Perspectivas #02 Sincretismo e Transnacionalidade: Uma Interpretação desde a Linguística
Por Fernanda Langbeck Seferjan e Lucas Alves da Silva
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
O objetivo deste artigo é explorar a relação entre o sincretismo e a religiosidade na América Latina. Para isso, usamos como ponto de partida o artigo de Tito Lívio Cruz Romão, “Sincretismo Religioso como Estratégia de Sobrevivência Transnacional e Translacional: Divindades Africanas e Santos Católicos em Tradução”¹. Com o intuito de aprofundar mais a compreensão e os limites do artigo em questão, buscaremos destacar alguns pontos interessantes defendidos pelo autor, além de ilustrar o percurso lógico que ele percorre até chegar em suas conclusões.
Romão é um linguista, formado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) em 1984. Sua carreira acadêmica envolve desde doutorados e mestrados a cadeiras importantes na área da tradução no Brasil, focando principalmente no que tange ao alemão e o português. Sua linha de pesquisa evidencia-se na tese do texto escolhido para análise: durante as inúmeras migrações forçadas decorrentes da colonização na América Latina, nacionalidades, religiosidades e projetos de existência muito distintos colidiram entre si em um caldo cultural heterogêneo e dinâmico, o que gerou a necessidade de criar uma ponte de diálogo entre esses povos e seu novo contexto sociocultural. Ou seja, estabelecia-se, tanto no Brasil quanto na América Latina, em geral, um problema linguístico: a comunicação. O autor defende, então, que o sincretismo surgiu como forma de traduzir diferentes realidades e permitir a auto expressão de povos que teriam suas culturas apagadas pelo colonialismo não fosse essa estratégia de sobrevivência.
Diante da construção de sua defesa, o autor se vale de muitos recursos metodológicos, sendo o principal deles o uso de obras culturais latinoamericanas, sobretudo aquelas escritas, que representam sua tese em palavras. Assim, ele estuda a letra de duas músicas: a brasileira “Guerreira”, de Clara Nunes, e a cubana “Babalú”, de Ska Cubano, cujas letras enfocam o processo tradutório entre religiões de matriz africana e o catolicismo – a primeira, por exemplo, é construída por meio de paralelos entre santos e orixás (“Salve o Nosso Senhor Jesus Cristo/Epa Babá, Oxalá!”)². O autor faz também um estudo de caso da tradução de livros de Jorge Amado para o alemão, a fim de demonstrar que o contexto sociocultural influencia o modo como é realizada a tradução dentro de um certo escopo comunicativo, assim como aconteceu no processo de sincretismo religioso.
Inicialmente, o autor fundamenta seus argumentos em uma abordagem panorâmica da história do Brasil colonial, usando de fontes como a FUNAI e a carta de Pero Vaz de Caminha para demonstrar como o “Brasil sempre foi palco de inúmeros processos de transculturações e, consequentemente, de processos tradutórios” (Romão, 2018, p. 355). Isto é, a interação entre povos e etnias diferentes em um só território, já durante o período de colonização – como evidenciado na Carta de Achamento do Brasil – provocou diversas dinâmicas que deram origem ao sincretismo cultural observado na atualidade e, consequentemente, ao processo de tradução na religião. Ele disserta sobre como o processo colonial foi um modo por meio do qual a transnacionalidade vigorou: como retalhos em uma grande malha, múltiplas nações com línguas, costumes e religiosidades diferentes adentraram o território brasileiro e se dispersaram por ele, costurando-se em complexos arranjos e padrões. Centenas de nações indígenas, africanas e europeias de repente se viam diante da necessidade de lidar com um contexto sociocultural diverso, o qual promoveu uma efervescência sincrética de elementos culturais, símbolos, práticas e crenças. Foi esse contexto de transnacionalidade que permitiu a tradução de componentes de religiões e, portanto, sua mistura.
O autor apresenta, então, a discussão a respeito do problema linguístico que existiu na colonização: não necessariamente dois grupos étnicos diferentes, trazidos forçosamente ao Brasil, com origens culturais e linguísticas diferentes, podiam compreender uns aos outros. Isso era, simultaneamente, uma estratégia europeia de contenção de revoltas – já que dificultava a coesão social e, consequentemente, a organização de movimentos revolucionários – e uma fonte de dor ainda maior para aqueles que eram desenraizados de suas terras. Para dimensionalizar a grandeza da diversidade de etnias africanas que vieram ao Brasil e, desse modo, a intensidade do conflito comunicativo, Romão se apoia no livro de Roger Bastide, sociólogo francês, acerca da origem geográfica e religiosa dos grupos escravizados para ilustrar a “verdadeira babel em que se viram confinados os africanos, que, em menor ou maior proporção, conforme a região a que foram destinados no Brasil, precisavam encontrar uma fórmula para a comunicação cotidiana” (Romão, 2018, p. 359).
Essa comunicação cotidiana envolvia a tradução de vivências religiosas. Sobre esse processo linguístico, o autor enfatiza o início de uma complexa transmissão de significados: ao mesmo tempo que as etnias africanas, individualmente, possuíam um panteão de divindades muito variado entre si, precisavam encontrar correspondências uns com os outros para garantirem a sobrevivência de sua fé diante da imposição religiosa. Por isso, encontravam paralelos e estabeleciam “transferências – traduções – de arquétipos e tarefas atribuídos às diferentes divindades nas formas originais preconizadas pelas respectivas religiões” (Romão, 2018, p. 359).
Para além do intercâmbio religioso entre os povos africanos no Brasil, prevaleceu também a assimilação de elementos religiosos cristãos e indígenas, em especial, católicos, em um processo antropofágico, no sentido modernista de absorção e transformação de influências culturais conflitantes entre si. Ele foi decorrente das interações violentas de imposição da fé e permitiu o entrelaçamento de culturas, costumes e experiências sociais e espirituais. Tal processo resultou no sincretismo, uma vez que envolveu os indivíduos em uma espiral de trocas, a qual fomentou a mistura de características religiosas entre os povos que integravam o Brasil.
O autor explica essa espiral de trocas e o sincretismo religioso a partir de um sistema de tradução – um “ato de comunicação que funciona em um modelo circular” (Romão, 2018, p. 365) passível de ajustes e correções. Para isso, usa como base o modelo criado pela linguista Christiane Nord, que implica a não linearidade entre o ponto de partida e de chegada das informações, uma vez que pressupõe análise holística dos aspectos extratextuais como o autor, receptor, o tempo e o lugar. Por meio desse modelo, ele discorre sobre a capacidade – seja ela intencional ou não – de grupos africanos trazidos para as Américas adaptarem suas religiões aos moldes católicos a fim de exercerem sua fé, visto que essa era
proibida. Dessa forma, perpetuaram a sobrevivência de sua cultura e religião de forma transnacional, através da antropofagia e tradução. Romão explicita o protagonismo da tradução funcional exercida pelos grupos africanos na correspondência entre santos e orixás, por exemplo, a qual é uma das bases da Umbanda – religião singular que une características de diversas crenças, como catolicismo, espiritismo e cultos africanos.
Outro ponto é que, caso fossem analisados países onde a religião foi fruto do processo de tradução e assimilação por grupos étnicos de diáspora forçada, diferentes resultados seriam obtidos. Isso acontece porque a diversidade religiosa e sincrética se expressou de formas distintas na América Latina, dado a realidade e contexto específicos de cada local, o que, consequentemente, levou ao desdobramento de religiões únicas, apesar de conterem os elementos similares. O autor aborda tais diferenças a partir da análise das músicas “Guerreira”, de Clara Nunes, e a cubana “Babalú”, de Ska Cubano. Ao dissecar a letra das músicas, Romão percebe uma associação distinta entre alguns orixás e santos e suas representações em Cuba e no Brasil. Como exemplo, é possível citar a evocação na música “Babalu” do orixá Babalú Ayé em Cuba, que poderia ter correspondência com Obaluaê no Brasil, uma vez que ambos são representados como protetores de moléstias. Entretanto, a natureza da música é de uma súplica amorosa que, no Brasil, seria direcionada a um outro orixá como Oxum ou Iansã e não a Obaluaê e em Cuba, porém, essa associação pareceu natural. Portanto, é razoável concluir que “o processo transnacional e translacional certamente se deu com características próprias, como se pode ver mediante o sincretismo de alguns dos orishas” (Romão, 2018, p. 372) e o significado que eles assumem em países da América Latina, apesar do princípio de sincretismo como maneira de sobrevivência da cultura e da nacionalidade originárias ser o mesmo.
Referências
Romão, T. L. C.. (2018). SINCRETISMO RELIGIOSO COMO ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA TRANSNACIONAL E TRANSLACIONAL: DIVINDADES AFRICANAS E SANTOS CATÓLICOS EM TRADUÇÃO. Trabalhos Em Linguística Aplicada, 57(1), 353–381. https://doi.org/10.1590/010318138651758358681
¹Publicado na revista Trabalhos em Linguística Aplicada (TLA), da Editora da Unicamp, no volume 57, número 1, páginas 353–381, em 2018.
²NUNES, Clara. Guerreira. Intérprete: Clara Nunes. Compositores: Paulo César Pinheiro; João
Nogueira. In: Spotify. [S. l.]: Odeon, 1978. Disponível em: https://open.spotify.com/intl-pt/track/3wD4TQL8qZ7GgM7u6yCqIt. Acesso em: 21 set. 2025.
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