“Clima” de Guerra em Moçambique: Quando a Crise Ambiental Alimenta a Violência
O Conflito Esquecido entre Gás, Jihadismo e Justiça Climática.
Por Alan Mota e Maria Clara Santos
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Contexto
O jihadismo marca, historicamente, a memória da fé islâmica e o povo moçambicano. O termo, em árabe, significa “esforço” ou “luta”, mas pode ter diversos valores semânticos dentro da conjuntura religiosa do Islã. Nesse sentido, a palavra pode significar a dedicação para criar uma boa sociedade muçulmana, a luta interna de cada fiel contra instintos básicos ou a guerra, com o uso da violência, a favor da fé e contra infiéis. Nesse último caso, tais ações, que promovem o uso da força, são justificadas pelos jihadistas a partir da afirmação da necessidade da violência para o restabelecimento da lei de Deus e para a proteção dos muçulmanos na Terra.
Porém, essa noção não é um consenso entre os muçulmanos, uma vez que, para uma parcela destes, “se trata de uma associação incorreta entre um conceito religioso nobre e a violência ilegítima” (BBC, 2014). Ou seja, uma parte dos muçulmanos acredita que esse uso da força, instituído pela jihad, seria incorreto e seria feito por indivíduos que se desvincularam dos verdadeiros preceitos da fé.

Nesse contexto, desde outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, enfrenta uma revolta armada associada a grupos extremistas islâmicos, com massacres, decapitações e sequestros de mulheres e de crianças, gerando mais de um milhão de deslocados. Muitos têm perdido suas casas, seus entes queridos e suas vidas nesse conflito – segundo a Organização Não Governamental “Anistia Internacional”, estima-se que “mais de 350 mil pessoas correm o risco de passar fome” (BBC, 2020).
Mais do que isso, de acordo com publicação feita pela DW, apenas no ano de 2024, ao menos 349 pessoas morreram em ataques de grupos extremistas em Cabo Delgado, o que representa um aumento de 36% em relação ao ano anterior – tais dados foram divulgados pelo Centro de Estudos Estratégicos de África do Departamento de Defesa do governo norte-americano, responsável por analisar conflitos no continente africano.
Sendo assim, observa-se que, para compreender esse conflito, é necessário retornar à história local. Os embates foram protagonizados pelo grupo Ansar al-Sunna (também chamado de “Al-Shabab” e composto, em sua maioria, por jovens moçambicanos e, em sua minoria, por estrangeiros das regiões central e oriental da África). Al-Shabab, em 2017, recebeu apoio do Estado Islâmico Central Africano (IS-CAP) e deu início a uma insurgência jihadista em Cabo Delgado. O grupo, em suas ações, utilizou táticas diversas, como decapitações, sequestros, ataques a vilas e a postos militares e controle de áreas rurais para impor a sharia (ou seja, o sistema jurídico do Islã).
Esse conflito, portanto, torna-se mais latente quando são analisadas as nuances econômicas e sociais da área. Nota-se que “a Província de Cabo Delgado e seus distritos constituem a região mais rica do país em recursos naturais, minerais e energéticos de Moçambique” (LANGA, 2024, p. 96). No território, há jazidas de pedras preciosas e minerais, densas florestas, fauna e “umas das maiores reservas de petróleo e gás da África” (LANGA, 2024, p. 96). Tal cenário faz com que haja muito investimento nacional e internacional, sobretudo por empresas privadas, para a extração e exploração dos recursos – no caso do gás natural (cuja maior reserva do planeta está localizada na região de Cabo Delgado), a Total Energies e a ExxonMobil Corporation são exemplos de companhias que, atualmente, constroem grandes projetos de exploração. No entanto, a província ainda é a mais empobrecida de Moçambique: a população local vive na pobreza extrema e os índices de desenvolvimento econômico, social e humano são extremamente baixos.

Meio Ambiente e Extremismo
A província tem sido alvo de um desequilíbrio profundo: enquanto multinacionais investem um total de aproximadamente 60 bilhões de dólares em GNL (Gás Natural Liquefeito), comunidades são removidas à força, sem compensação justa. Percebe-se um grave descompasso entre a agenda econômica e a social na região, visto que, enquanto grandes quantias monetárias são direcionadas para a exploração dos recursos naturais moçambicanos, a população permanece inassistida.
Esse descompasso ainda se estende à área ambiental, já que a extração dos recursos trazem, como consequência, malefícios climáticos. Os megaprojetos e seus objetivos perpassam e instituem degradações ambientais preocupantes, como, por exemplo, a construção de infraestruturas em regiões de manguezais e de pesca tradicional. Desse modo, essa extração de recursos naturais pode acentuar mudanças climáticas extremas, como demonstram os ciclones recorrentes na região.
À título de exemplificação, tem-se o ciclone tropical Idai, que, no dia 14 de março de 2019, alcançou o litoral próximo à cidade de Beira, em Moçambique. O episódio trouxe inundações severas e ventos fortes para outros territórios, além do moçambicano, como Malawi, Zimbábue e Madagascar. Ademais, como resultado, 1.303 pessoas foram mortas e mais de três milhões, afetadas. Após um mês do ocorrido, um segundo ciclone tropical aflige Moçambique, o Kenneth, o qual foi classificado como o ciclone mais forte que já atingiu o continente africano.

Assim, as mudanças climáticas aparecem como um agravante e aumentam ainda mais a vulnerabilidade social, que já é potencial no território. Essa vulnerabilidade, por sua vez, tem sido muito utilizada pelos jihadistas para angariar mais força de trabalho – “pregadores extremistas capitalizaram a frustração socioeconômica generalizada, atraindo jovens descontentes para a militância jihadista” (GOULD; QUEFACE; LIMA, 2021). Ou seja, o investimento econômico exacerbado na exploração dos recursos naturais moçambicanos não têm gerado retorno social, mas têm auxiliado grupos jihadistas a conquistarem mais apoiadores.
Logo, a insegurança social causada pelas mudanças climáticas, pelos desastres naturais e pela ausência de mudança das condições de vida da população tornam-se um berço para a formação de novos jovens que podem, potencialmente, amparar-se sobre a causa da jihad. Muitos jovens pobres são recrutados, dos quais muitos são pescadores afetados pela escassez de peixes ocasionadas, muitas vezes, pelos impactos ambientais. Dessa maneira, “os jovens têm cada vez mais dificuldade em obter acesso à educação, ao emprego, à promoção social e à representação política” (BONATE, 2022, p. 542), fato que torna-se um pilar importante para a insurgência de movimentos diversos. Sendo assim, essa vulnerabilidade em que a população se encontra transforma-se em uma possibilidade para os grupos jihadistas atingirem seus objetivos com a concentração de mais pessoas, mesmo que por meio do uso da força e da violência.
TotalEnergies Retoma Projeto de Extração de Gás em Moçambique: Segurança Para Quem?
Em 2021 a TotalEnergies, uma das maiores investidoras em GNL moçambicano, declarou que, por “força maior”, suspenderia suas operações em Cabo Delgado, diante da escalada da violência jihadista e assim o fez. Três anos depois, em janeiro de 2024, a gigante energética francesa anunciou a retomada do megaprojeto de gás natural liquefeito em Afungi, alegando que a segurança na região “melhorou significativamente” graças à presença de tropas ruandesas e à Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), que prestaram apoio durante o período de maior instabilidade e violência extrema que a região da costa leste africana enfrentava (DW, 2025).

Mas, por trás do discurso de estabilização, a realidade revela um cenário de contradições. O retorno da TotalEnergies ocorre sob pesada escolta militar, incluindo contratos com empresas de segurança privada e proteção contínua de forças estrangeiras. Enquanto isso, a população local continua à mercê da violência, da fome e do abandono.
A reativação do projeto não é casual. Após a guerra na Ucrânia, o gás moçambicano tornou-se estratégico para a Europa e os Estados Unidos, que buscam alternativas ao fornecimento russo (DW, 2022). O banco de exportações dos EUA aprovou um empréstimo de US$4,7 bilhões para viabilizar a operação, e instituições europeias pressionam pela aceleração do projeto. Em julho de 2025, a TotalEnergies iniciou a recontratação de trabalhadores e a reconstrução da infraestrutura em Palma e Afungi, com previsão de retomar as exportações até 2026.
No campo militar, as tropas ruandesas e da SADC conseguiram avanços significativos desde 2021, retomando o controle de áreas estratégicas como Palma e Mocímboa da Praia. No entanto, os insurgentes seguem ativos em zonas rurais, realizando emboscadas e ataques esporádicos contra civis e alvos militares. Em abril de 2024, um novo ataque próximo aos campos de gás em Palma expôs a fragilidade da segurança, mesmo nas áreas consideradas mais protegidas (DW, 2025).
Relatórios de organizações humanitárias alertam que o grupo jihadista mantém presença consolidada em distritos como Macomia, Muidumbe e Nangade. Paralelamente, denúncias de abusos – incluindo execuções extrajudiciais, detenções arbitrárias e tortura – envolvem tanto insurgentes quanto forças governamentais e seus aliados. Essas violações, frequentemente invisibilizadas pela narrativa de “paz em construção”, revelam o custo humano de uma guerra que já deslocou mais de um milhão de pessoas.
Enquanto bilhões são investidos na extração de gás, a crise humanitária em Cabo Delgado segue intocada. Mais de 400 mil crianças permanecem fora da escola, e campos de deslocados enfrentam surtos de cólera, malária e insegurança alimentar crônica. Muitas famílias não podem retornar às suas aldeias – seja pelo medo da violência, seja porque suas casas e lavouras foram destruídas. Sem acesso à água potável ou à assistência adequada, milhares sobrevivem em condições degradantes, enquanto promessas de compensação e reconstrução parecem cada vez mais distantes.
Clima, Colonialismo e Conflito: O Preço da Transição Energética
Após a eclosão da guerra na Ucrânia em 2022, a União Europeia viu-se diante da necessidade urgente de diversificar suas fontes de energia. O gás natural, anteriormente importado em larga escala da Rússia, passou a ser substituído por alternativas em outras regiões e, com isso, os olhos das potências voltaram-se para o continente africano. Moçambique, com sua imensa reserva de gás natural na província de Cabo Delgado, surgiu como uma aposta estratégica.
No entanto, essa busca por segurança energética no Norte Global tem um custo humano profundo no Sul Global. Mais de 60% da população moçambicana vive com menos de dois dólares por dia, e os impactos dos megaprojetos de exploração de gás não têm se revertido em melhoria de vida para a maioria (O PAÍS, 2021). Ao contrário: a instalação de infraestrutura por multinacionais como a TotalEnergies e a ExxonMobil veio acompanhada de remoções forçadas, degradação ambiental e aumento da instabilidade regional.
Essa realidade nos leva a uma pergunta essencial: por que devemos nos importar com as questões ambientais? A resposta – embora pareça óbvia: porque o desmatamento, as emissões de CO2, a caça ilegal e a poluição afetam diretamente o bem-estar humano –, na opinião dos autores, precisa ser expandida. A crise climática não é apenas uma questão de natureza ou de temperaturas médias globais: ela é, também, um fator de desestabilização social, política e econômica. E, mais ainda, é um gatilho para conflitos armados, deslocamentos forçados e violações sistemáticas de direitos humanos.
Cabo Delgado é um exemplo emblemático dessa intersecção trágica. Desde 2017, a província enfrenta uma das mais graves crises humanitárias da África, embora praticamente invisível aos olhos da comunidade internacional. Mais de um milhão de pessoas foram deslocadas, buscando escapar de massacres, de sequestros – especialmente de crianças – e da imposição brutal da sharia por grupos jihadistas ligados ao Estado Islâmico.
A insurgência, no entanto, não pode ser analisada apenas como fruto de fundamentalismo religioso. Ela floresceu em um território historicamente marginalizado, empobrecido, e pressionado por interesses externos que veem seus recursos naturais como ativos estratégicos e nada mais. O colapso ambiental, causado por ciclones intensificados pelas mudanças climáticas e pela destruição de ecossistemas costeiros, contribuiu para o desemprego entre pescadores e agricultores, tornando-os mais suscetíveis ao recrutamento por grupos armados.

Ou seja, as questões ambientais também matam, por ação e por omissão. Quando o solo torna-se infértil, quando os peixes desaparecem, quando as águas secam ou enchem violentamente, vidas são destruídas. E, quando empresas internacionais se beneficiam desse cenário sem promover compensações justas ou inclusão social, elas ampliam o abismo entre lucro e dignidade.
Refletir sobre a ascensão do extremismo em Moçambique é refletir sobre as limitações do discurso tradicional de “transição energética”. Precisamos nos perguntar: transição para quem? E a que custo? Quando a Europa busca gás africano para se desvincular do gás russo, ela, de fato, rompe uma dependência, mas, em muitos casos, substitui uma exploração por outra, agora voltada ao Sul Global. A chamada “transição energética” corre o risco de se tornar um novo ciclo de extrativismo neocolonial, caso não seja pautada pela justiça climática e social.
Portanto, discutir meio ambiente extrapola a noção da conservação da fauna e da flora. Debater sobre esse assunto é discutir as estruturas de poder que determinam quem tem o direito de respirar ar puro, de beber água limpa, de viver em paz – e quem é jogado às margens do desenvolvimento. Enquanto a transição energética global seguir sem levar em conta a redistribuição de riqueza, a reparação histórica e o direito à autodeterminação dos povos, ela seguirá alimentando o tipo de violência que hoje marca Cabo Delgado.
Referências
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BBC NEWS BRASIL. Afeganistão: o que é a Sharia, lei islâmica que o Talebã quer aplicar no país. BBC, 18 de agosto de 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58251684. Acesso em: 21 jul. 2025.
BBC NEWS BRASIL. Moçambique enfrenta onda de decapitações por jihadistas que difundem vídeos em português. BBC, 12 de novembro de 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54906823. Acesso em: 21 jul. 2025.
BBC NEWS BRASIL. O que é jihadismo?. BBC, 14 de dezembro de 2014. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141211_jihadismo_entenda_cc. Acesso em: 21 jul. 2025.
BONATE, Liazzat J. K. Jihadismo transnacional e a insurgência em Cabo Delgado, Moçambique. Instituto Christian Michelsen, Afro-Ásia, n. 65 (2022), p. 519-553.
DEUTSCHE WELLE. Cabo Delgado: HRW alerta para aumento de raptos de crianças. DW, 24 de junho de 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-002/hrw-alerta-para-a-intensificação-de-raptos-de-crianças-em-cabo-delgado/a-73020355. Acesso em: 30 jun. 2025.
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GOULD, Tom; QUEFACE, Tomas; LIMA, Fernando. Islamic State in Mozambique: the Cabo Delgado conflict, 2021. Hudson Institute, 2021. Disponível em: https://www.hudson.org/islamic-state-mozambique-cabo-delgado-conflict-2021-tom-gould-tomas-queface-fernando-lima. Acesso em: 21 jul. 2025.
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