Porto Rico no Maior Palco do Mundo
Por Kauan Siqueira e Lara Belezia
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
No dia 8 de fevereiro, os habitantes da Califórnia e de vários cantos do mundo se reuniram no Levi ‘s Stadium para testemunhar o famoso jogo anual da NFL (National Football League), o Super Bowl. A partida prometia: England Patriots contra Seattle Seahawks, em um dos eventos de maior audiência da TV americana. Na segunda-feira, os Seahawks acordaram sentindo o gosto da vitória. No entanto, o nome que não saía da boca dos milhões de telespectadores era o de um latino-americano que deu bem mais que um show durante o intervalo do jogo histórico.
Vencedor do Grammy 2026, o artista porto-riquenho Bad Bunny foi escolhido para se apresentar no show de intervalo do Super Bowl. Mas o cantor de reggaeton e trap não se limitou apenas à seleção impecável de suas melhores músicas. Entre as batidas de “NUEVAYol” e “LO QUE LE PASÓ A HAWAii”, Bad Bunny exaltou sua cultura e o orgulho de ser latino-americano ao lado de nomes como Lady Gaga e Ricky Martin, no show mais político da história do Super Bowl. Isso porque o artista, no auge de sua carreira, deixou nos telões uma mensagem que dizia: “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.
Ainda assim, o recado deixado pelo cantor, em um momento de extrema tensão nos Estados Unidos, apresenta inúmeras camadas e revelou em suas entrelinhas uma crítica ainda maior do que aquilo que os telespectadores puderam ver na noite do dia 8. Desse modo, para entender a mensagem deixada por Bad Bunny, é preciso voltar o olhar para sua terra natal: a encantadora Porto Rico.
Contexto Histórico de Porto Rico

O arquipélago caribenho é constituído pela ilha principal, Porto Rico, e outras ilhas como Vieques, Culebra e Mona. Porto Rico possui uma rica história. Seus habitantes nativos eram o grupo indígena Taínos, que desenvolveu uma sociedade baseada na agricultura e que denominava a ilha caribenha de Borikén (“terra do valente”). Em 1493, na segunda viagem de Cristóvão Colombo durante as Grandes Navegações, o colonizador invadiu Porto Rico e batizou a ilha de “San Juan Batista”.
No início do século XVI, os espanhóis iniciaram a exploração da ilha, desenvolvendo a mineração e a agricultura com mão de obra escravizada indígena e africana. Os Taínos sofreram grandes perdas em razão das doenças europeias e suas tentativas de resistência ao poder colonial cristão foram brutalmente combatidas. Em 1521, o porto passou a ser reconhecido como San Juan e Porto Rico passou a se referir à integridade da ilha.
Em seguida, a Espanha transformou San Juan em um posto militar, devido à grande importância geoestratégica de Porto Rico para as embarcações do império nas Américas. Em consequência do despotismo esclarecido dos Bourbon durante o século XVIII, reformas econômicas e administrativas foram implementadas para desenvolver o relacionamento entre a ilha e o império. A agricultura recebeu incentivos e o plantio da cana-de-açúcar e do café aumentou significativamente, assim como o número de colonizadores europeus e de pessoas escravizadas em Porto Rico.
Em 1808, quando Napoleão Bonaparte invadiu a Península Ibérica e tornou o seu irmão rei da Espanha, movimentos independentistas ganharam força na América Espanhola. Entretanto, diferente das outras colônias, Porto Rico oferecia poucas objeções aos desígnios da capital e dependia fortemente da sua assistência, o que o transformou em um refúgio para colonos espanhóis leais ao império.
Como consequência, com a volta dos Bourbon ao trono em 1815, a colônia ganhou amplas liberdades econômicas como forma de compensação pela lealdade à coroa espanhola. O pacto colonial foi rompido e os portos abertos ao comércio exterior, foi permitida à imigração de católicos romanos à ilha independentemente da nacionalidade e foram concedidas terras gratuitas aos novos colonos, os quais foram essenciais para o desenvolvimento da ilha caribenha.
Dessa maneira, a economia porto-riquenha fortaleceu o seu papel como exportadora de açúcar, café e melaço, principalmente para os Estados Unidos. A partir da segunda metade do século XIX, o descontentamento dos porto-riquenhos com o regime despótico dos governadores militares coloniais cresceu e o movimento abolicionista exerceu pressão sobre a metrópole. Essas tensões em Porto Rico se somaram à luta cubana pela independência e levaram à perseguição e prisão de opositores ao império nas ilhas caribenhas.
Contudo, os movimentos pró-autonomia política da ilha permitiram que ela obtivesse conquistas da metrópole: a república espanhola aboliu a escravidão em 1873 e permitiu que houvesse um governo constitucional em Porto Rico, embora limitado. Na década de 1880 o movimento pela autonomia política de Porto Rico se sobressaiu em relação ao que defendia a integração direta de Borikén ao governo espanhol e foi violentamente reprimido, o que solidificou o apoio popular aos liberais.
Assim, um novo governo parlamentarista autônomo foi formado, sendo responsável pela criação das leis locais e pela cobrança de tarifas e impostos, enquanto era supervisionado pelo governador-geral, representante espanhol que detinha o poder de dissolver o legislativo e suspender os direitos civis e políticos da população em circunstâncias que ameaçassem o controle da Espanha.
Em 1898, a Espanha reprimia violentamente os insurgentes cubanos em favor da independência, em uma série de hostilidades que prejudicava os investimentos estadunidenses em Havana e impedia o acesso dos EUA aos portos cubanos, quase acabando com o comércio entre os dois países. Além dos prejuízos econômicos, a forte repressão espanhola aos insurgentes e o confinamento da população civil nas “áreas de reconcentração”, sem abrigo, alimentação, saneamento, vestimentas e assistência médica, causaram grande comoção no âmbito doméstico norte-americano.
Em 15 de fevereiro, uma explosão de origem desconhecida na costa cubana afundou o navio de guerra estadunidense Maine, que em conjunto com a doutrina Monroe (América Para os Americanos) desencadeou a Guerra Hispano-Americana. A guerra foi curta, mas humilhante para a Espanha: o país perdeu as possessões coloniais de Cuba – que foi ocupada militarmente pelos EUA até a proclamação de sua Constituição em 1902 -, Porto Rico e Filipinas, sendo que estes dois últimos territórios passaram a ser controlados pelos Estados Unidos.

Os Estados Unidos enxergavam na ilha uma agricultura tropical lucrativa e objetivavam transformá-la em uma estação de abastecimento de carvão segura para os seus navios de guerra, fortalecendo a sua posição geoestratégica no Caribe em um ponto de extrema importância em função dos projetos de construção do Canal do Panamá.
Relação entre Porto Rico e os Estados Unidos
A presença estadunidense na ilha encontrou pouca resistência, já que a maior parte da população enxergava nos Estados Unidos uma democracia próspera, em detrimento da repressão e decadência da república espanhola. Em 18 de outubro de 1898, o general John R. Brooke tornou-se governador militar de Porto Rico e permaneceu no cargo até 1900, ano em que se estabeleceu um governo civil após a ratificação do Acordo de Paris pelo Senado norte-americano e a aprovação da Lei Foraker pelo Congresso.
A Lei Foraker definiu Porto Rico como território não incorporado e criou um governo civil em que o governador, o gabinete e a Suprema Corte da ilha seriam nomeados pelo presidente dos Estados Unidos. A legislação limitou o autogoverno local a uma câmara baixa e instituiu o cargo de representante de Porto Rico no Congresso estadunidense, sem direito a voto.
Washington também fixou tarifas comerciais entre as exportações dos dois países, desvalorizou o peso porto-riquenho e não concedeu cidadania estadunidense aos cidadãos da ilha. Foi limitado o sufrágio para contribuintes e alfabetizados. Tais medidas foram encaradas como designações de uma nova metrópole em uma relação que remontava ao período colonial da ilha e fez com que os porto-riquenhos exigissem um maior grau de autonomia local.
Em resposta ao crescente descontentamento, a lei Jones entrou em vigor em 1917 e concedeu a cidadania estadunidense de forma coletiva aos habitantes do arquipélago porto-riquenho. A medida conferiu uma maior atenção de Washington à ilha, no entanto, ainda foi considerada incompleta ao não aferir a autonomia de Porto Rico.
Os primeiros governadores da ilha tentaram “americanizar” as instituições locais e tiveram que lidar com séculos de negligência com as necessidades básicas da população, desenvolvendo programas de acesso à educação, saúde e saneamento. Houve a regulamentação das relações trabalhistas e promoveram a separação entre a Igreja e o Estado.
Por meio da nova estrutura estatal, o dólar estadunidense foi adotado como moeda de Porto Rico e foram realizadas reformas econômicas que alteraram a estrutura fundiária porto-riquenha. Pequenos produtores tiveram que vender suas terras e trocar os seus plantios de subsistência pelos itens protegidos pelas tarifas aduaneiras impostas pelos Estados Unidos, como a cana-de-açúcar.
A concentração fundiária se correlacionou com a alocação de abundantes investimentos no setor açucareiro de Porto Rico, tanto nos canaviais como na gestão e transporte de açúcar e do melaço em direção aos Estados Unidos. Diante dessa nova realidade, tensões sociais afloraram: donos de pequenas propriedades se tornaram empregados nas plantações de latifundiários, acentuando a desigualdade social na ilha.
Porto Rico também tinha que importar grande parte dos seus itens de necessidades básicas, como alimentos, dos Estados Unidos. Com a Crise de 1929, houve uma queda expressiva nas exportações do arquipélago, que em conjunto com furacões recorrentes causou uma grave crise econômica. Com as políticas do New Deal de Roosevelt e a criação do órgão de Administração da Reconstrução de Porto Rico (PRRA), ocorreu uma tentativa fracassada de redistribuição do poder econômico na ilha ao impor cotas à produção de cana-de-açúcar e à limitação da extensão de propriedades corporativas.
Neste cenário, a dissidência do Partido Liberal pró-anexação pelos Estados Unidos, a Ação Social Independentista, transformou-se no Partido Popular Democrático (PPD), que com as dificuldades impostas pela nova ordem mundial decorrentes da Segunda Guerra Mundial, adotou o projeto de autonomia possibilista, buscando reformas nas relações com a metrópole ao invés da independência.
Com grande apoio das classes mais pobres, o PPD ganhou prestígio local e em 1947, o Congresso dos EUA permitiu que Porto Rico elegesse os seus governadores por voto popular. O PPD recebeu um forte apoio do eleitorado e a partir da liderança de Muñoz Marín, implantou uma série de reformas: redistribuição de terras, a aplicação de leis trabalhistas como salários mínimos e jornadas máximas de trabalho, instituiu um imposto de renda progressivo e estabeleceu um programa de desenvolvimento econômico.

Este programa fomentou a industrialização por convite por meio de incentivos fiscais e intenções tributárias para as empresas, além de investir fortemente em infraestrutura. Porto Rico passou por uma grande transformação econômica, deixando de ser um território majoritariamente agrícola para se tornar uma economia baseada na produção industrial.
Verificou-se um intenso processo de êxodo rural para as cidades, onde os empregos eram ofertados e as condições de vida eram melhores. Também se observou um volumoso fluxo imigratório porto-riquenho para os Estados Unidos, principalmente para a cidade de Nova York, realidade imortalizada pelo clássico filme West Side Story.

Querendo harmonizar o crescimento industrial com a justiça social através da intervenção do Estado nas estruturas econômicas, o PPD se utilizou da popular temática da descolonização do pós-guerra para pressionar os Estados Unidos para o estabelecimento de um governo próprio. Com o respaldo do partido Democrata, a Lei do Estado Livre Associado (ELA) de Porto Rico foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Truman, permitindo a eleição de uma Assembleia Constituinte do arquipélago. A constituição foi redigida e aprovada pelos porto-riquenhos, em seguida sendo ratificada pelo Congresso dos EUA em 1952, inaugurando o estatuto jurídico vigente até a atualidade na ilha.
Com o ELA, Porto Rico passou a ser um Estado Livre Associado, ou seja, pertence aos EUA, mas não é um estado da federação, obtendo, assim, uma estrutura de funcionamento semi-autônoma. A nova definição causou descontentamento aos nacionalistas, mas recebeu uma aprovação esmagadora da população local no referendo realizado na ilha.
Passaram a ser atribuições de Porto Rico:
- A eleição do governador e do Congresso local, que criam e executam leis internas e assegurava a participação de minorias;
- O funcionamento do sistema judiciário porto-riquenho baseado nos princípios da liberdade civil;
- A gestão das escolas e da saúde pública;
- A preservação da cultura porto-riquenha;
- A cobrança de impostos internos.
Atribuições estadunidenses:
- A defesa nacional, o controle militar e operações do FBI na ilha;
- A representação internacional da ilha, que é vedada de assinar tratados internacionais;
- A regulação do comércio externo e a definição de tarifas alfandegárias;
- Controle de fronteiras e políticas de imigração;
- A supervisão financeira da ilha, em que uma Junta de Supervisão Fiscal (JSF) nomeada por Washington pode impor cortes orçamentários e políticas de austeridade fiscal;
- A aplicação de leis federais dos EUA na ilha. O Congresso possui direito de veto e pode substituir leis locais.
- O serviço postal e a utilização da moeda estadunidense.
Durante a década de 60, o PPD, pró-Estado Livre Associado, perdeu popularidade e um novo partido emergiu no quadro nacional: o Partido Novo Progressista (PNP), que liderava o movimento pró-estadualidade de Porto Rico aos Estados Unidos. Desde então, os dois partidos se alternam no cenário político de Porto Rico. Com a Revolução Cubana ao lado em plena Guerra Fria e a crescente adesão à assistência social proveniente dos EUA, os laços culturais, políticos e econômicos entre os dois territórios se solidificaram, impulsionados pela presença da comunidade porto-riquenha e seus descendentes nos Estados Unidos.
Após Porto Rico receber o status de Estado Livre Associado, os EUA informaram à Organização das Nações Unidas (ONU) que a ilha era um território autônomo. No entanto, a insatisfação com o status político da ilha ainda persiste. Em 1967, foi realizado um plebiscito indicado pelo Congresso dos EUA em Porto Rico que continha três opções para a ilha: anexação aos Estados Unidos, independência ou Estado Livre Associado. Porém, só recebeu apoio do partido majoritário no país, o PPD, e sofreu boicote dos partidos pró-estadualidade e pró-independência.
O resultado mostrou que 60,4% do eleitorado apoiou o status de Estado Livre Associado, 38,9% a anexação aos Estados Unidos e 0,6% a independência. Autoridades estadunidenses e porto-riquenhas do PPD concordaram que a relação bilateral entre os dois precisava de melhorias e a autogovernança deveria ser ampliada. Contudo, nenhuma outra medida foi tomada e a alternância de poder entre o PPD (pró-ELA) e o PNP (pró-estadualidade) dificultou a resolução do imbróglio desde então.
Com a vitória esmagadora do PNP nas eleições de 1992, um segundo plebiscito foi realizado, desta vez com a participação de 3/4 do eleitorado. Com o fim da Guerra Fria e a hegemonia econômica e cultural dos EUA na década de 1990, a porcentagem de habitantes favoráveis à anexação aumentou: 46,3%, ante 48,6% a favor do status de ELA e 4% pró-independência. Depois de ser reeleito em 1996, o governador do PNP realizou outro referendo, todavia, a oposição pró-ELA orientou boicote à votação em função de discordâncias na definição de Estado Livre Associado presente nas cédulas.
Em 1999, o governador do PNP Pedro Rosselló acionou o comitê de descolonização da ONU a intervir em Porto Rico, querendo que ele fosse reincluído na lista de territórios não autônomos. Com as dificuldades dos porto-riquenhos em chegarem a um consenso em relação ao status político da ilha, autoridades de Washington relutam em aceitar a condição de estado ou expandir os poderes autônomos da ilha. O fato de Porto Rico ser um território de língua espanhola é visto por muitos legisladores estadunidenses como impeditivo à sua anexação. No entanto, os Estados Unidos são o segundo país com o maior número de falantes de espanhol no mundo, em consequência da sua grande população hispânica.
Em 2012, os porto-riquenhos foram às urnas novamente por causa de outro referendo não vinculativo acerca do status político do território e dessa vez, 61% dos votantes escolheram a anexação aos Estados Unidos. Essa alta porcentagem demonstra que, apesar do seu idioma e da sua rica cultura latino-americana, os porto-riquenhos valorizam a sua relação com os Estados Unidos.
Benito
Em meio às fachadas coloridas e às estreitas ruas ladrilhadas de Vega Baja, em Porto Rico, nasceu um jovem que sempre teve um pézinho dentro do mundo da música. Benito Antonio Álvarez Ocasio nasceu em 1994 em uma família de classe média porto-riquenha. Filho de uma professora de inglês e de um motorista de caminhão, Benito cresceu em meio a inúmeros ritmos musicais diferentes. Entre o bolero e a bohemia, o merengue e a salsa, o artista sonhava de início em ser locutor de rádio.
Passou a infância indo a Igreja todo domingo, onde cantava para os seus colegas e familiares, até os 13 anos de idade. Depois disso, passou a usar de seu tempo para compor músicas próprias, enquanto se aventurava em novos estilos de música como o rap, trap e o reggaeton, improvisando rimas na escola. Foi assim que, aos poucos, a sementinha do estrelato foi plantada dentro do jovem porto-riquenho.

Já mais velho, Benito decidiu ingressar no curso de audiovisual da Universidade de Porto Rico, trabalhando em um supermercado local para custear seus estudos. Enquanto estudava, o jovem passou a compartilhar algumas das músicas de sua autoria no SoundCloud, chamando a atenção de alguns DJs e mesmo produtores. Ao entrar nos olhares da fama, o artista encontrou um empresário, e iniciou sua carreira musical com alguns singles no YouTube.
Em meio ao turbilhão de oportunidades, Benito resolveu que precisava de uma identidade artística. Até que lembrou-se de uma foto sua quando pequeno, vestindo uma fantasia de coelho e fazendo cara de mau. E foi então que surgiu Bad Bunny. Um nome comum, para que quando vissem ou ouvissem falar de um coelho qualquer, lembrassem-se de suas músicas.

Seu sucesso apenas cresceu. Em 2018, sua música “I Like It”, gravada ao lado de Cardi B e J Balvin, foi indicada ao Grammy. Nas vésperas do Natal daquele mesmo ano, o autor lançou seu primeiro álbum: X100PRE. Com uma mistura dos gêneros musicais que compõem o estilo do artista, recebeu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Urbana. Mas essa foi apenas a primeira de muitas vezes que o nome do cantor apareceria na lista dos favoritos para grandes prêmios.
Suas músicas passaram a tornar-se comuns no Billboard Hot 100 e Billboard 200. Em 2020, estreou no show de intervalo do Super Bowl pela primeira vez, ao lado de Shakira, Jennifer Lopez e J Balvin. Recebeu Grammys de melhor Álbum Urbano e Latino por seus álbuns “YHLQMDLG” (“Yo Hago Lo Que Me Da La Gana”) (“Eu faço o que tenho vontade”), em 2020, e “El Último Tour del Mundo”, em 2022.
Em paralelo a sua atuação musical, o artista também teve seu momento nas telonas, estrelando em grandes produções como “Velozes e Furiosos 9” (2021) e “Trem bala” (2022). Também teve seus minutos de fama pelo filme hollywoodiano “Bullet Train”, no qual contracenou com o ator Brad Pitt como um assassino mexicano com sede de vingança. Participou também de séries de televisão como “Narcos: México” (2021).
O quarto álbum de Bad Bunny, lançado ainda em 2022, foi posteriormente indicado ao Grammy de Melhor Álbum do Ano, trazendo ainda mais holofotes para a carreira do artista. Mas foi em 2025 que o astro atingiu seu auge no mundo da música. Em janeiro daquele ano, Bad Bunny lançou o álbum “Debí Tirar Más Fotos” (“Deveria ter tirado mais fotos”), que permaneceu por quatro semanas no topo das mais ouvidas, na Billboard 200. Suas duas músicas “DTMF” e “Baile Inolvidable” tornaram-se hits nas redes sociais e ficaram no top 5 da Hot 100. Diante do estrelato, seu novo álbum fez história ao ganhar o Grammy de Melhor Álbum do Ano de 2026: foi a primeira vez que um álbum internamente em espanhol foi premiado.
Nesta edição mais recente do Grammy, o artista, indicado em 12 categorias, incluindo as de Gravação e Canção do Ano para “DTMF”, aproveitou seus minutos no palco para deixar uma mensagem importante. Durante seu discurso, o cantor proferiu as seguintes dedicatórias: “Quero dedicar este prêmio a todas as pessoas que tiveram que deixar sua terra natal, seu país, para seguir seus sonhos”. Além disso, ao finalizar seu discurso, o artista deixou claro sua posição quanto à política migratória americana no atual momento de tensão vivido pelo país, dizendo em alto e bom som: “Fora ICE”.

O artista já havia se posicionado anteriormente em questões políticas, e o fazia inclusive através de sua música. Em 2018, o cantor abordou a violência doméstica na América Latina de forma profunda e harmoniosa, em sua música “Solo de mí” (“Apenas de mim”). Além disso, durante o período da pandemia da COVID-19, Bad Bunny apresentou-se em cima de caminhões em serenatas pelas ruas de Nova York, homenageando os profissionais da saúde dos hospitais locais, que trabalhavam incansavelmente durante o período.
O cantor também envolveu-se em ativismo contra homofobia e transfobia, além de ter homenageado as vítimas do furacão Maria e ressaltado o espírito porto-riquenho em sua música “Estamos Bien”. Além disso, é dono da Fundação Good Bunny, que ajuda crianças em situação de vulnerabilidade. Bad Bunny também envolveu-se em uma luta direta contra a corrupção sistêmica em Porto Rico, demonstrando seu posicionamento em “Afilando los Cuchillos” (“Afiando as Facas”), que fala da luta contra os escândalos de corrupção do governo. Mas a determinação política e o ativismo do cantor não parou nas barreiras de sua ilha ou do palco do Grammy Awards.
Na semana passada, o autor foi convidado para apresentar-se novamente, dessa vez como a estrela principal, no show de intervalo do Super Bowl. Vestido a caráter e todo de branco, Bad Bunny cantou bem mais que suas músicas durante a apresentação. Acima dos torcedores nas arquibancadas, o artista estampou uma simples mensagem…
O Amor é Maior que o Ódio
Uma casinha rosa. Um canavial. Postes de luz elétrica. E 135 milhões de telespectadores em apenas 13 minutos. Foi nesse clima que o artista porto-riquenho Bad Bunny fez história ao conduzir o show mais político que já tomou palco no Super Bowl ao longo dos anos. O cantor já havia se apresentado no intervalo do jogo anual antes, como convidado, ao lado de Shakira em 2020. Mas essa foi a primeira vez que ganhou protagonismo na apresentação, estrelando o show mais assistido da história do Super Bowl. No entanto, o recado deixado pelo cantor vai além das cenas exibidas nas telonas. Nos bastidores, a mensagem tinha um caráter político incontestável.
Um espetáculo construído nos detalhes. E uma mensagem transmitida pelas entrelinhas. Foi através de uma visão crítica da atualidade que Bad Bunny liderou o show de intervalo. O tom político com o qual o artista conduziu as cenas não apenas criticou a visão estadunidense do que significa ser americano como também enalteceu o modo latinoamericano de ser.
Tudo começou com uma performance que se deu em meio a um canavial, ao lado de trabalhadores rurais usando chapéus de palha (pavas). A cena homenageou o passado agrícola de sua terra natal, demonstrando a importância do suor dos agricultores na formação não só da economia mas também da identidade porto-riquenha. Segurando uma bola de futebol americano, o cantor saiu das plantações de cana-de-açúcar e passou a caminhar pelas ruas de Porto Rico. O artista dançou em um cenário que recriou nos mínimos detalhes o cotidiano das comunidades latinas.
Senhores jogando dominó, carrinhos de rua com piragua e coco gelado, e bodegas nova iorquinas. O cantor convidou até mesmo Toñita, dona do clássico Caribbean Social Club em Williamsburg, no Brooklyn, para fazer uma aparição especial durante o show. Bad Bunny já havia trazido referências à porto-riquenha em sua música “Nuevayol”, e celebrou o lançamento de seu álbum “Un verano sin ti” no famoso club. A presença de Toñita, que mudou-se de Porto Rico para Nova York e lá vive até hoje aos 85 anos, representou não apenas um tributo às próprias músicas do cantor, mas também à diáspora porto-riquenha.

O show também trouxe os desafios atuais relacionados à crise elétrica e à negligência governamental enfrentada pelos moradores de Porto Rico. A crítica fez-se clara enquanto o cantor subiu em um poste de luz em meio a fios elétricos ao som de “El Apagón”, fazendo menção aos constantes apagões que a ilha vem sofrendo. Logo em seguida, Bad Bunny continuou dançando em cima de uma pequena casita rosa, no estilo das clássicas casas com fachadas coloridas que tomam conta das ruas de Porto Rico. Aos seus pés, artistas de origem latina como Pedro Pascal, Karol G, Cardi B e Jessica Alba dançavam ao som das músicas do cantor. Tal união de distintas nacionalidades latino-americanas representou não apenas as icônicas festas de garagem onde nasceu o famoso reggaeton, mas também o orgulho de pertencer a uma comunidade tão cheia de cultura, de diversidade e de tradição.

Mas a lista de famosos que integraram o show do porto-riquenho não parou por ali. Seu conterrâneo, Ricky Martin, surgiu em um cenário representando a capa do álbum “Debí Tira Más Fotos”, cantando “Lo que le passó a Hawaii”. A música, interpretada por Martin de forma elegante e profunda, denuncia o apagamento cultural no Hawai decorrente de décadas de colonização e exploração econômica. Ao mesmo tempo, a canção estabelece um paralelo direto com Porto Rico, país que atualmente vem sofrendo com a gentrificação e com a marginalização crescente de sua população, que tem sua soberania cada vez mais ameaçada. A performance encaixou-se no show para trazer um lembrete aos telespectadores, de que no momento atual, de tensões migratórias e nacionalismos exacerbados, identidade, cultura e território são os meios mais fortes de resistência.

Mas a crítica ao apagamento cultural não foi a única mensagem que Bad Bunny quis deixar no Levi ‘s Stadium. Ao celebrar uma linda cerimônia de matrimônio em uma típica festa de casamento latina, o cantor deu as boas vindas a mais uma convidada especial. Ao som de “Die with a smile”, ele recebeu Lady Gaga no palco do evento. A artista nova iorquina interpretou a canção com um toque de salsa, arranjado pela banda porto-riquenha Los Sobrinos. O desejo de Bad Bunny ao trazer essa cena tão emocionante e unir um casal real em meio ao show de intervalo foi de transparecer que, em tempos de ódio, a única coisa que prevalece, é o amor.
E foi essa a mensagem que o cantor estampou nas telonas do estádio, aos olhos das mais de 65 mil pessoas. Um recado que pode parecer simples, singelo, mas que na realidade carrega uma forte crítica. O ódio mencionado no show pelo artista é o medo do desconhecido, do incomum, do imigrante. E são os discursos atuais carregados de raiva e de indiferença, e sem nenhuma compaixão, que ao lado da ignorância transformam esse medo em ódio. Foi a partir dessa mensagem que o show de Bad Bunny foi capaz de alcançar lugares onde a política tradicional não chega.

O espetáculo não apenas provou a influência que ícones culturais são capazes de adquirir como potentes instrumentos de mobilização contra abusos de poder, como também emitiu um alerta de como o uso excessivo de políticas de confronto e falhas na comunicação simbólica podem abalar os alicerces de um governo. Especialistas apontam que o show foi também uma crítica ao ICE, o serviço de imigração e alfândega dos EUA, que já havia sido denunciado de forma direta por Bad Bunny, em seu discurso no Grammy Awards 2026, pelo uso indevido de força contra imigrantes no país.
Quer saber mais sobre o ICE? Então acesse https://laibl.com.br/a-politica-de-caca-as-bruxas-do-ice/
Diante de tais críticas a suas políticas anti-imigratórias, o presidente norte-americano, Donald Trump, pronunciou-se sobre o show de intervalo, revelando sua mais profunda indignação e afirmando que a apresentação teria sido “uma afronta à grandeza da América” e que não seguia seus “padrões de sucesso, criatividade ou excelência”. Ainda assim, o evento não deve ser encarado apenas como um show “anti-Trump” ou “anti-ICE”, mas sim como um show sobre o orgulho de ser latinoamericano.
Encaminhando-se para o final do espetáculo, o cantor proferiu as seguintes palavras: “God bless América” (“Deus abençoe a América”). Mas ele não falava apenas do país de onde cantava. Bad Bunny ensinou a todos o que é América ao mencionar logo em seguida os nomes de todos os países do continente americano, enquanto desfilava ao lado de cada uma das bandeiras nacionais de seus países. O artista encerrou passando uma mensagem central, a de que América é um continente diverso, composto por uma variedade enorme de países que merecem visibilidade e celebração de sua cultura e identidade.

Benito também carregou, ao final do desfile, a bandeira de sua terra natal, Porto Rico, demonstrando seu apoio a uma nação que vive no limbo entre a soberania nacional e as amarras históricas. Apesar de possuírem cidadania americana, os porto-riquenhos ainda são tratados como estrangeiros em território estadunidense, sem direitos e nem mesmo o reconhecimento que merecem. Ao empunhar a bandeira de Porto Rico, Bad Bunny trouxe aos porto-riquenhos esse reconhecimento inegável, o reconhecimento de uma identidade nacional, ainda que por apenas 13 minutos de show.

O show teve uma repercussão global, atingindo comunidades latinas, e mesmo não latinas, em diversos países ao redor do mundo. Vale ressaltar, no entanto, o caso do Brasil, que apesar de ser um país latinoamericano, apresentou um número baixíssimo de telespectadores do evento, e mesmo de fãs do artista, em comparação aos seus vizinhos. Tais métricas se devem ao limbo no qual os brasileiros se encontram, onde o orgulho de ser latinoamericano parece entorpecido, não apenas por diferenças históricas na colonização, mas também por séculos de um olhar opressor que tentava isolar-se da América Latina para de algum modo aproximar-se dos Estados Unidos, que consideravam-se “superiores”.
Mesmo assim, Bad Bunny não deixou de incluir a bandeira brasileira em seu desfile, concluindo o espetáculo com muita dança e festa ao som de um de seus maiores sucessos: “Debí Tirar Más Fotos”. A música, que dá nome ao álbum, fala de saudade, memória e da importância da união e do amor em tempos difíceis. Diante desse cenário, o show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl 2026 contou com uma performance brilhante e detalhista do artista, onde nada era por acaso. Desde os convidados até os meticulosos detalhes nos cenários, Benito conseguiu capturar o abraço aconchegante da comunidade latina e prestar homenagem a sua cultura, tradição e identidade em um espetáculo inesquecível.
Foram apenas 13 minutos. Bad Bunny abraçou com muito amor um continente inteiro em apenas 13 minutos.
Referências
https://www.britannica.com/event/Spanish-American-War/Fighting-in-the-Philippines-and-Cuba
https://www.britannica.com/event/Cuban-Independence-Movement
https://rioonwatch.org.br/?p=30215
https://www.biography.com/musicians/bad-bunny
https://www.letras.mus.br/blog/cantor-bad-bunny
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