O Xadrez Geopolítico dos BRICS
Por Lara Belezia e Kauan Siqueira
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Nos dias 6 e 7 de julho deste ano, ocorreu a décima sétima cúpula dos BRICS, sediada pelo Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. O evento trouxe o bloco para os holofotes mais uma vez após representantes dos países membros terem ressaltado discussões acerca de uma nova ordem mundial a ser remanejada. Diante desse cenário, assim como peões que chegam ao fim do tabuleiro, o bloco tem assumido papel central em negociações e tem adquirido cada vez mais influência econômica e diplomática ao longo dos anos. Com ações cautelosas e projetos ambiciosos, os BRICS vem consolidando seu espaço no tabuleiro geopolítico, tornando imprescindível entender seu papel frente às instituições internacionais preestabelecidas.

Do Acrônimo à Realidade: O Surgimento dos BRICS
Em 2001, um estudo intitulado “Building Better Global Economic BRICs”, o economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O’Neil, formulou o acrônimo BRIC ao observar o dinamismo do crescimento econômico de quatro países emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China. O’Neil apontou que os países do agrupamento possuíam características socioeconômicas comuns e apresentavam potencial para investimento e crescimento nos anos futuros.
Em 23 de setembro de 2006, o termo BRIC deixou de ser um conceito e deu o primeiro passo para se tornar um grupo articulado a partir da Reunião de Chanceleres dos quatro países, organizada às vésperas da 61ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.
Dessa forma, o BRIC constituiu-se como um foro de cooperação criado por iniciativa política dos governos dos seus países fundadores. Seu objetivo inicial era o diálogo entre três pilares de cooperação principais: política e segurança, finanças e economia, e cultura e sociedade civil. Para além de tais questões, discussões acerca de grandes temas da agenda internacional e do fortalecimento dos pontos de convergência dos países membros tornaram-se pautas nas cúpulas. O intuito era democratizar e equilibrar a ordem internacional através do fortalecimento do multilateralismo, conferindo maior protagonismo aos países emergentes na ordem ocidental hegemônica vigente.
Com a crise financeira de 2008, os até então quatro países buscaram atuar em conjunto em organizações internacionais como o G20, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, com propostas de reformas na governança econômica e financeira global. Uma vez que o peso das economias emergentes no balanço mundial cresceu consideravelmente no período, tal influência deveria ser refletida nos organismos internacionais.
A 1ª Reunião de Cúpula do BRIC foi realizada em 16 de junho de 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia. A Cúpula, em meio ao cenário dos desdobramentos da crise financeira de 2008, focou no papel do G20 para lidar com a crise financeira, no apoio ao sistema multilateral de comércio e no acerto de princípios para a modernização da arquitetura financeira internacional, com o objetivo de conceder maior representatividade aos países em desenvolvimento.

Durante a 3ª Reunião de Cúpula do BRIC, ocorrida em Sanya, China, houve a primeira expansão do bloco, com a adesão da África do Sul, que visava desempenhar o papel de representante do continente africano no grupo, formando o atual acrônimo BRICS.
A União Faz a Força: A Ascensão dos BRICS no Cenário Geopolítico
Há quem diga que são a torre, há quem argumente que são o bispo. Mas a verdade é que o jogo político dos BRICS é complexo demais para ser resumido ao valor de uma só peça.
A criação dos BRICS não foi uma mera junção de países que tinham um objetivo em comum, como ocorreu no caso do Movimento dos Países Não Alinhados, durante a Guerra Fria, ou mesmo na criação das Nações Unidas, no pós Segunda Guerra Mundial. Tratava-se de uma luta pela reivindicação de um espaço de maior relevância na ordem econômica global, que via-se claramente desestabilizada após a crise de 2008.
Ainda que não constituíssem um bloco formal, os BRICS expandiram-se sob a premissa de que as instituições internacionais eram monopolizadas por potências ocidentais, deixando de lado os países em desenvolvimento. Assim, ressaltando o multilateralismo e seguindo seus pilares de cooperação, o grupo passou a representar uma alternativa ao Ocidente, apoiando projetos voltados para a desdolarização da economia mundial e formalizando acordos que conferissem aos países membros maior autonomia financeira e comercial. Com isso, buscando efetivar os ideais de um sistema financeiro alternativo e defender uma maior representatividade das economias emergentes, o agrupamento fundou o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês New Development Bank).
Conhecido como “Banco dos BRICS”, o NDB foi oficialmente criado em 2014 durante a 6ª Cúpula dos BRICS, em Fortaleza, Brasil. Em sua origem, foi uma iniciativa que visava financiar a longo prazo projetos de infraestrutura e desenvolvimento econômico para países do Sul Global, através de empréstimos, garantias e outros mecanismos financeiros. Dessa forma, passou a ser visto como uma resposta a imposição de condicionalidades diversas pelos bancos tradicionais e destacou-se como alternativa aos mesmos, financiando projetos ligados à energia renovável, saneamento básico, mobilidade sustentável, infraestrutura urbana, prevenção contra mudanças climáticas, entre outros. Paralelamente, foi criado o Arranjo Contingente de Reservas (ACR), uma plataforma de apoio financeiro mútuo, a qual qualquer país membro poderia recorrer em caso de dificuldades em seu balanço de pagamentos. Através da ACR, os membros se comprometeram a colocar à disposição do grupo reservas internacionais no valor de até US$100 bilhões. Vale ressaltar que nem todos os países dos BRICS, atualmente, possuem acesso ao NDB e ao ACR.

A criação de ambos os mecanismos de cooperação financeira ligados ao bloco informal estreitou as relações econômicas existentes entre seus membros, e tornou ainda mais evidente seu compromisso como um agente reformador da governança econômica global. Para além disso, na última década, as relações entre as nações presentes no grupo demonstraram-se consistentes, na medida que realizaram inúmeros acordos bilaterais entre si, em nome da cooperação estratégica. Um bom exemplo a ser citado foram os diversos acordos realizados entre o Brasil e a China, no período de ascensão da potência asiática como um gigante comercial, acerca de temas como uso de Inteligência Artificial, o intercâmbio de tecnologia de internet e a regulação de pesticidas agrícolas. A China é o maior parceiro econômico do Brasil, e sua cooperação dentro dos BRICS apenas fortaleceu as relações econômicas e diplomáticas entre os dois países, fazendo transparecer a eficácia e o sucesso do grupo em si. Outro caso a ser notado é o da relação entre a China e a Índia: apesar de apresentarem atritos políticos e diplomáticos relacionados à disputa de territórios em suas fronteiras, ainda tentam manter a cooperação no nível econômico.
O BRICS tem marcado presença no tabuleiro geopolítico por meio de ações significativas, incluindo a recente ampliação de membros plenos e associados, bem como o crescente interesse de outros países em integrar o grupo. Uma nova onda de expansão ocorreu na Cúpula dos BRICS de 2023, quando foram convidados mais seis países: Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU). Todos aceitaram, tornando-se membros oficiais do grupo a partir de 2024; exceto a Argentina, que recusou o convite por questões políticas internas, ligadas ao alinhamento pró ocidente do então presidente Javier Milei. Para além das recentes adesões, o grupo concedeu a certas nações o status de “países parceiros” na Cúpula dos BRICS de 2024, permitindo que estes participem das reuniões embora não tenham alcançado status de membro pleno. Dentre elas, Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão foram os primeiros a receber a designação. Mais recentemente, em 2025, a Indonésia foi formalmente reconhecida como país membro, após ter sido convidada ainda na Cúpula dos BRICS de 2023, em Joanesburgo. As expansões recentes levaram o bloco informal a um grau de representatividade ainda maior. Segundo o Centro Braileiro de Relações Internacionais (CEBRI), os países membros dos BRICS representam quase 40% do PIB global e aproximadamente metade da população mundial.

Do Multilateralismo à Sustentabilidade: A 17ª Cúpula dos BRICS
Em 2025, o Brasil assumiu a presidência rotativa do BRICS e para enfrentar os desafios impostos pela nova configuração do bloco e do contexto mundial, a presidência brasileira estruturou sua atuação em seis eixos prioritários, com foco em temas que fossem de interesse nacional e que conversassem com pautas dos demais países emergentes:
- Reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU);
- Fomento ao comércio por moedas locais;
- Saúde pública, com enfoque na criação da Parceria para Eliminação de Doenças Socialmente Determinadas;
- Governança da Inteligência Artificial, com destaque à proteção dos cidadãos;
- Transição energética, priorizando o financiamento sustentável pelo New Development Bank (NDB) à fontes de baixo carbono;
- Temas institucionais, como a criação do BRICS Civil Council e critérios de adesão ao bloco.
Em meio às dificuldades de governança do bloco, ao aumento do protecionismo econômico estadunidense e ao enfraquecimento do multilateralismo deflagrados pelo segundo mandato do governo Trump, a 17ª Cúpula dos BRICS, sob o tema “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”, foi sediada no Rio de Janeiro entre os dias 6 e 7 de julho de 2025. A cúpula sofreu um relativo esvaziamento devido às ausências do presidente chinês, Xi Jinping, do presidente do Egito, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian e do presidente russo, Vladimir Putin. O líder russo participou do evento de forma remota, em razão do mandado de prisão por crimes de guerra emitido contra ele pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), cuja jurisdição é reconhecida e adotada pelo Brasil desde da ratificação do Tratado de Roma em 2002, realizada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Após o evento, foi divulgada a Declaração do Rio, documento final com 126 tópicos que, de maneira geral, reafirmou o compromisso do bloco com o fortalecimento do multilateralismo e com a reforma da governança global, a fim de tornar o sistema internacional mais justo e representativo, com maior participação de países em desenvolvimento. Leia os principais eixos da Declaração do Rio:
- Fortalecimento do multilateralismo: reafirmou o compromisso do BRICS com a cooperação internacional e defendeu a modernização de instituições multilaterais e o aumento da representatividade dos países em desenvolvimento nos fóruns globais;
- Justiça climática e transição energética: a declaração criticou o uso de políticas ambientais com viés protecionista e ressaltou a necessidade de financiamento adequado para uma transição energética justa e para obras de adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento. O grupo manifestou apoio ao acesso de tecnologias limpas e à proteção da população mais vulnerável, mais suscetível aos impactos da crise climática. Além disso, destacou-se a adoção da “Declaração-Marco dos Líderes do BRICS sobre Finanças Climáticas”, que é um compromisso assumido pelos países do bloco em ampliar o financiamento climático global;
- Inclusão digital e governança da inteligência artificial: O documento reforçou a necessidade de uma transformação digital baseada na inclusão, na proteção de dados e no respeito ao usuário. A Cúpula também aprovou a Declaração sobre a Governança Global da Inteligência Artificial, que defende uma abordagem responsável para o desenvolvimento tecnológico, com respeito à soberania digital e combate à fragmentação da internet;
- Finanças: O grupo reiterou o seu apoio a um sistema multilateral de comércio baseado em regras, aberto, transparente, justo, inclusivo, equitativo, não discriminatório e consensual, com a Organização Mundial do Comércio (OMC) atuante e em seu núcleo, com tratamento especial e diferenciado (TED) para seus membros em desenvolvimento. Os 11 países também enfatizaram a necessidade do aumento de quotas dos países emergentes e em desenvolvimento no Fundo Monetário Internacional (FMI) e o aumento da participação acionária no Banco Mundial;
- Saúde: O grupo lançou a Parceria para a Eliminação das Doenças Socialmente Determinadas, demonstrando interesse em combater as causas das disparidades ao acesso à saúde, como a pobreza e a exclusão social. Os países também reafirmaram o seu apoio à Organização Mundial de Saúde (OMS), que recentemente sofreu com a saída do seu maior financiador, os Estados Unidos;
- Novo Banco de Desenvolvimento (NDB): O grupo reforçou o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) como um instrumento estratégico de apoio ao Sul Global, defendeu a promoção de financiamentos em moedas locais e a criação de uma Garantia Multilateral, voltada a impulsionar investimentos em infraestrutura e mitigar riscos de crédito.
Além disso, vários parágrafos criticam os crimes de guerra cometidos por Israel na Faixa de Gaza, os assentamentos ilegais israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental e condenam os ataques de Israel e dos EUA às instalações nucleares do Irã, demonstrando preocupações com as crescentes tensões no Oriente Médio. Todavia, o grupo faz uma menção tímida à Guerra da Ucrânia e se esquiva de condenar a invasão russa à Ucrânia. A Cúpula também foi marcada pela oficialização da adesão da Indonésia como membro pleno e de Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Nigéria, Malásia, Tailândia, Vietnã, Uganda e Uzbequistão como países parceiros.
Durante a realização da cúpula do BRICS, o presidente estadunidense Donald Trump, em uma publicação do seu perfil na sua rede social Truth Social, ameaçou impor taxas extras a produtos de países que se alinhassem ao grupo: “Qualquer país que se alinhe às políticas antiamericanas do BRICS será taxado com tarifa extra de 10%. Não haverá exceções a essa política. Obrigado pela atenção em relação a essa questão”. Dois dias após o fim do evento, Donald Trump anunciou a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros no mercado norte-americano.
Quer saber mais sobre a recente política tarifária de Trump? Acesse https://laibl.com.br/a-politica-tarifaria-de-trump/
Xeque ou Mate? Alternativa ou Ameaça à Hegemonia Ocidental?
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os acordos de Bretton Woods consolidaram o dólar como a principal moeda do mundo, que se tornou a moeda padrão utilizada para a realização de transações financeiras, a unidade de referência para a cotação de moedas locais e a moeda na qual os países guardavam as suas reservas internacionais (principalmente via compra de títulos públicos estadunidenses). Além do estabelecimento da hegemonia do dólar no sistema financeiro internacional, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e o Banco Mundial foram criadas para dar sustentação a ordem financeira global comandada pelo Norte Global: EUA e países europeus.
Essas instituições foram interpretadas frequentemente por países emergentes como instrumentos para a manutenção do poder das grandes potências, haja vista que ofereciam empréstimos em dólares e, em contrapartida, exigiam condições de financiamentos muitas vezes irreais e distantes da realidade de países pobres, dificultando o desenvolvimento econômico e o acesso ao crédito dos países do Sul Global. Soma-se a isso as exigências de choques fiscais e de políticas neoliberais como condicionantes para a obtenção de financiamento ou para honrar os pagamentos de dívidas a organizações como o FMI, quadro muito recorrente nos cenários hiperinflacionários enfrentados em economias emergentes, ignorando as condições sociais e econômicas já frágeis dos países subdesenvolvidos.
Nesse cenário, a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), atualmente presidido pela ex-presidenta brasileira Dilma Rousseff (PT), objetiva possibilitar uma maior gama de oportunidades para a alocação de recursos em projetos de países emergentes, buscando oferecer um maior acesso ao crédito, financiamentos à juros mais baixos, empréstimos em moedas locais e alternativas ao dólar e sem a necessidade de seguir a cartilha econômica dos países ocidentais.

Em retaliação à invasão da Rússia à Ucrânia em fevereiro de 2022, os EUA e a União Europeia congelaram os ativos russos e excluíram os russos da Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT), sistema utilizado por mais de 11 mil instituições financeiras mundiais para enviar mensagens seguras e ordens de pagamento. Sem substituto global, a remoção da Rússia do sistema tornou quase impossível para as instituições financeiras enviarem dinheiro para dentro ou fora do país, prejudicando principalmente a venda de petróleo e gás do país, comercializados em dólares.
Frente às tentativas de sufocar a economia russa, o tema da desdolarização e do uso de meios alternativos de pagamento ganhou tração no BRICS, já que a China também teme ser alvo das mesmas medidas caso tente anexar a ilha de Taiwan. Com o início do segundo mandato de Donald Trump frente à Casa Branca em 2025, o tema ganhou urgência e o centro do debate público devido ao uso arbitrário e político das tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos de vários países, como é o caso do Brasil, que sofre “sanções” por condenar os responsáveis pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e por julgar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), líder da trama golpista que queria anular os resultados das eleições de outubro de 2022 e que planejava assassinar o presidente eleito Lula (PT), o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) e o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Alexandre de Moraes.
Apesar da praticidade e da facilidade proporcionadas pela padronização do uso do dólar como moeda mundial, a economia dos países emergentes fica mais suscetível à choques externos e a volatilidade de suas moedas em razão da dependência da moeda norte-americana. Em adição a isso, decisões econômicas e políticas tomadas nos EUA podem ditar os rumos da economia de outros países, como o corte ou a subida da taxa de juros definida pelo Federal Reserve System (FED) ou a decisão de injetar bilhões de dólares anualmente na economia norte-americana após a crise financeira de 2008, iniciada nos EUA e causadora de um efeito cascata que prejudicou a economia global e causou tsunamis monetários nas economias emergentes pela desvalorização das moedas nacionais frente ao dólar, facilitando as importações e prejudicando as indústrias, comércios locais, exportações e a venda de commodities.

Os impactos das decisões econômicas dos EUA preocupam ainda mais os agentes políticos e econômicos dos países emergentes, já que o caráter personalista, inconsequente e imprevisível do presidente Donald Trump traz insegurança jurídica, custos transacionais causados pelas incertezas da sua política econômica destrambelhada e causa medo da imposição de sanções injustificadas aos países que desafiam a ordem hegemônica vigente. As suas constantes ameaças e tentativas de interferência na independência do FED e a sua política tarifária provam que os rumos das economias emergentes não podem ficar a mercê da sua megalomania e dos seus caprichos, podendo servir como propulsor para a união de um bloco marcado pela heterogeneidade à procura de alternativas ao dólar e às instituições tradicionais das economias desenvolvidas.
A desdolarização poderia aumentar a integração regional a partir de transações em moedas locais, o que estimula trocas internas e reduziria a dependência externa, promovendo um sistema financeiro multipolar e mais equilibrado, entretanto, a menos em curto e a médio prazo, há muitos desafios para a consolidação de uma verdadeira desdolarização da economia, já que não há uma moeda alternativa clara e a substituição ao dólar exigiria tempo, coordenação internacional e consenso, quadro distante da realidade do BRICS. O incômodo explícito de Trump com o avanço do BRICS e da pauta da desdolarização é explicado pelo medo dos Estados Unidos diminuírem a sua centralidade global e de perderem seu poder de enforcement de sanções propiciado pelo uso do dólar como moeda padrão mundial em países que não sigam as suas regras e interesses, além de aumentar o custo de financiamento da dívida pública exorbitante dos EUA, que é possibilitado pela compra por países de títulos do Tesouro estadunidense por conta da solidez e confiança no dólar.

Perspectivas Futuras: Um Tabuleiro, Várias Camadas
A recente ampliação do BRICS, ocorrida em 2024, potencializou o seu papel simbólico e estratégico como representante do Sul Global, entretanto, também dificultou a formação de consenso no que tange às gradativas do bloco. Aliado a isso, o caráter informal do BRICS faz com que o grupo não possua um secretariado permanente, o que, somado à ausência de regras institucionais para a adesão, rotatividade e governança, traz dificuldades para a coordenação, a implementação e a continuidade das iniciativas acordadas pelo bloco. No entanto, essa é apenas uma das questões enfrentadas pelos BRICS em seu contexto de expansão atual.
Por apresentarem uma soma demográfica equivalente a quase metade da população mundial, os países membros do bloco possuem uma grande vantagem em relação à presença de um mercado consumidor promissor à sua disposição. Todavia, desafios como o envelhecimento populacional e as constantes transformações no mercado de trabalho podem representar um impasse para as nações emergentes.
Concomitantemente, no âmbito econômico, discussões acerca da eficiência das instituições financeiras ligadas ao bloco vieram à tona nos últimos tempos. O debate colocou em xeque a eficácia do NDB, argumentando que suas ambições de redesenhar o sistema financeiro global foram insuficientes, pois mantinham muitas das práticas preestabelecidas por seus supostos concorrentes. Além disso, o chamado Banco dos BRICS também foi alvo de descrença por se comprometer de forma vaga com os padrões de sustentabilidade defendidos pelo grupo. Buscando encontrar alternativas após as críticas feitas, soluções tais como uma possível expansão do ACR e a criação de um novo sistema alternativo de pagamentos foram abordadas. A última iniciativa foi sugerida pela Rússia e, após uma certa evolução, chegou à mesa dos BRICS como uma proposta para um canal seguro que permite a realização de pagamentos internacionais diretamente nas moedas locais dos países membros. O chamado “BRICS Pay” propõe-se a facilitar o uso interligado das moedas nacionais e, apesar de não representar o interesse prévio do bloco na criação de uma moeda única, mostra-se como uma das principais ferramentas de desafio às instituições hegemônicas ocidentais.

Diante de tal cenário, outra preocupação vem em relação às desigualdades de poder presentes entre os atuais membros dos BRICS. Por um lado, a adesão de novos países membros, muitos deles com problemas financeiros, poderia gerar certa dependência em relação ao bloco, ou mesmo, em casos extremos, a quebra do NDB. A exemplo, é possível mencionar a crise econômica enfrentada pelo Egito ou mesmo os desafios climáticos pós pandemia enfrentados pela Etiópia, que sofre com secas periódicas. Por outro lado, a ascensão da China como potência econômica, política e comercial fortalece a posição do gigante asiático como um dos países que mais se beneficia da cooperação no agrupamento, o que pode levar a problemas futuros ligados a tais assimetrias de poder. Prova disso é a visão que muitos especialistas passaram a defender dos BRICS como uma ferramenta para a ascensão da China nesse jogo de peças assimétricas. Ainda assim, a presença de novos países trouxe muitos benefícios ao grupo. A aliança com três grandes potências do Oriente Médio, por exemplo, conferiu ao bloco vantagens geoestratégicas e uma influência ainda maior sobre o PIB global, considerando a significativa participação da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos no setor petrolífero, por exemplo. Ademais, a adição de países como Egito e o Irã trouxe certo equilíbrio diplomático aos BRICS, já que suas presenças conferem ao bloco maior representatividade africana e permite que o mesmo jogue em diferentes frentes geopolíticas, como no Oriente Médio.
Ainda sob a perspectiva da relação entre os países membros do bloco, é possível observar um aumento expressivo do potencial de comércio interno aos BRICS, que já realizaram inúmeros acordos multilaterais de exportação e importação de bens. Os benefícios das alianças econômicas podem ser observados pela ampliação dos principais setores socioeconômicos dos países fundadores. O compromisso com o desenvolvimento de pesquisa e tecnologias de energia renovável, por exemplo, garantiu a manutenção da estabilidade do setor energético russo, e tem auxiliado os países dos BRICS em sua busca por uma transição energética gradual e justa. Do mesmo modo, declarações conjuntas com foco na facilitação do comércio agrícola entre os membros, que juntos representam mais de 75% da produção agrícola global, e no combate à fome fortaleceram ainda mais o setor agropecuário brasileiro. Prova disso foi a saída do país latino-americano do mapa da fome, em agosto de 2025, e a assinatura de acordos que preveem o abastecimento do país com fertilizantes importados, sobretudo, da Rússia.
Com isso, enquanto a atuação dos BRICS na esfera econômica demonstra avanços e desafios, suas relações no âmbito político carregam contradições ainda maiores. As divergências políticas e mesmo diplomáticas entre os países membros vão além de agendas internas distintas ou mesmo políticas externas diferentes. Trata-se de conflitos e níveis distintos de alinhamento com o ocidente, que acabam por gerar afastamentos entre as nações emergentes do bloco. Exemplo disso são as disputas territoriais nas quais algumas das nações dos BRICS estão envolvidas. Embora tentem ao máximo sacrificar seus peões pela rainha, o Egito e a Etiópia ainda apresentam fortes discordâncias em relação ao uso das águas do rio Nilo, enquanto a Índia e a China mantêm sua histórica disputa pelo domínio do território próximo ao Himlaia, conhecido como Caxemira.
Ainda na esfera política, outras preocupações abriram espaço nas discussões recentes sobre a expansão dos BRICS. Como já mencionado, além da presença contraditória de autocracias entre os países membros, a Guerra na Ucrânia trouxe inúmeras divergências quanto às diretrizes a serem tomadas pelos demais países em relação à presença da Rússia no bloco. Enquanto alguns países demonstravam interesse na aplicação de sanções, outros, tais como a China, aproveitaram a oportunidade para ampliar suas relações financeiras e comerciais com a federação, de forma a balancear o déficit comercial adquirido pelos russos após a invasão. Enquanto a Rússia passou a vender metade de sua produção anual de petróleo e gás natural para a China e para a Índia, a indústria automobilística e tecnológica chinesa abastece o mercado russo. O caso é apenas um exemplo do receio que muito dos países membros têm de levarem suas relações ao extremo, afastando-se demais do ocidente ou mesmo das suas próprias políticas externas, como a Indonésia, que hesitou ao ser convidada para se juntar ao bloco por medo de afastar-se do princípio de não alinhamento.

Desse modo, a inegável expansão dos BRICS na última década levou a uma clara ascensão do bloco no domínio geopolítico. Ainda assim, contradições internas e divergências entre as diferentes peças do jogo representam uma preocupação a ser considerada pelo grupo para perspectivas futuras. O bloco tem jogado de forma cautelosa e coordenada, nunca desviando seu olhar de seus princípios norteadores e sempre a manter xeques constantes contra as potências hegemônicas do Ocidente. A próxima Cúpula, em 2026, será sediada pela Índia, mas muito ainda pode mudar até lá. O futuro do jogo é incerto, mas por hora, os BRICS fizeram sua jogada. Resta apenas esperar pela próxima.
Referências
https://tvbrics.com/pt/news/resumo-semanal-de-noticias-do-brics-31-08
https://g1.globo.com/tudo-sobre/brics
https://radiopeaobrasil.com.br/brics-apresenta-alternativa-a-hegemonia-dos-eua/
“O tarifaço de Trump e o grupo dos Brics” – O Assunto #1530https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2025/08/11/o-tarifaco-de-trump-e-o-grupo-dos-brics-o-assunto-1530.ghtml
https://www.politize.com.br/expansao-do-brics
https://cebri.org/revista/br/artigo/199/brics-em-tempos-de-reacomodacao-tectonica
https://cebri.org/br/doc/380/analises-pos-cupula-brics-2025-e-a-declaracao-do-rio
https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics/cupulas-anteriores
https://borainvestir.b3.com.br/objetivos-financeiros/investir-melhor/afinal-o-que-e-o-brics
https://www.goldmansachs.com/insights/goldman-sachs-research/building-better
https://www.ipea.gov.br/forumbrics/pt-BR/conheca-os-brics.html
https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics
https://www.youtube.com/live/4PmN-lVXX0k?si=OrEJ44bQOcnoGHpk
https://jornal.usp.br/radio-usp/brics-cresce-de-tamanho-e-importancia-apos-cupula-do-rio-de-janeiro/
https://www.bbc.com/portuguese/articles/crevw3j84dlo
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cl7l79vyyyko
GUEDES, Maria. Novo Banco de Desenvolvimento: o banco do BRICS. Politize!, 23 de agosto, 2023. Disponível em: https://www.politize.com.br/banco-do-brics/. Acesso em: 3 de set, 2025.
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