Será Cuba o Próximo Alvo de Trump?
Por Stefano Romano
“Semanas em Que Décadas Acontecem”
“Há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem”. A famosa frase, atribuída a Vladimir Lênin, apesar de originalmente referir-se à Revolução Russa, soa mais atual do que nunca. Isso porque, desde que Trump iniciou seu segundo mandato, em 20 de Janeiro de 2025, em um ritmo frenético, o republicano escreve os novos capítulos de uma saga que, ao que parece, não terá um final pacífico.
Só nos últimos 3 meses, os Estados Unidos declararam guerra a dois dos seus mais importantes rivais internacionais, a Venezuela e o Irã. Os resultados, até agora, foram o sequestro e prisão de Nicolás Maduro, a retomada da exploração das grandes petroleiras estadunidenses na Venezuela, o enfraquecimento do programa nuclear iraniano e o início de uma das maiores e mais perigosas guerras da história do Oriente Médio. A questão é, será que ele vai parar por aí? Quais podem ser seus próximos alvos militares?
A resposta a esta pergunta não é simples, uma vez que não têm sido raras as vezes em que Trump verbaliza seus desejos imperiais de incursão militar em nações soberanas. Logo no início de seu mandato, por exemplo, o 47º presidente dos Estados Unidos expressou o desejo de retomar o controle do Canal do Panamá e de fazer do Canadá “o 51º estado dos EUA”.
Outro alvo frequente de ameaças é a Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca, cuja anexação poderia ser motivada, por exemplo, por sua riqueza em minerais estratégicos, as chamadas terras raras. Ao longo do último ano, isso gerou uma série de atritos com a União Européia, principalmente com as nações que compõem a OTAN.
Por fim, após a invasão à Venezuela, em Janeiro deste ano (2026), intensificaram-se também as ameaças a Gustavo Petro, presidente da Colômbia, acusado múltiplas vezes por Trump de ser um “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. Ainda em Dezembro de 2025, inclusive, após críticas de Petro às ameaças militares estadunidenses à Venezuela, o republicano chegou a afirmar que “é melhor ele [Gustavo Petro] se conscientizar ou será o próximo”. Uma possível invasão à Colômbia seria vantajosa por conta da riqueza da nação em recursos naturais como petróleo, ouro, prata e muitos outros, e poderia ser justificada, assim como no caso venezuelano, pela suposta ligação do presidente local com o narcotráfico.
Entre os países ameaçados, entretanto, há um que tem chamado cada vez mais atenção: nos últimos dias, foram várias as vezes em que Trump demonstrou publicamente o desejo de impor uma mudança de regime político em Cuba, prometendo destituir o governo socialista instaurado por Ernesto Che Guevara e Fidel Castro na famosa Revolução Cubana, na década de 1950.
A nova onda de tensão entre Estados Unidos e Cuba teve como ponto alto o dia 07 de Março deste ano, quando ocorreu a Cúpula “Escudo das Américas”. O evento reuniu lideranças da direita latino-americana e Trump, e teve como objetivo formar uma controversa coalizão militar, capitaneada pelos EUA, focada no combate ao narcotráfico e à influência chinesa na região. Na ocasião, Donald Trump afirmou que Cuba estaria em seus “últimos momentos de vida” e que uma “grande mudança” estaria por vir.
Independentemente da fala de Trump, de acordo com especialistas, a iniciativa do “Escudo das Américas” abre um perigoso precedente que, com o contraditório apoio dos próprios líderes políticos latino-americanos, pode pavimentar o caminho para futuras intervenções dos Estados Unidos na região, não só em Cuba como também em outras nações.

Seriam estes sinais o suficiente para tratar uma invasão norte-americana a Cuba como uma certeza iminente? Quais os potenciais ganhos do governo Trump com mais um alvo militar? E, se Trump tem a intenção de iniciar uma nova guerra, por que Cuba? Para responder estas perguntas, é importante, antes de tudo, analisar como se dão, historicamente, as relações diplomáticas (que, na verdade, pouco envolvem a diplomacia) entre os dois países, desde a Revolução Cubana e a guerra-fria até os dias de hoje. Tal análise deve ser feita, inclusive, à luz do momento de crise econômica, social e política vivido atualmente na ilha, o qual, para o bem ou para o mal, deve afetar os próximos capítulos dessas tensões.
Estados Unidos e Cuba: Revolução, Embargo e a Atual Crise
A Revolução Cubana
De 1952 até 1959, Cuba foi governada por Fulgêncio Batista, líder de uma violenta ditadura apoiada pelo governo dos Estados Unidos. Para além da exclusão política do povo, Batista sustentava seu poder em torno da censura, tortura e muitas outras formas de autoritarismo contra qualquer oposição ideológica.
O apoio dos EUA ao regime era retribuído com uma série de benefícios econômicos às multinacionais e máfias estadunidenses, e negócios ilegais envolvendo drogas, jogos de azar e prostituição em Havana (a capital de Cuba) geravam extensas receitas não só a esses grupos como, é claro, ao ditador. O resultado era uma economia frágil, completamente dependente do exterior e baseada em setores ilegais, a qual, combinada com um governo corrupto e carente de autonomia, resultava no crescimento da desigualdade social e da miséria.
O descontentamento do povo era crescente e, após uma insurreição falha e um exílio no México, Fidel Castro, um popular líder de guerrilha, regressou a Cuba, em 1956, determinado a tomar o poder. A partir daí, contando com o apoio do argentino Ernesto Che Guevara e de grande parte dos habitantes da ilha, Castro deu início a uma série de combates contra as forças do governo. O resultado foi, em 1959, a queda de Fulgêncio Batista do poder, no evento conhecido como a Revolução Cubana.

Inicialmente, os revolucionários não manifestaram a intenção de instaurar um regime socialista. Entretanto, a deposição de Batista, assim como a revogação de privilégios econômicos às multinacionais e máfias estadunidenses, a reforma agrária, a perseguição de opositores políticos e outras medidas fomentaram o descontentamento norte-americano com o novo governo cubano.
Como resultado, já em 1960, o então presidente estadunidense, Dwight Eisenhower, deu início ao embargo econômico a Cuba. Assim, o comércio e as relações diplomáticas dos EUA com a ilha foram bloqueados, e os ativos cubanos nos EUA foram congelados. Um ano depois, em 1961, houve a famosa invasão da Baía dos Porcos, quando exilados cubanos, treinados nos Estados Unidos, tentaram, sem sucesso, derrubar o novo governo.
Foram tais ameaças que conduziram a nova Cuba ao bloco socialista da guerra-fria, uma vez que, acreditava-se, o único caminho para a manutenção de um governo nacionalista e anti-imperialista na ilha seria mediante o apoio militar, econômico e político da União Soviética. Este, porém, só seria possível com um regime socialista no arquipélago. O surgimento de um governo marxista a menos de 150km de distância dos Estados Unidos, entretanto, acirrou as tensões de modo que, pouco tempo depois, em 1962, o mundo quase viveu uma guerra nuclear, durante o evento que ficou conhecido como A Crise dos Mísseis de Cuba.
Relações EUA-Cuba desde a Revolução
Desde o fim da década de 1950, Cuba e Estados Unidos cultivam uma relação azeda, apesar de já acabada a guerra-fria. Nesse meio tempo, o embargo inaugurado no governo de Eisenhower veio a ser, em vários momentos, reforçado e aprimorado, e perdura até hoje.
Em 1992, por exemplo, um ano após a queda da União Soviética, a Lei Torricelli instituiu a proibição às subsidiárias de empresas norte-americanas em outros países de negociar com Cuba, assim como a proibição das viagens de cidadãos norte-americanos ao país.
Já em 1996, o congresso norte-americano aprovou a Lei Helms-Burton, que impôs novas restrições econômicas ao comércio de empresas estrangeiras (não necessariamente norte-americanas) com a ilha. De acordo com o texto, as restrições só poderiam ser retiradas mediante, entre outros requisitos, a saída de Fidel Castro e seu irmão do poder.
Atualmente, empresas estrangeiras que comercializam com Cuba são impedidas de utilizar o sistema financeiro norte-americano, ou seja, não podem comercializar com dólar e nem utilizar o sistema bancário dos EUA. Isso resulta em um quase completo isolamento comercial da ilha, o qual gera cada vez mais impactos econômicos e sociais para a população e o governo local.
O embargo é frequente alvo de críticas internacionais e, ano após ano, a Assembléia Geral das Nações Unidas, quase unanimamente, aprova resoluções condenando-o como ilegal. A população local, por vezes, demonstra uma certa impaciência com o regime, e nos últimos anos tem crescido a pressão por uma abertura política e econômica. Muitos dos críticos ao Estado cubano atribuem as dificuldades do país não ao embargo, mas sim, ao modelo socialista de completo planejamento estatal da economia. O governo local, por outro lado, culpa os Estados Unidos.

Leia o artigo Leis Nacionais, Impacto Internacional: Entre a Soberania e a Cooperação para saber mais sobre o embargo comercial a Cuba.
Mais recentemente, durante o governo Obama, houve uma relativa amenização dos desentendimentos históricos entre Cuba e EUA: em 2014, as sanções vieram a ser aliviadas e, em 2015, os dois países retomaram as relações diplomáticas ao reabrir suas respectivas embaixadas. A eleição de Trump em 2017, porém, rompeu completamente com os poucos passos dados por Obama anos antes e agora, no segundo mandato do republicano, as tensões retornam a um nível que lembra os tempos de guerra-fria.
As recentes ameaças, assim como o sequestro de Nicolás Maduro e a guerra contra o Irã, acendem um alerta em Havana, que teme ser o próximo alvo das aventuras imperialistas de Donald Trump. Ao que tudo indica, o republicano vem pavimentando o caminho para derrubar o governo de Miguel Díaz-Canel, o atual presidente cubano. Dessa vez, entretanto, sua estratégia começa com a intensificação do estrangulamento da economia cubana, a qual, desde a pandemia, já parecia andar fora dos trilhos.
Cuba Em Crise: Um Momento Oportuno
Ao longo da guerra-fria, apesar de o embargo comercial já existir, o comércio cubano com os soviéticos garantia uma subsistência estável, a qual se traduzia em um dos melhores padrões de vida do bloco socialista. A queda da URSS em 1991, entretanto, rompeu com essa estabilidade, dando início a uma era de dificuldades econômicas que ficou conhecida como o “Período Especial”.
Apesar dos esforços dos EUA, nessa época, para intensificar a crise em Cuba por meio das Leis Torricelli e Helms-Burton, a ilha demonstrou uma inesperada resiliência econômica, e o regime socialista conseguiu sobreviver. Desde então, a economia cubana encontrou sustento principalmente no setor do turismo. Assim, a vitória foi relativa, uma vez que a nova estabilidade material do país caribenho se construiu em cima de bases econômicas frágeis, o que, uma hora ou outra, atrairia novos desafios.
Tais desafios não tardaram a surgir: a partir de 2020, com a Pandemia da Covid-19, o turismo internacional foi quase zerado, e a economia da ilha, altamente dependente deste setor, sentiu os efeitos mais do que qualquer outro país. Mesmo anos depois, o turismo local não conseguiu se recuperar, desencadeando uma reação em cadeia que afetou a economia como um todo.
Em 2025, Cuba recebeu apenas 2,5 milhões de turistas, um número consideravelmente menor do que, por exemplo, em 2018 (antes da Pandemia), quando 4,7 milhões de pessoas visitaram o país caribenho. Além disso, a agricultura praticamente se paralisou e em 2024, a produção industrial foi a mais baixa em 40 anos. Consequentemente, a renda do país gradualmente decresceu, levando consigo a capacidade de financiar a importação de alimentos, medicamentos, combustíveis e outros produtos.
A consequência disso tem sido o acirramento das tensões sociais, com o crescimento da pobreza e fome. Junto a isso, a redução da oferta de combustíveis tem gerado apagões, longas filas em postos de gasolina e o encarecimento não só do transporte como também de toda a cadeia produtiva. Cresceu também a frequência de manifestações políticas contra o regime socialista, as quais costumam ser violentamente reprimidas.
Em conjunto, tais elementos tornam a conjuntura local favorável a uma ruptura política, configurando uma janela de oportunidade histórica para os EUA eliminarem uma “pedra no sapato” que os incomoda desde os tempos de guerra-fria. Nesse sentido, o que já estava mal veio a piorar em 2026, após a queda de Nicolás Maduro. Esta, para além da Venezuela, pode ser interpretada como o primeiro passo de Trump em direção à derrubada do comunismo em Cuba. A guerra a Caracas teria sido feita, portanto, à vista de uma futura guerra a Havana.
A Crise Piora, e a Invasão Parece Iminente
No dia 03 de Janeiro de 2026, as forças militares estadunidenses bombardearam a Venezuela e, com impressionante precisão, sequestraram o ditador Nicolás Maduro. O líder bolivarianista foi levado a Nova York e, desde então, sua vice, Delcy Rodríguez, tem governado Caracas.
Após a intervenção, Trump expandiu sua influência e poder sobre a região, o que possibilitou que, ainda no começo de Janeiro, fosse completamente interrompido o fornecimento de petróleo venezuelano a Cuba. Poucas semanas depois, no dia 29 de Janeiro, o republicano assinou uma ordem executiva com a ameaça da imposição de tarifas adicionais a outros países que fornecessem petróleo à ilha. Consequentemente, importantes produtores – principalmente o México – deixaram de comercializar o combustível com Cuba.
A ilha caribenha possui uma matriz energética altamente dependente dessa fonte, e a produção doméstica não é suficiente para cobrir a demanda do país inteiro – em números concretos, Cuba produz cerca de 40.000 barris de petróleo por dia, mas necessita de 110.000.
Consequentemente, a crise econômica e social surgida na Pandemia vive, agora, seu pior momento: os apagões tornaram-se ainda mais frequentes e, consequentemente, hospitais têm a operação reduzida, escolas têm sido fechadas e as pessoas, na falta de energia, utilizam lenha para cozinhar; com a alta dos combustíveis, o transporte ficou ainda mais caro, e os produtos básicos têm chegado às prateleiras com preços exorbitantes; por fim, a suspensão das rotas aéreas levou ao cancelamento de voos e, consequentemente, à queda abrupta da chegada de turistas. Em outras palavras, a economia cubana sofre um duro golpe, e cresce a sensação de que, dessa vez, o colapso social é iminente. Assim, os habitantes revivem uma era de escassez e miséria que parecia ter ficado no passado, perdida nas memórias dos tempos de Fulgêncio Batista.

Trump, portanto, escreve um novo capítulo no longo histórico de ataques norte-americanos ao socialismo em Havana, buscando, por meio do estrangulamento econômico, debilitar um regime que já andava enfraquecido. Em resposta, o atual presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou que o novo bloqueio “demonstra a natureza fascista, criminosa e genocida de uma camarilha que sequestrou os interesses do povo americano para obter ganhos puramente pessoais”.
Enquanto isso, os aliados tradicionais de Cuba relutam em enfrentar as ameaças tarifárias de Trump. O ministro das relações exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, visitou recentemente locais como Rússia, China, Espanha e Vietnã, em busca de reverter essa situação por meio de acordos para a normalização do suprimento de petróleo. Até agora, entretanto, somente Moscou sinalizou um apoio mais concreto à causa de Díaz-Canel e, neste exato momento, dois navios russos carregados de petróleo dirigem-se a Cuba. Além disso, nações como o Brasil, o Canadá, a Espanha e o México passaram a enviar ajuda humanitária (como alimentos, medicamentos e outros suprimentos) à ilha.
Tais esforços, entretanto, são insuficientes para conter a degradação socioeconômica local, e o estrangulamento imposto pelos Estados Unidos acende uma sensação, entre o povo cubano, de que eles podem estar à beira de um precipício. É certo que Trump deseja derrubar o regime de Díaz-Canel mas, para alcançar este objetivo, até onde ele está disposto a ir?
Trump Vai Invadir Cuba?
Para alguns analistas, o acirramento das tensões sociais e o consequente crescimento do descontentamento com o governo socialista parecem ser estrategicamente suficientes para uma mudança política em Cuba. As ameaças do republicano, entretanto, reforçam a teoria de que Trump estaria, por meio do estrangulamento econômico, pavimentando o caminho para uma futura incursão militar, assim como feito na Venezuela e no Irã. Essa interpretação, portanto, reforça a hipótese de que o próximo alvo de Trump não seria a Groenlândia, o Canadá, o Panamá ou a Colômbia, mas sim, Cuba.

Trump Ganha Ou Perde Com a Intervenção?
Caso Trump concretize suas ameaças e, de fato, force, por meios militares, uma mudança política em Cuba, seriam vários os possíveis benefícios para os Estados Unidos. É preciso, entretanto, avaliá-los à luz dos potenciais custos financeiros e, é claro, políticos a Trump que poderiam se suceder de mais uma intervenção imperialista na América Latina.
Trump, em seus delírios megalomaníacos, elegeu-se sob a promessa de resolver rixas e intrigas que nenhum outro presidente dos EUA teria sido capaz de resolver; elegeu-se, portanto, prometendo, finalmente, eliminar inimigos como Irã e Venezuela que, por décadas, opuseram-se às pretensões globais deste poderoso império ocidental.
Cuba, por outro lado, é uma das “pedras no sapato” que mais incomodam os EUA nas últimas décadas: trata-se, simplesmente, de um país comunista, alinhado à Rússia e à China, localizado na principal zona de influência norte-americana (a América Latina), distante menos de 150 km do sul da Flórida.
A queda do socialismo em Cuba, portanto, seria um grande troféu para Trump, e contribuiria à messianização da figura política do republicano como “um líder forte”, destinado a restaurar a grandeza de um império decadente. Não é por acaso que, desde seu primeiro mandato, Donald Trump sempre deixou claro que a derrubada de Cuba seria uma de suas prioridades. Os ganhos políticos de um sucesso militar na ilha, portanto, são certamente atrativos ao presidente dos Estados Unidos.
Além disso, é evidente a gritante superioridade militar dos EUA quando comparada a Cuba. Isso porque, para além do volume humano, tecnológico e nuclear das forças armadas estadunidenses, as forças armadas de Cuba encontram-se em um estado de completo sucateamento e obsolescência tecnológica.
Outro elemento que favoreceria uma intervenção militar é o fato de que, ao contrário do que se esperava, países como Rússia e China têm reagido de maneira bem tímida às aventuras militares de Trump. A guerra no Irã e o sequestro de Maduro, por exemplo, foram seguidos de meras condenações verbais de Vladimir Putin e Xi Jinping, e não despertaram grandes retaliações. Isso porque, enquanto Moscou se ocupa com a guerra da Ucrânia, Pequim parece temer que uma oposição mais direta aos Estados Unidos cause efeitos colaterais negativos à sua economia. Assim, apesar das semelhanças com os tempos de guerra-fria, a rivalidade atual entre os Estados Unidos e o Oriente, dessa vez, não se traduz em um modelo de “guerra por zonas de influência”.
Junto disso, mais um ataque militar na América Latina, em conformidade com a chamada Doutrina ‘Donroe’, reforçaria a mensagem que Trump transmitiu à região após o sequestro de Maduro: os Estados Unidos estão descontentes com o crescimento da inflûencia econômica e política da China na região, e não têm medo de utilizar a força para recuperar seu poder sobre esta zona. Uma ação militar em Cuba, portanto, seria um recado para toda a América do Sul e o Caribe: “se não se curvarem aos meus interesses, vocês podem ser os próximos”.
Leia o artigo A Queda de Maduro: Como Isso Afeta o Brasil? – laibl.com.br para saber mais sobre as pretensões imperiais de Trump sobre a América Latina.
Outrossim, não é novidade que o multilateralismo vive uma crise global, e instituições como a ONU e o Tribunal Penal Internacional têm se mostrado cada vez mais desprestigiadas e incapazes de solucionar guerras e outros conflitos. Isso, portanto, abre o caminho para a impunidade de Trump caso a invasão se concretize, mesmo diante de violações do direito internacional.
Por fim, a intervenção na Venezuela, em Janeiro deste ano, despertou comemorações e elogios de líderes da extrema-direita latino-americana, os quais alegavam que Trump estaria conduzindo um povo carente e explorado a uma transição política em direção à democracia. Entretanto, o que se seguiu deste episódio foi a manutenção do regime ditatorial – agora na figura da vice de Maduro, Delcy Rodrigues – e da miséria, da fome e da pobreza, que ainda predominam na região. A única mudança mais expressiva, na verdade, foi que, a partir da intervenção, a exploração do petróleo venezuelano passou a ser capitaneada pelas empresas norte-americanas.
Paralelamente, caso as ameaças de Trump a Cuba se concretizem, é improvável que Trump busque legitimar a nova guerra pela promessa de um missionarismo democrático, mesmo porque, em termos domésticos, a democracia tem se mostrado o maior inimigo do republicano. Muito pelo contrário, assim como ocorrido na Venezuela, seria provável que Trump buscasse legitimar a invasão pelo combate ao narcotráfico e à influência chinesa na região. Mesmo assim, independentemente de qual seja seu discurso legitimador, é certo que Trump contaria com o apoio de importantes líderes regionais, como o argentino Javier Milei, o chileno José Antônio Kast e o salvadorenho Nayib Bukele.
Por outro lado, há quem defenda que a invasão a Cuba, para além de logisticamente desafiadora, seria um “tiro no pé” de Donald Trump em termos de política doméstica.
Nesse sentido, o governo cubano carrega consigo uma história de resistência ao imperialismo estadunidense, e nem mesmo a invasão da Baía dos Porcos, a Crise dos Mísseis, o embargo econômico e as inúmeras ameaças ao longo das últimas décadas foram capazes de derrubar o socialismo na ilha. Deve-se, portanto, relutar em acreditar que, por algum motivo, o desfecho dessa vez não seria, novamente, a sobrevivência do regime.
Além disso, apesar das crises recentes, a população local carrega no coração espírito revolucionário e nacionalista muito mais vivo, por exemplo, do que o análogo na venezuela anterior à captura de Maduro. Dessa maneira, por mais que o descontentamento com o governo de Miguel Díaz-Canel esteja crescendo, é difícil imaginar que uma intervenção estadunidense nos rumos políticos da ilha contaria com o apoio popular. Isso, certamente, tornaria o trabalho de Trump mais difícil.
Junto a isso, chama a atenção a falta potenciais benefícios econômicos que os EUA teriam ao declarar guerra a Cuba. Diferentemente da Venezuela e do Irã (ambos ricos em petróleo e outros recursos naturais), a conquista da ilha caribenha não traria grandes retornos financeiros ao empresariado norte-americano, o que poderia minar o apoio interno a uma invasão. Existe também um receio de que uma invasão a Cuba pudesse intensificar o fluxo de imigrantes cubanos para os Estados Unidos, o que, é claro, está longe de ser um desejo de Trump.
Acima de tudo, entretanto, as aventuras imperialistas de Trump têm gerado cada vez mais desagrado dentro de alas mais nativistas do partido republicano. Estas argumentam que o presidente deveria centralizar sua atenção não nos problemas externos, mas sim, nos problemas domésticos. Esse tipo de pensamento cresceu, especialmente, após o início da guerra no Oriente Médio.
Nesse sentido, um artigo publicado na revista britânica The Economist ganhou notoriedade ao argumentar que a guerra com o Irã seria um conflito mal calculado, que tenderia a cobrar um preço político elevado do presidente norte-americano. Ao longo do texto, a revista aponta que uma vitória rápida norte-americana seria improvável e que, mesmo assim, o conflito já estaria cobrando um preço econômico elevado dos Estados Unidos, principalmente devido à impressionante escalada do preço do petróleo.

Para além do Irã, a argumentação desenvolvida na reportagem do The Economist aponta que as guerras de Trump podem cobrar um custo político alto e, em última instância, afetar o desempenho do Partido Republicano nas eleições legislativas deste ano. À luz disso, em um momento em que cresce o descontentamento interno com a guerra no Oriente Médio, seria imprudente começar uma nova guerra, agora em Cuba.
Apesar disso, mesmo sem um ataque militar direto, os Estados Unidos dispõem de outros meios para interferir nos rumos políticos de Cuba. Por isso mesmo, nos últimos tempos, o Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio (não por coincidência, filho de imigrantes cubanos) teve discussões com líderes do alto escalão do regime de Havana, o que eleva as expectativas para que, no lugar da guerra, seja proposto um acordo. Não deve-se esperar, entretanto, que Trump deixe de lado o uso da força: mesmo nesse caso, é provável que os Estados Unidos recorram novamente à coerção econômica para impor suas vontades sobre a pequena ilha caribenha.
Visto isso, as intenções de Trump são claras; o meio para alcançá-las, entretanto, ainda são uma incógnita. Independentemente, é certo que, ao longo das próximas semanas, os noticiários internacionais estarão recheados de atritos entre Cuba e EUA. São estas as “semanas em que décadas acontecem”.
Referências:
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CUBA parece estar à beira do colapso, alerta especialista. Correio Braziliense, 2026. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2026/02/7357073-cuba-parece-estar-a-beira-do-colapso-alerta-especialista.html. Acesso em: 22 mar. 2026.
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CUBA tem o povo mais anti-imperialista da América Latina. Brasil de Fato, 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/03/18/cuba-tem-o-povo-mais-anti-imperialista-da-america-latina-afirma-historiadora/. Acesso em: 22 mar. 2026.
ESCUDO de Trump aumenta risco de intervenções. O Globo, 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/03/15/escudo-de-trump-contra-narcotrafico-e-crime-organizado-aumenta-risco-de-intervencoes-na-america-latina.ghtml. Acesso em: 22 mar. 2026
FULGENCIO Batista. Wikipédia, 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fulgencio_Batista. Acesso em: 22 mar. 2026.
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