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Moda é Política: a Relação da Vestimenta Com Crises e Violência

Moda é Política: a Relação da Vestimenta Com Crises e Violência

Por Isadora Estanislau e Juliana Campos.

Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.

Ideologias da Moda: Mente, Imagem e Política

Muito além de uma seleção de vestuário e cores, a moda é compreendida como um dos princípios organizadores da sociedade moderna. Responsável pela renovação periódica de objetos materiais e de conceitos, ela institucionaliza a busca pelo efêmero ao atribuir valor àquilo que é novo e facilmente substituído, enquanto transforma a construção de identidades e de valores presentes na atualidade.

 Não apenas presente na escolha de determinada roupa, a moda está intrínseca a distintos recortes do cotidiano, desde o modelo de carro escolhido por um consumidor até o sentimento de pertencimento a determinado grupo social. Desse modo, com destaque às vestimentas, o fenômeno da moda manifesta expressões individuais e coletivas, sendo capaz de revelar e de articular identidades políticas, hierárquicas e econômicas por meio de uma linguagem sutil e fugaz.

Nesse viés, segundo o sociólogo Gilles Lipovetsky:

A moda deve ser compreendida como um instrumento versátil de ressignificação individual, capaz de moldar não somente a identidade do ser, mas também sua posição social e a percepção de outros sobre si. 

Como pilar da contemporaneidade, a moda é motor do individualismo extremo que configura a “sociedade hipermoderna”, definida por Lipovetsky como a exacerbação do moderno, que perpassa o hiperconsumo e a obsessão pelo novo. A moda se faz presente em inúmeros aspectos do consumo, do design, da cultura e do comportamento humano.

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A Exposição do Fashion and Textile Museum intitulada Missoni Art Colour, organizada pelo Museo Arte Gallarate e pela The Woolmark Company, compartilhado por Ton van der Veer. Fonte: Pinterest.

Por ser responsável pela formação do caráter, das escolhas e da cultura, a moda torna-se contraditória, pois ao mesmo tempo em que, como vestuário e produto, se aproxima do consumidor para “responder a suas percepções, atitudes e necessidades” (Crane, p. 14, 2011), ela também deve criar e definir o que será apropriado, naquela estação, para os consumidores. Assim, a moda tanto se oferece como espaço de expressão pessoal quanto limita a manifestação dessa individualidade.

Dessa maneira, atitudes como buscar um novo estilo de vestimentas, um novo corte de cabelo ou repaginar o guarda-roupa, por mais pessoais e subjetivas que aparentam ser, são ações condicionadas a uma lógica de mercado pautada no consumismo e na apreciação do que é novo e, por isso, estão inseridas na moda. Essa lógica é o que define a indústria da moda, presente nas escolhas de consumo, nos produtos padronizados e no imaginário popular que conduz as sociedades contemporâneas.

Desse modo, é evidente que a hierarquização da sociedade, principalmente por meio das classes sociais, se expressa para além da desigualdade econômica. Aparências, prestígios, posses e conhecimentos acumulados se enredam e edificam níveis mais profundos de disparidade social. A indústria da moda toma parte nessa intricada relação por meio de sua dualidade anteriormente debatida, ou seja, ao oferecer um meio de expressão aparentemente libertário e individual, cerceia, simultaneamente, as escolhas dos consumidores e, portanto, os diferencia com base no preço das roupas, no local de compra e na exclusividade do produto.

Nesse sentido, a construção identitária, bem como a formação de ideologias e de padrões que regem uma sociedade, é fortemente induzida pela indústria da moda. Ao exercer grande influência sobre o estilo de vida, o comportamento e a imagem dos consumidores, essa indústria reproduz desigualdades socioeconômicas, estabelecendo uma rede entre capital cultural, simbólico e econômico por meio das roupas.

Esses capitais não se resumem a valores econômicos designados a cada área, mas, segundo o filósofo francês Pierre Bourdieu, a recursos que garantem poder e prestígio na sociedade moderna. O acúmulo de conhecimentos socialmente reconhecidos (que caracterizam o capital cultural), a reputação de um indivíduo e sua capacidade de influência (capital simbólico e social, respectivamente) são fundamentais para compreender transformações sociais juntamente às análises clássicas de como a posse de dinheiro e de bens — isto é, de capital econômico — moldam a hierarquia da sociedade.

Ou seja, ao combinar vestimentas caras, reconhecimento hierárquico, símbolos de prestígio e códigos estéticos associados ao “bom gosto” (que, na verdade, são os padrões da elite socioeconômica), a indústria da moda reforça a distinção social entre aqueles que detêm mais poder aquisitivo — e, logo, acesso à educação — e aqueles que pertencem a classes mais baixas.

Isso ocorre em detrimento dos diferentes valores sociais e simbólicos atribuídos a estilos mais caros que, assim que chegam ao alcance do público menos abastado, perdem-se, de modo que determinada roupa deixa de “estar na moda” e torna-se algo ultrapassado, agora, mal visto.

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Diferentes vitrines se adequam a públicos distintos, conforme preço e outros fatores socioeconômicos. Fonte: Investing.com.

A velocidade com que a depreciação desses valores ocorre depende de inúmeros fatores, desde a facilidade da produção da roupa até sua quantidade no mercado, o que garante sua singularidade. Assim, o apreço pelo efêmero se materializa na indústria da moda e edifica a desigualdade social e econômica.

Para além da estratificação socioeconômica, essa indústria também é responsável pela propagação e pela aceitação de ideais políticos. Segundo a professora Eugenia Paulicelli, a institucionalização e modernização da indústria da moda italiana, por exemplo, foi essencial para a projeção de unidade política e da identidade nacional buscada pelo regime fascista na Itália, em meados de 1930.

É importante destacar que, para um regime ultranacionalista como o do fascismo italiano, a propaganda política e o controle social eram de extrema importância, de forma que o poder sobre imagem, identidade e gosto da população se consolidou não somente pela repressão violenta e pela censura, mas também pela criação de instituições como a “Ente Nazionale della Moda” (Ente Nacional da Moda), responsável por fiscalizar a produção têxtil do país e por garantir que a moda nacional estivesse de acordo com as pretensões do regime.

A consolidação desse projeto ultranacionalista de vestimentas que representassem o fascismo italiano se deu pela autarquia da moda nacional, ou seja, ainda que a indústria têxtil tivesse certa autonomia na produção, a fiscalização era constante. Com efeito, regulamentar o modo como a população se vestia tornou-se objeto de segurança nacional, e cabia ao Estado italiano interferir diretamente na construção identitária, enquanto buscava fortalecer o regime fascista. 

Construir um modelo italiano na indústria da moda não era apenas uma política doméstica, pois a idealização das vestimentas nacionais também configurou o combate à influência francesa, a qual era muito forte quando o assunto era estética e beleza no vestuário. Assim, a projeção de unidade identitária italiana era feita por meio de uma escolha governamental minuciosa do que a população deveria gostar, almejar e vestir.

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Capa da revista Graziamarzo de 1939, representando a moda autárquica da Itália fascista. Portfólio Mondadori/Getty Images. Fonte: Vogue Itália.

Sob esse olhar, é perceptível que aquilo que uma população veste, traduzido no valor agregado à moda no imaginário social, é de grande importância política. Por isso, destaca-se como o fortalecimento de ideologias de extrema-direita, para além do fascismo supracitado, ocorre com base nos padrões de moda propagados pela mídia e pelos demais agentes políticos — dentre eles, o próprio Estado.

Dessa maneira, conforme a indústria da moda se adapta à efemeridade dos gostos e ao hiperconsumo — características que regem a contemporaneidade —, tendências políticas também instrumentalizam códigos estéticos para promover suas ideologias. As tendências de moda mais recentes, segundo Anna Brown, apegam-se a valores baseados no conservadorismo e no conformismo, o que também pode ser um indicador de recessão econômica.

Com efeito, a propagação de padrões de vestuário e de beleza por meio de mídias sociais edifica a teoria de Lipovetsky ao exemplificar como a rapidez de acesso, produção e circulação de informações corrobora a uma moda efêmera, mas entorpecente ao público que a consome.

Nesse cenário, tendências como clean girl — uma estética associada à aparência limpa, maquiagem pouco notável, alta feminilidade e elegância silenciosa —, apesar de promover bem-estar e delicadeza, está associada a“normas sociais ultrapassadas em relação às mulheres”, integrando um estilo de moda que evidencia como:

“a ascensão de papéis femininos mais tradicionais […] caminha lado a lado com tempos de conformidade e conservadorismo” (Brown, 2025).

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Desfile de moda italiano de 2026, em que a estética é elegância silenciosa. Fonte: Harper’s Bazaar.

Ademais, também propagado em redes sociais como Instagram e TikTok, a tendência do old money exemplifica a moda como instrumento de estratificação social, conforme a teoria de Bourdieu propõe. Isso é constatado pela idealização do luxo, da elegância e da atemporalidade de uma estética cara e conservadora, marcada por roupas e designs que simbolizam não apenas uma forma antiga de se vestir, mas também ultrapassada de se pensar.

Moda em Tempos de Crise: Barras ao Longo da História

Capaz de representar a identidade pessoal, reformular a imagem social e influenciar comportamentos políticos, a moda desempenha um papel crucial na estrutura da sociedade contemporânea.

Para alcançar esse patamar de importância, os padrões estéticos configurados pela moda diferenciam-se e adaptaram-se ao longo do tempo conforme as diferentes tendências políticas e os distintos patamares econômicos que se projetam sobre a sociedade.

Nesse sentido, o termo “índice da barra” (originalmente conhecido por “hemline index”) surge para explicar uma correlação entre o modo de se vestir das mulheres com o aumento do conservadorismo na política local.

Historicamente, crises econômicas impactam não apenas o mercado de ações, mas também a conjuntura política e o imaginário popular de um país. A década de 1920, por exemplo, foi marcada por um esplendor econômico no ocidente, principalmente nos Estados Unidos, em que a política local — baseada no consumo em massa e no liberalismo — ficou conhecida como “American Way of Life” (Estilo de Vida Americano).

Durante esse período, a barra das saias e dos vestidos acompanhava o mercado de ações — ou seja, era alta — e representava a conexão entre liberdade econômica e liberdade estética: um período de alta na economia significava mais conforto aos consumidores e, consequentemente, era o momento oportuno para que novas ideias e novas roupas mais ousadas e curtas fossem experimentadas.

Com destaque às saias flapper, ou “melindrosas”, de tecidos esvoaçantes, carregados de franjas e miçangas, as roupas femininas da década de 1920 expressavam bem o sentimento de inovação e de liberdade estadunidense, garantido pelo bem-estar econômico.

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Mulheres utilizando a saia “flapper” segundo a estética da década de 1920. Fonte: Moda Feminina.

Entretanto, com a crise econômica de 1929, causada pela especulação financeira descontrolada na bolsa de valores estadunidense e sua consequente quebra, o cenário mudou drasticamente. A população já não tinha qualquer segurança econômica e isso se traduziu no imaginário coletivo, como a necessidade de buscar conforto no que havia garantias, ou seja, em ideais socioeconômicos mais próximos do conservadorismo.

Dessa maneira, o modo de se vestir foi afetado pela recessão econômica e as barras das roupas femininas continuaram a acompanhar o mercado de ações: despencando, assim como os índices, e voltando a cobrir pernas e joelhos das mulheres. Esse tipo de moda mais reclusa e conservadora representou o ideal momentâneo ao comportamento feminino, que deveria ser menos liberto e atrevido e mais reservado e tradicionalista.

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Catálogo de moda da década de 1930. Fonte: História da Moda.

Seguindo o padrão observado entre os anos de 1920 e 1930, as barras das saias e dos vestidos continuaram seguindo índices econômicos, diminuindo conforme o padrão de vida se mostrava mais confortável e aumentando em tempos de guerra e crise. Perante isso, o “índice da barra” demonstra que determinado cenário na economia de um país pode influenciar a maneira como sua população pensa e, portanto, se veste. A moda torna-se um fator social não apenas ao expressar gostos individuais e culturais, mas também ao ser elaborada por um conjunto de elementos sociais que constroem a imagem das vestimentas mais apropriadas para determinada situação econômica e política de um país.

Portanto, mesmo estilos atuais — muito propagados em redes sociais e populares entre gerações mais jovens, como a estética clean girl já discutida — são reflexo do conturbado cenário sociopolítico atual, caracterizado pela ascensão de ideais conservadores e da extrema-direita.

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Estilo de roupas em tendência, cores neutras e modestas. Fonte: Aimer.

Por fim, representando a tendência a um visual reservado, em tons claros e femininos, o estilo clean girl corrobora ao entendimento do índice da barra, pois indica o fortalecimento de estéticas e ideologias tradicionalistas no imaginário popular.

Vestindo a Camisa da Guerra

Nos últimos anos, o setor de tecnologias militares consolidou-se como um dos segmentos mais lucrativos do mercado mundial, impulsionado pelo aumento de tensões geopolíticas e, consequentemente, pela expansão de gastos militares em todo o mundo. Neste cenário, empresas estadunidenses de desenvolvimento de softwares, de equipamentos aeroespaciais e outros tipos de tecnologias bélicas vêm crescendo mais a cada ano, fomentadas pelo fornecimento de armas do governo americano à Ucrânia e a Israel. 

No entanto, apesar de seus ganhos milionários, algumas dessas empresas estão investindo em um novo mercado, considerado inusitado pela mídia em geral: adicionando apenas o termo “apparel” — que pode ser traduzido como “vestuário” — na frente de seus nomes, as empresas passaram a vender roupas. 

Em 2023, a maior empresa de armamentos do mundo, Lockheed Martin, em colaboração com a empresa sul-coreana Doojing Corporation, lançou uma linha de peças streetwear na Coreia do Sul, sob o nome de Lockheed Martin Apparel. A linha conta com camisetas e jaquetas estampadas não apenas com o nome e o logo da empresa, mas também com imagens de boeings e caças que fabricam. 

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Camiseta estampada com um caça F-35 sendo vendida na plataforma sul-coreana de vendas online de roupas, Musinsa. Fonte: The Korea Herald.

Apesar de já possuir uma linha de produtos de vestuário antes, o lançamento de uma linha streetwear — termo que faz referência a um estilo urbano e casual, muito popular entre a população mais jovem — foi algo inédito para a empresa, claramente focando em um público mais novo e promovendo as roupas não só como um merchandising da marca (com o único objetivo de fazer com que o logo da empresa circule), mas também como peças fashions e desejáveis.

No entanto, essa ação inédita para a Lockheed Martin, não surpreendeu tanto o mercado fashion sul-coreano. Na última década, outras empresas e instituições não relacionadas a vestuário realizaram parcerias com empresas de roupa do país e lançaram coleções com peças estampando seus logos — alguns exemplos são a CNN, Yale, Kodak e National Geographic.

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Loja da CNN Apparel, marca de roupas do canal de notícias estadunidense, em Seoul. Fonte: Tenant’s News.

Entretanto, apesar de outras empresas já terem feito o mesmo, a ação da Lockheed Martin ganha destaque, pois não é uma empresa de materiais fotográficos ou uma universidade; ela vende equipamentos utilizados em guerras, não guerras históricas e distantes, mas extremamente atuais. Por conta disso, jovens utilizando camisetas nas ruas estampando esses equipamentos colocam em questionamento o objetivo por trás de uma coleção como essa, junto com a escolha do mercado sul-coreano para seu lançamento. Nesse contexto, é importante ressaltar que a Coreia do Sul segue sendo um país extremamente militarizado, com serviço militar obrigatório, em decorrência da Guerra da Coreia (1950-1953) e as tensões que ainda existem na região. 

Dessa maneira, pode-se considerar esta coleção streetwear como uma forma de normalizar o conceito de guerra entre essa população, tornando os elementos relacionados a conflitos bélicos parte de um imaginário cool e descolado. Além disso, a cultura sul-coreana vem sendo fortemente exportada para países ocidentais, multiplicando esses efeitos. O país que criou e popularizou o k-pop e o k-drama mundialmente, comprova sua capacidade de tornar algo fashion entre seus  jovens uma tendência no mundo todo.

Assim, a Lockheed Martin, fugindo do seu mercado tradicional, vêm normalizando a imagem da guerra, tornando elementos bélicos banais e parte do cotidiano. Ressalta-se, ainda, o  momento atual em que 63% das vendas advém de um departamento americano que, em 2025, teve seu nome trocado pelo atual presidente estadunidense, Donald Trump, de “Departamento de Defesa” para “Departamento de Guerra”. 

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Logo da Lockheed Martin com a frase “Uma indústria de defesa dos EUA” estampado na parte de trás de uma das camisetas da coleção. Fonte: Lockheed Martin Apparel.

No entanto, a coleção da Lockheed Martin não é um caso isolado de normalização e exaltação militar através da moda por uma empresa estadunidense nas últimas décadas. Em 2013, a marca americana de roupas Authentic Apparel Group anunciou uma coleção com inspiração militar licenciada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, isto é, que utilizava e exibia legalmente o selo do exército americano. 

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Imagem de divulgação da coleção da Authentic Apparel Group. Fonte: Rolling Stones Brasil.

Para conseguir tal licenciamento, a marca teve de desenvolver as roupas em conjunto com o Pentágono — sede do atual Departamento de Guerra. Cada peça teve de ser avaliada para garantir o que a marca divulgou como “qualidade do exército”. Ou seja, todo esse processo serviu para agregar valor à coleção e trazer uma sensação de exclusividade às peças. 

Desse modo, novamente, a relação das peças com elementos militares é associada com algo fashion, tornando o exército e suas vestimentas verde musgo com estampas camufladas algo desejável e apreciável. 

Não se reservando ao passado ou à Coreia do Sul, em 2026, outra empresa estadunidense, dessa vez atuante na área de análise de dados, se lançou no mercado da moda: a Palantir Technologies. A empresa, que tem seu nome em referência a um artefato do universo de “O Senhor Dos Anéis” de Tolkien  — que demonstra o que está acontecendo em lugares distantes em tempo real — ganhou notoriedade nos últimos tempos por oferecer seus serviços de softwares de análise de grande volume de dados para (i) o Serviço de Imigração e Alfândega americano (ICE), responsável por diversos casos de violência contra imigrantes, para (ii) o Pentágono, que tem ligação com todas as empresas citadas, e (iii) para as Forças Armadas dos EUA, em 2026. 

Assim, além de estar desenvolvendo um sistema de Inteligência Artificial denominado Project Maven, capaz de analisar imagens de satélite e dados fornecidos por drones para sugerir possíveis alvos de ataque  — e que está sendo atualmente utilizado pelos Estados Unidos em seus ataques ao Irã —, a desenvolvedora de softwares também está vendendo jaquetas de algodão. 

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Página no Maven que identifica padrões, com um algoritmo treinado por dados militares, e pode até criar uma lista de possíveis alvos para priorizar. Fonte: CNN Brasil. 

Conhecida como chore coats ou bleu de travail, a jaqueta de corte reto e bolsos grandes surgiu na França como um uniforme para operários e trabalhadores rurais. Hoje, vem sendo retomada como uma peça chave no guarda roupa de homens jovens e estilosos. O modelo, que normalmente vem em um tom de azul vibrante, e já fez parte de looks vestidos por ícones da geração atual, como o ator Jacob Elordi e o cantor Harry Styles, agora pode ser comprado no site de produtos da Palantir. 

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Chore coat vendida pela Palantir com o logo da empresa no bolso da frente. Fonte: Palantir Shop.

Portanto, mais uma vez, pode-se identificar uma tentativa de atrair a nova geração para influenciar a percepção destes sobre a empresa e tentar ao máximo normalizá-la no imaginário público. Assim, quando o nome “Palantir” surgir em uma conversa, ele deixa de ser relacionado apenas à guerra e à deportação, afinal, são eles que também fazem aquela jaqueta em um modelo francês com um caimento oversized. 

A marca tem eventualmente lançado, em seu site, pequenos lotes da jaqueta, que esgotam em aproximadamente 15 minutos. Além disso, reconhecendo, assim como a Lockheed Martin, o diferencial do mercado sul-coreano, a empresa levou lojas temporárias de suas peças, mais de uma vez, para Seoul. 

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Etiqueta no interior da jaqueta da Palantir com os dizeres “Pergunte à si mesmo constantemente, eu estou vencendo? Se a resposta é sim, nada mais importa. Caos é tolerável, dor é tolerável. A única coisa que importa é vencer.” em inglês. Fonte: Palantir Shop. 

Desse modo, Lockheed Martin, Authentic Apparel e Palantir vestem pessoas do mundo todo com camisas, calças e jaquetas estilosas. Algumas remetendo às roupas de soldados, outras levam dizeres como “A única coisa que importa é vencer” entre suas costuras e outras são estampadas com os mesmos boeings e caças que bombardeiam casas ao redor do mundo. Todos eles em uma tentativa de colocar a guerra como algo legal,  fashion e cool o bastante para se vestir. 

A Moda e a Violência: Neonazismo

Além da ideia de guerra, a moda também tem sido utilizada, ao longo de toda a história, para fomentar preconceitos e desigualdades, o que se mantém até hoje. 

No Leste da Alemanha, principalmente na região da Saxônia, marcas de roupas foram, mediante a ascensão de grupos neonazistas, criadas para vender peças com estampas relacionadas a símbolos e a figuras do nazismo. Um exemplo é a grife Thor Steinar, nomeada em homenagem ao deus nórdico (Thor), já que alguns movimentos neonazistas apoiam sua crença na suposta superioridade branca e na legitimidade nazista na  descendência do povo nórdico. A marca vende camisetas com símbolos que remetem à suástica (mas sem usá-lá explicitamente, em uma tentativa de burlar a legislação alemã) ou a frases relacionadas a Hitler. 

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Camiseta da marca Thor Steinar, estampada com o número 44, que é usado como código por grupos neonazistas por sua semelhança com o símbolo da Schutzstaffel (SS), organização paramilitar central do regime nazista. Fonte: Thor Steinar Outlet Olineshop.

A marca faz sucesso principalmente entre jovens e os membros do movimento xenófobo e anti-islã “Pegida”, sigla em alemão para “europeus patrióticos contra a islamização do Ocidente”.  A região onde surgiu o movimento, a cidade de Dresden, capital do estado da Saxônia, concentra diversos grupos extremistas de direita, já que, na década de 90, grupos neonazistas se mobilizaram na cidade por conta do “Bombardeio de Dresden”, ataque realizado na região pelas forças britânica e americana, em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial. O conflito passou a ser apropriado por grupos neonazistas como um símbolo da vitimização alemã, servindo de base para discursos revisionistas sobre o movimento nazista.

Foi nesse contexto que a Thor Steinar deixou de ser apenas uma marca de roupas e passou a consolidar-se como um dos principais símbolos de identificação da extrema direita alemã. Em 2004, a marca teve seu logo banido depois que um tribunal o identificou como um símbolo nazista proibido, o Wolfsangel. No entanto, a grife apenas realizou uma mudança de logo e voltou ao mercado normalmente. 

Já em 2012, oito deputados de um partido de extrema-direita alemão, o Partido Nacional Democrático (NPD), foram expulsos da câmara parlamentar do estado alemão da Saxônia por estarem vestidos com roupas da Thor Steinar. 

Nesse mesmo ano, a marca abriu uma loja chamada Brevik, na cidade de Chemnitz, no leste da Alemanha. O caso foi polêmico, pois o nome da loja era muito semelhante ao sobrenome de Anders Breivik, responsável pelo assassinato de 77 jovens em um acampamento da ala jovem do Partido Trabalhista da Noruega, em 2011. Nas investigações, foi encontrado um manifesto em que Breivik afirmava suas ideias supremacistas e ultranacionalistas que levaram ao ataque. 

Nesse cenário, a abertura da loja da Thor Steinar com um nome tão semelhante ao de Anders apenas um ano depois do atentado levou a uma forte reação da sociedade alemã e norueguesa. Após protestos, a empresa removeu o letreiro que exibia o nome “Breivik”, trocando o nome da loja na mesma semana. 

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Fachada da loja da Thor Steinar, Brevik, em  Chemnitz. Fonte: Getty Images.

Casos como este levaram a diversas críticas de setores da população alemã e do resto do mundo. Assim, a grife, que virou marca registrada da extrema-direita, foi proibida no Bundestag (Parlamento Federal da Alemanha), no parlamento do estado de Mecklemburgo (Pomerânia Ocidental) e em diversos estádios de futebol, além de ter sua venda proibida em plataformas como Amazon e eBay. As reações, contudo, não se limitaram às medidas institucionais: organizações da sociedade civil também passaram a utilizar a própria moda como instrumento de combate ao extremismo.  

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Manifestantes em um protesto anti-Nazi com um cartaz com os dizeres “ Crianças legais não vestem Thor Steinar” em alemão. Fonte: Getty Images.

Foi assim que, em meio às frequentes polêmicas envolvendo grifes neonazistas, em 2008, foi criado o projeto de sátira política e vestuário Storch Heinar, nome que faz um trocadilho com “Thor Steinar” e a palavra “storch”, que significa “cegonha” em alemão. Desse modo, o projeto tomou a cegonha como seu mascote, em um design que busca satirizar elementos do imaginário neonazista, colocando um bigode e uma braçadeira militar  na figura da cegonha, em referência a Hitler. 

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Mascote do projeto Storch Heinar estampado em uma das camisetas vendidas em seu site. Fonte: Storch Heinar Kaufmannsladen.

Em 2010, o projeto tornou-se alvo de uma ação judicial movida pela Thor Steinar, que acusava o movimento de violação de marca registrada e difamação. Além do processo, a empresa chegou a solicitar o registro da marca “Storch Heinar” junto ao Escritório Alemão de Patentes e Marcas, tentativa posteriormente rejeitada após contestação apresentada pelos advogados do movimento. 

A disputa, que envolvia uma indenização de €100 mil, estendeu-se por dois anos e foi encerrada, em 2010, com decisão favorável à Storch Heinar pelo Tribunal Regional de Nuremberg-Fürth. O caso que ganhou ampla repercussão na imprensa alemã, ficou conhecido como o “julgamento do crime da moda de Nuremberg” e consolidou-se como um dos principais marcos da resistência jurídica e cultural à apropriação da moda por grupos de extrema direita. 

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Estande da Storch Heinar em Berlim. Fonte: Getty Images.

Até hoje, tanto a Storch Heinar quanto a Thor Steinar seguem existindo e nenhuma das duas está sozinha em seus objetivos de promover preconceitos, ou combatê-los. Outras marcas seguem em atividade na Alemanha, e em outros países, vendendo peças com referências nazistas e supremacistas e novos projetos surgem em combate a esse tipo de empresa. 

Um exemplo é a campanha Recht Gegen Rechts (Direitos Contra a Direita), lançada, em 2021, pela agência criativa Jung von Matt em parceria com a organização Laut Gegen Nazis (Barulho Contra Nazistas). A iniciativa utiliza a própria legislação de marcas registradas para combater a comercialização de produtos extremistas, assumindo o controle de códigos, slogans e nomes de empresas associados ao neonazismo, e registrando-os como marca no escritório europeu de marcas. Dessa forma, comerciantes que continuem utilizando esses elementos sem autorização podem ser processados por violação de marca registrada, sendo obrigados a retirar os produtos de circulação e sujeitos ao pagamento de indenizações. 

  Entre as ações da campanha, destaca-se a apropriação da marca Druck18. Após obter os direitos sobre o nome, os organizadores substituíram o antigo site, conhecido pela venda de produtos com mensagens neonazistas, por uma plataforma dedicada à comercialização de camisetas e de moletons com mensagens antifascistas, ressignificando códigos antes utilizados por grupos de extrema direita e transformando-os em instrumentos de conscientização e de resistência. 

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Campanha da marca Druck18, já sob o comando dos membros da Recht Gegen Rechts, divulgando peças com mensagens antifascistas. Fonte: Jung von Matt/DW.

Mais do que roupas, a moda revela-se como uma linguagem política. Casos como o da Thor Steinar, Storch Heinar e Recht Gegen Rechts demonstram que símbolos estampados em camisetas, logotipos e marcas não apenas comunicam preferências individuais, mas também podem reforçar projetos de sociedade, aproximar pessoas em torno de ideologias e influenciar comportamentos coletivos. Mais do que isso, esses mesmos elementos podem ser ressignificados e utilizados como instrumentos de resistência. 

Dessa forma, torna-se evidente que a moda não apenas reflete disputas sociais e políticas, mas participa ativamente delas, produzindo impactos concretos que ultrapassam o universo do vestuário e alcançam a esfera pública. 

A Moda e a Violência: Neocolonialismo

Além das estampas nas peças, outra violência fomentada pela moda vem direto de sua cadeia produtiva. Desde as civilizações mais antigas, a vestimenta serve como marcador de distinção social, mas, hoje, a diferenciação entre as classes não se dá apenas pelas roupas que vestem, mas também por quem é obrigado a lidar com o lixo gerado pela indústria da moda ou com o trabalho precário que sustenta o modelo fast fashion

O termo fast fashion (que se traduz como “moda rápida”) foi usado pela primeira vez em 1989, no jornal New York Times, para descrever o modelo de produção da marca Zara. Atualmente, podendo ser definido como um modelo de negócio que se baseia na produção, fabricação e comercialização rápida e de baixo custo de um grande volume de peças, com a priorização da criação constante de novas tendências de moda, a moda rápida depende de materiais de baixa qualidade e de mão de obra mal remunerada. 

Assim, além de impactos ambientais, sendo o mercado de vestuário o segundo maior consumidor de água global e responsável por 10% das emissões de carbono mundialmente, esse modelo de produção também causa diversos impactos sociais que não afetam a sociedade de maneira homogênea, reproduzindo lógicas neocoloniais e a Divisão Internacional do Trabalho (DIT). 

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Resíduos têxteis e plásticos no aterro de Dandora, em Nairóbi. Fonte: Kevin McElvaney/Greenpeace.

A Divisão Internacional do Trabalho (DIT) refere-se à organização da economia mundial em que países ocupam diferentes funções produtivas. Historicamente, esse processo contribuiu para concentrar atividades industriais e de maior valor agregado nos países centrais, enquanto muitos países periféricos permaneceram especializados na exportação de matérias-primas e na importação de produtos manufaturados. Nesse contexto, ocorre um fenômeno central no modelo fast fashion, o offshore.

O fenômeno consiste na concentração da produção de roupas em países do Sul global, em especial da África e Ásia, apesar das coleções serem majoritariamente projetadas para os Estados Unidos e para a Europa. Isso ocorre porque, dessa maneira, as empresas são beneficiadas pelos impostos e pelas leis trabalhistas menos rígidas dos países do Sul global. 

Esta configuração do sistema internacional incentiva uma dinâmica em que esses países considerados menos desenvolvidos são incentivados a oferecer condições laborais precárias e legislações ambientais permissivas como forma de atrair investimento. Assim, embora a moda seja a indústria mais dependente de mão de obra no mundo, estima-se que apenas 2% dos trabalhadores do setor recebam um salário digno. A exploração atinge predominantemente um grupo demográfico específico: 80% da força de trabalho têxtil global é composta por mulheres jovens, entre 18 e 24 anos. 

Dessa maneira, empresas como Zara, H&M e Shein maximizam seus lucros, estabelecendo suas fábricas ou filiais em países como Índia, Paquistão e Bangladesh. Essas e outras marcas, como Adidas, Calvin Klein e Mango, também terceirizam a produção em países africanos, mas sem distribuir os lucros de maneira igualitária. Em vez de desenvolvimento, o que se observa nessas regiões é o enraizamento da pobreza e a precarização sistêmica do capital humano. Nesse cenário, trabalhadores são, com frequencia, sujeitos à trabalho forçado, violência baseada no gênero e salários extremamente baixos, além da exploração de trabalho infantil. 

No Brasil, essa lógica manifesta-se através da “quarteirização”, a qual ocorre quando há uma demanda alta e repentina por novas peças e o fornecedor direto, que já é terceirizado pela empresa principal, subcontrata outras oficinas menores ou indivíduos para dar conta do volume. Adicionalmente, a informalidade também desempenha um papel importante nessa lógica, já que é outro processo que dilui a responsabilidade jurídica das grandes redes. 

A falta de monitoramento permite violações graves, como o caso da Zara em 2011, quando a empresa foi autuada por trabalho análogo à escravidão em sua cadeia produtiva nacional e admitiu em depoimento à CPI do Trabalho Escravo da Assembleia Legislativa de São Paulo que uma empresa terceirizada utilizava trabalho escravo e que não havia monitoramento dos fornecedores.

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Bolivianos sob regime análogo à escravidão em São Paulo. Fonte: Veja Negócios.

O impacto da moda rápida não se reserva apenas à produção das roupas, mas também ao destino que estas recebem quando descartadas. Sob o pretexto de caridade, toneladas de roupas de baixa qualidade são exportadas, principalmente da Europa e dos Estados Unidos, para países africanos, fenômeno denominado “colonialismo do desperdício”. A maioria dessas peças é feita de tecidos sintéticos derivados do petróleo e podem levar até 200 anos para se decompor.

O mercado de Kantamanto, em Gana, recebe cerca de 100 conteiners de roupas de segunda mão semanalmente e é considerado um dos maiores mercados de roupas usadas do mundo. Conhecidas localmente como “Oburoni Wawu” (roupas de homens brancos mortos), as roupas chegam sob o pretexto de doação, o que isenta os países e empresas da responsabilidade e dos custos de descarte adequado. Esse resíduo acaba em lixões ou incinerado, fazendo com que os danos ambientais do descarte do Norte Global se concentrem no solo africano. 

No entanto, Gana não é o único país que sofre com o lixo das  fast fashions, grandes volumes de roupa de baixa qualidade também são despejados no Quênia e na Tanzânia sem fiscalização por serem consideradas doações. O acúmulo dessas roupas leva a seu descarte em rios ou queima a céu aberto. Segundo Inger Andersen, diretora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma):

“A cada segundo, um caminhão de lixo cheio de roupas é jogado fora ou queimado […]. Terras, rios e oceanos estão se tornando mais poluídos por itens baratos e facilmente descartáveis.”

Andersen também afirmou que os resíduos da indústria têxtil estão criando uma crise ambiental nos países africanos.

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Roupas usadas e novas são enviadas da Europa e da China para o Quênia para serem vendidas como “Mitumba”, mas frequentemente acabam em aterros sanitários e depósitos de lixo devido à enorme quantidade. Nairóbi. Foto: Kevin McElvaney/Greenpeace

Na Tanzânia, a pressão industrial já comprometeu recursos vitais, como o rio Msimbazi, que apresenta níveis de pH perigosamente altos e presença de metais tóxicos, prejudicando seu uso doméstico e a produção de alimentos no país. A competição entre fábricas e comunidades locais pelo acesso à água destaca a priorização de demandas comerciais sobre direitos humanos básicos, que fica ainda mais evidente pela falta de água potável e saneamento adequado nessas fábricas, considerados indicadores de escravidão moderna.

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Margem do rio com descarte de resíduos têxteis perto de Dar es Salaam, na Tanzânia. Fonte: Kevin McElvaney/Greenpeace.

Essa estrutura revela que o fast fashion funciona como um sistema de transferência de danos em escala global. O modelo garante a efemeridade das tendências nos países centrais, enquanto impõe às nações do Sul Global a herança do descarte tóxico e da exaustão de seus recursos naturais e humanos.

 Qual lição a moda nos ensina?

A partir da reflexão mobilizada neste artigo, é possível compreender como a indústria da moda se enreda no imaginário popular, nas escolhas pessoais e na política contemporânea. Preferir um estilo em relação a outro pode ser analisado como uma diferenciação estética incutida no ocidente sob a fachada de liberdade de expressão.

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Instalação no Museu Delvaux em Bruxelas, 2022. Fonte: Wallpaper.

Dessa forma, diversos estilos que se apresentam em vitrines e em propagandas midiáticas são propostos aos consumidores sob a influência de aparatos sociais que ampliam as diversas formas de desigualdade enfrentadas no cenário hodierno. Nesse sentido, de acordo com Gilles Lipovetsky, a indústria da moda é capaz de interferir diretamente no imaginário político ao se aliar ao senso estético e cultural de uma população, de modo que essa indústria, ao operar oferecendo distintas opções de estilo ao público, carrega uma fachada de liberdade aos consumidores enquanto os induz a adotar concepções mais favoráveis a esse sistema.

Com efeito, a contraditória caracterização da moda por sua natureza dupla, defendida por Diana Crane, — aquela que oferece um meio de expressão pela imagem que o indivíduo busca projetar e aquela que cerceia essa mesma expressão ao delimitar os estilos comercializados — torna sua análise social ainda mais rica e complexa.

Vestir o mais agradável, estar na moda e ficar atento às mudanças velozes do que é fashion no momento pode parecer muito importante, principalmente para a juventude. Com efeito, a disseminação de ideais belicistas por meio da produção e da propagação do streetwear, por exemplo, é um meio sutil e perigoso de adentrar o imaginário coletivo de jovens que ainda formam suas opiniões políticas e estéticas.

Marcas e empresas como Palantír, Lockheed Martin e Authentic Apparel Group utilizam a linguagem fugaz da moda para difundir um estilo de vestimenta que normaliza a guerra e torna belo o estilo combativo. Além disso, é evidente que as vestimentas por elas vendidas corroboram para a militarização da estética e, consequentemente, da visão de mundo de muitos consumidores.

Acostumar-se com a estética bélica pode ainda ser um prelúdio para a normalização da violência em comunidades ao redor do globo. A empresa Palantir, ao vender um estilo já aclamado pela juventude ao mesmo tempo em que oferece informações para a ICE, é um grande exemplo de como a proliferação da agressividade é financiada e propagada pela indústria da moda.

Presente na organização da sociedade contemporânea, a moda passa a refletir os ideais de conservadorismo, tradicionalismo e belicosidade não apenas pelo tamanho das barras de saias e de vestidos, como debatido no índice das barras, mas também pelas estampas, etiquetas e empresas que produzem as roupas.

 Entretanto, quando utilizada de maneira consciente e politizada, a moda pode ser um instrumento de debate político muito eficaz. Ainda que a lógica da sociedade contemporânea, segundo Lipovetsky, esteja atrelada à indústria da moda por meio da valorização extrema ao efêmero e do consequente hiperconsumo, de modo que tal indústria se torna responsável por limitar o que se deve vestir e induzir o que deve ser pensado, é possível transformar a sutileza da linguagem estética em mensagens mais evidentes.

Por exemplo, protesto e sátira se unem na marca Storch Heinar contra o neonazismo, evidenciando a importância da ação política mesmo no mundo têxtil. As roupas fabricadas sob sua logo são uma forte oposição à violência e ao conservadorismo e, quando vestidas, potencializam-se e se tornam verdadeiros atos de contestação, permitindo a atuação política da sociedade civil no cotidiano contra uma ideologia tão hedionda quanto o nazifascismo.

Em razão disso, destaca-se a importância da moda no imaginário político da sociedade atual. Uma vez presente nos mais diversos aspectos do consumo, essa indústria é caracterizada por inúmeras ramificações, sendo o modo de se vestir apenas uma delas. Assim, estéticas em ascensão, como clean girl ou streetwear, representam nuances do cenário socioeconômico de uma era caracterizada pela digitalização acelerada, pelo hiperconsumismo e pelo apreço ao efêmero.

As nuances supracitadas do cenário atual são defendidas por Lipovetsky como inerentes à sociedade hipermoderna, edificada pela indústria da moda que ultrapassa a produção de vestimentas e opera também no senso estético e imagético da sociedade. Em razão disso, a popularização de estilos por meio das redes sociais, como já debatido, oferece ainda mais versatilidade à tal indústria, caracterizada pela velocidade com que roupas e acessórios são descartados ao se tornarem ultrapassados a cada estação.

Nesse contexto, o descarte indevido de roupas e de tecidos é um problema internacional. Afinal, a indústria da moda não age em um só país, mas está inserida na cadeia de consumo global. A Divisão Internacional do Trabalho e a precarização dos direitos trabalhistas em países considerados menos desenvolvidos economicamente exemplifica a extensão desse infortúnio.

O descarte inadequado das vestimentas é, portanto, uma questão social, trabalhista, ambiental e humanitária que deve ser cada vez mais posta em evidência. Alimentado pela fast fashion, esse problema cresce conforme a moda se renova sem que se encontre um destino sustentável para as peças ultrapassadas. O hiperconsumismo e a busca pelo efêmero, características da contemporaneidade destacadas pelo filósofo Gilles Lipovetsky, se enredam nessa indústria e tornam ainda mais difícil minar tal impasse.

Um instrumento para fins políticos, um modo de expressão ou ainda aquela que cerceia a imagem do indivíduo, a moda pode ser observada sob inúmeras análises que estão longe de se contradizerem, mas que constroem uma rede muito importante entre indivíduo, mercado global, política e pensamento coletivo.

Enfim, esse pilar da sociedade hipermoderna, segundo Lipovetsky, está intrínseco às formas de expressão social e individual da humanidade. Utilizada conscientemente, a moda é um fator poderoso de luta e protesto político que oferece a oportunidade de canalizar reivindicações e contestações àqueles que a vestirem com essa visão, tornando-os capazes de enfrentar ideologias nocivas e preconceituosas de extrema-direita.

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    Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Membro do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026.

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Aluna da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, e Membro do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026.