, com grandes narizes e olhares traiçoeiros. Para fins de identificação, de humilhação e de punição, todos os indivíduos de origem judaica eram obrigados a levar consigo, a todos os momentos, uma Estrela de Davi amarela com a palavra “Jude” em seu centro.

Em 1939, a Segunda Guerra teria início. Dois anos depois, em 1941, Hitler ordenaria o encaminhamento da Solução Final, da qual trataremos adiante.
Por fim, o que se pode depreender dessa incursão histórica é o fato de que o antissemitismo não justifica a existência do sionismo, mas que isso tampouco significa que não haja qualquer relação entre ambos – pelo contrário, essas duas correntes estão fundamentalmente interligadas, como veremos agora.
O Sionismo Antes de Theodor Herzl
A etimologia do termo sionismo remete ao Monte Sião, localizado em Jerusalém, onde, segundo a tradição, situava-se o Templo de Salomão. Além disso, “Sião” se tornou uma expressão simbólica para designar toda a Terra Prometida de Israel, frequentemente evocada com base em argumentos religiosos que, ao longo do tempo, foram utilizados para legitimar a ocupação colonial.
De forma geral, o movimento sionista emerge a partir de dois principais impulsos. O primeiro está ligado à busca por segurança diante do crescente antissemitismo na Europa, que recusava-se a integrar os judeus. Um exemplo emblemático dessa exclusão é o do pai de Karl Marx, que precisou se converter ao cristianismo para poder exercer sua atividade profissional. O segundo impulso era o de emular os movimentos nacionalistas europeus surgidos posteriormente à Primavera dos Povos, despertando o gradual interesse, entre os intelectuais judeus, de constituir uma nação própria.Nesse sentido, as raízes históricas do sionismo remontam ao século XVIII, com o surgimento do Iluminismo Judaico, ou Haskalá – um movimento intelectual que floresceu entre os judeus europeus e buscava conciliar as tradições e crenças do judaísmo com ciência, literatura, filosofia e política, incentivando a integração dessa comunidade nas diferentes esferas sociais do continente.

No entanto, ao promover uma cultura judaica mais secular, esse movimento também abriu espaço para a redefinição do judaísmo como uma identidade nacional. Nesse contexto, surgiu a proposta de colonizar a Palestina – partindo da concepção de que os hebreus haviam sido expulsos da região pelo Império Romano em 70 d.C. – com o objetivo de formar colônias agrícolas. Essa proposta ganhava força diante das restrições enfrentadas pelos povos semitas em muitas regiões da Europa, onde muitas vezes lhes era proibido adquirir terras. Por esse motivo, a Haskalá é considerada pelos sionistas modernos como precursora do sionismo, uma vez que já manifestava elementos de um pensamento nacionalista voltado para a construção de um Estado judeu.
Outro momento histórico que impulsionou a disseminação das ideias sionistas se relaciona ao assassinato do czar Alexandre II da Rússia, em 1881, pelos Narodniks – ou populistas russos -, causando um grande pogrom, visto que os judeus eram acusados de estar por trás das políticas progressistas do czar e por propagar a ideologia socialista. Foi nesse momento que muitos deles fugiram para os Estados Unidos.
Em resposta aos frequentes e violentos pogroms, foram fundadas, na Europa Oriental, organizações protossionistas, como os Amantes do Sião, levando à Primeira Aliá (1882-1904) – onda de imigração em massa de judeus para a Palestina. Assim, o sionismo começou a adquirir as características coloniais indissociáveis à sua existência até a hodiernidade.
Theodor Herzl e o Sionismo como Movimento Político
O principal fundador do sionismo na forma de um movimento político foi Theodor Herzl (1860-1904). Nascido em uma família judaica em Peste, no então Império Austríaco (território atualmente pertencente à Hungria), Herzl trabalhou como dramaturgo, advogado, escritor e político. A partir de 1890, passou a dedicar-se ao jornalismo, voltando sua atenção à chamada “questão judaica”, e especialmente ao problema da assimilação dos judeus na Europa.

Como mencionado anteriormente, em 1894 ocorre o Caso Dreyfus, um divisor de águas na formulação da ideologia política de Herzl. Isso decorre do fato do caso de antissemitismo apresentado fazer com que ele acreditasse que era impossível assimilar os judeus na Europa – como propunham outros teóricos semitas. Assim, segundo sua concepção, só haveria uma única solução para as comunidades judaicas: buscar uma nova vida no Sião.
Para difundir sua ideologia, Herzl organiza o Primeiro Congresso Sionista – com a adesão de intelectuais judeus -, ocorrido em 1897 na Basileia, na Suíça. Então, é criado o Programa da Basileia, considerado o texto fundador do movimento, que afirmava que “o sionismo aspira estabelecer um lar na Palestina para o povo judaico, assegurado pela lei internacional”.
Dessa forma, é importante destacar que, apesar do termo “sionismo” não ter sido inventado por Herzl, ele virou o sinônimo de seu pensamento. A partir desse momento, fica evidente que o sionismo passou a ser notavelmente uma ideologia colonial europeia e que utilizava a concepção de res nullius, ou “terra de ninguém”, para legitimar a ideia de “uma terra sem povo para um povo sem terra”, ignorando os habitantes palestinos que lá estavam há séculos.
Ademais, suas origens, como foi demonstrado anteriormente, não estão relacionadas à religião, e sim atreladas à transformação de uma etnia e de pessoas que professavam determinada fé em uma identidade nacional, para fins políticos e ideológicos. Para corroborar essa narrativa, é válido salientar que o pensamento de Herzl era de ordem fundamentalmente laica – ou secular – e inspirado, majoritariamente, em modelos europeus de moral e filosofia herdados do Iluminismo Judaico, tendo apenas seus sucessores utilizado o argumento religioso para reivindicar o direito àquela terra. Nesse sentido, o ideólogo escreveu um romance utópico denominado “A Velha Nova Terra”, em que ele idealizava a terra de Israel como uma terra de judeus seculares.
Além disso, outra forma de argumentar que Herzl não utiliza de prerrogativas religiosas para formular a teoria sionista é o fato de ele cogitar outras regiões do planeta para a criação do Estado judeu, como Uganda, Argentina, Estados Unidos e Azerbaijão, demonstrando novamente que não havia a concepção dominante da existência de uma Terra Prometida legítima dos povos hebraicos até a primeira metade do século XX. Assim, é comprovado que o movimento político fundamentado pelo jornalista não se inspirava na escritura sagrada, mas sim em referências históricas, como o Reino de Salomão e a República de Asmoneus, além de seu próprio momento histórico de formação dos Estados nacionais na Europa a partir do forjamento de identidades.
Outro ponto relevante tem relação com o fato do sionismo ter sido, em um primeiro momento, imediatamente recusado de forma geral na Europa Ocidental. Os judeus ortodoxos acusavam-no de heresia e secularização, enquanto os intelectuais judeus seculares afirmavam que ele iria agravar o antissemitismo, pois, ao defender que os povos semitas nunca conseguiriam ser assimilados no corpo social e, por isso, teriam que ir para a terra de Israel, faria com que esse discurso legitimasse a violência praticada pelas nações marcadas pelo preconceito étnico-religioso. Dessa forma, pelos princípios que levaram à fundação da corrente política sionista, é fácil refutar o argumento de que o antissionismo é motivado pelo antissemitismo.
Os intelectuais judeus seculares mencionados previamente estavam certos, visto que houve uma adesão significativa dos antissemitas ao movimento sionista, algo confirmado pelo próprio Herzl no seguinte trecho de sua obra Briefe und Tagebücher: “Os antissemitas tiveram razão. Podemos concedê-la a eles; também nós seremos felizes. Dá-se razão a eles porque eles têm razão. Não podiam deixar-se submeter por nós no Exército, na administração, em qualquer ramo do comércio, como agradecimento pelo fato de terem nos libertado generosamente do gueto. Nunca devemos esquecer essa ação magnânima dos povos civilizados”. Para o autor, os antissemitas tinham razão porque estes chegaram à mesma conclusão que ele: os judeus não tinham as condições e nem a capacidade de se integrar à sociedade europeia.
Outra prova de que os sionistas concordavam com Herzl é que Édouard Drummond – fundador do jornal antissemita La Libre Parole, que repudiava judeus e Dreyfus -, encontrou Herzl pessoalmente e escreveu uma resenha muito positiva de seu livro, O Estado Judeu, pois, segundo Drummond, todos os judeus deveriam migrar para a Palestina.
Tudo isso mostra que o sionismo é linha auxiliar do antissemitismo, já que ambos concluem que o judeu deve ser segregado porque sua assimilação é impossível. Outros trechos de Herzl nas obras Briefe und Tagebücher e Zionistische Schriften, respectivamente, que confirmam o caráter racista da fundamentação sionista que deu origem ao Estado de Israel em 1948, serão citados a seguir:
“A maior parte dos judeus não é mais oriental; como representantes da civilização ocidental, queremos levar limpeza, ordem e costumes iluminados do Ocidente a esse canto agora infecto e desolado do Oriente, a esse canto doente”. O trecho mostra a tentativa do autor de convencer os líderes europeus de que as Aliás eram vantajosas porque, como foi reafirmado por Lucien Rebatet (1903-1972) em 1967, “a causa de Israel é a causa de todos os ocidentais”. Outra prerrogativa utilizada para angariar apoio ocidental foi afirmar que a colonização de Eretz Israel iria frear o socialismo – em um contexto de medo generalizado devido ao que aconteceu em experiências como a Comuna de Paris – na medida em que haveria uma exportação em massa de proletários judeus que perderiam seus ideais revolucionários ao encontrar ordem e civilização na nação judaica.
Outro trecho que demonstra o apelo de Herzl por um apoio europeu, mais especificamente, nesse caso, o britânico: “os grandes políticos do vosso país foram os primeiros a reconhecer a necessidade da expansão colonial. Por isso tremula em todos os mares a bandeira de uma Grã-Bretanha ainda maior. […] Em benefício da Europa, edificaremos lá uma trincheira contra a Ásia, representaremos o posto alcançado da civilização contra a barbárie”.
É relevante reiterar novamente que Herzl possuía ideais racistas e eugenistas, transpassando seus preconceitos na ideologia política sionista ressignificada por ele. O político via com maus olhos o matrimônio misto e a mistura racial entre os judeus e não judeus – uma vez que isso levaria à decadência judaica e à perda de sua identidade étnica. Um ponto relevante de se destacar é que, quando o Estado de Israel foi fundado, havia uma lei que proibia o casamento entre judeus e não judeus, algo irônico ao considerar que, na Alemanha Nazista, judeus eram proibidos por lei de ter relações sexuais com alemães, sendo mais um ponto em comum entre antissemitas e sionistas.
Por fim, é inegável que o sionismo se modificou no período posterior à morte de Theodor Herzl, especialmente por ter sido acrescentado à sua teoria um viés sagrado, sendo suas características citadas por Hannah Arendt: “ultranacionalismo, superioridade racial e misticismo religioso”.
Repercussões do Sionismo na Palestina: da Primeira Aliá à Nakba
Agora que a teoria política sionista foi delineada, é possível compreender suas aplicações práticas, sobretudo em relação à Palestina e aos seus habitantes nativos. Para isso, faz-se necessário retomar o período da Primeira Aliá, iniciada em 1882, momento em que os primeiros imigrantes judeus chegaram à Palestina, então parte do Império Otomano. A lógica sionista pressupunha que os árabes que habitavam a região eram invasores de uma terra que, segundo a narrativa do “retorno”, pertenceria exclusivamente ao povo judeu – uma leitura que ignorava a presença contínua de populações palestinas naquele território há séculos, ainda que a Palestina não fosse formalmente um Estado-nação moderno.
Apesar dessa narrativa de exclusividade territorial, a recepção dos primeiros judeus imigrantes foi, inicialmente, pacífica. Os árabes da Palestina acolheram esses recém-chegados, ensinando, inclusive, suas práticas de cultivo da terra para aqueles que vinham, majoritariamente, de contextos urbanos europeus. Contudo, com o tempo, os nativos passaram a perceber que o projeto sionista não visava a integração e assimilação judaica naquela região, mas sim a substituição da população local e a construção de uma nova sociedade baseada em uma identidade nacional judaica. Tal percepção levou à formação de uma resistência árabe incipiente.
Mesmo com o Império Otomano proibindo fortemente a imigração judaica após o início da Primeira Aliá, tal proibição teve pouca efetividade prática. Isso decorreu do fato de que as migrações passaram a contar com o apoio crescente do Reino Unido, que já demonstrava interesse estratégico na região. Percebendo a decadência otomana e o fortalecimento do imperialismo britânico, os sionistas aliaram-se ao Reino Unido, vislumbrando neles os aliados necessários para viabilizar a fundação de um futuro Estado judeu. Foi nesse contexto que figuras influentes, como o Barão de Rothschild, desempenharam papel central, financiando a compra de terras de chefes árabes a preços muito acima do valor de mercado. Estima-se que, nesse período, vinte e cinco mil judeus tenham se estabelecido na Palestina.
Durante a Segunda Aliá (1904-1914), esse número aumentou com a chegada de aproximadamente trinta e cinco mil judeus. Nesse período, emergiu o modelo dos kibbutzim, comunidades agrícolas coletivas que se tornaram símbolo da colonização sionista. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se um modelo fundiário desigual, com latifúndios judaicos empregando mão de obra palestina em condições análogas à escravidão. Essa fase também marca a fundação de Tel Aviv, financiada pelo Fundo Nacional Judaico, consolidando a presença urbana sionista no território.

A intensificação da imigração judaica e a crescente organização do movimento sionista despertaram uma reação das elites árabes locais, que começaram a articular um nacionalismo palestino. Inicialmente, esse nacionalismo era limitado às elites urbanas, muitas vezes associadas ao próprio Império Otomano, de quem recebiam benefícios. A nova geração dessas elites, formada nas escolas de missionários europeus, teve contato com os ideais ocidentais de Estado-nação e passou a se apropriar deles como instrumento de resistência ao nacionalismo colonialista judaico que se impunha sobre a Palestina.
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), a Palestina tornou-se um campo de batalha estratégico. Tanto sionistas quanto árabes participaram de ações militares contra o Império Otomano. Os sionistas, porém, foram mais bem-sucedidos em garantir alianças. Criaram estruturas de inteligência e defesa militar, que futuramente serviriam de embrião para as forças armadas israelenses. Durante a guerra, os britânicos passaram a prometer o território da Palestina simultaneamente aos árabes e aos judeus – uma política ambígua e deliberadamente contraditória, voltada à maximização de apoio político e militar.
Foi nesse contexto que se insere a Declaração de Balfour, emitida em 1917, na qual o governo britânico se compromete a apoiar a criação de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina, desde que isso não prejudicasse os “direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes”. Essa formulação, apesar de apresentar uma aparência de equilíbrio, era profundamente injusta com a população palestina, que já habitava aquele território. Não havia “direitos a serem garantidos” – havia uma presença já consolidada, que agora passava a ser posta em questão por uma imigração recente, respaldada pelo império britânico.
A motivação britânica para apoiar o sionismo era múltipla: por um lado, havia elementos de antissemitismo institucional, pois viam os judeus europeus como um povo útil, mas deslocado e, portanto, que deveria ser “realocado”. Por outro lado, havia um cálculo estratégico: ao apoiar a colonização judaica, o Reino Unido estabelecia uma presença ocidental estável no Oriente Médio, fortalecendo sua hegemonia. Além disso, circulavam ideias conspiratórias, como a do “Judeu Internacional”, que pressupunha uma suposta influência desproporcional dos judeus nos assuntos globais – influência que os britânicos buscavam atrair para seus interesses.
Com o fim da guerra, em 1919, é criada a Liga das Nações, que, em 1920, concede ao Reino Unido o mandato sobre a Palestina. Nesse momento, o território contava com uma população composta por cerca de 650 mil muçulmanos (82%), 80 mil cristãos (10%) e 60 mil judeus (7%). O mandato britânico desenhou as fronteiras que ainda hoje marcam os contornos de Israel, Cisjordânia e Gaza.
Desde o início da ocupação britânica, diferentes potências disputavam influência sobre a Palestina: França, Jordânia, Síria, sionistas e britânicos, além das elites palestinas nacionalistas. Em 1918, os sionistas, liderados por Chaim Weizmann, fundam a Comissão Sionista para a Palestina, que funcionava como ponte entre o movimento na Europa e as ações práticas no território, como a criação de grupos de trabalho responsáveis por ir à Palestina, estudá-la e encontrar os melhores caminhos para fundar um Estado. Em resposta, naquele mesmo ano, as elites árabes fundaram as Associações Cristã-Muçulmanas, que exigiam a revogação da Declaração de Balfour, o fim da imigração judaica em massa e a independência da Palestina. Mais uma vez, o nacionalismo palestino permanecia limitado às elites urbanas e incapaz de se transformar em um movimento de massas.
O primeiro conflito popular ocorreu em 1920, nos motins de Nebi Musa, em Jerusalém, após discursos antissionistas em um festival religioso. Ocorreram confrontos entre judeus e árabes, deixando mortos de ambos os lados. Os britânicos intervieram, tentando manter a estabilidade colonial, e culparam figuras como Amin al-Husseini (do lado árabe) e Ze’ev Jabotinsky (do lado judeu).
É a partir daí que surge o sionismo revisionista, liderado por Jabotinsky, após a morte de Herzl. Esse movimento de extrema direita criticava o projeto de Estado judeu proposto por Weizmann, acusando-o de submisso aos interesses britânicos. Os revisionistas defendiam a construção da “Grande Israel” por meio da luta armada e do expansionismo militar. Em 1925, Jabotinsky funda o Hatzohar, organização de sionistas revisionistas que daria origem ao partido Likud – também de extrema direita -, o qual viria a ser liderado, décadas depois, por figuras como Benjamin Netanyahu.
Durante o mandato britânico, os interesses econômicos também se aprofundaram. Os britânicos passaram a extrair petróleo em regiões como Haifa e a controlar a exportação de laranjas, que era uma das principais fontes de renda da economia palestina. Politicamente, tratava-se de uma colônia excepcional: era a única onde o Reino Unido não promovia eleições, nem mesmo manipuladas, pois temia que a esmagadora maioria árabe – quase 90% da população – inviabilizasse o cumprimento da Declaração de Balfour. Em vez disso, foi criado um sistema de conselhos com eleição indireta, conferindo poder desproporcional à minoria judaica.
Após os motins de 1920, os judeus fundaram o Haganá – do hebraico “defesa” -, principal grupo paramilitar sionista e embrião das futuras Forças de Defesa de Israel (IDF). Ao longo da década, a imigração judaica se intensificou, mas o nacionalismo palestino seguia fragmentado: as zonas rurais estavam sob domínio de famílias tradicionais, e as elites urbanas não conseguiam unificá-las em torno de um projeto comum. Enquanto isso, o sionismo consolidava sua presença urbana e cultural – com a criação de certo código de cultura judaico-ocidental que visava purgar a comunidade judaica da Palestina de qualquer traço médio-oriental -, com a criação de instituições e símbolos próprios.
Em 1923, ocorreu a segregação do sistema educacional. Antes, as escolas cristãs missionárias controladas pelos britânicos eram o único acesso à educação formal, voltadas à elite árabe. A partir dessa data, os judeus receberam autorização para estabelecer um sistema educacional próprio, por serem considerados “maduros” o suficiente visto que eram europeus. Como observa Aimé Césaire, no olhar colonial, o colonizado é sempre uma criança – ao reconhecer os judeus como “maduros”, o Império implicitamente reforçava a imagem do árabe como “imaturo” e, portanto, como incapaz de se autogovernar. Em poucos anos, até o início da década de 1930, esse sistema educacional sionista consolidou-se com três vertentes: ortodoxa, agrícola e nacional. A revitalização do hebraico, até então uma língua quase morta, foi central para a construção de uma identidade nacional judaica, pois uma língua comum é fundamental para o forjamento de um sentimento de pertencimento a uma nação. Nas escolas, a ideologia sionista era difundida desde cedo, ensinando às crianças que aquela terra lhes pertencia por direito, e que estavam ali para civilizar um território “em atraso”.
Até o final da década de 1920, o nacionalismo sionista havia se institucionalizado e se legitimando diante dos judeus da diáspora como projeto viável de retorno e construção estatal. Em contraste, o nacionalismo palestino, restrito e elitista, não conseguia ainda traduzir o descontentamento popular em uma mobilização de massas.
A correlação de forças entre sionistas, árabes e britânicos ao longo das décadas de 1920 e 1930 foi determinante para os desdobramentos que culminaram na tragédia da Nakba, que será aprofundada a seguir. Pressionados pela resistência árabe crescente, que denunciava a usurpação territorial e a marginalização política, pela primeira vez, setores não revisionistas do movimento sionista passaram, em 1928, a propor a partilha da Palestina em duas nações separadas – uma proposta que representava uma tentativa de acomodação diante da crescente oposição árabe.
Em 1929, a fundação da Agência Judaica em Jerusalém institucionalizou uma administração paralela ao mandato britânico, dividida em quatro departamentos: Relações Exteriores, Educação, Segurança e Aliá. Essa estrutura, praticamente autônoma, funcionava como um embrião do futuro Estado de Israel, operando sem interferência direta dos britânicos. No mesmo ano, as tensões se intensificaram com manifestações como uma marcha revisionista cujo objetivo era o de reivindicar o Muro das Lamentações, sendo um símbolo do expansionismo sionista de extrema direita.
Diante da escalada da violência, o governo britânico instaurou a Comissão Shaw, em 1930, para investigar as causas do conflito. O relatório concluiu que as tensões não eram fundamentalmente religiosas ou étnicas, mas políticas e econômicas: a compra de terras pelos sionistas expulsava os camponeses árabes, que perdiam suas terras de subsistência, tornando-se desempregados e assalariados, relegados a viver em periferias urbanas e provocando, assim, revoltas sociais. A comissão recomendou a limitação da imigração judaica e da transferência de terras para preservar a estabilidade, mas tais recomendações nunca foram efetivamente implementadas.
Em reação à crescente pressão e perda de terras, surgiram grupos de resistência organizada, como o liderado por Izz al-Din al-Qassam, que formou a chamada “Mão Negra”, responsável por ações de guerrilha. Importante destacar que, apesar da repressão britânica severa, o objetivo desses grupos não era a criação de um Estado nacional palestino, mas sim a recuperação das terras perdidas. Em 1936, a elite urbana árabe fundou a Alta Comissão Árabe, que buscava canalizar a resistência em direção a demandas políticas, incluindo o fim da imigração judaica, a proibição da transferência de terras para judeus e a criação de um Governo Nacional representativo.
O mesmo ano foi marcado por greves gerais convocadas pela Alta Comissão, que se transformaram em confrontos armados. O governo britânico respondeu com extrema violência: enviou milhares de tropas ao território e iniciou uma campanha de repressão que incluía prisões em massa, torturas, execuções sumárias e punições coletivas. Vilarejos inteiros eram cercados e atacados; casas eram demolidas ou incendiadas como forma de retaliação. Um episódio particularmente simbólico da brutalidade colonial consistia na invasão de residências árabes por soldados britânicos, que destruíam utensílios domésticos e misturavam deliberadamente os mantimentos das famílias – como açúcar com óleo ou farinha com querosene -, tornando-os impróprios para o consumo. Essa prática visava não apenas castigar a população civil, mas também humilhá-la e privá-la do básico para a sobrevivência. Em Jaffa, cerca de duzentas casas foram demolidas como forma de punição coletiva, deslocando milhares de pessoas e agravando a miséria generalizada. De 1936 a 1937, mais de mil palestinos foram mortos pelos britânicos, e a Alta Comissão Árabe foi dissolvida, com suas principais lideranças sendo presas ou exiladas.
Reconhecendo a insustentabilidade do mandato diante da instabilidade crescente, especialmente por conta da resistência árabe ao colonialismo, os britânicos instituíram a Comissão Peel, em 1936, que propôs a divisão da Palestina em dois Estados – um judeu e outro árabe – e a retirada britânica. Contudo, essa solução não foi aceita pelos árabes, que recusavam a formação de um Estado sionista sobre suas terras ancestrais. A resistência árabe continuou, intensificando a guerrilha até 1939 e deixando milhares de mortos – cinco mil árabes, trezentos judeus e duzentos e sessenta e dois britânicos -, com a maior parte das vítimas árabes resultando da repressão britânica, mas também de confrontos com o Irgun, grupo paramilitar de extrema direita – braço armado do sionismo revisionista.
Percebendo a rejeição árabe à divisão territorial, o governo britânico propôs, em 1939, um Estado binacional único governado por judeus e árabes, prometendo limitar a imigração judaica e retirar-se em até dez anos. Contudo, esse anúncio ocorreu no contexto da eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando o extermínio de judeus europeus – o Holocausto – se intensificava, tornando a imigração para a Palestina uma questão de sobrevivência para milhares. Paralelamente, em 1944, o Irgun iniciou uma campanha de guerrilha contra as forças britânicas, ampliando a violência na região.
Após a guerra, diante da crise britânica e da impossibilidade de administrar o conflito na Palestina, o Reino Unido transferiu a questão para a recém-criada Organização das Nações Unidas, que, em 1947, propôs novamente a divisão do território. Mais uma vez, a proposta foi rejeitada pelas lideranças árabes, que mantinham uma postura intransigentemente antissionista, recusando a criação arbitrária de um Estado judeu no território considerado seu. Assim, o contexto internacional, marcado pela instrumentalização da tragédia do Holocausto pelos sionistas, preparava o terreno para a Nakba – a catástrofe palestina que acompanharia a criação do Estado de Israel e o deslocamento massivo da população árabe da Palestina.

O Holocausto como Tragédia e como Instrumento
A Solução Final veio sob a forma de uma das maiores tragédias da história mundial recente: o Holocausto. Esse evento consistiu no assassinato sistemático de cerca de seis milhões de judeus – além de poloneses, ciganos, homossexuais, pessoas com deficiência, comunistas, entre outros – em guetos e campos de concentração, por métodos como as câmaras de gás, as doenças, a desnutrição e o trabalho forçado. Alguns dos campos mais sangrentos foram Auschwitz-Birkenau, Mauthausen e Terezin, e a crueldade que ali se passou havia sido presenciada, no passado, poucas vezes – na exposição permanente do memorial de Auschwitz, o visitante se depara com monumentais pilhas de pertences pessoais, de sapatos a óculos e escovas de barbear e, ainda, com objetos chocantes como tecido e sabão fabricados, respectivamente, com os cabelos e a gordura das vítimas do pesticida Zyklon-B.

O genocídio de milhares de judeus, sem surpresa alguma, levou a sociedade europeia a uma crise de consciência pelo que havia se passado em seu território não apenas na primeira metade da década de 1940, mas ao longo dos tempos.
A essa crise, somou-se outra: a do sionismo. Desde antes do Holocausto, o antissemitismo já fora apropriado pelo movimento sionista como combustível para a defesa do chamado nacionalismo judaico. Com a queda de Adolf Hitler e do antissemitismo como política de Estado, os sionistas perderam sua raison d’être e viram-se à beira de um penhasco, admirando o vazio. Como, diante do horror global aos episódios do Holocausto, esconder as múltiplas alianças com governos antissemitas e, ao mesmo tempo, dar continuidade ao projeto? Eis uma tarefa difícil, mas a resposta encontrada implicava a captura da narrativa do genocídio para utilizá-la como retórica pró-sionista, como indicadora da necessidade da existência de um Estado de Israel no local habitado, por direito, pelos palestinos. Essa resposta, todavia, não foi isenta de controvérsias na opinião pública, já que, assim como o antissemitismo, o colonialismo também era, em certa medida, rejeitado pelo Ocidente do pós-guerra.
A solução para as controvérsias foi a manipulação do discurso sionista de modo que ele se parecesse, ao máximo possível, com uma força política que lutava contra a colonização imaginária dos judeus. Isso não foi o suficiente para que a Grã-Bretanha resolvesse manter seu apoio aos sionistas, posicionamento que causou revolta entre as alas mais à direita do movimento Assim, os colonialistas judeus se voltaram contra os britânicos com verdadeiros ataques terroristas, que aconteceram entre 1944 e 1948, deixando mortos 44 judeus perpetradores dos ataques e 170 civis e militares britânicos. Os sionistas consideraram a retaliação parte de uma “guerra da independência”.
Assim, os sionistas utilizavam a Grã-Bretanha como bode expiatório e se aproveitavam da hostilidade contra o antissemitismo que se insurgira na Europa, declarando-se anticolonialistas enquanto colonizavam ativamente a Palestina. Quanto aos palestinos e à sua luta de resistência contra o imperialismo, a estes coube o rótulo de antissemitas.
O Ocidente, já maculado, precisava demonstrar seu apoio aos judeus, e os sionistas alegavam que a única maneira de combater o antissemitismo era a criação de um Estado exclusivamente judeu na Palestina. Assim, a ONU desenvolveu um plano de partilha desse território, dividindo-o em um Estado judeu e um Estado árabe.
Em 14 de Maio de 1948, David Ben Gurion, líder sionista, proclamou o Estado independente de Israel. O mandato britânico na Palestina terminava, e marcava-se o começo da Nakba, a tragédia do povo palestino, deslocado forçosamente de suas terras e privado de sua própria história.
Se os Estados antissemitas não mais existiam como tais, e se ataques a judeus em razão de seu judaísmo haviam praticamente cessado, eles precisavam ser inventados, e a partir de então toda oposição ao colonialismo sionista passou a ser distorcida como antissemitismo. Quanto às atividades propriamente antijudaicas, estas eram generalizadas e exageradas.
A esse intento – significativamente, o apagamento de vozes palestinas e a implementação de uma narrativa da Palestina desenvolvida por vozes da supremacia sionista – foram designados estrategicamente muitos estudiosos judeus, deslocando a cena intelectual judaica, que antes estivera concentrada no campo da esquerda, para os think tanks sionistas.
O caso de Haj Amin al-Husseini foi largamente mobilizado. Husseini era um líder conservador e membro da elite palestina que, aliás, opusera-se categoricamente à revolta dos camponeses palestinos contra a dominação sionista em 1936, e ficara horrorizado com a colaboração entre os sionistas e os nazistas. Por isso, ele buscara, na época, abordar os nazistas e convencê-los a abortar seu apoio à imigração judaica na Palestina, suporte que fora selado no Acordo de Transferência de 1933. Husseini era um pró-hitlerista ferrenho que chegara ao ponto de instigar o ódio aos muçulmanos pró-soviéticos e aos países Aliados na rádio e, a partir de 1950, os mesmos sionistas que haviam colaborado intimamente com o Partido Nazista passaram a vilificá-lo.
Os ataques a judeus chegaram a ser forjados pelos próprios sionistas ao redor do mundo. Em uma colaboração com o regime britânico que vigorava na região, no Iraque dos anos 1950, o Mossad Isralense – Instituto de Inteligência e Operações Especiais – plantou bombas em sinagogas, cafés e livrarias, assassinando judeus iraquianos. Iraquianos muçulmanos e cristãos foram responsabilizados pelos atentados, e o objetivo em mente era provocar a migração dos judeus iraquianos para que povoassem Israel. No Egito, diante da recusa dos judeus egípcios de integrar o êxodo para o novo Estado, uma operação semelhante foi posta em prática, a “Lavon Affair”, desta vez atingindo correios, cinemas e estações de trem. Ela foi logo desvendada pelas autoridades do país, e os criminosos foram julgados, o que lançou uma campanha sionista que identificava Gamal Abdel Nasser como o “Hitler do Nilo”.

A União Soviética como um todo também foi alvo dos ataques, sendo acusada, no contexto da Guerra Fria, de ser antissemita. Os estadunidenses e os israelenses conseguiram garantir vistos de emigração para que os judeus soviéticos pudessem chegar a Israel. Esses judeus, todavia, preferiram migrar para os Bálcãs, de modo que os sionistas recorreram ao ditador romeno Nicolae Ceausescu para que este forçasse uma rota alternativa que os levaria ao destino desejado. Com a queda da URSS, os Estados Unidos concordaram em fechar suas fronteiras para imigrantes de origem judaica, e a única alternativa encontrada pelos judeus soviéticos foi viver em Israel como refugiados econômicos nos anos 1990. Ironicamente, descobriu-se, mais tarde, que muitos dos migrantes soviéticos eram na realidade indivíduos que fingiam ser judeus.
Conclui-se, portanto que o Holocausto, um genuíno flagelo do povo judeu, foi isntrumentalizado pelo movimento sionista no sentido de induzir o mundo Ocidental a conceder apoio a seus projetos colonialistas e de, mais importante, oprimir e colonizar o povo palestino. Mas é fundamental notar que o nazismo e o sionismo não são iguais, embora apresentem semelhanças por sua matriz colonial europeia em comum: enquanto o nazismo era um projeto de dominação global pelas mãos da raça ariana supremacista, o sionismo é entendido, na maioria das vezes, como um plano de colonização local, perpetrado por um grupo que foi minoritário durante boa parte da história.
Na atualidade, os muros que restringiam a liberdade dos judeus na Europa da metade do século XX, a miséria e a desnutrição que os assolaram, se converteram no cerco israelense a Gaza e à Cisjordânia. As consequências desumanas dessa manobra se estendem até os dias de hoje.
Israel: Estado Sionista
Em um discurso realizado na comemoração do aniversário da captura de Jerusalém pelo Estado de Israel, em 1967, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu adereçou o atentado do Hamas a Israel e o fato de que, por mais de vinte meses, a faixa de Gaza tem sofrido ataques quase incessantes do exército israelense. A seu ver, todavia, o episódio pode ser descrito como uma “guerra do bem contra o mal”. Em suas palavras, o conflito é, ainda, uma “guerra de renascimento – uma necessária, moral e justa guerra”, “uma guerra pelo espírito, pelos valores, pela retidão do caminho, por Jerusalém”, uma guerra contra “humanos animais, monstros”, que os atacaram, em um ato de “terrível crueldade”, no dia 7 de outubro de 2023. Em seguida, o líder máximo israelense declarou explicitamente sua meta em relação aos palestinos: “[…] nós vamos derrotá-los, e nós vamos aniquilá-los. Eles não permanecerão”. “Nesse momento”, ele prosseguiu, “nosso objetivo é conquistar a vitória total sobre nossos inimigos”.

Essa fala é apenas um dentre os exemplos que demonstram com clareza a orientação inegavelmente sionista e colonialista do governo de extrema direita do atual do Estado de Israel.
Apesar disso, o genocídio – que é, provavelmente, um dos mais televisionados dos últimos tempos – não encontra resistência suficiente na comunidade internacional, isso quando não recebe manifestações de apoio, as quais provém, majoritariamente, dos Estados Unidos e de outros países cujas lideranças são reacionárias, como a Argentina e a Hungria.
Na Europa, a resistência, quando esta existe, é tímida e praticamente insignificante; nos EUA, a história é diferente: durante a presidência de Joe Biden, Netanyahu chegou a referir-se a ele como um “orgulhoso sionista irlandês-americano”, e o atual presidente estadunidense, Donald Trump, compartilhou no começo do ano um vídeo produzido com inteligência artificial em seu Instagram oficial, no qual exibe-se uma Faixa de Gaza reconstruída como empreendimento de luxo, transformada em uma riviera sob o nome de “Trump Gaza”, e em cujo centro reluz uma estátua dourada de Trump.
Para o historiador israelense Ilan Pappe, esse novo momento da política estatal colonial de Israel pode ser definido como “neo-sionista”. Isso significa, de acordo com ele, que os ideais sionistas foram extremados, e que os recentes adeptos do movimento pretendem concretizar muito mais rapidamente – e com maior fatalidade – os planos que seus antepassados almejavam tornar reais gradualmente. Esses planos podem ser resumidos pela anexação total dos territórios que correspondem à Palestina histórica, em detrimento de apenas uma porção deles, não excluindo a possibilidade de expandir o Estado de Israel, em um próximo passo, para além das fronteiras palestinas. Assim, conclui-se que o ataque do Hamas a Tel Aviv foi, para o governo de Israel, um ótimo pretexto para lançar uma campanha de assassinato em massa contra os habitantes de Gaza. Esforços não foram poupados para direcionar ao apoio a essa campanha o medo instaurado entre os cidadãos israelenses depois do atentado de 7 de outubro.
Não foi à toa que, um ano depois dos ataques, em 7 de outubro de 2024, a Heritage Foundation de Washington, um think tank conservador, tenha divulgado um plano de ação intitulado “Projeto Esther: uma Estratégia Nacional para Combate do Antissemitismo”. O Esther, nome escolhido em homenagem à rainha bíblica que teria salvado os judeus do extermínio na Pérsia, propõe a criminalização de toda e qualquer oposição ao genocídio dos palestinos, cerceando a liberdade de expressão. No documento, argumenta-se que o movimento internacional pró-palestino é parte de uma Rede de Apoio ao Hamas (HSN) internacional – amparada por ativistas que querem “derrubar o capitalismo e a democracia” -, a qual, como se sabe, não existe. A Heritage Foundation também inventou a existência de uma suposta colaboração entre as igualmente fictícias Organizações de Apoio ao Hamas (HSOs), e difundiu uma série de outras teorias da conspiração.
Em uma entrevista à Al Jazeera, Pappe afirmou, cauteloso, que essa é a última fase do sionismo. “Historicamente”, ele disse, “tais desfechos em movimentos ideológicos, sejam eles colonialistas ou impérios, são usualmente o capítulo final [isto é] o implacável, o mais ambicioso. E então é demais e eles caem e colapsam”. O intelectual não quis inferir, entretanto, que essa fase necessariamente chegará ao fim em breve.
Quando questionado acerca da intervenção internacional, Pappe expressou sua convicção de que “um cenário no qual há mínimo envolvimento americano é um cenário positivo”, bem como de que “precisamos de intervenção internacional não só na Palestina como para todo o mundo árabe, mas ela precisa vir do Sul Global e não do Norte Global”.
Por todas as razões mencionadas, o processo de chegar a um acordo de cessar-fogo é não somente improvável, como também insuficiente. Todas as tentativas de acordos estabelecidas até agora foram descumpridas por Israel, visto que, como o próprio Netanyahu esclareceu, não há qualquer intenção de parar até que a limpeza étnica do povo palestino seja finalizada.
Sendo o sionismo um projeto colonial, é preciso recorrer à descolonização. Essa alternativa, embora nem sempre leve à instauração de regimes posteriores satisfatórios, é um dos poucos caminhos para a conquista de uma paz que não esteja limitada à ausência da guerra, de uma paz justa, duradoura e não hegemônica. Necessita-se de um movimento antissionista que, muito mais abrangente, preocupe-se com a questão a nível estrutural, e busque combater, de maneira simultânea, as mudanças climáticas, a desigualdade e todas as consequências das múltiplas formas de colonialismo ao redor do globo.
Referências
CLEMESHA, A. Marxismo e Judaísmo: História de uma Relação Difícil. São Paulo: Boitempo, 2025.
SAID, E. A Questão da Palestina. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
https://www.aljazeera.com/opinions/2012/12/24/zionism-anti-semitism-and-colonialism
https://www.aljazeera.com/program/the-listening-post/2024/6/1/we-need-to-talk-about-zionism
https://www.aljazeera.com/opinions/2025/5/19/project-esther-and-the-weaponisation-of-zionism
https://www.aljazeera.com/opinions/2023/12/21/the-anatomy-of-zionist-genocide
https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/nazi-propaganda
https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/series/antisemitism?parent=en%2F10089
https://www.folger.edu/explore/shakespeares-works/the-merchant-of-venice/read/3/1
https://www.britannica.com/event/Dreyfus-affair
https://www.iwm.org.uk/history/what-was-the-holocaust
https://www.aljazeera.com/news/2008/5/16/how-the-state-of-israel-came-to-be
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