Desenvolvimento Econômico: Conceito e Desdobramentos Históricos
Por Gabriela Abarca
O economista brasileiro Luiz Carlos Bresser Pereira definiu o desenvolvimento econômico como “o processo de sistemática acumulação de capital e de incorporação do progresso técnico ao trabalho e ao capital, que leva ao aumento sustentado da produtividade ou da renda por habitante e, em consequência, dos salários e dos padrões de bem-estar de uma determinada sociedade” (Pereira, 2006, p.1).

Histórico do Conceito
Ainda que os estudos sobre o desenvolvimento econômico das nações tenham se iniciado no século XVIII, com Adam Smith, eles ganharam força ao longo do século XX, nas obras de John Keynes e Joseph Schumpeter. Contudo, o uso da nomenclatura que estabelece uma divisão do mundo em países “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”/”em desenvolvimento” se iniciou após o fim da 2° guerra mundial, com o surgimento das Nações Unidas e ligado à chamada teoria dos 3 mundos: os países “desenvolvidos” ocidentais compunham o chamado 1° mundo, o bloco soviético o 2° e os demais países, ditos “subdesenvolvidos”, compunham o 3° mundo.
Essa divisão foi cunhada na época pelo demógrafo francês Alfred Sauvy, que estabeleceu uma comparação direta entre o 3° mundo e o 3° estado, no contexto da revolução francesa, afirmando que o primeiro precisava agir como o segundo, no sentido de subverter uma ordem estabelecida. Entretanto, a teoria dos 3° mundos perdeu força com o fim da Guerra Fria e a consequente dissolução do bloco socialista, mas a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento perdura hoje como uma das principais ferramentas de análise da economia mundial.
O Desenvolvimento Econômico Hoje
Sendo assim, os principais parâmetros econômicos observados para se medir o desenvolvimento de um país são uma alta industrialização, independência financeira e política, relações comerciais favoráveis e níveis avançados de infraestrutura e tecnologia. Além disso, a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento também é medida através de parâmetros sociais, como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), cujas dimensões básicas são saúde, educação e renda per capita, e o Índice de Gini, utilizado para quantificar os níveis de desigualdade social de um país.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), criada em 1960, é um órgão com aproximadamente 30 países membros, que busca promover a cooperação internacional para fomentar políticas de desenvolvimento ao redor do mundo, se propondo a atuar como fórum de discussão e pesquisa, de modo que produção e armazenamento de dados auxiliem as nações a solucionar problemas sociais, econômicos e ambientais.
Causas do “Subdesenvolvimento”

O fenômeno chamado subdesenvolvimento caracteriza-se em geral por um baixo nível de industrialização, uma relação de dependência econômica, tecnológica e política com os países desenvolvidos, infraestrutura precária, etc. No entanto, é necessário compreender as causas dessa divisão, que não ocorreu de forma natural, pelo contrário: os países considerados subdesenvolvidos foram, em quase sua totalidade, vítimas do processo de colonização. Submetidos inicialmente à uma violenta extração de seus recursos naturais, esses países tem como característica histórica uma urbanização acelerada e com precária integração regional, o que por sua vez levou a persistência de fatores como: baixa escolaridade da população, baixo IDH, elevada desigualdade social e concentração da PEA (População Economicamente Ativa) nos setores primário (agricultura) e terciário (comércio e serviços).
Quando analisado por essa ótica, esse panorama da divisão entre desenvolvidos e subdesenvolvidos pode ser encarado como uma lógica injusta, uma vez que, mesmo ao serem promovidos processos de industrialização nesses países, estes se construíram com capital e tecnologia externos, o que fez perpetuar as relações de dependência entre os dois níveis. Ademais, os fatores citados anteriormente fizeram com os países subdesenvolvidos tenham como característica o fraco mercado consumidor, que desestimula a produção industrial focada no mercado interno.
O Desenvolvimento na Divisão Internacional do Trabalho (DIT)
A Divisão Internacional do Trabalho (DIT) se traduz como o papel que cada país ocupa na oferta de bens e serviços do comércio mundial e foi bastante intensificada pelo processo de globalização. Durante o século XIX e maior parte do XX, a chamada DIT clássica tinha os países desenvolvidos como sendo os únicos que possuíam indústrias, enquanto os “subdesenvolvidos” eram os principais exportadores de matérias primas.

Ao final do século XX e início do XXI, diversos países em desenvolvimento passaram por processos de industrialização. Contudo, a complexidade crescente do sistema econômico mundial fez com que os países desenvolvidos ainda detenham a maior parte das tecnologias e do capital financeiro, o que faz perpetuar as relações comerciais desfavoráveis para os países subdesenvolvidos, que exportam produtos de menor valor agregado e importam produtos de maior valor agregado. Essa incompatibilidade entre a tentativa de reprodução dos padrões de consumo dos países ricos e a acumulação de capital significantemente menor resulta em um cenário de persistente crise econômica nos países em desenvolvimento, como se observa no caso da América Latina.
Celso Furtado e a Crítica Brasileira

Ainda que bastante utilizados, os conceitos de “desenvolvimento econômico” e países desenvolvidos e subdesenvolvidos foram, e ainda são, alvo de diversas críticas e revisões no meio acadêmico. Principal estudioso do tema no Brasil, o economista Celso Furtado, em seu livro “O mito do desenvolvimento econômico”, constrói a argumentação de que o modelo do desenvolvimento é um mito a partir do momento em que não há, segundo sua visão, uma real mobilidade possível dos países de um estágio para o outro.
Isso porque, em sua análise, Furtado aponta que existe uma problemática em relacionar o crescimento populacional com os padrões de consumo, pois a massa demográfica em expansão se localiza em ambientes excluídos dos grandes centros. Em resumo, sua visão expõe que, em um mundo de recursos limitados, se todos os países tivessem os mesmos padrões elevados de consumo dos países desenvolvidos, a civilização iria colapsar. Assim, conclui que a ideia de que a população dos países pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida atuais da população dos países ricos é irrealizável. E, entretanto, é a busca por se encaixar nesse modelo de desenvolvimento que motiva os povos da periferia do mundo a menosprezar suas culturas consideradas arcaicas e destruir seus recursos naturais.
Dessa forma, Furtado concluiu que “O subdesenvolvimento tem suas raízes numa conexão precisa surgida em certas condições históricas, entre o processo interno de exploração e o processo externo de dependência” (Furtado, 1974, p. 94). Para ele, a divisão entre desenvolvidos e subdesenvolvidos podia ser definida como uma forma de difusão do sistema capitalista que não ameaça suas estruturas.
Referências
https://www.bresserpereira.org.br/papers/2008/08.18.ConceitoHist%C3%B3ricoDesenvolvimento.31.5.pdf
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