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Marrocos e a Geopolítica do Futebol

Marrocos e a Geopolítica do Futebol

Por Stefano Romano

Os Leões de Atlas

Vencedora, entre 2025 e 2026, da Copa do Mundo Sub-20, da Copa Árabe e da Copa Africana das Nações; Medalhista de Bronze nas Olimpíadas de Paris de 2024; e, é claro, semifinalista da Copa do Mundo de 2022. Um retrospecto vitorioso como este poderia advir de poderosas seleções do futebol mundial, como a alemã, a argentina ou, é claro, a brasileira. Surpreendentemente, tal retrospecto remete à seleção de futebol masculino do Marrocos, país cuja pouca tradição histórica nas quatro linhas contrasta com uma nova onda de conquistas impressionantes.

O time marroquino, mais do que nunca, conta com craques geracionais, advindos dos clubes mais ricos da Europa. Entre eles, destacam-se estrelas como Achraf Hakimi (pertencente ao PSG e eleito o 6º melhor jogador da temporada 2024/2025), Noussair Mazraoui (ex Bayern de Munique, atualmente defende o Manchester United) e Brahim Diaz (atacante do Real Madrid).

A chamada “geração de ouro marroquina”, entretanto, não resulta do acaso. Muito pelo contrário, o sucesso recente dos “Leões de Atlas” (apelido dado à seleção por seus torcedores) se atribui a um projeto nacional de longo prazo de investimento no futebol local. Tal projeto, encabeçado pelo governo, visa principalmente uma projeção internacional de poder geopolítico do pequeno país norte-africano. Em segundo plano, promete também contribuir para o crescimento econômico e para a união nacional e política de uma região, por vezes, conturbada. 

Esse projeto, como demonstram os feitos recentes da seleção, já tem surtido efeitos positivos. Ao mesmo tempo, porém, expõe e exacerba contradições históricas da sociedade marroquina, fomentando debates, protestos e até mesmo a violência. Para compreender estes pormenores, é importante, antes de tudo, contextualizar o futebol em meio à história, política, economia e sociedade marroquinas.

O Marrocos é um país localizado no Norte da África (o chamado Magreb), próximo da Espanha e de Portugal, e possui como capital a cidade de Rabat. Sua população é de aproximadamente 38 milhões de habitantes, cuja cultura é diversa devido às heranças compartilhadas do mundo árabe, europeu, africano sub-sahariano, berbere, entre outros. Apesar disso, a religião islâmica é amplamente predominante.

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Mapa do Marrocos (Fonte: Africa Guide).

Entre 1912 e 1956, o Marrocos foi uma colônia francesa. Após a independência, ascendeu ao poder uma monarquia parlamentarista profundamente autoritária, que até hoje reina sobre Rabat. Ao longo da década de 2010, entretanto, devido às agitações da Primavera Árabe, teve início um processo de relativa abertura política, com reformas como a adoção de uma constituição. Esta, apesar de ter expandido o poder do parlamento e do primeiro-ministro, não impede que muito poder político concentre-se ainda nas mãos do rei. 

Desde 1999, o monarca Mohammed VI governa a pequena nação árabe-africana. O cargo de primeiro-ministro, por outro lado, encontra-se, desde 2021, nas mãos de um bilionário e empresário denominado Aziz Akhannouch. 

Entre o início do governo de Mohammed VI e 2024, de acordo com dados do World Bank Group, o Marrocos registra um crescimento anual médio de 3,67% do PIB. Este é impulsionado principalmente pelos setores da mineração e da agricultura. Vale citar também que, desde a década de 1990, o Marrocos vem passando por reformas econômicas neoliberais, principalmente a partir da privatização de empresas estatais.

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Rei Mohammed VI, do Marrocos (Fonte: Atalayar).

Futebol e a Estratégia Nacional Marroquina

A seleção marroquina de futebol não figura entre as mais tradicionais do continente africano, tendo participado de apenas 7 Copas do Mundo e tendo conquistado, antes da última edição, apenas um título da Copa Africana de Nações, em 1976. Na década de 2000, porém, o governo local deu os primeiros sinais de que passaria a tratar o futebol não mais como mero entretenimento, mas sim, como um projeto de longo prazo visando o desenvolvimento do país.

Por Que Investir em Futebol?

É cada vez mais comum que os países mobilizem o futebol como um instrumento para a projeção de poder e o desenvolvimento. Afinal, trata-se do esporte mais popular do planeta terra, praticado pelas mais variadas culturas e capaz de despertar como nada mais as paixões dos torcedores. 

Para se ter noção, a final da última Copa do Mundo (França contra Argentina, com vitória de Messi e companhia em 2022) teve uma audiência na casa dos 1,5 bilhões de telespectadores, quase 20% da população mundial. Tais cifras tornam inevitável que, cada vez mais, os super eventos esportivos estejam entre os mais importantes palcos da geopolítica. Daí surge um importante papel do esporte na construção de patriotismos, no fortalecimento de agendas internacionais e no fomento ao desenvolvimento econômico. 

Historicamente, não são raros os momentos em que o futebol demonstrou ser mais do que mero entretenimento. Por exemplo, a Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália, serviu ativamente como propaganda do fascismo de Benito Mussolini; as 5 copas do mundo vencidas pelo Brasil, por outro lado, foram essenciais à construção do nacionalismo no “país do futebol”, assim como à consolidação da indústria do turismo em cidades como o Rio de Janeiro; por fim, tem-se também o caso da Premier League, o campeonato nacional inglês: ao atrair jogadores e telespectadores de todo o mundo subdesenvolvido, o torneio reproduz um legado colonial de expropriação das riquezas do sul global, assim como auxilia na limpeza da imagem inglesa diante das violentadas ex-colônias européias. 

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Jogadores da Itália fazendo uma saudação fascista antes da final da copa do mundo de 1934 (Fonte: Museu do Futebol de São Paulo).

No século XXI, em um contexto de dinamismo e incerteza nas relações internacionais, o uso político do futebol tem sido cada vez mais comum. Esta face do esporte, mais do que nunca, tem se enquadrado naquilo que o famoso cientista político norte-americano Joseph Nye denomina como Soft Power (ou, em português, “poder brando”). 

O Soft Power é a capacidade de um país influenciar e persuadir outros atores globais sem necessitar do apelo à imposição direta (o chamado Hard Power), ou seja, sem o recurso à coerção, à força militar ou a sanções econômicas. Em termos práticos, trata-se da projeção de poder geopolítico a partir da manipulação da imagem dos Estados-Nação, construída a partir da mídia, do cinema, da literatura, da música e de muitos outros elementos como, é claro, o futebol. 

Quer saber mais sobre as relações do futebol com as Relações Internacionais? Leia o Artigo A Geopolítica da Copa do Mundo.

Sob esta lógica, entre os principais países que, na atualidade, têm utilizado o futebol como uma arma geopolítica, destaca-se o Marrocos: desde o fim da década de 2000, o esporte mais popular do planeta tornou-se política de Estado sob o reinado de Mohammed VI. Esse esforço toma corpo mediante os investimentos bilionários que, como demonstra o retrospecto recente vitorioso da seleção local, já surtem seus efeitos.

Como se Dão os Investimentos Marroquinos em Futebol?

Marrocos investe em futebol, a princípio, por três frentes: as categorias de base, a atração de jogadores naturalizados e a sediação de megaeventos esportivos. Nesse sentido, ainda em 2008, o rei Mohammed VI criou o SONARGES, uma empresa estatal marroquina responsável por planejar, construir e gerir grandes infraestruturas esportivas no país.

Já em 2009, em parceria com a Real Federação Marroquina de Futebol (FRMF), o SONARGES foi responsável por inaugurar a Academia Mohammed VI, na cidade de Salé. Trata-se de um grande centro de treinamento, voltado a desenvolver o futebol local a partir das categorias de base. Com 8 campos de futebol em tamanho oficial, sala de musculação, instalações médicas, salas de aula, piscina olímpica, dormitórios e muito mais, sua infraestrutura desponta como uma das mais modernas de todo o planeta. Para construí-la, houve um gasto na casa dos 65 milhões de dólares.  

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Academia Mohammed VI, em Salé, Marrocos (Fonte: O Democrata GB).

Hoje, o Marrocos conta com uma rede de mais de 100 centros de formação como esse espalhados por todo o país. A lógica é que o investimento nas categorias de base, para além da inclusão social e da educação, promove um maior aproveitamento dos talentos esportivos da população, transformando os jovens atletas em ativos valiosos para clubes e, é claro, também para a seleção. Além disso, tais investimentos reduzem a dependência perante a captação de descendentes nacionais nascidos na Europa. Em outras palavras, o futebol marroquino, cada vez mais, torna-se capaz de “andar com as próprias pernas”, na contrapartida de grande parte das seleções africanas.

Apesar da redução de sua dependência, a captação de descendentes de marroquinos nascidos no exterior não deixou de ser um importante elemento propulsor do sucesso dos Leões de Atlas. Nesse sentido, desde 2010, o Marrocos conta com um refinado programa de prospecção e recrutamento de talentos estrangeiros. Não é por acaso que, dos 26 jogadores presentes na campanha histórica da Copa de 2022, 14 eram nascidos no exterior, em países como Espanha, França, Bélgica, Holanda, Itália e Canadá. O mais famoso caso de sucesso é o do craque Achraf Hakimi, nascido em Madrid. Outro caso que chama atenção é o de Lamine Yamal, em que a captação marroquina não deu certo. O jovem ponta do Barcelona possui ascendência marroquina mas isso não o impediu de defender as cores do país onde nasceu, a Espanha. 

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Achraf Hakimi, espanhol de nascença, defendendo as cores do Marrocos em meio à Copa do Mundo de 2022 (Fonte: Valor Econômico, O Globo).

Por fim, outra importante frente do investimento nacional em futebol é a sediação de megaeventos esportivos. Nesse sentido, a última Copa Africana das Nações (AFCON), ocorrida entre o fim de 2025 e o início de 2026, foi sediada pelo Marrocos e, de acordo com Patrice Motsepe, o presidente da Confederação Africana de Futebol (CAF), tal edição teria sido “a maior da história” do torneio. 

Não é exagero dar razão à fala de Motsepe, afinal, o principal campeonato continental da África nunca contara com uma infraestrutura tão ampla e moderna, com destaque para hotéis, aeroportos, estádios, centros de treinamento e serviços. O resultado foi um sucesso financeiro expressivo para a CAF: para além do aumento de 90% em suas receitas, o torneio teve audiência recorde, com mais de meio bilhão de telespectadores em 180 países. 

Ademais, Marrocos será uma das três sedes da Copa do Mundo de 2030, ao lado de Portugal e Espanha. A sediação da AFCON, inclusive, foi amplamente interpretada como uma importante preparação para a verdadeira “cereja do bolo”, isto é, o mundial de 2030. Não é por acaso que, de acordo com o governo local, 80% da infraestrutura necessária para 2030 já fora disponibilizada a tempo de ser utilizada na AFCON. 

Visando a finalização destes preparativos, está sendo construído o Estádio Grand Stade Hassan II, nas proximidades da cidade de Casablanca. Este está sendo projetado para ser o maior do mundo, com capacidade de 115.000 espectadores e custo estimado de meio bilhão de dólares. Ao que tudo indica, o Grand Stade tem tudo para ser o principal concorrente para sediar a final da Copa de 2030, prometendo desbancar tradicionais estádios espanhóis como o Camp Nou (do Barcelona) e o Santiago Bernabéu (do Real Madrid).

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Design planejado do Grand Stade Hassan II (Fonte: Exame).

Para além dos Gramados: Qual o Efeito dos Investimentos?

O Marrocos está longe de ser um país rico e, portanto, os gastos faraônicos com infraestrutura esportiva suscitam debates: por um lado, o futebol pode catalisar o poder geopolítico e o desenvolvimento socioeconômico local; em contrapartida, críticos questionam, em um país assombrado pela pobreza e pela escassez, se o governo não tem selecionado mal suas prioridades. 

O Que o Futebol Tem a Oferecer a Marrocos?

Sob esse contexto, aqueles que defendem a importância do esporte “para além dos gramados” apontam que tais investimentos já surtem efeitos positivos em variadas frentes. Primeiramente, quanto à projeção de poder internacional, o futebol auxilia a erguer um novo Soft Power marroquino. Nesse sentido, o brilho dos dribles, arrancadas e golaços dos Leões de Atlas já molda a imagem internacional marroquina, empurrando para trás da cortina polêmicas como, por exemplo, a manutenção do regime colonial no Saara Ocidental e o autoritarismo da monarquia. 

Outro exemplo desse Soft Power é o frequente retrato dos jogadores marroquinos, após as vitórias, ajoelhando em campo com as cabeças no chão, em um gesto coletivo de agradecimento a Alá. Tal imagem tem o poder de educar os telespectadores, auxiliando a reconstrução da imagem das sociedades islâmicas que, por vezes, é associada excessivamente ao terrorismo e à opressão. 

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Jogadores marroquinos se ajoelham em agradecimento a Alá após vitória contra a Espanha na Copa do Mundo de 2022 (Fonte: ge.globo).

Junto a isso, em especial, a sediação da AFCON e do Mundial de 2030 são também protagonistas na política externa marroquina. Tais megaeventos se constroem a partir da cooperação internacional, principalmente com os países vizinhos. Dessa forma, o protagonismo marroquino em suas organizações não deixa de sinalizar o ímpeto, para além do futebol, pela ocupação de um papel de liderança regional. 

Ademais, esses dois eventos objetivam também consolidar a imagem do Marrocos como um anfitrião receptivo e estável. O país, dessa maneira, passa a ser visto como seguro e confiável para recepcionar não só os megaeventos esportivos, como também reuniões e fóruns relacionados a outros temas como, por exemplo, as Conferências das Partes (os COP’s), voltadas à temática ambiental. 

Em segundo lugar, aqueles que defendem a agenda esportiva do governo apontam, é claro, sua capacidade de alavancar o desenvolvimento socioeconômico nacional. O principal motor desse argumento é a sediação dos megaeventos esportivos. Este tipo de iniciativa fomenta investimentos em infraestruturas estratégicas ao crescimento econômico, como aeroportos, rodovias e serviços públicos. É responsável também por aquecer setores como a construção civíl e, é claro, o turismo. O resultado é não só o crescimento do PIB marroquino como também a geração de centenas de milhares de empregos.

Em terceiro e último lugar, em um âmbito doméstico, o futebol é capaz de fortalecer a união nacional e o governo de Mohammed VI. Isso ocorre porque, em momentos de sucesso da seleção, exacerba-se o orgulho e o patriotismo entre os torcedores, o que, indiretamente, favorece a união popular em torno de esforços nacionais. Ao mesmo tempo, a paixão pelo esporte possui também um papel alienador, afastando o povo de discussões políticas e sociais mais relevantes do que “quem ganha o jogo de hoje”. 

No caso do Marrocos, entretanto, este último papel tem vivido uma reviravolta: o projeto de “pão e circo” do futebol tem se chocado com as crescentes críticas populares aos gastos do governo com o esporte. Em um país recheado de contradições sociais e políticas, tais críticas fomentam o descontentamento com o reinado, dando início a uma série de instabilidades.

O Lado B do Futebol Marroquino

No último trimestre de 2025, a taxa de desemprego marroquina passava dos 13% e, desde a pandemia, a inflação cresceu localmente. Somado a isso, o Marrocos enfrenta a herança histórica da corrupção pública e da desigualdade social e regional. Entre aqueles que não simpatizam com o governo marroquino, portanto, os gastos faraônicos com preparativos para a Copa do Mundo de 2030 têm se tornado mais um motivo para protestar. 

Nesse contexto, entre Setembro e Outubro de 2025, milhares foram às ruas marroquinas, crentes de que o Estado deveria rever suas prioridades. Os manifestantes partiram da crítica aos custos elevados da sediação de megaeventos esportivos, mas não se limitaram a isso. Pediam principalmente por reformas em serviços essenciais, como a saúde e a educação, assim como questionavam a concentração de renda. Junto disso, reivindicavam também novas oportunidades de trabalho, assim como um combate mais incisivo à corrupção no poder público. Por fim, foram registrados também cartazes pedindo ao rei pela demissão do primeiro-ministro, Aziz Akhannouch.

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Jovens marroquinos protestando na cidade de Rabat, Marrocos, no dia 1° de outubro de 2025 (Fonte: La Tribune).

Tais protestos tiveram como liderança os jovens da geração Z (nascidos entre 1995 e 2009), a primeira geração “nativa digital”. Não por acaso, a organização dos atos foi feita principalmente em plataformas como o Discord. O movimento se construiu de maneira flexível, com uma organização descentralizada, e se encaixa em um contexto global de eclosão de protestos semelhantes em países como Nepal, Indonésia e Bangladesh, onde, em comum, a juventude tem assumido o protagonismo das revoltas.

O governo respondeu com repressão policial violenta, deixando um rastro, para além de algumas mortes, de centenas de feridos e presos. Ainda assim, como resultado das pressões, Mohammed VI cobrou do parlamento que acelerasse reformas para criar empregos para os mais jovens, melhorar serviços públicos e reduzir as desigualdades. Por fim, foi feito um aumento de 16% no orçamento destinado à saúde e à educação para 2026.

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Polícia dispersando protesto em Salé, Marrocos, no dia 1° de outubro de 2025 (Fonte: G1).

É difícil analisar os protestos no Marrocos sem notar a impressionante semelhança com o ocorrido no Brasil antes da sediação da Copa do Mundo de 2014. À época, foram frequentes os protestos em crítica às despesas com o mundial, os quais, da mesma forma, foram também violentamente reprimidos pelas forças policiais. As pessoas iam às ruas com cartazes escrito “Fifa go home”, criticando a falta de investimentos em serviços públicos e a corrupção. Tais manifestações tiveram papel decisivo no desgaste da imagem do partido governista (o PT), pavimentando o caminho para o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, dois anos após a copa. 

As críticas ao futebol marroquino, entretanto, não se limitaram ao âmbito doméstico: cada vez mais, o futebol torna-se palco de uma batalha de narrativas, resultado de rivalidades estruturais que dividem o continente africano.

Quando o Marrocos Ganha, a África Perde?

Após a campanha histórica dos Leões de Atlas na Copa do Mundo de 2022, jornais do mundo todo dividiram-se quanto à escolha de suas manchetes: deveriam eles chamar a seleção marroquina de “a primeira africana” ou “a primeira árabe” a alcançar as semifinais do mundial? 

Isso porque, apesar de o país localizar-se geograficamente no continente africano, culturalmente, muitos marroquinos se identificam muito mais como árabes. Por conta disso, inclusive, é comum que africanos subsaarianos que visitam o Marrocos reclamem de constrangimentos racistas. 

Nesse contexto, não foi por acaso que, ainda durante o torneio, após a vitória contra a seleção espanhola, os jogadores marroquinos exibiram uma bandeira palestina. Na ocasião, para além da mensagem política de crítica a Israel, os atletas expuseram um sentimento de irmandade, advindo do orgulho islâmico e do nacionalismo árabe.

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Seleção marroquina expondo uma bandeira da Palestina após vitória sobre a Espanha, nas oitavas de final do mundial de 2022 (Fonte: CartaCapital).

Após o mesmo jogo, o ponta marroquino Sofiane Boufal veio inclusive a expressar seus agradecimentos “a todos os marroquinos ao redor do mundo pelo apoio, a todos os árabes e a todos os muçulmanos”. A fala demonstra a percepção dos trunfos dos Leões de Atlas como sendo, em extensão, conquistas do mundo árabe e mulçumano, deixando a África de lado. A fala foi alvo de críticas e, em suas redes sociais, o jogador buscou se retratar: “Dedico a vitória também a vocês, é claro. Temos orgulho de representar todos os nossos irmãos no continente”.

Além disso, o Marrocos é frequentemente alvo de críticas, em meio ao continente africano, por sua controversa relação com o Saara Ocidental. Este se trata de um território que, desde a década de 1970, encontra-se sob o domínio marroquino. Nesse meio tempo, guerra, fome, imigração forçada e muitos outros males têm assombrado a vida do povo sarauí, o que sustenta as recorrentes acusações de que seria esta “a última colônia africana”. 

Em resumo, muitos povos africanos vêem com maus olhos o Marrocos, devido não só à dissidência identitária, por vezes racista, de seu povo, como também à manutenção do regime colonial no Saara Ocidental. A seleção marroquina, é claro, não foge disso. Como resultado, é comum que amantes do futebol da África Subsariana torçam contra os Leões de Atlas, como ocorrido, por exemplo, na última edição da Copa Africana das Nações.

Ganha destaque, nesse sentido, a final do torneio, disputada entre Marrocos e Senegal. Como era de se esperar, a rivalidade entre a África Negra (representada no time senegalês) e o Marrocos não ficou do lado de fora dos gramados. O resultado foi um dos jogos mais polêmicos e emocionantes da história do futebol.

Nos minutos finais do jogo, a marcação de um pênalti duvidoso para o Marrocos levou os jogadores senegaleses a se retirar de campo, como forma de protesto. Passados vários minutos de partida suspensa, Brahim Diaz, camisa 10 do Marrocos, fez a cobrança com uma cavadinha, que foi facilmente defendida pelo goleiro rival. O jogo encaminhou-se então à prorrogação e, após poucos lances, o senegalês Pepe Gueye marcou um golaço de fora da área, encaminhando a vitória senegalesa sobre os donos da casa. 

O Senegal, desta maneira, conquistava, com o apoio de toda a África Subsariana, seu segundo título africano. A festa senegalesa, entretanto, durou pouco: passados dois meses da final, a Confederação Africana de Futebol (CAF) anunciou que teria acatado um recurso interposto pela Federação Marroquina de Futebol, retirando o título da Copa Africana de Nações de Senegal. A decisão, baseada na suposta ilegalidade do protesto dos jogadores senegaleses, sagrou a seleção marroquina campeã continental, aquecendo ainda mais as rivalidades continentais aqui expostas. 

Fontes:

G1. Protestos da geração Z no Marrocos contra Copa do Mundo deixam mortos e feridos. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/10/02/protestos-geracao-z-marrocos-contra-copa-do-mundo-deixam-mortos-feridos.ghtml. Acesso em: 27 maio 2026.

LANCE!. O que explica a ascensão do Marrocos no futebol. Disponível em: https://www.lance.com.br/copa-do-mundo/o-que-explica-a-ascensao-do-marrocos-no-futebol.html. Acesso em: 7 jun. 2026.

MOROCCO WORLD NEWS. Football as Global Industry, Public Diplomacy and Soft Power. Disponível em: https://www.moroccoworldnews.com/2026/02/277406/football-as-global-industry-public-diplomacy-and-soft-power/. Acesso em: 7 jun. 2026.

RELAÇÕES EXTERIORES. Geopolítica do futebol: o esporte como instrumento de poder e de legitimação internacional. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/geopolitica-do-futebol-o-esporte-como-instrumento-de-poder-e-de-legitimacao-internacional/. Acesso em: 27 maio 2026.

LE MONDE. In Morocco, football is also a diplomatic game. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/le-monde-africa/article/2025/02/06/in-morocco-football-is-also-a-diplomatic-game_6737838_124.html. Acesso em: 7 jun. 2026.

O ESTADO DE S. PAULO. Marrocos mostra força na base e no profissional e desponta como potência emergente no futebol. Disponível em: https://www.estadao.com.br/esportes/futebol/marrocos-mostra-forca-na-base-e-no-profissional-e-desponta-como-potencia-emergente-no-futebol/. Acesso em: 27 maio 2026.

CNN BRASIL. Marrocos derrota Argentina e conquista inédito título do Mundial Sub-20. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/futebol-internacional/marrocos-derrota-argentina-e-conquista-inedito-titulo-do-mundial-sub-20/. Acesso em: 9 jun. 2026.

G1. Protestos da geração Z podem estar virando uma “Primavera Asiática”; entenda. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/09/21/protestos-da-geracao-z-podem-estar-virando-uma-primavera-asiatica-entenda.ghtml. Acesso em: 27 maio 2026.

FOLHA DE S.PAULO. Sucesso esportivo de Marrocos ajuda a quebrar estereótipos de sociedades islâmicas, diz especialista. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2026/05/sucesso-esportivo-de-marrocos-ajuda-a-quebrar-estereotipos-de-sociedades-islamicas-diz-especialista.shtml. Acesso em: 8 jun. 2026.

WIKIPÉDIA. Protestos no Brasil contra a Copa do Mundo FIFA de 2014. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_no_Brasil_contra_a_Copa_do_Mundo_FIFA_de_2014. Acesso em: 9 jun. 2026.

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FOLHA DE S.PAULO. Primeiro adversário do Brasil na Copa, Marrocos transforma futebol em projeto nacional. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2026/05/primeiro-adversario-do-brasil-na-copa-marrocos-transforma-futebol-em-projeto-nacional.shtml. Acesso em: 9 jun. 2026.

CNN BRASIL. Senegal tem título retirado e Marrocos é declarado campeão da Copa Africana. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/futebol-internacional/copa-africana-senegal-tem-titulo-retirado-e-marrocos-e-declarado-campeao/. Acesso em: 10 jun. 2026.

GE. Projeto de estádio no Marrocos para 115 mil pessoas impressiona; confira. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2024/08/21/copa-do-mundo-2030-projeto-de-estadio-no-marrocos-para-115-mil-pessoas-impressiona-confira.ghtml. Acesso em: 10 jun. 2026.

GE. Marrocos vive protestos contra a Copa do Mundo de 2030 e euforia pela seleção. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/10/15/marrocos-vive-protestos-contra-a-copa-do-mundo-de-2030-e-euforia-pela-selecao.ghtml. Acesso em: 10 jun. 2026.

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BBC NEWS. Morocco and the World Cup. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-africa-64022940. Acesso em: 10 jun. 2026.

FOLHA DE S.PAULO. Copa de 2030 expõe tensão entre ambição global e desigualdade em Marrocos. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2026/05/copa-de-2030-expoe-tensao-entre-ambicao-global-e-desigualdade-em-marrocos.shtml. Acesso em: 10 jun. 2026.

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UOL ECOA. Repressão política, machismo e homofobia: o lado obscuro de Marrocos. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/12/14/repressao-politica-machismo-e-homofobia-o-lado-obscuro-de-marrocos.htm. Acesso em: 12 jun. 2026.

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    Aluno da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Sul Global, Economia Internacional, Política Externa Brasileira, Crime Organizado, Guerra Fria e Desenvolvimento Econômico.

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Aluno da graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Membro Sênior do Núcleo de Comunicação do Laboratório de Análise Internacional Bertha Lutz em 2026. Áreas de interesse: Sul Global, Economia Internacional, Política Externa Brasileira, Crime Organizado, Guerra Fria e Desenvolvimento Econômico.