A Geopolítica da Copa do Mundo
Por Marco Antônio Muniz e Lucca Beltrame
Este artigo é resultado de trabalho coletivo. Todos os autores contribuíram igualmente.
Proposta e Surgimento da Copa do Mundo
O início do século XX ficou marcado por um rápido processo de internacionalização do futebol. Popularizado no Reino Unido, o esporte expandiu-se para diversos continentes por meio da forte influência cultural britânica do período. Clubes e associações surgiram em diferentes países, transformando o futebol em uma das primeiras manifestações culturais verdadeiramente globais da era contemporânea. Com o crescimento acelerado do número de praticantes e competições internacionais, surgiu a necessidade de criar uma entidade capaz de coordenar a padronização das regras e organizar o esporte em escala mundial.
Nesse contexto, foi fundada a Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA) em 1904, reunindo inicialmente federações europeias interessadas em estabelecer um sistema comum para a prática da modalidade. A organização buscava solucionar divergências regulatórias entre os países e facilitar a realização de partidas internacionais. Nas décadas seguintes, à medida que o futebol conquistava espaço crescente entre as populações urbanas e os meios de comunicação de massa, a FIFA consolidou-se como a principal instituição responsável pela governança global do esporte.
O principal defensor da criação de um campeonato mundial foi o francês Jules Rimet, presidente da FIFA entre 1921 e 1954. Influenciado pelo cenário de reconstrução após a Primeira Guerra Mundial, Rimet argumentava que o esporte poderia contribuir para aproximar sociedades e fortalecer relações pacíficas entre os Estados. Sua proposta ganhou força após o sucesso do futebol nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, demonstrando a existência de público e interesse suficientes para uma competição independente. Em 1928, durante o Congresso da FIFA realizado em Amsterdã, foi aprovada a criação da Competição Internacional de Futebol, mais tarde rebatizada de Copa do Mundo.
A primeira edição do torneio ocorreu em 1930 no Uruguai. O local foi escolhido por se tratar do centenário da independência do país bem como pelo prestígio adquirido com as conquistas olímpicas de 1924 e 1928. Embora creditada inicialmente como uma competição esportiva, a Copa rapidamente ultrapassou os limites do esporte. O torneio transformou-se em uma vitrine global para governos, empresas e nações inteiras, permitindo uma projeção da identidade nacional e influência internacional. Dessa forma, desde sua origem, a história da Copa do Mundo sempre esteve fortemente ligada às dinâmicas da geopolítica mundial.

A Copa Como Mecanismo de Propaganda Política
Ao decorrer do século XX, a Copa do Mundo passou a ser utilizada como uma ferramenta poderosa para auxiliar na projeção política e ideológica das nações. Mais do que uma competição esportiva, o torneio passou a ser utilizado como instrumento de construção de imagem internacional, permitindo que governos ligassem suas atuações esportivas à ideia de eficiência e coesão nacional. Assim, a visibilidade global do evento transformou-o em um espaço privilegiado para a propaganda política.
Um dos exemplos mais emblemáticos desse uso político ocorreu na Copa de 1934, na Itália, durante o regime fascista de Benito Mussolini. O governo italiano enxergou o torneio como uma oportunidade de demonstrar a força do Estado fascista italiano e sua capacidade de organização e controle diante da comunidade internacional. A competição foi fortemente controlada pelo regime, que utilizou símbolos, cerimônias e discursos para associar o sucesso esportivo à ideologia fascista, reforçando a imagem de um Estado disciplinado e poderoso. Na época, o regulamento da FIFA envolvendo a neutralidade do torneio ainda era muito vago, favorecendo os interesses de Mussolini.
Outro caso notável é o da Copa de 1978, realizada em uma Argentina ditatorial, comandada por uma junta militar. O regime utilizou o evento como forma de melhorar sua imagem internacional e nacional em meio a denúncias de violações de direitos humanos e repressão política. A realização da Copa funcionou como uma estratégia de remodelar a opinião pública global sobre o país, buscando deslocar o foco das críticas políticas para o espetáculo esportivo.
Em diferentes contextos históricos, regimes políticos perceberam no evento uma oportunidade de reforçar a legitimidade interna e projetar influência internacional. Portanto, a Copa do Mundo configura um exemplo claro de como torneios de esporte e outros eventos internacionais podem ser instrumentalizados e manipulados como mecanismos de propaganda estatal.

A Copa Como Instrumento de Paz
Devido à visibilidade global da Copa do Mundo, o futebol possui uma capacidade única de unir a população de cada nação dentro de uma lógica patriótica coletiva de torcer pela sua própria seleção, mesmo em situações adversas de instabilidades políticas internas. Um dos exemplos mais conhecidos e emblemáticos da história ocorreu na Costa do Marfim. Desde 2002, o país enfrentava uma guerra civil com profundas divisões políticas, étnicas e religiosas.
Após garantir a inédita classificação da Costa do Marfim para a Copa do Mundo de 2006, o atacante Didier Drogba realizou um apelo televisionado que se tornou um marco histórico do país. Cercado pelos companheiros de seleção no vestiário, pediu publicamente pelo fim dos confrontos armados e convocou a população e as lideranças políticas à reconciliação nacional. A mensagem teve enorme repercussão dentro do país e contribuiu para fortalecer iniciativas de diálogo entre as partes envolvidas no conflito.
Nos anos seguintes, Drogba manteve sua atuação em favor da paz e apoiou a realização de partidas da seleção em regiões anteriormente fora do controle do governo central, transformando o futebol em uma ferramenta de aproximação entre grupos rivais. Embora a guerra civil tenha sido encerrada por diversos fatores políticos e militares, a participação do jogador tornou-se um símbolo internacional do potencial do esporte como um instrumento para promover a paz.

A Copa Como Palco de Disputa Ideológica: Chile vs URSS em 1973
Após o golpe de 11 de setembro de 1973 no Chile, que derrubou o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, e a instauração da ditadura militar de Augusto Pinochet, a alegria da torcida deu lugar à opressão em um dos principais palcos do futebol chileno. Dias após o início do regime de Pinochet, o Estádio Nacional de Santiago se tornou um centro de detenção improvisado para receber presos políticos, onde ocorreram vários assassinatos e sessões de tortura.
Em meio à repressão da ditadura militar no país, a seleção chilena buscava uma vaga na Copa do Mundo de 1974, sediada na Alemanha Ocidental. O Chile teve dificuldades nas eliminatórias sul-americanas, ganhando uma vaga na repescagem para a Copa após vencer o Peru em um confronto difícil decidido em um jogo de desempate. Entretanto, a maior controvérsia se deu na definição de que a seleção chilena enfrentaria a União Soviética. O jogo de ida ocorreu em Moscou, e terminou empatado em 0 x 0, deixando a decisão da vaga para o jogo de volta no Chile. Mesmo sendo utilizado como prisão, o Estádio Nacional de Santiago foi escolhido para sediar o segundo jogo do confronto, que seria realizado em 21 de novembro.
Dentro do contexto da Guerra Fria, a União Soviética condenou o golpe militar contra o presidente chileno Salvador Allende, socialista e marxista autodeclarado. Paralelamente, a Federação Soviética de Futebol solicitou à FIFA que a partida de volta fosse realizada em uma nação vizinha ao Chile, alegando que não poderiam disputar a partida no Estádio Nacional por conta da violência praticada contra cidadãos chilenos no local. O pedido foi negado, e a federação soviética atacou a FIFA em nota oficial, declarando que a entidade “ignorou os crimes perpetrados pela Junta Militar”, e se recusou a participar do jogo.
Entretanto, a FIFA decidiu que o jogo seria realizado mesmo sem a presença da seleção soviética, transparecendo seu posicionamento. Sabendo disso, a federação chilena decidiu marcar um amistoso contra o Santos logo após o “jogo” contra a URSS, para celebrar a classificação para a Copa. No dia 21 de novembro, o Chile dá início a partida no Estádio Nacional, sem adversário. A seleção chilena começa a trocar passes, até que Valdés finaliza no gol vazio, garantindo a classificação “formal” do Chile para a Copa do Mundo. Ironicamente, na disputa do amistoso contra o Santos, o time brasileiro acabou atrapalhando a comemoração chilena; ao vencer por 5 x 0.

Controvérsias da Copa do Mundo de 2026: A Elitização do Futebol
Na edição de 2026 da Copa, nota-se que o caminho até o estádio pode se tornar um desafio complicado para os torcedores que desejam assistir aos jogos do torneio nos Estados Unidos, especialmente no MetLife Stadium. A arena foi escolhida como sede na região de Nova York e Nova Jersey, e será o palco da grande final no dia 19/07, mas o acesso do público ao local será significativamente mais difícil por conta de medidas especiais criadas para o período da Copa do Mundo. A FIFA proibiu o acesso ao estacionamento e festas pré-jogo no MetLife Stadium, o que causará problemas logísticos para os torcedores, visto que a principal forma de acesso ao local é por meio de carros particulares.
Com essa proibição, a melhor forma de chegar ao estádio seria pelas linhas de trem e ônibus operadas pela NJ Transit, empresa pública de transportes do estado de Nova Jersey. Porém, a empresa anunciou preços de até 150 dólares para o bilhete de trem no trajeto entre a Penn Station, em Manhattan, e o estádio. As tarifas de ônibus para chegar ao local também aumentaram e podem chegar a 80 dólares. Além disso, é proibido chegar a pé no estádio, porque ao redor dele há apenas rodovias, onde é proibida a presença de pedestres.
Outro fator que denuncia a elitização do acesso aos estádios na Copa é a nova estratégia da FIFA para gerar mais lucro na venda de ingressos: a política de preços dinâmicos. Ela faz com que os ingressos para os jogos deixem de ter um valor fixo, e que os preços possam variar de acordo com a demanda e a atratividade da partida. Além disso, também foi criado um mecanismo oficial de revenda de ingressos, onde é possível comprar um ingresso e vender para outra pessoa por um preço muito mais caro, com 30% do valor das transações indo para a FIFA. Por conta disso, criou-se um mercado especulativo que fez com que os preços dos ingressos da Copa de 2026 tivessem um aumento nunca antes visto, em que o custo médio das entradas para a final chega a mais de 13 mil dólares (aproximadamente R$ 65 mil).
Tais medidas refletem a transformação na organização da Copa do Mundo ao longo de sua história e sua adaptação ao mercado estadunidense na edição deste ano, em que cada vez mais as prioridades são a maximização dos lucros; em detrimento da experiência do público e da manifestação sociocultural que o torneio representa.

Controvérsias da Copa do Mundo de 2026: As Tensões Internacionais
A Copa do Mundo da FIFA é o maior evento esportivo contemporâneo do planeta e simboliza um verdadeiro fenômeno sociocultural do mundo globalizado, reunindo inúmeras etnias e culturas diferentes, o que não só produz um sentimento único de identidade e união internacional, como também ressalta rivalidades e tensões políticas entre os países participantes. Cada edição do torneio reflete dinâmicas da geopolítica global de sua época, e a de 2026 será realizada em um momento marcado por grandes conflitos e embates políticos no cenário internacional, que afetam diretamente a organização da competição.
A Copa do Mundo de 2026 será a primeira a ser realizada em 3 países diferentes: Canadá, Estados Unidos e México, mas com uma clara predominância estadunidense na escolha das cidades-sede do torneio. Das 16 cidades selecionadas para receber partidas da copa, 11 são dos EUA, contra apenas 3 do México e 2 do Canadá.
A Questão Iraniana
O conflito entre Estados Unidos e Irã se tornou um dos principais assuntos debatidos no contexto da organização da competição, tendo em vista que a participação do país persa era incerta por causa dos ataques estadunidenses em seu território. Já existiram casos de países que disputaram uma Copa do Mundo enquanto se encontravam em guerra, como a Argentina em 1982 durante a Guerra das Malvinas e o Iraque em 1986 durante a Guerra Irã-Iraque. Entretanto, a participação do Irã na edição deste ano marca um acontecimento inédito na história: Será a primeira vez que um país atacado jogará uma Copa do Mundo sediada no país que o ataca.
A tensão entre os dois países fez com que o Irã anunciasse, em março deste ano, que não participaria do torneio, dias após agressões militares dos EUA que levaram à morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã até então. Após diálogo com a FIFA, o país voltou atrás em sua decisão e confirmou sua presença na Copa do Mundo, definiu que sua seleção se hospedaria no México e solicitou que todos os seus jogos fossem realizados fora dos Estados Unidos, pedido que foi negado posteriormente.
Apesar da participação do Irã ser confirmada, membros da federação iraniana de futebol tiveram seus vistos de entrada no Canadá negados e não puderam participar do 76° congresso da FIFA, realizado em Vancouver no dia 30 de abril, a menos de dois meses do início da Copa. Além disso, a federação enfrenta dificuldades na obtenção de vistos para seus jogadores, problema que a FIFA espera resolver a tempo do início do torneio.

A Armadilha do ICE
No primeiro ano do segundo mandato do presidente Donald Trump, mais de duzentos mil latino-americanos foram deportados dos Estados Unidos, a maior parte sem antecedentes criminais. A política de perseguição do ICE e o discurso anti-imigração do atual governo dos EUA causa estranheza em meio à organização de uma competição mundial que reúne torcedores de todo o planeta.
Em julho de 2025, um torcedor foi preso por agentes do ICE nos arredores do MetLife Stadium, em Nova Jersey, durante a final da Copa do Mundo de Clubes. Esse caso contribuiu para aumentar a desconfiança de que a polícia de imigração dos EUA usaria os jogos da Copa do Mundo de 2026 como uma armadilha para capturar e deportar pessoas, se aproveitando da paixão que os imigrantes têm pelo futebol.
Em fevereiro, o diretor do ICE, Todd Lyons, disse que a agência terá um papel fundamental na segurança do torneio, sem se aprofundar muito no tema. A declaração gera incerteza sobre a real função da polícia de imigração durante a Copa e é vista como uma possível ameaça aos imigrantes que estarão nos jogos, principalmente os latino-americanos, alvos das operações do ICE.

FIFA e questões geopolíticas
“A Fifa não pode resolver os problemas geopolíticos, mas pode e deve promover o futebol em todo o mundo, explorando os seus valores unificadores, educativos, culturais e humanitários”, disse Gianni Infantino, através de um comunicado divulgado antes de uma reunião do Conselho da FIFA, realizada em Zurique, Suíça.
Em 2025, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, negou a exclusão de Israel das competições internacionais, após inúmeros pedidos de punição devido aos ataques que vitimaram mais de 70.000 palestinos desde outubro de 2023. Segundo ele, não houve punições porque “a FIFA não pode resolver problemas geopolíticos”, mas é possível apontar vários exemplos em que a entidade se posicionou de forma contrária.
Poucos dias após a invasão da Ucrânia em 2022, a FIFA tomou a decisão de banir a Rússia das competições internacionais em conjunto com a UEFA. A punição segue em vigor até hoje, impedindo a participação da seleção russa nas eliminatórias da Copa do Mundo e nas eliminatórias da Eurocopa, além de banir clubes russos das competições internacionais. Nos anos 1960, a África do Sul foi banida pela FIFA por causa do apartheid, política de segregação racial no país, e ficou afastada até 1992, quando ocorreu sua reintegração. Logo em seguida, também em 1992, a FIFA e a UEFA excluíram a Iugoslávia das competições internacionais por conta dos conflitos nos Balcãs, medida aplicada junto às sanções impostas ao país na época.
Em contrapartida, mesmo com os violentos ataques ao povo palestino e a invasão do sul do Líbano, não houve punição alguma por parte da FIFA ou da UEFA à seleção israelense de futebol – que continuou normalmente na disputa das eliminatórias da Eurocopa e das eliminatórias europeias para a Copa do Mundo – nem aos clubes de Israel, que permanecem disputando competições internacionais como a Champions League e a Europa League. Além disso, sequer foi cogitado promover sanções à seleção dos Estados Unidos ou a exclusão do país como sede da Copa de 2026 após a intervenção militar na Venezuela e as ofensivas contra o Irã.
Apesar das declarações de Infantino, é possível observar que a geopolítica sempre foi um fator que influenciou diretamente as decisões da organização e o mundo do futebol como um todo. A questão é que o esporte e suas instituições também estão submetidos à estrutura global, favorecendo os países hegemônicos e retroalimentando sua autopromoção e interesses.

Referências
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