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Nas Entrelinhas: O Discurso de Trump sobre a Venezuela

Nas Entrelinhas: O Discurso de Trump sobre a Venezuela

Por Laura Burgos, Marcela Caproni e Raquel Zaleschi

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Por volta de uma e meia da tarde, no horário de Brasília, do dia 03 de janeiro, o presidente norte-americano Donald Trump iniciou um discurso exaltando a operação militar realizada em Caracas, chegando a comparar seu sucesso às operações conduzidas pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo o presidente, a ação não configura uma declaração de guerra, mas sim um esforço direcionado à captura de Nicolás Maduro, descrito por ele como um fugitivo da justiça norte-americana.

Durante o parecer presidencial a respeito da captura de Maduro, o cerne da operação executada na Venezuela pareceu concentrar-se no tripé da agenda trumpista: o protecionismo, o controle de suas zonas de influência, e a captação de recursos.  

Venezuela para os Venezuelanos Americanos: as Raízes do Conflito

Ao afirmar que a Venezuela representa um “problema de longa data” para os Estados Unidos, o presidente norte-americano reativa um embate histórico entre as nações, que articula interesses econômicos, disputas geopolíticas e narrativas de segurança nacional. 

Não é possível compreender a atual conjuntura venezuelana sem perquirir suas raízes chavistas. O Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz, ao analisar a eleição de Nicolás Maduro em 2024, localiza o início do processo de centralização política, imprescindível para a continuidade de seus mandatos, nas reformas constitucionais implementadas durante o governo de Hugo Chávez. Essas mudanças viabilizaram a concentração de poder nas mãos do chefe do Executivo por tempo indefinido e moldaram os dois principais lastros do projeto político em vigor: o personalismo aliado a tendências autoritárias e a dependência estrutural da economia petrolífera.

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Hugo Chávez durante as eleições de 1998 – Fonte: Getty Images.

Embora a nacionalização do petróleo venezuelano tenha ocorrido em 1976, anteriormente à posse da cadeira por Hugo Chávez, foi durante o chavismo que a indústria petrolífera se tornou indissociável da sustentação política do regime. Ao atrelar o financiamento das missões bolivarianas ao lucro da estatal petrolífera, o Estado venezuelano construiu uma base econômica profundamente vulnerável às alterações do mercado e da gestão interna.

Com a morte de Hugo Chávez, em 2013, Nicolás Maduro assume uma Venezuela já fragilizada por pouca saúde fiscal, inflação elevada e déficits estruturais. Nesse cenário de colapso econômico e polarização política, o novo presidente passa a carecer de legitimidade e de apoio popular consolidado, recorrendo ao aparato estatal para impor uma dominação de caráter coercitivo. Entidades como a Anistia Internacional e a Organização das Nações Unidas acusam o governo venezuelano de manter um regime marcado por violência institucionalizada, violações graves de direitos civis e pela consolidação de uma “autocracia eleitoral”.

Em paralelo à disputa em torno do controle da indústria petrolífera venezuelana, o narcotráfico emerge como um segundo eixo central do discurso que busca legitimar a intervenção norte-americana. A administração Trump tem apontado a Venezuela como um elo estratégico nas rotas do tráfico internacional de drogas, sobretudo no corredor que conecta a Colômbia ao Caribe e aos Estados Unidos. Durante uma sessão de perguntas e respostas realizada neste sábado, Donald Trump também direcionou suas declarações à Colômbia, ao afirmar que o atual presidente, Gustavo Petro, “deveria ficar esperto”. O presidente estendeu ainda suas críticas a Cuba, país que vem ganhando espaço nas discussões oficiais, especialmente por meio do Secretário de Estado, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, que associa o governo da ilha a uma rede de proteção que atuaria em favor de Nicolás Maduro.

Em resposta, Gustavo Petro advertiu Donald Trump a “tomar cuidado”, afirmando que o norte americano não deveria desafiar os povos caribenhos. O presidente colombiano evocou a memória de Simon Bolívar e das ligas camponesas, ambas forças que exerceram uma contribuição inestimável para a libertação da América Espanhola e Francesa, de forma a ressaltar a história de resistência das nações contra o imperialismo. 

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Mapa que ilustra as principais rotas terrestres de tráfico de cocaína para os EUA – Fonte: BBC.

Assim, o cerne da ofensiva norte-americana contra a Venezuela parece afastar-se, cada vez mais, do fardo da necessidade da garantia da democracia, conceito que não foi mencionado uma única vez ao longo dos cinquenta minutos do discurso de Donald Trump, e aproximar-se da convergência entre as tendências bismarckianas de instrumentalização do nacionalismo norte-americano, voltadas à expansão e consolidação do seu império de influência  na América Latina. Tais aspirações foram ressaltadas pelo presidente dos Estados Unidos que, antes de passar a palavra ao secretário da defesa, finalizou a declaração dizendo que o que aconteceu com Nicolás Maduro pode acontecer com qualquer líder mundial.

Entre as muitas camadas que compõem o discurso de Trump, o tom de ameaça geral adotado pela Casa Branca chama atenção para suas reais intenções na região. Quando o presidente estadunidense reitera, fala após fala, que não poupará esforços para defender os Estados Unidos, transfere as consequências que podem surgir de levantes regionais contra o domínio norte americano da região para os líderes locais. Além disso, é importante atentar-se que, apesar do atentado contra Maduro ser sustentado pelas alegações de narcotráfico, Trump não condiciona novas intervenções em outros países a este ou outros tipos de crime, ele sublinha que pode acontecer o mesmo com outras autoridades internacionais, de maneira generalizada, e não com autoridades que estejam de algum modo ligadas a crimes internacionais. A linguagem intrínseca do discurso acende ainda mais o alerta para os países da região.

A Geopolítica da Apropriação

Diante das falas de Donald Trump no dia 03 de janeiro, como a defesa de que a Venezuela deveria arcar com os prejuízos enfrentados pelos Estados Unidos em decorrência da nacionalização do petróleo, revela-se, na prática como o ato final de reapropriação corporativa e estatal contra a política de soberania energética iniciada no governo de Hugo Chávez. 

O ressentimento histórico de Washington com a Venezuela está profundamente ancorado na estatização do petróleo ocorrida em 2007. Ao exigir que a estatal PDVSA detivesse o controle majoritário de todos os projetos e ao expulsar gigantes como a ExxonMobil que se recusaram a aceitar os novos termos de soberania nacional, o chavismo desafiou a lógica de exploração vigente desde o início do século passado. Para os Estados Unidos, aquela nacionalização não foi apenas um revés econômico, mas uma afronta à Doutrina Monroe, que enxerga o hemisfério ocidental como sua zona de influência exclusiva. As declarações recentes de Donald Trump, afirmando que as empresas americanas “vão consertar” a indústria venezuelana e que os EUA estão “fortemente envolvidos” na extração para gerar lucro, confirmam que o objetivo central da invasão é reverter essa autonomia e reintegrar as reservas venezuelanas ao mercado norte-americano sob condições ditadas por Washington. Na tarde de hoje, a Casa Branca afirmou o objetivo com todas as letras ao declarar que, agora, empresas estadunidenses assumirão a infraestrutura petrolífera no país.

O perigo dessa intervenção, entretanto, transborda as fronteiras da Venezuela e coloca em xeque a segurança nacional de todos os vizinhos sul-americanos. Ao normalizar o uso da força militar para “proteger” ou “recuperar” recursos naturais, os Estados Unidos estabeleceram um precedente de soberania limitada para o continente. Se o petróleo pesado venezuelano justificar um bombardeio a uma capital soberana hoje, amanhã o mesmo argumento pode ser aplicado às vastas reservas de lítio na Bolívia, Argentina e Chile, ou às reservas de terras raras e biodiversidade na Amazônia brasileira. A mensagem enviada pela Casa Branca é clara: a autonomia política de um país latino-americano é tolerada apenas enquanto não contrariar as necessidades energéticas ou tecnológicas da potência do Norte.

Essa nova era de militarização regional ameaça destruir décadas de esforços por uma integração sul-americana baseada na paz e no diálogo. A transformação da Venezuela em um protetorado administrado interinamente pelos Estados Unidos, como anunciado por Trump, cria uma base de operação permanente no coração da América do Sul, capaz de desestabilizar governos que busquem políticas de recursos naturais independentes. Para o Brasil e outros países da região, a invasão deste sábado não é apenas uma crise humanitária e diplomática imediata, mas o despertar de um cenário onde a posse de recursos naturais estratégicos deixa de ser uma oportunidade de desenvolvimento para se tornar um alvo de intervenção externa. A proteção das reservas latinas agora exige uma união continental sem precedentes, sob o risco de vermos o retorno de um modelo extrativista neocolonial imposto pela força das armas.

Linguagem: Exaltação aos Estadunidenses, Instrumentalização dos Venezuelanos

A escolha de palavras do presidente estadunidense, característica de sua administração, é de suma relevância para a construção de uma narrativa que contribui para a legitimação de suas ações. 

Ao longo de seu discurso, Trump glorificou os cidadãos estadunidenses em diversos momentos, agradecendo às forças armadas, à guarda nacional e às autoridades policiais, em referência à segurança nacional, um dos pilares de sua retórica, mas também enaltecendo o papel dos EUA na construção da indústria petrolífera da venezuela, por meio do “talento, motivação e habilidade americanas”.  Ao elaborar um “nós” militar econômica e moralmente superior, o discurso coloca seu principal público-alvo – eleitores estadunidenses – em uma posição de salvadores, que lutam pela segurança, pela paz e pela liberdade não apenas própria, mas também dos venezuelanos, valores pelos quais os ataques são tidos como válidos apesar das violações claras do direito internacional. Nesse sentido, é estabelecida a imagem de uma potência que, ainda que dominante, é benevolente e, como dito pelo presidente, tem orgulho de usar seus recursos para tornar a Venezuela “livre novamente”

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Militar estadunidense – Fonte: CNN.

Já os venezuelanos são retratados de duas formas, uma que os coloca como vítimas e outra que os desumaniza completamente. A distinção, apesar de aguda, tenta disfarçar-se na declaração, já que enquanto os primeiros são tratados como uma nação sujeitada à tirania e à pobreza, necessitados de uma potência que possa salvá-los, os segundos não são referidos como venezuelanos mas, nas palavras de Trump, como “os piores e mais violentos monstros […] vindos de manicômios e prisões”. Sob a primeira ótica, o “povo venezuelano” estaria de acordo com os ataques à soberania pois supostamente estariam sendo libertos de um regime ditatorial e de condições de vida precárias por uma potência que quer “fazer os venezuelanos ricos e seguros”. Enquanto isso, a segunda perspectiva nega não apenas a nacionalidade, mas sobretudo a humanidade de venezuelanos que, mesmo com a existência de grupos como Tren de Aragua e Cartel de los Soles, são utilizados como espantalho para os reais motivos da invasão ao serem retratados como selvagens que ameaçam ambos os países. 

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Membros da Tren de Aragua chegam ao Centro de Confinamento ao Terrorismo em El Salvador – Fonte: AFP.

Dessa maneira, constrói-se um cenário discursivo favorável para a intervenção de Trump no país: um herói, vítimas e um vilão a ser derrotado. Tal narrativa não é inédita, sendo utilizada destacadamente durante as intervenções no Oriente Médio durante a Guerra ao Terror, na qual os EUA estariam “se protegendo” ao mesmo tempo em que “salvavam” as populações de países como Iraque e Afeganistão, por exemplo, do fundamentalismo islâmico de grupos como  Estado Islâmico e Al-Qaeda. O que isso significa, no final, é que tal estrutura de raciocínio pode ser traduzida com facilidade para outras violações, apenas realizando as equivalências dos papéis. 

O Império Contra-Ataca

Um dos pontos mais intrigantes da oratória trumpista foi a evocação da era Jimmy Carter como um padrão de respeito internacional. Embora Carter seja frequentemente rotulado por setores conservadores como um líder de perfil mais suave, Trump utilizou essa referência para ilustrar um tempo em que as fronteiras de influência nas Américas eram rigidamente respeitadas e potências extrarregionais não ousavam desafiar a hegemonia de Washington. Para Trump, o “respeito” daquele período derivava de uma estabilidade geopolítica onde os adversários conheciam os limites de sua atuação no “quintal” americano, algo que ele alega ter sido erodido por décadas de governos que permitiram a infiltração de interesses estrangeiros em solo vizinho.

Ao destrinchar a política de Carter sob a ótica de Trump, percebe-se uma apropriação seletiva da história. Enquanto Carter é lembrado pelos Tratados do Canal do Panamá e pela promoção dos direitos humanos como pilar diplomático, Trump ressignifica esses elementos para validar sua intervenção. Ele argumenta que, se a diplomacia dos anos 70 visava punir ditaduras em nome da moralidade, a sua administração cumpre essa promessa através da eficácia militar, removendo o que classifica como um “narcoditador” que violou todos os princípios de civilidade. Essa conexão com o passado serve para ancorar sua ação em uma tradição de liderança americana, apresentando o ataque não como uma inovação temerária, mas como uma restauração da ordem natural. Nesse cenário, o Irã surge como o antagonista central e o elo perdido entre as crises do passado e as do presente. Trump citou o país do Oriente Médio para traçar um paralelo direto entre a crise dos reféns que marcou o fim do governo Carter e a aliança estratégica contemporânea entre Teerã e Caracas. Na visão do presidente, a Venezuela de Maduro deixou de ser uma nação soberana para se tornar um entreposto iraniano no Ocidente, uma base avançada que ameaça a segurança interna dos Estados Unidos com tecnologia de drones e logística de narcotráfico.

A peça final dessa arquitetura discursiva é a ressurreição explícita da Doutrina Monroe. Criada em 1823 com o lema “América para os americanos”, a doutrina foi invocada por Trump para declarar o fim da era de tolerância com influências externas no Hemisfério Ocidental. Ao rebatizá-la informalmente como “Doutrina Don-Roe”, o presidente sinalizou que os Estados Unidos retomaram o papel de árbitro supremo na região. Ele justificou o controle direto sobre os recursos naturais e a infraestrutura petrolífera da Venezuela como uma forma de reparação histórica por investimentos americanos que teriam sido confiscados pelo chavismo, elevando a questão econômica ao nível de segurança nacional. Ao unir a nostalgia por uma era de “respeito” (Carter), o combate a um inimigo ideológico e estratégico (Irã) e a reafirmação de uma doutrina de exclusividade hemisférica (Monroe), Trump não apenas celebrou uma vitória militar, mas estabeleceu os trilhos de uma ocupação que ele descreve como uma transição judiciosa, consolidando a ideia de que o domínio americano nas Américas não será mais questionado por nenhuma potência, seja ela interna ou externa ao continente.

Quando a Lei Não Mais Importa

A legalidade da intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela e o subsequente julgamento de Nicolás Maduro e Cilia Flores em solo americano são temas que mergulham em uma zona cinzenta do direito internacional, onde a força geopolítica frequentemente colide com normas internacionais. Do ponto de vista estritamente normativo, o ataque é considerado ilegal por violar o princípio da soberania nacional e a proibição do uso da força contra a integridade territorial e a independência política de um Estado membro da ONU, conforme estabelecido no Artigo 2º da Carta. Sem uma resolução do Conselho de Segurança que autorizasse o uso da força sob o Capítulo VII, a ação americana é classificada por juristas internacionais como um ato de agressão, uma vez que não houve um ataque armado prévio da Venezuela contra os EUA que justificasse a legítima defesa. Além disso, a captura de um chefe de Estado em exercício para ser julgado em um tribunal estrangeiro ignora as imunidades soberanas que, tradicionalmente, protegem líderes nacionais de jurisdições externas enquanto ocupam seus cargos.

Quanto à legislação americana, o presidente Trump teria de obter aprovação do congresso para realizar ataques em terra, pois isso configura um ato de guerra, visão apontada tanto pela chefe de gabinete, Susie Wiles, e pelo secretário de Estado, Marco Rubio. Ainda assim, ações militares localizadas e em consonância com o interesse nacional já foram concretizadas por outros presidentes no passado. A ação de sábado, contudo, foi realizada sem autorização nem mesmo aviso prévio ao congresso americano, tornando difícil conferir a ela qualquer tom de legalidade. 

Entretanto, a estratégia de Washington para conferir algum grau de legitimidade a essa operação reside no indiciamento criminal de Maduro como um “narcoterrorista” e líder do Cartel de los Soles. Ao tratar o governo venezuelano não como um ente político, mas como uma organização criminosa transnacional, os Estados Unidos buscam desviar o foco da soberania para o âmbito do direito penal. O argumento norte-americano é que o regime de Maduro não era mais um governo legítimo, mas uma estrutura que “envenenava” a população americana com toneladas de cocaína, o que, na visão de juristas alinhados a Washington, transformaria a intervenção em uma operação de aplicação da lei em larga escala. Em uma declaração na rede social X, o vice-presidente JD Vance afirmou que “não se pode escapar da justiça por tráfico de drogas nos Estados Unidos apenas porque você vive em um palácio em Caracas”. 

O julgamento em Nova York é desenhado para dar ao mundo uma sensação de processo devido, com apresentação de evidências, testemunhas e defesa técnica, tentando converter um ato de guerra em um procedimento judicial civilizado aos olhos da opinião pública internacional. Isso seria possibilitado, ainda, com o apoio na doutrina Ker-Frisbie, que permite que um indivíduo seja julgado em solo americano independentemente da maneira como chegou até lá. Isso significaria que, mesmo com a ilegalidade do sequestro de Maduro e Flores, ambos poderiam ser sujeitos a um tribunal em solo americano. O julgamento constituiria um acontecimento nunca antes visto, dado que jamais um presidente latino-americano em exercício já foi levado à corte em território estrangeiro. 

A situação de Cilia Flores segue uma lógica similar de responsabilização individual. Ao indiciar a esposa de Maduro por crimes de conspiração e tráfico de drogas, os EUA removem a aura de “primeira-dama” para tratá-la como uma operadora logística do crime organizado. Essa tática jurídica serve para desmantelar simbolicamente a cúpula do poder chavista, argumentando que a justiça americana tem jurisdição extraterritorial quando os efeitos dos crimes atingem cidadãos americanos dentro de suas fronteiras. Assim, embora a comunidade internacional aponte a nulidade da ação perante os tratados de Genebra e as normas de Haia, os EUA utilizam seus próprios tribunais federais como um instrumento de política externa, tentando criar um fato consumado jurídico que torne a reversão do cenário politicamente impossível.

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Corte Suprema de Nova York – Fonte: Tripadvisor.

O que o Futuro Reserva para a Venezuela? 

A ambiguidade da nova agenda de segurança dos Estados Unidos, divulgada no dia 05 de dezembro de 2025, em relação à posição adotada sobre o intervencionismo norte-americano na América Latina também esteve presente no discurso de Trump, ao não indicar de forma clara como se dará a gestão da Venezuela pelos Estados Unidos. Inserida de maneira intencional ou não, a ausência de informações sobre a duração da intervenção e sobre a eventual nomeação de um sucessor ao cargo presidencial tem levado analistas políticos a refletir sobre os possíveis rumos do país. Contudo, a disposição dos Estados Unidos em manter seus postos de influência na região revela-se incontestável. 

Em face à instabilidade venezuelana, a vice-presidente Delcy Rodríguez convocou a população a resistir às investidas norte-americanas durante pronunciamento realizado em Caracas, afirmando que Nicolás Maduro ainda seria o presidente legítimo da Venezuela e que os Estados Unidos o teriam sequestrado. De acordo com o jornal The New York Times, Delcy Rodríguez já teria assumido a presidência durante uma cerimônia secreta, informação que não foi comentada por ela durante seu discurso.

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Nicolás Maduro com sua esposa, Cilia Flores, à sua direita, e Delcy Rodriguez, à sua esquerda. 

Formalmente, a presidência seria transferida à vice-presidente. No entanto, a declaração de Donald Trump reforça a ideia de que a Venezuela estaria sob administração norte-americana por um período ainda indeterminado. A ascensão da principal escolha chavista ao poder seria marcada por controvérsias, uma vez que Delcy foi alvo de medidas restritivas impostas pela União Europeia em razão de seu suposto envolvimento em violações de direitos humanos e no enfraquecimento das instituições democráticas, além de ter sido sancionada pelos Estados Unidos em 2018, juntamente com seu irmão, Jorge Rodríguez.

A possibilidade de uma reação militar venezuelana é relativamente baixa. A invasão do território é a maior ação militar norte-americana desde a invasão ao Panamá, em 1989, e apesar de possuir, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, cerca de 23 mil soldados ativos, 220 mil milicianos e 8 mil reservistas, as forças de Estado venezuelanas possuem uma organização de operações deficitária, especialmente frente à precisão com a qual foi feita a abdução de Maduro, e diante da declaração de Trump, que afirma dispor de plenos recursos para uma segunda operação. 

Frente a  esse cenário de incertezas, Maria Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, clama pela “posse imediata” de Edmundo González, opositor de Nicolás Maduro nas eleições de 2024. Após a divulgação da vitória de Maduro nas urnas, a oposição denunciou a possível ocorrência de uma fraude eleitoral e contestou firmemente a licitude de mais um mandato do presidente. Em resposta à declaração de María Corina, o opositor declarou-se preparado para a “grande operação de reconstrução” da Venezuela. A possível transferência de poder para a oposição também se insere em uma zona de imprecisão do direito internacional.

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Líder da oposição venezuelana, Maria Corina Machado 09/01/2025 – Fonte: Reuters.

Diante da eventualidade de uma Venezuela tutelada, a comunidade internacional rememora que a imposição de uma “guarida” conduzida pelas forças estadunidenses está longe de constituir uma novidade geopolítica. Frente à memória incontornável dos fracassos dos Estados Unidos em suas experiências de “amparo” externo, tanto no Oriente Médio, como no caso do Afeganistão, quanto em episódios de um passado um pouco mais distante na América Central, após a libertação de Cuba do domínio espanhol, Donald Trump recorre, de forma, à primeira análise paradoxal, a esses insucessos como um trampolim argumentativo. Ao destacar episódios de falhas administrativas e políticas, o presidente constrói uma linha discursiva de exaltação de sua própria atuação à frente do país, sustentando que esses desastres que se acumulam na história do país, responsáveis pela erosão da supremacia norte-americana, seriam fatalmente corrigidos durante o seu mandato. 

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Presidente americano Donald Trump faz discurso para soldados durante uma visita ao Afeganistão, no Dia de Ação de Graças – Fonte: AFP.

A escassez de certezas a respeito da jornada venezuelana de fato abre caminho para muitas ficções. Analistas políticos ainda aguardam o soerguimento de mais desdobramentos para elaborarem os devidos pareceres. Contudo, a permanência clara de um pulso firme do presidente norte-americano demonstra, de maneira cada vez mais incisiva, o desejo de escrever uma narrativa épica para os Estados Unidos, sem receio das desventuras que a Nação pode enfrentar até concluir o ainda encoberto destino de sua jornada.

O que Dizem os Vizinhos? 

O que o governo de Donald Trump classificou como uma “missão de libertação e justiça contra o narcoterrorismo” foi recebido por grande parte do continente como uma violação sem precedentes da soberania nacional, evocando os fantasmas das intervenções do século XX.

A reação mais contundente partiu do Palácio do Planalto. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom de sua retórica diplomática ao classificar a ofensiva como uma “afronta gravíssima” que desconsidera o direito internacional e as instituições multilaterais. Para Lula, a ação militar estabelece um precedente perigoso onde a força bélica substitui a autodeterminação dos povos, transformando a região, historicamente uma zona de paz, em um tabuleiro de guerra entre potências. O Itamaraty rapidamente se moveu para convocar reuniões de emergência nos blocos regionais, buscando isolar a narrativa norte-americana e exigir garantias de que o território venezuelano não se transforme em um protetorado militar.

Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro adotou uma postura ainda mais incisiva, descrevendo o episódio como um ato de “terrorismo de Estado”. Com a maior fronteira compartilhada com a Venezuela, o governo colombiano expressou um temor pragmático: a possibilidade de um vácuo de poder gerar uma guerra civil interna que transbordaria para solo colombiano na forma de novos fluxos migratórios e fortalecimento de grupos armados irregulares. Petro argumentou que a democracia não pode ser exportada por meio de bombas e que a intervenção ignora as complexidades sociais que afligem o povo venezuelano há décadas.

Em contrapartida, o cenário em Buenos Aires apresentou um contraste absoluto. O presidente argentino Javier Milei foi o primeiro líder de peso na região a celebrar abertamente o sucesso da operação. Através de declarações enfáticas, Milei afirmou que a queda de Maduro representa a vitória da liberdade sobre o que ele define como “comunismo empobrecedor e assassino”. Para a gestão argentina, o uso da força pelos Estados Unidos foi uma medida corretiva necessária contra um regime que já não possuía legitimidade interna ou externa, alinhando-se à visão de que a defesa da liberdade justifica a intervenção externa em Estados falidos. 

O apoio à operação encontrou um eco vigoroso no Equador. O presidente Daniel Noboa, que enfrenta sua própria crise de segurança interna contra o crime organizado, não hesitou em celebrar o desfecho da operação em suas redes sociais. Em uma declaração enfática, Noboa afirmou que “a todos os criminosos narcochavistas chega a sua hora” e que a estrutura do regime venezuelano “terminará de cair em todo o continente”. Para o líder equatoriano, a queda de Maduro é um golpe direto nas rotas do narcotráfico que utilizavam a Venezuela como porto seguro, declarando-se um aliado direto do povo venezuelano e das lideranças de oposição na reconstrução do país.

A América Central, por sua vez, tornou-se um microcosmo da polarização global. Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele, que já vinha trocando farpas públicas com o governo venezuelano nos últimos meses, viu na intervenção a confirmação de sua tese sobre a necessidade de “punho de ferro” contra regimes que ele considera corruptos e ligados ao crime. Embora sua declaração tenha sido mais focada no colapso do sistema chavista do que em um apoio explícito ao bombardeio americano, o tom foi de clara satisfação com a remoção de Maduro, diferentemente de Honduras onde o governo de Xiomara Castro condenou os ataques como uma “agressão imperialista” que atenta contra a paz regional. O posicionamento de Tegucigalpa reflete o temor de que a intervenção na Venezuela seja apenas o primeiro passo de uma política externa americana mais agressiva em direção à América Central, visando reverter governos de esquerda e consolidar o controle geopolítico sobre o istmo.

Outras vozes na região buscaram um caminho intermediário, embora carregado de críticas ao método. O presidente chileno Gabriel Boric, apesar de ser um crítico contumaz das violações de direitos humanos perpetradas pelo governo Maduro, condenou o uso da força militar como solução para crises políticas. Boric enfatizou que a reconstrução das instituições venezuelanas deve ser um processo liderado por seus próprios cidadãos, e não imposto por forças estrangeiras, alertando para o risco de uma ocupação prolongada que poderia desestabilizar a economia de todo o Cone Sul.

Enquanto o Conselho de Segurança da ONU se torna o palco de um novo embate entre Washington, Pequim e Moscou, a América Latina enfrenta o desafio de reconstruir sua própria unidade. A repercussão internacional demonstra que, embora o regime de Maduro tenha chegado ao fim de forma abrupta, a cicatriz deixada pela intervenção militar dos EUA reabriu debates sobre autonomia, controle de recursos naturais, como as vastas reservas de petróleo venezuelanas, e o futuro da diplomacia no continente. O mundo agora observa se esta ação resultará em uma transição democrática estável ou se condenará a região a um longo período de instabilidade e ressentimento geopolítico.

Fontes: 

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/01/03/pam-bondi-maduro-solo-americano.htm

https://laibl.com.br/eleicoes-na-venezuela/

https://www.bbc.com/news/articles/crmlz7r0zrxo

https://english.elpais.com/international/2026-01-03/maduro-to-be-tried-in-the-us-for-narcoterrorism-and-corruption.html

https://www.cnn.com/2026/01/03/politics/legal-authority-trump-venezuela

https://news.northeastern.edu/2026/01/03/us-captures-nicolas-maduro-regime-change

https://www.reuters.com/world/us/was-us-capture-venezuelas-president-legal-2026-01-03

https://piaui.folha.uol.com.br/venezuela-so-comeco-ataque-trump

https://www.dw.com/pt-br/trump-diz-que-eua-v%C3%A3o-governar-a-venezuela-at%C3%A9-transi%C3%A7%C3%A3o-de-poder-segura/live-74761148

https://www.youtube.com/watch?v=pL1REmP7vaI

https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/lourival-santanna/internacional/analise-captura-e-julgamento-de-maduro-dao-contornos-de-legalidade-aos-eua

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/03/maria-corina-machado-pede-que-oposicionista-tome-o-poder-imediatamente-apos-captura-de-maduro-chegou-a-hora-da-liberdade.ghtml

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    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2025. Áreas de interesse: América Latina, Cultura, Relações Internacionais, Imperialismo, Sul Global

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2025. Áreas de interesse: América Latina, Cultura, Relações Internacionais, Imperialismo, Sul Global

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