O Papel Geopolítico das Primeiras-Damas
Por Cecília Chalela, Lara Belezia e Stefano Romano
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Primeiras-damas: Uma Perspectiva Histórica
De Boadiceia, a rainha guerreira dos celtas, a Hatshepsut, a primeira faraó do Egito; de Elizabeth I, “Rainha Virgem” da Inglaterra e da Irlanda, a Catarina, a Grande – imperatriz de Todas as Rússias; da “Imperatriz Viúva” Cixi, da dinastia Qing, à Rainha Vitória do Reino Unido, mulheres têm ocupado, ao longo da história – embora com certa raridade e enfrentando múltiplas resistências – cargos políticos que as colocaram à frente de linhagens, povos, civilizações e impérios.
O cargo de “primeira-dama”, todavia, apresenta curiosas singularidades quando comparado a estes outros, e tem ganhado cada vez mais relevância nos debates políticos com o passar do tempo. O termo surgiu nos Estados Unidos, no século XIX, para substituir outros como “esposa do Presidente” ou simplesmente “Lady”, sendo seus primeiros registros associados postumamente a Martha Washington, esposa do primeiro presidente dos EUA, George Washington. Apesar disso, a expressão somente ganhou força durante o mandato de Grover Cleveland (22º presidente estadunidense), entre 1885 e 1889, quando a imprensa passou a se referir a sua esposa, Frances Folsom Cleveland, como “a primeira-dama da nação”.
Na virada do século, o termo passou por um processo de encurtamento até a popularização da “primeira-dama”, graças à forte cobertura midiática que circundava, no começo dos anos 30, Lou Hoover, geóloga casada com Herbert Hoover, 31º presidente dos EUA. De certa forma, pode-se dizer que Lou foi um marco importante na consolidação do entendimento atual acerca das primeiras-damas: além de sua formação acadêmica, a Sra. Hoover era considerada como “filantropa” devido a seu entusiasmado envolvimento com grupos de voluntários, serviço comunitário e organizações como a Girl Scouts of the USA.

A partir de então, e com a expansão do termo, graças à mídia e à globalização, para além das fronteiras estadunidenses, começou-se a falar em “primeiro-damismo”, substantivo cuja associação estendeu-se às figuras de esposas de prefeitos e governadores enquanto apoiadoras de projetos sociais. É importante ressaltar, não obstante, que uma primeira-dama não desempenha um cargo oficial – isto é, com deveres pré-estabelecidos e salário – ou seja, sua participação na agenda política formalmente representada por seu cônjuge não é obrigatória, e sim opcional.
Percebe-se, assim, que o papel de primeira-dama sofreu inúmeras metamorfoses e se tornou mais complexo e maduro com o passar dos anos, até que, em especial no século XXI, o cargo atingiu dimensões inimagináveis, com algumas das primeiras-damas do mundo atuando ativamente em importantes questões de ordem geopolítica.
Primeiras Damas e a Guerra da Ucrânia
Ao longo das últimas décadas, tem crescido exponencialmente o número de conflitos armados ao redor do globo. Nesse contexto, para além dos diplomatas, ministros e premiês, as primeiras-damas assumem também um importante papel no diálogo entre as nações. A Guerra da Ucrânia, um dos mais tensos conflitos da atualidade, não foge dessa tendência.
Nesse sentido, no dia 15 de Agosto deste ano, de maneira inédita desde a invasão russa em 2022, os presidentes da Rússia e dos Estados Unidos, Vladimir Putin e Donald Trump, reuniram-se para discutir as perspectivas acerca do futuro da guerra.
O conteúdo da conversa de cerca de duas horas e meia foi pouco divulgado, mas, de acordo com o líder norte-americano, apesar de não terem chegado a um acordo, os dois lados teriam feito progressos em direção à pacificação do Leste Europeu.
Para além das conversas, entretanto, chamou a atenção o diálogo construído entre a esposa do republicano, Melania Trump, e o ditador russo. Apesar de ter ido ao Alaska desacompanhado de sua primeira dama, o presidente americano entregou a Putin uma carta de autoria de Melania, cujo conteúdo veio a ser posteriormente publicado pelo presidente em sua rede “Truth Social”.
Ao longo da carta, Melania pediu a Putin que zelasse pela inocência das crianças, sem, entretanto, ter feito qualquer referência direta ao conflito na Ucrânia: “ao proteger a inocência dessas crianças, você fará mais do que servir apenas à Rússia – você servirá à própria humanidade. Uma ideia tão ousada transcende todas as divisões humanas e você, Sr. Putin, está apto a implementar essa visão com um simples traço de caneta hoje”.

De acordo com Kiev, cerca de 19,5 mil crianças foram deportadas e/ou retiradas à força das suas casas para a Rússia ou para territórios ocupados, tendo cerca de 1,5 mil destas retornado. Esse fato, inclusive, veio a ser mobilizado durante a emissão do mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional contra Vladimir Putin por crimes de guerra. Moscou, por outro lado, nega a acusação, afirmando, na verdade, ter retirado as crianças das zonas de perigo, em nome da segurança. Apesar disso, de acordo com o republicano, a carta teria sido bem recebida pelo líder russo.
Pouco após o encontro no Alaska, no dia 18 do mesmo mês, Donald Trump reuniu-se com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, no Salão Oval da Casa Branca. O tema da conversa foi novamente a guerra no Leste Europeu e, assim como no outro encontro, as primeiras damas tiveram uma, apesar de indireta, importante participação diplomática.
Durante a reunião, Zelensky elogiou a iniciativa de Melania, agradecendo e ressaltando a importância da carta. Nas palavras do ucraniano, “esta questão é central para a tragédia humanitária da guerra – nossas crianças, famílias desfeitas, a dor da separação”.
Zelensky, por fim, entregou uma carta de sua esposa, Olena Zelenska, ao presidente Trump, pedindo que a direcionasse à primeira dama. A correspondência, de acordo com o líder ucraniano, continha mais agradecimentos pela carta dirigida a Putin.

A carta de Olena e os elogios do presidente ucrâniano foram parte de uma série de agrados diplomáticos dedicados ao presidente norte-americano, motivados pela necessidade vital de atrair apoio contra a invasão russa. Desde o início de seu segundo mandato, Donald Trump, que nutre uma controversa simpatia pelo presidente russo, adotou uma posição dura perante Kiev. A reunião anterior entre os dois líderes, inclusive, resultara em uma discussão acalorada em que, repetidas vezes, Zelensky foi acusado de ser mal agradecido. Em uma clara reação ao distanciamento entre Ucrânia e EUA, portanto, a carta de Olena foi símbolo da desesperada busca ucraniana pela retomada de um aporte financeiro, militar e diplomático mais sólido de Washington.
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Do Café com Leite ao Lulismo: O Primeiro-Damismo Brasileiro
No Brasil, o primeiro-damismo entrou em voga no começo do século XX. De acordo com registros históricos, tudo começou durante a devastadora seca que acometeu o Nordeste no ano de 1915, quando a então primeira-dama Maria Pereira Gomes promoveu uma festa com o objetivo de arrecadar fundos para a causa. Depois desse evento, Maria se envolveu em outros projetos de caridade, como a Cruz Vermelha Brasileira, na qual atuou principalmente em prol dos esforços de combate à gripe espanhola.
Passadas quase três décadas desde a Grande Seca, em 1942, foi fundada a Legião Brasileira de Assistência (LBA), inicialmente voltada para atender às necessidades geradas pela maior crise do período: a Segunda Guerra Mundial. Na época, Darcy Vargas era a primeira-dama brasileira, e sua atuação na LBA fez com que, posteriormente, a presidência do órgão – o qual se reconfigurou, após a guerra, para atender a famílias necessitadas – se convertesse em uma espécie de atributo tradicional das esposas de presidentes que vieram depois.
Além disso, Darcy criou a Fundação Darcy Vargas (FDV) e A Casa do Pequeno Jornaleiro – destinada a abrigar crianças e jovens entregadores de jornais que moravam nas ruas do Rio de Janeiro – e continuou a desempenhar essas funções mesmo depois do falecimento de Vargas e da perda do título de primeira-dama.

Nos anos 50, um novo nome de grande relevância para o primeiro-damismo despontou no cenário brasileiro: tratava-se de Sarah Kubitschek, que já reivindicava encargos assistencialistas quando seu marido, Juscelino Kubitschek, foi eleito governador de Minas Gerais. Sarah foi a fundadora das Pioneiras Sociais, um grupo de mulheres da alta sociedade mineira que se dedicava à coleta e distribuição de itens de necessidades básicas para pessoas com deficiência. Na década de 60, quando Juscelino se tornou presidente, a associação adquiriu maior escala e recebeu o nome de Fundação das Pioneiras Sociais, expandindo sua filantropia para outros estados do país. Além disso, Sarah também foi a criadora do Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek, destinado ao oferecimento de atendimento humanizado a pacientes com deficiências motoras.
Algumas décadas depois, em 1995, o cargo de primeira-dama foi assumido por Ruth Cardoso, que já era, antes disso, uma renomada antropóloga inserida na esfera intelectual internacional – ela foi, aliás, a primeira esposa de um presidente do Brasil a possuir um diploma universitário, com mestrado em Sociologia e doutorado em Ciências Sociais. Foi Ruth, possivelmente, quem inaugurou a tendência de um ativismo político mais explícito no primeiro-damismo, auxiliando na elaboração e implantação de políticas públicas, ainda que não tenha deixado de lado a filantropia.
Colocando em prática seus conhecimentos sociológicos e antropológicos, a primeira-dama idealizou a aglutinação de auxílios já existentes durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, como o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação, sob um único cadastro, o que viria a resultar no Bolsa Família. Ela presidiu, ainda, o Comunidade Solidária, programa do governo brasileiro associado do Ministério da Casa Civil e encerrado em 2002 – quando foi substituído pelo Programa Fome Zero – que combatia a extrema pobreza no país.

Mais recentemente, as primeiras-damas do Brasil também têm obtido destaque, por diferentes razões. Michelle Bolsonaro, que esteve em posse do título de 2019 a 2022 como esposa do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, participou ativamente da campanha eleitoral mas evitou falar abertamente sobre questões polêmicas, atendo-se a sua agenda pessoal de apoio simbólico à comunidade surda – Michelle foi a primeira a discursar em uma posse presidencial, e o fez por meio da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras). Com seu marido declarado inelegível, a ex-primeira-dama é tida como uma forte candidata nas eleições presidenciais que serão disputadas em 2026.
Por último, Rosângela Lula da Silva (conhecida simplesmente como Janja) é a atual primeira-dama do Brasil, como esposa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Janja cursou Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná na década de 1990, e se especializou em História. Antes de se tornar primeira-dama, trabalhou na usina hidrelétrica de Itaipu e coordenou programas de “desenvolvimento sustentável”, ganhando destaque político desde sua adesão à campanha para a soltura de Lula (“Lula Livre”), em 2019.
Por representar, de certa forma, o ápice da participação política de uma primeira-dama no Brasil – ela própria alegou que gostaria de ressignificar esse papel – Janja desperta inúmeras críticas, vindas tanto da direita quanto da esquerda, uma vez que os próprios apoiadores de Lula consideram que Janja reivindica protagonismo excessivo e desproporcional ao cargo ocupado por ela. Desde o princípio do terceiro mandato de Lula, a primeira-dama tem participado de decisões acerca da agenda adotada pelo governo, sugerindo possíveis nomes para cargos de poder e se dedicando a projetos que não envolvem o Presidente, sendo a maioria destes dedicados às questões das mulheres, da cultura e da segurança alimentar.
Janja também tem demonstrado interesse em participar de pautas geopolíticas. Em março de 2025, ela viajou a Paris sem Lula para participar de um evento de apoio ao empreendedorismo feminino junto da primeira-dama francesa, Brigitte Macron, o que encorajou diversos linchamentos vindos do público brasileiro, da mídia e da oposição ao Partido dos Trabalhadores no Congresso, com acusações de déficits exorbitantes nos cofres públicos devido às despesas com passagens aéreas e hospedagem. Um deputado do PL chegou a propor uma emenda que proibiria gastos futuros de todos os governos brasileiros com viagens de primeiras-damas. Provavelmente devido a essa e a outras questões sensacionalistas divulgadas pelos meios de comunicação, uma pesquisa realizada pela PoderData em setembro deste ano indica que o nível de desaprovação a Janja ultrapassou os 60%.

Nair de Teffé: Entre Caricaturas e Política
Ainda no Brasil, de volta aos anos 1910, uma das figuras mais emblemáticas que ocupou o cargo de primeira-dama do país foi a chamada Nair de Teffé. Apesar de ter sido primeira-dama por um curto período de tempo (1913-1914), após casar-se com o Marechal Hermes da Fonseca, Nair foi pioneira ao tornar o cargo publicamente reconhecido. Entre tintas, pincéis e caricatura, a artista foi capaz de articular sua trajetória política através de caminhos não convencionais.
Nascida em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1886, Nair era filha do ilustre Barão de Teffé (Antônio Luís von Hovnholtz), um nobre e almirante, condecorado como herói após a Guerra do Paraguai (1864-1870). Ainda jovem, mudou-se para França, onde foi criada, rodeada de todo tipo de expressão artística. Quando retornou ao Brasil, no início do século XX, iniciou sua carreira artística com alguns desenhos e ilustrações. Sua primeira publicação foi uma caricatura de uma artista francesa para a revista brasileira Fon Fon!, em 1909. Nair renasceu como Rien, pseudônimo com o qual assinava suas obras, caricaturas e ilustrações, e tornou-se a primeira caricaturista do mundo.

Em 1912, Nair realizou uma exposição individual na sede do Jornal do Comércio, sediada pelo então presidente, Marechal Hermes da Fonseca. No ano seguinte, a artista casou-se com o presidente recém enviuvado, tornando-se primeira-dama do Brasil. Apesar de críticas relacionadas a sua personalidade “moderna demais para a época” e a diferença entre as idades do casal, Nair foi capaz de subverter o que era esperado das mulheres de sua época. A primeira-dama utilizou de sua arte para dar voz a seus pensamentos e críticas, e alavancou sua imagem política por meios inusitados.
Nair também foi patrona da diplomacia cultural da época e precursora de muitos elementos artísticos que viriam a caracterizar a cultura brasileira posteriormente. Em um evento presidencial, a primeira-dama adicionou à programação musical um corta-jaca (tango popular gaúcho) da famosa Chiquinha Gonzaga, trazendo pela primeira vez a música popular brasileira da época à elite do país, apesar de críticas do então senador Rui Barbosa. A primeira-dama também inaugurou a moda das calças compridas para mulheres em território brasileiro, servindo de inspiração e exemplo para muitas outras mulheres em movimentos similares.
Assim, Nair de Teffé foi capaz de canalizar as críticas e os anseios por mudanças que guardava dentro de si através de sua arte única, e revolucionou não só a cultura brasileira em sua época, como também a forma pela qual a figura de primeira-dama passou a ser enxergada no Brasil. No entanto, para além disso, o papel de Nair de Teffé como primeira-dama estendeu-se mesmo após o fim do mandato presidencial de seu marido. Até mesmo após a ortodoxia presidente, em 1922, Nair manteve sua vida política e curto ativa, provando que sua atuação foi atemporal.

Ao longo das décadas seguintes, Nair continuou sua carreira artística como caricaturista, musicista e atriz, mas aprimorou suas habilidades de sociabilidade e aproveitou-se de suas relações próximas com personalidades políticas de todo o país para criar uma rede de apoio considerável. Cartas para militares amigos da família, jantares com nobres da mais alta classe, telefonemas para futuras primeiras damas e telegramas a artistas modernistas ascendentes. Essas foram apenas algumas das ferramentas das quais Nair de Teffé foi capaz de usufruir ao construir uma teia de influências que duraria até os tempos da Ditadura Militar brasileira, em meados dos anos 1970.
Nair adotou três filhos e publicou, em 1975, um livro de memórias intitulado “A verdade sobre a revolução de 22”, no qual conta as reviravoltas de sua trajetória como a primeira e única primeira-dama caricaturista do Brasil. Faleceu em 1981, aos 95 anos.
Evita: Muito Além de uma Primeira-Dama
Voltando o olhar um pouco mais ao sul da América Latina, outra personagem ilustre da história do século XX ficou conhecida por desempenhar bem mais que apenas o papel de primeira-dama de seu país. Carinhosamente apelidada de Evita, foi cultuada pelo povo argentino mesmo depois de sua morte. Estátuas e cartazes espalhados pelas ruas de Buenos Aires até os dias de hoje evidenciam a importância atribuída à figura histórica de Eva Perón por seus feitos durante o período peronista na Argentina, e a singularidade de sua história em comparação a de tantas outras primeiras-damas.
Nascida e criada no interior de Buenos Aires, Eva Maria Duarte iniciou sua vida adulta através de uma carreira como atriz na capital Argentina, em meados de 1935, desempenhando inúmeros papéis no cinema nacional. Em 1944, em um evento de caridade, Eva conheceu o Coronel Juan Domingo Perón, na época Secretário de Bem-Estar e Trabalho e Ministro da Guerra, com quem casou-se no ano seguinte.
Eva ressurgiu como Eva Perón, e passou a construir uma carreira política ao acompanhar o marido em visitas de sua campanha presidencial e viagens políticas. Quando Juan Perón vence as eleições e assume a presidência em 1946, Eva torna-se primeira-dama da Argentina. Ela passou, então, a envolver-se em movimentos de defesa de direitos das mulheres e de setores mais vulneráveis da sociedade.

Em sua ascensão como defensora de tais direitos, Evita fundou diversos programas sociais e criou inúmeras instituições educacionais e hospitalares ao redor do país. Por seus esforços em defesa de camadas mais humildes da sociedade, ficou conhecida como “porta-bandeira dos humildes” ou mesmo “mãe dos sem camisa” (em tradução direta).
Paralelamente, mergulhou de cabeça nos planos de política externa do governo Perón, ao acompanhar seu marido em um tour pela Europa para promover esforços de reconstrução e cooperação no pós-Segunda Guerra Mundial. Juntos, visitaram países como Espanha, Portugal, França e Itália, consolidando a parceria econômica e política da Argentina com alguns deles.
Para além disso, ainda em 1946, Eva apresentou um projeto de lei de sufrágio feminino, que foi aprovado em 1947. A primeira-dama também instituiu os conceitos de igualdade jurídica de cônjuges e autoridade parental compartilhada, adicionados à nova Constituição formulada por seu marido em 1949. Infelizmente, a carreira da artista e ativista que ganhou o coração de milhares de argentinos não foi muito adiante. Em 1950, foi diagnosticada com câncer de colo de útero, e faleceu em 1952.

Mesmo após sua morte, a figura de Eva Perón ficou conhecida como uma das mais emblemáticas e controversas da história da América Latina no século XX. Tinha apoiadores, que a consideravam um exemplo a ser seguido com tamanha devoção, e opositores, os quais viam suas manifestações políticas como ferramentas populistas do governo peronista, por muitos chamado de fascista, de seu marido.
Seu corpo foi embalsamado e visitado por mais de dois milhões de devotos em menos de duas semanas enquanto exposto no em prédios ministeriais em Buenos Aires. Sua história inspirou músicas, filmes e musicais. Evita foi o maior símbolo da grande influência e relevância política de primeiras-damas através do tempo.
Brigitte Macron
Entre as mais notáveis primeiras-damas da atualidade, é de grande destaque a francesa Brigitte Macron, esposa de Emmanuel Macron. Desde 2017, quando seu marido foi eleito, Brigitte sempre foi ativa publicamente e amplamente conhecida pelo povo francês.
Além de acompanhar o marido nos eventos diplomáticos, ela também comanda projetos próprios, voltados, por exemplo, à educação e ao feminismo. Ao longo dos últimos anos, entretanto, o desgaste político do governo Macron vem se refletindo também na perda de popularidade da primeira dama, acusada de ser desconectada da realidade e até mesmo um tanto autoritária.

Para além da parceria pública entre o atual governo brasileiro e Emmanuel Macron, Brigitte nutre uma boa relação com Janja, a primeira-dama brasileira. Inclusive, durante a visita diplomática de Lula a Paris, em Junho deste ano, as duas participaram juntas de um evento de apoio ao empreendedorismo feminino, em um café ao lado da Torre Eiffel.
As boas relações com o Brasil, entretanto, não são de sempre. Durante o governo Bolsonaro, o diálogo bilateral entre Paris e Brasília vivia um momento de crise: Macron pressionava por um compromisso maior com a preservação ambiental da Amazônia, o que o tornava alvo frequente de críticas do ex-presidente brasileiro.
No auge dos desentendimentos, Bolsonaro veio a comentar “não humilha cara, Kkkkkkk” em um meme postado por um apoiador no Facebook. A postagem apontava a aparência de Brigitte, em oposição à de Michelle Bolsonaro (então primeira-dama brasileira), como sendo a causa de uma inveja que motivaria a “perseguição” de Macron ao líder brasileiro.

A atitude de Bolsonaro veio a ser amplamente criticada nas redes sociais, não só no Brasil como em outros países e, especialmente, na França. A publicação foi apontada como sexista e desrespeitosa, para além das críticas à falta de profissionalismo diplomático do presidente. O presidente francês, à época, também condenou o caso: “Ele disse coisas muito desrespeitosas sobre minha esposa. Tenho grande respeito pelo povo brasileiro e só posso esperar que eles tenham em breve um presidente à altura do cargo”.
Para além deste caso, Brigitte é frequente alvo de difamações nas redes sociais. Muitas destas são motivadas pela diferença de idade entre ela, que soma 72 anos, e o presidente, de 47. Brigitte foi professora de literatura de Emmanuel, o qual afirma ser apaixonado por ela desde seus 17 anos de idade.
Além disso, uma fake news já desmentida há anos pelo casal é frequentemente mobilizada por críticos conservadores do governo francês. De acordo com esta, a primeira-dama francesa seria, na verdade, uma mulher trans-sexual. Recentemente, inclusive, a influencer norte-americana Candace Owens veio a tornar-se alvo de um processo por difamação, relacionado justamente a este boato.
Owens é uma importante figura da extrema-direita norte-americana, tendo ganhado fama por publicações conspiratórias acerca da vacina da Covid-19, do Holocausto e do pouso na lua. No que se refere ao processo contra ela, o casal Macron pretende apresentar evidências fotográficas e até mesmo laudos científicos a um Tribunal nos EUA, a fim de provar que Brigitte é uma mulher cis-gênero. O caso, evidentemente, é mais um reflexo da crescente tensão diplomática entre os Estados Unidos, sob o governo de Trump, e a Europa.
As Primeiras-Damas em Xeque: Entre o Patriarcado, o Feminismo Liberal e o Simbolismo Estéril
Apesar do reconhecimento da relativa importância política e simbólica das primeiras-damas, o objetivo deste artigo não é construir uma imagem de idolatria, e sim uma perspectiva crítica de seu papel efetivo na sociedade, avaliando, ao mesmo tempo, seu protagonismo e suas inúmeras controvérsias – seja pela associação pública com as agendas de seus respectivos maridos ou por fatores que dizem respeito a elas próprias.
O primeiro fator a ser analisado é a própria questionabilidade do termo “primeira-dama”, dado, sobretudo, o fato de que desempenhar ações sociais é uma opção daquelas que detém o título, e não uma obrigação intrínseca a ele. O primeiro-damismo, mesmo quando foge dos padrões tradicionais, ainda é uma prática que existe dentro da estrutura patriarcal da sociedade, e que pertence a ela: em outras palavras, o que é considerado subversivo no primeiro-damismo é antagônico ao próprio conceito e à instituição da qual ele faz parte.
Trata-se, aliás, de um cargo que está fundamentalmente associado à construção imagética das cônjuges de figuras políticas como mulheres, e em dimensões bastante conservadoras: como esposas e como figuras secundárias e assistenciais a seus maridos, e não como cidadãs e entes políticos e pensantes autônomos. Esse status pouco lisonjeiro, mesmo que aparente, à primeira vista, ser uma posição de destaque, confina aquela que dele dispõe a deveres cujo simbolismo é amplamente estéril – feminilidade, elegância, caridade – e reforça o estereótipo, tal como expresso por Simone de Beauvoir, da mulher como “Outro”, como membro do “Segundo Sexo”, o qual é definido por suas relações com os homens.
O segundo fator a ser observado com mais atenção é o da filantropia. Como foi mencionado diversas vezes, o filantropismo se tornou uma característica determinante do primeiro-damismo pouco tempo depois da adoção do termo, o que nos leva à rápida conclusão de que esse elemento, ao invés de desafiar e subverter o status quo, é tolerado porque converge para a manutenção de um sistema opressor. Dos tempos nos quais a filantropia estava mais relacionada ao mecenato das artes, a filantropia atingiu, hoje, o patamar de uma indústria auxiliar, que, segundo Julieta Caldas para a revista Jacobin, vê o mundo como um lugar de “riqueza crescente, de uma classe média em expansão e de menos desigualdade – mas que sofre suportando problemas que podem, com dinheiro o suficiente e a abordagem certa, ser solucionados em grande escala”.
Não é incomum, além do mais, que primeiras-damas façam uso de seu bom samaritanismo para se envolver em esquemas de corrupção. Esse foi o caso, afinal, de Rosane Collor, esposa de Fernando Collor – condenado à prisão pelo STF por corrupção passiva e lavagem de dinheiro – que se aproveitou de seu período como diretora da Legião Brasileira de Assistência para desviar verbas e favorecer seus familiares. Foi, também, o caso de Michelle Bolsonaro, que teria se envolvido com uma série de esquemas de corrupção sustentados pela família, dentre eles o da venda de jóias supostamente presenteadas a ela e a seu marido pelo governo da Arábia Saudita.
Em suma, a filantropia e as organizações de caridade em grande escala – na qual as primeiras-damas costumeiramente tomam parte – nada mais são do que mecanismos de manutenção da estrutura de classes na qual um indivíduo privilegiado que tem muito mais a ganhar do que a perder sente-se capaz de reverter uma situação estrutural de disparidade econômica – sendo os problemas contemplados sempre de baixa controvérsia e de pouco impacto a longo prazo (dentre eles a fome, as doenças e o acesso à educação).
Isso nos leva ao terceiro fator a ser tratado: a relação entre a veneração do primeiro-damismo e o feminismo liberal, prolongamento da segunda onda do feminismo, e também conhecido como “feminismo universalista”. Os princípios desse movimento se baseiam na crença de que a igualdade de gênero pode ser atingida sem modificar sistemas sociais já existentes, com foco nos direitos individuais e de escolha, na conquista de cargos tipicamente masculinos por mulheres, na igualdade legal e no fim da discriminação. Para a professora de política e filosofia na Nova Escola de Pesquisa Social Nancy Fraser, o feminismo tem sido cada vez mais cooptado pelos liberais e associado ao neoliberalismo para promover políticas hostis à classe trabalhadora.
O primeiro-damismo é um exemplo chave desse processo, assim como do “neoliberalismo progressista”, na medida em que cria-se a narrativa de que o fato de que uma mulher branca, heterossexual e abastada se encontra em uma posição de certo destaque político – em geral proveniente de um panorama socioeconômico privilegiado, com raríssimas exceções – quer dizer que o gênero feminino como um todo se encontra devidamente representado nesse âmbito e exerce plenamente sua cidadania.

Conclui-se, por fim, que o primeiro-damismo está, por fundamento, mais comprometido com a reprodução social do que com a mudança social. Mulheres como Eva Perón e Nair de Teffé foram, de alguma forma ou de outra, pioneiras, mas suas histórias são individuais e não representam a história das mulheres, nem se assemelham às dificuldades da vida material enfrentadas pela grande maioria das meninas e mulheres do mundo.
Referências
https://oglobo.globo.com/mundo/cinco-primeiras-damas-marcantes-na-politica-mundial-19149399
https://www.politize.com.br/primeira-dama
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46747022
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https://pt.wikipedia.org/wiki/Programa_Comunidade_Solid%C3%A1ria
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46747022
https://www.gazetadopovo.com.br/republica/rejeicao-janja-dispara-maior-nivel-mais-de-um-ano
https://fpabramo.org.br/focusbrasil/2024/07/23/crimes-em-serie-familia-bolsonaro/
https://jacobin.com/2021/10/philanthropy-is-a-scam
https://jacobin.com.br/2021/08/o-feminismo-liberal-e-inimigo-da-classe-trabalhadora/
https://www.simplypsychology.org/liberal-feminism.html#What-Is-Liberal-Feminism
https://www.aljazeera.com/opinions/2020/11/16/feminisms-second-wave-has-failed-women
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4gq5qevlj3o
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c17np7178k8o
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3e5d8pgj7no
https://www.bbc.com/portuguese/geral-56926480
https://www.escritoriodearte.com/artista/nair-de-teffe
https://pergamum.ufpel.edu.br/pergamumweb/vinculos/0000e9/0000e9b5.pdf
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-quem-foi-eva-peron-e-o-que-fez-na-argentina
https://sites.usp.br/portalatinoamericano/2690-2
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