Carregando agora
×

O Cristianismo Através da História Latino-Americana

O Cristianismo Através da História Latino-Americana

Por Enrico Spinelli e Carolina Astúa

Retorno ao Contexto Colonial: As Missões e o Bandeirantismo

Primeiramente, é importante ressaltar que é impossível entender a união entre religião e política na América Latina, muito menos as características bandeirantistas do avanço evangélico na Amazônia atualmente, sem antes analisar o que foi e como se deu a instrumentalização da religião católica na colonização das américas.

Em um cenário de intensas mudanças no continente europeu – com destaque para a passagem da idade média para a idade moderna – a ética da Igreja Católica, instituição até então hegemônica, tornou-se um obstáculo à expansão das atividades econômicas burguesas – visto que a Igreja condenava as práticas capitalistas nascentes, entre elas a usura, ou seja, cobrança de juros por empréstimos. Somado à isso, cismas dentro da própria Igreja levaram a uma forte instabilidade religiosa, o que muito se deve ao movimento de questionamentos trazido por Martinho Lutero por meio da Reforma Protestante.

Em meio a todo esse caos político, econômico e moral que assolava a Europa, a Igreja lança a “Contra Reforma Católica”, que, entre seus principais atos, criou a Companhia de Jesus – fundada por Ignácio de Loyola e outros estudantes, reconhecida por bula papal em 1540. Os jesuítas, como ficaram conhecidos os integrantes dessa nova ordem, responsabilizaram-se por expandir a fé católica e introduzi-la em novas regiões, dentre elas, as Américas.

Ação Jesuítica na América Espanhola

Os indígenas que ocupavam os territórios que hoje fazem parte do Paraguai, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Uruguai vieram a ter contato com os jesuítas aproximadamente um século depois do início da colonização espanhola. Os espanhóis estruturam nas suas colônias do Novo Mundo um sistema de organização conhecido como “encomienda” – caracterizada pela submissão de comunidades indígenas sob os cuidados de um encomendero, que poderia, por meio do trabalho compulsório, utilizar a mão de obra originária na agricultura ou extração de metais precioso, além do recebimento de impostos, ao passo que se compromete a catequizar a população nativa. Tal sistema devastou os povos originários, em decorrência das péssimas condições de trabalho e da transmissão de doenças europeias.

A escravidão, assassinatos em massa e outros abusos cometidos pelos colonizadores espanhóis contra a população indígena levou o Papa Paulo III, no ano de 1537, a publicar uma bula papal – “Sublimis Deus” – condenando a escravidão indígena e resguardando seu direito à liberdade e à propriedade. Ao mesmo tempo que, paradoxalmente, mantendo a necessidade dos povos de serem catequizados em prol da vida boa e santa, como pode-se ver, explicitamente, nesse fragmento:

“Os ditos índios e todos os outros povos que venham a ser descobertos pelos cristãos, não devem em absoluto ser privados de sua liberdade ou da posse de suas propriedades, ainda que sejam alheios à fé de Jesus Cristo; e que eles devem livre e legitimamente gozar de sua liberdade e da posse de sua propriedade; e não devem de modo algum ser escravizados; e se o contrário vier a acontecer, tais atos devem ser considerados nulos e sem efeito. [..] os mesmos índios e quaisquer outros povos devem ser convertidos à fé de Jesus Cristo através do anúncio da palavra de Deus e pelo exemplo de uma vida boa e santa.” 

Com isso, as missões jesuíticas se colocaram como obras missionárias de intervenção colonial, porém moralmente superiores à metrópole e sua colonização violenta. Assim, intercalava um posicionamento de respeito aos indígenas e seus costumes – desde que esses não violassem os princípios cristãos – e de imposição de uma cultura, valores e fé europeias.

A partir desse contexto, a Companhia de Jesus fixou-se no Novo Mundo por meio de assentamentos denominados “reduções”, que consistiam em aldeamentos indígenas liderados por padres jesuítas – muitas das vezes autossuficiente – e que contavam com um sofisticado plano urbanístico, com infraestrutura administrativa, econômica e cultural complexas. Tudo em funcionamento por meio de empreendimentos comunitários e colaborativos entre jesuítas e indígenas, com o enfoque central em catequizar e converter fiéis para a Igreja Católica. Apesar disso, várias dessas reduções cresceram muito, ao ponto de comercializarem produtos com a Europa, criarem modelos umbilicais do que viriam a ser programas de assistencialismo social, entre tantas outras contribuições que permitem atribuir a essas reduções o papel de basear, estruturar e dar vida às futuras cidades, muitas ainda existentes.

IMG_0634-1024x905 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
O sofisticado plano urbanístico da Redução de São João Batista, no Rio Grande do Sul, parte de um núcleo missioneiro guarani estabelecido na região de fronteira entre Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina – Fonte: Wikipedia.

Além disso, muitos estudiosos observam que a vida nessa reduções intensificou o processo de sincretismo religioso, o que se deve a características comuns entre as crenças nativas e cristãs e seu constante encontro no cotidiano das comunidades. Os jesuítas viriam a ser expulsos das colônias do Novo Mundo no século XVIII – cerca de dois séculos após a fixação dessa ordem missionária no continente – por motivos, de modo geral, de mudanças nas estruturas coloniais , predominantemente refletidas de conflitos na Europa

Com essas considerações, se mostra visível o fato de que as missões evangelizadoras e civilizatórias jesuíticas – por terem ficado mais de dois séculos influenciando e desenvolvendo as populações originárias e promovendo um contato diário entre conceitos europeus cristãos de moral, ética e organização, com hábitos indígenas de valorização grupal e crenças autóctones – foram extremamente importantes na criação de uma ideia de sociedade ainda presente hoje em dia. Tal fato é notável na mistura entre política e religião, no sincretismo e na própria intolerância religiosa; todos tópicos que serão abordados adiante.

Ação Jesuítica na América Portuguesa

No Brasil, o avanço cristão se deu por meio da cruz e da espada, muitas vezes justificada pelo zelo missionário da fé cristã, uma vez que os indígenas eram vistos como pagãos – desconhecedores da fé. Ou até pela Teoria da Guerra Justa, visto que os portugueses vieram a tomar conhecimento que os indígenas praticavam formas de politeísmo – envolvendo algumas vezes rituais de sacrifício – e, portanto, passaram a ser vistos como pecadores, passíveis de guerra e escravidão. 

Diferentemente da colonização espanhola, a coroa portuguesa sempre buscou uma integração entre suas colônias na África e o Novo Mundo, utilizando majoritariamente a mão de obra africana nos empreendimentos coloniais. Apesar disso, e embora só tenha sido proibida no século XVIII, o abuso da mão de obra indígena foi realidade principalmente nas primeiras décadas de colonização, por meio da extração do pau-brasil em troca de objetos sem importância econômica aos portugueses – escambo – e da escravidão nua e crua nos latifúndios de cana-de-açucar. 

Os jesuítas rapidamente se apresentaram como obstáculos para a escravidão, uma vez que defendiam que os indígenas deviam ser catequizados, o que fez a coroa portuguesa buscasse justificativas por meio da Guerra Justa caso houvesse conflito entre colonos e nativos – fato repensado por ela anos mais tarde que desaguou em uma  abolição completa. Tal divergência no trato com os povos originários entre a Igreja e a Coroa Portuguesa intensificou o processo de interiorização do Brasil, levando os jesuítas ocuparem o norte – próximo da região amazônica – e o sul do território. 

IMG_0635-1024x648 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
“Na Cabana de Pindobuçu”, de Benedito Calixto de Jesus – Fonte: Incrível História.

Com base nos estudos publicados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), no Caderno de Pesquisa e Documentação “Assentamentos Jesuíticos Territórios e Significados”, o qual aborda, dentre tantos autores, obras do jesuíta e historiador português Serafim Leite (1890-1969), fica clara, tal qual na América espanhola, a centralidade da religião na estruturação dos povos sul americanos, sendo essa uma das principais, se não a principal, motivações da colonização do Novo Mundo pelos portugueses. 

“Onde chegasse a proa dum [sic] navio português, podia aparecer ou não aparecer a espada, surgia com certeza a Cruz.” 

Seguindo essa mesma ideia, Serafim L. traça uma clara influência da religião na formação da nacionalidade brasileira:

“Outra idéia norteadora do discurso de Serafim Leite é a de que a Companhia de Jesus teve uma participação fundamental na ocupação do território da colônia portuguesa da América, que para o autor, por um deslizamento discursivo, se confunde com a formação da nacionalidade brasileira: “convém saber que, de todas as missões dos Jesuítas Portugueses, a que teve efeitos mais perduráveis foi a do Novo Mundo. A sua obra confunde-se com a própria formação do Brasil.” 

Tal qual trazido pelo historiador, a influência da religião na criação das bases nacionais na América Latina é clara, e podemos observar isso no fato dos estados colonizadores (Portugal e Espanha) terem o cristianismo como religião oficial, e segundo o princípio “Cuius regio, eius religio”, consagrado na Paz de Augsburgo, de 1555 – em tradução livre “quem tem a região, tem a religião” – a população das colônias tinha que seguir a religião do rei. 

Por pressuposto, a imposição da fé cristã, somada às crenças originais dos nativos, e a mescla dessas religiosidades às tradições trazidas pelos africanos – especialmente no Brasil, visto que a colonização espanhola manteve o uso da mão de obra indígena como majoritária durante toda a sua ocupação – criou um ambiente perfeito para o sincretismo religioso que se faz visível no cotidiano do continente, seja na linguagem, nas ações, pensamentos ou em festividades. Ademais, a oficialização do cristianismo implicava a necessidade de ser adepto à essa religião para ser cidadão – indivíduo que possui o direito de participar na esfera pública, exercer direitos políticos e influenciar no destino comum da sociedade. Nesse cenário, essa condição perpetuou-se até a proclamação da República em 1889, quando ser cristão deixa de ser intrínseco no que é ser cidadão, mas cuja ideia é tão arraigada que ainda deixa marcas profundas e visíveis nas sociedades modernas.

Ao se comentar sobre os jesuítas no contexto brasileiro, os nomes e contribuições de José Anchieta e Manuel da Nóbrega se fazem incontornáveis, uma vez que participaram ativamente na defesa do território brasileiro, na defesa do indígena contra a exploração dos colonizadores e na ampla catequese dos nativos, fundando diversos aldeamentos prósperos que hoje são de suma importância para o Brasil, como São Paulo, a atual capital econômica do país e a cidade mais populosa da américa. Frei Odúlio Van der Vat, em sua obra “Princípios da Igreja no Brasil”, apresenta passagens que remontam à importância da atuação de Nóbrega e outros jesuítas: 

“Quando em 1549 desembarcaram em Porto Seguro os primeiros jesuítas, encontraram a terra toda revirada por muitas inimizades. Graças, porém, à sua intervenção, muitos se reconciliaram publicamente com a igreja.”

É conclusivo, portanto, que é impossível analisar a atual conjuntura dos países americanos colonizados pelos portugueses e espanhóis sem antes entender, pelo menos de forma geral, o quão central a religião é para esse processo. A instrumentalização da fé nesse período é inegável e ambígua, uma vez que justificou a colonização e seus efeitos colaterais abomináveis, mas também agiu em favor dos povos originários e de seus direitos. 

Por meio das missões jesuíticas, a religião se disseminou por pregações em aldeamentos que serviriam de modelo para futuras cidades, dos quais muitos prosperaram e se fazem relevantes até hoje, e, o mais importante, agiu ativamente na formação da nacionalidade e das bases comuns das sociedades americanas, que nos ajudam a explicar a intimidade entre religião e política ainda nos dias atuais, mesmo com a laicidade estatal quase que hegemônica no continente. 

A Religião Também É um Animal Político:

Uma Análise do Século XX 

O cristianismo, entre sua criação e suas reformas, sempre foi conservador e, mais do que isso, foi constantemente instrumentalizado pelas elites para aproximação e manipulação das massas. Entretanto, ao longo da história, já foi tomado por movimentos da classe proletária segundo uma interpretação da fé baseada em um Jesus libertário e uma busca por igualdade e justiça aos oprimidos. Nesse contexto, na década de 1960 na América Latina, surge a ideia de uma Teologia da Libertação que, de modo disruptivo, reconhecia os impactos da industrialização, se alimentava do cenário bipolar da Guerra Fria e, principalmente, reprovava a guinada autoritária. 

Essa maneira de analisar a religião ecoou ao longo de todo o continente. Com um olhar voltado à Colômbia, por exemplo, é possível destacar o guerrilheiro e padre Camilo Torres que, contribuindo e organizando movimentos revolucionários e proletários, foi vítima de assassinato em 1966 por forças públicas. Assim como Camilo, destaca-se o padre cubano Guillermo Sardiñas que inaugurou seu envolvimento militante no Movimento Revolucionário 26 de Julho. Na luta antiditadura e em prol de um governo do povo, comemorou ao lado de Fidel Castro o ano de 1959 e a tomada do poder das mãos de Fulgêncio Batista. 

IMG_0685-1024x575 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Camilo Torres com estudantes ativistas – Fonte: Arquivo People Dispatch.

Tal força teve alguns de seus impactos ainda mais fortes em El Salvador, onde cabe mencionar o protagonismo do padre Rutilio Grande. O líder católico jesuíta, influenciado por exemplos brasileiros e pelas ideias de Paulo Freire, fundou Comunidades Eclesiais de Base (CEB) em El Salvador. Com um enfoque na organização das classes populares em prol da análise e da criação de propostas alinhadas com a realidade social e com fundamentos bíblicos, essas instituições contribuíram para inaugurar a Teologia da Libertação. Mesmo sob fortes críticas polarizadoras, o clérigo manteve seus esforços em torno de sua agenda social, inclusive publicamente denunciando o governo por envolvimento nos exílios e desaparecimentos de outras figuras religiosas. Em março de 1977, tornou-se um exemplo latino americano da revolução e mártir salvadorenho ao ser assassinado a tiros por parte do governo militar em conjunto aos esquadrões da morte – grupos paramilitares de extrema direita aliados ao Estado e responsáveis por eliminar a oposição. Em resposta, o arcebispo do país – e amigo de Rutilio – Dom Oscar Arnulfo Romer, rompeu laços com o governo, levando a seu próprio assasinato em 1980 – também frente a um homicídio armado. 

No caso brasileiro, a união da religião com selecionadas pautas de esquerda também foi evidente. Como país que inaugurou as CEBs, uma parte da Igreja brasileira passou a defender, de forma atípica, a organização das classes e a participação ativa ao invés da tradicional “passividade diante das escolhas de Deus”. Assim, em espaços como as Comunidades Eclesiais, os trabalhadores ganharam ambiente para discussão. Entre seus resultados mais marcantes, destaca-se a junção do povo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) na elaboração dos primeiros rascunhos e da própria fundação do Movimento Sem Terra (MST).

Também é de renome a atuação de figuras específicas contra a ditadura militar e em apoio a grupos revolucionários. Sob essa perspectiva, cabe a menção dos freis dominicanos Betto, Tito, Ivo e Fernando – os quais possuíam estreita relação com a Ação Libertadora Nacional (ALN) e com Carlos Marighella – e do arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns. Além da contribuição em tarefas de apoio, há uma relevância histórica das personalidades quando considerada a produção documental do que viveram, como é o caso do livro “Diário de Fernando – Nos Cárceres da Ditadura Militar Brasileira”, de 2009, e do projeto “Brasil: Nunca Mais”. 

IMG_0686-1024x691 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Manifestação contra a ditadura em 1968 – Fonte: Arquivo Nacional/ Correio da Manhã.

Entretanto, com a perspectiva contemporânea, fica claro que não é essa vertente da Igreja que possui maior impacto na política, tanto no Brasil quanto na América Latina. Considerando as ditaduras do século XX, o que se lembra da influência religiosa é a manifestação a favor do golpe militar denominada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que foi capaz de mobilizar em torno de 500 mil pessoas em defesa de um regime de extrema direita de cercamento de suas próprias liberdades e direitos. Isso vem de um histórico conservador, mas também de uma política externa profundamente intervencionista dos Estados Unidos na Guerra Fria. 

IMG_0687-1024x690 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Cartaz na Marcha da Família com Deus pela Liberdade na defesa do golpe militar – Fonte: FGV CPDOC.

Na defesa do bloco capitalista liberal, a potência americana, visando manter sua esfera de influência nas Américas, atuou deliberativamente no enfraquecimento dos movimentos de esquerda e na imposição dos regimes ditatoriais. Sob esse viés, as próprias instituições religiosas norte-americanas envolveram-se na disseminação de teorias opostas à Teologia da Libertação. Desse modo, protagonizado pelas forças pentecostais e fundamentalistas, em consonância com os interesses das elites liberais, surgiram os ideais de uma Teologia do Domínio. Com o pressuposto de que seria difícil encaminhar o povo ao retorno da submissividade, as novas correntes de pensamento impulsionaram a atuação dos cristãos na imposição de valores conservadores nas mais diversas áreas da sociedade; da cultura à política. Ou seja, em termos religiosos, “infiltrar-se e agir no mundo do pecado e da tentação para melhorá-lo”.

Analogamente, viu-se um retorno de ideias protestantes, uma vez articuladas pelas revoluções liberais burguesas, traduzidas em um “novo” Evangelho da Prosperidade que aponta a meritocracia como verdade divina. Nesse sentido, o enriquecimento é atribuído ao esforço – e a doação individual às atividades religiosas – aumentando a alienação das massas quanto a existência de um sistema de explorações. 

Para além da influência ideológica, os Estados Unidos influenciaram a política de dentro para fora em uma verdadeira “cruzada contra o comunismo”. O caso brasileiro, um dos mais expressivos – e documentado no lançamento de Petra Costa “Apocalipse Nos Trópicos” – contou predominantemente com missionários de vertentes reacionárias da Igreja encaminhados pelo governo americano para a manipulação e conversão de políticos e de líderes religiosos nacionais. Identifica-se, assim, uma agenda análoga ao tempo colonial, onde as vontades de um colonizador são cumpridas na ala cultural pela imposição da fé. Nesse cenário, ainda que em um contexto de escassez proposital de dados e documentos, destaca-se a Fundação para Ação Política e Religiosa na Ordem Civil e Social em 1954 nos Estados Unidos como marco mais explícito da inauguração dessa iniciativa – que durou até a década de 70. 

Paralelamente, identifica-se o surgimento de inúmeras igrejas pentecostais e evangélicas “exportadas” dos Estados Unidos. As próprias Assembleias de Deus se espelharam fortemente na potência anglosaxã e, apesar de datarem de antes da época mencionada, foram também instrumentalizadas no período. Em consequência dessa separação política dos projetos católicos e dos protestantes, as ditaduras militares alimentaram os evangélicos conservadores e americanizados – tendência que culminou em mudanças até os dias de hoje. Essas podem ser explicitamente vistas pelo crescimento dos fiéis evangélicos e da multiplicação de igrejas, especialmente no Brasil, como apontado pelos dados do IBGE, que indicam que essa parcela da população já somava 26,9% em 2022. 

Todavia, esse processo não se restringiu ao Brasil, e nem à América Latina. Ao contrário, foi um dos casos mais evidentes da religião como ator político e ator das relações internacionais. Nesse sentido, destaca-se a influência indireta dos EUA até por meio da Associação das Famílias para a Unificação e Paz Mundial, uma instituição conservadora,  anticomunista e sul coreana, porém que abriu seu caminho em território brasileiro – com proteção ditatorial – sob o nome de Igreja da Unificação. 

Para ir ainda mais além, deve-se entender a intervenção externa como violenta. No recorte do século XX, tal brutalidade pode ser vista de forma prática: os Estados Unidos fomentaram uma mentalidade de “caça às bruxas” nos países latinos ao mesmo tempo que concederam todos os instrumentos para que ela fosse realizada – do financiamento, ao armamento, ao treinamento de grupos radicais oficiais ou até paramilitares nas ditaduras. Como resultado, conforme o esperado, houve uma repressão – via exílio, encarceramento, e assassinato – daqueles que criticavam o governo, incluindo os membros do clero que pregavam uma religião próxima às demandas do povo. Por seleção artificial, prosperaram, mais uma vez, os movimentos conservadores e radicais de uma religião submissa às elites político-econômicas e seus interesses. Entretanto, o legado histórico que isso concedeu aos países latinos, de tamanha influência religiosa na política, é tão brutal quanto.

Religião em Dados na América Latina

Tendo em mente a dimensão da importância da religião na formação das nacionalidades latino-americanas, é essencial traçar um paralelo com a atualidade. Para isso, deve-se mensurar o quão presente e determinante ainda é a influência cristã nos Estados americanos e como ela se relaciona com as outras crenças igualmente presentes na formação do povo latino.

Previamente à análise dos dados da religião cristã na sociedade atual, é necessário esclarecer a escolha por não distinguir os subgrupos existentes dentro dela, não separando-a em católicos, protestantes (que ainda podem ser destrinchado em evangélicos, metodistas, entre tantos outros) ou outras vertentes importantes, mas sim sob a união do mundo cristão. Tal opção de análise pode levar a constatações não tão condizentes com a realidade se realizado de forma arbitrária. Entretanto, uma perspectiva detalhada requer um estudo e espaço muito mais amplo do que esse artigo busca propor. Logo, nos preocupamos em expor os dados absolutos, ao invés de informações particulares de cada vertente, para evitar possíveis erros. Além disso, os dados são aproximados e estão sujeitos a variações entre organizações, uma vez que os métodos e variáveis externas podem variar, afinal, são dados coletados em amostras usadas para caracterizar populações inteiras.

Segundo dados de 2020 coletados pela Pew Research Center, aproximadamente 85% da população da América Latina e Caribe é cristã. Em diálogo com o Gordon-Conwell Theological Seminary – um dos maiores seminários evangélicos da América do Norte – em números absolutos, a quantidade de cristãos nessa região do planeta é próxima de 600 milhões de pessoas (quando incluído o México, país não considerado na análise colonial anterior devido às suas diferenças históricas). Os dados mostram uma definitiva dominância dessa crença mesmo em uma realidade na qual os cristãos, proporcionalmente, estão perdendo espaço frente à presença de demais religiões no mundo. No que se observa, tal perda de espaço decorre do acelerado ritmo de crescimento do islã, queda de natalidade no ocidente, entre outros motivos. Em termos percentuais, a população cristã mundial recuou de 30,6% para 28,8%. 

Voltando o foco para a América Latina, apesar da sua dominância histórica fruto de um passado colonial fortemente impositivo no quesito religioso, é possível perceber que a população cristã vem caindo em boa parte do continente. Como exemplo, é possível citar o Chile, cuja população cristã corresponde a 68.3% do total – uma diminuição de 17,7% desde 2010 – enquanto a parcela sem religião subiu 16.7% nesse período – chegando a 30.3% em 2020. Mesmo diante dessa expressiva perda da sua base, a religião cristã ainda é indiscutivelmente influente no país, contabilizando mais de ¾ da população chilena. Nesse sentido, ainda segundo dados da Pew Research Center, cabe mencionar a porcentagem da população latina-caribenha adepta à outras religiões, em especial islâmicos, hindus, entre outras que, quando somadas, cresceram 111,8%. Ainda assim, esse dado representa menos de 4% do total dessa população 

Em termos absolutos, Brasil e México, respectivamente, são o segundo e o terceiro países com a maior população cristã do mundo, mostrando o pilar que a religião é na formação cultural, social e histórica para os latinos. Ao serem somados aos EUA, país com a maior população de fé cristã, o trio contabiliza cerca de 25% da população cristã mundial, refletindo a centralidade das Américas para a manutenção e ampliação dessa corrente religiosa no mundo. 

Ao mesmo tempo, o Paraguai se apresenta como um dos países com a maior proporcionalidade de cristãos por população no mundo, com cerca de 95% do povo crente em Cristo. Não coincidentemente, as regiões que correspondem ao Paraguai contemporâneo – em soma ao atual sudeste brasileiro, sul boliviano, entre outras – foram marcadas por uma forte atuação dos jesuítas, a qual o autor Anthony Huonder descreve, no artigo “Reduções do Paraguai”, como sendo: 

“[…] uma das mais singulares e belas criações da atividade missionária católica , contribuíram mais do que qualquer outro fator para fixar o nome do Paraguai na história. Elas foram objeto tanto da mais sincera admiração quanto das mais amargas críticas”. 

Ao fim, e por motivações políticas, esse capítulo da história deságua na “Guerra Guaranítica” – conflito militar entre as tribos vinculadas aos jesuítas e tropas espanholas e portuguesas. De qualquer forma, o passado da Bacia do Rio do Prata é essencial para entender a força que o cristianismo possui hoje na região.

Como maior exceção, destaca-se o Uruguai: único país das Américas cuja maioria populacional é não-religiosa, representando 52,4%. Ainda, no país, a crença cristã se apresenta norteadora para uma parcela extremamente significativa: 44.5% dos uruguaios. Com isso em mente, é interessante analisar o quão ‘inevitável’ é a religião cristã mesmo em regiões onde ela não é a dominante (caso exclusivo uruguaio), já que ao se desconsiderar a população não-religiosa, ela ainda permanece como hegemônica dentre as outras crenças. 

IMG_0691-1024x341 O Cristianismo Através da História Latino-Americana

Portanto, os dados referentes aos dias atuais mostram o quanto a fé cristã ainda é presente nas sociedades latino-americanas, consequentemente se mostrando presente em todos os centros decisórios desses países, e inevitavelmente influenciando nas políticas públicas do passado – com ainda mais hegemonia – no presente e no futuro, já que, como visto, mesmo com variações percentuais negativas na quantidade de população cristã, ela ainda permanece dominante. 

A Questão Brasileira

Direcionando a análise de dados para a atual conjuntura brasileira, nota-se uma expressividade cristã inegável, mas que vem sofrendo mudanças no seu cerne, marcada por uma queda do catolicismo e avanço do evangelismo. Apesar da redução católica, o contrapeso exercido pelos evangélicos se mostra suficiente para manter a dominância indiscutível do cristianismo no solo brasileiro. Além disso, é importante ressaltar uma reflexão de Jeferson Batista, jornalista, mestre e doutorando em Antropologia Social na Unicamp, em seu artigo “A nova fotografia da religião no Brasil segundo o Censo de 2022″:

”É preciso, no entanto, colocar uma lente crítica sobre esses dados. A identidade religiosa, por mais central que possa ser na vida das pessoas, precisa ser articulada com outras dimensões – como raça, gênero, classe e território. A análise se torna mais relevante quando combina dados quantitativos com interpretações qualitativas e sensíveis ao contexto social.”

Segundo dados do censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de estabelecimentos religiosos (579,8 mil) em solo nacional é superior à soma de instituições de ensino e de saúde (511,9 mil). O simples fato de ser possível realizar esse paralelo mostra a importância generalizada da fé na vida do brasileiro, um país onde a cultura e a religiosidade estão intimamente relacionadas e presentes nas bases da nossa nacionalidade. Apesar disso, é necessário abordar tais dados com uma visão crítica, uma vez que números absolutos podem dar uma impressão inverossímil – a proporção e a amplitude de alcance de uma instituição pública de educação é maior do que uma unidade de estabelecimento religioso, por exemplo.

Se baseando em dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre todos os estabelecimentos religiosos no país em 2021, 71% são evangélicos – entre pentecostais, neopentecostais e evangélicos tradicionais – ao passo que 11% são católicos – uma proporção de 82% de todos os templos destinados à cristandade enquanto 18% é dividido entre todas as outras crenças professadas em solo nacional. Tais dados corroboram com a tendência atual observada de que os católicos estão diminuindo enquanto os evangélicos avançam, enquanto mostra a expressiva popularidade que o protestantismo tem sobre a população brasileira.

Embora a quantidade de católicos tenha diminuído, o avanço evangélico se mostra essencial para a manutenção da dominância cristã no país. Se no Brasil Império o protestantismo era igualmente posto às margens da sociedade, hoje ele representa, por meio da base evangélica, 26,9% da população. Somando católicos e evangélicos, a crença cristã ainda é a norteadora de 83,6% da população. Logo, nem é necessário dizer que, por seus valores éticos-morais servirem de base para mais de ⅘ do povo tupiniquim, a fé cristã ainda permanece como incontornável no processo político, já que estar de acordo com as questões morais da igreja ou aliado politicamente com líderes e missionários cristão significa se imbuir de uma ampla base apoiadora que por si só já é o suficiente para qualquer eleição.

Com vista para a centralidade da igreja cristã ainda hoje, se faz importante destacar sua proeminência econômica bilionária. De acordo com dados da Receita Federal, publicados pelo jornal O Tempo, em 8 anos a arrecadação de igrejas no Brasil praticamente dobrou. Se em 2006 o montante era de 13,3 bilhões, ele chegou na casa dos 24 bilhões de reais em 2013 – corrigido pela inflação, o valor chega a 32 bilhões no ano de 2019. Dessa forma, além de continuar sendo quem dita, não mais oficialmente, boa parte das condutas morais sociais, a igreja também se mostra uma empresa de dimensões colossais que arrecada bilhões anualmente e só tem tendência a aumentar. 

Ao mesmo tempo que tais instituições arrecadam valores recordes a cada ano, elas também aumentam sua dívida com a União – uma quantia avaliada em 2,15 bilhões de débitos tributários – de acordo com dados da Receita Federal. Interessante notar que mais da metade dessa dívida (1,13 bilhões de reais) foram adquiridos no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Não coincidentemente, foi um governo que apelou, durante toda a candidatura e governo, para os bons costumes pregados pela igreja cristã. Tal relação entre Bolsonaro e o aumento das dívidas das instituições sagradas cristãs, e a relação da ditadura e o apoio inicial de setores conservadores da igreja ao golpe devem nos alertar para os perigos dessa intimidade entre religião e política que nos acompanha desde o tempo da colonização, sendo necessário, talvez, levantar questionamentos do quão essa relação é saudável para a manutenção do regime democrático.

Ainda de acordo com o censo do IBGE de 2022, é notável a perda de presença dos católicos ao longo do tempo. Em 1872, ano do primeiro levantamento censitário no Brasil no quesito religião, 99% da população se reconhecia como católica. Interessante é que, no Brasil Império, ser católico era quase inegociável, uma vez que o catolicismo era a religião oficial, portanto, ditava os valores morais e sociais, ao passo que apenas católicos gozavam dos plenos direitos políticos e jurídicos. A título de curiosidade, adeptos de outras religiões eram postos à marginalidade, excluídos da possibilidade de culto público, além de enfrentarem dificuldades quanto ao reconhecimento legal do matrimônio, entre outros, por exemplo. 

IMG_0692 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Dados coletados do censo de 2022 do IBGE.

Esse panorama muda nos dias atuais, no qual a liberdade religiosa é lei e o estado é laico, encorajando as diversas massas populares a exporem suas crenças abertamente em contraposição a um passado no qual tiveram que se esconder sob o véu da clandestinidade – na vida pública se diziam católicos e na vida privada professavam a sua fé. Tanto é isso que hoje, após o último censo, a quantidade de católicos, em termos percentuais, caiu para 56,7%, enquanto crenças não-cristãs correspondem a 6,9% da população total. O candomblé e a umbanda – crenças de matriz africana mais populares – triplicaram sua quantidade de seguidores, passando de 0,3% para 1% – atingindo 1,8 milhões de pessoas. Tal aumento pode ser visto como um reflexo do movimento de valorização da cultura negra e de outros grupos minoritários discriminados e silenciados por séculos, achando nas liberdades democráticas meios para popularizar e professar as crenças que contribuíram para a sobrevivência e luta desses povos.

A Igreja nas Entrelinhas Constitucionais

A separação Igreja-Estado na América Latina acompanhou o movimento de racionalização política das revoluções liberais, ganhando legitimidade jurídica após as independências coloniais no século XIX. Entretanto, a classificação de “Estado Laico” diz respeito a mais do que uma lei de independência dos poderes. Considerando o contexto de imposição do cristianismo e influência enraizada da Igreja nos países ibero-americanos, assim como a própria análise demográfica que confirma a maioria latejante cristã, a laicidade nunca se firmou de maneira plena, impactando fortemente a legislação até a história contemporânea. Tal fato pode ser exemplificado pela referência a Deus em 13 das 20 constituições dos países que tradicionalmente compõem a América Latina. 

Em uma análise mais específica, porém sem consenso definido na literatura, é possível classificar as duas dezenas de países entre aqueles sob regime Confessional de Igrejas de Estado – singularmente a Costa Rica – regimes de relação Igreja-Estado – Argentina, Bolívia, El Salvador, Guatemala, Panamá, Paraguai, Peru e República Dominicana – e de separação Igreja-Estado – Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, México, Equador, Haiti, Honduras, Nicarágua, Uruguai e Venezuela. Na teoria, essa gradação demonstraria, em ordem decrescente, o privilégio concedido pelo poder público às instituições religiosas até, no último caso, a igualdade de culto. Na prática, entretanto, ainda que todos os países afirmem plena liberdade religiosa, conduzem suas políticas com forte interferência de grupos de interesse e favorecimento de uma maioria cristã, sendo esse fenômeno feito de modo informal ou explicitamente garantido por lei.

IMG_0688-1024x632 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Procissão da Sexta-Feira Santa em La Paz, Bolívia, reconhecida pela legislação do país como Patrimônio Cultural Imaterial desde 2023 – Fonte: EFE.

Aprofundando-se na relação legal entre as pessoas jurídicas em debate, é possível usar a Argentina como um exemplo de país que é laico no papel, porém possui inúmeros regimentos que contestam essa característica, e a Costa Rica como único exemplo latino explícito de nação não-laica. Para tal, compara-se o conteúdo da Constituição dos dois:

 “O governo federal apoia o culto apostólico católico romano.” – Artigo 2° da Constituição Federal Argentina de 1994.

”A religião Católica Apostólica Romana é a do Estado, que contribui para sua manutenção, sem impedir o livre exercício na República de outros cultos que não contestem a moral universal nem os bons costumes.” – Artigo 75° da Constituição costarriquenha de 1949, revista em 2003.

No primeiro caso, há um apoio simbólico sem demonstração de singularidade da religião. Porém, ao longo do documento, fica claro que existem benefícios e que esses atuam de modo ainda mais concreto. Até 1994, na Argentina, o presidente, por lei, deveria ser comprovadamente católico – fato que supera uma simples beneficiação e atinge caráter excludente. No mesmo país, todas as instituições religiosas devem buscar seu reconhecimento por um trâmite legal via Registro Nacional de Religiões, exceto as organizações da Igreja Católica que são automaticamente validadas. 

Adicionalmente, cabe mencionar que a interrupção total do financiamento de padres, bispos e escolas particulares católicas com dinheiro público apenas aconteceu em 2024. Em 2018, ano em que foi decretado o início de uma separação financeira gradual entre Estado e Igreja, o governo ainda era responsável pelo salário de 140 bispos e arcebispos, 600 padres e 1200 seminaristas. Entre avanços e regressos, no mesmo ano de 2024, a administração de Javier Milei extinguiu o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo, que também lidava com a violência religiosa no país.

No segundo caso, na Costa Rica, a inserção da Igreja no âmbito normativo se dá por meio da definição da religião como estatal, mas também por projetar a moral cristã em um conservadorismo da sociedade. Nesse cenário, destaca-se que, como previsto pelo Artigo 194° da Constituição, funcionários públicos devem jurar seu comprometimento não somente à nação, mas também a Deus. No mesmo sentido, a Lei de Educação n.º 2160 exige um ensino ainda baseado na formação cidadã cristã tradicional, sendo essa base teológica elencada como um dos objetivos do sistema escolar do país. 

IMG_0689-1024x565 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Bispos costarriquenhos pronunciam-se sobre a importância do voto nas eleições do país em 2022 – Fonte: Conferência Episcopal Católica da Costa Rica.

Dentre esses exemplos, também é possível ver a voz conservadora contra a defesa de garantias individuais em um país que é, paradoxalmente, sede da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Sob esse viés, em 2024, enfatiza-se como o Projeto de Lei contra o Silêncio nos Crimes Sexuais contra Crianças – que previa a obrigatoriedade de membros do clero relatarem às autoridades competentes a confissão de fiés que poderiam auxiliar na acusação ou julgamento de crimes de abuso sexual a menores de idade ou pessoas com deficiência – foi abertamente repudiado pela Conferência Episcopal Católica da Costa Rica (CECOR). 

Apesar do exemplo costarriquenho, em destaque pelo escândalo mais recente, em muitos Estados da América Latina tal omissão também é permitida. Da mesma maneira, países como a Guatemala e República Dominicana também preveem subsídios públicos legais às entidades católicas, Panamá também exige o ensino religioso, Peru e Paraguai também engrandecem as contribuições morais cristãs para a sociedades, entre muitos outros exemplos. Um dos mais clássicos, nesse sentido, é a experiência compartilhada por todo território latino de manutenção de símbolos religiosos, com destaque ao crucifixo, em instituições públicas, como existe no próprio plenário da Câmara dos Deputados brasileira. 

IMG_0690-1024x679 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Plenária julga o uso de símbolos religiosos em instituições públicas – Fonte: Cristiano Mariz/Agência O Globo.

Na prática, o que é muitas vezes mascarado pela falta de uma união jurídica transparente Igreja-Estado é como, na realidade, o poder público tem relações desiguais com as diferentes organizações religiosas e, por isso, não se pode dizer que há igualdade de tratamento. Ao contrário, fica evidente a maior participação cristã, fator que é determinante, por exemplo, para a lentidão no avanço de pautas sociais. 

A respeito desse tema, cabe mencionar como, até 2020, o aborto apenas era legalizado em Cuba, nas Guianas e no Uruguai. Tanto que, mais uma vez analisando o caso Argentino, o Vaticano deliberadamente interveio na política do país em 2018 – negociando com parlamentares – para impedir a aprovação no Senado de tal direito reprodutivo, justificando-se sob valores morais quando, na realidade, é uma questão de saúde pública. Na pauta dos direitos da comunidade LGBTQIA+, repete-se o atraso: o primeiro reconhecimento legal de um casamento entre pessoas do mesmo sexo teve como cenário a Argentina, e como data o recente ano de 2010. Sem um consenso latino, países como a Costa Rica avançaram na pauta em 2020, o México em 2022 e, ainda hoje, existem aqueles que não possuem qualquer amparo legal à união ou matrimônio homoafetivo.

IMG_0637-1024x606 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Onda de protestos na América Latina pelo aborto legal em 2018 – Fonte: Tuane Fernandes/Farpa/Folhapress.

Encaminhamentos Contemporâneos

O cristianismo, como demais religiões, pode ser visto como uma manifestação cultural com benefícios para a vida social. Ele tem a capacidade de criar um senso de comunidade, redes de apoio e amparo socioemocional importantes para o indivíduo. Porém, não se pode esquecer que a Igreja é uma instituição e que o cristianismo também é um movimento, e que esse movimento conta uma história política e, até os dias de hoje, a escreve diariamente na América Latina. Ao retomar as passagens deste artigo, essa história é pincelada através de momentos chave para o entendimento do quão enraizado está o culto e o privilégio cristão. 

Desde as tentativas de homogeneização do povo para a devoção única ao cristianismo até o poder político que os padres jesuítas tiveram na própria formação das primeiras comunidades, da delimitação de fronteiras e da criação de um senso de nação ainda na pré independência. Avançando no tempo, também destaca-se as ramificações que a Igreja foi tomando e como essas foram sendo escolhidas e articuladas por políticos e grandes potências para a manutenção de um status quo – seja esse o de dominação das elites nos níveis nacionais, ou até o de hegemonia de um projeto ideológico em escala global. Tudo isso, e muito mais, criaram o cenário atual de maioria demográfica cristã e, logo, de capacidade de influência por parte de líderes religiosos na mobilização das massas. 

Em uma retórica consolidada há séculos, a religião como guia é difícil de ser contestada. Nesse sentido, a violência desse cenário é contra a liberdade política plena. Quando a religião torna-se um trampolim para chegar ao poder, garantindo um imenso apoio popular, o eleitor é cegamente aproximado das urnas sem compreender os verdadeiros planos legislativos e governamentais propostos e, logo, fica alienado quanto aos interesses pessoais de quem faz essas políticas e as mascara por trás dos ditos “valores cristãos”.

Apenas para citar exemplos do tão performático caso brasileiro, destaca-se o apelo de Jair Bolsonaro se batizando às margens do Rio Jordão pré eleições presidenciais; sua esposa falando em línguas em rede nacional por causa de vitórias políticas; a inserção profunda do Pastor Silas Malafaia – e outros agentes não estatais e não eleitos democraticamente – nas decisões oficiais; e a escolha de Damares Alves para ser ministra da Família e dos Direitos Humanos sendo que, abertamente, possuia uma agenda anti minorias que era justificada pelo tradicionalismo cristão. Sem parcialidades, da mesma maneira, o presidente Luiz Inácio da Silva mobilizou a pauta do aborto, afirmando sua reprovação, também atingindo um eleitorado religioso nas prévias de sua reeleição no final de 2022. 

IMG_0638-1024x712 O Cristianismo Através da História Latino-Americana
Silas Malafaia e o ex-presidente Jair Bolsonaro em Assembleia de Deus – Fonte: O Globo.

Referências

https://files.ufgd.edu.br/arquivos/arquivos/78/EDITORA/catalogo/escravizacao_%20indigena_e_o_bandeirante_no_brasil_colonial.pdf

https://www.newadvent.org/cathen/12688b.htm

https://www.bbc.com/portuguese/geral-56941856

https://pt.wikipedia.org/wiki/Miss%C3%B5es_jesu%C3%ADticas_na_Am%C3%A9rica

http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/CadPesDoc_1_AssentamentosJesuiticos_m.pdf

https://www.pewresearch.org/religion/2025/06/09/religion-in-latin-america-and-the-caribbean

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/653070-a-nova-fotografia-da-religiao-no-brasil-segundo-o-censo-de-2022-artigo-de-jeferson-batista

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/3f1708b5d315aca50d5a7d8764469c45.pdf

https://www.gordonconwell.edu/wp-content/uploads/sites/13/2025/01/Status-of-Global-Christianity-2025.pdf?utm_medium=%2Fnoticias%2Fcristianismo-cresce-no-mundo-mesmo-com-queda-no-ocidente

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2024/02/03/n-de-igrejas-supera-a-soma-de-hospitais-e-escolas-no-brasil.htm?

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c29r21r69j8o

https://pauloraposocorreia.com.br/2024/11/15/imperio-republica-e-cristianismo-no-brasil/

https://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u256.shtml

https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/14594-crescimento-dos-estabelecimentos-religiosos-no-pais-e-liderado-por-igrejas-pentecostais-e-neopentecostais

https://apublica.org/2022/11/divida-de-igrejas-com-a-uniao-dobrou-durante-governo-bolsonaro/

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2022/noticia/2022/10/07/lula-participa-de-caminhada-com-apoiadores-na-grande-sao-paulo.ghtml

https://www.scielo.br/j/ha/a/WGJrYNtKzv3QqJWDyBZkcQw/?format=pdf&lang=pt

https://fundacaofhc.org.br/files/papers/434.pdf

https://www.poder360.com.br/internacional/34-paises-permitem-casamento-entre-pessoas-do-mesmo-sexo/

https://www.intercept.com.br/2023/09/28/onde-o-aborto-e-permitido-na-america-latina/

https://oglobo.globo.com/epoca/participacao-da-igreja-catolica-na-campanha-contra-legalizacao-do-aborto-leva-perda-de-fieis-argentinos-23140532

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-04/colombia-e-o-4o-pais-da-america-latina-autorizar-casamento-entre

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/12/12/bolivia-reconhece-pela-1a-vez-a-uniao-civil-entre-pessoas-do-mesmo-sexo.ghtml

https://www.acn.org.br/argentina/

https://www.acn.org.br/bolivia/

https://www.acn.org.br/costa-rica/

https://osaopaulo.org.br/mundo/projeto-de-lei-tenta-por-fim-ao-segredo-da-confissao-em-casos-de-abuso

https://www.acn.org.br/brasil/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cd1z547xjdwo

https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-59-fundamentalismo-religioso-e-imperialismo-latinoamerica

https://ims.com.br/eventos/susan-meiselas-por-frei-betto-cristianismo-e-revolucao-na-nicaragua-ims-paulista/

https://youtu.be/N6uabb0Vxrs?si=pmCQ2DQyd3Lo6oK2

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/596620-testemunho-de-um-dos-assassinos-do-padre-rutilio-grande-nos-deram-a-instrucao-de-eliminar-o-padre-porque-ele-era-comunista-criava-um-levante-entre-os-camponeses-e-falava-mal-do-governo

https://es.wikipedia.org/wiki/Rutilio_Grande

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidades_Eclesiais_de_Base

https://jesuitasbrasil.org.br/rutilio-grande-sj-amigo-dos-pobres-e-precursor-de-oscar-romero/

https://publicar.claec.org/index.php/editora/catalog/download/71/71/797?inline=1

https://memoriasdaditadura.org.br/papel-das-igrejas-cristas-na-ditadura-militar/

https://bnmdigital.mpf.mp.br/pt-br

https://oglobo.globo.com/brasil/morre-frei-fernando-que-sob-tortura-na-ditadura-teria-levado-policia-ao-cerco-de-marighella-23535043

https://mst.org.br/nossa-historia/84-86/

https://www.ihu.unisinos.br/178-martirologio-latino-americano/574885-21-de-dezembro-de-1965

https://publicar.claec.org/index.php/editora/catalog/download/71/71/797?inline=1

https://www.intercept.com.br/2025/04/07/como-os-eua-usaram-a-religiao-para-combater-o-comunismo-no-brasil/

https://www.brasildefato.com.br/2025/07/15/petra-costa-novo-documentario-apocalipse-tropicos

Share this content:

  • cropped-IMG_7590-250x250 O Cristianismo Através da História Latino-Americana

    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Ásia, América Latina, Imigração, Direito Internacional, Jornalismo, História.

  • c7a9b182-c7d5-46c0-9940-767377558869-250x250 O Cristianismo Através da História Latino-Americana

    Aluno de graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz desde 2025. Minhas principais áreas de interesse são conflitos políticos no Sudeste Asiático, manipulação política sobre corpos e afetos e economia global.

Avatar photo

Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Gestora do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Ásia, América Latina, Imigração, Direito Internacional, Jornalismo, História.