A Queda de Maduro: Como Isso Afeta o Brasil?
Por Stefano Romano
A Queda de Maduro
O ano de 2026 começou e, assim como em 2025, Trump não demorou a tomar os holofotes dos noticiários internacionais: na madrugada do terceiro dia do ano, o presidente dos Estados Unidos da América, em sua rede “Truth Social”, notificou que “Os Estados Unidos realizaram com sucesso um ataque em larga escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, junto com sua esposa, foi capturado e retirado do país por via aérea”.
Horas depois, a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, informou que o ditador e sua esposa serão julgados pela Justiça dos Estados Unidos em um tribunal de Nova York, sob acusação de conspiração para narcoterrorismo, de conspiração para importação de cocaína, de posse de metralhadoras e dispositivos explosivos e de conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos contra os Estados Unidos.

A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, confirmou que as autoridades venezuelanas não têm conhecimento do paradeiro de Maduro e de sua esposa, e exigiu “prova de vida imediata do governo do presidente Donald Trump” sobre a vida do casal. Além disso, em pronunciamento oficial, o governo venezuelano condenou os ataques norte-americanos e, junto a isso, conclamou pelo apoio do povo: “Todo o país deve se mobilizar para derrotar essa agressão imperialista”. Além disso, foi declarado estado de emergência.
Além da captura de Maduro, houve uma série de bombardeios direcionados a áreas urbanas por todo o território do país, incluindo a capital, Caracas, onde, segundo a Associated Press, ao menos sete explosões foram ouvidas em um intervalo de cerca de 30 minutos. Os ataques tiveram como principal alvo bases militares.
As pressões norte-americanas sobre a Venezuela, entretanto, não datam de hoje: desde a revolução bolivariana, no fim do século passado, as relações entre os dois países sempre estiveram azedas. Entre as principais razões, tem-se a guinada venezuelana, nas últimas décadas, em direção ao nacionalismo econômico (principalmente no que tange ao petróleo), ao socialismo e ao autoritarismo.
Foi a partir do segundo mandato de Trump, entretanto, que tais tensões passaram a viver uma nova escalada. De início, em Agosto do ano passado, o governo Trump elevou para US$ 50 milhões a recompensa por informações que levassem à prisão de Nicolás Maduro e intensificou a presença militar dos EUA no Caribe.
Ao longo dos meses seguintes, o exército estadunidense realizou sucessivos ataques a embarcações venezuelanas no Caribe e no Oceano Pacífico, deixando mais de 80 mortos. De acordo com Trump, os ataques teriam como objetivo combater o tráfico de drogas, com destaque às facções criminosas “Tren de Aragua” e “Cartel de los Soles”, ambas classificadas pelos EUA como organizações terroristas. Com o tempo, porém, os pronunciamentos e ações das autoridades norte-americanas tornaram evidente a existência do interesse na mudança do regime político local.
As tensões continuaram a crescer: no fim de outubro, a CIA foi autorizada a conduzir operações secretas dentro da Venezuela e, ao longo das últimas semanas, militares americanos apreenderam navios petroleiros da Venezuela.
Desta forma, desde Agosto, o governo Trump começou a pavimentar o caminho para uma intervenção militar direta na Venezuela, resultando, no início de 2026, na queda de Maduro do poder. O resultado é uma intensa crise política e militar que nasce no país sulamericano, cujas consequências para o Brasil e para as relações internacionais na América podem ser variadas.
Diplomacia Brasil-Venezuela: Como Lula Tem se Relacionado com Maduro?
Ao longo de sua vida política, o atual presidente brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva, cultivou uma relação complexa com Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro. Apesar do contraste entre o autoritarismo venezuelano e o discurso pró-democracia da ala governista brasileira, Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) nutrem uma relação ideológica e histórica de relativa proximidade com a revolução bolivariana na nação vizinha.
Entretanto, recentemente, a hesitante proximidade entre as esquerdas brasileira e venezuelana entrou em crise. As eleições presidenciais venezuelanas de 2024, fraudadas por Maduro, foram alvo de críticas de Lula, assim como as ameaças de invasão à região de Essequibo. Além disso, o Brasil vetou a possibilidade de uma entrada venezuelana no BRICS. Tais acontecimentos alimentaram uma série de críticas do ditador venezuelano ao presidente brasileiro. Desde então, entretanto, os atritos diplomáticos entre as duas nações pareceram ter se esfriado, com uma relativa normalização das relações bilaterais entre Brasília e Caracas.
Sob este contexto, as investidas militares de Trump na Venezuela e no Caribe, ao longo dos últimos meses, acompanharam-se de uma reação relativamente discreta do presidente brasileiro, o qual, em eventos do BRICS e na Assembléia Geral da ONU, criticou as intervenções sem, entretanto, citar os nomes de Maduro ou de Trump.

Entretanto, a aproximação de Lula com Trump, sob o contexto da negociação do tarifaço, incentivou uma modificação na abordagem do presidente brasileiro acerca da Venezuela: Lula recuou as críticas públicas à presença norte-americana na América Latina, e veio a tratar do tema em particular com Trump, tanto na reunião presencial na Malásia, em outubro, quanto em outras conversas por telefonema.
A recente prisão de Maduro e o ataque militar direto ao território venezuelano, porém, resultaram em uma declaração mais dura, mas ainda assim contida, do presidente brasileiro. Nesse sentido, em uma postagem na rede X (o antigo Twitter) feita hoje (03 de Janeiro) de manhã, Lula condenou a atitude dos Estados Unidos, destacando o desrespeito ao Direito Internacional e a crise do multilateralismo.

Em seu pronunciamento, entretanto, Lula não cita o nome do líder bolivarista, uma vez que o governo brasileiro não reconheceu a legitimidade das eleições venezuelanas de 2024 e, portanto, formalmente, não reconhece Maduro como presidente da Venezuela.
Além disso, Lula evitou citar também o nome de Trump: trata-se de uma tentativa de distanciar a crítica aos EUA da figura do republicano, a fim de evitar um desmoronamento da relativa estabilização do diálogo entre os dois países, inaugurada pela negociação do tarifaço.
A fala de Lula vai em linha com a retórica de defesa do multilateralismo adotada pelo petista ao longo de seu terceiro mandato. Nesse sentido, pronunciamentos em tom semelhante foram feitos também em outras ocasiões como, por exemplo, em meio às críticas à atuação israelense na Faixa de Gaza.
Desta maneira, Lula posiciona o Brasil internacionalmente como um ator defensor do diálogo e da diplomacia, em oposição à guerra e ao unilateralismo. Além disso, busca pavimentar o caminho para uma possível mediação diplomática brasileira de conflitos internacionais como este.
Vale citar, entretanto, que este posicionamento possui incongruências: é evidente que a rigidez com a qual Lula trata a investida norte-americana na Venezuela pouco se assemelha com seu posicionamento flexível perante outros conflitos como, é claro, a guerra da Ucrânia. Neste caso, a parceria estratégica entre Brasil e Rússia, mediada pelo BRICS e por estreitos laços comerciais, inibe uma postura mais dura do Brasil perante as ações de Vladimir Putin, tornando improvável uma crítica do governo brasileiro de semelhante rigor ao unilateralismo russo.
Brasil e a Crise na Venezuela
Brasil e Venezuela são países vizinhos, que compartilham 2.199 km de fronteiras cobertas por floresta amazônica. Tais fronteiras cobrem os Estados brasileiros de Roraima e Amazonas e, ao longo dos últimos anos, foram inclusive militarmente reforçadas pelo governo brasileiro. Ambas as nações sul americanas têm importantes laços culturais e históricos, proximidade esta que pode maximizar os efeitos da crise de Maduro com Trump na sociedade brasileira.
Nesse viés, os resultados da agressão norte-americana podem ser muitos e, ainda “no olho do furacão”, é difícil prever o rumo que a política interna venezuelana seguirá. É provável, entretanto, que a crise política inaugurada se agrave e se alongue, o que pode ter consequências adversas ao Brasil.
Em primeiro lugar, é possível que o acirramento das tensões políticas e sociais no país vizinho fomente a intensificação do fluxo de migração direcionado ao Brasil. Atualmente, mais de 270.000 venezuelanos vivem em terras brasileiras, a maioria em Roraima. A chegada de novas massas, entretanto, pode fomentar uma crise humanitária, assim como incendiar a retórica anti-imigração em alas políticas da extrema-direita nacional.
Em segundo lugar, a crise tem o poder de abalar a relativa estabilidade das relações Brasil-EUA, conquistada com a negociação do tarifaço. Ao longo dos últimos meses, Lula tem se equilibrado em uma corda bamba, contendo as críticas ideológicas aos Estados Unidos para não interferir na boa vontade de Trump para o diálogo. O pragmatismo do petista, apesar das acusações de ser uma forma de conivência com a extrema-direita internacional, é uma estratégia que mira a possibilidade de avançar ainda mais nas negociações do tarifaço, uma vez que uma boa parcela das exportações brasileiras aos EUA ainda encontra-se sobretaxada.
Em terceiro lugar, em linha com sua retórica de defesa do multilateralismo, Lula movimenta a política externa nacional para posicionar o Brasil como um agente capaz de mediar diplomaticamente os desentendimentos entre Venezuela e Estados Unidos. Historicamente, é a Colômbia que se ocupa deste papel. Contudo, os recentes desentendimentos entre seu presidente, Gustavo Petro, e Donald Trump tornam este canal de diálogo mais instável, abrindo uma janela de oportunidade inédita para o Brasil.
Vale lembrar que o país já exerceu papel semelhante em um passado recente: em 2023, em parceria com os EUA, o Brasil foi protagonista na confecção do Acordo de Barbados, o qual resultou no comprometimento de Maduro para a realização de eleições livres e democráticas em 2024. Os termos do acordo, entretanto, não foram respeitados pelo ditador venezuelano.
Por fim, é certo que o desenrolar da crise na Venezuela influenciará a política eleitoral brasileira. Em 2026, os cidadãos vão às urnas para eleger o próximo presidente, e a proximidade de Lula com o bolivarianismo venezuelano já começa a ser mobilizada pela oposição para tentar impedir o petista de se reeleger. Recentemente, inclusive, páginas bolsonaristas na internet propagaram o boato de que Maduro teria supostamente se exilado no Brasil, sob os cuidados do governo federal. O boato, entretanto, era falso.
Para Além da Venezuela: o Imperialismo Paternalista dos Estados Unidos na América Latina Vive uma Crise?
Intervenções políticas dos Estados Unidos em nações latino-americanas são tudo menos uma novidade: Argentina, Chile, Uruguai, Cuba, Guatemala e, é claro, Brasil são só alguns dos exemplos de países que tiveram uma mudança de regime político (frequentemente, de uma democracia para uma autocracia) financiada pela CIA. Em todos estes casos, a mistura de interesses econômicos com uma autopercepção messiânica resultaram na mobilização do imperialismo norte-americano, o qual adotou historicamente a América Latina como sua zona de influência quase que exclusiva.
Essa histórica posição paternalista dos EUA sobre o continente americano surgiu ainda no século XIX e se consolidou durante a Guerra-Fria. Ademais, mesmo após a queda da União Soviética, o imperialismo nunca deixou de ser uma prioridade para os presidentes estadunidenses, fossem eles democratas ou republicanos. Essa tradição, entretanto, vive um duro golpe no século XXI

Ao longo das últimas décadas, a China tem expandido seus laços comerciais com a América Latina, assim como sua influência econômica e política sobre o subcontinente. Em outras palavras, o imperialismo estadunidense ganhou um concorrente à sua altura e, a cada dia que se passa, sua histórica zona de influência parece um pouco mais distante.
À luz deste inédito movimento, torna-se possível compreender com maior profundidade os rumos da política externa estadunidense ao longo dos últimos anos: diante da ameaça de perda de sua zona de influência para um adversário estratégico (a China), os Estados Unidos buscam retomar a incontestabilidade e exclusividade que seu poder desfrutara outrora na América Latina.
Para tal, primeiramente, recorrem ao diálogo, à diplomacia. Esta, entretanto, não se mostra mais suficiente para obter a obediência. Insatisfeitos, recorrem então ao uso da força, visando não só a imposição de suas vontades como também a demonstração de poder (afinal, trata-se da maior economia e do mais poderoso exército do mundo). O resultado é que, décadas depois do fim da Guerra Fria, os mesmos países que no século XX foram vítimas da intervenção norte-americana voltam a sê-lo atualmente: a história se repete.
Donald Trump, é claro, é o principal expoente dessa nova abordagem: sua política externa na América Latina é orientada pelo uso da força, pela imposição e pelo unilateralismo: em apenas um ano de mandato, já ameaçou retomar o controle sobre o canal do Panamá, sancionou economicamente o Brasil por meio do tarifaço e, recentemente, recorreu também ao uso da força para impor suas vontades e interesses à nação venezuelana.
O regime do ditador Nicolás Maduro sofre um duro golpe e é grande a expectativa para que esta crise resulte em mudanças políticas significativas na Venezuela. Entretanto, para os outros países latino-americanos (incluindo o Brasil), o ocorrido é, em extensão, uma clara ameaça: nas entrelinhas, Trump demonstra que, de fato, os Estados Unidos intencionam recuperar sua histórica zona de influência e, para atingir esse objetivo, não terão medo de utilizar a força. A Venezuela foi o país da vez, mas certamente não será o único.
Referências
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BBC NEWS BRASIL. A doutrina de 200 anos que Trump usa para aplicar pressão militar sobre América Latina. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckg9q0xnr15o. Acesso em: 3 jan. 2026.
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G1. Maduro e esposa são indiciados pela Procuradoria Geral dos EUA. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/03/maduro-e-esposa-sao-indiciados-pela-procuradoria-geral-dos-eua.ghtml. Acesso em: 3 jan. 2026.
BBC NEWS BRASIL. O cálculo de Lula para lidar com crise entre Trump e Maduro. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cjwynyg40q5o. Acesso em: 3 jan. 2026.
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G1. Venezuelanos superam portugueses e passam a ser a maioria entre estrangeiros no Brasil, aponta IBGE. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/censo/noticia/2025/06/27/venezuelanos-superam-portugueses-e-passam-a-ser-a-maioria-entre-estrangeiros-no-brasil-aponta-ibge.ghtml. Acesso em: 27 jun. 2025.
PODER360. China empurra EUA para fora da América Latina no século 21. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/china-empurra-eua-para-fora-da-america-latina-no-seculo-21/. Acesso em: 3 jan. 2026.
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